quarta-feira, 26 de março de 2014

Alice no país das Maravilhas em Cordel no blog da Nova Alexandria



Leia, no blog da Editora Nova Alexandria, trecho da apresentação que escrevi, para o livro Alice no País das Maravilhas em Cordel, de João Gomes de Sá:


Alice no País das Maravilhas tornou-se, desde o seu lançamento, em 1865, um grande clássico da literatura infantil. Seu autor, o inglês Charles Lutwidge Dodgson, usou o pseudônimo literário Lewis Carroll. Sua obra principal, sucesso imediato e retumbante, chegou às mãos da rainha Vitória, da Inglaterra, que fez questão de conhecer as demais obras do autor.

Antes de Alice, Dodgson escrevera apenas tratados de Matemática. A história, ao longo de mais de um século, foi adaptada várias vezes para o cinema. Virou filme de animação dos Estúdios Disney em 1951. O cineasta Tim Burton dirigiu uma versão excêntrica, que estreou em 2010. A primeira adaptação, no entanto, foi um filme mudo rodado no Reino Unido em 1903.

João Gomes de Sá, um dos mais respeitados cordelistas da atualidade, é o autor da versão em cordel de Alice no País das Maravilhas. O poeta, atento às soluções criativas do texto original, reconstruiu algumas situações, emprestando características nordestinas à protagonista, aos personagens e cenários.


O início já dá uma amostra do que vem a seguir: Alice, em perseguição ao Coelho Branco, não cai num poço, mas numa cacimba encantada. O Gato de Cheshire ou Gato Risonho, mesmo conservando o dom da invisibilidade, é um típico repentista nordestino. Para compor o personagem, João se inspirou no cantador paraibano Sebastião Marinho. Alice ainda encontra, na estranha terra, maravilhas que remetem ao clássico cordel Viagem a São Saruê, do poeta paraibano Manoel Camilo dos Santos (1905-1987). A estrofe, reproduzida abaixo, mostra essa fusão:

Por lá viu rios de leite,
Montanhas de goiabada,
Castelos de rapadura,
E árvores de marmelada.
Suspirou muito porque
Somente em São Saruê
Tal riqueza era encontrada.

O Chapeleiro Louco, personagem de grande importância no original de Carroll, tem, aqui, “O mesmo céu estrelado/ Do chapéu de Lampião”. Na versão do nosso cordelista, os tacos-flamingos e as bolas-ouriços do jogo disputado entre Alice e a Rainha de Copas se transmutam em seriemas e tatus-bolas, animais da fauna brasileira.

Para acessar o blog, clique AQUI

quarta-feira, 19 de março de 2014

Literatura de Cordel no Catálogo de Bolonha




Alvíssaras: o nosso Literatura de Cordel: do Sertão à Sala de Aula (Paulus Editora), coletânea de artigos e ensaios, é um dos livros títulos selecionados para compor o Catálogo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para Feira de Bolonha 2014. A obra teve como editor Antonio Iraildo e integra o catálogo da Paulus Educação. A ilustração da capa e as do miolo são do grande Marcelo Soares.

Para saber mais, vá à página da Paulus.

19 de março, dia de São José


Nossa Senhora com dor,
São José foi buscar luz,
São José não é chegado,
Nasceu nosso Bom Jesus.


No dia de São José (19 de março), reproduzo esta quadrinha, que consta de uma versão que recolhi da reza "O sonho de Nossa Senhora", ouvida na infância, que, surpreendentemente, parece ilustrar este quadro pintado por Josefa de Óbidos (1630-1684) há cerca de quatro séculos.

terça-feira, 11 de março de 2014

Dia Nacional da Poesia, Dia de Castro Alves

Canção do Violeiro
Ilustração de Jô Oliveira para o livro A lenda do Batatão (SESI-SP Editora)











Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ‘stá deserto, 
‘Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
















Nota: Aproxima-se o Dia nacional da Poesia, celebrado a 14 de março (homenagem ao poeta baiano Castro Alves que nasceu neste dia, no ano de 1847). Tenho especial apreço pelo poema “Canção do Violeiro”, que antecipa temas e cenários da poesia dita popular. Viva Cecéu!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Saudação ao Compadre d'Água

Nos dez de galope na beira do rio
Rio São Francisco no povoado de Palma (Serra do Ramalho - BA).
















Quem for corajoso, que venha comigo
Para o Velho Chico na boca da noite,
Na hora em que o vento, com seu doido açoite,
Na copa das árvores aplica um castigo.
Porém, dou agora um conselho de amigo:
Do povo do rio jamais arrenegue,
Pois assim evita que o cujo lhe pegue,
Que a sorte caipora lhe traga a morrinha,
Que o trem descarrile bem longe da linha,
E o Compadre d’Água venha e lhe carregue.

José Bertolino, que era corajoso,
Sem pensar na vida, tomou um pifão,
Desceu o barranco, foi na direção
Do encontro do Chico co’o rio Formoso.
“Eu não tenho medo”, gritou afrontoso.
Foi quando formou-se grande corrupio,
E o medo, acendendo fifó e pavio,
No cabra, lembrava que já era tarde.
E, mesmo escapando, virou Zé Covarde
Por ter desdenhado do povo do rio.

Maria Barbosa pegou o tabaco,
Deixou um pedaço em cima do toco
E foi “panhar” água pra regar o coco,
Mas se distraindo, topou um buraco,
Emborcou no rio, já dando cavaco,
Achando que era sua “última viagem”.
O Compadre d’Água, por camaradagem,
Não deixou que a moça morresse afogada,
E por força estranha findou transportada
Com vida e saúde pra perto da margem.

Nem bom, nem ruim, nem brabo, nem manso,
Não há quem defina o Compadre d’Água,
De quem o respeita jamais sente mágoa
E a sua tapera será um remanso.
Mas quem pisa em falso não tem mais descanso,
Pois ele detesta esse povo vadio
Que suja-lhe a casa, causando arrepio,
Pondo o patrimônio de todos em risco
E solta um lamento pelo São Francisco
Nos dez de galope na beira do rio.

 Nota: O Compadre d'Água é uma assombração do rio São Francisco. A maior ocorrência de relatos de aparição se dá no norte de Minas e no oeste baiano, no Médio São Francisco. É  o mesmo Negro d'Água, Caboclo d'Água, entidade que habita o fundo do rio e pune pescadores gananciosos e irreverentes. Acalma-se com um pedaço de fumo de rolo. Os ribeirinhos o descrevem como um homem atarracado, negro ou acinzentado, de cabeça pelada e com algumas características anfíbias (guelras e escamas). Espécie de Caipora das águas, é temido e respeitado pelo beradeiros.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O adeus de Antônio Américo


O poeta e a viola, sua companheira por muitos anos.
Foto disponível em: Patos TV.
O blog Acorda Cordel, mantido pelo poeta Arievaldo Viana, noticiou, há duas semanas, a partida do poeta cordelista e cantador Antônio Américo de Medeiros, a 21 de janeiro. Nascido em São João do Sabugi (RN) e radicado em Patos (PB), era também editor e folheteiro. 

Suas obras mais conhecidas são O fracassado ataque de Lampião a Mossoró, História da Cruz da Menina, Lampião e sua história contada toda em cordel e A moça que mais sofreu na Paraíba do Norte. As duas últimas foram lançadas pela Luzeiro de São Paulo. Era uma enciclopédia da poesia popular. Durante o tempo em que fiquei à frente do editorial da Luzeiro, conversei muitas vezes com ele, por telefone, e dele ouvi muitas histórias, como a que envolve a estrofe reproduzida abaixo, publicada no livro Breve história da literatura de cordel (Claridade, 2010), e que teria sido cantada por cego Aderaldo em encontro com ninguém menos que Virgulino Ferreira da Silva, o temível Lampião:

É esta a primeira vez
Que canto pra lampião,
A maior autoridade
Que há em todo o sertão,
Fazendo medo a tenente,
Alferes e capitão.

Uma vez, pedi que ele apontasse um texto de sua predileção, e ele, sem titubear, apontou: A princesa Rosamunda e a morte do gigante, de José Pacheco. "Apesar de ter um erro de rima, é uma história muito bonita e bem contada". 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Reabrindo o baú do tesouro

Sempre que posso, lembro a contribuição de minha avó, Luzia Josefina de Farias em minha formação como leitor, defensor e propagador da cultura popular e, mesmo, como autor de cordel. No livro Literatura de cordel - do sertão à sala de aula (Paulus, 2013), rememoro as muitas vezes em que ela declamava — ou cantava — a História da Princesa Rosa, atribuída a Silvino Pirauá de Lima (1848-2013). É o primeiro texto de um ciclo vasto na literatura de cordel, com o tema da esposa caluniada, acusada e, depois, redimida.







Pois bem, em visita à minha tia Isaulite (Lili), em Igaporã, Bahia, deparei com o armário que pertence à minha avó e, abrindo uma das gavetas, vi um velho caderno, sem capa com o texto transcrito por meu avó, Joaquim José de Farias. As estrofes apresentam algumas diferenças do texto publicado pela Editora Luzeiro, como segunda história na obra O Capitão do Navio, também de Pirauá. As diferenças, geralmente, estão em versos com rimas toantes. Descobri que estas emendas foram feitas, na verdade, pelo editor João Martins de Athayde, que publicou a obra atribuindo a si mesmo a autoria.

O dia em que se fizer uma pesquisa mais acurada a respeito da importância da poesia popular na vida sertaneja, constatar-se-á que ia muito além dos serões noturnos ou da leitura coletiva. Era praticamente um ritual que alimentava a camaradagem, a partilha, o respeito e a hospitalidade. E, como prêmio, disseminava-se a poesia que — embora tributária da poesia de vários povos e países — é brasileira por excelência.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Martelo natalino


O Natal representa para nós
Mais do que uma troca de presentes,
É preciso lançar boas sementes,
E fazer com que ouçam nossa voz.
Recordando as lições de meus avós,
Reencontro sua simplicidade.
Muito longe das luzes da cidade,
Ouço a voz que vem do coração
Que me diz que Natal é inclusão,
Paz, justiça, amor e liberdade.

A canção que evoca minha infância
Traz de volta as lapinhas e os benditos,
Fé sincera, e rostos tão contritos,
Que no tempo não dei muita importância,
Mas das quais hoje entendo a relevância,
Quando olho no espelho do passado.
No Natal, Jesus era celebrado,
Não havia esse tal de consumismo,
Era a festa maior do Cristianismo,
E depois misturava-se ao reisado.

Esse clima ia até o Ano Novo
E depois em janeiro, dia seis,
Celebravam também os santos reis
Que pediam esmolas para o povo.
Relembrando, eu ainda me comovo,
Dos devotos fiéis de São José,
É o que inda me mantém em pé,
Pois carrego o baú dessas memórias,
Transformando a saudade em mil histórias,
Renovando cada ano a minha fé.

É por isso que canto a minha terra,
E o Natal do meu povo sertanejo,
É por isso que levo este desejo
De um mundo sem fome, dor ou guerra.
E se um dia eu voltar ao pé de serra,
Ao casebre que foi meu natural,
Quero ver passarinhos no quintal
Quando a chuva enfim molhar o chão
E a bondade habitar o coração
De quem crê na mensagem do Natal.

                       Marco Haurélio

Nota: Poema composto em décimas de dez versos de dez sílabas poéticas (martelo agalopado). Musicado pelo cantor, compositor e contador de causos, Eufra Modesto. 

Literatura de cordel em Ituiutaba (MG)


Nos dias 6 e 7 de dezembro, participei, a convite do professor Sauloéber Souza, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), campus de Ituiutaba (MG), do projeto Educação escolar e migração no Pontal Mineiro. Ministrei uma oficina e proferi uma palestra no encerramento do projeto. As atividades tiveram início dia 2 e envolveu a comunidade escolar do município em torno do tema.  Dia 6 foram lançados os livros Literatura de cordel: do sertão à sala de aula (Paulus), de minha autoria, e Cinema e Ensino de História da Educação, organizado por Sauloéber Souza, Betânia L.Ribeiro e Carlos Henrique Carvalho. 

O melhor de tudo foi constatar que há tantos projetos bacanas, com vistas à inclusão escolar e social, espalhados pelo Brasil. E, para mim, que pratico o cordel, que a professora Vilma Quintela, chama de "literatura da diáspora", baiano radicado em São Paulo, foi uma honra fazer parte do projeto e conhecer as experiências e pesquisas desenvolvidas em torno do tema.


Apresentado pelo professor Sauloéber Souza.
Paula, Lúcia, Sauloéber, Marco Haurélio e Talita.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Senhora Santa Luzia

Ficheiro:Lorenzo Lotto 004.jpg
Santa Lúcia (Luzia) diante dos juízes, de Lorenzo Lotto (1480-1556).
A devoção popular a Santa Luzia chegou-nos, como a maioria das tradições, via Portugal. Arraigou-se de tal maneira que pelo menos cinco municípios brasileiros têm o seu nome.  Luzia (ou Lúcia) teria nascido em Siracusa por volta de 283 e morrido em 304, numa das muitas perseguições movidas pelo imperador romano Diocleciano. 


A iconografia a representa como uma jovem belíssima com uma folha de palmeira numa das mãos e uma salva contendo os seus olhos na outra. A origem é a lenda segundo a qual, após haver decidido servir ao Senhor, Luzia teria sido assediada por um jovem, especialmente por causa da beleza de seus olhos. Teria ela oferecido os próprios olhos como sinal de sua recusa das coisas terrenas. Por milagre, os olhos renasceram em suas órbitas. Daí ser, ainda hoje, reconhecida como Padroeira da Visão.

No Brasil, é celebrada a 13 de dezembro. É famosa a experiência das pedras de sal, anunciadora da chuva ou da seca. O dia de Santa Luzia, antes da reforma do calendário gregoriano, era celebrado numa data mais próxima do solstício de inverno (no Hemisfério Norte), e está diretamente ligado a práticas pagãs devidamente cristianizadas. O próprio nome da santa, Lúcia em italiano, deriva do latim lux (luz).