sábado, 15 de setembro de 2012

Cordel e cultura popular no projeto Literatura Viva


Entre os dias 12 e 14 de julho, visitei as unidades do SESI das cidades de Barra Bonita, Igaraçu do Tietê, Bariri e Brotas, onde proferi palestras dentro do projeto Literatura Viva. Além do encontro com alunos dos Centros Educacionais, pude constatar como a literatura de cordel vem sendo (bem) trabalhada nas escolas. Trabalhei também com outro polo, o Folclore, a partir de leituras do livro que batizou as atividades, Contos e Fábulas do Brasil (Nova Alexandria). Os livros infantis Os três porquinhos em cordel (Volta e meia), A lenda do Saci-Pererê em cordel (Paulus), além do infantojuvenil Contos folclóricos brasileiros, fizeram muito sucesso.

Apresentei, ainda, em primeira mão, textos inéditos e, pela ótima receptividade, animei-me a levá-los ao prelo. Os textos marcam o ponto em que o cordel encontra o folclore, o qual denomino O Abraço da Tradição.

A todos, alunos, professores, coordenadores, bibliotecários, que me receberam, a minha eterna gratidão.

Em Barra Bonita, abrindo a maratona pelo interior de São Paulo.


Lendo um cordel inédito.

Em Igaraçu do Tietê, segunda parada no Literatura Viva.

Lendo o conto "A festa no céu", versão do livro Contos folclóricos brasileiros.

Hora de ouvir as perguntas.
As estripulias do Saci em cordel.

Pausa para foto com as crianças.
Terceira parada: Bariri.
Em Bariri, nas asas do cordel.

Trabalhos desenvolvidos por alunos do Ensino Médio em Bariri.
A lenda do Saci-Pererê, sucesso também em Brotas.
Autógrafos para a turma.
Com a equipe da coordenadora Andrea Bortolani.

Em meados de setembro,
Pelo SESI fui chamado
Para proferir palestras
No interior do estado,
Fui a quatro municípios
E voltei revigorado.

Primeiro em Barra Bonita,
Onde fui bem acolhido,
Depois em Igaraçu
Do Tietê recebido,
Pude ver belo trabalho
No C.E. desenvolvido.

Depois fui a Bariri,
Terra de grande beleza,
De lá segui para Brotas,
Onde pude ter certeza
Que ainda há neste mundo
Espaço pra gentileza.

Portanto, agradeço a todos,
Pois é isso que motiva
Este aprendiz de poeta
Que mantém a fronte altiva.
Um viva a todos que fazem
O Literatura Viva!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Cordel na estrada

Palestra em Serra do Ramalho
Tenho encontrado certa dificuldade para atualizar este blogue. O tempo tem sido escasso, por conta das muitas atividades e, também, dos projetos já engatilhados.
Chico Pedrosa em ação na I Feira Brasileira do Cordel.
Início da oficina no Centro Cultural Dragão do Mar.
Oficina de xilogravura com o mestre Marcelo Soares.
Cordelistas que abrilhantaram o evento. 
Mesmo assim, farei referência a algumas destas andanças, como a ida a Fortaleza, para participar da I Feira Brasileira de Cordel, concebida e organizada por Klévisson Viana, ocasião em que reencontrei muitos amigos e passei noites muitos agradáveis na companhia de mestres como Marcelo Soares e Bule-Bule.
Cléber Eduão apresenta a antologia.



Zeca Pereira em ação.
Caravana da UNEB- Campus VI, sob a batuta de Rogério Soares.
Público prestigia o recital em Serra do Ramalho.

Depois, fui a Serra do Ramalho, município baiano onde passei boa parte de minha vida. Lá, em 1987, escrevi o meu primeiro cordel publicável, O Herói da Montanha Negra. E, em 2005, durante o período que chamo de retomada, escrevi, ainda em Serra, Os Apuros de Chicó e astúcias de João Grilo e as Três Folhas da Serpente. Pois bem, foi lá, dia 27 de agosto, em evento apoiado pela  Fundifran, que se deu o lançamento da Antologia de Cordelistas do Velho Chico, organizada pelo cantador e poeta Cleber Eduão. Sucesso absoluto de público e crítica.
Banners reproduzem xilos de João Gomes de Sá.
Aldy e Bá fazendo história.
Eufra Modesto e seus causos mirabolantes.

Frei Varneci Nascimento e o catálogo da Editora Luzeiro.

Mais recentemente, no dia 16 de agosto. retornei a Lençóis Paulista, onde, em 2010, ministrei uma oficina, para participar do Salão da Literatura de Cordel, evento concebido por João Gomes de Sá. Pela bela cidade, berço do escritor Orígenes Lessa, passaram nomes como Costa Senna, Frei Varneci Nascimento, Cacá Lopes, Aldy Carvalho & Bá, Eufra Modesto, além do próprio João. O apoio da diretoria de Cultura do município, sob a batuta de Nilceu Bernardo, foi fundamental para o êxito da iniciativa. Foi um evento memorável, com ampla repercussão na imprensa. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O fantasma que pede boleia

A Moça que Dançou Depois de Morta, folheto de J. Borges.


O Cordel Atemporal, orgulhosamente, publica um texto, enviado via Facebook, pelo pesquisador português e grande amigo José Joaquim Dias Marques, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Faro, Portugal:



Em lembrança da tua dupla atividade de grande coletor de literatura oral e de excelente cordelista [os interessados podem ver a tua página no FB], aqui te deixo uma versão duma CANTIGA NARRATIVA que recolhi da TRADIÇÃO ORAL, embora provenha de um folheto de CORDEL que, de tão famoso, acabou por entrar na oralidade.O curioso é que esse folheto é a versificação (feita por algum autor tradicionalista, talvez um dos cegos cantores que, de terra em terra, cantando e vendendo folhetos, percorriam Portugal, até à década de 70 do séc. XX) duma LENDA, em prosa, que existiu e continua a existir na tradição oral portuguesa e... na de meio mundo. Trata-se da famosíssima lenda conhecida em inglês com o título de _The Vanishing Hitchhiker_, a que se poderia chamar em português _O Fantasma que Pede Boleia/Carona_ 


A expansão desta lenda em todos os continentes mostra que ela é bem antiga, e, de facto, existe até uma sua versão, sueca, registada num manuscrito de 1602. E, tal como não é exclusiva (bem longe disso!!) da tradição portuguesa, também a sua transformação em canção não se fez só em Portugal. Aliás, no meu FB postei, em 10/7, uma canção "pop" norte-americana que consiste, também ela, na versificação de um texto desta lenda.

Aqui fica, pois, a versão da cantiga narrativa portuguesa, que recolhi a 22/1/2004 (e depois, novamente, a 8/7 do mesmo ano) de Filipa Faísca de Sousa, de 69 anos, da aldeia do Borno, freguesia de Querença, concelho de Loulé, distrito de Faro.

É mesmo para admirar
o que no Porto se passou:
uma morta a bailar
com o seu par a dançar
toda a noite ela dançou.

No baile até de madrugada,
aquela rapariga ali dançou,
de mãos e cara gelada,
quase sempre muito calada,
até que o baile terminou.

— São horas de me retirar,
a hora vai-se chegando.
(dizia para o seu par)
Não me posso demorar,
por mim estão esperando.

Saíram juntos para fora,
e um fresco vinha do rio.
— Sendo tarde, a esta hora,
levo a menina aonde mora,
neste caminho sombrio.

Que fresquinho, meu amor,
nos está a acompanhar.
— Não tem frio o senhor?
Pois eu não tenho calor,
tenho o corpo a arrepiar.

— Se a gabardine quer vestir,
empresto-a com todo o gosto.
— Obrigadinha — a sorrir.
Sem desconfiar, sem sentir
quem seria aquele rosto.

Logo que à porta chegava,
do rapaz se despedia,
e ela lhe perguntava
se a gabardine deixava,
para ir buscar no outro dia.

E assim se sucedeu.
Voltando no outro dia,
logo que à porta bateu,
uma mulher apareceu,
perguntando o que queria.

— Ontem à noite acompanhei
uma rapariga até aqui,
com quem no baile dancei,
e uma gabardine emprestei,
que ao pedido cedi.

— Na porta está enganado.
E disse-lhe o nome seu.
— O senhor está equivocado:
há tanto tempo passado
que essa rapariga morreu.

E o retrato lhe mostrou
da filha que lhe morreu.
E ele então confirmou
que era aquela com quem dançou,
era mesmo o retrato seu.

Foi ao cemitério e viu
a gabardine estendida.
Puxou-a, mas não saiu,
e umas mãos frias sentiu
daquela alma perdida.

Tenda de Cordel da Mostra Chapéu de Palha é destaque em São Paulo



Nos dias 25 e 26, a Literatura de Cordel teve como palco o Vale do Anhangabaú, como parte do evento que homenageou o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, no ano de seu centenário.

No palco principal, artistas como Dominguinhos e Elba Ramalho, relembraram os maiores sucessos do grande porta-voz do Nordeste.

Pela Tenda de Cordel passaram cordelistas, repentistas e músicos, sob a batuta dos produtores Sergio Silva e Telma Queiroz.

O sucesso da iniciativa pode ser conferido nas imagens abaixo:

Cacá Lopes, cantor, cordelista e folheteiro.
Com Costa Senna e o grande aboiador Zé de Zilda.
Fatel Barbosa, cheia de ginga e de graça.
Com Gregório Nicoló e Darlan Ferreira.
João Gomes de Sá em sua lida de menestrel.
Cleusa Santo botando banca.
Aldy Carvlho e seu "Preguiçoso".
Frei Varneci, João e Cacá Lopes.
Clô Peroni, Telma e Erick Silva.
Com Eufra Modesto, contador de causos.
Sapiranga da Bahia fotografado por Mazé "Gomes de Sá" Freitas.
Mazé, agora atuando como folheteira.
Genival Lacerda, Darlan, Fuba de Taperoá, Téo Azevedo e eu.
Fernanda Ortega, Socorro Lira e Pedro "Chicó" Monteiro.
Darlan com mestre Dominguinhos.
Moreira de Acopiara relembra o sertão que o viu nascer.
Vejam em que se inspiraram os idealizadores do palco Lua.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Clássico romance de cavalaria ganha versão luxuosa em cordel


A Literatura de Cordel, da forma como a conhecemos, nasceu no Nordeste, no final do século XIX. Basicamente obra de dois poetas nascidos no sertão paraibano, Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), o cordel tornou-se a leitura favorita, se não a única, de um grande número de leitores.

Estabelecidos no Recife, Leandro e Pirauá difundiram a poesia por todo o Nordeste, atingindo, ainda, outras regiões, como a Amazônia.  

Muitos foram os temas abordados pelo romanceiro nordestino: dos contos de encantamento às histórias de luta, passando pela epopeia do cangaço. Um tema não tão explorado, mas igualmente emblemático, é o romance de cavalaria. Até nisso há o pioneirismo de Leandro Gomes de Barros, que levou para o sertão a gesta de Carlos Magno, refundida em duas narrativas clássicas: A batalha de Oliveiros com Ferrabrás e A prisão de Oliveiros. A fonte remota dos dois cordéis é uma canção de gesta francesa do século XII, chamada de Fierabras. Com o tempo, o enredo original dessa composição medieval foi alterado sensivelmente, até transformar-se na História do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França (também conhecida como Livro de Carlos Magno), tradução portuguesa feita por Jerônimo Moreira de Carvalho, em 1728, de um velho romance espanhol.

Romances de cavalaria, como o célebre Amadis de Gaula e Palmeirim de Inglaterra, ainda não haviam sido adaptados para o cordel brasileiro. O motivo? Foram escritos muito tempo depois de Ferrabrás, personagem que acabou sendo abraçado pela cultura popular e se tornou figura presente nas famosas cavalhadas ao lado de outras figuras lendárias, como o antagonista Oliveiros e o grande paladino dos franceses, o príncipe Roldão.

A novela Palmeirim de Inglaterra, de autoria do fidalgo português Francisco de Morais (c.1500-1572), igualmente célebre, foi lida e amada pelo povo, a ponto de Cervantes livrá-la do fogo que consumiu muitos outros romances, em cena célebre de Dom Quixote.

Foi a obra clássica de Francisco de Morais que José Santos e eu ousamos transpor para o cordel, com o auxílio luxuoso das ilustrações de Jô Oliveira. Aqui figuram personagens importantes, como Floriano do Deserto, Flérida, Dom Duardos, Miraguarda e o gigante Almourol e o próprio Palmeirim, chamados da Idade Média lendária e revividos em forma de cordel.

Sem dúvida, uma aventura.

Trechos do livro:

Os cavaleiros andantes
Contra o mal moviam guerra,
Por isso são conhecidos
Nos quatro cantos da Terra,
Como aquele a quem chamavam
De Palmeirim de Inglaterra.

Palmeirim era um guerreiro
Que nunca enjeitou contenda,
Mediu forças com gigantes
E seres de face horrenda,
Por isso acabou entrando
Para os domínios da lenda.

Com sua possante espada
E uma brilhante armadura,
Cheio de brio e coragem,
Companheiro da aventura,
Tinha no seu coração
Lugar também pra ternura.

Só que essa história precisa
Ser contada do começo,
Falando dos personagens,
Sem cometer tropeço.
Qualquer descuido que seja
Vira o cordel pelo avesso.

Seu pai era Dom Duardos,
Herdeiro do trono inglês,
Genro de outro Palmeirim,
Que também, por sua vez,
Gravou seu nome na história
Pelas proezas que fez.

Filho do bom rei Fradique,
Senhor da coroa inglesa,
Dom Duardos se casou
Com Flérida, uma princesa,
Que era rival de Afrodite
Quando se fala em beleza!

(...)

Aventuras como essas
Não veremos nunca mais,
Por qualquer ponto que seja
Das terras ocidentais.
Aplaudamos seu autor:
O Francisco de Morais.

Ao romance original
Este relato é fiel.
Marco Haurélio e José Santos,
Com louros de menestrel,
São agora Cavaleiros
Da Grã-Ordem do Cordel.

(...)


Dados da obra:
Cód FTD: 13406300
Disciplina: Literatura
Nível: Ensino Fundamental
A partir de: 5ª série / 6º ano
Recomendado: Público Juvenil
Temas abordados: Romance de cavalaria / Cavaleiros andantes / Histórias de lutas / Histórias de amores
Temas transversais: Ética / Meio ambiente / Pluralidade cultural
Gênero Literário: Cordel
ISBN: 9788532282781
Formato: 20,0 cm largura X 27,0 cm altura Páginas: 72

Para mais detalhes, vá ao sítio da FTD.

Marco Haurélio, José Santos e Jô Oliveira na Bienal do Livro  de São Paulo

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Palestra na Cortez: O Abraço da Tradição



Amigos, dia 23/08 – quinta-feira, estarei na Livraria Cortez, onde ministrarei a palestra “O abraço da tradição: cultura popular e cordel”.

Horário: 18 às 20 horas

Taxa de Inscrição: Gratuito 

Público-alvo: Público em geral

Sinopse: Atividade que visa apresentar a ponte entre o oral e o escrito, que desemboca neste grande oceano chamado Cultura. 

P.s.: a foto abaixo é de Margarete Barbosa, e foi tirada na abertura do Cordel da Cortez, dia 18.