A noite de 7 de julho dificilmente se apagará de nossas lembranças. Com grande presença de público na Fnac Paulista, fizemos um bate-papo em torno do cordel, da cultura popular e do Rio São Francisco. Mediei a conversa descontraída com Paulo Araujo e Edmara Barbosa. Em seguida, ocorreu o pocket-show reunindo o trio Paulo Araújo, Lui Almeida Araújo e Rafael Amadeu. Na ocasião, além da exposição de meus livros publicados pela Nova Alexandria, foi lançado o CD da novela Velho Chico, do qual I-Margem, de Paulo Araújo, é a faixa número 9.
O bacana de tudo isso é que a plateia estava repleta de artistas (músicos, poetas, escritores produtores culturais, ilustradores etc.), grandes companheiros de uma jornada que não está nem na metade. E lá estava a turma do cordel, alguns deles parceiros da coleção Clássicos em Cordel, da Editora Nova Alexandria, responsável pelo contato inicial, que deu origem ao evento.
Obrigado a todos que ajudaram na divulgação, aos que lá estiveram e aos que, por contingências outras, não puderam se fazer presentes.
Até a próxima!
Fatel Barbosa, Paulo Araújo e Luiz Wilson.
Na plateia, artistas consagrados, como Aldy Carvalho,de Petrolina (PE)
O Trio Privintino: Rafael Amadeu, Paulo Araújo e Luí Almeida.
Penélope Martins, Pedro Monteiro, Valéria Cordero e Juliana Suellen.
Cacá Lopes. Marco Haurélio, Edmara, Luiz Wilson e Tin Tin
Rafael Luperi, Lucélia, Jorge Diaz, Paulo, Luí, Edmara e Luiz Carlos.
Com a pesquisadora Márcia Pituba.
Na plateia, entre outros, Cacá Lopes, João Gomes de Sá.
Maria José, Moreira de Acopiara e João Paulo Resplandes.
Valdeck De Garanhuns, Luiz Wilson, João Gomes de Sá,
Pedro Monteiro, Fatel Barbosa e Maria José.
Susana Ventura e Pedro Monteiro.
Edmara Barbosa, Marco Haurélio, Rafael Luperi, Penélope Martins, Valdeck de Garanhuns e Paulo Araújo.
Valdeck de Garanhuns e Paulo Araújo.
Autografando o exemplar da História de amor de Pitá e Moroti da escritora Penélope Martins
Fotos: Lucélia Borges, Darlan Ferreira, Margarete Barbosa, Pedro Monteiro e Valéria Cordero.
Jackson Ricarte lançará, em breve, seu primeiro CD, Estrada Afora, reunindo composições
autorais e parcerias. Com uma carreira construída ao longo de mais de uma
década, Ricarte é um violeiro que incorpora elementos do meio urbano sem perder
as referências do Brasil rural. Cearense, radicado em São Paulo, sua música
equilibra influências da terra de origem, a exemplo do repente, do cordel e dos
pastoris, mas é a viola caipira que dita o ritmo em suas canções.
Em 2010, quando lancei o livro Contos folclóricos brasileiros (Paulus), convidei-o para se
apresentar ao final do evento. E o público se emocionou com suas versões de
clássicos do nosso cancioneiro, como Triste
berrante, do saudoso Adauto Santos, e Disparada,
de Vandré e Theo de Barros.
Mas, para que este projeto (o CD) se materialize, Ricarte
pede a sua contribuição por meio de uma campanha de Crowdfunding no site
Clickante. Leia abaixo sua mensagem:
O Projeto Estrada
Afora é o resultado de mais de 10 anos de trabalho que Jackson Ricarte vem
desenvolvendo com a Música Regional Brasileira, imerso na pesquisa e na
vivência cultural do universo da Viola Caipira, instrumento norteador de todo
seu trabalho.
Já se apresentou em diversos palcos
importantes do cenário musical, levando seus shows para SESCs, Casas de
Cultura, Bibliotecas, Festivais como o Violas e Ponteios, e Caipirapuru. No
Palco do Revelando São Paulo, o maior Festival da Cultura Tradicional Paulista,
Jackson Ricarte ganhou visibilidade e reconhecimento pelo o seu trabalho com a
Viola Caipira, realizando a abertura e encerramento do evento desde 2006 ao
lado do Diretor Cultural da O.S Abaçaí Cultura e Arte, Toninho Macedo, seu
mestre do folclore brasileiro. O Projeto Estrada Afora é um trabalho autoral
totalmente independente dos meios midiáticos do mercado fonográfico das grandes
gravadoras. Sabemos que o mercado comercial das grandes produções musicais não
abrem espaços e não valorizam projetos como este. Com o objetivo de valorizar a
cultura regionalista através da música e de fomentar a arte dos artistas
independentes, o projeto Estrada Afora se torna urgente por sua produção de
qualidade que possibilita ao público mergulhar cada vez mais na sua história,
despertando novas percepções de reconhecimento dos valores culturais,
fortalecendo as raízes, conscientizando do cuidado e respeito que devemos ter
com a natureza e nosso meio ambiente, proporcionando a todos o lazer, a
apreciação da boa música e o encontro de si mesmo. O CD Estrada Afora apresentará canções de autoria própria de Jackson
Ricarte e de amigos compositores consagrados do cancioneiro popular, como Levi
Ramiro, Aidê Fernandes, João Evangelista, Cicero Gonçalves e Luis Avelima.
Paulo Araújo fará pocket-show com o Maestro Rafael Amadeu
A literatura de cordel
brasileira, já uma centenária senhora, seguiu um caminho próprio, por vezes se
aproximando, por vezes se afastando da literatura dita oficial. Com o tempo, o
gênero, nascido no Nordeste, conquistou seu espaço e abraçou a literatura infantil
e juvenil. Também influenciou grandes produções do cinema, a exemplo dos filmes
do lendário Glauber Rocha, e marcou presença, também, nas telenovelas, como Saramandaia, Roque Santeiro, Cordel Encantado e, mais recentemente, Velho Chico. Para celebrar a cultura popular em seus muitos matizes, a Fnac reunirá
alguns de seus porta-vozes. Edmara Barbosa, autora de grandes sucessos da TV, como Cabocla e Sinhá Moça (a partir
das versões originais escritas por seu pai, Benedito Ruy Barbosa), além de
Velho Chico, estará com o cordelista baiano, curador da coleção Clássicos em
Cordel e autor de cerca de 40 livros Marco Haurélio e o cantor e compositor Paulo Araújo, num bate-papo descontraído sobre a arte que nasce do povo. Ao final,
Paulo Araújo, autor da canção I-Margem, que faz parte da trilha sonora da novela global, ao lado do Maestro
Rafael Amadeu, farão um pocket-show com as canções que nasceram do sussurro
poético do Velho Chico, o rio do encantado.
Cordel | Marco Haurélio, Paulo Araújo e Edmara Barbosa
Bate-papo e Lançamento do CD da novela Velho Chico
Dia 7, quinta às 19h
Local: Fnac Brasil (Avenida Paulista, 901, São Paulo)
Desenho do mestre Jô Oliveira. Livro digital publicado pela editora O Fiel Carteiro.
O
cavalo que defecava dinheiro, uma das obras-primas do Rei do Cordel, Leandro Gomes de Barros, é uma
história que costura diferentes motivos de contos de esperteza. As disputas entre o camponês rico e o camponês
pobre (ATU 1535)[1] é
a base de muitos contos populares e de versões literárias que bebem na tradição
oral, como a conhecida história Nicolau Grande e NicolauPequeno,
dos Contos de Andersen. O tema da superação das provas impostas ao herói
pelo seu oponente rico (que pode ser um rei ou um fazendeiro) e o da trapaça final,
com o herói afirmando retornardo
fundo do mar com muitas riquezas, está no conto de Hans Christian Andersen
citado acima. No Brasil são abundantes as versões em que Pedro Malasartes e
Camões (personagem de muitos contos de astúcia) figuram como heróis vingadores.
O
motivo do animal (uma cabra) que defeca dinheiro está na versão russa recolhida
por Aleksandr Afanas’ev, O bobo da corte, bem como o do instrumento que
ressuscita (um chicote). No conto O abade Scarpacífico, das Piacevoli
notti, do escritor renascentista italiano Gianfrancesco Straparola, o
esperto protagonista se serve de uma gaita-de-foles para ludibriar os seus
perversos compadres. Ambos os motivos, a partir do cordel de Leandro, lido pelo
dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, foram aproveitados na peça cômica Auto da Compadecida (1955), em que o
cavalo foi substituído por um “gato que descomia dinheiro”. Ariano havia lido o
texto na obra Violeiros do Norte, do
folclorista cearense Leonardo Mota. Da mesma coletânea, consta o folheto de
gracejo O dinheiro (com a história do
testamento do cachorro), também de Leandro, e O Castigo da Soberba, de Silvino Pirauá de Lima.
Ilustração de Klévisson Viana.
Trecho seminal da obra:
Aí chamou o compadre
E saiu muito vexado,
Para o lugar onde tinha
O cavalo defecado.
O duque ainda encontrou
Três moedas de cruzado.
Então exclamou
o velho:
— Só pude achar essas três!
Disse o pobre: — Ontem à tarde
Ele botou dezesseis!
Ele já tem defecado
Dez mil réis mais de uma vez.
— Enquanto ele está
magro
Me serve de mealheiro.
Eu tenho tratado dele
Com bagaço do terreiro,
Porém depois dele gordo
Não há quem vença o dinheiro...
Disse o velho:
— Meu compadre,
Você não pode tratá-lo.
Se for trabalhar com ele,
É com certeza matá-lo.
O melhor que você faz
É vender-me este cavalo!
— Meu compadre, este
cavalo
Eu posso negociar
Só se for por uma soma
Que dê para eu passar
Com toda minha família,
Sem precisar trabalhar.
O velho disse
ao compadre:
— Não é assim que se faz.
Nossa amizade é antiga,
Desde o tempo de seus pais.
Dou-lhe seis contos de réis,
Acha pouco, inda quer mais?
[1] No Catálogo Internacional do Conto Popular, a sigla que homenageia os formuladores, Anti Aarne, Stith
Thompson e Hans-Jörg Uther, conserva suas iniciais ATU. O sistema alfa-numérico
engloba contos de animais, maravilhosos, religiosos, novelescos, jocosos etc. O
conto-tipo O camponês rico e o camponêspobre pertence à categoria dos contos
jocosos.
Já está disponível, em algumas casas do ramo, o livro Lucíola em Cordel, baseado na obra-prima de José de Alencar. A obra traz o selo Manole/Amarylis, que publicou, de minha autoria, Rei Lear em Cordel.
Ilustrado por Luís Matuto e apresentado por Severino Rodrigues (abaixo, na íntegra), a história de Maria da Glória, obrigada a prostituir-se para salvar a família, foi publicada originalmente em 1862, e desde então encanta gerações a perder de vista.
Amor (im)possível?
Ao
chegar à Corte, o recém-formado advogado Paulo se apaixona por Lúcia. A priori,
um simples amor à primeira vista. Mas o leitor se engana. Lúcia é cortesã, ou
melhor, a prostituta mais admirada, mais desejada e mais luxuosa. E o conflito
não acaba por aí. Afinal, estamos no século XIX, as aparências ditam o comportamento
adequado aos integrantes da sociedade burguesa, ou aos mais endinheirados da
época, e se envolver a sério com uma mulher como Lúcia nunca seria aceito.
Paulo,
apesar de burguês, também não pode manter um relacionamento com a cortesã por
certas limitações financeiras e, principalmente, morais. Ele não quer Lúcia
somente como uma amante. Quer muito mais que isso. E ela, que tem apenas
dezenove anos, embora tenha uma vida pautada nos ganhos da luxúria, também não
é dona das suas próprias vontades... Apaixonar-se e querer um homem íntegro ao
seu lado? Utopia demais...
Mas
o que fazer quando a regra do jogo romântico são os sentimentos mais
exacerbados? Esse amor se torna possível?
Lucíola
foi publicado em 1862 pelo fabuloso escritor cearense José de Alencar. Ao lado
de O Guarani, este é meu romance favorito. Li no colégio e, depois, na
universidade. E o tempo só me fez gostar cada vez mais! Nesta história, há, meu
caro leitor, uma atmosfera de mistério. Nos perguntamos a todo momento se Paulo
e Lúcia terão coragem de enfrentar a sociedade, qual a punição que um tipo de
amor assim pode acarretar... Antes, é preciso conhecer os motivos que levaram
Lúcia àquela vida, para muitos, desregrada. Qual o seu passado? Ah, existe
ainda uma densidade dramática, quase teatral, entre os diálogos desses
personagens, que revelam o quanto podem ser complexos perante suas próprias
dúvidas.
É,
então, o embate psicológico entre o privado e o público que guia as ações e as
escolhas dos personagens desta história agora adaptada incrivelmente para o
cordel e que você encontra em mãos. Espero que este cordel de Marco Haurélio,
autor de várias obras no gênero, seja o primeiro passo para se conhecer as
obras de José de Alencar, um dos maiores autores brasileiros, e para se
encantar e ler inúmeros cordéis, representantes da mais legítima linguagem
poética regional — e universal.
Severino Rodrigues
Mestrando em Letras, professor de Língua Portuguesa
e autor dos livros juvenis Sequestro
em Urbana e Mistério em Verdejantes
Estrofes iniciais:
Quando o amor faz pousada
No coração dos amantes,
Provoca grandes mudanças,
Causa dores torturantes,
E quem ama tem certeza:
“Nada será como
antes".
A história aqui narrada, Que relata um caso sério, Fala de um drama pungente, Envolvido num mistério, Que se passou no Brasil, Sob a mão forte do Império. Foi no século XIX, Cinquenta e cinco era o ano, Em que Paulo Silva, um jovem Do torrão pernambucano, Foi ao Rio de janeiro, Sem ter medo nem engano. Mas vamos dar voz a Paulo, Pois é o protagonista, E os fatos aqui narrados, Sob seu ponto de vista, Serão aceitos porque Não são invenções de artista: Leitores, meu nome é Paulo, Pernambucano de Olinda, Vim ao Rio de Janeiro, Essa cidade tão linda, Sem imaginar que aqui Ficaria na berlinda. Na capital federal Quis construir minha história. Com um amigo de infância, O Sá, de boa memória, Eu fui, todo prazenteiro, Pra ver a festa da Glória. Ali, naquele momento, Vi ante mim desfilar Brancos, negros e mulatos, Gente de todo lugar, Desde o banqueiro ao mendigo, Banhados pelo luar. A lua vinha assomando Pelas montanhas fronteiras, Quando notei que passava, No meio das rezadeiras, Uma moça tão bonita Quanto as deusas estrangeiras.
Nossos indígenas reúnem em suas tradições um acervo de
mitos e heróis tão significativo quanto o de qualquer povo do planeta. EsseMitologia indígena é um portal simbólico que o leitor está
convidado a transpor, rumo às origens remotas locais de nossa cultura.
Desde que os europeus puseram os pés no continente americano, um
fluxo contínuo de histórias indígenas locais passou a fecundar suas culturas.
No caso do Brasil, recolhidas desde o início da colonização e vertidas para o
registro escrito, seja por lusos, seja por viajantes e aventureiros de outras
nacionalidades, essas histórias passaram a integrar a base da cultura
brasileira. Este Mitologia indígena,
que a Editora Nova Alexandria traz ao leitor, mostra o trabalho que o escritor
e pesquisador Luiz Galdino disponibiliza através de um recorte preciso desse já
vasto acervo de narrativas tradicionais indígenas brasileiras – um árduo
trabalho, pois tanto a diversidade de culturas brasilíndias oferece ao
pesquisador um vasto acervo, quanto a beleza das narrativas tornou dolorosa a
seleção. Aqui Luiz Galdino, como todo aquele a quem cabe a difícil tarefa de
produzir uma antologia representativa, realizou felizes opções, a partir de
critérios rigorosos, elucidados ao fim do volume no capítulo “Mitos, contos e
fábulas”.
A criação do universo, da vida, das plantas e dos bichos; a conversão
de homem em bicho e de bicho em homem; os astros interferindo nas relações
entre os humanos e os humanos galgando os céus, metamorfoseados em corpos
celestes; viagem de ida e volta ao mundo dos mortos; batalhas épicas entre
nações indígenas... esses outros temas essenciais comparecem significativamente
para deixar transparecer, por meio de ricas narrativas, o modo de sentir,
pensar e viver daqueles que desde tempos imemoriais ocupam a Terra
Brasilis.
A riqueza imaginativa e expressiva
se combina para dar corpo a narrativas de beleza singular, em que fenômenos
climáticos, corpos astronômicos, fauna, flora e mundo humano se comunicam
livremente e compartilham o mesmo statusde importância porque, afinal, todos são vivos e se
convertem uns noutros, o tempo todo: tanto a Lua pode descer para namorar um
moço, quanto um tropel de crianças arteiras pode ir morar no céu e seus olhos,
transformados em estrelas, velarem para todo o sempre a noite sobre a Terra.
MITOLOGIA INDÍGENA
Autor:- Luiz Galdino Ilustrações:- Severino Ramos
ISBN:- 978-85-7492-384-0 Preço de Capa:- R$ 42,00
Nº de páginas:-168,
formato:-
16 x 23 cm x 1,3cm. Peso:- 680 g.
Leandro Gomes de Barros escreveu um romance em
versos que tinha como tema principal a virtude feminina. Os sofrimentos de Alzira é um dos principais poemas dramáticos do
mestre maior do cordel, praticamente uma versão não creditada da História da Imperatriz Porcina, cuja
origem remonta à Idade Média, e tem por base a lenda de Crescência. O êxito de
Leandro permitiu que outros poetas trabalhassem enredos parecidos. Seu compadre
Francisco das Chagas Batista, por exemplo, adaptou, a partir do poema do cego
português Baltazar Dias, da Ilha da Madeira, contemporâneo de D. Manoel, o
Venturoso, o drama de Porcina.
Pintura anônima do século XVIII,
retratando a heroína da lenda piedosa.
Já
Os martírios de Genoveva, do pioneiro
José Galdino da Silva Duda, atribuído algumas vezes a Leandro, graças a uma
falha bisonha das herdeiras do editor José Bernardo da Silva, baseia-se na
popular lenda de Genoveva de Brabante, que forneceu matéria abundante a muitos
escritores, desde o século XII. A oposição bem-mal, com o triunfo da virtude, é
o eixo em torno do qual gira a trama:
Nesta
história se vê
A
virtude progredir,
A
verdade triunfar,
O
mal se submergir,
A
honra salientar-se,
A
falsidade cair.
Para
se ter uma ideia da importância do tema elencamos alguns romances: História da princesa Rosa, de Silvino Pirauá
de Lima; História de Cecília Afra: três
suspiros de uma esposa, de Theodoro Ferraz da Câmara; Bernardo e D.
Genevra, de José Galdino da Silva Duda; História
de Rosa de Milão, do mesmo autor, e Os
sofrimentos de Célia, de Manoel Pereira Sobrinho. O filho mais ilustre
deste ciclo da mulher virtuosa é, sem dúvida, o romance O assassino da honra e a louca do jardim, antigo drama de circo
recriado por Caetano Cosme da Silva.
Filme de 1964, dirigido por José Luis Monter.
A
lenda, ambientada no século VIII, embora guarde semelhança com a vida de Maria
da Baviera, do século XIII, é motivo inspirador de uma ópera, Genoveva de Brabante, em quatro atos de
Robert Schumann baseada em um libreto do compositor Robert Reinick, de 1850,
peça que apresenta muitas similaridades com a Lonhengrin, de Richard Wagner. No cinema, a lenda de Genoveva
também foi recontada algumas vezes, como, por exemplo, na produção
hispano-italiana de 1964, dirigida, em 1964, por José Luis Monter. Outra
produção italiana de 1947, dirigida por Primo Zeglio, atesta a grande
popularidade da lenda imortalizada também pela literatura de cordel dos dois
lados do Atlântico.
O autor de Genoveva
José Galdino da Silva Duda, mais conhecido como Zé
Duda, famoso cordelista e, sobretudo, cantador, nasceu em 1866, em Cabaceiras
(PB) e faleceu em 1931, em Recife (PE). Foi um filho enjeitado, encontrado e
criado como filho por um sitiante. Antes de se tornar cantador afamado, foi
almocreve e comboieiro. De um encontro com o então jovem cantador Severino
Lourenço da Silva Pinto, o mitológico Pinto do Monteiro, Zé Duda, pernambucano
por adoção, deixou esta maravilhosa sextilha, que lhe poderia servir de
epitáfio:
Morão di Privintina é o grupo criado por Paulo Araújo e João Filho, o primeiro, cantor e compositor, o segundo, poeta e contista com vários prêmios na cacunda.
Para não perder tempo, ou, como dizemos na região do São Francisco, "barco parado não ganha frete", reproduzo o release do grupo que inova sem abrir mão da tradição.
O regionalismo universal de PauloAraújo
Cantor e compositor baiano, PauloAraújo apresenta, em sua obra, as belezas naturais e o imaginário do Rio São Francisco.
A música rotulada de regional pode ser mais universal do que se imagina. Afinal, como disse ogrande escritor norte-mineiro Guimarães Rosa, “o sertão é o mundo”. É preciso evocar o grande artesão da nossa literatura e sua frase emblemática, dita por Riobaldo, protagonista de Grande Sertão: Veredas, para entender a universalidade da arte de PauloAraújo. Cantor, compositor, poeta, militante das causas sociais em defesa do São Francisco, o rio de sua aldeia, PauloAraújo, à frente do grupo musical Morão di Privintina, promove uma revolução silenciosa, em sons que evocam a ancestralidade mítica do povo nordestino e marcha em direção ao futuro imaginado, sonhado, esboçado em canções de grande agudeza poética.
Nascido em Bom Jesus da Lapa, no sertão baiano, cidade batizada por Euclides da Cunha como a Meca dos Sertanejos, PauloAraújo vivenciou, desde menino, as ricas tradições culturais do Médio São Francisco e o fervor religioso da população local e dos romeiros, que, todo ano, chegam aos milhares para visitar o santuário local. O fundo da casa dos pais de Paulo é o morro sagrado do Bom Jesus, uma formação calcária, que abriga uma igreja, centro poderoso de devoção popular. Dos benditos e ladainhas, passando pelas cantigas de cego, cantos das lavadeiras e pregões populares, nada escapou à sensibilidade ímpar do artista em formação.
Aos 14 anos, a mãe, dona Maria de Araújo, presenteou-o com um violão, apontando o seu caminho na vida e na arte. Influenciado pelos artistas nordestinos de que despontavam no cenário nacional, no fim da década de 1970, a exemplo de Alceu Valença e Zé Ramalho, Paulo começou a compor timidamente as primeiras canções. Mas só se realizou mesmo com a criação do grupo Morão di Privintina, que idealizou com o também poeta e parceiro musical João Filho, em 1998, com o fito de participar de festivais, promover encontros e levar a cabo experimentações com o linguajar, os mitos e a alma barranqueira. Com João compôs canções emblemáticas, como I-Margem, Nobre Barranqueiro e Tempo de Perau, que integram o álbum Cama de Quiabento. A mistura das sonoridades do rio São Francisco e do sertão catingueiro ao rock, é a marca registrada do grupo, que lançou, recentemente, Janela do Ermo, que amplia a viagem com mais experimentalismos sonoros e poéticos.
Em 2016, a cançãoI-Margem foi escolhida para integrar a emblemática trilha sonora da novela Velho Chico, de autoria de Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi, exibida atualmente na faixa nobre da Rede Globo com direção artística de Luiz Fernando Carvalho. A faixa, além de ser o carro-chefe do cantor e compositor baiano, é ainda o mote do projeto cultural Canto das Águas – um Olhar sobre o Velho Chico, que percorrerá cidades banhadas pelo rio São Francisco, reunindo, além de Paulo Araújo, outros artistas, promovendo um diálogo entre a música popular e folclórica e a erudita. No momento, PauloAraújo prepara ainda uma agenda de shows e apresentações pelo Brasil, sempre evocando as suas raízes ribeirinhas em canções que navegam pelo nosso imaginário e pela nossa memória afetiva.
Paulo Araújo e o encantado do rio São Francisco.
Arte: Jô Oliveira.
Capa de Jô Oliveira para a edição digital da obra (Editora O Fiel Carteiro)
Escrito por Leandro Gomes de Barros, provavelmente em 1906, O cachorro dos mortos é considerado por muitos cordelistas, a exemplo de Klévisson Viana, Arievaldo Viana e Marciano Medeiros, o mais importante cordel dramático de todos os tempos. Poeta de muitos recursos, que trabalhava com igual maestria narrativas de aventura (História de Juvenal e o dragão), histórias de espertalhões (A vida de Cancão de Fogo e o seu testamento, O cavalo que defecava dinheiro) e romances trágicos (Os sofrimentos de Alzira, A força do amor), Leandro alcançaria a imortalidade se de sua pena houvesse saído apenas a história do cachorro Calar. Com o protagonista da história aprendemos que a expressão fidelidade canina nada tem de desonrosa, pelo contrário. Muito antes de Graciliano Ramos escrever Vidas secas, romance em que a personagem mais humana é a cachorrinha Baleia, Leandro confere ao velho cachorro Calar, testemunha solitária de um crime bárbaro, características quase sobrenaturais. De certa forma, ele é o elo evocado por sua dona Angelita, vítima da tocaia armada pelo feroz Valdivino, para que seja feita a improvável justiça:
Olhou pra uma gameleira Que tinha junto à estrada, Dizendo: — E tu gameleira, Viste a cena passada? És uma das testemunhas Quando a hora for chegada.
(...)
E essa flor que por ela Há festa aqui todo ano Há de tirar a justiça De uma suspeita ou engano, Dirá ao juiz: Venha ver Quem matou a Floriano!
O tema que inspirou Leandro é o da natureza denunciante, definida por Luís da Câmara Cascudo, que enxergou, com os motivos que o compõem, um ciclo na contística popular: “O ato criminoso é revelado pela denúncia de ramos, pedras, ossos, flores, frutas, aves, animais”.[1] No livro Contos e fábulas do Brasil, de minha autoria, discorri sobre o tema:
Edição da Tupynanquim Editora com capa de Klévisson Viana.
“Os Irmãos Grimm forneceram aos estudiosos o conto-tipo mais completo com o tema natureza denunciante: A luz do sol o revelará (Die klare Sonne bringt's an den Tag). Resumidamente, narra como um alfaiate faminto ameaça de morte um judeu para roubá-lo, embora este o tenha alertado que só levava oito centavos. Antes de morrer, o judeu invoca a única testemunha possível: a luz do sol. Tempos depois, já com família constituída, o assassino vê a luz do sol formar vários círculos no pires de café que tinha às mãos. Inadvertidamente, relembra o episódio e, instado pela mulher, acaba confessando. A proverbial indiscrição feminina, na figura da comadre confidente, levará ao tribunal e depois à execução o assassino. (...) Uma história do sexto século antes de Cristo, conservada pela memória popular com o auxilio dos poetas, é o antecedente ilustre deste tema. O poeta Íbicus, natural de Régio, Magna Grécia, arrastado até uma ilha deserta por salteadores que desejavam roubá-lo, é inapelavelmente morto. Antes de expirar, suplica a uns grous que voavam sobre a ilha que servissem de testemunhas de seu martírio. Anos mais tarde, os assassinos do bardo, num anfiteatro de Corinto, ao verem os mesmos pássaros sobrevoando o local, dizem em tom de chiste: ‘Lá vão as testemunhas e vingadoras de Íbicus’. Os circunstantes ouvem a pilhéria e ligam-na ao desaparecimento do poeta. Denunciados, os assassinos são presos, julgados e executados.[2]Câmara Cascudo apresenta, com enredo semelhante,As testemunhas de Valdivino. Testemunhas estas já abrasileiradas na forma de garças.”[3]
Edição da Editora Luzeiro.
O mais curioso é que, no conto registrado por Câmara Cascudo, acima citado, Valdivino é o nome da vítima. No romance de Leandro, é o algoz. No conto O testemunhodas gotas de chuva, por mim recolhido, há um assassinato sem testemunhas aparente, a não ser os pingos de chuva, aos quais a vítima se dirige, e que, tempos depois, terminam por denunciar o criminoso. Acredito que a ideia fulcral de O cachorro dos mortos esteja na cena em que Angelita, à beira da morte, apela para uma justiça imanente pela punição de Valdivino. O motivo pode ter servido de moldura para uma lenda, talvez inspirada em uma festa religiosa, como a descrita na história, ambientada na Bahia, no início do século XIX.
Para comprar a edição digital da obra, clique AQUI.
[1] In: Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global Editora, 1999, p. 22.
[2] Veja-se Cascudo, Luís da Câmara. Os grous de Íbicus voam em português. In Superstição no Brasil, p. 189.
[3]Contos e fábulas do Brasil. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.Alexa, 2011.