domingo, 8 de maio de 2016

Novo livro de Luiz Galdino aborda mitologia ameríndia



Nossos indígenas reúnem em suas tradições um acervo de mitos e heróis tão significativo quanto o de qualquer povo do planeta. Esse Mitologia indígena é um portal simbólico que o leitor está convidado a transpor, rumo às origens remotas locais de nossa cultura.

Desde que os europeus puseram os pés no continente americano, um fluxo contínuo de histórias indígenas locais passou a fecundar suas culturas. No caso do Brasil, recolhidas desde o início da colonização e vertidas para o registro escrito, seja por lusos, seja por viajantes e aventureiros de outras nacionalidades, essas histórias passaram a integrar a base da cultura brasileira. Este Mitologia indígena, que a Editora Nova Alexandria traz ao leitor, mostra o trabalho que o escritor e pesquisador Luiz Galdino disponibiliza através de um recorte preciso desse já vasto acervo de narrativas tradicionais indígenas brasileiras – um árduo trabalho, pois tanto a diversidade de culturas brasilíndias oferece ao pesquisador um vasto acervo, quanto a beleza das narrativas tornou dolorosa a seleção. Aqui Luiz Galdino, como todo aquele a quem cabe a difícil tarefa de produzir uma antologia representativa, realizou felizes opções, a partir de critérios rigorosos, elucidados ao fim do volume no capítulo “Mitos, contos e fábulas”.

A criação do universo, da vida, das plantas e dos bichos; a conversão de homem em bicho e de bicho em homem; os astros interferindo nas relações entre os humanos e os humanos galgando os céus, metamorfoseados em corpos celestes; viagem de ida e volta ao mundo dos mortos; batalhas épicas entre nações indígenas... esses outros temas essenciais comparecem significativamente para deixar transparecer, por meio de ricas narrativas, o modo de sentir, pensar e viver daqueles que desde tempos imemoriais ocupam a Terra Brasilis.

A riqueza imaginativa e expressiva se combina para dar corpo a narrativas de beleza singular, em que fenômenos climáticos, corpos astronômicos, fauna, flora e mundo humano se comunicam livremente e compartilham o mesmo statusde importância porque, afinal, todos são vivos e se convertem uns noutros, o tempo todo: tanto a Lua pode descer para namorar um moço, quanto um tropel de crianças arteiras pode ir morar no céu e seus olhos, transformados em estrelas, velarem para todo o sempre a noite sobre a Terra.



MITOLOGIA INDÍGENA
Autor:-           Luiz Galdino                           Ilustrações:-   Severino Ramos
ISBN:-             978-85-7492-384-0                Preço de Capa:-  R$ 42,00


Nº de páginas:-168, formato:- 16 x 23 cm x 1,3cm.         Peso:-  680 g.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cordéis atemporais: Os Martírios de Genoveva


Cordel publicado pela Luzeiro. Capa: Adelmo
Leandro Gomes de Barros escreveu um romance em versos que tinha como tema principal a virtude feminina. Os sofrimentos de Alzira é um dos principais poemas dramáticos do mestre maior do cordel, praticamente uma versão não creditada da História da Imperatriz Porcina, cuja origem remonta à Idade Média, e tem por base a lenda de Crescência. O êxito de Leandro permitiu que outros poetas trabalhassem enredos parecidos. Seu compadre Francisco das Chagas Batista, por exemplo, adaptou, a partir do poema do cego português Baltazar Dias, da Ilha da Madeira, contemporâneo de D. Manoel, o Venturoso, o drama de Porcina.

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Pintura anônima do século XVIII,
 retratando a heroína da lenda piedosa. 
Os martírios de Genoveva, do pioneiro José Galdino da Silva Duda, atribuído algumas vezes a Leandro, graças a uma falha bisonha das herdeiras do editor José Bernardo da Silva, baseia-se na popular lenda de Genoveva de Brabante, que forneceu matéria abundante a muitos escritores, desde o século XII. A oposição bem-mal, com o triunfo da virtude, é o eixo em torno do qual gira a trama:

            Nesta história se vê
            A virtude progredir,
            A verdade triunfar,
            O mal se submergir,
            A honra salientar-se,
            A falsidade cair.

Para se ter uma ideia da importância do tema elencamos alguns romances:  História da princesa Rosa, de Silvino Pirauá de Lima; História de Cecília Afra: três suspiros de uma esposa, de Theodoro Ferraz da Câmara; Bernardo e D. Genevra, de José Galdino da Silva Duda; História de Rosa de Milão, do mesmo autor, e Os sofrimentos de Célia, de Manoel Pereira Sobrinho. O filho mais ilustre deste ciclo da mulher virtuosa é, sem dúvida, o romance O assassino da honra e a louca do jardim, antigo drama de circo recriado por Caetano Cosme da Silva.

Filme de 1964, dirigido por José Luis Monter.

A lenda, ambientada no século VIII, embora guarde semelhança com a vida de Maria da Baviera, do século XIII, é motivo inspirador de uma ópera, Genoveva de Brabante, em quatro atos de Robert Schumann baseada em um libreto do compositor Robert Reinick, de 1850, peça que apresenta muitas similaridades com a Lonhengrin, de Richard Wagner. No cinema, a lenda de Genoveva também foi recontada algumas vezes, como, por exemplo, na produção hispano-italiana de 1964, dirigida, em 1964, por José Luis Monter. Outra produção italiana de 1947, dirigida por Primo Zeglio, atesta a grande popularidade da lenda imortalizada também pela literatura de cordel dos dois lados do Atlântico.







O autor de Genoveva

José Galdino da Silva Duda, mais conhecido como Zé Duda, famoso cordelista e, sobretudo, cantador, nasceu em 1866, em Cabaceiras (PB) e faleceu em 1931, em Recife (PE). Foi um filho enjeitado, encontrado e criado como filho por um sitiante. Antes de se tornar cantador afamado, foi almocreve e comboieiro. De um encontro com o então jovem cantador Severino Lourenço da Silva Pinto, o mitológico Pinto do Monteiro, Zé Duda, pernambucano por adoção, deixou esta maravilhosa sextilha, que lhe poderia servir de epitáfio:

Quando vazar a notícia
Que José Duda morreu,
Pernambuco há de dizer
Que a semente se perdeu
E a Paraíba não bota
Outro Duda como eu.

Litogravura de Gines Ruiz: Genoveva na selva

terça-feira, 3 de maio de 2016

Você já ouviu o Morão di Privintina?


Morão di Privintina é o grupo criado por Paulo Araújo e João Filho, o primeiro, cantor e compositor, o segundo, poeta e contista com vários prêmios na cacunda.

Para não perder tempo, ou, como dizemos na região do São Francisco, "barco parado não ganha frete", reproduzo o release do grupo que inova sem abrir mão da tradição. 

O regionalismo universal de Paulo Araújo

Cantor e compositor baiano, Paulo Araújo apresenta, em sua obra, as belezas naturais e o imaginário do Rio São Francisco.

A música rotulada de regional pode ser mais universal do que se imagina. Afinal, como disse ogrande escritor norte-mineiro Guimarães Rosa, “o sertão é o mundo”. É preciso evocar o grande artesão da nossa literatura e sua frase emblemática, dita por Riobaldo, protagonista de Grande Sertão: Veredas, para entender a universalidade da arte de Paulo Araújo. Cantor, compositor, poeta, militante das causas sociais em defesa do São Francisco, o rio de sua aldeia, Paulo Araújo, à frente do grupo musical Morão di Privintina, promove uma revolução silenciosa, em sons que evocam a ancestralidade mítica do povo nordestino e marcha em direção ao futuro imaginado, sonhado, esboçado em canções de grande agudeza poética.

Nascido em Bom Jesus da Lapa, no sertão baiano, cidade batizada por Euclides da Cunha como a Meca dos Sertanejos, Paulo Araújo vivenciou, desde menino, as ricas tradições culturais do Médio São Francisco e o fervor religioso da população local e dos romeiros, que, todo ano, chegam aos milhares para visitar o santuário local. O fundo da casa dos pais de Paulo é o morro sagrado do Bom Jesus, uma formação calcária, que abriga uma igreja, centro poderoso de devoção popular. Dos benditos e ladainhas, passando pelas cantigas de cego, cantos das lavadeiras e pregões populares, nada escapou à sensibilidade ímpar do artista em formação

Aos 14 anos, a mãe, dona Maria de Araújo, presenteou-o com um violão, apontando o seu caminho na vida e na arte. Influenciado pelos artistas nordestinos de que despontavam no cenário nacional, no fim da década de 1970, a exemplo de Alceu Valença e Zé Ramalho, Paulo começou a compor timidamente as primeiras canções. Mas só se realizou mesmo com a criação do grupo Morão di Privintina, que idealizou com o também poeta e parceiro musical João Filho, em 1998, com o fito de participar de festivais, promover encontros e levar a cabo experimentações com o linguajar, os mitos e a alma barranqueira. Com João compôs canções emblemáticas, como I-MargemNobre Barranqueiro e Tempo de Perau, que integram o álbum Cama de Quiabento. A mistura das sonoridades do rio São Francisco e do sertão catingueiro ao rock, é a marca registrada do grupo, que lançou, recentemente, Janela do Ermo, que amplia a viagem com mais experimentalismos sonoros e poéticos.

Em 2016, a canção I-Margem foi escolhida para integrar a emblemática trilha sonora da novela Velho Chico, de autoria de Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi, exibida atualmente na faixa nobre da Rede Globo com direção artística de Luiz Fernando Carvalho.  A faixa, além de ser o carro-chefe do cantor e compositor baiano, é ainda o mote do projeto cultural Canto das Águas – um Olhar sobre Velho Chico, que percorrerá cidades banhadas pelo rio São Francisco, reunindo, além de Paulo Araújo, outros artistas, promovendo um diálogo entre a música popular e folclórica e a erudita. No momento, Paulo Araújo prepara ainda uma agenda de shows e apresentações pelo Brasil, sempre evocando as suas raízes ribeirinhas em canções que navegam pelo nosso imaginário e pela nossa memória afetiva.
Paulo Araújo e o encantado do rio São Francisco.
Arte: Jô Oliveira.

CONTATO: diprivintina@gmail.com.


Conheça I-Margem, tema da novela Velho Chico, com arranjos do maestro Rafael Amadeu Luperi:



Cifra de I-Margem, obra-prima de Paulo Araújo e João Filho.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Cordéis atemporais: História do Cachorro dos Mortos



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Capa de Jô Oliveira para a edição digital da obra
(Editora O Fiel Carteiro)
Escrito por Leandro Gomes de Barros, provavelmente em 1906, O cachorro dos mortos é considerado por muitos cordelistas, a exemplo de Klévisson Viana, Arievaldo Viana e Marciano Medeiros, o mais importante cordel dramático de todos os tempos. Poeta de muitos recursos, que trabalhava com igual maestria narrativas de aventura (História de Juvenal e o dragão), histórias de espertalhões (A vida de Cancão de Fogo e o seu testamentoO cavalo que defecava dinheiro) e romances trágicos (Os sofrimentos de AlziraA força do amor), Leandro alcançaria a imortalidade se de sua pena houvesse saído apenas a história do cachorro Calar. Com o protagonista da história aprendemos que a expressão fidelidade canina nada tem de desonrosa, pelo contrário. Muito antes de Graciliano Ramos escrever Vidas secas, romance em que a personagem mais humana é a cachorrinha Baleia, Leandro confere ao velho cachorro Calar, testemunha solitária de um crime bárbaro, características quase sobrenaturais. De certa forma, ele é o elo evocado por sua dona Angelita, vítima da tocaia armada pelo feroz Valdivino, para que seja feita a improvável justiça:

Olhou pra uma gameleira
Que tinha junto à estrada,
Dizendo: — E tu gameleira,
Viste a cena passada?
És uma das testemunhas
Quando a hora for chegada.

(...)

E essa flor que por ela
Há festa aqui todo ano
Há de tirar a justiça
De uma suspeita ou engano,
Dirá ao juiz: Venha ver
Quem matou a Floriano!

O tema que inspirou Leandro é o da natureza denunciante, definida por Luís da Câmara Cascudo, que enxergou, com os motivos que o compõem, um ciclo na contística popular: “O ato criminoso é revelado pela denúncia de ramos, pedras, ossos, flores, frutas, aves, animais”.[1] No livro Contos e fábulas do Brasil, de minha autoria, discorri sobre o tema:
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Edição da Tupynanquim Editora com capa
de Klévisson Viana.
“Os Irmãos Grimm forneceram aos estudiosos o conto-tipo mais completo com o tema natureza denunciante: A luz do sol o revelará (Die klare Sonne bringt's an den Tag). Resumidamente, narra como um alfaiate faminto ameaça de morte um judeu para roubá-lo, embora este o tenha alertado que só levava oito centavos. Antes de morrer, o judeu invoca a única testemunha possível: a luz do sol. Tempos depois, já com família constituída, o assassino vê a luz do sol formar vários círculos no pires de café que tinha às mãos. Inadvertidamente, relembra o episódio e, instado pela mulher, acaba confessando. A proverbial indiscrição feminina, na figura da comadre confidente, levará ao tribunal e depois à execução o assassino. (...) Uma história do sexto século antes de Cristo, conservada pela memória popular com o auxilio dos poetas, é o antecedente ilustre deste tema. O poeta Íbicus, natural de Régio, Magna Grécia, arrastado até uma ilha deserta por salteadores que desejavam roubá-lo, é inapelavelmente morto. Antes de expirar, suplica a uns grous que voavam sobre a ilha que servissem de testemunhas de seu martírio.  Anos mais tarde, os assassinos do bardo, num anfiteatro de Corinto, ao verem os mesmos pássaros sobrevoando o local, dizem em tom de chiste: ‘Lá vão as testemunhas e vingadoras de Íbicus’. Os circunstantes ouvem a pilhéria e ligam-na ao desaparecimento do poeta. Denunciados, os assassinos são presos, julgados e executados.[2] Câmara Cascudo apresenta, com enredo semelhante, As testemunhas de Valdivino. Testemunhas estas já abrasileiradas na forma de garças.”[3]

Edição da Editora Luzeiro.

O mais curioso é que, no conto registrado por Câmara Cascudo, acima citado, Valdivino é o nome da vítima. No romance de Leandro, é o algoz. No conto O testemunho das gotas de chuva, por mim recolhido, há um assassinato sem testemunhas aparente, a não ser os pingos de chuva, aos quais a vítima se dirige, e que, tempos depois, terminam por denunciar o criminoso. Acredito que a ideia fulcral de O cachorro dos mortos esteja na cena em que Angelita, à beira da morte, apela para uma justiça imanente pela punição de Valdivino. O motivo pode ter servido de moldura para uma lenda, talvez inspirada em uma festa religiosa, como a descrita na história, ambientada na Bahia, no início do século XIX.

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[1]  In: Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global Editora, 1999, p. 22.
[2] Veja-se Cascudo, Luís da Câmara. Os grous de Íbicus voam em português. In Superstição no Brasil, p. 189.
[3] Contos e fábulas do Brasil. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.Alexa, 2011.

O Imortal Mestre Azulão

Assis Angelo, Azulão, Bule-Bule, Klévisson Viana, Marco Haurélio
e João Firmino Cabral (Fortaleza, 2008)

Em que pese a correria dos últimos dias, seria injusto comigo mesmo e com a história do cordel se não prestasse uma homenagem a João José da Silva, o imortal Mestre Azulão, que nos deixou no último 12 de abril, aos 84 anos. Cordelista, repentista, compositor, autor de páginas imortais da poesia popular, Azulão deixa um legado de centenas, talvez milhares de cordéis, incluindo uma vasta produção de romances.

Para este pequeno gigante que tive a honra de conhecer em 2006 e reencontrei em muitas outras oportunidades, escrevi estes versos, seguindo a picada aberta por outros poetas, como Klévisson Viana, Victor Alvin, Arievaldo Viana,  Dalinha Catunda e Rouxinol do Rinaré:

Quando José João dos Santos
Veio habitar este plano,
O seu nome foi gravado
Por mãos do divino arcano
Para plantar a semente
Da poesia na gente,
Servindo ao Pai Soberano.

Foram marcas registradas
Os óculos e o chapéu.
Partiu, porém nos deixou
Sua obra como troféu
Que a nossa lira abrilhanta:
Mestre Azulão hoje canta
Nos campos vastos do céu.

 
Homenagem da Tupynanquim Editora.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Cordéis atemporais: História de Roberto do Diabo


história de Roberto do Diabo
História de Roberto do Diabo em ilustração de Jô Oliveira.
Editora O Fiel Carteiro (coleção Cordel Digital)

Roberto do Diabo é personagem de lenda de grande repercussão que migrou das vozes anônimas divulgadoras de tradições antigas para as páginas da literatura popular de mais de uma nação. A tradução portuguesa de Jerônimo Moreira de Carvalho, no século XVIII, funde tradições diversas e dispersas sobre a figura lendária do facínora que comete todos os excessos até um encontro libertador com um anjo de Deus. Graças a uma frase sacrílega de uma mãe desesperada por não dar ao duque Alberto da Normandia um herdeiro, Roberto nasce por influência do mal. Aos sete anos, mata com uma punhalada o seu mestre. Desdobra-se em crueldades até tentar o parricídio, razão por que é banido do ducado. Com a cabeça posta a prêmio, passa a agir com mais brutalidade, matando, desonrando, pilhando, num frenesi maléfico que parece não ter limites. Quando resolve procurar Inda, sua mãe, descobre a verdade sobre sua origem, motivadora de uma natureza bestial.

Busca, a partir daí, a purificação, rompendo com seus comparsas, os quais, na impossibilidade de conduzi-los à luz, são mortos por ele. A tentativa de redenção envolve uma viagem a Roma, onde confessa-se diante do Sumo Pontífice. Este pede para que procure um santo homem, um eremita, que, por intermédio de um anjo, mostra-lhe o caminho da purificação: deverá fingir-se de louco e comer apenas o sobejo dos cães. Em Roma, onde cumpre penitência, coberto de andrajos, é observado sem saber pela filha do imperador local, que o ama em segredo. Quando a cidade é invadida pelos sarracenos, Roberto, cumprindo ordem divina, torna-se o Cavaleiro Branco, encontrando, por milagre, o cavalo e as armas com os quais vai à batalha. De Roberto nascerá Ricarte da Normandia, um dos Doze Pares de França, a eminência parda do exército de Carlos Magno.

Assim diz a lenda. Mas não é o que diz a História.

As fontes remotas para esta história que atravessou o Atlântico são, segundo Câmara Cascudo, três: as Chroniques de Normandie, que citam o ano de 751 e informam sobre o conde da Neustria, Aubert, pai de Roberto. Não há, neste documento, referência ao pedido sacrílego da mãe, Inde (ou Inda). A segunda é um poema anônimo de autor normando, escrita no século XIII, mesma época de um lay bretão, levado à Inglaterra pelos seguidores de Guilherme, o Conquistador, invasor normando fundador uma nova dinastia. A terceira, de traço marcadamente cristão, é o Miracle de Nostre Dame de Robert Le Diable, onde abundam os episódios piedosos.

O enredo irresistível alimentou a literatura de cordel portuguesa, dando origem a uma versão em quadras em redondilha maior. No Brasil, há a versão que lemos, atribuída, por alguns, a João Martins de Athayde. Os poetas e folheteiros João Vicente da Silva, paraibano, e João Firmino Cabral, sergipano, no entanto, afirmam que a obra é de autoria de Leandro Gomes de Barros. Esta também era a opinião da saudosa pesquisadora do cordel, Francisca Neuma Fechine Borges, que, a serviço da Fundação Casa de Rui Barbosa, na década de 1970, realizou um cotejo da História de Roberto do Diabo com outros títulos de Leandro, especialmente com a História de João da Cruz, reunindo argumentos robustos para sua afirmação.

Roberto, bandido cruel, inimigo das virtudes, pode ser isentado de seus futuros crimes, vítima que foi da fatalidade. São comuns nos contos populares as concepções bestiais, príncipes com forma animal, como indício de punição à imprudência materna. Também são encontráveis histórias em que o herói age disfarçado até o momento em que um falso herói tenta usurpar-lhe a glória. Não será este o modelo dos modernos super-heróis ocultos sob capas, máscaras e metamorfoses?

E, entre os romances trágicos do Nordeste, a História do Valente Vilela, cujo enredo descreve um cangaceiro de índole perversa que, de súbito, se arrepende, tornando-se um eremita, não é uma versão simplificada do bandoleiro que busca a expiação por meio da mortificação do corpo? Não é este o motivo principal do Augusto Matraga de Guimarães Rosa, escritor que sabia buscar no patrimônio cultural comum a muitos povos as referências para sua obra inigualada? 

 Trecho inicial do romance:

Na província da Normandia,
na remota antiguidade,
viveu o duque Alberto,
cheio de fraternidade.
Era ele o soberano
de toda aquela cidade.

Ele era um moço solteiro,
não pensava em casamento,
não era por egoísmo,
nem por ser rico avarento:
era porque no futuro
nunca pensou um momento.

Disse um vassalo ao duque:
— Sei que é bom ser solteiro.
o homem que não se casa
vai caminhar sem roteiro.
veja bem que seu ducado
mais tarde precisa herdeiro.

O duque, ouvindo estas frases,
mudou logo o pensamento.
ficou crendo no vassalo
naquele mesmo momento
e disse que nas mãos dele
estava o seu casamento.

Seguiu então o vassalo
foi dar parte na cidade
aquelas pessoas doutas
de alta capacidade
que o duque prometia
fazer a sua vontade.

Ficaram todos contentes
foram então consultar
qual era a moça capaz
daquele duque casar
depois da consulta feita
poderam então acertar.

A duqueza de Borgonha
foi essa a moça escolhida.
eles seguiram com medo
desta jornada perdida,
mas ela mandou o sim
da proposta referida.

E, poucos dias depois,
tiveram então de casar.
foi uma festa tão grande
que não se pode contar.
eu não conto neste livro
pra ele não aumentar.

Depois dos jovens casados,
ficou tudo satisfeito
porque mais tarde teriam
quem punisse o seu direito.
O ducado tinha herdeiro
e o povo tinha conceito.


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quinta-feira, 10 de março de 2016

A França no Brasil


Atenção parceiros, o nosso amigo Rogério Soares, professor, pesquisador da cultura popular e fotógrafo de nobres cliques, participa de um concurso cultural cujo tema é "A França no Brasil" e o prêmio é um estágio de um mês na Sorbonne, em Paris. 
Rogério concorre com uma foto retratando a Cavalhada de Serra do Ramalho, na Bahia, talvez o indício mais forte da presença da França no Brasil.
Para votar na foto de Rogério, reproduzida acima, clique AQUI

Abaixo o regulamento do concurso:

Já imaginou passar um mês em Paris estudando na Sorbonne? Para concorrer a este prêmio, é muito simples: basta enviar uma fotografia com o tema “A França no Brasil” e pedir para seus amigos votarem na sua imagem!
"A França no Brasil"

A França marca sua presença no Brasil através dos noticiários, cinema, da música, arte e gastronomia. A influência francesa está na nossa arquitetura, no nosso idioma e até em pequenos detalhes do dia-a-dia! Conte-nos, em uma única imagem criativa e inspiradora, onde e como você vê a França no Brasil.

O primeiro colocado ganha um curso de “Civilisation Française” na Sorbonne (Paris), com duração de um mês, com hospedagem e passagem aérea cedida pela Air France – KLM.

O segundo, um curso de francês com duração de um mês na alpha.b (Nice), com hospedagem, e o terceiro, brinde cedido pela Livraria Francesa.
Envio de imagens: até o dia 9 de março de 2016
Votação: entre 10 e 14 de março de 2016


As cinco fotos mais votadas pelo público e cinco fotos escolhidas pela comissão julgadora serão as finalistas, anunciadas no dia 15 de março de 2016. 

As grandes vencedoras serão escolhidas pela Comissão Julgadora e anunciadas no dia 17 de março, em um grande evento simultâneo, a Soirée Campus France Brasil em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Paulo Araújo, do grupo Morão di Privintina, na trilha épica de Velho Chico



Paulo Araújo, o Paulão, cantor e compositor baiano, nascido em Bom Jesus da Lapa, ao pé do morro sagrado, terá sua canção I-Margem, obra-prima que assina com o poeta João Filho, na trilha sonora da novela Velho Chico, que irá ao ar em março, pela TV Globo, às 21h. A trama assinada por Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi, e supervisionada por Benedito Ruy Barbosa, conta com direção artística de Luiz Fernando Carvalho e produção musical de Tim Recala. 

A letra de I-Margem, belíssima evocação do amor como metáfora da agonia lenta do rio São Francisco, traz versos como estes:

"Há um rio afogando em mim,
secando... secando... secando...
esperando o fim.
(,..)
Foi na margem do meu peito que você pisou
e se fez dona só pra magoar
nessa ciranda que desanda...
que desanda... que desanda
se diz andar."

Paulão, líder do grupo Morão di Privintina, autor de clássicos como Nobre barranqueiro, Boi de escola e Tempo de perau, todos em parceria com João Filho, emplacou sua canção numa trilha que conta com nomes de peso como Caetano Veloso, que regravou Tropicália especialmente para a abertura da novela, Elomar Figueira Mello, Vital Farias, Gal Gosta e Tom Zé. 

Veja a lista completa das canções selecionadas abaixo:

Tropicália
Intérprete: Caetano Veloso
Autor: Caetano Veloso

Gemedeira
Intérprete: Amelinha
Autores: Robertinho do Recife e Capinan
Me leva
Intérprete: Renata Rosa
Autora: Renata Rosa
Flor de tangerina
Intérprete: Alceu Valença
Autor: Alceu Valença
Enquanto engoma a calça
Intérprete: Ednardo
Autores: Ednardo e Climério
Veja Margarida
Intérprete: Marcelo Jeneci
Autor: Vital Farias
Como 2 e 2
Intérprete: Gal Costa
Autor: Caetano Veloso
L'Étranger (Forasteiro)
Intérpretes: Thiago Pethit part. Tiê
Autores: Thiago Pethit e Héli Flanders/ Versão: Dominique Pinto e Rafael Barion
I-Margem
Intérprete: Paulo Araújo
Autores: Paulo Araújo e João Filho
Incelença pro amor retirante
Intérpretes: Xangai part. Elomar
Autor: Elomar
Serenata (Standchen)
Intérprete: Chico César
Autor: Franz Schubert, Ludwig Rellstab e Arthur Nestrovski
Pot-pourri Suíte Correnteza - Barcarola do São Francisco, Talismã e Caravana
Intérpretes: Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai
Autores: Geraldo Azevedo e Carlos Fernando (Barcarola do São Francisco), Geraldo Azevedo e Alceu Valença (Talismã), Alceu Valença e Geraldo Azevedo (Caravana)
Triste Bahia
Intérprete: Caetano Veloso
Autores: Caetano Veloso e Gregório de Mattos
Senhor cidadão
Intérprete: Tom Zé
Autor: Tom Zé
Mais informações na página da novela no Gshow
O coronel Jacinto, interpretado por Tarcísio Meira, se deleita com a grandiosidade do rio São Francisco em uma das cenas de 'Velho Chico' (Foto: Caiuá Franco/ Globo)
Tarcísio Meira viverá o coronel Jacinto, personagem emblemático em  'Velho Chico' (Foto: Caiuá Franco/ Globo)

Abaixo, uma versão da canção emoldurada pelas imagens do Velho Chico.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Mateus, esse boi é seu, de Marco Haurélio e Jô Oliveira, no Catálogo de Bolonha

Lançamento do livro Mateus, esse boi é seu, na Livraria da Vila, em junho de 2015.

Ótima notícia para "começar" 2016!
O nosso livro Mateus, esse boi é seu (DCL) foi selecionado para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália, publicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Outros amigos queridos também estão por lá, o que significa que eu e mestre Jô Oliveira, que assina as ilustrações, estamos em boníssima companhia.

Outros livros de minha autoria já selecionados: A lenda do Saci-Pererê em cordel (Paulus, 2009), Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010), Palmeirim de Inglaterra (FTD, 2012, com José Santos e Jô Oliveira), Literatura de cordel: do sertão à sala de aula (Paulus, 2013) e Quem conta história de dia cria rabo de cutia (Cortez, 2014). 

À editora de infantojuvenis  Vivian Pennafiel e à toda equipe DCL, nossa gratidão.

Eis a sinopse do livro publicada na página 53 no Catálogo:


"The story behind the traditional celebration of Bumba meu boi is portrayed in quatrains, which rhyming, leads the reader to the Northeast region. With little variations between the states region, in general, it is told that the best cowboy kills the boss’ ox to please a beautiful young lady. The cowboy regrets this and does everything he can to resurrect the animal that comes back to life after it’s given back the part people consider the most important. The tone of humor is strong and reveals itself also in the beautiful and colorful illustrations". (AF)

Para acessar o Catálogo, clique AQUI.  

Abaixo, para comemorar, uma sessão com a atriz e contadora de histórias Cristina Hentz (Tia Tina), no Canal Historinhas para Acordar. 



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

São Sebastião da Boa Vista

Festa de São Sebastião, no povoado de Boa Vista (Serra do Ramalho)

A Festa de São Sebastião é celebrada há muitos anos no povoado de Boa Vista, em Serra do Ramalho, Bahia. A imagem chega de Bom Jesus da Lapa, no balanço das águas do Velho Chico, e, em procissão, é levada pelas ruas do povoado ao som da banda da Marinha. Dia 20 de janeiro, à noite, ocorre a última celebração da novena em homenagem ao glorioso mártir.


Há algum tempo, no entanto, a festa vem sendo descaracterizada e, pior ainda, solapada, pela administração do município. Foi construído um palco para a realização de shows que reúnem o que há de pior no gênero forró de plástico. Assim como ocorreu com as festas juninas, o povo vai, aos poucos, perdendo o protagonismo, vendo maculada a sua identidade. Nem mesmo as celebrações são respeitadas pelos beócios que fazem questão de exibir, em alto e péssimo som, o seu mau gosto.

É preciso mobilizar o IPHAN na defesa de nossas mais caras tradições antes que estas desapareçam sob o peso esmagador da imbecilidade.