quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cem anos de nascimento de Joaquim Batista de Sena


O blog Cordel Atemporal tem a honra de divulgar a homenagem que poetas, instituições e estudiosos do Ceará prestam a um dos mestres da Literatura de Cordel Brasileira.

2012 é o ano do centenário de um dos maiores expoentes da Literatura de Cordel, o paraibano Joaquim Batista de Sena, que durante mais de quatro décadas palmilhou o Nordeste inteiro produzindo, imprimindo e revendendo seus folhetos. A partir da década de 1950 instalou o seu ‘quartel general’ em Fortaleza, onde fundou a Tipografia Graças Fátima, responsável pela publicação de seus próprios cordéis e também boa parte da criação literária de José Camelo Rezende, de quem adquiriu diversos originais. Romancista de primeira linha, Sena procura seguir a mesma trilha deixada por Camelo, Leandro, Athayde e outros gênios da poesia popular.
Mas não desdenhava o folheto-reportagem que também foi um de seus trunfos para conquistar a simpatia popular. Qualquer crime hediondo, enchente, desastre automobilístico, aparecimento de entidades sobrenaturais não escapava ao seu poder de observação, como se vê no folheto ‘O monstro do Cemitério São João Batista’ que trata de um curioso tema: a necrofilia. Entretanto, foi na passagem da imagem milagrosa de Nossa Senhora de Fátima, em 1953, que alcançou o seu apogeu como editor, percorrendo todo o itinerário da imagem pelo Nordeste afora. Ganhou tanto dinheiro que acabou batizando sua folhetaria com o nome de “Graças Fátima”. Antes disso, no início da década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu um naufrágio na baía de Quebra-Potes, no Maranhão, quando o navio em que viajava foi perseguido por um submarino alemão. Conseguiu salvar-se nadando, mas perdeu uma preciosa mala contendo diversos originais, dos quais não possuía outra cópia.
Hoje a obra de Sena parece naufragar em outros mares... o mar do esquecimento, do ostracismo a que vem sendo relegada a sua valiosa produção poética. Nada mais justo que a o Ponto de Cultura Cordel com a Corda Toda da AESTROFE – Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Ceará, com o apoio da ABC-Academia Brasileira de Cordel e CECORDEL- Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste, faça essa justa homenagem ao poeta, relançando três expressivos romances de sua lavra na passagem do seu centenário. São eles “Os Amores de Chiquinha e As Bravuras de Apolinário”, “História de Braz e Anália” e “História de João Mimoso ou O Castelo Maldito”.
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JOAQUIM BATISTA DE SENA - nasceu no dia 21 de maio de 1912, em Fazenda Velha, do termo de Bananeiras, hoje pertencente ao município de  Solânea-PB. Faleceu no distrito de Antônio Diogo (Redenção-CE) no início da década de 90 do século recém-findo. Autodidata, adquiriu vasto conhecimento sobre cultura popular e era um defensor intransigente da poesia popular nordestina. Começou como cantador de viola, permanecendo três anos neste ofício, no final da década de 30. 
No início da década de 40, vendeu um sítio de sua propriedade e adquiriu sua primeira tipografia, que funcionou algum tempo na cidade de Guarabira-PB, transferindo-se depois para Fortaleza, onde atuou durante muitos anos. Dizia-se discípulo de Leandro Gomes de Barros e era admirador incondicional de José Camelo de Melo. Na capital cearense, sua tipografia adotou o nome de “Graças Fátima”. O poeta explicava a razão desse título: durante a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima pelo Nordeste, na década de 50, ele conseguiu ganhar muito dinheiro vendendo folhetos sobre a visita da santa, ampliando consideravelmente seus negócios. Por essa época, foi vítima de um naufrágio da Baía de Quebra-Potes (Maranhão). Salvou-se nadando, mas perdeu  uma mala de folhetos, contendo diversos originais.
Em 1973 vendeu sua  gráfica e sua propriedade literária para Manoel Caboclo e Silva e tentou estabelecer-se no Rio de Janeiro, também no ramo da literatura de cordel, mas não foi bem sucedido. De volta ao Ceará, ainda editou alguns folhetos de sucesso, como o que escreveu em parceria com Vidal Santos, sobre o desastre aéreo da Serra da Aratanha (Pacatuba-CE), onde faleceu, dentre outros, o industrial Edson Queiroz.
Sena era um grande poeta, de verve apurada e rico vocabulário. Conhecia bem os costumes, a fauna, a flora e a geografia nordestina, motivo pelo qual seus romances eram ricos em descrições dessa natureza. Pode-se dizer que com a sua morte, fechou-se um ciclo na poesia popular nordestina e o gênero “romance” perdeu um de seus maiores poetas. Só agora, no início deste novo século, surgem novos romancistas que pretendem dar continuidade à trilha deixada pelo mestre.
Dentre as suas obras de maior aceitação popular, destacamos: A filha noiva do pai ou Amor culpa e perdão; A morte comanda o cangaço; As sete espadas de dores de Maria Santíssima; Estória de Manoel Seguro e Manoel Xexeiro; História de João Mimoso e o castelo maldito; História de Braz e Anália; Os amores de Chiquinha e as bravuras de Apolinário; História do assassinato de Manoel Machado e a vingança do seu filho Samuel; História do Príncipe João Corajoso e a princesa do Reino Não-vai-ninguém.

(In “Acorda Cordel na Sala de Aula”, Arievaldo Viana)



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SENA: UM CIENTISTA SOCIAL DO VERSO

O poeta e editor cordelista Joaquim Batista de Sena, se vivo fosse, completaria 100 anos neste 21 de maio de 2012. Ele nasceu em Fazenda Velha, município de Bananeiras, hoje pertencente ao município de  Solânea, microrregião do
Curimataú - PB em 1912. De uma família essencialmente de agricultores, os “Baraúna”, muito cedo trocou a enxada e o trabalho no sol escaldante, pelo cultivo da rica e exuberante poesia narrativa da Literatura de Cordel, “a mais bela de todas as poesias”, na descrição do mestre Camara Cascudo. Sena, como a grande maioria dos meninos pobres que moravam nos sertões paraibanos, andou completamente nú, até os sete anos de idade. O depoimento é dele próprio, acrescentando que no seu Curimataú os meninos mais pobres, já na puberdade, passavam a maior parte do tempo dentro de casa para esconder a nudez, ou acocorados em buracos que cavavam, chegando alguns deles a criar “encriquilamento” nas pernas. Pelo longo tempo que permaneciam naquela posição. O poeta logo liberou-se dessa inusitada situação e foi viver do verso de cordel nas grandes cidades. Estudou com  professor apenas três meses, para aprender o ABC, mas jamais escreveu palavras erradas ou inadequadas nos seus “romances”. Foi considerado um dos mais importantes poetas da Literatura de Cordel em todos os tempos. Ao lado de José Camelo de Melo Resente, Joaquim Batista de Sena figura como “cientista social do verso”. Como editor, manteve duas tipografias funcionando simultaneamente, no Rio de Janeiro e em Fortaleza mas, a exemplo de outro grande editor cordelista, João Martins de Athaide, Joaquim Batista de Sena também morreu na pobreza, na cidade cearense de Redenção-Ceara, onde mantinha a sua segunda família. Foi idealizador e um dos criadores da ABC-Academia Brasileira de Cordel, detentora dos direitos autorais dos 291 títulos das chamadas “obras primas da Literatura de Cordel”. As homenagens da ABC ao poeta Joaquim Batista de Sena - o Joaquim “Baraúna”, nos 100 anos do seu nascimento.
Vidal Santos, Presidente da ABC.

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Joaquim Batista de Sena é um dos grandes nomes do cordel brasileiro de todos os tempos. Este paraibano corajoso, depois de se instalar como poeta editor, achou pequena sua Guarabira natal, e peregrinou pelo Norte e Nordeste, sempre à cata de oportunidades, e fazendo da vida uma arte de improvisar e criar histórias de trancoso.
Viveu parte do tempo em Fortaleza. Chegou aqui, foi morar lá para as bandas da Floresta (hoje Álvaro Weyne), e instalou sua Tipografia Graças Fátima à Rua Liberato Barroso, número 725, no centro da cidade.
Sempre escreveu muito e tinha fôlego para os romances, os folhetos com maior número de páginas. Dava conta do que pretendia fazer, com sensibilidade e muita competência.
Um dia, resolveu viajar para o Rio de Janeiro e se instalou na Olaria, subúrbio da Leopoldina. Parece que a experiência não foi bem sucedida. Terminou por vender seu acervo para o também poeta e editor Manoel Caboclo e Silva, estabelecido com a Folhetaria Casa dos Horóscopos, em Juazeiro do Norte. Isso aconteceu pelos idos de 1974. A transação, registrada em cartório, proporcionou um grande impulso ao empreendimento de Caboclo.
Sena vendeu folhetos junto ao Theatro José de Alencar. Morou com uma segunda família em um conjunto habitacional, na divisa entre os municípios de Redenção e Acarape. Dizia que um dos seus sonhos era organizar uma antologia ilustrada dos seus folhetos, como forma de incrementar suas vendas.
Foi um grande poeta, um “performer” na hora da venda dos folhetos, e um sertanejo cidadão do mundo e poeta de verdade. Faz cem anos que nasceu e onze que se foi. Seu legado, valioso, merece um foco de luz e a possibilidade de ser lido e admirado pelas novas gerações.      
Gilmar de Carvalho
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Os amores de Chiquinha e as bravuras de Apolinário é um romance de luta, subgênero da literatura de cordel que a pesquisadora Maria José Londres afirma derivar dos romances de encantamento. O rei das narrativas em que predomina o maravilhoso transmuta-se no coronel, a quem o herói serve como uma espécie de vassalo. O encontro com a filha do patrão é, geralmente, o motivo para o conflito, que segue um padrão com poucas variações. O modelo para histórias, como esta de Joaquim Batista de Sena, parece ser o clássico de João Ferreira de Lima, História de Mariquinha e José de Souza Leão, escrito nos anos de 1930.  Os autores parecem ter recebido também influência do filmes de cowboy, pois muitos eram fãs das películas norte-americanas, reproduzindo, até, imagens destas nas capas dos folhetos. O diferencial deste clássico, um dos grandes sucessos do poeta-editor Joaquim batista de Sena, é o tom paródico que pontua toda a história e que, futuramente, seria explorado por João Firmino Cabral no igualmente memorável A coragem de um vaqueiro em defesa do amor.
Marco Haurélio – Folclorista, editor e cordelista 

SERVIÇO:  JOAQUIM BATISTA DE SENA, ANO 100
DIA: 23 DE MAIO DE 2012 (QUARTA-FEIRA)
LOCAL: MIS – Museu da Imagem e do Som do Ceará
Barão de Studart, 410 – Bairro Meireles – Fortaleza – CE
Tel: (85) 3101-1204
Informações: (85) 9675-1099 (Klévisson Viana)
(85) 9999-7908 (Paulo de Tarso)


domingo, 13 de maio de 2012

Os três fios de cabelo de ouro do Diabo: uma história atemporal



Capa do romance publicado pela Luzeiro com ilustrações
em estilo clássico de Mestre Severino Ramos
Os três fios de cabelo de ouro do Diabo, história atemporal que figura nos Marchen dos Irmãos Grimm, mereceu do poeta Josué Gonçalves de Araújo uma vigorosa versão em cordel. É, seguramente, a obra-mestra de Josué, autor nascido em Marabá Paulista, interior de São Paulo, mas com raízes culturais nordestinas, pois é filho de baianos. Com este trabalho ele atinge a maturidade criativa, já demonstrada em O coronel avarento, um começo promissor mas ainda reclamando ajustes, e O mistério da pele da novilha, que dá novo tratamento à figura do viajor sacrílego, o Judeu Errante, que saltou do folclore para a literatura.

Em Os três fios de cabelo de ouro do Diabo, romance que conheci em pré-produção, a narrativa original ganha um sabor bem brasileiro graças aos muitos apelativos com que o autor retrata o “príncipe das trevas”. O conto, apesar de figurar na famosa coletânea dos Grimm, não é, em sua origem, alemão. Há registros em outras partes do mundo. No livro Contos populares da Espanha, que, por estas bandas, foi publicado pela Landy Editora, há uma versão interessantíssima. No interior da Bahia, anotei uma versão, inédita, em que o rei vilão desaparece, cedendo lugar ao fazendeiro, que obriga sua comadre pobre a empreender a façanha considerada impossível. 


Josué, no entanto, mesmo fiel à narrativa em que se baseia, imprime a sua marca autoral, buscando as sobrevivências míticas, a exemplo da crença da infalibilidade do destino e dos personagens arquetípicos como o barqueiro que transporta o herói ao Hades (reminiscência de Caronte). Há um conto iugoslavo em que o rio é humanizado e, em troca do transporte do herói, exige deste uma resposta. A invocação aos céus, da segunda estrofe, comprova o parentesco deste trabalho com a poesia épica, ou com aquilo que Ezra Pound definia como melopeia:

Alegre, por não ser Deus,
O nosso Pai Soberano,
Peço aos céus inspiração
Para tratar de um profano
E de um dos grandes pecados
Que persegue o ser humano.

A primeira parte do romance segue a linha dos contos novelescos, sem a presença do maravilhoso, com exceção da previsão miraculosa. É o mesmo enredo de A princesa Anabela e o filho do lenhador, de Severino Borges, em que o herói é porta-voz de uma mensagem que, se entregue ao destinatário, significará a sua morte. A segunda pertence aos contos maravilhosos propriamente ditos, trazendo o que Joseph Campbell, em O herói de mil faces, define como a jornada do herói.

Os irmãos Grimm recolheram outro conto com enredo semelhante, O grifo, comprovando que o Diabo que figura no conto não é o fantasma teológico da Igreja católica, mas uma adaptação de criaturas de crenças de origens diversas, muitas delas anteriores ao cristianismo. O Diabo, portanto, não é o dos pesadelos medievais que Portugal transplantou para o Brasil e que índios e escravos ajudaram a recompor, “ampliando-lhe domínio e formas sem que lhe dessem nascimento”, conforme depõe, com autoridade inquestionável, Câmara Cascudo. É a natureza desconhecida, o rio da morte, que também é vida, o limiar que o herói deve transpor para cumprir ou, que sabe, tornar-se senhor de seu destino. É desse rito de passagem, estudado por James Frazer em The golden bough, que trata esta história. Felizmente, a literatura de cordel encontrou alguém que a recontasse com rigor criativo e amorosa entrega ao ofício que também é vocação.

sábado, 5 de maio de 2012

Baú da Gaiatice chega à terceira edição

O Cordel Atemporal reproduz texto do blog Acorda Cordel.




Há mais de 12 anos, num momento em que o Ceará já se projetava nacionalmente como terra de comediantes, o radialista, poeta popular e cartunista Arievaldo Viana escreveu o livro “Baú da Gaiatice”. Incluindo crônicas, anedotas e literatura de cordel. O livro foi lançado em noite festiva no Pirata Bar, no dia 21 de maio de 1999 e, de imediato, tornou-se um clássico do gênero, recebendo elogios de escritores, pesquisadores e jornalistas como Blanchard Girão, Barros Alves, B.C. Neto, Ribamar Lopes, Eleuda de Carvalho, Falcão, Tarcísio Matos e Juarez Leitão. A idéia foi sugerida pelo amigo Vescêncio Fernandes (in memorian) diretor da extinta revista Varal, onde parte do material do livro havia sido publicado.
Na época do lançamento, o Caderno 3 do Diário do Nordeste fez a seguinte observação: “Juntando crônicas que escrevia para jornais e revistas sindicais como a Pérola Negra do Sindicato dos Petroleiros, e para a própria Varal, Arievaldo observou que tudo isso poderia dar um livro. Não precisaria ir longe para encontrar ilustrações bem apropriadas ao contexto das histórias. Contou com o apoio de seu irmão e artista plástico Klévisson, de Jefferson Portela e também deu suas próprias pinceladas, já que trabalha há alguns anos nesta área.”
Um dos grandes méritos da obra foi trazer a tona, de forma pioneira, ‘causos’ de personagens até então anônimos, porém interessantíssimos. É o caso do personagem “Broca da Silveira”, um cara cheio de espertezas que dribla sua condição de nordestino, pobre e semi-analfabeto, para conseguir o que quer. Foi preso e subornou o médico da penitenciária lá de São Paulo para lhe dar um medicamento que ficasse como um morto. Conseguiu, então, embarcar numa urna “funerária” de volta ao seu Nordeste. “A história dele é um misto de 50% de realidade e 50% de fantasia”, afirmava Arievaldo, na matéria publicada em 1999 pelo DN. Além do já citado Broca da Silveira, desfilam também pelas páginas do Baú o irreverente Zuca Idelfonso, o irriquieto boiadeiro Zé Adauto Bernardino e o profeta matuto Zé Freire, autor de uma curiosa oração para arranjar um magote de mulher. O autor conta que numa temporada em Canindé, costumava se embrenhar sertão adentro ou mesmo palestrar nos bares da cidade na companhia do poeta e boêmio Pedro Paulo Paulino. Munidos de papel e caneta e às vezes de um note-book, os dois observavam aquelas figuras bem características. Quando ouviam alguma história interessante, passavam para o papel ou para o computador. Assim, foi ampliando o material para a publicação do livro.
O terceiro capítulo é totalmente dedicado a Literatura de Cordel, o grande forte de Arievaldo, considerado atualmente um dos maiores expoentes desse gênero. O escritor apresenta seus próprios cordéis e outros de parcerias com Jota Batista, Pedro Paulo Paulino, Klévisson Viana e Sílvio Roberto Santos. Também trabalham temas atuais como a clonagem da ovelha Dolly, o encontro de Fernando Henrique Cardoso com Pedro Álvares Cabral nos 500 anos de descobrimento, a história de um poeta que adquiriu uma boneca inflável e até mesmo uma sátira intitulada “Descaminhos das Índias ou o Indiano que casou com uma cachorra”, incluída especialmente na terceira edição da obra.
UM POUCO DA TRAJETÓRIA DO AUTOR: Arievaldo Viana nasceu no Sertão Central do Ceará, em setembro de 1967. Desenha e escreve cordéis desde a infância. Atuou também como radialista de 1985 a 92. Trabalhava em Canindé, fazendo um quadro humorístico com personagens criados por ele, como Salustiano e dona Filismina. Em 1992, veio para a capital e integrou a equipe da Rádio Cidade e também na extinta TV Manchete, onde criou e apresentou o humorístico “Jornal da Caatinga”, em parceria com Cícero Lúcio e direção de Marcos Belmino, o saudoso “Ponhonhón”. Como escritor e poeta  publicou contribuições em diversos jornais e revistas, como Varal, Singular, Pérola Negra e atualmente na Nordeste Vinteum, onde mantém a coluna “Sala de Reboco”, relembrando fatos da vida e da obra de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Atua no movimento sindical como chargista e ilustrador desde 1993. É o criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, responsável pelo reconhecimento da literatura de cordel como gênero literário indispensável ao ensino, já apresentado através de oficinas e palestras em diversos estados do Brasil. Como escritor, Arievaldo Viana tem mais de 100 folhetos de cordel já publicados e quase duas dezenas de livros pelas maiores editoras do país: FTD, Cortez, Editora Globo, Planeta Jovem, Editora IMEPH, Demócrito Rocha, Armazém da Leitura e Nova Alexandria.

O QUE DISSERAM DA OBRA

“O Baú da Gaiatice” é um livro sério, mesmo tendo como objetivo fundamental divertir e provocar o riso. É que espelha, com denodo e perícia, essa faceta esplêndida da alma cearense de zombar das trapaças da sorte, se divertir em frente da desdita e, mesmo no meio da noite mais tenebrosa, transportar em sua essência anímica os raios incandescentes da aurora.” 
(Juarez Leitão, escritor)

“Arievaldo Viana é um “velho” poeta popular de trinta e três anos. Velho pela maturidade de seus versos, pelo muito que tem observado, acumulado e repassado em termos de cultura popular. Seu gosto pelo popular, despertado desde cedo - ainda criança - foi caldeado e sedimentado em Quixeramobim e Canindé, no telurismo desses dois territórios mágicos. As muitas leituras de folhetos, na infância, as muitas noites no “sereno” de cantorias, imprimiram-lhe na alma o gosto pelo estilo dos bons tempos - do tempo dos grandes poetas do cordel, sem contudo pretender imitá-los. É fecundo. Jovem (um “velho” poeta de trinta e três anos), é autor de várias dezenas de folhetos. Respira, vive poesia popular. Como poeta popular, poder-se-ia dizer que sofre de incontinência poética.”
(Ribamar Lopes, poeta e pesquisador da poesia popular, em dezembro de 2000)

“Se alguns resquícios etílicos ainda me afetavam o fígado, foram definitivamente curados. Tudo por conta do "Baú da Gaiatice", de Arievaldo Viana, que lí de uma tirada só no último fim-de-semana. Ri a bandeiras despregadas com os "causos" colhidos no filão riquíssimo da cultura popular em suas diversas vertentes, a sertaneja, em primeiro lugar, a suburbana e a anedótica nascida nos meios mais intelectualizados. Tudo seria vulgar não fosse a capacidade própria de Arievaldo no saber contar, dando a cada estória o seu toque pessoal, a sua graça de humorista.”
(Blanchard Girão, jornal O ESTADO, junho de 1999)


O AUTOR E A OBRA, POR ELE MESMO

Acordei menino e ‘malino’ num lugarejo encantado, um recanto ensolarado chamado fazenda Ouro Preto, cafundós de Quixeramobim-CE, terra do beato Antônio Conselheiro.
Depois esse pedacinho de chão, pertencente ao distrito de Macaóca, passou a integrar o município de Madalena, território emancipado de Quixeramobim.
Para os lados do nascente se avistam os contrafortes do serrote dos Tres Irmãos, gigantescos monólitos de feição similar, que o velho Chico Pavio garantia tratar-se de três reinos encantados. Ao sul, os contornos da belíssima serra da Cacimba Nova. Quando eu era criança, alí pelos meados da década de 1970, não havia energia elétrica e a nossa diversão predileta era ouvir a vovó Alzira ler os folhetos de cordel, dentre eles Chegada de Lampião no Inferno, Cancão de Fogo, João Grilo, Pedro Malazartes e o impagável Casamento e divórcio da Lagartixa. Foi justamente nesses folhetos que eu me alfabetizei... ou melhor, desasnei na leitura, com a  ajuda de uma carta de ABC.
Essas leituras, aliadas a uma forte dose de imaginação me impeliram a ouvir tudo que era conversa de matuto, causos, arengas e ‘arisias’ ditas em estado sóbrio ou etílico nos balcões da bodega do Mané Lima, meu avô. Já crescido, em busca de instrução e trabalho, mudei-me para Maracanaú, Canindé e depois para o mundo... Foi daí que nasceu a inspiração para fazer este Baú da Gaiatice.


SERVIÇO:
O Baú da Gaitice, 3ª Edição
Editora Assaré / Prêmius
220 páginas ilustradas
Preço de capa: R$ 25,00
Preço especial de lançamento: R$ 20,00


terça-feira, 1 de maio de 2012

Literatura de Cordel em São Paulo

Brevíssimo histórico
Antônio Teodoro dos Santos, o Poeta Garimpeiro, foi o
 grande desbravador da Literatura de Cordel em  São Paulo

A história do Cordel em São Paulo está diretamente ligada à diáspora nordestina e ao interesse de uma tradicional editora, fundada por um imigrante português, na década de 1910, em contemplar a grande massa de leitores,composta por trabalhadores atraídos pelas oportunidades de trabalho que a incipiente indústria brasileira oferecia. Abaixo, apresento um resumo desta história adaptado a partir do capítulo O Cordel no Sudeste, que integra o livro Breve história da Literatura de Cordel (ed. Claridade, 2010).

A Tipografia Souza, dirigida pelo imigrante português José Pinto de Souza (1881-1950), surgiu em 1912. Segundo Joseph Luyten, José Pinto veio para o Brasil em 1895, estabelecendo-se como tipógrafo na capital paulista. A princípio, a tipografia publicava modinhas e folhas soltas. Depois, foram editadas histórias tradicionais portuguesas em prosa e verso. Luyten informa que, desde a década de 1930, tais histórias foram retrabalhadas por poetas brasileiros, em geral nordestinos. Desta tipografia surgiu, em 1952, a editora Prelúdio, dirigida pelo filho de José, Arlindo Pinto de Souza e seu meio-irmão Armando Augusto Lopes.

No mesmo período, o poeta baiano Antônio Teodoro dos Santos apresenta alguns originais à editora. Teodoro escrevia sobre tudo, para todos. Seu cordel Vida e tragédia do presidente Getúlio Vargas, de 1954, escrito após o suicídio de Getúlio, vendeu, na primeira edição, impressionantes 260 mil exemplares.  Começa o período áureo da Literatura de Cordel publicada no Sudeste. A obra de Teodoro é vasta e de boa qualidade e, dentre os muitos títulos de sua lavra, ainda se destacam João Soldado, o valente praça que meteu o Diabo num saco e Lampião, o rei do cangaço, clássicos incontestes.

Para expandir a linha editorial abraçada pela Prelúdio, Arlindo Pinto se valeu de um artifício: publicou, sem autorização, títulos de grandes autores nordestinos. Manoel D’Almeida Filho e Rodolfo Coelho Cavalcante estavam entre as vítimas da “apropriação indébita”. Bateram às portas da editora e ouviram de Arlindo uma desculpa que acabou sendo convincente: as obras foram publicadas para forçar um contato com os autores residentes no Nordeste. Deu certo. Os poetas tornaram-se amigos e revendedores do esperto editor. Almeida, tempos depois, se tornaria o selecionador de textos da editora, função que exerceu até 1995, ano de sua morte.
Manoel D'Almeida Filho, mesmo residindo em Sergipe,
era o principal consultor da Luzeiro
A Prelúdio, após decretar falência, em 1973, adotou a razão social da Luzeiro (do Norte), de João José da Silva, de quem adquiriu os direitos de publicação de títulos de autores clássicos, como Manoel Pereira Sobrinho, José Camelo de Melo Resende, Severino Borges Silva e Caetano Cosme da Silva. Fez do nome o símbolo de seu renascimento. E, superando os problemas, a Luzeiro seguiu imprimindo os clássicos do gênero sob a orientação abalizada de Manoel D’Almeida Filho. Entre 1980 e 1986, a editora, com mais de seiscentos revendedores espalhados por todo o Brasil, viveu um ótimo momento.

O fracasso do Plano Cruzado, a partir de 1987, seguido da grave crise econômica que prostrou o país, atingiu em cheio a casa paulistana. O Cordel, aos poucos, desaparecia das feiras. Em 1995, Arlindo Pinto de Souza, desiludido com os efeitos da crise e o desinteresse dos filhos em dar continuidade à tradição familiar, vendeu a editora à firma dos Irmãos Nicoló, e a Luzeiro passou por um período de dificuldades. No mesmo período morre, vítima de enfisema pulmonar, Manoel D’Almeida Filho, amargurado ante o futuro incerto da editora e da própria Literatura de Cordel. Numa carta emocionada endereçada ao “compadre” Arlindo, o velho poeta não esconde a decepção e pressagia o próprio fim, que não tardaria a chegar.

Hoje, Gregório Nicoló é o único proprietário, e a Luzeiro, superando alguns problemas, renova as suas publicações, mantendo os títulos tradicionais, ainda com boa aceitação popular. Cordéis do acervo da velha Prelúdio, há muito fora de catálogo, retornaram às prateleiras e novos poetas foram incorporados ao elenco da editora. Nomes como Arievaldo Viana, Varneci Nascimento, Marco Haurélio, Rouxinol do Rinaré, Cacá Lopes, Evaristo Geraldo e Moreira de Acopiara, ao lado dos veteranos João Firmino Cabral, Antônio Alves da Silva e Mestre Azulão trouxeram novo alento ao cordel editado em São Paulo.

Outras iniciativas

Desde fins da década de 1970 até boa parte dos anos 1980, o pernambucano Jota Barros (João Antônio de Barros) e o baiano Franklin Maxado disputavam fregueses na Feira de Artes da Praça da República. Na Praça da Sé, o violeiro pernambucano João Cabeleira revendia os folhetos da Luzeiro, que ainda estavam expostos em várias bancas de revistas do Brás, bairro onde a editora estava estabelecida, à Rua Almirante Barroso. Outro grande divulgador foi o engajado poeta e ator pernambucano Rafael de Carvalho, cuja morte precoce, no início dos anos 1980, impediu a continuidade de um trabalho de cunho reivindicatório de suma importância, hoje quase esquecido.

Antônio Amaury Correa, estudioso do cangaço, e em especial de Lampião, também contribuiu para ampliar a bibliografia em versos do bandoleiro. O seu Lampião: origens de família e primórdios guerreiros do famoso cangaceiro é o único dos oito folhetos sobre o tema que foi publicado. Conta com belíssimas xilogravuras de Jerônimo Soares, e é hoje uma raridade. Severino José (Zacarias José), poeta popular e colecionador de folhetos, teve atuação marcante junto ao movimento sindical. O folheto Acidentes de trabalho no ramo da construção abriu espaço para outros trabalhos “de encomenda”, em que usam a fácil comunicação da Literatura de Cordel para alertar a respeito da prevenção de acidentes, doenças e até mesmo promover a conscientização política.

O mineiro Téo Azevedo (Teófilo de Azevedo Filho), repentista, cantor e compositor, gravado por grandes nomes da MPB, como Luiz Gonzaga e Zé Ramalho, esporadicamente dedica-se à Literatura de Cordel. Escreveu, em parceria com Klévisson Viana, A peleja de São Paulo com o monstro da violência, um folheto que toca no “calcanhar de Aquiles” da metrópole: a segurança pública.

Caravana do Cordel

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Na atualidade, o a poesia popular é representada, em São Paulo, por poetas oriundos de vários estados da “nação nordestina”, criadores e mantenedores do grupo cultural Caravana do Cordel, surgido em 2008. Renovando a tradição itinerante da poesia popular a Caravana já se apresentou em locais os mais variados: cineclubes, teatros, bibliotecas, escolas e praças. O grupo é composto por poetas, artistas plásticos, estudiosos e entusiastas da poesia popular do Nordeste. A origem dos caravaneiros é prova cabal da diversidade de propostas. Em várias apresentações, a caravana já rendeu tributo a poetas como Antônio Teodoro dos Santos, alem dos pioneiros Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista.

Outro que fator que contribuiu para a afinação entre os membros do grupo foi o lançamento da coleção Clássicos em Cordel, da editora Nova Alexandria. Alguns membros da Caravana são autores da referida coleção: o alagoano João Gomes de Sá trouxe para o Nordeste os personagens de O corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. Varneci Nascimento, baiano de Banzaê, recontou em cordel o clássico de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. O cerarense Moreira de Acopiara deu nova vestimenta ao famoso romance de Daniel Defoe, As aventuras de Robinson Crusoé. Costa Senna, seu conterrâneo, cordelizou Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne. E Cícero Pedro de Assis deu continuidades aos romances de cavalaria, trazendo para o Cordel a emblemática história do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda. Além de autores residentes em outros estados, a coleção ainda traz versões poéticas de dois clássicos de William Shakespeare: A megera domada (por Marco Haurélio) e Romeu e Julieta (por Sebastião Marinho).
Autores publicados pela Luzeiro, apoiadora da iniciativa, também marcam presença no grupo: Nando Poeta, Cleusa Santo, Pedro Monteiro, Luiz Wilson, Cacá Lopes, Carlos Alberto e Josué Araújo, entre outros. Aderaldo Luciano, doutor em Letras pela UFRJ, também trouxe valiosa contribuição, transformando o grupo num movimento-escola. O lema criado por João Gomes de Sá – É o mundo do Cordel para todo o mundo! –, coroando o êxito da Caravana do Cordel, tornou-se, também, um legítimo manifesto.

Nota: Texto publicado, com modificações, no livro Acorda Cordel na Sala de Aula, de Arievaldo Viana (org).

segunda-feira, 30 de abril de 2012

História da Moura Torta


Ilustração de Severino Ramos
para o livro Contos e fábulas do Brasil
Uma vez havia um pai que tinha três filhos, e, não tendo outra cousa que lhes dar, deu a cada um uma melancia, quando eles quiseram sair de casa para ganhar a sua vida. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas senão em lugar onde houvesse água.

O mais velho dos moços, quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto de casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita, dizendo: "Dai-me água, ou dai-me leite". O rapaz não achava nem uma coisa nem outra; a moça caiu para trás e morreu.

O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para trás e morreu.

Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida, foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. No abri-la pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: "Quero água ou leite". O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu a se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse em um pé de árvore que havia ali perto da fonte, enquanto ele ia buscar a roupa para lhe dar. A moça subiu e se escondeu nas ramagens.

Veio uma moura torta buscar água, e vendo na água o retrato de uma moça tão bonita, pensou que fosse o seu e pôs-se a dizer: "Que desaforo! Pois eu sendo uma moça tão bonita, andar carregando água…!" Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou um repelão muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez; mas na fonte fez o mesmo, e quebrou o outro pote. Terceira vez fez o mesmo, e a moça, não se podendo conter, deu uma gargalhada.

A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: "Ah! É você, minha netinha!… Deixe eu lhe catar um piolho". E foi logo trepando pela árvore arriba, e foi catar a cabeça da moça. Infincou-lhe um alfinete, e a moça virou numa pombinha e avoou! A moura torta então ficou no lugar dela. O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: "O que quer? Foi o sol que me queimou!… Você custou tanto a vir me buscar!"

Partiram para o palácio, onde se casou. A pombinha então costumava voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: "Jardineiro, jardineiro, como vai o rei, meu senhor, com a sua moura torta?" E fugia. Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prendê-la, mas a pombinha não caiu. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal, um de visgo, e ela caiu. Foram levá-la, que muito a apreciou. Passados tempos, a moura torta fingiu-se pejada e pôs matos abaixo para comer a pombinha. No dia em que deviam botá-la na panela, o rei, com pena, se pôs a catá-la, e encontrou-lhe aquele carocinho na cabecinha, e, pensando ser uma pulga, foi puxando e saiu o alfinete e pulou lá aquela moça linda como os amores. O rei conheceu a sua bela princesa. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos lascada pelo meio.

(Versão de Sílvio Romero, publicada em Contos populares do Brasil)


la schiava nera
Ilustração de Warwick Goble para a versão inglesa do Pentamerone 

Nota à versão colhida em Serra do Ramalho Bahia e reproduzida no livro Contos e fábulas do BrasilA Moura Torta é um conto que só não se espalhou pelos quatro cantos da Terra porque esta é redonda. Sílvio Romero e Câmara Cascudo divulgaram versões muito conhecidas. A nossa variante aproxima-se da versão de Romero no tocante à quantidade de fi lhos do rei, três, com a sorte invariavelmente sorrindo para o caçula. Como na versão de Câmara Cascudo, o herói recebe três laranjas de uma velhinha, que desempenha a função de “doador mágico”. Ressalte-se ainda em nosso conto a jocosidade por meio da sede pantagruélica da princesa, que salta da laranja onde estivera, por conta de um feitiço, aprisionada, e do engano da Moura Torta, que julga ver no refl exo da princesa seu rosto desagradável. Segue-se o encanto da princesa em pomba, por meio de um alfinete mágico (“envenenado”), um motivo oriental presente nas Mil e uma noites. Original em nosso conto é o apêndice, que não consta de nenhuma variante conhecida e é motivo de riso para as crianças. Ítalo Calvino, nas Fábulas italianas, redigiu O amor das três romãs, citando como a mais antiga versão literária I tre cedri (As três cidras), do Pentamerone de Giambattista Basile. Afanas’ev recolheu, na Rússia, A pata branca, onde a metamorfose da princesa em ave se dá após esta banhar-se numa fonte, por instigação de uma feiticeira, que assume o seu lugar, até a descoberta do malefício e o castigo final. A noiva branca e a noiva preta, dos Grimm, com a heroína enfeitiçada em uma “patinha branca como a neve”, aproxima-se da versão russa.

(Marco Haurélio)

Capa de Jô Oliveira para edição da Queima-Bucha, de Mossoró

Trecho da versão em cordel:

Oh, Deusa da poesia,
Meu verso agora te exorta,
Do Reino da Inspiração
Abre-me a sagrada porta
Para eu versar a famosa
História da Moura Torta.

Num reino muito distante
Houve um monarca afamado,
Pai de três belos rapazes,
Orgulho do tal reinado.
O rei, por possuir tudo,
Vivia bem sossegado.

Porém o filho mais velho,
Que se chamava Adriano,
Certo dia foi ao pai,
Com um desejo insano
De conhecer outras terras,
Além das do soberano.

O rei lhe disse:  Meu filho,
Aqui não lhe falta nada...
O mundo, pra quem não sabe,
É uma grande cilada;
Tire da sua cabeça
Esta ideia tresloucada.

O moço disse:  Meu pai,
Já escolhi meu roteiro.
O rei lhe disse: - Então vá,
Mas tem de escolher primeiro:
Muito dinheiro sem bênção,
Muita bênção sem dinheiro.

Disse o moço:  Bênção não
Enche o bucho de ninguém!
Não sou doido de sair
De casa sem um vintém.
Eu quero é muito dinheiro,
Pois bênção não me convém.

O rei deu para o rapaz
A sua parte da herança.
Ele saiu pelo mundo,
Sem achar que fez lambança.
Na embriaguez da orgia
Gastou tudo sem tardança.

Assim, voltou para a casa,
Muito roto e maltrapilho.
O rei, que era bondoso,
Inda recebeu o filho;
Porém o filho do meio
Quis seguir no mesmo trilho.

O filho do meio tinha
O nome de Cipião;
Este também foi ao pai
Para pedir permissão
Pra conhecer outras terras
Além daquela nação.

O moço disse:  Meu pai,
Agora é a minha vez.
Mas o velho disse:- Filho,
Deixe desta insensatez!
Não vá fazer mais tolice
Como Adriano já fez.

Como não o demovia,
O rei perguntou, ligeiro:
 Queres dinheiro sem bênção?
 Queres bênção sem dinheiro?
O infeliz Cipião
Fez igualmente ao primeiro.

O moço lhe disse:  Eu quero
Dinheiro em demasia,
Bênção e chuva no mar
Não têm qualquer serventia!
E sem a bênção paterna
Viajou no mesmo dia.

O rapaz pagou bem caro
O preço da imprudência,
Pois perdeu todo o dinheiro,
E, ficando na indigência,
Voltou pra casa esmoler,
Implorando ao rei clemência.

O rei recebeu o filho,
Pois tinha bom coração,
Mandou servir um banquete
Ao indigno Cipião,
Que, ao recusar a bênção,
Sucumbiu à maldição.

Passados uns onze meses,
Foi o rei interpelado
Pelo seu filho caçula,
Que estava interessado
Em conhecer outras terras
Para além de seu reinado.

Então, o jovem Hiran
Foi procurar o seu pai,
Mas ele disse: - Meu filho,
Sinto, mas você não vai,
Pois quem procura o abismo,
Tarda, mas um dia cai!...

O moço disse: — Meu pai,
Aos meus irmãos permitiste.
Se me recusares isto,
Eu ficarei muito triste
Por não conhecer o mundo
Que além daqui existe.

O rei retrucou:  Hiran,
Teus irmãos já viajaram;
Tudo a que tinham direito
Na orgia dilapidaram.
Quando estragaram tudo,
Na indigência voltaram.

Hiran disse: — Meu bom pai,
Sempre fui obediente,
Mas tenho necessidade
De correr o mundo urgente.
Contudo, eu lhe asseguro:
Desta vez é diferente.

O rei lhe disse:  Está bem,
Mas tenho de perguntar:
Tu queres muito dinheiro,
Mas sem eu lhe abençoar?
Ou vais querer muita bênção,
Mas sem dinheiro levar?

Hiran respondeu:  Meu pai,
De nada posso lucrar
Do dinheiro, se a bênção
De meu pai eu não levar.
O rei o abençoou
E o deixou viajar.

(...)

In: Marco Haurélio, Meus romances de cordel, São Paulo: Global, 2011, págs. 139-143.