domingo, 6 de abril de 2014

Cordelistas homenageiam José Wilker


A inesperada morte do ator José Wilker, aos 66 anos, gerou comoção nacional e não passou em branco no universo do cordel. Fazendo as vezes de jornalistas, como seus colegas do passado, mas usando a Internet como meio de divulgação, os poetas populares relembraram a vida e a obra do celebrado ator cearense. Do conterrâneo Klévisson Viana são os versos abaixo:

Nossa vida aqui na terra
Parece com a lamparina
Tem um pavio que é igual
A sua jornada ou sina
Mas o querosene dela
Ninguém sabe onde termina.

Também pode ser um filme
De longa ou média metragem
O roteiro é um mistério
Fotografia e montagem
Ou mais simples como um curta
Se for bem breve a viagem.

Eu estava de passagem
Na cidade de Natal
Onde fui apresentar
Para o público um recital
Quando alguém falou Zé Wilker
Partiu para o plano astral.

Nesse momento eu parei
Sem querer acreditar
Solicitei para um moço
Para melhor me informar
Ele ligando a TV
Pude logo confirmar.

Foi Zé Wilker apaixonado
Pela a arte que fazia
Amou diversas mulheres
Fez da vida uma poesia
Mas sua paixão mais forte
Foi sempre a dramaturgia.

O filho de Juazeiro
Que tanto nos orgulhou
Não vive mais nesse plano
Partiu mas aqui deixou
A sua arte que é viva
No público que cativou.

Padre Cícero era do Crato
Mas fundou o Juazeiro
José Wilker nasceu lá
E mostrou pra o mundo inteiro
Que Juazeiro não tem
Só penitente e romeiro.

Jô Soares falou dele
Bastante emocionado
O grande Lima Duarte
Também deu o seu recado
De respeito pelo astro
Sua arte e seu legado.

Partiu enquanto dormia
Aos 66 de idade
Para amigos e colegas
Seguiu deixando saudade
E a sua família chora
A triste realidade.

Ceará está de luto
Sofre o Brasil por inteiro
Com a partida tão súbita
Que não tava no roteiro
Do nosso ator José Wilker
O filho de Juazeiro.

(...)


O poeta potiguar Marciano Medeiros registrou a notícia no cordel O nobre ator José Wilker partiu deixando saudade:


O nobre ator José Wilker 
Partiu deixando saudade,
Foi ter encontro com Deus
No plano da eternidade,
Deixando muitas lembranças
Que são flores de esperanças,
Para toda mocidade.

Era muito inteligente
Por filmes tinha paixão,
Interpretou Juscelino
Com bastante exatidão,
Divulgando sua imagem
Deixou bonita mensagem,
Cativando a multidão.

No cinema interpretou
O Antônio Conselheiro,
Mas antes deu vez e voz
Ao bravo Roque Santeiro
Que com viúva Porcina
Viveu paixão peregrina,
Mostrada no estrangeiro.

Menciono aqui chorando
Este sublime papel,
Do personagem marcante
Juntamente ao coronel,
Fizeram audiência alta
Roque e Sinhôzinho Malta,
Numa batalha cruel.

Eu assistia feliz
Essa novela marcante,
Numa TV preto e branco
Tinha frequencia constante,
Cada capítulo esperava:
O outro quando chegava,
Era muito interessante.

Seu sorriso inconfundível
Deixa lembrança singela,
Fazendo nossa memória
Pintar bonita aquarela,
Pois o tempo não destrói
Nem o coração corrói,
Seu brilhantismo na tela.

Natural do Juazeiro
Hoje sua terra chora,
Lembrando do garotinho
Que ali viveu outrora,
Sonhando timidamente;
E depois de adolescente:
A sua vida melhora.

Nosso povo brasileiro
Lamenta profundamente,
Pois com sessenta e seis anos
O grande ator deixa a gente
Por causa do coração,
Fonte de muita emoção
Deixou a vida inclemente.


O baiano radicado Brasília Gustavo Dourado também deixou sua contribuição:

José Wilker foi embora:
Um ator "felomenal"...
Teve grande Amor à Vida:
Um personagem central...
Destaque na televisão:
Quintessência teatral...

Nasceu em Juazeiro do Norte:
Cearense, nordestino...
Em 1946:
Começou o seu destino...
Foi locutor de rádio:
Um intérprete cristalino...

Do Ceará foi-se jovem:
Para o Rio de Janeiro...
Sociologia na PUC:
O teatro vem primeiro...
Deixou a faculdade:
Pra atuar no tabuleiro...

Presença em 51 filmes:
Foi crítico e diretor...
Gostava da narrativa:
Era apresentador...
Em dezenas de novelas:
Destacou-se como ator...

Gabriela, de Jorge Amado:
Foi Vadinho sedutor...
Em filmes de Cacá Diegues:
Bye Bye, Brasil, um primor...
Conquistou vários prêmios:
Molière de Melhor Ator...

Atuou em Xica da Silva:
Foi JK no cinema...
Como Antônio Conselheiro:
Em Canudos, um dilema...
José Wilker com maestria:
Fez da vida um poema...

Roque Santeiro impecável...
Com a viúva Porcina...
Muitos amores na vida:
Amou sua Guilhermina...
Dias Gomes dissecou:
Com atuação cristalina...

Viveu o doutor Hérbet:
Novela Amor à Vida...
Trama de Walcyr Carrasco:
Em sua longa avenida...
Rodrigo, em Anjo Mau:
Foi fecunda a sua lida...

Bicheiro Giovanni Improtta:
Em Senhora do Destino...
Fez Tenório Cavalcanti:
E o Coronel Jesuíno...
Ator de alta qualidade:
Tinha alma de menino...

Sai de Baixo, A Falecida:
Era mestre no humor...
Um craque na narrativa:
Do Oscar, apresentador...
Wilker foi magistral:
Um fenômeno como ator...

Deixo aqui na poesia:
Minha singela homenagem...
Ao grandioso ator:
Que segue a sua viagem:
Pelas sendas do destino:
Além da Terceira Margem... 

O inesquecível intérprete de Roque Santeiro, protagonista da novela homônima de Dias Gomes, levada ao ar pela Rede Globo em 1985 e 1986, realmente fez por merecer todas as homenagens. Por sinal, nesta novela, que evidenciou a literatura de cordel, numa das cenas mais marcantes, o personagem de Wilker descobre, lendo folhetos populares, que se tornara um mito para os habitantes da cidade de Asa Branca, que imaginavam que ele morrera heroicamente. O cordel, ironicamente, cruza novamente o caminho de Wilker agora que ele se tornou saudade.

 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O cordel na literatura infantil e juvenil

Coleção Clássicos em cordel: tradição renovada.

A literatura de cordel, sabemos, despontou no Brasil no século XIX, embora seu embrião, oriundo de Portugal e da Espanha, já alimentasse o romanceiro tradicional desde o início da colonização. Já em 1865, no Recife, a publicação de um folheto em quadras de autor anônimo, O testamento do macaco, chamava a atenção, pelo tom moralizante e ao mesmo tempo bem-humorado:

Tendo feito a diferentes
Animais seu testamento
Justo é que o do macaco
Empreenda neste momento

Muito semelhante, por sinal, a um cordel português igualmente em quadras, O testamento do gallo, publicado em Lisboa quatro anos antes:

Já que estou em meu juízo
Testamento quero fazer
Para meus bens deixar
A quem melhor me parecer.[1]

Edições pioneiras

Foi com Leandro Gomes de Barros (1865-1918) que o cordel desabrochou e alcançou um grande público. Grande empreendedor, este paraibano radicado no Recife burilou os temas preferidos pelo povo, mas se restringiu a isso. Dele são alguns dos maiores sucessos do cordel em todos os tempos, como os romances dramáticos O cachorro dos mortos, A força do amor, Os sofrimentos de Alzira e A vida de Pedro Cem. Dele são, ainda, os folhetos cômicos O cavalo que defecava dinheiro e O dinheiro (O enterro do cachorro), que, reaproveitados por Ariano Suassuna, inspiraram a peça Auto da Compadecida. O outro folheto que inspirou o Auto é O castigo da soberba, atribuído a outro poeta pioneiro, o também paraibano Silvino Pirauá de Lima (1848-1913).

Leandro Gomes de Barros ainda deu vida a um conto popular, a História de Juvenal e o Dragão, que, recontada em versos, vem encantando gerações em mais de um século de reedições ininterruptas. O seu enredo, que traz o mais arquetípico conto de herói, é a maior razão deste sucesso, e Juvenal e o Dragão pode ser considerado um dos primeiros cordéis infantis do Brasil. Não que, no tempo de Leandro, houvesse essa distinção, mas a razão de ser um dos preferidos dos pequenos leitores — ao longo dos anos, ao lado, talvez, de outro grande clássico, o Romance do Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Resende, escrito na década de 1920 — ratifica esta afirmação.

Outro patriarca do cordel, João Martins de Athayde (1880-1959), que se tornaria o grande editor do gênero no Brasil, homem de grande visão mercadológica, é autor de Raquel e a fera encantada, uma versão do conto A Bela e a Fera, e de História da princesa Eliza, que recria o conto Os cisnes selvagens, de Hans Christian Andersen. A bem da verdade, Athayde serviu-se de uma adaptação feita por Figueiredo Pimentel, Os onze irmãos da princesa, que integra a obra Contos da carochinha, publicada, pela primeira vez, em 1894. Manoel D’Almeida Filho (1914-1995), outro visionário, tentou, na década de 1980, publicar um livro infantil em cordel, que conteria duas histórias: A guerra dos passarinhos e O casamento do bode com a raposa. A primeira foi publicada pela primeira vez em 2011, na Antologia do cordel brasileiro (Global Editora), e logo em seguida ganhou uma edição pocket na Luzeiro, editora que detém os direitos sobre a obra. Há que se destacar ainda a iniciativa do poeta Marcus Aciolly que, em 1980, lançou Guriatã, um cordel para menino, ilustrado com linoleogravuras do mestre pernambucano José Cavalcante Soares, o Dila.

Tradição renovada

Um novo momento na história do cordel é instaurado a partir do emblemático evento 100 Anos do Cordel, idealizado pelo premiado escritor e jornalista alagoano Audálio Dantas, e realizado no SESC Pompeia, em 2001. A iniciativa, que se apoiava na ideia do início da produção regular do cordel a partir da cidade do Recife, no início do século XX, perfazendo, portanto, cerca de 100 anos, foi imprescindível para que o mercado editorial olhasse “com outros olhos” (sic.) a literatura bárdica do Nordeste. Mesmo assim, os investimentos iniciais foram tímidos e, aqui e ali, surgia uma publicação ainda carente de uma identificação maior com os temas clássicos do cordel.

A grande mudança veio em 2007, com a criação da coleção Clássicos em Cordel, idealizada por Nelson dos Reis, fundador da editora Nova Alexandria. Sem reivindicar o pioneirismo na ideia da adaptação de obras clássicas para a poesia popular, presente desde os tempos de Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, o projeto inovou ao enquadrar a mesma ideia em um projeto de coleção que abrangesse obras de diversos autores adaptadas livremente por poetas cordelistas. Já em seu primeiro ano, a editora emplacou três títulos no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) — Os miseráveis, de Klévisson Viana, O corcunda de Notre-Dame, de João Gomes de Sá, e A megera domada, de Marco Haurélio — e, até o momento, já conta com seis obras selecionadas pelo mesmo programa.


A Nova Alexandria, em seu selo Volta e Meia, publicou uma adaptação em quadrinhos, assinada por Klévisson Viana e Eduardo Azevedo, do grande épico do cordel A batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros. E, ilustrada pelo mesmo Eduardo, reeditou o clássico Juvenal e o Dragão, mantendo a integridade do texto original, e o romance O guarda-florestas e o capitão de ladrões, do poeta contemporâneo Rouxinol do Rinaré. Outro destaque do catálogo é O fantástico mundo do cordel, da escritora cearense Arlene Holanda, que traz um belo conto, de cores afetivas, e, no apêndice, apresenta as regras básicas para a composição de um folheto de cordel. 

Vale citar aqui a parceria do cordelista Arievaldo Viana com o ilustrador Jô Oliveira, que rendeu títulos como O navegador João de Calais e sua amada Constança (FTD) e A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau (Globinho). E destacar o papel de protagonistas assumido por nomes como Arlene Holanda, Klévisson Viana, Paiva Neves, Moreira de Acopiara e Evaristo Geraldo e outros descortinadores de horizontes da literatura de cordel brasileira. 

Marco Haurélio






[1] Ver Vera Lúcia de LUNA E SILVA. Primórdios da Literatura de Cordel no Brasil – um folheto de 1865

terça-feira, 1 de abril de 2014

ALEGORIA

A persistência da memória, de Dalí.














Por uma estrada comprida
Vão a Verdade e a Mentira.
Uma afirma e a outra nega,
Uma põe e a outra tira.
Ao lado de ambas caminha
Uma intrusa, a Falsidade.
Esta, apontando a Mentira
Diz se tratar da Verdade.
A Justiça ainda tenta
A Verdade defender,
Mas, com os olhos vendados,
Bem pouco pode fazer.
A Razão também procura
Algum esclarecimento,
Porém Razão sem Justiça
É mesa sem alimento.
A Verdade, atordoada,
Segue o estranho comboio.
Assim joio vira trigo,
E trigo torna-se joio.
Só mesmo o tempo responde 
Algumas velhas questões,
Porém o tempo do Tempo
Não cede às vãs ilusões
Quem, sem Razão, não dissipa
As névoas da Falsidade
Vê na Verdade a Mentira
E na mentira a Verdade.
E assim, na estrada da vida,
Seguem, sem achar o chão,
A Falsidade, a Mentira,
A Justiça e a Razão.


Marco Haurélio


domingo, 30 de março de 2014

A xilogravura popular na literatura de cordel


Em 2007, o casamento da xilogravura com a literatura de cordel completou cem anos. Para celebrar a data, o pesquisador Jeová Franklin e a produtora cultural Ana Peigon organizaram, em Brasília, um evento que, na palestra de abertura, contou com a presença do mítico Ariano Suassuna. A convite de Arievaldo Viana, escrevi, em parceria com ele um folheto, Cem Anos da Xilogravura na Literatura de  Cordel, publicado pela editora Queima-Bucha, de Mossoró (RN).

O folheto, composto em setilhas, está abaixo reproduzido:

Brasília está promovendo
Uma festa de cultura
Que trata sobre os 100 anos
Da nossa Xilogravura,
Impressa sobre o papel
Dos folhetos de cordel,
Popular literatura.
O cordel é mais antigo
Vem do século dezenove
Com Leandro e Pirauá
Começou, ninguém reprove
Minha rima, pois agora
Eu ando Nordeste afora
E tiro a prova dos nove!
Outros pioneiros são
João Melchíades Ferreira,
Galdino da Silva Duda,
Um poeta de primeira,
Francisco Chagas Batista
Também foi um grande artista
Da cultura brasileira.
Mil novecentos e sete,
Conforme a história apura,
Foi o ano em que o cordel
Casou com a xilogravura.
Num “taco” bem pequenino
Gravaram Antônio Silvino
Numa tosca iluminura.
Antes disso, só havia
A chamada “capa cega”,
Com letras e arabescos.
Assim a história prega
E quem conhece a história,
Puxando pela memória,
Essa verdade não nega.


Agora eu quero falar
De um grande historiador:
É nosso Jeová Franklin,
Poeta e pesquisador,
Da cultura popular
E é quem pode atestar
Da gravura o seu valor.
Ana Peigon é a produtora
Dessa mega-exposição.
Ao lado de Jeová
Tem feito a divulgação
Desse evento grandioso
Que já se tornou famoso
De norte a sul da nação.
Ariano Suassuna,
Ícone da nossa cultura
Que encantou o Brasil
Com sua Literatura,
Também presente estará
Ao lado de Jeová
Na palestra de abertura.
Jeová é o detentor
De uma grande coleção
De gravuras populares,
A maior desta nação.
De Damásio a Walderêdo,
Ele conhece o enredo
Da gravura no sertão.
Tem obras de J. Borges,
João Pereira e Mestre Noza,
Tem xilos de Minelvino,
Que foi bom em verso e prosa,
Tem Dila, tem Abraão,
Eu, que vi tal coleção,
Atesto ser valiosa.
Tem de Marcelo Soares
Que é grande figura humana,
Xilos de Stênio Diniz,
Outra pessoa bacana.
De Zé Bernardo ele é neto,
Um grande artista, inquieto,
Cujo valor sempre emana.
Dessa nova geração
Cito Erivaldo primeiro,
Zé Lourenço, Francorli,
João Pedro do Juazeiro,
Tem Ciro, outro gravador,
Um grande batalhador
Lá no Rio de Janeiro.
João Pedro do Juazeiro
É artista singular,
Escreveu até um livro
Sobre a arte de gravar.
Nas cidades nordestinas,
Faz palestras, oficinas,
Com o intuito de ensinar.
Mas voltemos à gravura
Feita por anônimo artista
Que ilustra um folheto
Do grande Chagas Batista.
Mil novecentos e sete
É a data a que remete
O início dessa lista.
Tempos depois n'O Rebate,
Um jornal de Juazeiro,
Surge uma seção de trovas,
Onde vê-se um violeiro,
Talhado em xilogravura,
Arte sublime e tão pura,
Presente no mundo inteiro.
Na gravura popular,
Uma escola muito forte
É a que ainda produz
Em Juazeiro do Norte,
Desde o passado milênio,
Que teve e tem em Stênio,
O verdadeiro suporte.
Pernambuco também traz
Contribuição certeira
No traço de Manoel
Apolinário Pereira.
Outro artista genuíno
Foi Cirilo ou Severino
Gonçalves de Oliveira.
Da mesma escola saído,
Com talento e sem enfeite,
Seu traço característico
É pra muitos um deleite.
É um poeta afamado
E um xilógrafo respeitado
Nosso José Costa Leite.
Jerônimo, que hoje respira
Em São Paulo novos ares,
Com seu traço singular,
Está em vários lugares.
A sua arte se expande,
Pois ele é filho do grande
Poeta José soares.
Também Marcelo Soares,
Que é de Jerônimo irmão,
Desenvolveu um estilo,
Que já beira a perfeição.
E ele, além de gravador,
É também um trovador
Pleno de inspiração.
J.Borges de Bezerros
Possui traço primoroso,
É A Prostituta no Céu
O seu taco mais famoso.
Ele é poeta e editor,
Com quem o Pai Criador
Foi bastante generoso.
O João Antônio de Barros
É de Glória do Goitá.
Com o nome de Jota Barros
Ele se projetará
No verso e na ilustração
E também na Coleção
Famosa de Jeová.
Dila é outro gravador,
Que possui boa figura.
Trabalhando na borracha,
Criou a linogravura.
Lampião, Rei do Cangaço,
Está presente em seu traço
E em sua literatura.
Na Bahia, Minelvino,
Que foi poeta e editor,
Escreveu a sua história
Também como gravador.
Co’ inspiração soberana
Ele traçou na umburana
Fé, caridade e amor.
Também deve ser citado,
Da terra de Minelvino,
Franklin Cerqueira Maxado,
O Maxado Nordestino,
Trovador e ensaísta
Que optou por ser artista,
Forjando o próprio destino.
Em Alagoas, a terra
Dos guerreiros de Palmares,
Floresceu a arte do
Poeta Enéias Tavares,
Que escreveu sobre João Grilo
E no cordel e na xilo
Possui obras singulares.
Não esqueçamos Nireuda,
Gravadora potiguar,
O mestre Antônio Lucena,
Que era bom no versejar.
Assim, a xilogravura,
Com nomes desta estatura,
Têm muito a comemorar.
E José Martins dos Santos
Não pode ser olvidado:
Com O Soldado Francês
Ou O Baralho Sagrado,
Fez com traço harmonioso
Um tema muito famoso,
Já por Leandro versado.
Dizem que José Camelo,
Cordelista talentoso,
Também fez xilogravuras
Com um traço primoroso.
Escreveu, com maestria,
Coco Verde e Melancia
E O Pavão Misterioso.
A gravura popular
Está muito divulgada
Até no primeiro mundo
É exposta e pesquisada
Arte simples do sertão
Na Europa e no Japão
Se tornou admirada.
Brasília que sempre foi
Porto de muitas culturas
Vai expor em grande estilo
A coleção de gravuras
Que vale mais do que ouro,
Um verdadeiro tesouro
Para as gerações futuras.



quarta-feira, 26 de março de 2014

Lançamento: Os 12 Trabalhos de Hércules



Héracles, mais conhecido pelo nome romano Hércules, é filho do soberano dos deuses, Zeus, com a mortal Alcmena, esposa de Anfitrião, rei de Tebas. É, por isso, perseguido por Hera, esposa traída de Zeus, desde o nascimento. Uma condição imposta por Zeus daria ao descendente de Perseu que nascesse primeiro o direito de reinar sobre os tronos de Micenas, Tirinto e Mideia, na Argólida. Hércules e Euristeu, concebidos no mesmo período, eram os descendentes do grande herói vencedor da Medusa. Segundo uma das muitas versões da lenda, Hera, auxiliada por Ilítia, a deusa que presidia aos partos, faz que Euristeu nasça de sete meses, o que não só lhe dá direito ao trono, como também estabelece uma relação senhorial com o filho de Alcmena, que, para se livrar do jugo, terá de realizar 12 trabalhos.



Há, porém, versões controversas quanto ao número de trabalhos realizados por Hércules, bem como sobre seus reais motivos. A tradição mais aceita aponta como causa a tentativa de purificação do herói que, em um acesso de loucura enviado por Hera, ateia fogo na casa em que vivia, matando, sem saber, a esposa, Mégara, e os três filhos. No entanto, uma versão tardia, presente na peça Héracles, de Eurípides, atribui os trabalhos à condição imposta por um tirano, Lico, usurpador do trono de Argos, segundo a qual o herói poderá entrar na cidade, onde sua família estava refugiada, somente após a realização das tarefas.


Os primeiros trabalhos foram realizados no Peloponeso: o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, o Javali de Erimanto, a Cerva Cerinita, os Pássaros do Lago Estinfalo e os estábulos de Augias. Os seis últimos levaram o herói além dos limites do mundo conhecido (pelos gregos): o Touro de Creta, os Cavalos do tirano Diomedes (Trácia), o cinto de Hipólita, a rainha das Amazonas (Cítia), os Bois do gigante Gerião (Península Ibérica), a captura de Cérbero (Infernos) e As maçãs douradas do país das Hespérides (Ocidente). Ao fim dos trabalhos, purificado, o herói parte para outras aventuras, até o momento em que, despedindo-se da vida, ganha lugar entre as estrelas. É admitido entre os deuses, tornando-se, ele próprio, um deus, cujo culto era muito popular na Grécia Antiga.

Sobre o livro

O livro Os 12 Trabalhos de Hércules (Cortez Editora) é uma releitura das grandes façanhas do herói grego Hércules. É composto por poemas escritos em diferentes modalidades, que ora se aproximam da sátira (o Leão de Nemeia, os estábulos de Augias), ora se rendem ao lirismo das imagens concebidas pelo ilustrador Luciano Tasso (o cinto de Hipólita, as maçãs de ouro das Hespérides). Os feitos de Hércules são recontados em quadras, sextilhas, setilhas, oitavas e décimas com métricas e esquemas de rimas variados.

Esta obra, que dialoga com a literatura de cordel e com outros gêneros poéticos, é prova inconteste de que, livre das amarras, a poesia pode ir além das fronteiras estabelecidas entre o erudito e o popular. Texto e ilustrações podem ser lidos em conjunto ou separadamente, e a ordem dos trabalhos aqui escolhida não implica, necessariamente, a ordem a ser seguida pelo leitor.

Os 12 Trabalhos de Hércules
Autor: Marco Haurélio
Ilustrador: Luciano Tasso
Editor: Amir Piedade
ISBN: 9788524920431 / Editora: Cortez / Edição: 1ª / Acabamento: Brochura / Formato: 20.50x28.00 cm / Páginas: 64


Lançamento
Quando? 12 de abril (sábado), às 15h
Onde? Livraria Cortez, rua Monte Alegre,1074 – Perdizes, São Paulo (SP)

Na ocasião, haverá contação de histórias.

Banca nacional do Cordel voltará à Praça Cayru

A peleja dos cordelistas para manter a tradição


Por: Marcos Dias, Jornal A Tarde

O aniversário é de Salvador, mas o inferno astral parece ter sido dos repentistas, violeiros e poetas da literatura de cordel. Desde que a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) determinou o reordenamento para camelôs e artesãos da Praça Cayru,  em frente ao Mercado Modelo, em 21 de outubro do ano passado, os artistas populares ficaram sem ter onde se apresentar nem comercializar  seus livros e discos.

Mas na última segunda-feira, com a inauguração do Palco dos Cordelistas, no mesmo local onde a Ordem Brasileira dos Cordelistas e Poetas da Literatura de Cordel mantinha uma banca, integrando a programação do Festival da Cidade, a peleja contra o dragão da insensibilidade administrativa teve fim.

Pelo menos foi o que garantiu o secretário do Desenvolvimento, Turismo e Cultura de Salvador, Guilherme Bellintani: "Foi o tipo de situação  que devemos aprender com os erros. Não foi intencional, mas eles foram equivocadamente retirados. A gente espera que daqui para a frente o palco seja a grande âncora desta Praça".

O secretário garantiu que após as comemorações do aniversário da cidade, o palco vai permanecer e será administrado pela própria Ordem dos Cordelistas.
Um novo lay-out na estrutura também vai enfatizar as referências nordestinas  no equipamento da prefeitura. E, dependendo da experiência, Bellintani também considera implantar palcos semelhantes em outros espaços da cidade.
A frase mais ouvida durante as apresentações, entre os repentes,  traduzia o  alívio que os artistas populares sentiram: "Graças a Deus que a Praça voltou!".

As apresentações do Festival dos Cordelistas  continuam até sábado,  com apresentação de  Bule-Bule e  atrações como  Lavandeira, Bem-te-Vi, Antonio Queiroz, Sabiá e Zé Querino e Caboquinho e João Ramos, entre outros.

O presidente interino da Ordem Brasileira dos Cordelistas, Antonio Tenório Cassiano, 71, que atende pelo nome artístico de Paraíba da Viola, tem  razão em comemorar.  "Nosso trabalho aqui não é de camelô, é cultura. E essa cultura é tão forte que nem os poetas sabem direito da potência que ela tem. Não é muito respeitada, como agora fizeram, mas deram fé que fizeram errado".

No comando
Antes de saber o que seria do ponto em que se apresentam desde 1978, Paraíba tentou falar duas vezes com a titular da Semop, Rosemma Maluf, mas não foi atendido. Na época, fez o que um artista faz de melhor e criou: "A secretária quer levar nossa cultura de eito, /mas eu confio em Jesus que isso vai ter um jeito, /porque Deus tá no comando e manda mais do que o prefeito".

A fé, ou o empenho do cordelista no seu ofício e identidade, se fundamenta na honra. Filho do poeta popular Candido Tenório do Nascimento, desde criança se acostumou com as cantorias  em casa. "Toda vida fui poeta. Triste de mim se não tivesse essa profissão".

Mesmo assim,  costuma dizer que só conta sua carreira a partir de 1990. Natural da Serra do Teixeira (PB), ele veio para Conceição do Coité em 1975.  Até então, não bebia, com medo do pai, mas uma vez por aqui, as coisas desandaram.

"A mulher sofreu muito, não sofreu agressão fisica, mas sofreu muita fome, muita vergonha, e os filhos. Graças a Deus, Ele me botou no AA e eu conto minha profissão desse tempo para cá".
Agora, enquanto não puderam estar na Praça Cayru, as dificuldades da Ordem dos Cordelistas  aumentaram. A maior foi a manutenção do aluguel da Casa do Cantador, que a Ordem mantém em Dom Avelar. "Nós, poetas populares, somos esquecidos pelo poder público. Você não tem uma ajuda de custo de um centavo".


Para ler a matéria completa, clique AQUI

Alice no país das Maravilhas em Cordel no blog da Nova Alexandria



Leia, no blog da Editora Nova Alexandria, trecho da apresentação que escrevi, para o livro Alice no País das Maravilhas em Cordel, de João Gomes de Sá:


Alice no País das Maravilhas tornou-se, desde o seu lançamento, em 1865, um grande clássico da literatura infantil. Seu autor, o inglês Charles Lutwidge Dodgson, usou o pseudônimo literário Lewis Carroll. Sua obra principal, sucesso imediato e retumbante, chegou às mãos da rainha Vitória, da Inglaterra, que fez questão de conhecer as demais obras do autor.

Antes de Alice, Dodgson escrevera apenas tratados de Matemática. A história, ao longo de mais de um século, foi adaptada várias vezes para o cinema. Virou filme de animação dos Estúdios Disney em 1951. O cineasta Tim Burton dirigiu uma versão excêntrica, que estreou em 2010. A primeira adaptação, no entanto, foi um filme mudo rodado no Reino Unido em 1903.

João Gomes de Sá, um dos mais respeitados cordelistas da atualidade, é o autor da versão em cordel de Alice no País das Maravilhas. O poeta, atento às soluções criativas do texto original, reconstruiu algumas situações, emprestando características nordestinas à protagonista, aos personagens e cenários.


O início já dá uma amostra do que vem a seguir: Alice, em perseguição ao Coelho Branco, não cai num poço, mas numa cacimba encantada. O Gato de Cheshire ou Gato Risonho, mesmo conservando o dom da invisibilidade, é um típico repentista nordestino. Para compor o personagem, João se inspirou no cantador paraibano Sebastião Marinho. Alice ainda encontra, na estranha terra, maravilhas que remetem ao clássico cordel Viagem a São Saruê, do poeta paraibano Manoel Camilo dos Santos (1905-1987). A estrofe, reproduzida abaixo, mostra essa fusão:

Por lá viu rios de leite,
Montanhas de goiabada,
Castelos de rapadura,
E árvores de marmelada.
Suspirou muito porque
Somente em São Saruê
Tal riqueza era encontrada.

O Chapeleiro Louco, personagem de grande importância no original de Carroll, tem, aqui, “O mesmo céu estrelado/ Do chapéu de Lampião”. Na versão do nosso cordelista, os tacos-flamingos e as bolas-ouriços do jogo disputado entre Alice e a Rainha de Copas se transmutam em seriemas e tatus-bolas, animais da fauna brasileira.

Para acessar o blog, clique AQUI

quarta-feira, 19 de março de 2014

Literatura de Cordel no Catálogo de Bolonha




Alvíssaras: o nosso Literatura de Cordel: do Sertão à Sala de Aula (Paulus Editora), coletânea de artigos e ensaios, é um dos livros títulos selecionados para compor o Catálogo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para Feira de Bolonha 2014. A obra teve como editor Antonio Iraildo e integra o catálogo da Paulus Educação. A ilustração da capa e as do miolo são do grande Marcelo Soares.

Para saber mais, vá à página da Paulus.

19 de março, dia de São José


Nossa Senhora com dor,
São José foi buscar luz,
São José não é chegado,
Nasceu nosso Bom Jesus.


No dia de São José (19 de março), reproduzo esta quadrinha, que consta de uma versão que recolhi da reza "O sonho de Nossa Senhora", ouvida na infância, que, surpreendentemente, parece ilustrar este quadro pintado por Josefa de Óbidos (1630-1684) há cerca de quatro séculos.

terça-feira, 11 de março de 2014

Dia Nacional da Poesia, Dia de Castro Alves

Canção do Violeiro
Ilustração de Jô Oliveira para o livro A lenda do Batatão (SESI-SP Editora)











Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ‘stá deserto, 
‘Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
















Nota: Aproxima-se o Dia nacional da Poesia, celebrado a 14 de março (homenagem ao poeta baiano Castro Alves que nasceu neste dia, no ano de 1847). Tenho especial apreço pelo poema “Canção do Violeiro”, que antecipa temas e cenários da poesia dita popular. Viva Cecéu!