Leandro Gomes de Barros escreveu um romance em
versos que tinha como tema principal a virtude feminina. Os sofrimentos de Alzira é um dos principais poemas dramáticos do
mestre maior do cordel, praticamente uma versão não creditada da História da Imperatriz Porcina, cuja
origem remonta à Idade Média, e tem por base a lenda de Crescência. O êxito de
Leandro permitiu que outros poetas trabalhassem enredos parecidos. Seu compadre
Francisco das Chagas Batista, por exemplo, adaptou, a partir do poema do cego
português Baltazar Dias, da Ilha da Madeira, contemporâneo de D. Manoel, o
Venturoso, o drama de Porcina.
![]() |
| Pintura anônima do século XVIII, retratando a heroína da lenda piedosa. |
Já
Os martírios de Genoveva, do pioneiro
José Galdino da Silva Duda, atribuído algumas vezes a Leandro, graças a uma
falha bisonha das herdeiras do editor José Bernardo da Silva, baseia-se na
popular lenda de Genoveva de Brabante, que forneceu matéria abundante a muitos
escritores, desde o século XII. A oposição bem-mal, com o triunfo da virtude, é
o eixo em torno do qual gira a trama:
Nesta
história se vê
A
virtude progredir,
A
verdade triunfar,
O
mal se submergir,
A
honra salientar-se,
A
falsidade cair.
Para
se ter uma ideia da importância do tema elencamos alguns romances: História da princesa Rosa, de Silvino Pirauá
de Lima; História de Cecília Afra: três
suspiros de uma esposa, de Theodoro Ferraz da Câmara; Bernardo e D.
Genevra, de José Galdino da Silva Duda; História
de Rosa de Milão, do mesmo autor, e Os
sofrimentos de Célia, de Manoel Pereira Sobrinho. O filho mais ilustre
deste ciclo da mulher virtuosa é, sem dúvida, o romance O assassino da honra e a louca do jardim, antigo drama de circo
recriado por Caetano Cosme da Silva.
| Filme de 1964, dirigido por José Luis Monter. |
A
lenda, ambientada no século VIII, embora guarde semelhança com a vida de Maria
da Baviera, do século XIII, é motivo inspirador de uma ópera, Genoveva de Brabante, em quatro atos de
Robert Schumann baseada em um libreto do compositor Robert Reinick, de 1850,
peça que apresenta muitas similaridades com a Lonhengrin, de Richard Wagner. No cinema, a lenda de Genoveva
também foi recontada algumas vezes, como, por exemplo, na produção
hispano-italiana de 1964, dirigida, em 1964, por José Luis Monter. Outra
produção italiana de 1947, dirigida por Primo Zeglio, atesta a grande
popularidade da lenda imortalizada também pela literatura de cordel dos dois
lados do Atlântico.
O autor de Genoveva
José Galdino da Silva Duda, mais conhecido como Zé
Duda, famoso cordelista e, sobretudo, cantador, nasceu em 1866, em Cabaceiras
(PB) e faleceu em 1931, em Recife (PE). Foi um filho enjeitado, encontrado e
criado como filho por um sitiante. Antes de se tornar cantador afamado, foi
almocreve e comboieiro. De um encontro com o então jovem cantador Severino
Lourenço da Silva Pinto, o mitológico Pinto do Monteiro, Zé Duda, pernambucano
por adoção, deixou esta maravilhosa sextilha, que lhe poderia servir de
epitáfio:
Quando vazar a notícia
Que José Duda morreu,
Pernambuco há de dizer
Que a semente se perdeu
E a Paraíba não bota
Outro Duda como eu.
![]() |
| Litogravura de Gines Ruiz: Genoveva na selva. |







