terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Peleja virtual



A título de informação


Por Marco Haurélio

Pelejas virtuais não são incomuns em tempos de redes sociais e de serviços de mensagens instantâneas. Braulio Tavares, por exemplo, já havia contendido com Klévisson Viana e Astier Basílio. As várias modalidades foram debulhadas em trocas de e-mails, portanto, ainda sem a presença de uma “plateia”. Não parece, mas disputas do tipo vêm de longe, desde 1997, quando Américo Gomes, da Paraíba, e José Honório, de Pernambuco, desfraldaram a bandeira. Há inclusive uma pesquisa ampla, um inventário transformado em tese de doutoramento e em livro, com o inusitado título No Visgo do Improviso ou a Peleja Virtual entre a Cibercultura e Tradição, de autoria da professora Maria Alice Amorim.

O diferencial desta nova peleja é que o palco foi a maior das redes sociais, o Facebook, entre os dias 7 e 14 de setembro, nos poucos minutos de folga de que dispúnhamos. E, como em todo bom pé-de-parede, a nossa gesta virtual foi acompanhada por um grande público, com sugestões de temas e motes e eventuais aplausos. Começamos com a tradicional sextilha, evoluímos para o martelo agalopado, com mote proposto pelo poeta, pesquisador e apologista Ésio Rafael, passamos à gemedeira, por sugestão do também poeta Rouxinol do Rinaré, e ao galope à beira-mar (versos hendecassílabos). A disputa abarcou ainda outras modalidades: No tempo de Pai Tomás, Preto Velho e Pai VicenteNos oito pés a quadrão (oitavas), martelo alagoano (decassílabos). Os versos de despedida foram embalados pelo mote Povo bom, muito obrigado/ Adeus, até outro dia!

Agora publicada em folheto pela Tupynanquim Editora, de Klévisson Viana, com capa em xilogravura de Maércio Siqueira, a peleja alcança novos leitores, promovendo o casamento antes inimaginável da tecnologia com a tradição.

Abaixo, parte da peleja, em galopes à beira-mar (versos de 11 sílabas com tônicas na 2ª, 5ª, 8ª e 11ª sílabas):

MH
Mudando de estilo, por outras paragens,
Sigamos agora com nossa peleja:
Da grimpas dos Andes à chã sertaneja,
O verso permite diversas viagens.
Sem Timothy Leary a encher as bagagens,
Com fome e com sede do eterno buscar,
Nas tábuas de argila, nas mesas do bar,
Na longe Cocanha ou na caixa-prego
Na luz escondida nos olhos do cego,
Nos dez de galope na beira do mar.

BT
A rima deixada é a mesma que eu pego,
E ligo o motor pra subir nas alturas,
Nas asas do vento das literaturas
Eu vôo e eu nado, mergulho e navego.
Meu verso é composto de peças de Lego
É só ir pegando e depois encaixar
Formando um conjunto que dê pra cantar
Dizendo as belezas do mundo da escrita
Em verso e em prosa se escreve e recita
Cantando galope na beira do mar.

MH
Na velha Tebaida, me fiz eremita,
De lá alcei voo pra os mares do sul,
Vi Constantinopla virar Istambul,
E a sanha cruzada na terra ‘bendita’;
Vi Fitzcarraldo, com grande pepita,
Na verde floresta querer navegar,
Cantando uma loa para o rei Lear,
Pensando se estava tão longe ou tão perto.
Cansado de tudo, voltei ao deserto,
Sonhando que estava na beira do mar.

BT
Tornei-me famoso por ter descoberto
os grandes tesouros de terras distantes;
lutei contra gregos, salvei os atlantes,
mostrei a Colombo o caminho mais certo.
Na Besta Fubana do tal Luís Berto
montei corajoso e me pus a voar,
cruzando o espaço na luz do luar
por entre uma nuvem de naves e drones
igual um dragão de um Game of Thrones
cantando galope na beira do mar.

MH
Na terra tomada por fogo e ciclones,
Sorri o tirano de juba acaju,
Sentindo no rabo o tridente de Exu,
Enquanto se estorce na guerra dos clones;
E sobre as ruínas não há cicerones,
Nem sheiks barbudos e nem lupanar.
A paz posta a ferros, a guerra a gritar
E agentes laranjas trazendo pavor,
Deixando giestas na cova do amor
Nos dez de galope na beira do mar.

BT
País que se preza não quer salvador
Nação com moral não precisa de heróis
Precisa de votos, precisa de voz,
Lutando, cantando, do jeito que fôr.
Na hora difícil se sente o valor
Do quanto se perde e não pode salvar,
A guerra é a guerra, a terra é o lar,
O chão é do povo, a vida é da gente,
O mundo é cruel, mas a alma é valente
Nos dez de galope na beira do mar.

Pedidos: marcohaurelio@gmail.com
                 
                (11) 9 8347 4357


O Boi-Espácio

Barbatão. Xilogravura de Lucélia Borges

Eu tinha meu Boi-Espácio,
Qu'era meu boi corteleiro,
Que comia em três sertão,
Bebia na Cajazeira,
Malhava lá no oiteiro,
Descansava em Riachão.
Eu tinha meu Boi-Espácio,
Meu boi preto caraúna;
Por ter a ponta mui fina,
Sempre fui botei-lhe a unha.
Estava na minha casa,
Na minha porta assentado; .
Chegou seu Antonio Ferreira,
Montado no seu rução.

Com o irmão de Damião.
Montado no seu lazão;
Dizendo de coração:
—— Botai-me este boi no chão.
Gritei pelo meu cachorro,
Meu cachorro Tubarão:
"Agora, meu boi, agora,
Faz ato de contrição!
Ecô, meu cachorro ecô!..."
No curral da Piedade
Eu dei com meu boi no chão.
Ao depois do boi no chão,
Chegou o moleque João,
Se arrastando pelo chão,
Fazendo as vezes de cão,
Pedindo o sebo do boi
Pra temperar seu feijão.
A morte deste meu boi
A todos fizera pena;
Ao depois deste boi morto
Cabou-se meu boi, morena.
"No ano em que eu nasci,
No outro que me criei,
No outro que fui bezerro,
No outro que fui mamote,
No outro que fui garrote,
No outro que me caparam
Andei bem perto da morte.
"Minha mãe era uma vaca,
Vaquinha de opinião;
Ela tinha o ubre grande
Que arrastava pelo chão.
Minha mãe era uma vaca,
Vaquinha de opinião;
Enquanto fui barbatão
Nunca entrei em curralão,
Estava no meu descanso
Debaixo da cajazeira,
Botei os olhos na estrada,
Lá vinha seu Antonio Ferreira...
Estando numa malhada
Já na sombra recolhido,
Logo que vi o Ferreira
Ali achei-me perdido.
Foi-me tudo ao contrário,
E semprei fui perseguido;
Já me conhecem o rasto,
O Boi-Espácio está perdido.
Não tem a culpa o Ferreira,
Que não me pôde avistar,
Foi o caboclo danado
Que parte de mim foi dar.
O seu Antonio Ferreira
Tem três cavalos danados:
O primeiro é o ruço,
O segundo é o lazão,
O terceiro é o Piaba...
Três cavalo endiabrados!

Mas eu não temo cavalo,
Que se chama o Deixa-fama,
Tambem não temo o vaqueiro
Que derrubei lá na lama.
Me meteram no curral,
Me trancaram de alçapão;
E bati num canto e noutro,
Não pude sair mais não!
Adeus, fonte onde eu bebia,
Adeus, pasto onde eu comia,
Malhador onde eu malhava;
Adeus, ribeira corrente,
Adeus, caraíba verde,
Descanso de tanta gente!...

O couro do Boi-Espácio
Deu cem pares de surrão,
Para carregar farinha
Da praia de Maranhão.
O fato do Boi-Espácio
Cem pessoas a tratar,
Outras cem para virar...
O resto pra urubusada.
O sebo do Boi-Espácio
Dele fizeram sabão
Para se lavar a roupa
Da gente lá do sertão.
A língua do Boi-Espácio,
Dela fizeram fritada;
Comeu a cidade inteira,
Não foi mentira, nem nada.
Os miolos do Boi-Espácio,
Deles fez-se panelada;
Comeu a cidade inteira,
O resto pra cachorrada.
Os cascos do Boi-Espácio,
Deles fizeram canoa,
Para se passar Marotos
Do Brasil para Lisboa.
Os chifres do Boi-Espácio,
Deles fizeram colher
Para temperar banquetes
Das moças de Patamuté.
Os olhos do Boi-Espácio,
Deles fizeram botão
Para pregar nas casacas
Dos moços lá do sertão.
Costelas do Boi-Espácio,
Delas se fez cavador
Para se cavar cacimbas;
De duras não se quebrou.
O sangue do Boi-Espácio
Era de tanta exceção
Que afogou a três vaqueiros,
Todos três de opinião.
Canelas do Boi-Espácio
Delas se fizeram mão
Para pisar o milho
Da gente lá do sertão.
E da pá do Boi-Espácio,
Dela se fez tamborete
Para mandar de presente
A nosso amigo Cadete.
Do rabo do Boi-Espácio,
Dele fizeram bastão
Para as velhas de cima]
Andar com ele na mão.

[Silvio Romero, Cantos populares do Brasil]

José Pacheco: 120 anos de um mestre


Jose Paulo Ribeiro, de Guarabira (PB), pesquisador do cordel que dispensa os holofotes e bravatas em favor da boa informação, lembra-nos que, há exatos 120 anos, em Correntes (PE), nascia José Pacheco da Rocha, autor da obra-prima do cordel A Chegada de Lampião no Inferno. Apesar de identificado com temas jocosos, por ser autor dos igualmente clássicos folhetos A Intriga do Cachorro com o Gato e A Festa dos Cachorros, Pacheco foi exímio romancista, destacando-se, em sua bibliografia, Os Prantos de Cacilda e a Vingança de Raul, A Princesa Rosamunda e a Morte do Gigante e Vicente e Josina.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O morto agradecido na literatura de cordel

O verdadeiro romance do herói João de
Calais
em edição da Luzeiro. 
Por Marco Haurélio 

A história de João de Calais gira em torno do tema do morto agradecido (ATU 505), episódio que figura em muitos contos populares. A redação do romance é da francesa Magdeleine Angèlique Poisson (1684-1770), tornada Madame de Gómez após contratar núpcias com um fidalgo espanhol, Dom Gabriel de Gómez, o qual, ela descobriria depois, “possuía apenas a voz bonita e de patrimônio coisa alguma”.[1] Para sustentar-se, dedicou-se à literatura, dando preferência a temas apreciados pelo povo. Sua bibliografia é extensa, mas nenhuma obra alcançou o público e a longevidade do João de Calais. A história, publicada em uma coleção de novelas, Jounées amusantes, ganhou independência e passou a integrar, com redação modificada, acrescida de episódios estranhos ao conto de Madame de Gómez, a Biblioteca Azul. Esta versão é atribuída por Câmara Cascudo a Jean de Castillon.

A história narra como João de Calais, filho de um negociante abastado do norte das Gálias, limpa os mares de “um enxame de piratas” e, ao retornar à pátria, vê seu navio ser arrastado por uma tempestade a uma ilha desconhecida, a Orimânia, cuja capital era a Palmânia. Lá, uma cena chama-lhe a atenção: um cadáver, exposto em praça pública, estava sendo dilacerado por cães. João, horrorizado, interroga o porquê de tal impiedade e descobre que o homem morreu sem saldar suas dívidas, merecendo, assim, aquele castigo. Reúne os credores, salda as dívidas e dá sepultura ao cadáver. Depois, vê um navio ancorado e, condoído, compra de um corsário duas belas moças, Constança e Isabel, que este disse serem escravas. Já em Albion, casa-se com uma delas, Constança, sem saber que se trata da filha do rei de Portugal. No retorno, apresenta a esposa ao pai, mas este desaprova o casamento. O casal tem um filho. João parte num navio com destino a Portugal, onde o rei, admirado da beleza da embarcação, vai conhecê-la, deparando, na câmara do capitão, um quadro com os retratos de Constança, Isabel e o filho do casal. Chamado ao palácio para explicar-se, conta toda a história, e fica sabendo que Constança é filha do rei e Isabel é herdeira do Duque de Messina. Na viagem de retorno a Calais, o herói tem a companhia do príncipe D. João, sobrinho do rei, que, tempos antes declarara amor a Constança, pois almejava o trono português. Quando chegam, o pai de João, sabedor da história, pede perdão ao filho. A armada retorna à Sicília, com a princesa, e, durante uma tempestade, D. João, traiçoeiramente, empurra João de Calais do navio, e este é dado como morto. Em Portugal, a tristeza não impede que o traidor, passado um tempo e aproveitando-se de uma vitória militar na qual se destacou entre os seus comandados, peça a mão de Constança. Contra a vontade desta, o casamento é marcado.

O infeliz João não morre, mas, vencendo a fúria dos elementos, vai ter a uma ilha. Depois de algum tempo, vê caminhando em sua direção um home que lhe põe a par de todo o ocorrido, até mesmo do casamento marcado de Constança com o homem que o atraiçoara. Promete ainda levá-lo ao local do casamento, caso ele consinta em dar-lhe metade daquilo que mais estima. João, depois de consentir, adormece e acorda em Portugal, onde, apesar de sua deplorável aparência, é reconhecido por Isabel. Descoberta a traição, o príncipe D. João é condenado à morte. O homem que o salvara aparece e pede-lhe a metade de seu filho. João, mesmo notando o desespero de Constança, oferece o menino para que o desconhecido faça a partilha. Este, então, revela-se: era um enviado do Altíssimo, aquele mesmo homem da Palmânia, que recebera, pela generosidade de João, sepultura cristã. Após a revelação desaparece, causando em todos grande admiração. João manda erigir um mausoléu para o fantasma, que previra muitas felicidades para ele.

Este é um resumo do famoso conto. A tradução portuguesa mudou alguns detalhes da história. O reino de Portugal tornou-se o reino da Sicília, o príncipe D. João foi rebatizado como Florimundo e as qualidades de João de Calais ganharam mais relevância.

A literatura oral do Brasil e de Portugal traz muitos contos do ciclo do “morto agradecido”. Silvio Romero, nos Contos populares do Brasil, traz A raposinha. Aluísio de Almeida, apresenta uma versão com o título João de Calais, reproduzida na obra 50 contos populares de São Paulo. Recolhi, em Brumado, Bahia, uma interessante versão, O príncipe e o mestre-sala, narrado por D. Maria Rosa Fróes, então com 89 anos, que desconhecia o conto João de Calais. A obra integra o livro Contos folclóricos brasileiros.

Em Portugal, circulou um folheto de cordel, Nova história de João de Calais, em quadras. Câmara Cascudo diz desconhecer versão poética da história no Brasil. Há, no entanto, muitas, com resultados distintos. Talvez a mais antiga seja a anônima publicada pela editora Guajarina. A História completa do Herói João de Calais, atribuída ao folheteiro Manoel Tranquilino Pereira, vulgo Baraúna, é de 1945. Outras mais recentes são de autoria de Damásio Paulo, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel Pereira Sobrinho, José Costa Leite e Severino Borges Silva. Este último, com O verdadeiro romance do herói João de Calais, fez a melhor versão da clássica história, e, por isso, tem merecido sucessivas reimpressões. As duas primeiras e as duas últimas estrofes, com o acróstico BORGES, dão ideia da feliz releitura do poeta pernambucano:

Vinde musas que habitam
As regiões divinais
Banhar-me nas santas águas
Das fontes celestiais
Que vou contar o romance
Do herói João de Calais.

Lá nos recônditos das Gálias
Havia um homem abastado,
O qual tinha um filho único
Que por João era chamado.
Foi um herói que deixou
Seu nome imortalizado.

Florismundo desgraçou-se,
Mas João ficou em paz
Com sua esposa querida
Amando-a de mais a mais.
Aqui termina o romance
Do herói João de Calais.

Bem feliz João ficou,
O rei mui regozijado
Regendo aquela nação
Geralmente apreciado
E a prima de Constança
Sempre viveu a seu lado.

Relativamente recente é a versão resumida de Arievaldo Viana, História completa do navegador João de Calais, publicada em Fortaleza e em Mossoró. Foi reeditada como história em quadrinhos, em parceria com o grande cartunista pernambucano Jô Oliveira, com o título História do navegador João de Calais e de sua amada Constança.

O tema do “morto agradecido” aparece ainda no Romance de João sem direção, de Natanael de Lima. O herói João, um tanto desajeitado, paga as dívidas de um morto e, no cumprimento de ordens de um rei, é auxiliado por um macaco que, ao cabo, revela ser a alma do falecido. Há o episódio da promessa da metade do filho em troca dos favores prestados e o bom fado a sorrir para o bondoso João:

Sou um ser do invisível
Que no espaço figura.
João, eu não sou um macaco —
Sou aquela criatura
Que tu pagaste as dívidas
E deste-me a sepultura.
 
A noite de casamento de Tobias e Sara. Jan Steen (1626 - 1679)
No livro bíblico de Tobias (século II a.C.), a história do velho Tobit, cegado pelo excremento de pardais e curado pelo filho Tobias, com o auxílio do anjo Rafael (modelo do morto agradecido, já que representa as almas dos mortos a quem o velho deu sepultura durante o exílio judeu na Assíria), que lhe aplica nos olhos o fel de um peixe. Tradicionalizado em Portugal, a História do Tobias consta dos contos tradicionais do Catálogo Português organizado por Paulo Correia e Isabel Cardigos. Nas Piacevoli notti, de Straparolla, [XI, 2], o tema aparece num conto muito semelhante ao do romance de Madame de Gómez, embora o protagonista seja um toleirão.

Hans Christian Andersen registrou O companheiro de jornada, em que o protagonista Johannes paga as dívidas de um defunto, que encontra em uma igreja, e depois será auxiliado por este na conquista da mão de uma princesa. Nos Contos populares espanhóis[2], figura o Juan de Calaís, com o episódio do resgate da dívida do morto, da traição do primo da esposa do herói, e do tributo dispensado pela gratidão do fantasma.

NOTA: Para saber mais, leia Literatura de cordel:do sertão à sala de aula (Paulus, 2013). 




[1] CASCUDO, Luís da Câmara, Cinco livros do povo, p. 363.
[2] Contos populares espanhóis. Seleção de Yara Maria Camilo. São Paulo: Landy, p. 149-156.

domingo, 31 de dezembro de 2017

SONETO DE ANO NOVO

Cartão de Ano Novo, 1902.  Autor: E. H. Clapsaddle.


Ano novo feliz! É meu desejo
Que o respeito de fato prevaleça,
Que a virtude, qual sebe, refloresça,
Como os calos nas mãos do sertanejo.

Se perguntam-me o que de fato almejo:
É que a sorte aliance quem mereça,
E que um tempo de paz logo alvoreça,
Pondo fim a esse ciclo malfazejo.

Que o martelo nas mãos da iniquidade
Enferruje ante a face da Verdade,
Esta deusa tão mal compreendida.

Que um poema de paz seja composto
E remova a tristeza em cada rosto,
Semeando esperança, amor e vida. 

Marco Haurélio

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Artes de Lucélia Borges


Teiú (cartão-postal)

A companheira Lucélia Borges que, há tempos, se dedica ao artesanato e à narração de histórias, mergulhou de vez no universo da gravura em madeira, a popular xilogravura. Apesar de sua incursão na xilo ser recente (a partir de oficinas com os mestres Stênio Diniz, Jô Oliveira, Chicão, Luciano Ogura e Valdeck de Garanhuns), sua produção é abrangente, tanto em termos de tacos entalhados como na temática. Abaixo, uma amostra desta produção cujo casamento com o cordel foi celebrado com a publicação de A lenda do Cabeça de Cuia, de Pedro Monteiro, em agosto deste ano. 

Barbatão (cartão -postal)
Luiz Gonzaga, o Rei do Baião
Releitura de desenho de Jô Oliveira. 

Pavão misterioso (matriz)
Com a bênção e o aval do mestre J. Borges. 

Contatos:

E-mail: luceliapardim@gmail.com
Fone: (11) 98597-4133

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Em edição que homenageou a lusofonia, Fliaraxá abriu amplo espaço para a Literatura de Cordel

Com Jô Oliveira e J.Borges, na mesa "Entre Letras e Gravuras".
Foto: Daniel Bianchini.

O Festival Literário de Araxá, Fliaraxá, na edição 2017, teve 80 convidados e homenageou a língua portuguesa. Com o tema “Língua, Litura e Utopia”, o Fliaraxá homenageou o escritor moçambicano Mia Couto e teve como patrono o romancista português José Saramago. Com a presença de vários autores dos países lusófonos, o evento também teve uma rica e variada programação infantil, com saraus, contações de história e brincadeiras, com destaque para o Sarau do Tamanduel, conduzido por José Santos, curador da programação infantojuvenil. Todas as atividades foram realizadas no Tauá Grande Hotel de Araxá.

A Literatura de Cordel, gênero no qual milito como autor, pesquisador e divulgador, integrou a programação com vários representantes. Ministrei uma oficina de cordel, participei de uma mesa com os grandes mestres da gravura Jô Oliveira e J. Borges e mediei uma mesa com este último, xilogravador e poeta aclamado mundialmente. Contamos ainda com a presença de Lucinda Azevedo, da Editora IMEPH, e diretora da Câmara Cearense do Livro (CCL), e do presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luís Antônio Torelli.


Com curadoria do escritor e agitador cultural Afonso Borges, o Fliaraxá deste ano obteve números impressionantes, com presença massiva de pública (a maior entre todas as edições), resultado de um belo trabalho realizado por uma equipe para lá de competente. 

Autógrafos ao final da oficina.
Bate-papo ao término da oficina "Introdução ao Mundo do Cordel". 
Pequena exposição de folhetos e livretos de Cordel.
Mesa com Jô e J.Borges
Assistindo ao Sarau do Tamanduel em companhia dos autores
Tiago de Melo Andrade e Joaquim Marreiros (português)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Entrevista poética ao Blog da APOESC


Xilogravura de Jefferson Campos.

Concedi, há alguns dias, uma inusitada entrevista ao Blog da APOESC (Associação de Poeta e Escritores de Santa Cruz-RN). Inusitada por serem em versos as perguntas e as respostas. Reproduzo abaixo um trecho da conversa.  

Gilberto Cardoso dos Santos:

Foi em “Tecendo Linguagens”
Um livro de português
Que algo de Marco Haurélio
Vi pela primeira vez.
A capa de um cordel
feito pelo menestrel
Mas nada do que ele fez.

Antes, alguém me falou
De sua vinda a Natal;
Disseram que ele deu
Aula substancial
Sobre a arte popular,
E eu resolvi pesquisar
Sobre este cara legal.

Com prazer ora entrevisto
A Marco Haurélio, escritor,
Cordelista premiado
Profundo pesquisador
Do lirismo nordestino
Que se fez, desde menino,
Do cordel um defensor.

Marco Haurélio, de início,
Fale-nos de seu passado;
Das influencias que teve;
Do lugar em que foi criado;
Dos cordéis que escutou
E como isso o levou
A ser tão requisitado.

Marco Haurélio:

Nasci no sertão baiano.
O local? Ponta da Serra,
Comunidade rural
Onde o céu encontra a terra
E onde eu escutava histórias,
Baús de muitas memórias
De tempos de paz e guerra.

Quando pequeno, eu ouvia
Juvenal e o Dragão,
O Herói João de Calais,
Rosinha e Sebastião,
A Coragem de um vaqueiro,
O Santo do Juazeiro,
História do Boi Leitão.

Gilberto Cardoso dos Santos:

Fale-nos de suas obras.
Dos livros que publicou,
Qual que mais lhe dá prazer?
Quantos prêmios já ganhou?
Conte-nos de seu legado
Para “Cordel Encantado”
- novela que nos honrou.

Marco Haurélio:

Publiquei quarenta livros,
Entre contos e cordéis,
Mais dezenas de folhetos
Aos velhos mestres fiéis.
Alguns prêmios recebi,
Porém reafirmo aqui:
Meus livros são meus lauréis.

À novela Velho Chico,
Eu servi de consultor,
Criei algumas histórias,
Também fui compositor,
Ao estilo do cordel,
Pra Xangai e Maciel,
Uma dupla de valor.

Gilberto Cardoso dos Santos:

Dos muitos cordéis que leu
Se tivesse que eleger
Dois ou três entre os demais
Quais iria escolher
Como os mais valiosos?
Que cordelistas famosos
Você recomenda ler?

Marco Haurélio:

Já li bastante romance,
Porém os de maior brilho
Foram Alonso e Marina,
Do qual não me desvencilho,
Também A Sorte do Amor
Do notável trovador
Manoel d’Almeida Filho.

Cada um lê o que quer
Neste distinto celeiro.
Em minha estante, porém,
Moram Delarme Monteiro,
O grande Leandro Gomes,
Minelvino e outros nomes
Do bom cordel brasileiro.

(...)

O cordel verdadeiro é garimpado
Nas cavernas do tempo e da memória.
Quem buscar entender a sua história
Beberá nas cacimbas do passado,
Mas também estará conectado
Ao futuro, com estro soberano,
Decifrando de vez o grande arcano
Que sustenta a coluna resistente:
É passado, é porvir e é presente
Nos dez pés de martelo alagoano. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Uma festa para espantar a tristeza





O livro Cordéis de Arrepiar: Europa (IMEPH), finalista do Prêmio Jabuti, foi lançado no último dia 28, na abertura da Feira do Mal-Assombro, na Editora Nova Alexandria. Muitos amigos e amigas, artistas de várias searas, parceiros, além dos colegas cordelistas, prestigiaram o evento. A programação seguiu com um bate-papo com Rosana Rios, mediado por Susana Ventura, sobre o medo na literatura infantil e juvenil. Susana Ventura, Pedro Monteiro, que lançou oficialmente seu livro-cordel A lenda do Cabeça de Cuia (Edicon), Lucélia Borges, Lenice Gomes, Alexandre Camilo, Penélope Martins, Kátia Cristina, Débora Kikuti, além de Markiano Charan, ajudaram a fazer daquele sábado à noite uma data inesquecível. 

As fotos abaixo contam um pouco dessa história.


Pedro Monteiro e Guilherme Reis.
Com a amiga Anilda Freitas, da Paulus Editora.
Com a escritora Belise Mofeolli e sua irmã Luanda.
Com o ator José Negreiros.
Encontros: Rosana Rios e Marcia Pituba.
A pequena Duda conhece Rosana Rios.

Luísa e Valéria Cordero.
Heloísa Tokunaga. 
Minha amiga e parceira Adriana Ortiz.
Com Kátia Cristina, contadora de histórias.
O cordelista Cícero Pedro de Assis.
Lucélia e Pedro Ivo. 
Paraíba, Alagoas e Bahia: Ivanilson, Margarete
e João Gomes de Sá, o "Campeão"
Grande encontro: Fábio Monteiro, Rosana Rios e Penélope Martins.
Com Denise e Lucélia.
A talentosíssima amiga Sandra Mara Azevedo, ícone da dublagem.
Boa prosa com Lenice Gomes
Alexandre Camilo apavorando.
Penélope Martins e os "contos de morte morrida". 
Com o cordelista e trovador Ronnaldo Andrade.

domingo, 22 de outubro de 2017

Angela-Psiquê


Passei os últimos dias lendo e estudando o conto-tipo Eros e Psiquê, a partir de versões recolhidas por mim. Ontem mesmo elaborei uma nota para uma destas versões, O Príncipe Dourado, cujo início publiquei por aqui. Falo do conto mítico de Apuleio, sob o impacto da notícia da partida inesperada de Angela Lago, que recontou-o em uma de suas obras mais conhecidas. Psiquê, em grego, é, ao mesmo tempo, alma e borboleta.


É também, penso eu, a própria Angela, agora, voando em direção ao Grande Mistério, ao samádi, do qual ela falou há poucos dias, com as asas dos muitos sonhos que teceu durante sua luminosa existência.