sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Senhora Santa Luzia

Ficheiro:Lorenzo Lotto 004.jpg
Santa Lúcia (Luzia) diante dos juízes, de Lorenzo Lotto (1480-1556).
A devoção popular a Santa Luzia chegou-nos, como a maioria das tradições, via Portugal. Arraigou-se de tal maneira que pelo menos cinco municípios brasileiros têm o seu nome.  Luzia (ou Lúcia) teria nascido em Siracusa por volta de 283 e morrido em 304, numa das muitas perseguições movidas pelo imperador romano Diocleciano. 


A iconografia a representa como uma jovem belíssima com uma folha de palmeira numa das mãos e uma salva contendo os seus olhos na outra. A origem é a lenda segundo a qual, após haver decidido servir ao Senhor, Luzia teria sido assediada por um jovem, especialmente por causa da beleza de seus olhos. Teria ela oferecido os próprios olhos como sinal de sua recusa das coisas terrenas. Por milagre, os olhos renasceram em suas órbitas. Daí ser, ainda hoje, reconhecida como Padroeira da Visão.

No Brasil, é celebrada a 13 de dezembro. É famosa a experiência das pedras de sal, anunciadora da chuva ou da seca. O dia de Santa Luzia, antes da reforma do calendário gregoriano, era celebrado numa data mais próxima do solstício de inverno (no Hemisfério Norte), e está diretamente ligado a práticas pagãs devidamente cristianizadas. O próprio nome da santa, Lúcia em italiano, deriva do latim lux (luz).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Epopeia sertaneja recontada em cordel

Texto: Divulgação.

A saga de Antônio Conselheiro, líder carismático cearense que se tornou protagonista de um drama que talvez caísse no esquecimento não fosse a denúncia feita pelo escritor e jornalista Euclides da Cunha na obra-prima Os sertões, foi publicada em 1902, cinco anos após o massacre da comunidade de Canudos. A epopeia de Conselheiro e da massa de excluídos vítima do poder instituído, no entanto, não foi abordada unicamente pela literatura dita canônica.

Na literatura de cordel, gênero poético que se desenvolveu principalmente, no Nordeste a partir do século XIX, são muitas as obras que interpretam, de forma peculiar o episódio, a ponto de constituir um ciclo. Nessa tradição se insere Canudos e a saga de Antônio Conselheiro, do cordelista cearense Moreira de Acopiara, mais um lançamento com o selo da Duna Dueto.

Moreira, autor de Cordel em arte e versos, Medo? Eu hem? e A natureza agredida pede pra ser respeitada,  acompanha os passos de Antônio Conselheiro, desde a infância no sertão cearense até o palco onde se desenrolou o drama que Euclides da Cunha descreveu magistralmente em A luta, terceira parte de Os sertões. O desfecho da guerra, o tom de denúncia contra os abusos dos que deveriam promover a ordem, contidos na obra euclidiana, são retomados por Moreira em estrofes memoráveis, como a setilha abaixo:

Pois bem. Na frente dos quais
Rugiam raivosamente
Mais de cinco mil soldados,
Que desejavam somente
Cicatrizar a ferida
E eliminar a atrevida
Malta desconveniente.

Canudos e a saga de Antônio Conselheiro é uma incursão pela história do Brasil, que tem um de seus momentos mais dramáticos relidos pelos versos de cordel. A história se torna particularmente atraente para aqueles que ainda não se aventuraram pelas centenas de páginas de Os sertões, convidando-os a conhecer uma das mais importantes obras de nossa literatura.

Canudos e a saga de Antônio Conselheiro
Autor: Moreira de Acopiara
Ilustrador: Severino Ramos
Apresentação e posfácio de Marco Haurélio
80 páginas
R$ 24,00

Contato: Lucíola Morais    3045-9894   7741-3981

Lançamento da obra na Livraria Cortez. Moreira, Pedro Monteiro, 
Marco Haurélio e Cícero Pedro de Assis.
Audálio Dantas, Moreira de Acopiara e Marco Haurélio.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Genoveva de Brabante: da lenda medieval ao clássico cordel brasileiro


Genoveva in der Waldeinsamkeit, óleo sobre tela
de Adrian Ludwig Richter (1841).
A lenda medieval de Genoveva de Brabante, documentada desde o século X (em latim), rendeu um dos mais emblemáticos romances da nossa literatura de cordel, Os Martírios de Genoveva, de José Galdino da Silva Duda. A oposição bem-mal, com o triunfo da virtude, é o eixo em torno do qual gira a trama:

Nesta história se vê
A virtude progredir,
A verdade triunfar,
O mal se submergir,
A honra salientar-se,
A falsidade cair.

Muitas vezes é erroneamente atribuído a Leandro Gomes de Barros (a edição da Luzeiro não comete esse erro), talvez pelo fato de o grande poeta ter escrito uma obra inspirada na lenda: Os Sofrimentos de Alzira, que traz o mesmo motivo da esposa virtuosa, caluniada e redimida.



A lenda inspirou muitos autores d’além-mar, a exemplo do alemão Christoph von Schmid, autor de Genoveva de Brabante, conto para crianças baseado na lenda; a opereta Genoveva de Brabante, de Offenbach, é uma livre adaptação. O celebrado compositor Robert Schumann assina uma ópera baseada na obra de Christian Friedrich Hebbel e no poema dramático de Ludwig Tieck (Vida e Morte de Santa Genoveva).


Folheto português, em prosa, do século XIX.

Edição espanhola, datada de 1836.

sábado, 30 de novembro de 2013

Caravana do Cordel é retratada em dissertação de mestrado


Há cerca de dois anos concedi uma entrevista à pesquisadora Francisca Batista Barbosa, que reunia depoimentos de cordelistas residentes em São Paulo e integravam o grupo (ou movimento, como queiram) Caravana do Cordel. Francisca procurou-me justamente no momento em que eu me havia afastado temporariamente do grupo, incapaz de conciliar as demandas de meu trabalho como editor, autor e, ainda, a necessidade de estar mais perto de minha família. O momento na Caravana era de disforia, depois do início alvissareiro. O trabalho de Francisca evoluiu para uma dissertação de mestrado, apresentada ao Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos. 

A Caravana do Cordel e a construção de um Nordeste em movimento em São Paulo é o resultado de uma pesquisa de campo que prima pela busca da isenção. Abaixo, o resumo do projeto feito pela própria pesquisadora:

 A Caravana do Cordel e a construção de um Nordeste em movimento em São Paulo consiste numa análise acerca da maneira como são mobilizadas as narrações, as ações e as representações sobre o Nordeste nos discursos de migrantes nordestinos radicados em São Paulo, pertencentes à Caravana do Cordel. Investigo as ressignificações que são construídas por esses sujeitos que mantêm uma forte relação mnemônica com o Nordeste, com as experiências vividas nesse espaço geográfico, social e simbólico, tanto no passado, quanto no presente. Parto do pressuposto que, embora esses poetas cordelistas cristalizem uma certa imagem do Nordeste em que nasceram, criam outros “Nordestes”, por meio de uma construção discursiva dinâmica.

Moreira de Acopiara marca presença na defesa da dissertação de Francisca, na UFSCAR.
Profa. Dra. Ana Lúcia Teixeira (Universidade Federal de São Paulo - Departamento de Ciências Sociais); Prof. Dr. Gabriel de Santis Feltran (Universidade Federal de São Carlos - Departamento de Sociologia); Mestra Francisca Batista Barbosa Geribello (Universidade Federal de São Carlos); Prof. Dr. Jorge Leite Júnior - Orientador (Universidade Federal de São Carlos - Departamento de Sociologia); Poeta Moreira de Acopiara; Prof. Dr. José Lindomar Coelho Albuquerque - Co-orientador (Universidade Federal de São Paulo - Departamento de Ciências Sociais).


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Klévisson Viana e Tarcísio Garcia lançam cordel inventivo sobre santos populares

O povo tem uma maneira muito peculiar de culto, seja na tradição católica trazida pelos portugueses, desde a primeira missa rezada por frei Henrique Soares de Coimbra, em 1500, seja na relação com os orixás, herdada da África. Os oragos mais celebrados — Santo Antônio, São João, São Benedito, São Sebastião, São Francisco, Santa Luzia —, na visão do povo, se diferenciam muito dos modelos originais da tradição católica romana.  Assim, São João Batista, longe do asceta descrito pelos evangelistas, pregador inflexível e comedor de gafanhotos, é retratado como uma espécie de deus da vegetação ou da colheita, jovem e belo, em cujo dia, 24 de junho, os jovens fazem simpatias em busca do amor. Santo Antônio, de Pádua e de Lisboa, celebrado a 13 de junho, tornou-se o santo casamenteiro, vocação estranha para quem se dedicou de corpo e alma ao celibato e à causa dos mais pobres, fugindo a todas as tentações da vida mundana.

Além dos santos reconhecidos pelo hagiológio romano, há outros concebidos pela imaginação popular, sem altar nem devoção, mas vivos nas locuções tradicionais espalhadas por todo o Brasil. Foi a partir de uma pesquisa feita pelo artista plástico Tarcísio Garcia, que resultou em dez desenhos feito a bico de pena e expostos no famoso Pirata Bar, de Fortaleza, em 1989, que nasceu o presente livro. Os desenhos foram reunidos em um álbum, apresentado pelo contista cearense Moreira Campos. O álbum chegou às mãos do poeta e editor de cordel Klévisson Viana. A soma de talentos rendeu este livro em que o tratamento clássico das imagens casa perfeitamente com o humor sofisticado, mas de sabor eminentemente popular, das sextilhas compostas por Klévisson.

Quem nunca ouviu falar do santo do pau oco, referência à pessoa hipócrita, dissimulada, da expressão cuja origem está no contrabando de ouro em pó para Portugal, durante os séculos XVIII e XIX? Já a expressão santo de casa não faz milagre parece ter origem no Evangelho de São Marcos (6:4), na passagem que narra como, no retorno a Nazaré, Jesus foi alvo da desconfiança de seus conterrâneos: “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa”.

No dia de São Nunca equivale a “30 de fevereiro”, dia nenhum, data preferida pelos caloteiros e eleitores dissimulados. Para baixo todo santo ajuda indica o esforço mínimo, a falta de compromisso. Santo remédio, por outro lado, não tem conotação jocosa: refere-se ao medicamento ou à terapia que dá resultado. Santa paciência! e Santa ignorância! são locações interjetivas que destacam uma virtude e um vício, mas que, no presente caso, têm sempre efeito negativo. O proverbial “Devagar com o andor, que o santo é de barro” adverte quanto à impaciência, convidando à prudência, cautela. Já Santa Briguilina da Perna Fina parece ser criação nordestina, talvez cearense. É, para os autores, a padroeira da estética, lembrando a busca desesperada de algumas modelos por manter a forma, chegando, às vezes, à anorexia.
          
Pelas razões acima expostas, este Santuário brasileiro é um livro mais que abençoado.

Marco Haurélio

Para adquirir o livro, vá à loja da Nova Alexandria

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Fiscal despreparado impede repentistas de se apresentarem em São Paulo

Repentista Chico Pereira

Soube, pelo Facebook, que um energúmeno, despreparado para exercer a função de fiscal na Prefeitura Municipal de São Paulo, impediu que o poeta repentista Chico Pereira e outros colegas se apresentassem na praça Floriano Peixoto, em Santo Amaro. A apresentação dos repentistas faz parte da Mostra Chapéu de Palha, coordenada por Telma Queiroz, contemplada pelo Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, edição Patativa do Assaré, em 2010.

Reproduzo abaixo a Carta Aberta, redigida por Telma Queiroz, endereçada à Subprefeitura de Santo Amaro. Resistir é preciso.

Carta aberta à Subprefeitura de Santo Amaro

A Mostra Chapéu de Palha vem tornar público o ocorrido na última quinta-feira, 07/11/2013, na Praça Floriano Peixoto em Santo Amaro/SP, quando um fiscal da PMSP abordou os repentistas que lá se apresentavam, usando de tom totalmente hostil, autoritário e desrespeitoso, exigindo o fim da apresentação artística sob pena de serem confiscados os instrumentos. 

Muitas histórias ouvimos sobre a humilhação sofrida antigamente por repentistas em São Paulo que volta e meia eram presos por vadiagem. Contudo, jamais pudemos imaginar que fossemos sofrer tamanha agressão moral nos dias de hoje, menos ainda logo após a sanção da Lei 15.776, de 29 de maio de 2013 que dispõe sobre a apresentação de artistas de rua na cidade de São Paulo.

É bom frisar que o Projeto Mostra Chapéu de Palha nasceu no coração de Santo Amaro, por coincidência na mesma rua onde fica a subprefeitura! O conhecido Sr. Alberto, apologista da cultura nordestina, por mais de 10 anos realizou por conta própria encontros de cantadores que traziam público de 200 pessoas ao seu restaurante chamado Chapéu de Palha, lugar famoso entre repentistas, cordelistas e forrozeiros.

Em 2009 a idéia foi formatada como projeto cultural e já foi rapidamente contemplada pelo Ministério da Cultura no Prêmio Patativa de Assaré e agora recentemente no Edital ProAc da Secretaria de Estado da Cultura. A Tenda do Repente e Cordel Chapéu de Palha esteve presente no Anhangabaú durante a comemoração do Centenário de Luiz Gonzaga e 1º Arraiá de São Paulo e no Sesc Osasco, além de outras aparições publicas.

Em parceria com a Supervisão de Cultura da Subprefeitura de Santo Amaro desde outubro a Mostra Chapéu de Palha passou a se apresentar semanalmente no Gazebo integrando o projeto Praça Viva. Como a praça não apresenta ponto de energia até hoje, não obstante todas as semanas ser feita a promessa que um ponto de energia alí seria instalado, passamos a usar a Praça Floriano Peixoto em 31/10/2013.

E na segunda apresentação no novo local, a mesma subprefeitura que sempre conta com nossa colaboração artística e também com empréstimo de tenda e equipamento de som e ampla divulgação, nos causa tamanha tristeza e indignação.

Como até o momento não houve qualquer contato conosco, traduzindo novo descaso, a partir de hoje, 11/11/2013, ficam suspensas todas as parcerias da Mostra Chapéu de Palha com a Subprefeitura de Santo Amaro, incluindo o Natal Iluminado e ações nos equipamentos públicos culturais.

Telma Queiroz
Mostra Chapéu de Palha

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Viva a Fliporto!


Mesa mediada por Adelia Flor e Gleison Nascimento
A Festa Literária de Pernambuco, Fliporto, que terminou ontem, foi um grande sucesso. Com curadoria do escritor Antônio Campos, a Fliporto tem vários braços. Do congresso literário, que reuniu escritores do porte de valter hugo mãe e Ana Maria Machado, passando pela Eco-Fliporto, o evento, por quatro dias, muda a  face de Olinda, na histórica Praça do Carmo. 

Convidado pelo escritor Antonio Nunes, participei da Fliporto Nova Geração, no evento Papo com o Autor, no mesmo palco em que estiveram Stella Maris Rezende, Lenice Gomes, Sandra Ronca, Luiz Antonio Aguiar, Severino Rodrigues e Anna Claudia Ramos, entre outros. Ainda pude ver parte da programação da Fliporto Criança, especialmente as performances de Simone Pedersen e Alessandra Roscoe.

Passei ainda pelo espaço do cordel, que também é meu espaço, onde revi amigos queridos, conheci outros e aproveitei para aumentar a minha coleção.

Resta, agora, agradecer a todos, em especial a Antonio Nunes (Tonton) pelo convite, e à Paulus Editora, que contribuiu sobremaneira para que eu pudesse estar presente à esta edição da Fliporto. Estendo a gratidão às editoras Nova Alexandria e Cortez, que fizeram com que os meus livros que constam de seus catálogos estivessem à disposição do público.

Severino Rodrigues, jovem e talentoso escritor, com 
Dílvia Ludvichak, no estande da Paulus.

A pequena Bárbara se encantou com o João Grilo.

Com Severino e Íris Xavier, no estande da Cortez.

Com Meca Moreno, Aninha Ferraz, virada no seiscentos, 
e Davi Teixeira, eminências pardas do cordel recifense.

Luiz Antonio Aguiar, mais um presente que a Fliporto me deu.

Lendo uma das histórias do livro Contos Folclóricos Brasileiros
sob o olhar atento e a mediação competente de Adelia Flor.

Com Simone Pedersen, Vivian Zelda e Clara Haddad, 
em dose dupla (!), no estande da Paulus.

Com a querida amiga Lenice Gomes, Alexandre Camilo,
Clara Haddad, Rosa Maria, vera Nóbrega e Edmilson Lima.

Eu sou o maior só na estatura, pois ao meu lado estão 
Alexandre Moraes, Chico Pedrosa e Gonzaga de Garanhuns.

Grandes e talentosos amigos: Marcelo Soares e Abdias Campos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

JeosaFá escreve sobre Patativa do Assaré


Por JeosaFá, via blog Amplexos do JeosaFá

Org. Gilmar de Carvalho

A obra de Patativa do Assaré, edição após edição, vê as barreiras do preconceito caírem e seu público aumentar por todos os cantos do país. A linguagem moldada pela sonoridade, pela visão de mundo, pelo modo de vida – e pela viola – nordestinos, seus poemas retratam a labuta, os sentimentos e a índole dos que enfrentam os infortúnios da seca e da miséria numa região em que a violência e a injustiça social andam de mãos dadas.

Seus textos ficaram conhecidos pelo público mais amplo primeiramente na voz e na sanfona de Luiz Gonzaga, o Luiz do Baião. Composições como “Triste Partida” – rodou muito tempo pelas rádios e forrós do país e hoje, em um belo vídeo de animação, circula na televisão, nos DVDs particulares e na internet:

“Nós vamo a São Paulo
que a coisa tá feia.
Por terras aleia
nós vamo vagá.
Se o nosso destino
não fô tão mesquinho
Pro mermo cantinho
Nós torna a vortá.”

Esta Antologia Poética de Patativa do Assaré, que conta com um breve mas elucidativo estudo sobre a obra do poeta, reúne poemas na seguinte organização: "Inspiração nordestina", "Novos poemas comentados", "Cante lá que eu canto cá", "Ispinho e fulô", "Balceiro", "Cordéis", "Aqui tem coisa" e "Balceiro 2".

Com isso, o organizador Gilmar de Carvalho pretendeu oferecer ao leitor uma amostra representativa da obra desse importante poeta brasileiro que, revolvendo a terra como agricultor e animando bailes ao som da viola, fez o verso sertanejo, brotado da terra e da alegria popular, ganhar reconhecimento sob a forma impressa, muitas vezes reservada apenas a formas mais eruditas, urbanas ou elitizadas.

Abrir esta Antologia, cujos poemas são irmãos do cordel e do repente, e lê-la coletivamente em voz alta devolve vida a um texto que não nasceu para ficar preso na página feito passarinho em gaiola. Fica aqui esta sugestão.

FONTE: Patativa do Assaré. Org. e Pref. Gilmar de Carvalho. 7 ed. Fortaleza, Ed. Demócrito Rocha, 2008.

Ilustração de João Pinheiro.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

II SEMANA DO SACI NA CORTEZ

Mouzar Benedito, grande conhecedor da "mitologia brasílica", é um dos autores confirmados.
Recebi e repasso convite do meu amigo Daniel d'Andrea. As fotos acima e abaixo são do Encontro acontecido ano passado.

O Saci-Pererê talvez seja o mito mais emblemático do Brasil. Nos últimos anos houve um movimento de revalorização de sua figura a partir de numerosos trabalhos de pesquisa, livros infanto-juvenis, documentários, peças teatrais e a criação de entidades que lutam pela sua preservação e atualidade do personagem, e o estabelecimento do dia 31 de outubro, como o Dia do Saci.
Sua origem como mito secular de nossos povos indígenas, com nítida presença afro-brasileira, até sua vitalidade nos dias atuais, chama a atenção de pesquisadores, escritores e entusiastas seguidores que identificam sua permanência e contínua transformação como uma metáfora das origens do povo brasileiro e a riqueza cultural de suas matrizes étnicas.

Hoje, o Saci pode ser considerado por seu caráter peralta, brincalhão, travesso e irreverente, um aglutinador destas características da identidade brasileira, pelas quais consegue adesão e simpatia de crianças e adultos.

Celebrar o Saci é mergulhar em nossas raízes para descobrir-nos libertários, solidários, amantes da natureza, das festas populares e orgulhosos de nosso sincretismo cultural.

Convite:

Sarau do Saci na Cortez

9 de novembro – sábado, das 16:30 às 19:30 horas.

Grande encontro com a participação de autores de livros sobre o tema, contadores de histórias, apresentações musicais e artísticas em geral.

Dirigido ao público de todas as idades! Entrada livre e gratuita.

Organizador: Daniel D’Andrea - contato: 97562-2579.

Livraria Cortez

Rua Bartira, 317 – Perdizes,
São Paulo – SP.

(ao lado da PUC-SP).

O evento, no ano passado, contou com o poeta Arievaldo Viana.



terça-feira, 29 de outubro de 2013

Um encontro possível só no cordel


Grande duelo de Lampião com Zé do Telhado (Tupynanquim Editora) 
Vez em quando a literatura de cordel nos reserva uma grata surpresa. Não que mereça desprezo a grande quantidade de folhetos que surge todos os dias nesse momento alvissareiro, mas, na maioria dos casos, quando se espreme o texto, sobra muito pouco. Há um achaque dos pesquisadores de ter como parâmetro para esse ou aquele tema a quantidade folhetos editados no Brasil (impossível de calcular), pondo no mesmo balaio os bons, os maus e os feios, se me permitem a referência ao filme de Sergio Leone. Assim, lemos abobrinhas do tipo “dos milhares de folhetos editados, poucos tratam disso ou daquilo”. Imaginemos um crítico literário que  se debruça sobre os romances e, além dos clássicos e outsiders, incluem no seu inventário (a palavra aqui tem mais de um sentido) a produção de histórias baratas que infestam as bancas de revistas todo o mês! Há uma lógica, nem sempre explicável ou compreensível, que faz com que um determinado texto sobreviva aos demais. Então, por que, no caso do cordel, toda a produção deve ser medida, quando entendemos que nem tudo o que se publica com o rótulo merece o status de literatura? Ou, para não ferir suscetibilidades, de boa literatura?
Dito isso, volto-me agora para Rouxinol do Rinaré, poeta que se destaca como um dos maiores nomes de sua geração. Dele são os clássicos O Justiceiro do Norte, O Guarda-Floresta e o Capitão de Ladrões, O Matador de Dragões e História de Lampião e Maria Bonita (este em parceria com Klévisson Viana). Em sua obra, sobressaem os romances, embora campeie por outras plagas com igual desenvoltura. É por isso que, ao receber do professor Andrade Leal, grande divulgador do cordel na Bahia, a proposta de escrever uma história que juntasse os bandoleiros Zé do Telhado e Lampião, não se fez de rogado e nem se amedrontou com a premissa aparentemente absurda. Absurda porque o português José Teixeira da Silva, alcunhado Zé do Telhado por causa da localidade em que nasceu, na aldeia de Castelões de Recesinhos, despediu-se deste mundo em 1875, no exílio em Angola, pelo menos 23 anos antes que Virgulino Ferreira, o futuro Lampião, nascesse.
Como contornar o aparente absurdo? Com a imaginação, fazendo com que os dois bandoleiros se defrontem no além, em uma espécie de universo paralelo.
Zé do Telhado, herói popular, espécie de Robin Hood português, virou lenda e sua história foi ampliada pela tradição oral, que alimentou a literatura de cordel. Aqui no Brasil, foi personagem de pelo menos dois cordéis: História de Zé do Telhado, de Antônio Teodoro dos Santos, e Encontro de Cancão de Fogo com Zé do Telhado, de Rodolfo Coelho Cavalcante. Os dois textos foram publicados na editora Prelúdio, de São Paulo, possivelmente a pedido do editor-proprietário Arlindo Pinto de Souza, filho do português José Pínto de Souza, que migrou para o Brasil no início do século passado.
De Lampião, são incontáveis os títulos que tratam de sua trajetória guerreira — ou  bandida, como queiram  —, desde aqueles que são mais fiéis aos fatos, como Os Cabras de Lampião, de Manoel D’Almeida Filho, até os que envolvem sua peripécias no céu, purgatório e inferno. Aliás, no texto que vamos ler é clara a influência de A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco, obra-prima do cordel e um dos maiores sucessos do gênero em todos os tempos, nas escaramuças do bandoleiro nordestino com o facínora português.
Saúdo este Duelo de Lampião com Zé do Telhado pela engenhosidade e pelos predicados poéticos que fazem de seu autor uma figura de proa do cordelismo brasileiro. Podemos classificar a obra no gênero romance, pois apresenta os elementos típicos da gesta medieval, mas o tema é valentia, ou bravura, pois não há como remover dos protagonistas a aura mítica concedida pelo povo e ratificada pela literatura de cordel nos dois lados do Atlântico.

Nota: Para adquirir esta e outras obras, entre em contato com a Tupynanquim Editora, pelo e-mail tupynanquim_editora@ibest.com.br.