segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Klévisson Viana e Tarcísio Garcia lançam cordel inventivo sobre santos populares

O povo tem uma maneira muito peculiar de culto, seja na tradição católica trazida pelos portugueses, desde a primeira missa rezada por frei Henrique Soares de Coimbra, em 1500, seja na relação com os orixás, herdada da África. Os oragos mais celebrados — Santo Antônio, São João, São Benedito, São Sebastião, São Francisco, Santa Luzia —, na visão do povo, se diferenciam muito dos modelos originais da tradição católica romana.  Assim, São João Batista, longe do asceta descrito pelos evangelistas, pregador inflexível e comedor de gafanhotos, é retratado como uma espécie de deus da vegetação ou da colheita, jovem e belo, em cujo dia, 24 de junho, os jovens fazem simpatias em busca do amor. Santo Antônio, de Pádua e de Lisboa, celebrado a 13 de junho, tornou-se o santo casamenteiro, vocação estranha para quem se dedicou de corpo e alma ao celibato e à causa dos mais pobres, fugindo a todas as tentações da vida mundana.

Além dos santos reconhecidos pelo hagiológio romano, há outros concebidos pela imaginação popular, sem altar nem devoção, mas vivos nas locuções tradicionais espalhadas por todo o Brasil. Foi a partir de uma pesquisa feita pelo artista plástico Tarcísio Garcia, que resultou em dez desenhos feito a bico de pena e expostos no famoso Pirata Bar, de Fortaleza, em 1989, que nasceu o presente livro. Os desenhos foram reunidos em um álbum, apresentado pelo contista cearense Moreira Campos. O álbum chegou às mãos do poeta e editor de cordel Klévisson Viana. A soma de talentos rendeu este livro em que o tratamento clássico das imagens casa perfeitamente com o humor sofisticado, mas de sabor eminentemente popular, das sextilhas compostas por Klévisson.

Quem nunca ouviu falar do santo do pau oco, referência à pessoa hipócrita, dissimulada, da expressão cuja origem está no contrabando de ouro em pó para Portugal, durante os séculos XVIII e XIX? Já a expressão santo de casa não faz milagre parece ter origem no Evangelho de São Marcos (6:4), na passagem que narra como, no retorno a Nazaré, Jesus foi alvo da desconfiança de seus conterrâneos: “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa”.

No dia de São Nunca equivale a “30 de fevereiro”, dia nenhum, data preferida pelos caloteiros e eleitores dissimulados. Para baixo todo santo ajuda indica o esforço mínimo, a falta de compromisso. Santo remédio, por outro lado, não tem conotação jocosa: refere-se ao medicamento ou à terapia que dá resultado. Santa paciência! e Santa ignorância! são locações interjetivas que destacam uma virtude e um vício, mas que, no presente caso, têm sempre efeito negativo. O proverbial “Devagar com o andor, que o santo é de barro” adverte quanto à impaciência, convidando à prudência, cautela. Já Santa Briguilina da Perna Fina parece ser criação nordestina, talvez cearense. É, para os autores, a padroeira da estética, lembrando a busca desesperada de algumas modelos por manter a forma, chegando, às vezes, à anorexia.
          
Pelas razões acima expostas, este Santuário brasileiro é um livro mais que abençoado.

Marco Haurélio

Para adquirir o livro, vá à loja da Nova Alexandria

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Fiscal despreparado impede repentistas de se apresentarem em São Paulo

Repentista Chico Pereira

Soube, pelo Facebook, que um energúmeno, despreparado para exercer a função de fiscal na Prefeitura Municipal de São Paulo, impediu que o poeta repentista Chico Pereira e outros colegas se apresentassem na praça Floriano Peixoto, em Santo Amaro. A apresentação dos repentistas faz parte da Mostra Chapéu de Palha, coordenada por Telma Queiroz, contemplada pelo Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, edição Patativa do Assaré, em 2010.

Reproduzo abaixo a Carta Aberta, redigida por Telma Queiroz, endereçada à Subprefeitura de Santo Amaro. Resistir é preciso.

Carta aberta à Subprefeitura de Santo Amaro

A Mostra Chapéu de Palha vem tornar público o ocorrido na última quinta-feira, 07/11/2013, na Praça Floriano Peixoto em Santo Amaro/SP, quando um fiscal da PMSP abordou os repentistas que lá se apresentavam, usando de tom totalmente hostil, autoritário e desrespeitoso, exigindo o fim da apresentação artística sob pena de serem confiscados os instrumentos. 

Muitas histórias ouvimos sobre a humilhação sofrida antigamente por repentistas em São Paulo que volta e meia eram presos por vadiagem. Contudo, jamais pudemos imaginar que fossemos sofrer tamanha agressão moral nos dias de hoje, menos ainda logo após a sanção da Lei 15.776, de 29 de maio de 2013 que dispõe sobre a apresentação de artistas de rua na cidade de São Paulo.

É bom frisar que o Projeto Mostra Chapéu de Palha nasceu no coração de Santo Amaro, por coincidência na mesma rua onde fica a subprefeitura! O conhecido Sr. Alberto, apologista da cultura nordestina, por mais de 10 anos realizou por conta própria encontros de cantadores que traziam público de 200 pessoas ao seu restaurante chamado Chapéu de Palha, lugar famoso entre repentistas, cordelistas e forrozeiros.

Em 2009 a idéia foi formatada como projeto cultural e já foi rapidamente contemplada pelo Ministério da Cultura no Prêmio Patativa de Assaré e agora recentemente no Edital ProAc da Secretaria de Estado da Cultura. A Tenda do Repente e Cordel Chapéu de Palha esteve presente no Anhangabaú durante a comemoração do Centenário de Luiz Gonzaga e 1º Arraiá de São Paulo e no Sesc Osasco, além de outras aparições publicas.

Em parceria com a Supervisão de Cultura da Subprefeitura de Santo Amaro desde outubro a Mostra Chapéu de Palha passou a se apresentar semanalmente no Gazebo integrando o projeto Praça Viva. Como a praça não apresenta ponto de energia até hoje, não obstante todas as semanas ser feita a promessa que um ponto de energia alí seria instalado, passamos a usar a Praça Floriano Peixoto em 31/10/2013.

E na segunda apresentação no novo local, a mesma subprefeitura que sempre conta com nossa colaboração artística e também com empréstimo de tenda e equipamento de som e ampla divulgação, nos causa tamanha tristeza e indignação.

Como até o momento não houve qualquer contato conosco, traduzindo novo descaso, a partir de hoje, 11/11/2013, ficam suspensas todas as parcerias da Mostra Chapéu de Palha com a Subprefeitura de Santo Amaro, incluindo o Natal Iluminado e ações nos equipamentos públicos culturais.

Telma Queiroz
Mostra Chapéu de Palha

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Viva a Fliporto!


Mesa mediada por Adelia Flor e Gleison Nascimento
A Festa Literária de Pernambuco, Fliporto, que terminou ontem, foi um grande sucesso. Com curadoria do escritor Antônio Campos, a Fliporto tem vários braços. Do congresso literário, que reuniu escritores do porte de valter hugo mãe e Ana Maria Machado, passando pela Eco-Fliporto, o evento, por quatro dias, muda a  face de Olinda, na histórica Praça do Carmo. 

Convidado pelo escritor Antonio Nunes, participei da Fliporto Nova Geração, no evento Papo com o Autor, no mesmo palco em que estiveram Stella Maris Rezende, Lenice Gomes, Sandra Ronca, Luiz Antonio Aguiar, Severino Rodrigues e Anna Claudia Ramos, entre outros. Ainda pude ver parte da programação da Fliporto Criança, especialmente as performances de Simone Pedersen e Alessandra Roscoe.

Passei ainda pelo espaço do cordel, que também é meu espaço, onde revi amigos queridos, conheci outros e aproveitei para aumentar a minha coleção.

Resta, agora, agradecer a todos, em especial a Antonio Nunes (Tonton) pelo convite, e à Paulus Editora, que contribuiu sobremaneira para que eu pudesse estar presente à esta edição da Fliporto. Estendo a gratidão às editoras Nova Alexandria e Cortez, que fizeram com que os meus livros que constam de seus catálogos estivessem à disposição do público.

Severino Rodrigues, jovem e talentoso escritor, com 
Dílvia Ludvichak, no estande da Paulus.

A pequena Bárbara se encantou com o João Grilo.

Com Severino e Íris Xavier, no estande da Cortez.

Com Meca Moreno, Aninha Ferraz, virada no seiscentos, 
e Davi Teixeira, eminências pardas do cordel recifense.

Luiz Antonio Aguiar, mais um presente que a Fliporto me deu.

Lendo uma das histórias do livro Contos Folclóricos Brasileiros
sob o olhar atento e a mediação competente de Adelia Flor.

Com Simone Pedersen, Vivian Zelda e Clara Haddad, 
em dose dupla (!), no estande da Paulus.

Com a querida amiga Lenice Gomes, Alexandre Camilo,
Clara Haddad, Rosa Maria, vera Nóbrega e Edmilson Lima.

Eu sou o maior só na estatura, pois ao meu lado estão 
Alexandre Moraes, Chico Pedrosa e Gonzaga de Garanhuns.

Grandes e talentosos amigos: Marcelo Soares e Abdias Campos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

JeosaFá escreve sobre Patativa do Assaré


Por JeosaFá, via blog Amplexos do JeosaFá

Org. Gilmar de Carvalho

A obra de Patativa do Assaré, edição após edição, vê as barreiras do preconceito caírem e seu público aumentar por todos os cantos do país. A linguagem moldada pela sonoridade, pela visão de mundo, pelo modo de vida – e pela viola – nordestinos, seus poemas retratam a labuta, os sentimentos e a índole dos que enfrentam os infortúnios da seca e da miséria numa região em que a violência e a injustiça social andam de mãos dadas.

Seus textos ficaram conhecidos pelo público mais amplo primeiramente na voz e na sanfona de Luiz Gonzaga, o Luiz do Baião. Composições como “Triste Partida” – rodou muito tempo pelas rádios e forrós do país e hoje, em um belo vídeo de animação, circula na televisão, nos DVDs particulares e na internet:

“Nós vamo a São Paulo
que a coisa tá feia.
Por terras aleia
nós vamo vagá.
Se o nosso destino
não fô tão mesquinho
Pro mermo cantinho
Nós torna a vortá.”

Esta Antologia Poética de Patativa do Assaré, que conta com um breve mas elucidativo estudo sobre a obra do poeta, reúne poemas na seguinte organização: "Inspiração nordestina", "Novos poemas comentados", "Cante lá que eu canto cá", "Ispinho e fulô", "Balceiro", "Cordéis", "Aqui tem coisa" e "Balceiro 2".

Com isso, o organizador Gilmar de Carvalho pretendeu oferecer ao leitor uma amostra representativa da obra desse importante poeta brasileiro que, revolvendo a terra como agricultor e animando bailes ao som da viola, fez o verso sertanejo, brotado da terra e da alegria popular, ganhar reconhecimento sob a forma impressa, muitas vezes reservada apenas a formas mais eruditas, urbanas ou elitizadas.

Abrir esta Antologia, cujos poemas são irmãos do cordel e do repente, e lê-la coletivamente em voz alta devolve vida a um texto que não nasceu para ficar preso na página feito passarinho em gaiola. Fica aqui esta sugestão.

FONTE: Patativa do Assaré. Org. e Pref. Gilmar de Carvalho. 7 ed. Fortaleza, Ed. Demócrito Rocha, 2008.

Ilustração de João Pinheiro.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

II SEMANA DO SACI NA CORTEZ

Mouzar Benedito, grande conhecedor da "mitologia brasílica", é um dos autores confirmados.
Recebi e repasso convite do meu amigo Daniel d'Andrea. As fotos acima e abaixo são do Encontro acontecido ano passado.

O Saci-Pererê talvez seja o mito mais emblemático do Brasil. Nos últimos anos houve um movimento de revalorização de sua figura a partir de numerosos trabalhos de pesquisa, livros infanto-juvenis, documentários, peças teatrais e a criação de entidades que lutam pela sua preservação e atualidade do personagem, e o estabelecimento do dia 31 de outubro, como o Dia do Saci.
Sua origem como mito secular de nossos povos indígenas, com nítida presença afro-brasileira, até sua vitalidade nos dias atuais, chama a atenção de pesquisadores, escritores e entusiastas seguidores que identificam sua permanência e contínua transformação como uma metáfora das origens do povo brasileiro e a riqueza cultural de suas matrizes étnicas.

Hoje, o Saci pode ser considerado por seu caráter peralta, brincalhão, travesso e irreverente, um aglutinador destas características da identidade brasileira, pelas quais consegue adesão e simpatia de crianças e adultos.

Celebrar o Saci é mergulhar em nossas raízes para descobrir-nos libertários, solidários, amantes da natureza, das festas populares e orgulhosos de nosso sincretismo cultural.

Convite:

Sarau do Saci na Cortez

9 de novembro – sábado, das 16:30 às 19:30 horas.

Grande encontro com a participação de autores de livros sobre o tema, contadores de histórias, apresentações musicais e artísticas em geral.

Dirigido ao público de todas as idades! Entrada livre e gratuita.

Organizador: Daniel D’Andrea - contato: 97562-2579.

Livraria Cortez

Rua Bartira, 317 – Perdizes,
São Paulo – SP.

(ao lado da PUC-SP).

O evento, no ano passado, contou com o poeta Arievaldo Viana.



terça-feira, 29 de outubro de 2013

Um encontro possível só no cordel


Grande duelo de Lampião com Zé do Telhado (Tupynanquim Editora) 
Vez em quando a literatura de cordel nos reserva uma grata surpresa. Não que mereça desprezo a grande quantidade de folhetos que surge todos os dias nesse momento alvissareiro, mas, na maioria dos casos, quando se espreme o texto, sobra muito pouco. Há um achaque dos pesquisadores de ter como parâmetro para esse ou aquele tema a quantidade folhetos editados no Brasil (impossível de calcular), pondo no mesmo balaio os bons, os maus e os feios, se me permitem a referência ao filme de Sergio Leone. Assim, lemos abobrinhas do tipo “dos milhares de folhetos editados, poucos tratam disso ou daquilo”. Imaginemos um crítico literário que  se debruça sobre os romances e, além dos clássicos e outsiders, incluem no seu inventário (a palavra aqui tem mais de um sentido) a produção de histórias baratas que infestam as bancas de revistas todo o mês! Há uma lógica, nem sempre explicável ou compreensível, que faz com que um determinado texto sobreviva aos demais. Então, por que, no caso do cordel, toda a produção deve ser medida, quando entendemos que nem tudo o que se publica com o rótulo merece o status de literatura? Ou, para não ferir suscetibilidades, de boa literatura?
Dito isso, volto-me agora para Rouxinol do Rinaré, poeta que se destaca como um dos maiores nomes de sua geração. Dele são os clássicos O Justiceiro do Norte, O Guarda-Floresta e o Capitão de Ladrões, O Matador de Dragões e História de Lampião e Maria Bonita (este em parceria com Klévisson Viana). Em sua obra, sobressaem os romances, embora campeie por outras plagas com igual desenvoltura. É por isso que, ao receber do professor Andrade Leal, grande divulgador do cordel na Bahia, a proposta de escrever uma história que juntasse os bandoleiros Zé do Telhado e Lampião, não se fez de rogado e nem se amedrontou com a premissa aparentemente absurda. Absurda porque o português José Teixeira da Silva, alcunhado Zé do Telhado por causa da localidade em que nasceu, na aldeia de Castelões de Recesinhos, despediu-se deste mundo em 1875, no exílio em Angola, pelo menos 23 anos antes que Virgulino Ferreira, o futuro Lampião, nascesse.
Como contornar o aparente absurdo? Com a imaginação, fazendo com que os dois bandoleiros se defrontem no além, em uma espécie de universo paralelo.
Zé do Telhado, herói popular, espécie de Robin Hood português, virou lenda e sua história foi ampliada pela tradição oral, que alimentou a literatura de cordel. Aqui no Brasil, foi personagem de pelo menos dois cordéis: História de Zé do Telhado, de Antônio Teodoro dos Santos, e Encontro de Cancão de Fogo com Zé do Telhado, de Rodolfo Coelho Cavalcante. Os dois textos foram publicados na editora Prelúdio, de São Paulo, possivelmente a pedido do editor-proprietário Arlindo Pinto de Souza, filho do português José Pínto de Souza, que migrou para o Brasil no início do século passado.
De Lampião, são incontáveis os títulos que tratam de sua trajetória guerreira — ou  bandida, como queiram  —, desde aqueles que são mais fiéis aos fatos, como Os Cabras de Lampião, de Manoel D’Almeida Filho, até os que envolvem sua peripécias no céu, purgatório e inferno. Aliás, no texto que vamos ler é clara a influência de A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco, obra-prima do cordel e um dos maiores sucessos do gênero em todos os tempos, nas escaramuças do bandoleiro nordestino com o facínora português.
Saúdo este Duelo de Lampião com Zé do Telhado pela engenhosidade e pelos predicados poéticos que fazem de seu autor uma figura de proa do cordelismo brasileiro. Podemos classificar a obra no gênero romance, pois apresenta os elementos típicos da gesta medieval, mas o tema é valentia, ou bravura, pois não há como remover dos protagonistas a aura mítica concedida pelo povo e ratificada pela literatura de cordel nos dois lados do Atlântico.

Nota: Para adquirir esta e outras obras, entre em contato com a Tupynanquim Editora, pelo e-mail tupynanquim_editora@ibest.com.br.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Serra de encantar

Por Penélope Martins, no blog Toda hora tem história
A cultura popular brasileira é composta por uma diversidade de elementos geográficos que relatam as tendências da vida na região. Não é pra menos, o país se apresenta como continente “gigante pela própria natureza”. De extremo norte na curva nordeste do mapa que se vê lá no alto da cartografia, até os pontos mais longínquos no sul, Brasis tantos.
Porém, considerando mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, vislumbra-se uma inexplicável unidade em ser brasileiro.
Reentrâncias, ápices, vales e águas. Brasil que não avança somente com planaltos e planíceis, mas que alcança os céus com serras.
Repare a Serra da Contamana no Acre, na curva desenha um coração, enquanto na Bahia, outras serras como a do Bugio, riscada pela mesma mão, e a Sincorá, no centro da Chapada Diamantina, onde o vento brinca com as saias das meninas.
Não nega a geografia da Serra Vermelha que adormecidos guerreiros aguardam o dia da batalha. Já na Ibiapaba e na Farofa, cachoeiras recolhem suas águas para orvalhar madrugadas.
Serra do Mar diz minha infância. Quantas noites estreladas, o asfalto com olhos de gato, descendo as curvas de Santos para ir ter com o avô e as tias meus dias de férias.
Serras que tocam o sol, serras de luar e por detrás daquela serra o canto do poeta transborda a cor da mata, plumas de aves, cheiros de flores tantas, mel de frutos da nossa terra.
Araçá, alecrim, pinha, bananeira, sereno e namoro. A poesia das serras faz cantar rodas antigas, que contavam nossos avós e os avós deles também.
Quadras populares para brincadeiras de roda, lenço na mão e moça bonita. Histórias que se passam no céu, caminhos de estrelas cadentes, histórias que se passam na Serra que mapeia o Brasil com doces rebuscados geográficos.
Eu subi naquela serra
Com alpercatas de algodão
A alpercata pegou fogo,
Eu desci com os pés no chão.*

Se me coubesse escolher uma cor para pintar as quadrinhas que desenham nossas serras, eu pintaria de rosas em variados tons, mas salpicava com azuis e amarelos também. Os desenhos seriam bordadinhos, caseados, ponto a ponto como fazem senhoras bordadeiras e mulheres rendeiras.
Triste de mim, o livro de quadras não escrevi, nem os desenhos fui eu quem fiz. Felizmente fizeram tão bem os dois, afinados em cores e rimas, que é como se fosse meu e teu o livro que se anuncia…
Taisa Borges conta que fez tinta caseira de amora e recriou cores das frutas de época para compor em pincelas soltas uma expressão própria que conversasse com as rimas cantadas por Marco Haurélio.
Com sua caneta, *Marco Haurélio tem esmero do cancioneiro popular autêntico, sem reproduções caricatas de Brasil, ao contrário, sua poesia traz fiel beleza da vida sertaneja na Bahia e com a qual, inexplicavelmente (ao menos no meu caso, já que nasci e me criei em São Paulo) nos identificamos e fazemos cantar com ele.
LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, com quadras e cantigas populares, composição do poeta e folclorista Marco Haurélio, baiano da Ponta da Serra, junto com Taisa Borges, uma menina que borda pinturas escondendo inúmeras palavras para contar outras histórias. Mais um ponto no céu de estrelas da Editora Peirópolis, de São Paulo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Audálio Dantas vence Prêmio Jabuti na categoria Reportagem

As duas guerras de Vlado Herzog, obra escrita por Audálio Dantas,  foi a vencedora do prêmio Jabuti, na categoria Reportagem. Alagoano de Tanque d'Arca, Audálio é um dos mais importantes nomes do jornalismo nacional. Na década de 1970 presidia o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, por ocasião do assassinato do jornalista Wladimir Herzog pelos gendarmes do regime militar. Para nós, cordelistas e entusiastas da poesia popular, Audálio também tem muito a dizer, pois, além de idealizador, foi o curador do evento 100 Anos de Cordel, realizado no SESC Pompeia, em São Paulo, em 2001. 

Abaixo, a notícia veiculada no Portal dos Jornalistas.


Audálio Dantas vence o Jabuti na categoria Reportagem
As duas guerras de Vlado Herzog, lançado em 2012, conta os dois calvários vividos por Vladimir Herzog: o primeiro na infância e o segundo durante a ditadura militar no Brasil

Audálio Dantas venceu o prêmio Jabuti, o mais importante da Literatura brasileira, na categoria Reportagem, com a obra As duas guerras de Vlado Herzog (Civilização Brasileira). lista com os vencedores das 27 categorias foi divulgada nesta 5ª.feira (17/10).
Alagoano de Tanque D’Arca, Audálio começou como repórter na Folha da Manhã, em São Paulo, na década de 1950. Passou por publicações como Manchete, Realidade, Veja e O Cruzeiro. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em meados da década de 1970, período de forte repressão à imprensa brasileira. Também foi presidente da Fenaj e deputado federal por São Paulo. Atualmente dirige a revista Negócios da Comunicação e preside a Comissão Nacional da Verdade dos Jornalistas.

A obra vencedora remete às duas guerras vividas por Vladimir Herzog: a primeira, na infância, quando fugiu dos nazistas que haviam invadido a Iugoslávia, onde nasceu; e a segunda, já adulto, durante ditadura militar brasileira, que o mataria em 1975.

Um ano atrás, no lançamento do livro, Audálio disse em entrevista ao Portal dos Jornalistas que a vontade de escrever sobre o assunto ficou contida desde o culto ecumênico em homenagem a Herzog, em 31/10/1975, na catedral da Sé, em São Paulo: “Aquele momento nunca saiu da minha mente. Ele está permanentemente gravado porque marcou a história do Brasil. Tínhamos dado a informação de que a desordem interessava a eles [militares], não à sociedade”.

As duas guerras de Vlado Herzog concorreu com Dias de inferno na Síria (Benvirá), de Klester CavalcantiMãos que fazem história (Verdes Mares), de Cristina Pioner e Germana CabralDignidade! (LeYa), de Eliane BrumCarcereiros (Companhia das Letras), de Dráuzio Varella1943: Roosevelt e Vargas em Natal (Bússola), de Roberto MuylaertLuzes da África (Civilização Brasileira), de Haroldo CastroU-507, o submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial (Schoba), de Marcelo MonteiroNabuco em pretos e brancos (Massangana), de Fabiana Moraes; e O fole roncou (Zahar), de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues.

No dia 13/11, serão escolhidos os grandes vencedores de Livro do Ano em ficção e em não-ficção, que receberão R$ 35 mil cada.

Por: Jornalistas&Cia



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Tarde encantada na Livraria NoveSete

Com Taisa Borges e o cordelista Pedro Monteiro
Mais um passo de uma caminhada há muito iniciada, mas ainda longe do fim. E lá, mais uma vez, estavam os amigos, antigos e novos. Escritores, editores, contadores de histórias. Lá estavam as crianças. Lá estava Téo Azevedo cantado o sertão-mundo de Guimarães e de todos nós. Lá estavam as adivinhas, trovas e cirandas reveladas pelo multicolorido guarda-chuva de Monalisa Lins. Lá estava a companheira Lucélia em sua estreia como com contadora e brincante. Lá estava Taisa Borges, que tão bem entendeu a proposta do livro e a traduziu em imagens tão sugestivas quanto belas.

Neste 12 de outubro do Ano do Senhor de 2013, um novo ciclo se inicia. O caminho será o mesmo, mas alguns caminhantes ficaram para trás e outros já se achegaram, com olho novo e alma nova.


A todos que foram, e aos que gostariam de ter ido mas não puderam, minha gratidão. 

Lene Pereira e seu esposo Daniel
Rogério Soares e Marciano Vasques
Roda de versos, cirandas e adivinhas
Com a professora Caroline, da escola Bernardo O'Higgens
Lucélia Borges, Téo Azevedo e Monalisa Lins.
Costa Senna e Pedro Monteiro
Cléber, Dayane, Téo, Monalisa e Lucélia
Com a amiga Marli Jácomo e Taisa Borges






domingo, 13 de outubro de 2013

Um soneto com tintas de saudade




















Entre serras nasci e me criei,
Entre serras ouvi muitas histórias,
Que se foram quais aves migratórias.
Entre serras, menino, eu era rei.

Entre serras, à noite deparei
Muitos lumes, lembrei defuntas glórias,
Entre serras estão minhas memórias,
Verdadeiras e as outras que inventei.

Entre serras se foi a mocidade,
Quando o tempo passou sem piedade,
Veio o vento e soprou-me pra outra terra.

Entre prédios espero, com saudade,
Quando Deus me chamar à eternidade,
Descansar lá detrás daquela serra.