segunda-feira, 13 de junho de 2016

Romance do Velho Rio

Um poema em louvor do Velho Chico

No  leito quase seco do rio São Francisco.
Povoado de Palma (Serra do Ramalho-BA)




















ROMANCE DO VELHO RIO

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...
Me chamavam de Opará
No momento em que eu nascia
Das lágrimas de Iati,
Que pelo amado sofria.
Nasci em Minas Gerais,
Que ainda nem existia.
De lá fui abrindo espaço
E atravessei a Bahia;
Até chegar no oceano,
Longo caminho eu faria,
Atravessando caatingas,
E rasgando a serrania,
Para sentir o abraço
Do mar, que me recebia.
Que eu entrasse 15 léguas
Em seu leito permitia.
Foram tempos bem ditosos
De remanso e calmaria,
Tempos de muita fartura,
Mas tudo mudou um dia...

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...

E hoje, já velho e cansado,
Não tenho a mesma valia,
Gaiola não mais navega,
Acabou-se a pescaria,
São tantos os paredões,
É tamanha a covardia...
Não sou sombra do guerreiro
Imponente que corria,
O meu leito de abundância
Fez-se leito de agonia,
Jamais pensei nesta vida
Que tal golpe sofreria:
Que aquele que alimentei
De mim tudo tiraria.

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...

Ainda assim, sou teimoso,
Ainda tenho energia.
E se pudesse voltar
No tempo, não mudaria:
Para o homem, esse ingrato,
Tudo de novo eu daria.
Pagando ódio com amor,
Como Francisco faria
E minha última gota d’água,
Sem queixas lhe ofertaria.

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...

Marco Haurélio

Nenhum comentário: