sábado, 19 de dezembro de 2009

Cordel, resistência e vanguarda



por Aderaldo Luciano

O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda. Resistência porque enraizada na mais profunda camada da terra brasileira, com raízes bulbosas a colher insistentemente os nutrientes literários fundamentais, e vanguarda por estar sempre à frente na agilidade, criatividade e descoberta de mercado. Faltou-lhe, entretanto, um pouco de movimento. Mas, a quem interessar possa, uma coleção chamada Clássicos em Cordel vem instaurar esse tempo, conferindo ao poeta cordelista profissionalismo e respeito. O primeiro, em forma de remuneração, e o segundo, no reconhecimento, via atribuição de ISBN, da autoria. Em outras palavras: os livros estão nas livrarias e os autores reconhecidos como tal.

Por outro lado, essa coleção retomou um fenômeno intrínseco ao mundo do cordel: a adaptação de clássicos da literatura universal para sua forma fixa, consolidada em sextilhas ou setilhas, respeitando as regras cordelísticas ligadas ao gênero lírico, como a rima e o verso de sete sílabas. Cito alguns títulos copiando a primeira estrofe de cada:

1. O Alienista, de Machado de Assis, adaptado por Rouxinol do Rinaré, ilustrado por Erivaldo:

Ó Ser que tem me inspirado
Nos romances que já fiz,
Agora conduz meu estro,
Para que eu seja feliz,
Adaptando este conto
de Machado de Assis.

2. O corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, adaptado por João Gomes de Sá, ilustrado por Murilo e Cíntia:

O Romance do Corcunda
De Notre Dame, leitor,
Escrito por Victor Hugo,
Aquele grande escritor.
Em versos vou recontá-lo.
Sua atenção, por favor.

3. A megera domada, de Shakespeare, adaptada por Marco Haurélio, ilustrada por Klévisson Viana:

Eu vou contar uma história
Há muito tempo passada,
Na época em que a Itália
Não estava unificada
Vivia na rica Pádua
Uma família abastada.

4. Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, adaptado por Moreira de Acopiara, ilustrado por Valeriano:

Conselhos de pai e mãe
Devem ser observados.
É que os pais têm mais vivência,
São muito mais tarimbados,
e querem que os filhos sejam
sempre bem-aventurados.

5. As sete viagens fabulosas do marinheiro Simbad, de Sérgio Severo, ilustrada por Valeriano:

Vem das Mil e uma noites
a história de Simbad.
Mercador e marinheiro,
Famoso em Bagdad,
E as suas sete viagens
Tão contadas em Riad.

6. Os miseráveis, de Victor Hugo, adaptado por Klévisson Viana, ilustrado por Murilo e Cíntia:

Deus, o Poeta Supremo,
Nos coloca em sintonia
Com o mundo das ideias
Na mais perfeita harmonia;
Dá vigor aos nossos versos
e beleza à poesia.

Nota do blog: publicado originalmente em Poesia Hoje.

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