terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

CEM ANOS SEM LEANDRO, O POETA-PONTE

Leandro Gomes de Barros, morto há cem anos, é o poeta-síntese
da literatura de cordel brasileira. 

A história da literatura de cordel ou, mais especificamente, a história da editoração do corpus que viria ser denominado literatura de cordel, no Brasil, é cheia de percalços. Sabe-se que, antes da aventura editorial de Leandro Gomes de Barros, paraibano que migrou para Pernambuco, e se valeu dos recursos da imprensa para popularizar os textos poéticos escritos por ele ou por amigos próximos, os romances circulavam em manuscritos ou faziam parte do amplo repertório das poéticas orais do Nordeste. Sem autoria conhecida, ou mesmo atribuída, estas narrativas épicas, líricas ou picarescas se misturavam aos velhos romances ibéricos, como Juliana e D. Jorge, O cego, D. Barão, Silvaninha ou D. Claros de Montealbar, ou aos romances da gesta do gado, com barbatões endemoninhados e vaqueiros intrépidos. Sem contar os romances trágicos, ligados muitas vezes ao ciclo do cangaço, envolvendo figuras lendárias, como o valente Vilela, ou reais, mas deturpadas pela imaginação popular, como Lucas da Feira, Zé do Vale, José Gomes, o Cabeleira, e Jesuíno Brilhante, populares até as primeiras décadas do século XX.

A contribuição de Leandro Gomes de Barros, que, além de grande poeta, foi, ao lado de Francisco das Chagas Batista, seu compadre e amigo mais próximo, editor pioneiro, é tão grande, que podemos chamá-lo, sem chances de erro, de poeta-ponte. Não foi o primeiro autor de cordel do Nordeste, nem o mais prolífico, mas foi a partir dele que o gênero se estabeleceu em sua amplitude temática e como atividade editorial consistente e tocada com profissionalismo. João Martins de Athayde que, de certa forma, o sucedeu, ao adquirir o seu espólio em 1921, consolidou-se como um editor obstinado, ampliando o catálogo de sua tipografia de modo substancial, e pondo fim à forma como os cordéis, até então, eram publicados por Leandro: inacabados e, a depender de sua extensão, publicados em dois ou mais folhetos, em companhia de outras histórias.


Afirmar que, sem Leandro, o cordel no Brasil não existiria é uma grosseira mistificação, um disparate. Um desrespeito com outros autores editores contemporâneos, a exemplo do próprio Chagas Batista. Mas o cordel, como o conhecemos, deve muito ao bardo paraibano que, faço sempre questão de frisar, nunca foi um demiurgo, e sim um desbravador que fez de uma seara inculta um celeiro abarrotado de versos-sementes. Sementes que ainda nos nutrem e nos sustentam.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sobre Cordel



Primeiramente, está tudo bem e tudo continuará bem... Não é uma incitação ao ódio, não é uma busca de audiência ou uma vitimização! A palavra do ano é Justiça, então trata-se de Justiça.
Há exatos três anos, escrevi o "Cordel do WhatsApp", que resumindo a ópera, "viralizou" nas redes sociais e mostrou, além do alcance incalculável da internet e do uso positivo destas tecnologias, o quanto o nosso Cordel permanece vivo, pleno e vibrante!

Lido, comentado e compartilhado infinitamente como "autor desconhecido", esse meu filho famoso nasceu numa madrugada de janeiro, no sofá amarelo de minha casa. No pensamento, o cumprimento da missão de escrever uma poesia herdada, sentida, vivenciada todos os dias...
Hoje, para essa poetisa que vocês conhecem, defender a poesia saiu do cenário aconchegante do lar e veio para as engrenagens judiciais.
Sim! O "Cordel do Whatsapp" foi apresentado e transmitido num programa de TV (de fomento à Cultura Gaúcha e do Cerrado Brasileiro), não só sem o registro da autora, mas com as indicações que supostamente atribuem ao próprio apresentador, a autoria dos versos.
Minha alma sertaneja sentiu um profundo desrespeito pela Cultura Nordestina, pelo Cordel, pela história e pela voz do nosso povo. Meu ser feminino observou o ultraje e a negação histórica que deixa completamente turvo o papel e o brilho da mulher escritora, nordestina e negra. Meu coração de poetisa sentiu-se roubado, completamente ofendido nas palavras de quem pegou uma lição pronta e foi mostrar à Professora como se fosse sua.
Confesso que foi cortante assistir ao vídeo, ouvir as palavras pronunciadas na farsa e observar o semblante plástico da artificialidade. Está sendo cortante agora, escrever este texto e buscar as palavras certas, sem me perder na órbita da ofensa. Repito: Não é uma incitação ao ódio! É uma questão de Justiça! E nela, eu preciso acreditar!
Arrependimento de ter publicado o Cordel nas redes?
Nenhum!
A poesia me trouxe à vida, com assinatura de pai e mãe. Embalou a minha infância, inspirou-me na adolescência, direcionou o meu trabalho, me envolve em tudo o que eu penso, digo e faço. Me conecta em vários mundos, me inunda de possibilidades, me conduz aos diversos cantos, me faz quem sou e quem quero ser.
Não será justo, porém, aceitar o plágio de alguém que professa o nome de uma Cultura, desrespeitando outra!

Vamos em frente...
Abraços fraternos,

31/01/2018
Aracaju-Sergipe

sábado, 27 de janeiro de 2018

"Bafafá" no Catálogo de Bolonha



Valeu a pena esperar! Pronto desde 2015, mas lançado somente no ano passado, Bafafá na Arca de Noé (DCL) foi selecionado entre os livros que comporão o catálogo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira de Bolonha de 2018. As ilustrações, bem-humoradas e próximas do traço infantil, como enfatizado no texto do Catálogo (abaixo), são de Anabella López. 


Marco Haurélio is a writer, professor and researcher of cordel (string literature) and Brazilian folklore. He was a Jabuti Prize finalist and winner of the Cordel Literature Culture Prize, of the Ministry of Culture. Bafafá na Arca de Noé (Brouhaha in Noah’s Ark) is developed around the biblical story of Noah’s Ark, but does so through rhyming and humorous illustrations close to the infantile trait. It recovers some legends about the characteristics of the animals: why is the flamingo bow-legged; why does the giraffe have a long neck; and why does the armadillo dig the floor? 

Acesse o Catálogo, clicando AQUI

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Dos ilustres assassinos

Charge de Vitor Teixeira

Ó grandes oportunistas,
sobre o papel debruçados,
que calculais mundo e vida
em contos, doblas, cruzados,
que traçais vastas rubricas
e sinais entrelaçados,
com altas penas esguias
embebidas em pecados!

Ó personagens solenes
que arrastais os apelidos
como pavões auriverdes
seus rutilantes vestidos,
– todo esse poder que tendes
confunde os vossos sentidos:
a glória, que amais, é desses
que por vós são perseguidos.

Levantai-vos dessas mesas,
saí das vossas molduras,
vede que masmorras negras,
que fortalezas seguras,
que duro peso de algemas,
que profundas sepulturas
nascidas de vossas penas,
de vossas assinaturas!

Considerai no mistério
dos humanos desatinos!
e no polo sempre incerto
dos homens e dos destinos!
Por sentenças, por decretos,
pareceríeis divinos:
e hoje sois, no tempo eterno,
como ilustres assassinos.

Ó soberbos titulares,
tão desdenhosos e altivos!
Por fictícia austeridade,
vãs razões, falsos motivos,
inutilmente matastes:
 – vossos mortos são mais vivos;
e, sobre vós, de longe, abrem
grandes olhos pensativos!



[Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência]

sábado, 20 de janeiro de 2018

Viva São Sebastião!



Esta foto é de 2013, da festa de São Sebastião da Boa Vista, no município de Serra do Ramalho (BA). A imagem do santo, que vem de Bom Jesus da Lapa, transportada numa lancha, com a presença da Marinha, percorre as duas ruas do povoado de Boa Vista. Durante os nove dias que antecedem o 20 de Janeiro, dia em que se festeja São Sebastião, ocorre a novena em louvor ao orago. 

A festa, infelizmente, nos últimos anos, graças à interferência nefasta de políticos oportunistas, vem sendo conspurcada, e o seu sentido original, além do protagonismo da comunidade, têm ficado em segundo plano. Apesar de conservar o nome do santo, sabe Deus até quando, a inserção de shows de bandas de forró de plástico ou coisa pior, tem sido a tônica da "festa". A comunidade, lógico, fica dividida, pois a inserção de tais "atrações" ajuda a aumentar sensivelmente o público, embora, no bojo, traga outros problemas.

Assisti, ainda em 2013, a uma das celebrações na igreja, e, enquanto as mulheres rezavam os benditos, lá fora, carros lá fora, com sons a toda altura, atrapalhavam, o tempo todo, a celebração. Não se tratava mais da luta entre o sagrado e o profano. Mas da espiritualidade contra a imbecilidade. 

É preciso que haja uma reação. Que a comunidade se insurja. Que os mantenedores, devotos como Tonho de Renato, que bravamente ajudam a manter viva a tradição, se valham das setas de São Sebastião, para afastar essa turma de aproveitadores e conspurcadores. Essa gente tem todo o tempo do mundo para demonstrar sua parvoíce. Que o façam em outras oportunidades! 

Deixem as festas tradicionais em paz!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Vida e Memória

Dane de Jade e o boizinho de papel 
Indo contra o senso comum, e até mesmo contra o ‘bom senso’, ouso afirmar que o nosso bem mais valioso não é a vida. Por que digo isso? Por que a vida não é um privilégio. É uma condição. ‘Vivemos’ como vivem o escorpião, o guepardo, o coala e o bacilo de Koch. Algo tão valioso assim não se se encontra em toda parte. O que fazemos desta condição é o que importa. Passamos, então, do viver para o existir.

Para mim, o bem mais valioso é a memória. Por que afirmo isso? A resposta envolve outras perguntas. Por que, quatro milênios depois de escrito, ainda nos fascinamos com o Épico de Gilgamesh? Por que ainda torcemos para que Ulisses, herói hesitante e de caráter duvidoso, volte para Ítaca e ponha fim aos desmandos dos pretendentes de Penélope? E por falar em Penélope, são as nossas mãos que tecem e a destecem a mortalha de Laertes, como se o seu destino fosse o nosso destino. Por que nos postamos ao lado de Psiquê, que precisa derrotar Vênus, ancestral das rainhas-ogras, e conquistar o Amor (com A maiúsculo mesmo), depois de tantas provações, conforme o registro de Apuleio, no século II da era cristã

Porque, no fundo, do baú e da cacimba, todos nós somos Gilgamesh, Ulisses, Penélope e Psiquê. Não se trata, aqui, de ratificar as ideias elementares, os arquétipos, aquilo que faz de nós uma grande fraternidade ainda que sejamos, em essência, únicos. Porque, além das fronteiras forjadas por tratados e baionetas, há elos que não podem ser rompidos, e não podem ser rompidos por não possuírem a ambicionada materialidade. Se quiser fazer um teste, pergunte para alguém por que faz determinado gesto. O mais banal que seja. Ele poderá não saber o motivo, mas, dirá que o faz “inconscientemente” ou imita outra pessoa. 
Mestre Aldenir no Centro de Pesquisa e Formação do SESC.

Domingo, 14 de janeiro, Lucélia e eu recebemos a visita da atriz e produtora cultural Dane de Jade. Veio acompanhada do mestre Aldenir, figura de proa do reisado cearense. Depois do almoço, conversa vai, conversa vem, mestre Aldenir contou uma história que, em resumo, é a primeira parte do célebre conto “Ali-babá e os quarenta ladrões”. E que eu registrei no livro Contos Folclóricos Brasileiros sob o título “O olho maior que o corpo”. Contou outras, exemplares, e me apresentou versões incríveis de contos do tempo em que Jesus andava na terra, além de facécias protagonizadas por Camões. Depois, Dane falou de sua ONG Beatos e da importância dos líderes religiosos do Nordeste, nomeando Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina, Padre Cícero, a beata Maria de Araújo e o beato Zé Lourenço. Ao referir-se ao último, citou a Casa do Boi, que ela mantém no Crato (CE), cujo mote é a história do boi Mansinho. História permeada de lendas. O boi Mansinho, da raça zebu, foi um presente de Delmiro Gouveia a padre Cícero, e que, confiado pelo sacerdote do Juazeiro a Zé Lourenco, acabou sendo cultuado pelo povo. Isso no alvorecer do século 20. O terrível deputado Floro Bartolomeu, espécie de cardeal Richelieu de Juazeiro, inconformado com o culto ao boi, mandou prender o beato, traiçoeiramente, no dia em que este lhe fizera uma visita, e ordenou que abatessem o boi em frente à cadeia onde Zé Lourenço fora encerrado.
Mestre Aldenir, Dane e Lucélia

Dane viu, na nossa estante, um boizinho, cujo bojo era um rolo de papel toalha envolto num tecido encarnado, feito por Lucélia, e se interessou pela peça. Pediu, e Lucélia confeccionou um para ela. O boizinho representado é o do bumba meu boi, auto que remete aos mistérios dionisíacos da morte e do renascimento. Que é o mesmo boi que os antigos puseram entre as constelações, o touro celeste caçado por Gilgamesh e Enkidu, o boi Ápis no Egito, Zagreus na Grécia, o touro sacrificado por Mitra, cujo culto tem origem no Neolítico, migra do Oriente Médio para Creta, se espalha pela Grécia e é levado para a Península Ibérica, sobrevivendo, hoje, na Espanha, na cerimônia profana e sangrenta das touradas. E na representação feiticeira do boi misterioso da gesta nordestina, imortalizada pela literatura oral e pela poesia bárdica do Nordeste, vulgarmente chamada de cordel.


O boizinho de Zé Lourenço era adornado com grinaldas, como o touro sacrificial dos tempos arcaicos, inspiradores. Deuses e heróis daqueles tempos, incluindo o eclético Serápis, morreram, mas sua gesta, vive em nossa memória, Mnemósine, a mais poderosa das deusas. Maior do que o tempo. Maior do que a vida. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cinco livros do povo

Cinco livros do povo:edição fac-similar da original de 1953.
A Literatura do Povo, segundo Luís da Câmara Cascudo, no célebre estudo Cinco livros do povo, divide-se em três gêneros distintos: A Literatura Oral, a Popular e a Tradicional. A primeira, que se caracteriza pela transmissão verbal, inclui os contos de fadas, facécias, anedotas, adivinhas desafios etc. A Literatura Popular, conforme palavras do próprio Cascudo, “é impressa, tendo ou não autores identificáveis. É portanto a literatura de cordel, pois, mais adiante, ele enumera alguns temas do que hoje se conhece por cordel circunstancial: “acontecimentos sociais, grandes caçadas ou pescarias, enchentes, incêndios, lutas, festas, monstruosidades, crimes, vitórias eleitorais.” Há, ainda, as histórias perenes, em especial as escritas por Leandro Gomes de Barros, o favorito do povo, com “folhetos sem ocaso na predileção sertaneja e agresteira [...] lidos, decorados, cantados permanentemente. Antes dele, Cascudo cita Silvino Pirauá, “o primeiro a escrever romances em versos...”, entre os quais cita Zezinho e Mariquinha, A Vingança do Sultão e História do capitão do Navio.

Por fim, a Literatura Tradicional é “a que recebemos impressa há séculos e é mantida pelas reimpressões brasileiras depois de 1840.” 

São exemplos deste gênero novelas como a História de Roberto do Diabo, a Donzela Teodora, História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, O Herói João de Calais, A imperatriz Porcina, A princesa Magalona. Para se desfazer algumas confusões, faz-se necessário esclarecer que, por livros do povo, Câmara Cascudo entendia essas novelas, e não as versões rimadas dos poetas nordestinos, o que fica claro no abalizado estudo crítico que acompanha cada uma dessas narrativas. Esta concepção foi buscada nos estudos do grande folclorista português Teófilo Braga. Na introdução ao volume 2 da obra clássica Contos tradicionais do povo português, Braga fazia referência a estas novelas, herdadas da França e da Espanha, exceção da Imperatriz Porcina, criação do Cego Baltazar Dias, da Ilha da Madeira, contemporâneo do rei D. Sebastião. A esta influência Braga atribui a queda da preferência popular pelos contos literários reelaborados a partir da tradição oral, como as Histórias de Proveito e exemplo de Trancoso:

“Os contos tornaram-se raros e foram deixando de ser lidos, ao passo que entre o povo se vulgarizaram as folhas volantes traduzidas do espanhol desde o governo dos Filipes, tais como A Donzela Teodora, a Formosa Magalona, o Roberto do Diabo, a História de Carlos Magno, os Sete Infantes de Lara, que formam a base da literatura popular portuguesa; outros escritores, como Baltazar Dias, descobriram também o segredo de se apoderar da imaginação do povo, e é deste poeta cego a elaboração literária da grande lenda de Crescência, conhecida e ainda vigente em Portugal sob o título de História da Imperatriz Porcina.”

A acomodação destes textos à nossa realidade, sua aceitação imediata no ambiente sertanejo e o interesse perene de leitores e de estudiosos mereceram, de Câmara Cascudo as seguintes considerações: “O sertão recebeu e adaptou ao seu espírito as velhas histórias que encantam os rudes colonos nos serões das aldeias minhotas e alentejanas. Floresceram, noutra indumentária, as tradições seculares que tantas inteligências rudes haviam comovido. Os versos do cego Baltazar Dias, madeirense contemporâneo a El-rei dom Sebastião, o Desejado, prosa híspida e monótona, descrevendo as aventuras de Robero do Diabo, Duque de Normandia, do Marquês Simão de Mântua, de João de Calais, da Imperatriz Porcina, da Donzela Teodora, da Princesa Magalona, episódios vindos de vinte fabulários, de árabes, francos, sarracenos, germanos, ibéricos, confusos e maravilhosos de ingenuidade, de grandeza anímica, de arrojo guerreiro ou de disposição intelectual, ficaram na alma do povo como uma base cultural inamovível e profunda”.


 Para saber mais:

Breve história da Literatura de Cordel (Claridade, 2010)

Literatura de Cordel: do sertão à sala de aula (Paulus, 2013)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Mais dois títulos para a bibliografia




A Cordelaria Flor da Serra, de Fortaleza, lançou, em 2017, dois folhetos de minha autoria. Uma versão do conto Teig O’Kane e o Cadáver, de William Butler Yeats, que rebatizei de A Estrada do Medo. A capa é do amigo Cayman Moreira. 

Quem anda na senda escura,
Com passo ligeiro ou tardo,
Terá de levar um dia
Da vida o pesado fardo
E, após mirar o rival,
Sentir em si mesmo o dardo.

Na velha Irlanda, vivia
Um mancebo dissoluto.
Por seu pai ser um barão,
Ele, nem por um minuto,
Imaginou que a maldade
Cobrasse, um dia, o tributo.

Chamava-se Teig O’Kane
Esse moço sem valor;
Por sua bela aparência,
Tornou-se um desonrador,
Seduzindo sem cair
Nas armadilhas do amor.

E um romance que reconta, com fidelidade, a jornada de um dos maiores heróis da Grécia Antiga, A História de Perseu e Andrômeda, com capa do mestre Jô Oliveira:

Um vento frio percorre
As velhas ruas de Argos
E a aparente harmonia
Sofrerá duros embargos
Com a paz cedendo espaço
Aos sentimentos amargos.

Acrísio, o rei da cidade,
Soberbo por natureza,
Viajara para Delfos,
Ilha de grande beleza,
Porém seu retorno foi
Marcado pela tristeza.

Dânae, sua linda filha,
Ao vê-lo, segue animada
Para abraçá-lo e na hora
Pelo rei é rechaçada,
E sua alma pura fica
Pela dúvida tomada.

Logo ela foi conduzida
Para seu nobre aposento
E, por ordem de seu pai,
Posta num confinamento.
Sem entender o motivo,
Era grande o sofrimento.



A Flor da Serra, iniciativa do poeta Paiva Neves, mesmo em um curtíssimo tempo de vida, já tem dezenas de títulos publicados, com destaque para uma coleção de clássicos adaptados pelo expert Stélio Torquato Lima. 

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Cordelaria Flor da Serra

Rua 47, número 543 - Conjunto Carlos Jereissati II, Maracanaú (CE). CEP 61901-070
E-mail: cordelariaflordaserra@gmail.com
Fones: (85) 9 8584-0221 e (85) 9 9956 9091

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Promoção Cordel Atemporal

Atenção, gentes boas!
Quem quiser poderá ter em sua coleção a recém-lançada PELEJA DE BRAULIO TAVARES COM MARCO HAURÉLIO (Tupynanquim Editora) acompanhada de quatro folhetos meus da mesma editora (Traquinagens de João Grilo, A Maldição das Sandálias do Pão-Duro Abu Kasem, As Três Folhas da Serpente e A Roupa Nova do Rei).
Preço do kit: R$ 30,00 (frete incluso).
Pedidos : marcohaurelio@gmail.com

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tristão e Isolda no folclore brasileiro

The Mouth of the Truth (A Boca da Verdade), de Lucas Cranach, o Velho. 

Pode parecer estranho o título acima, até por não existir na tradição oral brasileira nenhuma versão, mesmo resumida, da grande história de amor. Não foi tema dos cantadores e poetas de bancada nordestinos, que celebraram em versos o imperador francês Carlos Magno e os Doze Pares de França, até o aparecimento da minha versão em cordel, a ser publicada este ano com o selo da SESI-SP Editora, que tem o mérito de devolver a saga ao gênero no qual debutou: a poesia. A presença e permanência do mito está nos contos tradicionais maravilhosos e novelescos, que reproduzem, e até ampliam cenas vivenciadas por Tristão e sua amada Isolda, a Loura.

Um exemplo é a presença do episódio do juramento ambíguo na nossa tradição oral. Registrei, em Serra do Ramalho, na Bahia, um conto popular, A pedra-mármore, que traz, também, um triângulo amoroso. A jovem é levada pelo marido até a tal pedra onde será testada, por meio de um juramento, sua fidelidade. Alertada pela irmã do rapaz, que cumpre um papel similar ao da fiel serva Brangiene no mito de Tristão e Isolda, a moça finge desmaiar e o marido recorre a um pastor de ovelhas, cujo abraço poderá reanimá-la. Voltando a si ela jura que, além do marido, só tivera em seus braços o tal pastor (seu amante sob disfarce). A presença da pedra-mármore, como detector de mentiras infalível, evoca La Bocca della Verità (A Boca da Verdade) romana. A cena foi imortalizada numa pintura de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553). Vem a ser o mesmo episódio da rainha Isolda, obrigada a prestar um juramento diante das relíquias da Santa Igreja e do venerando rei Artur, no vau do Mau Passo, depois de Tristão, disfarçado em leproso, ajudá-la a atravessar uma ponte estreita.

Outro episódio que figura em nossos contos de cariz maravilhoso é o do tributo do dragão (ATU 300). A literatura de cordel, por exemplo, imortalizou-o na História de Juvenal e o Dragão, de Leandro Gomes de Barros, em que o herói, depois de libertar uma princesa condenada a morrer devorada pelo monstro, precisa provar que ele foi o seu salvador. A moça, ameaçada pelo cocheiro que a levaria de volta ao seu reino, confirma a versão de que este é o matador do dragão, e o pai dela acaba por marcar o seu casamento com o falso herói. Juvenal, na véspera do casamento, vai até o palácio e prova, assim como Tristão, que desmascara o pérfido Aguiguerran, ter sido ele o responsável pela grande façanha. Recolhi um conto, José e Maria, com o mesmo motivo: descoberto, o falso herói se atira de uma grande altura e morre.

Também o pitoresco e comovente episódio da loucura de Tristão não é estranho a nossos contadores tradicionais, embora o herói esteja tão irreconhecível quanto no original. Geralmente, o conto tem como protagonista um jovem que viola um tabu imposto por um feiticeiro (ou um ogro), mergulhando o dedo num caldeirão ou abrindo um quarto interdito. A história do rapaz dos cabelos dourados escondidos sob uma bexiga de boi era a mais ouvida pelo célebre folclorista Luís da Câmara Cascudo durante a infância. O disfarce abjeto, aparece, no conto O careca, registrado por Sílvio Romero em 1885. O conto João Ferrugem, dos Irmãos Grimm, com um benfeitor sobrenatural, aponta na direção de um conto que recolhi, em Serra do Ramalho, O Príncipe-Pastor. O conto alemão traz episódios, como o do herói oculto sob um disfarce, lutando heroicamente e livrando todo um reino dos inimigos, que indicam parentesco com a lenda de Roberto do Diabo. No conto baiano, o herói Bu, que tinha todo o corpo dourado, troca as ricas roupas que levava pelos molambos de um pastor, e desta forma se apresenta a um rei, ao qual vai servir como copeiro. Sofrendo toda a sorte de ultrajes por parte dos genros do rei, termina por se vingar e, ao final, casa com a filha caçula, herdando, ainda, o trono. O moço dourado, sob disfarce, é Tristão a fingir-se de louco, de cabeça raspada e coberto de fuligem e vitupérios, para estar perto de Isolda, podendo ainda significar o sol em seu ocaso, já que Tristão foi, desde sempre, como matador de um dragão, identificado aos heróis solares.