quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Conto de exemplo em cordel reúne os dois grandes pícaros dos contos luso-brasileiros




O Encontro de João Grilo com Pedro Malazarte sairá no início de 2012 pela Editora Nova Alexandria. Terá, ainda, uma versão em folheto com o selo da Tupynanquim. Com ilustrações de Klévisson Viana, a obra é inspirada no conto popular universal A Roupa Nova do Rei, que, além da versão literária de Hans Christian Andersen, aparece no Conde Lucanor, de D. Juan Manuel, publicado, na Espanha, em 1335. Câmara Cascudo apresenta, nos seus Contos Tradicionais do Brasil, uma versão bastante resumida. Em todos aos registros, uma constatação: a crítica à hipocrisia dos bajuladores dos donos do poder. No conto de Andersen, é uma criança o denunciante da patranha armada pelos alfaiates e endossada pela corte.  No conto espanhol, é um negro (mouro) quem põe a nu a velhacaria do séquito real.

A versão que fiz em cordel apresenta uma primeira parte ambientada no Nordeste, narra o encontro dos dois pícaros e a sua viagem em busca de outras terras onde pudessem achar um "pato" para depenar. Encontram o rei D. Fernando I, a própria vaidade encarnada. O conto, tradicional ou literário, A Roupa Nova Do Rei, consta, portanto, do rol das histórias de exemplo, e não pode ser arrolado entre os contos jocosos (ou humorísticos). Embora, aqui e ali, haja um elemento cômico, é o caráter exemplar que predomina na história.

Abaixo, um trecho do cordel:

As histórias de Cordel
São lidas em toda parte,
Umas falam de João Grilo,
Que fez da astúcia uma arte,
E por isso é comparado
Com o Pedro Malazarte.

As façanhas destes dois
Correm por todo o sertão
Em folhetos populares,
De grande circulação,
Pois é função do Cordel
Preservar a tradição.

João Grilo, considerado
O maior dos estradeiros,
Usou sua inteligência
Para enganar fazendeiros,
Comerciantes, gatunos,
Coronéis e cangaceiros.

Malazarte, nem se fala:
Era o rei das presepadas.
Suas historias ainda
São muito rememoradas;
Pelos poetas do povo
Foram imortalizadas.

O destino porém quis
Que estes dois espertalhões
Se encontrassem no Recife,
Em difíceis condições,
Pois não era próprio deles
Guardar suas provisões.

Malazarte aproximou-se
 Do colega com estilo:
— Meu distinto cavalheiro,
Você não é o João Grilo?
João respondeu: — Não, senhor.
O meu nome é Petronilo.

—Petronilo o quê, sujeito! —
Exclamou o Malazarte. —
Se você não for João Grilo,
Sou o soldado Ricarte!
Uma cabeça tão grande
Não se vê em toda parte.

João retrucou: — E você,
Eu desconfio que seja,
O famoso Malazarte,
Que nunca enjeitou peleja
E já foi muito cantado
Pela musa sertaneja.

Malazarte disse ao Grilo:
— É uma satisfação
Conhecer o amarelo
Mais famoso do sertão.
— O prazer é todo seu —
Respondeu, mangando, João.

Os dois, então, se abraçaram
E se tornaram amigos,
Pois, sozinhos, passariam
Por infindáveis perigos,
E, juntos, superariam
Os maiores inimigos.

Como os dois já eram muito
Conhecidos no Nordeste,
João convidou Malazarte,
Dizendo: — Cabra da peste,
Vou lhe fazer um convite,
Que na verdade é um teste.

Vamos para outro país
Onde a sorte nos ajude.
Desses que só aparecem
Em filmes de Hollywood.
Malazarte disse: — Vamos...
Aqui já fiz o que pude.

O navio os conduziu
Para um distante país.
João Grilo pensou: “Aqui
Na certa, serei feliz”.
Já Pedro disse: — Aqui vou
Fazer o que nunca fiz.

Assim que em terra pisaram,
Procuraram um barbeiro.
Este disse para os dois:
Vejo que vêm do estrangeiro.
E não sabem das manias
De D. Fernando Primeiro?

— Dom Fernando? Quem é esse? —
Perguntou João, curioso.
— É o nosso imperador,
Um sujeito presunçoso.
Não existe nesse mundo
Ser humano mais vaidoso.

— É mesmo? — perguntou Pedro,
Mostrando-se interessado.
O barbeiro respondeu,
De modo bem educado:
— Nosso rei acha que o mundo
Só para ele foi criado.

Vive se pavoneando,
Por todos é bajulado.
Sempre recebe elogios,
Por ninguém é criticado.
João Grilo falou: — Eu quero
Conhecer esse danado!

E, chamando Pedro à parte,
Disse com convicção:
— Vamos atrás desse rei
Aplicar-lhe uma lição.
Malazarte respondeu:
— Só se for agora, João!

(...)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Wilson Marques lança livro infantil em cordel sobre lenda maranhense


Com ilustrações da parceira Dedê Paiva, saiu pela Mercuryo Jovem meu primeiro livro em cordel, A lenda do Rei Sebastião e o Touro Encantado. Os versos contam a história do rei português Dom Sebastião, que muito cedo e contra tudo e todos, decidiu ir guerrear contra os mouros, na África. O resultado, como se sabe, foi trágico. Sebastião morreu e, junto com ele, a nata da nobreza lusitana. Pra piorar, o rei não deixou herdeiros ao trono. O que levou Portugal a cair sob o domínio da Espanha. E o povo português a mergulhar numa longa e mítica espera, uma vez que, não havendo sido encontrado o corpo do rei morto, o povo lusitano permaneceu acreditando que ele estava vivo. E que um dia retornaria para libertar Portugal.
A espera virou lenda. E também uma seita, o Sebastianismo, fé baseada na crença em um herói libertador, que fez parte dos delírios até do povo de Canudos, o arraial santo de Antônio Conselheiro.
No Maranhão, o Sebastianismo incorporou-se à cultura popular e à religiosidade, em forma de lenda e crença. Dizem os fervorosos que o Rei vive na figura de um touro encantado, na bela Ilha dos Lençóis, no litoral maranhense. Mas que um dia será libertado, quando um valente acertá-lo com uma lança na estrela que traz na testa. 

Em 2010, estive no Maranhão, a convite do escritor Wilson Marques, divulgando o recém lançado Contos folclóricos brasileiros e A Lenda do Saci-Pererê em cordel (ambos da Paulus Editora)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Traquinagens de João Grilo e A lenda do Saci nas escolas


Parte dos alunos do Liceu Di Thienne. Ao fundo, exposição dos 
cordéis trabalhados pela turma


No mês de novembro, estive em escolas do ABC Paulista para bater um papo com os alunos de escolas que adotam meus livros Traquinagens de João Grilo e A Lenda do Saci-Pererê em Cordel, da Paulus. No dia 5, estive no Liceu Di Thienne em São Caetano do Sul, e, no dia 22, visitei Santo André, para uma visita ao Sesi 221. Fui para fazer uma apresentação e assisti a um espetáculo: do começo ao fim, os alunos, sob a coordenação da bibliotecária Débora, apresentaram a história do Saci, sem esquecer uma letra. Foi um dia maravilhoso!

Com o repentista Sebastião Marinho, no Liceu Di Thienne
Exposição e palestra no Liceu.

Bate-papo na Biblioteca do Sesi 221, em Santo André, 
com a presença do próprio Saci.
A bibliotecária Débora, que fez um belíssimo trabalho na organização do encontro.
O abraço da turma coroando o projeto.

Nota: agradeço a Anilda Antonialli, divulgadora da Paulus e responsável pelos clicks. E também às Professoras. Maria  Célia  e  Sílvia, do Sesi. Já no Instituto Liceu  di Thienne, mais uma vez, meu abraço a apreço pela Professora Bernardete  e pelos coordenadores Evanise  e Álvaro.

sábado, 29 de outubro de 2011

Saci, Halloween, Dia de Finados e outros assuntos


Capa do livro infantil A Lenda do Saci-Pererê em Cordel
31 de outubro foi escolhido para ser o dia do Saci em oposição ao Dia das Bruxas (Halloween), comemorado na mesma data. Como o Halloween não chegou até nós pelos meios tradicionais, argumenta-se que sua influência é perniciosa. Polêmicas à parte, acredito que a escolha do Saci para combater as bruxas do folclore celta, bem como a discussão conduzida nestes termos, resultam em um grande equívoco. O Halloween faz parte das festas solsticiais e está ligado ao culto aos mortos (antepassados). "Comemoramos", no dia 2 de novembro, o feriado de Finados, que deriva também desta crença. Neste dia, as almas dos afogados caminham sobre o  mar, açudes. Nas horas abertas, os mortos visitam os locais onde viveram ou onde seus corpos foram assassinados (Câmara Cascudo, verb. Finados, Dicionário do  Folclore Brasileiro, p. 315).

O Samh’in (também se grafa Samhain), ou “fogo da paz” era um dos maiores festivais dos druidas, realizado no início de novembro. Ainda hoje persiste, na Escócia, com o nome de Hallow-eve. A informação é de Thomas Bulfinch, em seu The age of fable. O fogo aceso tinha por finalidade restaurar o vigor do sol que, no hemisfério Norte, parece agonizante (Jeffrey Burton Hussell). Os cristãos, com o fito de combater a superstição, inventaram, no dia 1º de novembro, o Dia de Todos os Santos, o  All Saint’ Day. O “fogo  sagrado” continua sendo aceso nas sepulturas onde descansam os corpos de nossos entes queridos. 
***
A escritora e estudiosa dos contos tradicionais, Ana Lúcia Merege, em seu blog A Estante Mágica de Ana, abordou, de forma brilhante, o tema no artigo As origens do  Halloween. Nele, Ana cita um emblemático personagem do folclore irlandês, Jack O’ Lantern, que alguns estudiosos, como Gustavo Barroso, dizem ter origens nos fogos-fátuos, assim como o nosso Boitatá:

O Halloween tem origem na Irlanda celta, onde, por volta do século V antes de Cristo, o Verão terminava oficialmente a 31 de Outubro. O feriado era chamado sow-em, ou Samhain, e correspondia ao Ano Novo dos Celtas. Nesse dia, acreditava-se que os espíritos dos mortos voltavam em busca de corpos que pudessem ocupar durante o ano seguinte. Não querendo (compreensivelmente) abrir mão dos seus, os aldeões apagavam o fogo em suas casas – a fim de torná-las frias e pouco acolhedoras – e se vestiam, eles mesmos, como seres maléficos, que faziam ruídos terríveis, na tentativa de desencorajar o ataque dos fantasmas. 

Os romanos que ocuparam o território celta adotaram as práticas, mas, no primeiro século de nossa era, o Samhain foi integrado às celebrações em honra de Pomona, a deusa latina dos pomares e colheitas. Mais tarde, quando o mundo romano se tornou cristão, os festejos se incorporaram aos ritos populares ligados ao Dia de Todos os Santos, em Inglês All Hollows Day, cuja véspera – All Hollows Eve, de onde vem o termo Halloween – era tradicionalmente o dia em que os mortos e as bruxas ficavam à solta. 

A prática do “trick or treat” que vemos (já bastante edulcorada) nos filmes americanos vem de uma tradição que remonta ao século IX, chamada souling nas Ilhas Britânicas. De acordo com essa tradição, na noite de Halloween os jovens percorriam as casas de sua cidade ou aldeia pedindo contribuições – dinheiro, mas principalmente tortas e bolos – em troca das quais rezariam em intenção das almas dos mortos. O costume de se vingar dos que se negassem a contribuir deve ter surgido quase simultaneamente – e, conhecendo a cultura medieval, pode-se imaginar a que tipo de “travessura” estavam sujeitos os incautos que ousassem desafiar os jovens bruxos e duendes!) 
Nabo esculpido, representando Jack O’Lantern para os festejos do  
Halloween irlandês do início do século XX (Museu da Vida Rural 
na Irlanda)Nos Estados Unidos, o nabo foi substituído 
pela abóbora, nativa das Américas.

Já o Jack O´Lantern – ou Jack da Lanterna – pertence originalmente ao folclore irlandês. Trata-se de um espertalhão que, tendo conseguido enganar o Diabo, não foi por este admitido no Inferno quando morreu, mas que também não tinha merecimento suficiente para entrar no Paraíso. Assim, ele é obrigado a vagar entre os dois mundos, iluminando seu caminho com uma brasa. Para que ela não se apague, Jack a carrega dentro de um nabo. Sim, isso mesmo: um nabo, não uma abóbora. A abóbora foi uma adaptação feita por aqueles irlandeses que, durante a Fome da Batata (por volta de 1840), migraram para a América do Norte, ali introduzindo o Halloween... que ganhou contornos locais, entre os quais a substituição do nabo pela abóbora nativa. 

Pois agora, muitos anos depois, o Halloween começou a ganhar força aqui no Brasil, embora (que eu saiba) as crianças ainda não estejam pedindo doces de porta em porta. A festa é denunciada pelos defensores mais radicais da cultura nacional como mais um produto do colonialismo norte-americano, mas alguns grupos preferiram dar um "jeitinho brasileiro" e organizam o “raluim caipira”, com abóbora e carne-seca no cardápio e tendo como símbolo o Saci-Pererê. Pessoalmente, não vejo problema algum em adotarmos o Halloween, pois ele não é uma "tradição americana”: tem suas raízes na mesma cultura mista, pagã e cristã, que celebra juntos o nascimento de Jesus e o Solstício de Inverno. É verdade que o Natal já era comemorado pelos portugueses quando vieram para o Brasil, mas outros símbolos natalinos, bem posteriores, foram adotados aqui, tais como a árvore de Natal, que veio com os colonos alemães no século XIX (quem lembra das críticas feitas pelo povo de Santa Fé em “Um Certo Capitão Rodrigo”, que preferia o presépio por ser “mais nosso e mais bonito”?) e a figura de São Nicolau, depois transformado em Papai Noel e popularizado através dos slogans de uma conhecida marca de refrigerante. 

Pois a substituição do Jack Lanterna pelo Saci Pererê me parece tão forçada quanto a idéia de Monteiro Lobato de colocar, no lugar do Papai Noel, um Vovô Índio. Isso aconteceu na década de 30 e tinha o mesmo pretexto de valorizar a cultura nacional. No entanto, o Halloween começou a ser comemorado aqui exatamente como, há menos de dois séculos, passou-se a comemorar um Natal com características da Europa do Norte: nos lugares onde se tinha mais contato com a cultura estrangeira. Naquele caso, eram as colônias, neste foram as escolas americanas e os cursos de Inglês. E, é claro... hoje, os meios de propagação são muito mais rápidos. 

Que a data tenha se espalhado por outras escolas, outros jovens, outras famílias e grupos sociais não é de se estranhar. Todo mundo gosta de uma festa a fantasia. Além disso, as bruxas de chapéu pontudo, os vampiros, os monstros do Halloween americano podem ter chegado aqui no século XX, mas não chegaram com a globalização. Todos temos referências deles através do cinema e da Literatura, e, em nosso imaginário, já começaram a se confundir com as bruxas e duendes do nosso próprio folclore. Porque eles existem, ah...! Isso é que existem...

Assim, querer “erradicar” o Halloween do Brasil ou pretender que se pode festejá-lo deixando de lado qualquer influência estrangeira é querer deter um processo de assimilação que, bom ou mau, a essa altura me parece irreversível. Bem melhor, a meu ver, será abrir o círculo, contribuindo para a criação de uma nova festa, na qual estaremos integrados e não aculturados. 

Um Halloween urbano e caboclo, com tudo que temos direito. 

Uma festa de pagãos e cristãos, com vampiro, lobisomem e saci-pererê.

Nota do Cordel Atemporal: na tradição oral luso-brasileira, Jack O’ Lantern aproxima-se muito de João Soldado, personagem que figura em folhetos de cordel, como o célebre João Soldado, o valente praça que meteu o diabo no saco, de Antônio Teodoro dos Santos. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Cordel atemporal entrevista: Arievaldo Viana

Arievaldo caricaturado por Jô Oliveira

Nascido em Quixeramobim, sertão mítico do Ceará, terra de Antônio Conselheiro, Arievaldo Viana é uma das grandes expressões da literatura de cordel brasileira. Sua produção, já bem vasta, abrange romances de encantamento, sátiras, histórias de humor e vários livros infantojuvenis. Enveredando pelo campo da pesquisa, escreveu, entre outros, O baú da gaiatice, A mala da cobra e uma biografia (inédita!) de Leandro Gomes de Barros. Ainda achou tempo para criar o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, que propõe um novo olhar sobre o cordel. 


Com vocês, Arievaldo Viana...

Poeta, saudações! Eu o conheci naquele Congresso Internacional de Literatura de Cordel, que ocorreu em João Pessoa, em 2005. Mas já havia entrado em contato com sua obra desde 1999, por meio dos folhetos da Tupynanquim. Por que Arievaldo Viana escolheu o cordel?

 R – Eu acho que o cordel me escolheu. Desde que me entendo por gente tenho contato com essa literatura e ela tem exercido um fascínio cada vez maior, a cada ano que passa. Na infância eu tive o prazer de testemunhar a presença dos folheteiros itinerantes, viajando pelas feiras e fazendas do sertão, levando malas atulhadas de folhetos, perfumes, bijuterias, e outras miudezas. A presença de um deles no sertão era uma grande novidade, promovia logo um ajuntamento em redor.
Na festa de São Francisco, padroeiro do santuário de Canindé-CE, eles também estavam presentes com material bem diversificado... Sempre estendidos sobre lonas e surrões, nunca pendurados em barbantes (cordéis). Raramente se via algum deles usar um tripé, com uma mala de folhetos em cima e um pequeno serviço de alto-falante. Além das tipografias de Juazeiro do Norte (São Francisco/Lira Nordestina e Casa dos Horóscopos) havia também material de Manoel Camilo dos Santos, Lucas Evangelista, João José da Silva, da Editora Luzeiro e de outros poetas menos conhecidos que editavam apenas as suas próprias obras, como é o caso do Francisco Peres, o Chico dos Romances, que vinha de Sete Cidades, no Piauí.

O seu pai, Evaldo Lima, pelo que você diz, tem talento para a poesia, mas não fez disso profissão. Sua avó, D. Alzira, era leitora contumaz dos grandes clássicos do cordel. Mas, afinal, quando e onde a poesia entrou em sua vida?
Leonardo Mota e os cantadores Jacó Passarinho e Cego Aderaldo

 R – Está no meu DNA, com certeza. O velho “Fitico”, meu bisavô, fazia seus versinhos e era parente do cantador Jacó Passarinho (que figura no livro de estreia de Leonardo Mota). Atribuem ao Fitico (Francisco de Assis e Sousa) a autoria do Romance do Boi Vermelhinho. Meu avô paterno, Manoel Lima, tinha uns primos cordelistas que chegaram a sofrer grave repressão de um coronel dos sertões de Quixeramobim, que os fez engolir pedaços de um folheto à força e ainda os amarrou no mato para morrerem de sede e fome. Por um milagre esses rapazes escaparam da morte e parece que desistiram da profissão. Vovó (Alzira de Sousa Viana - Lima depois de casada, era filha do Fitico), além da literatura sacra, livros de história ou romances de autores considerados eruditos, dava larga preferência aos folhetos. Tinha uma mala com diversos clássicos. Quando me alfabetizei e comecei a ler realmente, esse material já estava bastante dilapidado, alguns devido a empréstimos mal-sucedidos, outros por extravio. Minhas tias estavam deslumbradas pelos astros da Jovem Guarda e achavam cafona tudo que se relacionava com a cultura nordestina. Lembro delas copiando roupas a partir de revistas do rádio e da TV. Bonito mesmo era o Roberto Carlos, o Jerry Adriani, Márcio Greick, Ronnie Von e Wanderley Cardoso. Ninguém queria saber de Luiz Gonzaga nem de Cego Aderaldo...
Só os mais velhos, por isso eu sofria um certo preconceito na infância: “Esse menino parece um velho, é doido por romance e essas cantigas de Luiz Gonzaga!” – diziam. Mas, dizem, quem sai aos seus não degenera e eu, por linha direta, tinha o DNA do Fitico, da dona Alzira e do meu pai Evaldo Lima, que desde menino sonhava ser cantador de viola. Não seguiu profissão porque alguns membros da família o desestimularam. Isso não o impediu, contudo, de continuar comprando folhetos, frequentando cantorias e levando a gente para ver esses ajuntamentos culturais. Para você ter uma ideia, Marco, até no momento em que trabalhava na lavoura ou botava água no lombo de jumentos papai ficava cantando Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, Príncipe do Barro Branco e Cancão de Fogo.

Eu também me acostumei desde cedo com a minha avó Luzia Josefina declamando, com aquela emoção que brota da alma, a História da Princesa Rosa, de Silvino Pirauá. Só fui conhecer o folheto alguns anos depois. Mas, voltemos à família Lima: seu irmão Klévisson Viana é, também, um poeta de renome nacional. No campo da poesia, o que vocês têm em comum e o que os diferencia?
Klévisson Viana

R – Como sou o filho mais velho e ele o caçula há uma diferença de idade entre nós de mais de cinco anos. Posso afirmar então que tanto na parte do desenho quanto na poesia houve influência minha sobre os primeiros passos que ele trilhou nessas áreas. Com relação ao cordel, o que mais nos diferencia é o tino comercial, que nele é bastante apurado e em mim deixa muito a desejar. Ele já entrou no mercado com visão editorial, procurando títulos que tivessem boa vendagem e escrevendo também com esse propósito. Eu, particularmente, fiz muitos folhetos de pouco apelo comercial, somente pelo prazer de poetar, sendo que muitos ainda permanecem inéditos ou saíram apenas em minguadas tiragens caseiras. Como eu, ele também é muito versátil na escolha dos temas e trabalha bem o gênero romance, que considero o estágio mais elevado do cordel. Tem também uma veia humorística apurada, pois é adepto da escola de Leandro e José Pacheco. Outra diferença é que gosto muito de trabalhos coletivos, parcerias e ele é mais individualista. No geral, o considero um bom poeta de cordel e um excelente ilustrador.

Você, já há algum tempo, anunciou a preparação de uma biografia do grande poeta Leandro Gomes de Barros. Ela está pronta, mas não publicada. O que ela traz de novidade em relação a outros textos sobre essa figura de proa da cultura nacional.
Folheto de Leandro Gomes de Barros com autoria atribuída
erroneamente a João Martins de Athayde

R – Eu costumo dizer que meus melhores trabalhos não têm despertado o interesse dos editores. Dois exemplos são os livros Mala da Cobra – Almanaque Moleque e Leandro Gomes de Barros – Vida & Obra. Essa biografia de Leandro tem o mérito de trazer à tona fatos da vida do grande poeta paraibano inteiramente desconhecidos até os dias de hoje, por exemplo: nome dos seus pais, nome dos filhos (que aparecem no livro Memórias de Lutas, de Ruth Brito Lemos Terra, mas grafados de maneira errada). No meu caso, contei com a valiosa ajuda de Cristina Nóbrega, sobrinha-bisneta de Leandro, que fez uma verdadeira peregrinação pelos cartórios de Vitória, Jaboatão e Recife, livros de batizados e casamentos e até os famosos microfilmes dos Mórmons que também foram utilizados por Laurentino Gomes na produção do clássico 1808. Também obtivemos imagens raras de alguns familiares do poeta, elucidamos a sua nebulosa relação com o Padre Vicente Xavier de Farias, seu tutor, e conseguimos alguns fragmentos de sua infância na Vila do Teixeira, no interior da Paraíba. É um trabalho de fôlego, com algumas luzes sobre personagens importantes do mundo do cordel, como João Martins de Athayde e Francisco das Chagas Batista, seus principais editores. A birra de Leandro com as sogras, sua implicância com os “Nova-Seitas”, sua sátira política e sua preferência pela aguardente ‘imacullada’ também não passaram despercebidos. Para completar o quadro, obtivemos cópias de alguns poemas raríssimos que só foram publicados no jornal O Rebate, de Juazeiro do Norte e dos quais não há cópias nem na Casa de Rui Barbosa. O editor que apostar nesse projeto não irá se arrepender, tenho plena certeza disso.

O que é o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula?

R - O projeto Acorda Cordel, antes de qualquer coisa, é um tributo que eu presto a esse gênero literário que teve um papel tão importante na minha alfabetização e na minha formação cultural. Cada vez que realizo uma palestra, um recital ou oficina numa escola, procuro, antes de qualquer coisa, dar um testemunho lúcido, verdadeiro e apaixonado sobre o papel que o cordel exerceu na minha vida. E deixo claro que o objetivo do projeto não é “formar” cordelistas, porque poesia é um dom. Fico muito feliz quando uma criança ou mesmo um adulto se descobre poeta numa de minhas oficinas e isso sempre ocorre, em quase todas que realizo. O verdadeiro objetivo do projeto Acorda Cordel é consolidar esse gênero com uma boa opção de leitura, com uma ferramenta auxiliar na educação e sobretudo capaz de formar novos leitores, com visão crítica e respeito à chamada cultura popular.

Há, segundo alguns estudiosos, escassez de romancistas entre os atuais criadores do cordel. Isso procede?

R – Os estudiosos que pensam dessa maneira certamente pararam no tempo e se ocupam em pesquisar apenas os autores do passado. Desconhecem ou simplesmente não se interessam pelo que se produz atualmente. Na fase áurea do cordel, mesmo no auge de João Martins de Athayde, eram poucos os poetas que se destacavam na área do romance... José Camelo, Delarme Monteiro Silva, Severino Milanês, Joaquim Batista de Sena e o próprio Athayde eram os melhores. Hoje, da mesma forma existem centenas de cordelistas em atividade, mas seguindo a trilha do romance com prumo e qualidade a gente conta nos dedos. É um gênero difícil que exige criatividade, cadência narrativa e uma boa dosagem de mistério, ação, amor, aventura e suspense. Fazer um romance com roteiro inteiramente inédito, sem basear-se numa obra em prosa, não é para qualquer um. Geraldo Amâncio (um dos maiores repentistas em atividade e excelente autor de cordel) reconhece a sua dificuldade em produzir um romance com roteiro original. Alguns cantadores ainda discriminam o poeta de bancada afirmando que fazem versos de improviso enquanto o cordelista gasta tempo e papel para escrever. Para estes, a minha resposta está na ponta da língua: - Quantos “Pavões Misteriosos” você já escreveu? Pergunto logo se ele seria capaz de fazer um romance do quilate de um O sino da Torre Negra ou Entre o amor e a espada. Versejar é fácil, para quem tem domínio da técnica. Fazer poesia é um dom. São duas coisas distintas.

Que obra de Arievaldo Viana mais chama a atenção de... Arievaldo Viana?

R – É difícil avaliar. Cada folheto que nasce tem um lugar especial no coração do autor. Os de gracejo são os de que mais gosto de reler depois de impressos. Às vezes me pego rindo das velhas tiradas que escrevi há dez, doze anos. Tem obra que já nasce redondinha, sem precisar de retoques... dentre essas eu destaco O batizado do gato, O rico ganancioso e o pobre abestalhado, A caveira do ET encontrada em Quixadá, Descaminhos das Índias e O homem que casou com uma serpente. São folhetos que nasceram em estado de graça, os dois primeiros fiz sozinho, em menos de uma hora cada um e três seguintes em parceria com Pedro Paulo Paulino e Klévisson Viana. No caso dos folhetos feitos em dupla, a parceria estava muito afinada, tirando faíscas do juízo, a ponto de um pensar uma coisa e outro escrever sem pronunciar uma palavra sequer. Quando isso acontece a gente cai na risada, com a feliz coincidência que acaba de ocorrer. É sintonia de pensamento, com certeza. Já os romances levam mais tempo, mesmo os de 16 páginas precisam ser lidos, relidos e corrigidos antes de serem impressos. Tem um que é muito interessante. Na década de 1970, o poeta Gonzaga Vieira escreveu num caderno as primeiras páginas de A lida de Conrado ou a honradez sertaneja e nunca chegou a concluir. Fez em torno de 70 estrofes, o que daria um folheto de 16 páginas. Ele entregou-me esse caderno em 2002, pedindo-me para revisar e concluir o trabalho... Acabou virando um excelente romance de 32 páginas, com roteiro bem-elaborado e cheio de lances dignos de um Valente Zé Garcia. Já com relação aos “cordelivros”, titulo que o poeta Crispiniano Neto encontrou para os livros ilustrados de cordel, gosto muito de A raposa e o cancão, o primeiro que publiquei nesse formato, que tem me trazido muitas alegrias... foi o primeiro a ser indicado para o PNBE, participou de um projeto chamado “Baião das Letras”, virou peça de teatro em várias escolas e sempre desperta um interesse muito grande nas crianças, quando trabalhado nas escolas. Agora, em termos de produção gráfica, os que mais me encantaram até hoje foram os livros da Editora Globo (Chapeuzinho Vermelho e O coelho e o jabuti), primeiros de uma série que estamos desenvolvendo para aquela editora. Foram trabalhos que contaram com uma ilustração primorosa do Jô Oliveira e um projeto gráfico fantástico, desenvolvido pela designer Adriana Bertolla.

Na bucha: citando Alceu Valença, quem, da nova geração de autores, não perde o prumo nem desafina?
Mestre Azulão Arievaldo e Bule-Bule

R – É difícil dar nome aos bois sem melindrar alguns e sem esquecer algum nome importante... Mas, sem puxamento de saco, Marco Haurélio figura nessa lista que poderia ser acrescentada com a presença de Evaristo Geraldo, Rouxinol do Rinaré, Klévisson, Janduhy Dantas, Antônio Francisco e outros nomes que têm se projetado de uns quinze anos para cá. Da geração anterior a nossa, ainda em atividade, destaco Mestre Azulão, Lucas Evangelista, Manoel Monteiro, Geraldo Amancio, Bule-Bule, João Firmino Cabral, Gonçalo Ferreira e Luiz Antônio que apesar da obra diminuta, fez um verdadeiro clássico para aquela coleção 12 contos de Cascudo em Cordel. Se Luiz Antonio, que foi um bom cantador, tivesse se dedicado ao gênero romance teria sido um fenômeno. Na área do gracejo gosto muito das produções de J. Batista e Pedro Paulo Paulino.

Que conselhos você daria aos que estão no início da caminhada, sejam autores, sejam, leitores do nosso antigo folheto de feira?

Jullie Ane Oliveira
R – Dentre os novos valores que estão surgindo, aposto muito no trabalho de Paiva Neves, Varneci, Julie Anne, Josué Lima, Antonio Barreto, Moreira de Acopiara, Stélio Torquato e outros que acompanho com interesse. O segredo é diversificar os temas, ler bastante os clássicos do gênero, absorver o que há de melhor em cada um e criar um estilo próprio, depois de beber esse coquetel de influências. Existem pessoas que militam nessa área há décadas e até hoje não conseguiram produzir um único folheto que possa ser considerado uma obra-prima. São esforçados, conhecem a história do cordel, leem os clássicos, interagem com os leitores, mas não conseguem transpor esse conhecimento para a própria obra. Não quero citar nomes, mas o bom leitor de cordel sabe exatamente do que estou falando. O falecido Ribamar Lopes, leitor experiente e grande estudioso da Literatura de Cordel, dizia que um bom autor a gente avalia logo nas duas primeiras páginas. Se tivesse um verso travoso, uma rima mal-ajambrada, uma métrica aleijada ou uma oração pobre e sem nexo, ele jogava para o lado e abandonava de vez. Como dizia o poeta Cícero Vieira: “Quem lê um folheto desses / Ou queima, ou rasga ou encosta!”

Há pouco tempo foi ao ar, pela Rede Globo, a novela Cordel Encantado, que de cordel só tinha o nome. Agora, o cordel vira tema da escola de samba carioca Acadêmicos do Salgueiro. O samba-enredo escolhido, em minha opinião, é uma verdadeira tragédia. Mas há quem, movido por interesses ou, mais raramente, por boa fé, ache tudo muito lindo. O que tem a dizer, com a autoridade do poeta consagrado, Arievaldo Viana?

R – O folhetim global usou e abusou da licença poética, mas de cordel mesmo só tinha o nome e as xilogravuras compostas para a abertura. Faltou uma consultoria às autoras da trama, uma trilha sonora mais calcada no cordel e até mesmo atores do porte de um Jackson Antunes, José Dumont ou de um Arnaud Rodrigues (infelizmente já falecido), que conhecia bem a linguagem do cordel. Mas, no frigir dos ovos, a novela acabou trazendo algo positivo para o nosso gênero literário, que foi a difusão da palavra CORDEL em todos os recantos do Brasil. Isso aguçou a curiosidade de muita gente, que está interessada em conhecer o verdadeiro cordel. O mesmo ocorre com a Escola de Samba... Muita pompa e pouco conteúdo. Alguns poetas da ABLC, que têm acesso à diretoria da Acadêmicos do Salgueiro, chegaram a acompanhar esse processo. Mas, no final das contas, ou não souberam orientar os autores do samba-enredo ou simplesmente não foram levados em consideração. Esse oba-oba em torno do cordel pode acabar provocando um processo de descaracterização parecido com o que ocorreu com o forró. Ainda bem que pessoas lúcidas e verdadeiramente comprometidas com a nossa arte não fazem concessões e continuam trabalhando em prol do verdadeiro cordel.

Arievaldo Viana ao lado do ilustrador e parceiro
Jô Oliveira na Bienal do Rio 2011

Quais os maiores equívocos difundidos no meio acadêmico – e também no popular – sobre a literatura de cordel?

R – O pior de todos é achar que CORDEL é uma subliteratura, produzida por analfabetos ou semianalfabetos e que só é autêntico ser for impresso em prelos rudimentares, com capa em xilogravura. Infelizmente muita gente ainda pensa assim, inclusive pessoas que se dizem “pesquisadores” de cordel. É a mesma coisa de querer a permanência do disco de cera, da lamparina e da máquina de escrever. Eu costumo dizer que o cordel é acima de tudo um gênero literário e que a questão do suporte é secundária. Cultura que não se renova vira peça de museu.
De certo modo, Patativa do Assaré contribuiu muito para construção dessa imagem, apesar de ser um homem esclarecido, leitor de Camões, Castro Alves e Gonçalves Dias... mas que teimava em escrever na chamada “linguagem matuta”. Para começo de conversa, Patativa nem gostava de ser chamado de “cordelista”. Quem conhece a história da Literatura de Cordel no Brasil sabe perfeitamente que Leandro Gomes de Barros, poeta que é considerado o pioneiro do gênero, não era um analfabeto e sim um homem letrado, que viveu numa das maiores capitais do Nordeste, tendo contato diário com livros, jornais e revistas. Outros mestres que o sucederam, como Athayde, José Camelo e Delarme Monteiro também não eram “matutos” nem analfabetos. Um cara que faz uma versão de Romeu e Julieta, de El Cid ou de Iracema com a qualidade com que esses poetas fizeram não se enquadra nem de longe nesse perfil estereotipado que teimam em fazer do cordelista.Outro equívoco imperdoável, e aí já nem é mais equívoco, é má fé mesmo, é o fato de alguns artistas se apropriarem do cordel como se fosse coisa de “domínio público”. Isso acontece com muita frequência na música, no teatro, no cinema e na TV.

O Professor Luyten, se não me engano, cunhou em O que é Literatura Popular? (Brasiliense) a expressão “Novo Cordel”, para enquadrar a obra de autores que, influenciados pela vida na metrópole, produziam um cordel diferenciado. Se voltarmos um pouco no tempo, veremos que isso nunca foi novidade e que o próprio Leandro Gomes de Barros já trabalhava com a dicotomia sertão-cidade e interpretava os fatos de sua época, como a passagem do cometa Halley (1910) de uma forma bem peculiar. Afinal, existe mesmo um “novo cordel” ou é, simplesmente, mais uma nomenclatura modernosa para um fenômeno já antigo?

R – Não existe “novo cordel”. Todas as tentativas nesse sentido se mostraram inócuas e equivocadas porque o primeiro pecado cometido pelos que se propõem a fazer o tal do “novo cordel” é abolir a métrica, afrouxar a rima e bambolear na oração, regras indispensáveis para o verdadeiro cordel. A Literatura de Cordel, como o soneto, tem regras fixas, que não podem ser ignoradas. Querem fazer com o cordel o que a Semana de Arte Moderna, de 1922, fez com a arte brasileira, em especial com a literatura. Figuras expressivas como Coelho Neto e o próprio Monteiro Lobato foram discriminados em nome dessa suposta “modernidade”. Não tenho nada contra quem escreve ou gosta da chamada poesia moderna, com versos livres, sem métrica e sem rima. Mas eu, particularmente, prefiro Castro Alves, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos e Olavo Bilac. Dos autores contemporâneos, admiro muito a facilidade do poeta Glauco Mattoso em produzir sonetos obedecendo fielmente às técnicas já consagradas, embora seja ousado na escolha dos temas. E, no campo do cordel, tenho observado que todas as tentativas de se distanciar de Leandro, José Pacheco e José Camelo de Melo resultam num verdadeiro desastre. Há também aqueles que fazem poemas curtos, mais apropriados para declamação, que alegam produzir um “novo cordel”. Em geral, produzem versos bons, rimados e metrificados, mas quando tentam fazer um romance, uma obra narrativa mais elaborada, acabam cometendo pecados primários. Por isso concordo plenamente com a sua afirmativa quando diz que o cordel é atemporal.

O que de positivo a geração de Arievaldo Viana deixará para os pósteros (gostou?)?
Com o veterano poeta Lucas Evangelista e Rouxinol do Rinaré

R – De Leandro Gomes de Barros para cá já tivemos pelo menos umas cinco gerações de poetas. Primeiro foi a de Leandro, Athayde, João Melchíades e Chagas Batista. Depois vieram José Pacheco, Milanês, José Camelo e Manoel Camilo dos Santos. Manoel Pereira Sobrinho, Antonio Teodoro e Expedito Sebastião eram da terceira. Essa geração de Azulão, Lucas Evangelista e Costa Leite é a quarta e muitos remanescentes ainda estão vivos e produzindo. A nossa geração, que eu considero a quinta, tem um grande diferencial. Bebemos na fonte da tradição mas tivemos a ousadia de procurar entender todos os processos relacionados com o cordel, inclusive a pesquisa e a crítica literária. Tivemos a coragem de buscar novos formatos, sem perder a essência, sem descaracterizar as regras básicas do cordel. Tivemos peito para confrontar opiniões e até mesmo fazer revisões no estudo acadêmico do cordel. Aquela imagem do poeta de cordel com uma cabaça nas costas e uma chinela “currulepe” nos pés está desaparecendo. Cordeiro Brabo que o diga... Sou um cidadão nascido e criado no sertão, vi televisão pela primeira vez aos 12 anos de idade, cresci comendo feijão de corda e buchada de carneiro, li folhetos à luz de lamparina, mas tive a curiosidade de conhecer outras coisas, absorver outras culturas e isso só fez aumentar o orgulho de ser nordestino. Só contribuiu para aumentar o respeito e a admiração que tenho pela arte e pelos artistas de minha região.
Contribuir para evolução da literatura de cordel sem descaracterizá-la é, seguramente, o maior legado que a nossa geração está deixando para a posteridade.

Poeta, obrigado pelas respostas, sempre incisivas, e parabéns por trilhar a senda da poesia. Peço apenas que se despeça, em versos, dos raros leitores deste blog.

No sopro do Aracati
Vento terral do Nordeste
Que varre praia e agreste
No cheiro do abacaxi
No canto do bem-te-vi
Na copa do coqueiral
No espaço sideral
E no perfume das flores
Me despeço dos leitores
Do CORDEL ATEMPORAL.

Mais sobre o autor no blog Acorda Cordel.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Literatura de Cordel em Santo André

Maria José Targher, assessora de Comunicação, e responsável por todas as fotos deste post (menos esta!)
Sábado, 22 de outubro, o auditório do Centro de Formação de Professores Clarice Lispector, em Santo André, foi palco do Seminário de Literatura Infantojuvenil, iniciativa da Secretaria de Educação do Município, que contou com o apoio das editoras Nova Alexandria e Biruta. Com realização de palestras voltadas para os professores e para o público em geral, a iniciativa tem como objetivo, além de proporcionar mais uma oportunidade de formação para os professores da rede, beneficiar os apreciadores de literatura com análises de escritores renomados.


A atividade de que tomei parte foi coordenada pelo professor e poeta João Gomes, autor de Alice no Pais das Maravilhas em Cordel (Nova Alexandria). João declamou “Fartura”, arrancando boas risadas da platéia, que se divertiu também com a declamação do clássico “Salaro mimo”, poema matuto de Antônio Aurélio de Morais, o Tio Toni. Convocado, contei um pouco da história do cordel e declamei trechos de clássicos de Leandro Gomes de Barros (Juvenal e o Dragão, O Boi Misterioso), José Camelo de Melo Resende (O Pavão Misterioso), José Pacheco (A Chegada de Lampião no Inferno) e Manoel D’Almeida Filho (Os Cabras de Lampião). Também narrei alguns trechos do meu Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo (Luzeiro). Fomos, mais uma vez, recepcionados pela coordenadora do “Clarice”, Luciana Dias Ragazzini. 


As fotos são cortesia de Maria José Targher, que cuida, e muito bem, da comunicação da Secretaria de Educação de Santo André.
A todos o meu abraço!
A pequena Andressa fez questão de convocar a mãe para assistir à palestra.

domingo, 23 de outubro de 2011

Cordéis publicados no Rio na década de 1940



Escrita Por Arthur Silva Torres e publicada em 1948, a História da Fada Gercina e do Príncipe Romão tem algumas peculiaridades que merecem destaque: 
  •  A capa colorida em formato 14X18, antecipa-se à editora Prelúdio, futura editora Luzeiro. A Livraria H. Antunes, carioca também, publicava já nesse formato, embora não se dedicasse exclusivamente ao cordel. 
  • O título do romance que, inevitavelmente, remete ao clássico O Príncipe e a Fada (ou Baman e Gercina), assim como elementos da capa, como a serpente, o leão e a ave de rapina. "Romão" é um disfarce para "Baman", tratando-se, evidentemente, de um pastiche do original leandrino. Em outra história da lavra de Torres, o Romance de Paulo e Joaninha, em que aparece um casal em fuga sobre um cavalo, recria-se o episódio clássico da História de Mariquinha e José de Souza Leão, de João Ferreira de Lima. 

  • Torres, autor cuja biografia ainda desconheço, recriou o clássico Zezinho e Mariquinha, do pioneiro Silvino Pirauá de Lima. O título invertido — História de Mariquinha e de Zezinho, publicada em 1947 — não esconde a fonte.  

  • Na quarta capa da  História da Fada Gercina e do Príncipe Romão,  descobrimos ser A. S. Torres autor da História Completa de Alonso e de Marina, óbvia cópia do grande romance A Força do Amor, talvez a melhor obra de Leandro Gomes de Barros. 
Originais, como se nota, são as cores, pois as histórias e os temas são velhos conhecidos dos nordestinos.


Todos os títulos citados estão à venda pela internet.