segunda-feira, 29 de junho de 2009

Viva São Pedro!

Crucificação de São Pedro, de Caravaggio

São Pedro, companheiro de primeira hora de Jesus Cristo, completa a tríade de santos juninos. A Bíblia o apresenta como um pescador que abandona a casa e a família para seguir o Messias. Nos Evangelhos, sua presença é destacada, seja pela aparente rudeza, seja pela honestidade. Preso o Mestre, decepou, com uma espada, a orelha do servo do sumo-sacerdote. Depois, por três vezes seguidas, negou que conhecia o Salvador. Depois da ascensão de Cristo, com a adesão de Paulo, rivalizou com este apóstolo, mantendo uma postura mais conservadora nas questões doutrinárias. Teria morrido em Roma, no tempo de Nero, martirizado durante uma das muitas perseguições aos cristãos movidas pelo sádico imperador. Ao saber que martírio o esperava, pediu que o crucificassem de cabeça para baixo para não imitar o suplício do Salvador. A tradição o aponta como o primeiro Papa.

Na cultura popular, é o terceiro santo junino. É festejado a 29 de junho, provável data de sua morte. Aparece nos contos populares como peregrino, sempre a seguir Jesus e sempre a contestar o seu Senhor. É caracterizado, via de regra, como teimoso, birrento, glutão e azarado. Na Europa, São Pedro é bem mais ladino. Tanto que Câmara Cascudo argutamente vê no pícaro Pedro Malasartes um avatar do santo:

"O nome de Pedro se associa ao apostolo São Pedro, com anedotário de habilidade imperturbável, nem sempre própria do seu estado e título. Na Itália, França, Espanha, Portugal, São Pedro aparece como simplório, bonachão, mas cheio de manhas e cálculos, vencendo infalivelmente". (Dicionário do Folclore Brasileiro, p. 445-6).

A tradição popular atribui-lhe, ainda, a função de porteiro do céu. Nesta condição aparece em algumas obras clássicas da literatura de cordel, como A Chegada de Lampião no Céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante, O Grande Debate de Lampião com São Pedro, de José Pacheco e João Soldado, de Antônio Teodoro dos Santos.

Aparece, com destaque, em Briga de São Pedro com Jesus por Causa do Inverno, de Manoel D’Almeida Filho. O conto em que se baseou o poeta, de caráter etiológico, aponta como o santo conquistou a responsabilidade de enviar as chuvas, tão necessárias para as atividades agrícolas e pastoris. Conheço uma história em que São Pedro reivindica junto a Jesus a função de guardião do tempo. Foi narrada por Isaulite Fernandes Farias (Tia Lili), em Igaporã, na Bahia. Embora não classificada segundo o Sistema ATU, pertence ao ciclo das narrativas pias populares (cf. O. E. Xidieh).

São Pedro tomando conta do tempo

“Jesus e São Pedro iam caminhando, caminhando e, vez por outra, ouviam os lavradores reclamando da vida. Um lamentava não ter colhido nada porque choveu muito. Outro, mais adiante, reclamava da falta de chuva. São Pedro, como de costume, começou a questionar Jesus:
 Senhor, está tudo errado! Por que num lugar chove muito e noutro não chove quase nada? Se eu tomasse conta do tempo, ninguém nunca mais ia reclamar de nada.
Jesus o advertiu:
 Fica quieto, Pedro. Pra tudo há uma razão.
 Que nada, senhor! Deixa eu tomar conta do inverno, que ponho tudo em ordem.
 Vou deixar, Pedro, só pra você aprender a não brincar com as coisas da natureza.
E São Pedro saiu pelas roças consultando o povo. Uns pediam chuva; ele mandava. Outros pediam sol; ele mandava. Depois os que pediram sol, queriam chuva e os que pediram chuva, queriam sol. São Pedro atendia a todo mundo.
Passou o tempo e as roças começaram a produzir. Produziam tudo. Mas quando os roceiros foram colher, ficaram tristes: o milho, uma beleza na boneca, quando descascado, só tinha sabugo. O feijão só tinha vagem. O povo então se lembrou do velho que passou por lá indagando dos problemas da lavoura. E todo mundo se revoltou com São Pedro, que ficou apavorado e correu até onde estava Jesus, perguntando:
 Senhor, o que foi que aconteceu, se fiz tudo certo? Onde o sol era forte, fiz chover mais; onde a chuva era forte, fiz solar.
Jesus, com toda calma, perguntou:
 E o vento, Pedro? Você fez ventar nas plantações?
 Isso eu não fiz, pois não vi utilidade nenhuma.
 Está vendo, Pedro, como você não sabe de nada?! Mandou chuva e sol, mas esqueceu do vento. E é o vento que faz granar.”

E viva São Pedro, padroeiro dos pescadores!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Cecília Meireles e a Literatura de Cordel


Tiradentes retratado por Alberto Delpino, 1864-1942

Cecília Meireles nasceu em 1901 e ingressou na Academia Brasileira de Letras, em 1938. Foi a primeira poeta a ingressar na ABL.

O Romanceiro da Inconfidência foi publicado em 1953. A inspiração vem do romanceiro ibérico, mas a narrartiva se concentra nos fatos que desencadearam a Inconfidência Mineira. A descrição do desolamento de Tiradentes, na prisão, rendeu uma das mais belas páginas da literatura brasileira. Um grande momento de uma grande artista:

Talvez chore na masmorra.
Que chorar não é fraqueza.
Talvez se lembre dos sócios
dessa malograda empresa.
Por eles, principalmente,
suspirará de tristeza.

Sábios, ilustres, ardentes,
quando tudo era esperança.
E, agora, tão deslembrados
até de sua aliança!
Também a memória sofre,
e o heroísmo também cansa.

Não choram somente os fracos.
O mais destemido e forte,
um dia, também pergunta,
contemplando a humana sorte,
se aqueles por quem morremos
merecerão nossa morte.

Foi trabalhar para todos...
Mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo,
nessa esquisita batalha.
Suas ações e seu nome,
por onde a glória os espalha?


* * *

Não sei porque mas vejo, não apenas nas sextilhas reproduzidas acima, mas em toda a obra grande influência da Literatura de Cordel, que é tributária do mesmo Romanceiro em que se baseou Cecília Meireles.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Salve São João!


A cultura popular brasileira floresceu ao lado da tradição católica, presente desde que Frei Henrique Soares celebrou, na Bahia, em 1500, a primeira missa. As simpatias de São João, que remetem às consultas aos velhos oráculos, demonstram isso. O antiquíssimo hábito de acender fogueiras, associado aos ritos da fertilidade, alimenta, no sertão principalmente, o desejo de se conhecer o futuro no tocante a um bom casamento ou a sua manutenção – para os já casados.

Abaixo alguns exemplos de simpatias de São João.

Para ver o rosto do futuro cônjuge:

23 de junho, noite de São João: quem quiser ver o rosto da pessoa com quem vai se casar, é preciso comprar um espelho “virgem”, escondê-lo e à meia-noite desejar ver a pessoa. Depois é só olhar fixamente para o espelho, sem desviar os olhos por nada desse mundo. Virá um vento forte e depois aparecerá no espelho o rosto da pessoa.

Simpatia da faca na bananeira:

Quem quer saber a primeira letra do nome do futuro cônjuge, deve, na noite de São João, pegar uma faca “virgem” e saltar com ela três vezes a fogueira. Depois cravar a faca num pé de bananeira, deixando-a lá. No dia 24, bem cedo, verificar a faca: a primeira letra do nome do (a) futuro (a) esposo (a) aparece na lâmina.

Para saber se vai estar vivo no próximo São João:

A pessoa deve acordar bem cedo no dia 24 e ir a uma fonte, cacimba, enfim, qualquer lugar com um bom volume de água. Uma bacia também serve. Sem falar com ninguém, o interessado deve se mirar na água. Se não conseguir vir a duas orelhas morrerá antes do próximo ano.

Para saber quem vai morrer primeiro:

No dia 24 de junho, pegar duas brasas da fogueira, e marcar cada uma identificando-a com a pessoa. Depois pôr as brasas numa bacia com água e esperar; a brasa que representa a pessoa que vai morrer primeiro afundará.

Na música popular, uma bela referência a este costume se encontra em Leva eu (Sodade), de Tito Guimarães e Alberto Cavalcanti:

"Na noite de São João,
No terreiro, uma bacia,
Que é pra ver se para o ano
Meu amor inda me via."

E viva o Precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo, o São João do Carneirinho.

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A foto que ilustra esse post é de uma escultura do artista pernambucano

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terça-feira, 9 de junho de 2009

Viva Santo Antônio!


Por: Marco Haurélio

Santo Antônio é o santo de maior popularidade no Brasil. Nascido em Portugal, morreu a caminho de Pádua, na Itália, para onde se dirigia com o intuito de curar uma hidropisia (acúmulo de serosidade numa cavidade ou no tecido celular), a 13 de junho de 1231. Foi canonizado pelo papa Gregório IX, no dia 13 de maio do ano seguinte à sua morte. A ele estão relacionadas lendas, simpatias e até expressões populares, como “tirar o pai da forca”. Segundo o relato tradicional, Santo Antônio se encontrava em Pádua, e teve de se deslocar até Lisboa para livrar seu pai, acusado injustamente de homicídio, da forca. A lenda descreve dois milagres: a bilocação (capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo); e a ressurreição do jovem assassinado, que inocentou o pai de Santo Antônio.

A lenda ainda alimenta outra modalidade folclórica, a quadra popular:

Santo Antônio é tão santo
Que livrou seu pai da morte
Bem podia Santo Antônio
dar-me uma bonita sorte

(Fernando de Castro Pires de Lima. Um milagre de Santo Antônio. Em LIRA, Marisa. Estudos de folclore luso-brasileiro).

A cidade de Paratinga, na Bahia, às margens do rio São Francisco, já se chamou Santo Antônio do Urubu de Cima. Isto em 1718, quando deixou de ser arraial passando a freguesia. A razão do nome incomum: uma imagem do santo teria sido encontrada por um caçador num tronco de árvore. No galho de cima, a ave, de asas abertas, protegia o santo do calor do sol. No local, foi construída a capela onde o santo era venerado. A imagem teria sido deslocada para o santuário de Bom Jesus da Lapa - uma gruta transformada em igreja –, mas sempre retornava para o seu centro de devoção. Suas pegadas ficavam impressas na areia.
Aprendi, desde os cinco anos, uma singela oração, ensinada por D. Luzia Josefina (minha avó). É possível que existam variantes:

Santo Antônio pequenino
Quando Deus era menino
Sete sinos se tocavam
Sete livros se rezavam
Senhor Bom Jesus da Lapa
Seja meu padrinho
Fez uma cruz na minha testa.
Livra-me do Demônio
De noite e de dia
No pino do meio-dia
Amém.

Tem valor de esconjuro e, por isso, traz o número cabalístico 7.

E viva Santo Antônio, o Santo Casamenteiro!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Poetas "caricaturados"





No último sábado, 6 de junho, alguns amantes da poesia popular se reuniram no Cineclube da Rua Augusta, 1239, espaço que já está reservado para a poesia popular no primeiro sábado de cada mês.

Na lousa, deixei estampadas as caricaturas de alguns amigos presentes, como Frei Varneci, João Gomes de Sá e Pedro Monteiro.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Encontro Nordestino em Brasília Discutiu Novos Rumos Para a Literatura de Cordel





O I Encontro Nordestino de Literatura de Cordel, realizado em Brasília, entre os dias 28 e 30 de maio, reuniu um time de poetas de bancada, repentistas, ilustradores e pesquisadores, como raras vezes se viu.

Conduzido pela ACRESPO, presidida pelo Poeta Chico de Assis, o evento foi saudado pelo Presidente Lula, e discutiu políticas públicas que assegurem o futuro da poesia popular no Brasil.

Crispiniano Neto, presidente da Fundação José Augusto do Rio Grande do Norte, lançou a segunda edição de seu livro Lula na Literatura de Cordel (Imeph), e apresentou as bases do Projeto de criação da COOPERCORDEL, cooperativa de poetas populares.

terça-feira, 26 de maio de 2009

I Encontro Nordestino de Literatura de Cordel



Acontece nestas quinta e sexta, 28 e 29 de maio, no Teatro da Caixa Cultural, o I Encontro Nordestino de Cordel em Brasília. O evento é uma promoção da Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF e Entorno (Acrespo).

A programação é composta por diversas atrações, como mesas-redondas, apresentação de artistas populares, debates, lançamento de livro, show, exposição em cordel, homenagem a Patativa do Assaré e muito mais. Um dos pontos altos será a realização do Seminário Políticas Públicas para o Cordel. A entrada é franca.

A cerimônia de abertura, restrita a convidados, está marcada para às 19h do dia 28. Está prevista a presença do presidente Lula à solenidade. Durante a cerimônia haverá o lançamento do livro Lula na Literatura de Cordel, do poeta Crispiniano Neto, presidente da Fundação José Augusto (RN), e a abertura da exposição de produtos em cordel, incluindo folhetos, livros, CDs, DVDs e outros.

No dia 29, toda a programação será aberta à participação do público. A programação completa pode ser vista no site do Ministério da Cultura.

SERVIÇO
Seminário Políticas Públicas para o Cordel
29 de maio de 2009
Das 9h às 17h30
No Teatro da CAIXA - SBS Qd 4 lote 3/4, anexo do edifício Matriz da CAIXA
Inscrição gratuita pelo telefone (61) 3522- 5202 ou pelo e-mail encontrodecordel@gmail.com

Tributo a Patativa do Assaré
29 de maio de 2009, às 19h30
Teatro da CAIXA - SBS Qd 4 lote 3/4, anexo do edifício Matriz da CAIXA
Entrada franca
Classificação Etária: indicação livre



Nota do Blog: Entre os participantes, Varneci Nascimento, Marco Haurélio, Moreira de Acopiara, Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana e Zé Maria de Fortaleza.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Cordel na Cultura







A agradabilíssima atividade Cordel na Cultura, ocorrida no último sábado, 16, contou com a presença dos poetas Moreira de Acopiara, "Frei" Varneci Nascimento e Marco Haurélio. A ausência mais notada foi a do poeta João Gomes de Sá, autor da versão em cordel d'O Corcunda de Notre-Dame, que se recupera de uma cirurgia no ombro. Sina de professor. Em compensação, Murilo, ilustrador da obra, se fez presente.

Mas, mesmo ausente, João ainda pode afirmar: "É um mundo de cordel pra todo o mundo!"

As fotos são da amiga Margareth Barbosa, cujo espaço virtual pode ser acessado aqui.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Fábula - O pássaro e a flor



Era num dia sombrio
Quando um pássaro erradio
Veio parar num jardim.
Aí fitando uma rosa,
Sua voz triste e saudosa,
Pôs-se a improvisar assim.

"Ó Rosa, ó Rosa bonita!
Ó Sultana favorita
Deste serralho de azul:
Flor que vives num palácio,
Como as princesas de Lácio,
Como as filhas de 'Stambul.

Corno és feliz! Quanto eu dera
Pela eterna primavera
Que o teu castelo contém...
Sob o cristal abrigada,
Tu nem sentes a geada
Que passa raivosa além.

Junto às estátuas de pedra
Tua vida cresce, medra,
Ao fumo dos narguilés,
No largo vaso da China
Da porcelana mais fina
Que vem do Império Chinês.

O Inverno ladra na rua,
Enquanto adormeces nua
Na estufa até de manhã.
Por escrava - tens a aragem
O sol - é teu louro pajem.
Tu és dele - a castelã.

Enquanto que eu desgraçado,
Pelas chuvas ensopado,
Levo o tempo a viajar,
- Boêmio da média idade,
Vou do castelo à cidade,
Vou do mosteiro ao solar!

Meu capote roto e pobre
Mal os meus ombros encobre.
Quanto à gorra... tu bem vês! ...
Ai! meu Deus! se Rosa fora
Como eu zombaria agora
Dos louros dos menestréis!. . .

Então por entre a folhagem
Ao passarinho selvagem
A rosa assim respondeu:
"Cala-te, bardo dos bosques!
Ai! não troques os quiosques
Pela cúpula do céu.

Tu não sabes que delírios
Sofrem as rosas e os lírios
Nesta dourada prisão.
Sem falar com as violetas.
Sem beijar as borboletas,
Sem as auras do sertão.

Molha-te a fria geada...
Que importa? A loura alvorada
Virá beijar-te amanhã.
Poeta, romperás logo,
A cada beijo de fogo,
Na cantilena louçã.

Mas eu?! Nas salas brilhantes
Entre as tranças deslumbrantes
A virgem me enlaçará
Depois cadáver de rosa
A valsa vertiginosa
Por sobre mim rolará.

Vai, Poeta... Rompe os ares
Cruza a serra, o vale, os mares
Deus ao chão não te amarrou!
Eu calo-me - tu decantas,
Eu rojo - tu te levantas,
Tu és livre - escrava eu sou! ...

Antônio de Castro Alves (1847-1871)

Este lindo poema de Castro Alves foi reproduzido neste espaço por mais de um motivo: o principal é a presença do verbo "improvisar" no sexto verso da primeira sextilha. Castro Alves conheceu os poetas improvisadores do sertão da Bahia, e o pássaro desta fábula é um repentista.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Leandro Gomes de Barros


Leandro em ilustração de Arievaldo Viana

Sobre Leandro Gomes de Barros tudo o que se disser será pouco. Sua grandeza tem sido cantada por alguns dos maiores poetas desta terra: Manoel Monteiro, Klévisson, Arievaldo Viana.

Este último prepara uma biografia que deve trazer muitas luzes sobre a vida e a obra do propalado maior poeta popular do Brasil em todos os tempos.

Ninguém foi mais lido que ele.

O melhor de sua obra era conhecido pelo povo, até mesmo os ágrafos.

É o poeta com o maior número de clássicos na poesia popular.

É o criador do personagem mais marcante da chamada Literatura de Cordel, o burlão Cancão de Fogo.

É autor do mais extraordinário romance em versos do gênero: A Força do Amor (Alonso e Marina) – entendida a continuação desta obra-prima, A Morte de Alonso e a Vingança de Marina, como um segundo volume.

Neste romance não há o clássico vilão ou a heroína arquetípica.

Os personagens são humanamente imperfeitos.

O início e o final pertencem a gêneros diferentes.

Como foi feita a tessitura para que um drama romântico, de fortes cores ibéricas (a história é ambientada na Espanha), se transforme ao final num conto de horror, só o próprio Leandro para responder.

Coisa de gênio.

A História da Donzela Teodora é outro triunfo.

Versão de um romance tradicional, conhecido, divulgado, proscrito pela Inquisição, é, na releitura de Leandro, um hino de amor à mulher sábia, à perspicácia, à inteligência personificada.

Atena espanhola.

Árabe, na versão mais antiga: La Docta Simpatia, das Mil e Uma Noites.

História do Boi Misterioso reúne as tradições orais do ciclo da pastorícia, costuradas a elementos de origem vária, amalgamando crenças amerabas às superstições europeias.

Câmara Cascudo e Carlos Drummond de Andrade não lhe pouparam elogios.

A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e A Prisão de Oliveiros, compostos em décimas, representam o maior tributo literário à presença francesa na nossa tradição oral.

Ecos de Ariosto, que Leandro não deve ter lido.

O povo o elevou a um patamar ao qual Sorbonne nenhuma poderia conduzir.

Ah, sim: Leandro foi o criador da hoje denominada Literatura de Cordel.

E foi, indiretamente, responsável pela inclusão social de muitos cegos cantadores, que decoraram-lhe os versos, por vezes, ignorando o autor.

A Literatura de Cordel é o gênero mais representativo da poesia popular.

A Literatura de Cordel foi responsável pela inclusão de milhares de pessoas, que aprenderam a ler por intermédio dos folhetos espalhados por sertões que Euclides jamais conheceu.

Ariano Suassuna deve-lhe o Auto da Compadecida.

Leandro Gomes de Barros é autor de pelo menos 20 clássicos absolutos da Literatura de Cordel.

Nenhum poeta popular alcançou esta marca.

José Camelo de Melo Resende, José Pacheco da Rocha, Manoel D’Almeida Filho são alguns de seus mais notórios seguidores.

Deixaram obras imortais, venderam milhões.

Devem a Leandro sua carreira.

Todos nós, cordelistas, devemos a Leandro a nossa carreira.

Este artigo não pagará esta dívida.

Mas o autor, pelo menos, a reconhece.

O que já é alguma coisa.

***


Capa de A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás (Coleção Luzeiro)