segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Florentino e Mariquinha no Tribunal do Destino


Há algum tempo morando em São Paulo, no ir e vir constante da metrópole, uma história martelava na minha cabeça e uma voz interior sentenciava: “Escreva-a”. A história teria como ponto de partida um conto tradicional, O testemunho das gotas de chuva, narrado por minha avó materna, Alaíde Maria Fernandes, e reproduzido no livro Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria, 2011). Percebi, no entanto, que o conto, em sua forma original, era insuficiente para um romance em versos de fôlego. Precisava criar um enredo atraente com personagens convincentes, além de descrever os costumes sertanejos, já que a trama se desenvolve em algum recanto do Nordeste.

No enredo deste Florentino e Mariquinha no Tribunal do Destino, aparecem as festas religiosas do Brasil, como o São João e a Festa do Divino, ambas de origem pagã, ligadas a tradições vetustas que envolviam ritos da fertilidade e sacrifícios propiciatórios. O fatalismo árabe presente neste romance é o leitmotiv de romances de cordel como Os Três Conselhos da Sorte, de Manoel D’Almeida Filho, A Triste Sorte de Jovelina, de Sátiro Xavier Brandão, e o meu Os Três conselhos Sagrados.

O enredo, em sua parte final, apoia-se no motivo universal da “natureza denunciante”, estudado e transformado em ciclo pelo mestre maior dos estudos etnográficos no Brasil, Luís da Câmara Cascudo. Há um intertexto com a obra basilar do cordel, O cachorro dos mortos, do pioneiro Leandro Gomes de Barros, que se insere, assim como esta, na tradição milenar dos romances trágicos, aos quais o Nordeste brasileiro imprimiu novo significado com o drama do cangaço, as tocaias nas encruzilhadas e os crimes de “honra”. Tudo isso envolvido pela crença em uma justiça imanente, que recusa os sacrifícios injustos e pune os que violam os domínios da Natureza, outrora deificada.

Eis o início desta história, que a Editora Luzeiro, a mais tradicional casa publicadora da literatura de cordel brasileira, incluiu em seu catálogo:

Escrevo histórias rimadas
Desde os tempos de menino,
E agora conto mais uma
No meu verso genuíno:
Florentino e Mariquinha
No Tribunal do Destino.

Meus versos fazem parada
No Reino da Inspiração
Para recontar um drama
Passado no meu sertão,
Mostrando que um crime bárbaro
Não ficou sem punição.

Na fazenda Boqueirão,
Um recanto do Nordeste,
Vivia o Zé Florentino,
Espírito rude e agreste.
Que na labuta da roça,
Superava qualquer teste.

Órfão de pai e de mãe,
Cansaço não conhecia.
Para prover seu sustento,
Trabalhava todo dia
E do suor do seu rosto,
Com todo orgulho vivia.

E uma estrofe-síntese, que faz lembrar a antiga noção de Justiça, chamada pelos  gregos de Têmis, presente no título deste romance:

E mesmo que a lei dos homens
Perca o rumo, perca o tino,
Há leis que foram traçadas
Por um decreto divino
E os crimes serão julgados
No Tribunal do Destino.

Dados da obra:

Autor: Marco Haurélio 
ISBN: 978-85-7410-111-8 
Formato: 13,5 x 18 cm 
Páginas: 32

Para adquirir mais este lançamento da Luzeiro, clique AQUI.




domingo, 22 de julho de 2012

Semana dos Cordelistas em Serra do Ramalho

Dia 27, o município de Serra do Ramalho, onde passei a maior parte da minha vida, será palco privilegiado para a Literatura de Cordel. Além, do lançamento de uma antologia que contempla poetas dos municípios banhados pelo Velho Chico e convidados, o evento misturará poesia, teatro e música com o que de melhor a alma brasileira pode oferecer.

Abaixo a programação do evento coordenado por Cléber Eduão Ferreira:

27 de Julho/2012 (Sexta-Feira)
Serra do Ramalho - BA (Agrovila 9)
Local: Centro Cultural Luiz Eduardo Magalhães (Próximo do Colégio Castro Alves)

PROGRAMAÇÃO:

14:30 - Palestra com o poeta e pesquisador Marco Haurélio

16:00 - CIA de Teatro Mistura de Ibotirama (Peça A Chegada de Lampião
no Céu e no Inferno em Cordel)

20:00 - Lançamento da Antologia Poética dos Cordelistas do Velho Chico com:

Entrega oficial da Antologia para as Comunidades Culturais presentes.

Recitais poéticos com: Chico Cordel, Josemário Fernandes, Reginaldo Pereira, Reizinho, Márcia Nascimento, Gilberto Moraes, Jarbas Éssi, Joilson Melo, Tuta, Pedro Antônio da Rocha, José Ornelas, Tio Tony,
André Marques, Chico Leite, Silva Dias, Zeca Pereira, Marco Haurélio, Cléber Eduão, Adherrio Lais, Cláudio Pereira, Antônio Regis, Gury Eduão, Carlinhos, dentre outros.

Cantoria com: Clendson Barreto (Violeiro), Ivan Carinhanha & Cléber Eduão, Reginaldo Belo, Paulo Araújo & Morão di Privintina, Welton Gabriel, Marcelo Nunes & Gerri Cunha (Cantoria e Forró), dentre outros.

Realização: FUNDIFRAN
Patrocínio: Edital BNB Cultural 2011 - Parceria BNDES | Banco do
Nordeste | Governo Federal

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fortaleza sedia I Feira Brasileira do Cordel



Texto: Divulgação

A Literatura de Cordel está com a corda toda. Gênero literário surgido no Nordeste,o Cordel teve em Leandro Gomes de Barros (1865-1918), paraibano de Pombal, seu primeiro grande difusor e seu criador mais ilustre. Autor de clássicos que se imortalizaram em mais de um século, a exemplo de Juvenal e o Dragão, O Cachorro dos Mortos e A Donzela Teodora, Leandro é a referência maior da atual geração de cordelistas, na qual brilham nomes como o de Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana e Marco Haurélio.

É justamente Klévisson Viana, cearense de Quixeramobim, poeta popular, editor e ilustrador, o idealizador da I Feira Brasileira de Cordel, que terá como palco o Centro Cultural Dragão do Mar, um dos mais respeitáveis espaços culturais de Fortaleza. Entre os dias 17 e 19 de julho, a capital cearense receberá alguns dos mais representativos criadores da poesia popular, entre os quais os baianos Bule-Bule e Marco Haurélio, os paraibanos Chico Pedrosa e Chico Salles, o carioca Fábio Sombra e o pernambucano Marcelo Soares. O Ceará estará muito bem representado nas vozes dos consagrados repentistas Geraldo Amâncio e Zé Maria de Fortaleza, além de rodas de declamação com Paulo de Tarso, Rouxinol do Rinaré, Francisco Melchíades, Lucarocas, Arievaldo Viana, Evaristo Geraldo e o curador do evento, Klévisson Viana.

A primeira edição da feira homenageará os cem anos de nascimento de Joaquim Batista de Sena, um dos maiores cordelistas de todos os tempos  e estarão expostos à venda folhetos e livros de várias editoras, como Tupynanquim, Nova Alexandria, Luzeiro, Conhecimento, Hedra, Coqueiro, além das entidades apoiadoras, como a ABC (Academia Brasileira de Cordel), CECORDEL (Centro de Cordelistas do Nordeste) e ILGB (Instituto Leandro Gomes de Barros).

A realização do evento se tornou possível a partir da seleção do projeto da AESTROFE (Associação de Trovadores, Folheteiros e Escritores do Ceará) pelo Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, no ano de 2010.

SERVIÇO:
I FEIRA BRASILEIRA DO CORDEL
Data: 17, 18 e 19 de julho
Horário: Das 16h às 21h30
Local: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Informações: 3217-2891 | 9675-1099
aestrofe@gmail.com

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O cordel no futebol é destaque no Globoesporte.com

Cordelistas abusam da criatividade ao retratar o futebol na literatura popular

Expressão da cultura nordestina, cordel mexe com a rivalidade dos clubes, fala de Copa do Mundo e promove clássico imaginário entre Lampião e Satanás

Por Thiago Barbosa

Aracaju


Chegaram os festejos juninos. É hora de exaltar as tradições populares, de se deliciar com as comidas típicas do período, de apreciar a arte das quadrilhas, dançar forró e ler os versos de um bom Cordel. Nos 'arraiás' espelhados pelo Nordeste, sempre há uma banquinha expondo os cordéis e poetas populares declamando suas rimas para chamar a atenção do público.


Na Literatura de Cordel, uma das maiores expressões da cultura popular brasileira, os mais variados assuntos acabam se transformando em versos. E neste São João, o GLOBOESPORTE.COM pega carona na criatividade dos cordelistas e mostra como esses poetas retratam o futebol, paixão dos brasileiros, nos folhetos de Cordel.

Futebol no inferno
Cordel é um dos mais populares do gênero (Foto: Reprodução)Cordel é um dos mais populares do gênero
(Foto: Reprodução)
Futebol é um esporte tão apaixonante que já foi praticado até no inferno. Pelo menos no imaginário dos cordelistas. José Soares, conhecido como o poeta repórter, falecido no início da década de 80, criou um folheto que narrava um clássico inusitado, realizado 'nas profundas', entre o time de Satanás, os donos da casa, e a esquadra de Lampião, o Rei do Cangaço.
As divertidas estrofes contam que houve duas partidas, com uma vitória para cada lado. Precisava-se então de uma terceira, a do desempate.
"Lampião ganhou um turno
Satanás outro também
no Domingo que passou
empataram em cem a cem
agora melhor de três
vai ser Domingo que vem".
Eis a grande confusão. Os rivais, reconhecidos pela valentia e tirania, travaram um embate antecipado por causa da data do jogo e da escolha da arbitragem. A 'CBF do Inferno' teve que intervir no impasse.
"O jogo era quarta-feira
porém Lampião não quis
além disso ele só faz
o que lhe vem ao nariz
e por isso o pau cantou
na escolha do juiz.
Porque satanás queria
que o juiz fosse Cancão
e essa escolha também
não agradou Lampião
que ficou mais irritado
do que cavalo do cão.
A CBF do inferno
quis suspender o torneio
porém a rádio profundas
opinou para um sorteio
já dizem que na loteca
vai dar coluna do meio".
Assim como muitos jogadores do mundo real, os boleiros do inferno também possuem nomes estranhos, como mostra a escalação:
"O goleiro do inferno
chama-se Dr. Buçu
o beque central Peitica
o volante é Papacú
para ser o quarto zagueiro
estão procurando tú
O tripé de meio campo
tem o diabo Rabichola
o ponta direita é Bimba
na esquerda Caçarola
o armado é cão côxo
que é Côxo mais joga bola.


Vejam só a escalação
do time de Lampião
Curisco, Chapéu de couro
Maritaca e Capitão
Sucuri e Pé de Quenga
Tarraspado e Tira a Mão".
'Futebol no Inferno' fez tanto sucesso nas páginas dos folhetos que ganhou musicalidade na voz e no pandeiro da dupla Caju & Castanha. Os emboladores gravaram em repente o 'clássico das profundas'.
- Uma outra dupla já havia gravado o Futebol no Inferno. Nosso produtor ouviu e sugeriu que gravássemos também, pois seria sucesso garantido. Dito e feito. Foi um dos discos que mais venderam e vendem até hoje. Onde quer que vamos o povo pede para cantar. Ai da gente se não cantar (risos). É legal porque todos adoram futebol e acham engraçada essa partida inusitada - disse Castanha ao GLOBOESPORTE.COM.
Caju&Castanha fazem sucesso versando sobre futebol (Foto: Divulgação/Assessoria de Imprensa)Caju & Castanha fazem sucesso versando sobre futebol (Foto: Divulgação/Assessoria de Imprensa)
O futebol é um instrumento inesgotável de inspiração para os cordelistas. Boa parte deles usa do bom humor para tratar dos assuntos do mundo da bola. A própria dupla Caju & Castanha explorou bem a rivalidade dos times.
- Nós fizemos vários cordéis em forma de embolada, com desafio entre torcedores de times rivais. Teve Ba-Vi, Gre-Nal, Santa Cruz e Sport, Corinthians e São Paulo e vários outros. Sempre quando falamos sobre futebol a aceitação do públlico é boa - disse Castanha.
O mais conhecido do público é o de Corinthians e São Paulo, que reproduz uma discussão quente entre dois torcedores, cada um defendendo a sua bandeira.
"O Corinthians é da ralé
É um time de maloqueiro
Esse tal de 'Zé Povinho'
Picareta e trambiqueiro
Favelado, indigente,
Pé rapado e cachaceiro.
São paulo é refrigerado
Falta marcha e não me engano
Usa brinco de argola
Pois só vive rebolando
Não tem homem no São Paulo
E chamam um Corintiano".
Cordel fez crítica às torcidas organizadas (Foto: Reprodução)Cordel fez crítica às torcidas organizadas
(Foto: Reprodução)
Crítica social
Além do bom humor, os cordelistas retrataram também a crítica social na poesia popular. O racismo no futebol e a violência de algumas torcidas organizadas serviram de inspiração para os autores.
Um dos mais emblemáticos sobre a insegurança nas arquibancadas é o 'Torcida Organizada, Violência Anunciada', do cordelista radicado em Salvador Antônio Carlos de Oliveira Barreto. O folheto faz duras críticas aos que frequentam estádios de futebol para semear um comportamento violento.
"Manifestação de ódio
De torcedores rivais
Aos poucos tiram do estádio
Aqueles que prezam a paz.
Parece até que os fanáticos
Se transformam em animais!"
Em seguida, o autor dá bons exemplos nas estrofes de como deve ser o comportamento da torcida nos estádios.
"Devemos reconhecer
que a torcida organizada
tem o seu grande valor
quando conscientizada,
mas para isso é preciso
de gente civilizada.
A torcida organizada
Também pode pressionar
À direção do seu time
Podendo então opinar.
Basta que todos aprendam
O verbo dialogar".
O caso policial que repercutiu em todo o Brasil, envolvendo Bruno, ex- goleiro do Flamengo, também ecoou nos folhetos de cordel. Nas estrofes, o cordelista Isael de Carvalho dá a sua versão sobre o fato ocorrido.
"Bruno com seus amigos
Em ato que traz repúdio
De forma vil e cruel
Matou Eliza Samudio
Como em filme de terror
Produzido num estúdio".
Cordel retrata história das copas (Foto: Reprodução/Editora Luzeiro)Cordel retrata história das copas
(Foto: Reprodução/Editora Luzeiro)
Copa em cordel
A Copa do Mundo também serviu de tema para a Literatura de Cordel. Vários poetas dedicaram suas rimas para falar do maior evento do futebol. Em 2006, J. Victtor fez um manual da copa, falando dos grupos e das chances de cada seleção, também com pitadas de bom humor.
"Com a Coréia do Sul,
a França tome cuidado:
dizem que um jogador
é todo falsificado,
mas não se sabe quem é
quando estão lado a lado".
Manoel D'Almeida Filho, um dos maiores cordelistas brasileiros, escreveu um folheto em homenagem ao Tri no México. Mais recentemente, um selecionado de poetas populares produziu um cordel coletivo que conta a história das Copas do Mundo. Cada poeta escreveu sobre uma edição do Mundial.
Um dos autores foi o cordelista e pesquisador Marco Haurélio, que tratou sobre o pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo de 2002, na Coréia e no Japão.
- No capítulo da Copa de 2002 preferi usar um tom mais crítico. Geralmente os cordéis sobre futebol se enquadram no estilo circunstancial, tem prazo de validade curto, pois retratam assuntos da atualidade. À exceção desses cômicos, que também fazem sucesso - disse o poeta.
Com humor, crítica social ou boa dose de história, os cordelistas mostram que são craques nos versos e batem um bolão no quesito criatividade. Em cada folheto criado, marcam um gol de placa e provam que Cordel e Futebol sempre podem fazer uma tabelinha de qualidade.
Fonte: Globo Esporte (site)
Nota do blog: Esta matéria, assinada pelo jornalista sergipano Thiago Barbosa, foi destaque, no sábado na página nacional do Globo Esporte.

domingo, 24 de junho de 2012

Todo tempo é muito pouco para saudar Gonzagão


Mote e glosas: João Gomes de Sá


O povo todo conhece
A vida do viajante
Esse cavaleiro andante
 O Brasil jamais esquece;
 E todo mundo agradece
Com afeto e gratidão,
Pois cantou tanto baião;
 Não gripou nem ficou rouco,
Todo tempo é muito pouco
Para saudar Gonzagão!

Sua sanfona encantada
Acalentou boiadeiro
Correu pelo mundo inteiro,
Iluminou muita estrada;
Sua asa branca embalada
Virou a nossa canção,
No meio da multidão
Só não ouve quem é mouco
Todo tempo é muito pouco
Para saudar Gonzagão!

Não disse adeus a ninguém
Porque nunca foi embora
Pois na verdade, ele mora
Num ranchinho qu’ele tem.
A sua voz foi além
De território e nação
Cantando no São João,
Quem é que não fica louco?
Todo tempo é muito pouco
Para saudar Gonzagão!


Nestes festejos juninos e em qualquer evento que lembre uma sanfona
um triângulo e uma zabumba - impossível não rememorar Luiz Lua do Sertão Gonzaga!
Segue minha singela homenagem!
Um abraço a todos e nossa gratidão ao Rei do Baião!

João Gomes de Sá

sábado, 23 de junho de 2012

Leandro Gomes de Barros e Rouxinol do Rinaré inauguram nova série na Nova Alexandria

A nova série de livros infantojuvenis da Editora Nova Alexandria traz, como títulos inaugurais, dois clássicos da literatura de cordel brasileira: a História de Juvenal e o Dragão, do pioneiro Leandro Gomes de Barros, e O Guarda-Floresta e o Capitão de Ladrões, do poeta contemporâneo Rouxinol do Rinaré. Os dois trabalhos trazem ilustrações em cores  de Eduardo Azevedo.

Mais informações abaixo:
História de Juvenal e o dragão

Escrita por Leandro Gomes de Barros, no início do século XX, a História de Juvenal e o dragão tornou-se modelo de narrativas posteriores, como João Terrível e o dragão vermelho, de Antônio Alves da Silva, João Corajoso e o dragão de três cabeças, de Joaquim Batista de Sena, e João Acaba-Mundo e a serpente negra, de Minelvino Francisco Silva. Alguns versos do romance de Leandro tornaram-se coletivos, a exemplo de “Quando foi no outro dia”, “Como um raio abrasador” etc. e são encontrados em outras narrativas do cordel. 

A princípio, a inspiração do poeta parece vir do conto Henrique e os três cães, da coletânea de Figueiredo Pimentel, Contos da Carochinha, publicada pela primeira vez em 1896. As raízes do conto, no entanto, são muito antigas e estão presentes no mito de Perseu e Andrômeda e em outras narrativas mitológicas, como exemplifico abaixo. O dragão é, segundo Vladímir Propp, “uma das figuras mais complexas e mais enigmáticas do folclore e das religiões do globo”. Na mitologia grega, é o adversário — derrotado — de heróis como Hércules e Jasão. Ainda na Grécia, Apolo mata a serpente Piton e, no Egito, Hórus, filho de Osíris, derrota Tifon, assassino de seu pai. Alguns mitólogos e estudiosos do folclore interpretam a derrota do dragão por estas divindades como a vitória da luz contra as trevas, isto é, do dia contra a noite. Vale lembrar que, em seus países, Apolo e Hórus eram deuses solares. Daí viriam expressões como “boca da noite”, conservada pela memória popular. 

O mesmo Propp, analisando nos contos tradicionais russos o motivo dos tributos do dragão, descreve uma situação bem próxima à narrada por Leandro: “o herói chega um país estrangeiro, vê ‘todas’ as pessoas tão tristes, e de eventuais transeuntes fica sabendo que todos os anos (todos os meses) o dragão exige como tributo uma jovem, e que agora é a vez da filha do rei”. A lenda de São Jorge deriva também deste motivo universalmente difundido.   A palavra dragão vem do grego draco e significa “serpente”. Esta palavra aparece quatro vezes na História de Juvenal e o dragão, a exemplo desta estrofe:   

O moço era destemido,  
Com seu cachorro valente,  
Eles dois incorporados,  
Lutando com a serpente.  
Juvenal no ferro frio  
E o cão fiel pelo dente.   

Aparecem ainda no romance os auxiliares mágicos do herói, representados por três cachorros, e o impostor que, fazendo-se se passar pelo vencedor do dragão, reivindica a mão da princesa.   A publicação deste clássico da literatura de cordel brasileira, enriquecido com ilustrações e vinhetas de Eduardo Azevedo, é uma homenagem que a editora Nova Alexandria, que publica a premiada coleção Clássicos em Cordel, presta a Leandro Gomes de Barros, herói desbravador da seara da poesia popular, homenageado e aplaudido por nomes como Mário de Andrade, Ariano Suassuna e Carlos Drummond de Andrade.

O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões

Rouxinol do Rinaré integra a geração de cordelistas surgida na última década do século passado, responsável pelo ressurgimento do gênero romance na poesia popular. Por romance, os autores de cordel definem as narrativas de fôlego, inspiradas na tradição oral ou criadas pelos artesãos do verso. Alguns cordéis desse gênero têm 16 páginas, a exemplo dos clássicos Romance da princesa do Reino do Mar Sem Fim, de Severino Borges, e Romance de João Cambadinho e a princesa do Reino de Mira-Mar, de Inácio Carioca. Desde Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), o popularizador da tradição dos romances autorais no cordel, passando por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o grande sistematizador e responsável pelo início da editoração profissional, o romance tornou-se o gênero nobre dentre os poetas do povo.

O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões, publicado originalmente em folheto pela Tupynanquim Editora, em 2006, é uma homenagem que Rouxinol presta aos mestres do cordel, em especial ao pernambucano Delarme Monteiro da Silva (1918-1994), sua principal referência. A história é uma versão poética do conto homônimo lido em uma coletânea chamada Pérolas esparsas, sem indicação de autoria, ainda na infância, passada na zona rural de Quixadá, sertão cearense. O enredo gira em torno da atuação de Frede, um Guarda-Florestas implacável no cumprimento de seu dever, conforme lemos nesta estrofe:

Num certo reino da Prússia,
Há muito tempo passado,
Residia um cidadão
Num bosque bem afastado,
Tendo a missão de guardar
As florestas do reinado.

Seu principal inimigo  é o Capitão de Ladrões, a quem persegue obstinadamente:

O Capitão de Ladrões,
Como era conhecido,
Atacava com as sombras,
Passava o dia escondido.
Tornou-se questão de honra
Capturar o bandido.

Há ainda outros personagens, como Hilda, esposa de Frede, que desempenhará um papel fundamental nos momentos de maior tensão do romance. À maneira de muitos contos populares, encontramos, nesta obra, o drama da queda — simbolizado pela atitude do ladrão — e da redenção, quando este, enfim, resolve dar um novo sentido à sua existência. No cordel, há similares na História de Roberto do Diabo, de Leandro Gomes de Barros, e em Dimas, o Bom Ladrão, cuja autoria é atribuída a Francisco das Chagas Batista. Rouxinol do Rinaré, portanto, revisita a tradição dos grandes autores, sem perder a originalidade característica de seus versos, que estão entre os melhores de quanto já se publicou na literatura de cordel do Brasil.


Mais informações: novaalexandria@novaalexandria.com.br

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O outro lado da História

Em dez pés de martelo alagoano

Zumbi. Óleo de Antônio Parreiras























Inda guardo no arquivo da memória
O engodo dos livros escolares 
Que do herói imbatível de Palmares 
Defraudou a grandeza meritória, 
Vou mostrar o outro lado da história 
Com o brado de um povo soberano, 
Que jamais se curvou a tal engano, 
Semeado na classe dominante. 
O meu verso é navalha bem cortante 
Nos dez pés de martelo alagoano. 
 

Me recordo do príncipe altaneiro 
Dando o grito da tal independência, 
Que depois virou uma indecência, 
Alugando o Brasil ao estrangeiro. 
No meu livro, vi D. Pedro primeiro 
Retratado num gesto sobre-humano, 
Pra depois converter-se num tirano, 
Assassino cruel, escravocrata 
Defensor do castigo e da chibata 
Nos dez pés de martelo alagoano. 
 

No meu livro escolar não encontrei 
Nada acerca de Antônio Conselheiro,            
Que bradou contra o jugo traiçoeiro, 
Embutido na vil letra da Lei – 
Esperando o retorno do seu rei 
Pra pôr fim ao sofrimento humano, 
Bastião, o guerreiro lusitano, 
Da estirpe de Aquiles e Roldão, 
Transformai este mar em um sertão 
Nos dez pés de martelo alagoano. 
 

Enfrentando o raio e a procela, 
Desbravando o mar desconhecido, 
Transportando um povo embrutecido, 
Vai surgindo bonita caravela, 
Com a morte sinistra, dentro dela, 
Atracou neste solo Americano, 
Invadido por um tropel insano, 
Que irão se chamar descobridores, 
Urubus imitando beija-flores 
Nos dez pés de martelo alagoano. 
 

No meu livro, eu vi em outra parte 
Os valentes e fortes bandeirantes, 
Corajosos e bravos viajantes, 
Descendentes do deus romano Marte - 
Mas agora eu digo com minha arte: 
A mentira causou enorme dano; 
Foram eles um grupo desumano; 
De ladrões, covardes, homicidas. 
Eu os chamo “bandidos, genocidas” 
Nos dez pés de martelo alagoano. 
 

Admiro Castro Alves, o poeta 
Que lutou contra a vil escravidão, 
Tiradentes, emblema da nação, 
Que morreu sem trair a sua meta, 
Conselheiro, pra nós, é um profeta 
Expressando seu verbo soberano, 
Chico Mendes, o grande ser humano, 
Defensor da floresta e da vida. 
Peço a Deus que a todos dê guarida 
Nos dez pés de martelo alagoano.
(Musicado pelo poeta e intérprete João Gomes de Sá)
Nota: Gênero tradicional da cantoria de viola, aproveitado excepcionalmente pela literatura de cordel, o martelo alagoano tem esquema de rima A B B A A C C D D C. Na música popular, foi reaproveitado pelo cantor e compositor pernambucano Alceu valença. A faixa "Martelo alagoano", que faz parte do antológico álbum Cavalo de pau, traz estrofes como a abaixo reproduzida, que homenageia os grandes nomes da cantoria de viola do Nordeste:

Da cidade de Campina e do Monteiro
De Passira Panelas e Ingazeira
São José do Egito Capoeira
é viola é ganzá e é pandeiro
Salve Dimas e Pinto do Monteiro
Lourival trocadilho sobre-humano
Vitorino o teu verso tem bom plano
Oliveira Castanha e Beija-Flor
e Mocinha de Passira é um condor
nos dez pés de martelo alagoano.

domingo, 17 de junho de 2012

Meus folhetos de cordel


Recebo muitos e-mails solicitando títulos de minha autoria para compra. Os livros são encontráveis nas principais livrarias. Mas os folhetos e livretos de cordel, à venda em bancas de jornal ou de folhetos tradicionais, não são encontrados com a mesma facilidade. Um site, pelo menos, tem quase todos os meus títulos tradicionais à venda. É o Magazine Gibi, coordenado por Wanderson Nicoló. Nele, o leitor encontrará uma ampla gama de folhetos e livros, de autores clássicos e contemporâneos. Vale uma visita.