sexta-feira, 17 de junho de 2011

Pedro Paulo Paulino e o cordel encantado

O MEU CORDEL ENCANTADO

Por Pedro Paulo Paulino


O meu cordel encantado

Está na televisão

Que eu trago sintonizada

No canal do coração,

Desde as primeiras leituras,

Com as imagens mais puras

Das coisas do meu sertão.


O meu cordel encantado,

Eu sempre tenho assistido

No dia a dia do povo

Deste Nordeste sofrido:

Um cordel risonho e franco,

Umas vezes, preto e branco,

Outras vezes, colorido.


O meu cordel encantado,

Repleto de poesia,

Está lá numa escolinha

Onde aprendi certo dia

O á-bê-cê e a tabuada,

Sem qualquer norma empregada

Na atual pedagogia.


O meu cordel encantado

Inda está sobre o balcão

Da bodeguinha modesta

Do meu pai, lá no sertão,

Onde à tarde, sem faltar,

Lia para ele escutar

Versos sobre Lampião.


O meu cordel encantado

Inda está na poesia

Cativante do romance

Coco Verde e Melancia,

No Malazartes Jocoso,

No Pavão Misterioso,

Que também pra ele eu lia.


O meu cordel encantado

Que conservo sempre eterno,

Pela mão que o escreveu,

Já nasceu velho e moderno,

Com metro e rima apurada,

Tem como exemplo, A Chegada

De Lampião no Inferno.


O meu cordel encantado

Tem bastante sensação,

Faz rir, como faz chorar,

Se lido com emoção.

O meu cordel tem sinônimo

Na história de Jerônimo

- O Grande Herói do Sertão.


O meu cordel encantado

Tem sentido e tem roteiro.

Grinaura e Sebastião,

Um romance verdadeiro.

Com saudade, sinto abalo

Ao lembrar certo cavalo

Que defecava dinheiro.


O meu cordel encantado

Eu lembro a todo momento.

Pela grandeza que tem,

Contagia o sentimento,

É feito com perfeição,

Como A Vida de Cancão.

E seu rico Testamento.


O meu cordel encantado

Que eu lia na infância minha

Era o mesmo que se lia

Numa casa de farinha,

Romance de drama e glória,

Tal como a bonita história

Do Pedrinho e a Julinha.


O meu cordel encantado

Que recordo com fervor

Está na bolsa de palha

Pendurada no armador.

Dali tirei, li também

A Vida de Pedro Cem

E O Soldado Jogador.


O meu cordel encantado

Que recordo com carinho,

De tanto ler, decorei

Cada verso direitinho.

Este sim, teve respaldo:

A Peleja de Aderaldo

E o cantador Zé Pretinho.


O meu cordel encantado

Que minha gente ainda estima

Tem pureza totalmente

E tem capricho na rima.

É primoroso o estilo

Das Proezas de João Grilo,

De João Ferreira de Lima.


Roldão no Leão de Ouro,

Recordo com emoção.

Quem não lembra do cordel

José de Sousa Leão?

Cada história era mais bela,

Como o Valente Vilela,

Juvenal e o Dragão.


Em Romeu e Julieta,

Todo encantamento tinha

Essa história que em cordel

Contaram dentro da linha.

Também li, quando menino,

As Bravuras de Justino

Pelo Amor de Teresinha.


Tem A Festa dos Cachorros,

Um cordel muito jocoso;

Batalha de Ferrabraz,

Outro cordel primoroso.

No cordel do meu sertão,

Tem até um Riachão

Que cantou com o tinhoso!…


O meu cordel encantado

Encontra-se lá na feira,

Contando história bonita,

Sem propaganda rasteira.

Está na boca do povo,

Desde o mais velho ao mais novo,

Como arte verdadeira.


O meu cordel encantado,

Expresso de forma pura,

É casamento perfeito

De verso e xilogravura.

É folheto de papel,

Não folhetim de cordel

- É nossa literatura!


O meu cordel encantado,

Feito com simplicidade,

Mas rico de conteúdo

E muita autenticidade,

Dispensa luxo e requinte:

Quem assim faz, faz acinte

À nossa sinceridade.


Leandro Gomes de Barros,

Zé Pacheco, João Firmino,

Dentre outros grandes mestres

Do cordel tão nordestino,

Seja lá em qualquer parte,

Socorram já sua arte

Das mãos de tanto assassino.


Livrem-na principalmente

Do poder da Rede Globo,

Que pegou nosso cordel

Pra devorar feito um lobo,

Deturpando e corrompendo,

A todo custo querendo

Fazer a gente de bobo.


Salvem também o cordel

Das mãos de tanto pateta

Que rima “Europa” com “trova”

E rima “cesta” com “seta”,

Falsários e vigaristas,

Mil vezes mercantilistas

E nenhuma vez poeta.


Não tem cordel encantado,

Se não tem encantamento.

Cordel é próprio do povo,

Não precisa paramento.

Sendo bem-feito, afinal,

Soa tão bem natural,

Como soa o próprio vento.


O meu cordel encantado

Eu vou repetir, enfim:

Não precisa refletor,

Estúdio nem camarim.

Está na televisão

Do canal do coração

Que eu trago dentro de mim.


Obs.: Versos dedicados aos verdadeiros poetas que hoje tocam com inspiração e verdade a Literatura de Cordel, dentre eles, Arievaldo Viana, Jota Batista, Gonzaga Vieira, Rouxinol do Rinaré, Geraldo Amâncio, Zé Maria, Wanderley Pereira, Evaristo, Marco Haurélio, Manoel Belizário e outros bons desse time. Que me perdoem não enumerar todos, prova de que ainda temos muitos vates de primeira.


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