sexta-feira, 5 de junho de 2020

Arievaldo chega ao céu e encontra Leandro, Ariano e Patativa em cordel de Klévisson Viana


O encantamento de Arievaldo Viana
e sua chegada no Céu

Capa: Jô Oliveira, grande parceiro de Arievaldo Viana

Que a Divina Providência
Inspire esses versos meus,
Traga a verdade e a doçura
De Jesus, Rei dos Judeus
E o sopro incontestável
Da influência de Deus.

Arievaldo Vianna
Foi poeta brasileiro,
Cordelista de renome,
Bom irmão, bom companheiro;
Tudo que fez tinha o brilho
De um talento verdadeiro.

Aqui no plano terrestre
Só semeou a bondade,
Ajudou o semelhante,
Nunca perdeu a humildade,
Foi um artista dotado
De grande simplicidade.

Tinha verve de humorista
A qualquer hora do dia
E, quando contava um causo,
Botava encanto e magia
E, por onde ele passava,
Brotava um pé de alegria.

Encantador de plateia,
Com voz bonita e possante,
Culto, suave e profundo,
Com sua prosa instigante,
Da cultura popular
Era devoto e amante.

Viveu 52 anos,
Porém produziu por dez
Artistas mais dedicados.
Cumpriu bem os seus papéis
E teve destaque como
Um dos grandes menestréis.

Deixou mais de 30 livros,
Folhetos bem mais de 100.
Com imensa facilidade,
Escrevia muito bem
E, em matéria de humor,
Não tinha para ninguém!

‘O Baú da Gaiatice’
Foi o seu livro de estreia,
Sua prosa e o seu verso
Tinha o dulçor da colmeia
Do mel silvestre extraído
Pra o deleite da plateia.

Escreveu pra São Francisco
Um livro bem pesquisado
Com tudo que era folheto
Sobre o tema registrado.
Com paciência, anotou
Depois deixou publicado.

Com o “Acorda Cordel”
Alçou voos nacionais
E teve oportunidade
De produzir muito mais
Junto com Jô Oliveira,
Artista muito capaz!!!

E, para Leandro Gomes
De Barros, fez com valia
Um livro muito importante
Contendo a biografia
Do mestre lá de Pombal
Que foi rei da poesia.

Vários livros publicados
De sua verve tão fina...
Fez “Sertão em Desencanto”,
“No Tempo da Lamparina”.
Cada obra que escrevia
Era única, genuína.

Na família era estimado
Por pais, irmãos e por filhos.
Pra ajudar quem precisava
Nunca botava empecilhos,
Pois seu vagão de bondade
Nunca saía dos trilhos

Deixou centenas de amigos
Que choram sua partida
Prematura, na verdade,
Sem direito a despedida.
Todos lembram de Ari
Nos bons momentos da vida.

Dizem que os bons morrem cedo,
Ari cumpriu a missão!
E o bom Deus o levou
Pra residir na Mansão
Celeste onde a poesia
É linda igual oração.

Marcos Aurélio chorou,
Autemar tá descontente,
Chora Itamar e Vandinha
Sua presença inda sente,
E Klévisson Viana luta
Pra tocar o barco em frente.

Sua mãe, dona Hatiane,
Seu paizinho Evaldo Lima
Rezam para o filho amado
Por quem nutrem grande estima.
Ari fez da vida um verso
Com oração, métrica e rima.

O seu filho Daniel,
Sua filha Mariana,
O Yuri e o João Miguel
E a esposa Juliana
Lamentam a partida súbita
De Arievaldo Vianna.

Contudo, o bom Deus achou
Por bem chamar o poeta,
Pois viu que sua jornada
Já estaria completa.
Como Deus tinha outros planos
Traçou pra ele outra meta.

Quando o corpo de Ari
Sucumbiu à bactéria
E o espírito do poeta
Se desprendeu da matéria,
Os anjos levaram Ari
Dessa terra deletéria.

Chegou no Céu Arizinho
Com uma mala de cordel.
No portão logo avistou
Alzirinha e Seu Manoel,
Os seus avós estimados
Que abraçaram o menestrel.

E Ari, não mais sentindo
Dores, fraqueza e cansaço,
Vendo seus avós queridos,
Os envolveu num abraço
E confirmou que a família
É incontestável laço.

Após descansar um pouco,
São Pedro, bem sorridente,
Cumprimentou o poeta,
Que já estava contente,
E não sentiu mais tristeza
Daquele instante pra frente.

Num belo jardim que havia
Perto da Santa Mansão
Estava Alberto Porfírio
Improvisando em quadrão
E junto a ele encontrou
João Firmino e Azulão.

João disse a Arievaldo:
— Que bom lhe ver por aqui!
Se achegue, ande pra cá
E venha olhar de per si
A festa que hoje faremos
Pra lhe receber, Ari.

E chegou Ribamar Lopes
Escrevendo num caderno.
Quando viu que era Ari,
Deu-lhe um abraço fraterno
E disse: — Ari, lhe esperava
Na morada do Eterno!

Ariano Suassuna
Cumprimentou o poeta,
Chegou Gonzaga Vieira
Andando de bicicleta
E logo foi se formando
Uma plateia seleta.

Chegou ali Santo Antônio
(Seu santo de devoção)
Ao lado de São Francisco,
Veio apertar sua mão.
Ari segurou as lágrimas
De alegria e emoção.

A Santa Virgem Maria
Lhe mandou carta lacrada.
Quando Ari abriu e leu,
Disse a Santa Imaculada:
“Fique calmo, sua mãezinha
Por mim será confortada.

A seu pai, Evaldo Lima,
Já mandei uma mensagem.
Ele é maduro e entende
Que a vida é uma passagem
E as riquezas terrenas
Não passam de uma miragem”.

João Firmino se achegou,
Perguntou: — Arievaldo,
Como vai Klévisson Viana,
Meu amigo de respaldo,
Rouxinol do Rinaré
E Evaristo Geraldo?

Ari disse: — Eles estão
Com medo da pandemia,
Mas, mesmo em tempos difíceis,
Nunca perdem a alegria
E não abandonam o front
Em defesa da poesia.

Ari disse: — Também tem
O Pedro Paulo Paulino,
Marco Haurélio e Eduardo
Macedo, poeta fino!!!
E o nosso Jota Batista
Que é um cabra malino!

Depois chegou Valdir Teles
Com a viola afinada
Junto a João Paraibano,
Vate de mente afiada,
Cantaram pra Arievaldo
Uma bonita toada.

Chamaram então o poeta
Patativa do Assaré
E Paulo Nunes Batista,
Com inspiração e fé,
Deu vivas ao bom poeta
Que viveu em Canindé.

Ari olhou para um lado
Onde se avistavam uns jarros
Chegou uma comitiva
E estacionou uns carros
Trazendo o grande poeta
Leandro Gomes de Barros.

Leandro deu-lhe um abraço
Com efusiva alegria,
Lhe cobriu de elogios,
Recitou uma poesia
E agradeceu Ari
Por sua biografia.

Ari louvou a Leandro
(Aquele espírito de luz),
Quando o foi chamar de mestre
Disse Leandro: — Jesus,
Só ele é quem é o Mestre
Que morreu por nós na cruz!

Foi uma festa bonita
Que durou mais de um dia
O jardim celestial
Se encheu de alegria
E em toda parte nasceram
Muitas flores de poesia.

FIM

Nota: Escrito por Klévisson Viana, irmão e maior parceiro artístico de Arievaldo, o cordel O encantamento de Arievaldo Vianna e sua chegada no Céu será distribuído na missa de sétimo dia pela alma do saudoso poeta cearense, grande amigo de todos nós. 

domingo, 31 de maio de 2020

Arievaldo Viana, 1967-2020

Mesa com Stelio Torquato, Crispiniano Neto e Arievaldo Viana. Espaço do Cordel e do Repente.
Bienal do Livro de São Paulo, 2018. 

A notícia do encantamento do poeta cearense Arievaldo Viana me pegou de surpresa, pois, mesmo sabendo que ele se encontrava hospitalizado, com um quadro agravado por uma infecção, a sua vontade de viver era tanta, e seu amor pelas histórias e pelo sertão-velho era tão grande, que eu passei a crer num milagre que, infelizmente, não veio. E Ari, como carinhosamente o chamávamos, se despediu precocemente da vida aos 52 anos, a mesma idade que tinha Leandro Gomes de Barros (1865-1918), quando deixou a esfera terrena. Desde que Dulcimar Viana, a Dulce, esposa de Klévisson Viana e cunhada de Ari, me deu a notícia, por volta das 12h30min do dia 30 de maio, uma grande tristeza se apossou de minha alma. Um dia depois, quando finalmente reuni forças para postar este texto no blogue, a tristeza não arrefeceu em nada.

Perdi um amigo, um irmão, um professor. A pessoa com quem mais eu conversava sobre os cordéis clássicos, as histórias dos tempos idos e os sonhos dos tempos vindouros. E muitas memórias afloraram, boa parte delas de momentos alegres, já que Ari era, no cordel e na vida, uma pessoa muito bem-humorada. Ouso dizer que sua verve para o gracejo o aproximava de grandes mestres, como o já citado Leandro e José Pacheco da Rocha.

Quando garimpava em documentos e livros informações para montar o quebra-cabeças que redundou na biografia de Leandro Gomes de Barros, Ari sempre compartilhava comigo os seus apontamentos, pedindo sugestões e, por vezes, corrigindo e refazendo rotas. Queria que o livro fosse um marco, pois considerava injustiça das maiores Leandro, poeta-ponte do cordel, não contar com uma biografia de fôlego, à altura de seu talento. Num dado momento, sugeriu que eu dividisse com ele a autoria do projeto, o que, de pronto, recusei. E recusei por ser aquele o trabalho de sua vida e eu, quando muito, cumpria apenas a missão de leitor de primeira hora, já que dividíamos a mesma paixão pela literatura de cordel e a mesma admiração por Leandro. Ari, inclusive, assinava suas postagens no blogue Acorda Cordel sob o pseudônimo Cancão de Fogo, em homenagem à maior criação do paraibano genial que tanto nos inspirou. Acabei assinando um dos textos de abertura do livro Leandro Gomes de Barros, o Mestre da Literatura de Cordel (Queima-Bucha), e isso, para mim, já foi motivo de muito orgulho.

Assinei, ainda a convite dele, os prefácios dos livros que lançou pela Globo Livros, adaptações de clássicos infantis ilustrados por Jô Oliveira. E sua versão do conto O Crime das Três Maçãs, das Mil e Uma Noites, do Armazém da Cultura, além de termos trabalhado junto na caixa temática 12 Contos de Cascudo em Cordel e na confecção do folheto Cem Anos da Xilogravura na Literatura de Cordel (Queima-Bucha), de 2007, hoje uma raridade bibliográfica. Ele depois assinou o prefácio de minha versão do romance O Conde de Monte Cristo(Nova Alexandria), da coleção Clássicos em Cordel, e integrou o elenco da Antologia do Cordel Brasileiro (Global Editora).

Ari forneceu ainda informações preciosas e sugeriu leituras que descortinaram horizontes por ocasião da minha pesquisa para o livro Breve História da Literatura de Cordel (Claridade). Generoso, enviou-me também contos populares que ouvira na infância, como o belíssimo O Tesouro do Matuto, que fecha o livro Contos Folclóricos Brasileiros, e os engraçadíssimos O Azar de São Pedro e Jesus e São Pedro na Casa da Usura, ambos publicados entre os Contos e Lendas da Terra do Sol (Paulus). Lamentavelmente, ele não publicou em vida a antologia de contos e anedotas Histórias que os Antigos me Contaram, reunidos em muitos anos de pesquisa séria e de generosa partilha.


À sua esposa Juliana Araújo, aos seus quatro filhos, Daniel, Mariana, Yuri e o caçulinha João Miguel e também aos seus irmãos, pais e demais familiares e amigos, deixo o meu abraço de conforto neste momento de grande tristeza.

sábado, 23 de maio de 2020

SERTÃO FANTÁSTICO

Foto: Glissia Marla (terreiro da casa de Tia Lili, na Ponta da Serra).

A casa em que nasci fica à beira da mata que margeia a Serra Geral. Daí que o vento que descia da serra, por vezes, parecia o grito agônico das almas condenadas. Em noites de tempestade, então, era rezar pra Santa Bárbara e esperar que os raios caíssem bem longe. Mas eles, teimosamente, pipocavam em vários pontos do quintal, trazendo um brilho momentâneo, intenso. Fantasmagórico.
Lembro-me de uma dessas chuvas, em que o vento gemia ameaçador no nosso telhado. O ouricuri, no terreiro, balançava tanto que parecia um cavaleiro que, com muito esforço, se mantinha sobre a montaria. Portas e janelas bem fechadas e espelhos cobertos, como reza a tradição. Foi quando minha mãe, retornando da cozinha, depois de dizer algumas palavras incompreensíveis a mim e aos meus irmãos, atirou um punhado de farinha pela janela. E o vento foi diminuindo o seu ímpeto, até ser reduzido a um resfolego e cessar de vez. A chuva, felizmente, continuou por toda a noite, molhando a terra que, há meses, esperava por ela.

As cinzas da palha do Domingo de Ramos têm a mesma função "mágica".

O que parou o vento naquela noite? Não sei. O que sei é que, há milhares de anos, homens e mulheres barganham com os deuses (e o Vento é um deus caprichoso) ou fazem sacrifícios votivos para aplacar-lhes a fúria. O gesto de minha mãe foi funcional, mecânico, como o do viandante que deixa cair uma moeda sobre a estrada por onde passará, em troca de proteção contra os que respiram e também contra as “plataformas”. Ou o do ribeirinho, que compra o obséquio do Compadre d’Água, duende do rio São Francisco, com um pedaço de fumo, para que este ajude ou, no mínimo, não atrapalhe a sua pescaria.

No sertão, portanto, não se pode falar em sobrenatural. Os domínios dos vivos são os mesmos das visagens. Duvida? Passe embaixo duma gameleira numa noite de sexta-feira e depois me conte o que viu...



sexta-feira, 8 de maio de 2020

CHAPEUZINHO VERMELHO

Little Red Riding Hood, Ilustração de Walter Crane.


Desde a época de Perrault, elementos do conto literário têm influenciado algumas versões orais. No entanto, é geralmente aceito que o Conte de la mere-grand ("O conto da avó"), coletado em Nièvre por volta de 1885 e publicado pelo folclorista francês Paul Delarue em 1951, ilustra como a história era contada antes de Perrault escrever a sua versão. Neste conto popular, uma menina camponesa é enviada para a avó com um pedaço de pão quente e uma garrafa de leite. Em uma bifurcação no caminho, ela conhece um bzou, ou lobisomem, que, depois de saber para onde está indo, pergunta se está seguindo o caminho das agulhas ou o caminho dos alfinetes. Nesta versão, a garota escolhe agulhas, mas em alguns contos ela prefere alfinetes. Enquanto alfinetes parecem ser um símbolo da maioridade, agulhas parecem significar a sexualidade de uma mulher mais velha. O lobisomem segue o outro caminho e chega primeiro à casa da avó, onde mata a velha e coloca um pouco de sua carne na despensa e um pouco de seu sangue em uma garrafa. Quando a garota chega, o lobisomem a convida a comer um pouco de carne e a beber vinho. Durante essa refeição canibal, a menina é avisada por um ou mais animais, nesta versão por um gato, de que está comendo a carne e bebendo o sangue de sua avó. A refeição ritual parece simbolizar uma incorporação física da velha senhora, que é substituída pela geração mais jovem. Quando o lobisomem convida a garotinha a se despir e a se juntar a ele na cama, segue-se uma longa “provocação” (*). Ao tirar as roupas, peça por peça, ela pergunta ao lobisomem o que fazer com seu avental, corpete, saia, anágua e meias. Ela é instruída a jogar cada item no fogo, pois não precisará mais dele. O diálogo dramático sobre as características físicas do lobisomem é mais longo e inclui seu corpo peludo. 

Nesta versão do conto, a heroína é uma jovem corajosa e engenhosa que engana o lobo e escapa ilesa, sem qualquer assistência masculina. Quando o lobisomem se prepara para comê-la, a garotinha o convence a deixá-la ir ao ar livre para se aliviar. O lobisomem amarra um fio de lã ao pé, mas a garota amarra o fio a uma ameixeira e foge. A maioria dos contos orais tem uma variação desse final feliz e escatológico, mas às vezes a heroína mata o lobo e às vezes ele é morto com a ajuda de outros. Em uma variante, lavadeiras espalham um lençol sobre o rio para ajudar a garota em fuga a atravessar, mas depois soltam a ponte de pano para afogar o lobo.

Variantes de O conto da avó foram coletadas na bacia do Loire, no Forez, no Velay, no Morvan e nos Altos Alpes, bem como em outras partes da Europa. Italo Calvino incluiu “La finta nonna” (A Falsa Avó), um conto de Abruzzo, em sua coleção Fiabe italiane (Fábulas Italianas, 1956). A protagonista desse conto encontra uma saída, é convidada a comer os dentes e as orelhas da avó e amarra a corda a uma babá, mas a história é essencialmente a mesma. Algumas versões orais do conto apresentam várias garotas em vez de uma, como em O lobo e o tre ragazze ("O lobo e as três garotas"), também incluídas na coleção de Calvino.

As variantes asiáticas da história incluem as 241 versões de Grandaunt Tiger coletadas em Taiwan por Wolfram Eberhard. Neste conto, um tigre se apresenta como mãe, avó ou avô. O tigre engole os irmãos mais novos da menina e, em algumas versões, dá a ela um dedo para mastigar. No conto chinês “Lon Po Po”, o lobo, disfarçado de avó, visita as crianças em casa enquanto a mãe atravessa a floresta. O livro de Ed Young, Lon Po Po: Uma História da Chapeuzinho Vermelho da China (1989) ganhou a Medalha Caldecott em 1990.

O CONTO DE PERRAULT

O conto inicial da tradição oral tornou-se um conto de advertência quando Perrault o adaptou para a corte francesa de Luís XIV. Perrault dá à sua heroína, uma menina bonita e ingênua da vila, um chaperon (capuz) vermelho, de onde provém seu apelido. Para muitos estudiosos e psicanalistas, o capuz vermelho tem conotações sexuais, simbolizando o início da menstruação, sexualidade precoce e / ou pecado. Quando a mãe da menina a envia para a avó doente com um bolo e um pote de manteiga, ela conhece o lobo na floresta e, ingenuamente, diz a ele para onde está indo. Enquanto ela percorre o caminho mais longo, o lobo corre até a avó e a devora. Perrault elimina a refeição canibal e o strip-tease detalhado, mas a menininha despe-se e se ajeita na cama com o lobo, cuja aparência surpreendente provoca o diálogo climático. A versão de Perrault termina com a menininha sendo devorada pelo lobo. A lição do autor é explicitamente expressa no final do conto, no verso moral espirituoso e sexualmente sugestivo que adverte as jovens a tomarem cuidado com os gentis lobos de duas pernas. O conto popular de Perrault foi traduzido para muitas línguas europeias no século XVIII, aparecendo em inglês em 1729.

O CONTO DOS GRIMM

Quando Wilhelm e Jacob Grimm publicaram "Rotkappchen" ("Capuchinho Vermelho") na primeira edição de sua coleção Kinder- und Hausmarchen (Contos infantis e domésticos) em 1812, ele foi apresentado como parte da tradição folclórica alemã. De fato, os Irmãos Grimm coletaram a história de Marie Hassenpflug, uma mulher letrada de ascendência huguenote francesa, e a adaptaram. Eles continuariam a revisá-lo em edições subsequentes, cada vez mais voltadas para crianças. A heroína deles usa um gorro de veludo vermelho e leva bolo e vinho para a avó. Os Grimm introduzem uma cena de advertência em que a mãe avisa a filha para não se desviar do caminho. Assim, a história se torna um conto de advertência alertando as meninas dos perigos da desobediência. Os Grimm adicionam um final feliz, no qual Capuchinho Vermelho e sua avó são resgatadas por um caçador. Ele abre a barriga do lobo adormecido e a garota e sua avó emergem ilesas. A barriga do lobo é então preenchida com grandes pedras, resultando em sua morte. Os Grimm acrescentam outro conto anticlímax que se assemelha a um epílogo ou a uma sequência, em que Chapeuzinho Vermelho é abordado por um lobo diferente quando ela volta para a avó. Desta vez, Chapeuzinho Vermelho vai direto para a avó e juntos eles são mais espertos do que o lobo, que é afogado em uma vala.

DE HISTÓRIA INFANTIL A CONTO CRUZADO

No século XIX, os avanços nos métodos de impressão levaram ao surgimento da indústria editorial de livros infantis e a história foi alterada para ser adaptada às crianças. As versões de Perrault e Grimm eram frequentemente combinadas. Em muitos casos, o resultado foi um conto genérico e higienizado. Por um tempo, "Chapeuzinho Vermelho" foi relegado à biblioteca das crianças. Hoje, no entanto, o conto é geralmente considerado apropriado para todas as faixas etárias. As revisões contemporâneas do conto de fadas costumam apelar para uma audiência cruzada.

RECONTOS LITERÁRIOS

Ao longo dos séculos, "Chapeuzinho Vermelho" tem sido interpretado e recontado de acordo com as preocupações sociais e literárias de cada época. As revisões do século XIX incluem a peça de Ludwig Tieck, Leben und Tod des kleinen Rotk appchens: eine Trag odie (“A Vida e a Morte de Chapeuzinho Vermelho: Uma Tragédia”, 1800), Le roman du Chaperon Rouge de Alphonse Daudet ”(“O romance de Chapeuzinho Vermelho ”, 1862), Le Petit Chaperon Rouge après sa mort (“Chapeuzinho Vermelho após sua morte ”, 1865), de Leo Lespès, “All My Doing, or Little Red-Riding Hood Over Again”(1882), e Le Nouveau Petit Chaperon Rouge (O Novo Chapeuzinho Vermelho, 1893), de Emilie Mathieu.

No século XX, houve uma explosão de revisões da história para crianças e adultos. Esses recontos abordam temas contemporâneos como tecnologia, ecologia, direitos dos animais, idosos, sexualidade, questões de gênero, violência e guerra. A história foi reformulada para lidar com questões psicológicas e metafísicas, como solidão, medo, liberdade, amor e morte. Foi dito em modos, do cômico ao trágico, e seguindo as convenções de todos os gêneros literários.

HISTÓRIAS CURTAS

A paródia espirituosa de Marcel Aymé, Le loup ("O lobo"), apareceu em 1934. Gianni Rodari publicou seu conto fragmentado, A sbagliare le storie ("Contando histórias erradas"), em 1962. A versão mais recente de Jacques Ferron Le petit Chaperon Rouge (1968) e o reconto existencialista de João Guimarães Rosa, Fita verde no cabelo, 1970) apareceram em coleções para adultos. Das elektrische Rotkappchen  ("A Elétrica Chapeuzinho Vermelho", 1972) de Janosh e "Chapeuzinho Vermelho" (1974) de Tomi Ungerer,  são paródias satíricas publicadas em coleções para crianças. Philippe Dumas e Boris Moissard viram a história de cabeça para baixo em “Le Petit Chaperon Bleu Marine” (“Chapeuzinho Azul Marinho”, 1977).

O Lobisomem e A Companhia dos Lobos (1979) de Angela Carter são contos complexos com multicamadas. Terra de Lobos (1983), de Tanith Lee, é um conto gótico, sombrio. Pierrette Fleutiaux mistura dois contos em "Petit Pantalon Rouge, Barbe-Bleue et Notules" ("Pequena Calça Vermelha, Barba-Azul e Notulas", 1984). “Ulven og Rødhette”, (“O Lobo e o Chapeuzinho Vermelho”, 1986), de Annie Riis, e “Si esto es la vida, yo soy Caperucita Roja”” (“Se isto é a Vida, eu sou Chapeuzinho Vermelho”, 1993), de Luisa Valenzuela, são recontos sensuais para adultos. James Finn Garner lança seu "Chapeuzinho Vermelho" (1994) como um conto politicamente correto. “A boa mãe” (1995), de Priscilla Galloway, é uma versão de ficção científica futurista e pós-apocalíptica. Pierre Leon incluiu três versões politicamente corretas em “Le mariage politiquement correct du Petit Chaperon Rouge” (Casamento politicamente correto de Chapeuzinho Vermelho, 1996), enquanto “Chapeuzinho Vermelho”, de David Fisher (Regal Pictures, Inc.), é um de seus contos de fadas legalmente corretos (1996). "Cavalgando o Vermelho" (1997), de Nalo Hopkinson, é um conto poderoso sobre sexualidade feminina, enquanto "Lobo" (Francesca Lia Block) (2000) é um conto sombrio de abuso sexual. Uma versão que circula na Internet em todo o mundo hispânico, "Cyber Kaperucita" ("Cyber Chapeuzinho", 2003), reconta a história de acordo com os jargões da Informática.

ROMANCES

“Caperucita azul” (Chapeuzinho Azul, 1985), de Hernan Rodrıguez Castello, é um romance infantil que constitui uma defesa do conto de fadas. “Caperucita en la Zona Roja” (O Chapeuzinho no Distrito da Luz Vermelha, 1977), de Manlio Argueta, é um romance político violento que se passa em El Salvador. Marta Tikkanen usa o conto para examinar sua própria vida no romance autobiográfico “Rodluvan” (Chapeuzinho Vermelho, 1986). “Bye Bye Chaperon Rouge” (Tchau, Chapeuzinho Vermelho, 1989), de Viviane Julien, e “Caperucita en Manhattan” (Chapeuzinho Vermelho em Manhattan, 1990), de Carmen Martín Gaite, combinam fantasia e realismo para abordar o tema do crescimento. Gillian Cross lida com medo, terrorismo e relações familiares em seu romance multicamadas “Lobo” (1990). “Darkest Desire: The Wolf’s Own Tale”, (O desejo mais sombrio: o conto do lobo, 1998), de Anthony Schmitz, é um romance curto em que o conto de Grimm é visto da perspectiva do lobo.

POESIA 

Os retrabalhos do conto em poesia são numerosos e variados. "Chapeuzinho Vermelho", de Gabriela Mistral (1924), e dois poemas [sobre] "Chapeuzinho Vermelho", de Francisco Villaespesa (1954), destacam a inocência da criança vítima. "Chapeuzinho Vermelho", de Anne Sexton (1971), usa a história para discutir engano, enquanto Olga Broumas explora o relacionamento mãe-filha em seu "Chapeuzinho Vermelho" (1977). "Chapeuzinho Vermelho e o Lobo", de Roald Dahl (1982), é um relato espirituoso e satírico. "O Posfácio do Lobo para 'Chapeuzinho Vermelho'", de Agha Shahid Ali (1987), é contado da perspectiva do lobo, assim como “A Espera do Lobo", de Gwen Strauss (1990). Pierre Gripari dedica um poema a "Le loup" (O lobo) e outro a "Le Petit Chaperon Malin" (Chapeuzinho Astucioso, 1996).

LIVROS ILUSTRADOS E LIVROS DE IMAGENS

Ao longo dos séculos, "Chapeuzinho Vermelho" foi ilustrado por inúmeros artistas. As ilustrações mais famosas são as poderosas gravuras de Gustave Doré. As obras memoráveis de ilustradores como Doré, Walter Crane e Arthur Rackham continuam a influenciar os artistas atuais. A Chapeuzinho Vermelho de Beni Montresor (1991) é uma homenagem a Doré, e Anthony Browne parodia Walter Crane em The Tunnel (O Túnel, 1989). O conto de fadas clássico inspirou muitos ilustradores contemporâneos importantes, incluindo Eric Battut, Klaus Ensikat, Trina Schart Hyman, Nikolaus Heidelbach, Kazuyoshi Iino, Roberto Innocenti, Susanne Janssen, Binette Schroeder, Svend Otto S. e Lisbeth Zwerger.

Os ilustradores de “Chapeuzinho Vermelho” costumam oferecer releituras altamente originais em suas narrativas visuais. Kelek transplanta o conto em uma pintura de Vittore Carpaccio em Contes de Charles Perrault (1986). Jean Ache reformula a história ao estilo de sete artistas famosos do século XX em sua série "Le petit Chaperon Rouge" (1973). As imagens de Warja Lavater, "Le Petit Chaperon Rouge" (1965), contam a história do código visual, assim como a versão de Jean Ache em “Le monde des ronds et des carrés” (O mundo dos círculos e quadrados, 1975). As dramáticas fotografias em preto e branco de Sarah Moon lançam a história de Perrault sob uma luz escura e perturbadora, enquanto as fotografias Polaroid de William Wegman de seus Weimaraners transformam a versão dos Grimms em uma história alegre e espirituosa. As releituras de livros ilustrados existem para todas as idades. Bruno Munari publicou várias versões do conto: Cappuccetto Verde (Chapeuzinho Verde, 1972), Cappuccetto Giallo (Chapeuzinho Amarelo, 1972) e Cappuccetto Bianco (Chapeuzinho Branco, 1999). Paul Biegel adota uma abordagem psicanalítica em seu longo conto Wie je droomt ben je zelf (Você é quem você sonha, 1977), ilustrado por Carl Hollander. Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque (1979), é um exame poético e brincalhão do medo. Tanto “Rødhatten og Ulven de Fam Ekman” (Chapéu Vermelho e o Lobo, 1985) quanto Itazura Akazukin-chan, de Makiko Satou (Chapeuzinho Vermelho Arteira, 1989), colocaram um garoto no papel principal. Mina, je t'ime (Mina, eu te amo, 1991), de Patricia Joiret e Xavier Bruyére, é um conto de advertência para meninos sobre uma garota / lobo.

 “John Chatterton Detective” (1993), de Yvan Pommaux, reformula o conto como uma novela policial ao estilo dos quadrinhos. O “Mon loup” (Meu lobo, 1995), de Anne Bertier, é uma encantadora história de amor ilustrada com silhuetas negras. Elise Fagerli usa xilogravuras para contar a história de uma heroína que engole um lobo em “Ulvehunger” (Fome de Lobo, 1995). “Petits Chaperons Loups” (Pequenos Lobos Chapeuzinhos, 1997), de Christian Bruel e Nicole Claveloux, é um livro versátil e sem palavras que convida a múltiplas leituras. “Mon Chaperon Rouge” (Minha Chapeuzinho Vermelho, 1998), de Anne Ikhlef e Alain Gauthier, é um livro de imagens sensual e sofisticado para leitores mais velhos. “Petit Chaperon Rouge” (Chapeuzinho Vermelho, 2000), de Claude Clement e Isabelle Forestier, é uma releitura poética que trata do tema do abuso sexual.

QUADRINHOS

A história foi recontada em quadrinhos para todas as idades. As versões de mangá japoneses variam de "Akazukin-chan" ("Chapeuzinho Vermelho", 1962), de Shotaro Ishinomori, para meninas, a "Akazukin ha ookami otoko no yume wo miru" (“Chapeuzinho Vermelho sonha com o Lobo”, 1993), de Shouko Hamada (1993), um romance para mulheres jovens. Nos anos 1970 e início dos anos 80, os famosos artistas franceses Gotlib e F´Murr publicaram vários quadrinhos inspirados no conto.

CINEMA E TEATRO

As adaptações de Walt Disney incluem uma animação em curta-metragem sem som e em preto e branco, Little Red Riding Hood (1922), bem como o curta de desenho animado das Silly Symphony, The Big Bad Wolf (1934), e Redux Riding Hood (1998). Os desenhos animados vão desde “Chapeuzinho Vermelho”, de Frederick "Tex" Avery (1937), “Chapeuzinho Vermelho” (1943) e Chapeuzinho Rural (1949), até o desenho animado com o Pernalonga, “Little Red Riding Rabbit” (1944). O longa-metragem animado por computador, “Hoodwinked” (2005), transforma a história em uma novela policial. O longa-metragem de anime “Jin-Roh: The Wolf Brigade” (1998) é um conto de fadas de ficção científica. Vários filmes oferecem interpretações sensuais e multicamadas, incluindo “A Companhia dos Lobos” (1984), de Neil Jordan, baseada no conto de Carter, “La veritable his duire du Chaperon Rouge” (A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho, 1985), de Anne Ikhlef, “Bye Bye Red Riding Hood” (também conhecido como Bye Bye Chaperon Rouge, 1989), de Marta Meszaros, e Chapeuzinho Vermelho (1997), de David Kaplan. O conto inspirou vários thrillers, incluindo Freeway (1996), de Matthew Bright, Promenons-nous dans les bois, lançado em inglês como Deep in the Woods (2000), “Cappuccetto Rosso” (Chapeuzinho Vermelho), e “A Wicked Tale” (2005).

As adaptações dramáticas incluem “Chapeuzinho Vermelho” (1983), de Shelley Duvall, em sua série de televisão Shelley Duvall’s Faerie Tale Theatre, e o musical Into the Woods, de Stephen Sondheim e James Lapine (1987), e um kyogen japonês, de Man-no-jo Nomura, que foi produzido no National Noh Theatre.

O clássico conto de fadas "Chapeuzinho Vermelho" continua a inspirar trabalhos criativos em muitos gêneros e mídias.

 

(*) Strip-tease no original inglês.  

 

[Por Sandra L. Beckett. In: The Greenwood Encyclopedia of Folktales and Fairy Tales, págs. 583-588. Tradução: Marco Haurélio]

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O martírio de São Jorge




Há muitas versões para o martírio de São Jorge, um dos mais populares santos católicos, conquanto tenha sido “cassado”, junto a outros 200 santos, pelo Papa Paulo VI, depois do Concílio Vaticano II, em razão da fragilidade em que se assenta sua história. Diocleciano era o regente romano, e tinha sob o seu jugo a Palestina, para onde Jorge se dirigiu depois da morte de seus pais. Era soldado destacado, mas, durante uma perseguição, na qual teriam morrido 17 mil cristãos, renunciou às honras militares, vendeu tudo o que possuía, distribuindo o apurado entre os pobres, e passou a viver entre os seguidores de Cristo. Suas pregações ajudaram na conversão de muitos pagãos à fé cristã, o que irritou sobremaneira Daciano, governador das províncias do Oriente, incluindo a Palestina, que ordenou sua prisão. Como não abjurasse de suas crenças, Jorge foi levado ao “potro”, instrumento de tortura romano, espécie de armação de madeira que tinha esse nome por lembrar a forma de um cavalo.

A tortura incluía o dilaceramento de seus braços com forcados de ferro, queimaduras com tochas, aplicação de sal nas feridas e nas estranhas, que teimavam em sair. Mesmo em estado lamentável, à noite, uma luz inefável o envolveu e ele ouviu doces palavras de consolo que fortaleceram ainda mais o seu espírito. Daciano, não conseguindo dobrá-lo com torturas, recorreu a um poderoso mágico, que assegurou que o faria renunciar à sua crença e, se não o conseguisse, que o governador lhe cortasse a cabeça. Por duas vezes, o mágico obrigou o santo a sorver uma taça de vinho com um veneno poderoso. Protegido por Deus, antes de sorver o líquido, o santo fazia o sinal-da-cruz, resultando nulo o seu efeito. O mágico implorou, então, para que Jorge o batizasse e, em seguida, foi decapitado.
As torturas continuaram: Jorge foi levado a uma roda composta por espadas de dois gumes, mas esta quebrou-se tão logo entrou em contato com seu corpo. O juiz mandou que o jogassem num caldeirão cheio de chumbo derretido, mas Jorge saiu dele ileso, como quem sai de um reconfortante banho. Daciano então o exortou docemente a renegar o seu credo e sacrificar aos seus deuses, com o que Jorge fingiu concordar. A “conversão” de Jorge foi motivo de um pregão que reuniu quase toda a cidade de Diáspolis. No templo pagão, o santo ajoelhou-se e pediu a Deus que o ajudasse e, no mesmo instante, choveu fogo do céu, reduzindo o templo e todos que o ocupavam, com exceção do paladino, a cinzas.
Irado, Daciano chama Jorge à sua presença, acusando-o de feitiçaria, e queixa-se à sua mulher, Alexandrina. Esta repreende o marido com severidade, advertindo-o sobre o castigo que adviria de sua maldade. A mesma Alexandrina, depois de pedir que Jorge a fizesse cristã, foi barbaramente castigada pelo marido, que mandou que a pendurassem pelos cabelos e a surrassem. Jorge assegura à mulher que o sangue do martírio equivale à água do batismo e Alexandrina, rainha dos persas, depois de render a alma, foi recebida no Céu.

Jorge foi então arrastado por toda a cidade e teve a cabeça cortada. No retorno para o palácio, o cruel Daciano e todos os seus soldados morreram consumidos por um fogo vindo do Céu.

Seu martírio, segundo Jacopo de Varaze, se deu no ano do Senhor de 237. Tornou-se, séculos depois, padroeiro dos cruzados da Inglaterra e da França, e, pelo processo natural de convergência, outras lendas foram acrescentadas à sua hagiografia.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Curso on-line sobre contos de fadas


O desaparecimento gradual de contadores de histórias tradicionais face ao progresso, entendido como a superação do “velho” pelo “novo”, é motivo de debates e tema de muitas pesquisas, e é um dado preocupante por significar o fim de uma correia de transmissão que remete não somente à nossa infância, mas à infância da própria humanidade. O trabalho de antropólogos, folcloristas, etnógrafos e estudiosos das tradições populares possibilitou reunir em livros muitas histórias, de assombrosa ancianidade, algumas tornadas clássicas graças às versões canônicas de Perrault, Irmãos Grimm e Andersen. Jakob e Wilhelm Grimm, filólogos alemães, escritores antes de tudo, mas também investigadores e intérpretes do que imaginavam ser a alma “popular”, deflagraram um movimento, ainda no século XIX, motivando muitos estudiosos de outros países a buscarem nas velhas lendas, baladas e contos a razão de ser de existir de povos e, claro, das nações que se consolidavam. Embora a motivação inicial para a recolha, catalogação e estudo das tradições populares residissem nessa busca pela grande epopeia coletiva, o canto guerreiro e lírico de um povo, estudos posteriores passaram a ressaltar se não a sua universalidade, ao menos a grande difusão de muitas das histórias que alguns países adotaram como seu legado cultural. Chapeuzinho VermelhoA Bela AdormecidaCinderela e tantos outros contos “infantis” estão espalhados por todos os quadrantes, e, sendo impossível apontar com segurança a sua origem, temos de nos contentar em conhecer as áreas em que foram registradas versões e variantes ou mesmo motivos e episódios de tais narrativas. Certo é que a ampla difusão de tais histórias mostra o quanto elas dizem de nossa própria busca espiritual, de nossos medos e esperanças, do que rejeitamos e tememos, mas, principalmente, do que fomos, somos e queremos ser.

Encontro 1 – 7/5: As faces da deusa: uma investigação sobre as personagens femininas do conto da Gata Borralheira.
Encontro 2 – 14/5: Chapeuzinho Vermelho: do mito solar à desfiguração.
Encontro 3 – 21/5: A Bela Adormecida: a jornada da alma em busca de si mesma.
Encontro 4 – 28/5: Os Heróis e por que (não) precisamos deles.

SUGESTÕES DE LEITURA
ALCOFORADO, Doralice. Belas e feras baianas. Salvador: SECULT, 2008.
AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Hucitec, 1976. ARAUJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 1989.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004.
COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.
COSTA, Edil Silva. Cinderela: nos entrelaces da tradição. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia, Fundação Cultural do Estado, 1998.
FRANZ, Marie-Louise von. A sombra e o mal nos contos de fadas. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. São Paulo: Paulinas, 1985.
GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
GUIMARÃES, Ruth. Calidoscópio: a saga de Pedro Malazartes. São José dos Campos: JAC Editora, 2006.
GIMBUTAS, Marija. The Language of the Goddesses. San Francisco (EUA): Harper & Row, Publishers, 1995.
HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.
_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.
_____________. O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.
_____________, Wilson Marques. Contos e Lendas da Terra do Sol. São Paulo: Paulus, 2019.
_____________. Vozes da tradição. Colaboração: Lucélia Borges. Fortaleza: IMEPH, 2018.
KIRK, G. S. The nature of greek myths. EUA: Penguin Books, 1985.
MEREGE, Ana Lúcia. Os contos de fada – origem, história e permanência no mundo moderno. São Paulo: Claridade, 2010.
NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.
PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Teresa (Três volumes). Brasília: Thesaurus, 1995.
PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.

Quem é o professor

marcohaurelio

Marco Haurélio, escritor, professor e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha. Finalista do Prêmio Jabuti, suas obras receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileirosA lenda do Saci-PererêMeus romances de cordelLá detrás daquela serraO encontro da cidade criança com o sertão meninoTristão e Isolda em CordelA jornada heroica de Maria Contos e fábulas do Brasil. Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços os mais diversos.

Quando: 7, 14, 21 e 28/05 (sempre às quintas-feiras)
Horário: das 19h30 às 21h
Onde 
Online
As informações de acesso serão disponibilizadas por e-mail.
Público
Geral.
Turma
30 pessoas
Investimento
R$160,00
em até 4x sem juros ou
7% de desconto à vista pelo PagSeguro.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Joias da tradição oral de Moçambique



Boas novas! Foi lançado, pela Editora de Cultura, o livro Ithale: fábulas de Moçambique, de Artinésio Widnesse, ilustrado com xilogravuras de Lucélia Borges e com projeto gráfico de Camila Teresa. Artinésio, que morou no Brasil e possui um doutorado pela USP, em visita à nossa casa, pouco antes de seu retorno a Moçambique, sua terra natal, contou-nos algumas histórias ouvidas ainda na infância. Quando perguntamos se ele já havia pensado em enfeixá-las num livro, respondeu modestamente que não, e que jamais imaginou que alguém se interessaria em lê-las, já que ainda é muito comum em seu país e entre o seu povo, Lomwe, o hábito de contar e difundir oralmente tais histórias. Agora poderemos conhecer algumas delas, que, em versões e variantes, correm nas águas de nossa tradição.

Assino, com muito orgulho, a apresentação deste livro que, ainda que voltado ao público infantojuvenil, deverá interessar aos estudiosos dos contos de tradição oral, haja vista suas histórias serem todas recolhidas diretamente da fonte da memória.
Xilogravura de Lucélia Borges para o conto
"A princesa que não falava com ninguém".

AS FÁBULAS DE MOÇAMBIQUE

Ithale (Ethale no singular) significa fábulas em Elomwe, língua falada pelo povo Lomwe, da região central de Moçambique1. Ela integra o grande ramo Banto, de comprovada contribuição à cultura brasileira. Contribuição ainda viva nas narrativas orais, principalmente aquelas protagonizadas pelo Coelho, animal esperto, inimigo da feroz Onça e de outros bichos de grande porte. Amigo ou compadre Coelho no Brasil, Tío Conejo na América espanhola, Brer Rabbit nas Bahamas e no sul dos Estados Unidos, ele enfrenta e derrota, quase sempre, os animais grandes, ferozes e estúpidos.

Artinésio Widnesse, professor e contador de histórias, costumava escutar de sua mãe, Suzana Nicasso, sempre à noite e em volta da fogueira, diversos contos tradicionais em que o pequeno e esperto Coelho sobrepujava a Hiena e o Leão, mas, às vezes, também se dava mal. Afinal, quando a esperteza é muita, costuma engolir o esperto...


Xilogravura de Lucélia Borges para o conto "O coelho esperto".
O Coelho protagoniza sete dos dez contos aqui reunidos, todos eles recolhidos da tradição oral Lomwe. O primeiro, O coelho esperto, é uma variante curiosa do conto O boneco de breu (ou Tar-baby), difundido em várias partes da África e também na Índia, país no qual, segundo o folclorista Aurélio M. Espinosa, a história teve origem. Aliás, convém lembrar que houve muitos indianos trabalhando na África do Sul no século 19 – incluindo o grande pacifista Mahatma Gandhi. Para não falar do vaivém dos portugueses pela costa da África a caminho da Índia nos séculos 15 e 16... No Brasil, o grosso das versões registradas traz o macaco como animal esperto e guloso, que cai na armadilha do boneco de cera criado por uma velha.

Registrei A onça, o coelho e o jacaré no livro Contos e fábulas do Brasil (2011). Uma história interessantíssima é A princesa que não falava com ninguém, que aparece em Portugal, no Brasil e em praticamente toda a Europa, mas sempre com personagens humanos. Na versão registrada por Artinésio, além de encontrar os tradicionais adversários, Girafa, Javali, Búfalo e Hiena, acompanhamos as traquinagens do Coelho, cujo desafio é fazer falar uma princesa, filha do Leão, que jamais havia pronunciado uma única palavra em toda sua vida.
Lemos também, nesta bela coletânea, uma versão local da fábula do grego Esopo, A raposa e a cegonha, protagonizada por dois animais finórios: O Macaco e o Cágado. Assim como no clássico grego, de 600 antes de Cristo (a.C.), um animal convida o outro para comer em sua casa, mas cria tal embaraço que o visitante retorna para casa de barriga vazia. A vingança, claro, não tardará.
Outro conto de natureza exemplar é O Macaco avarento, que, em seu motivo principal – a cobrança absolutamente injusta e desproporcional de uma dívida –, ocorre na tradição oral de vários países, envolvendo também protagonistas humanos e com pano de fundo religioso. O Macaco, que rivaliza com o Coelho em matéria de esperteza, é o herói de nossa última história, um belo conto de esperteza em que o Tubarão é o grande antagonista. Uma versão antiquíssima, El Mono y la Tortuga (O macaco e a tartaruga), figura no Calila e Dimna, coleção de fábulas exemplares da Índia conhecidas no Ocidente a partir de uma tradução persa no século VI depois de Cristo (d.C.), ampliada em versões árabes e traduzida para o castelhano em 1251.

Ithale são, portanto, contos de coloração local, mas que dialogam com a tradição clássica do Oriente e do Ocidente. Afinal, Moçambique, por muito tempo uma possessão portuguesa, soube preservar suas mais caras tradições, adaptando as contribuições estrangeiras, sem perder a essência identitária dos muitos povos que formam o país. É uma parte dessa rica tradição, que nos parece tão familiar, que Artinésio Widnesse nos apresenta neste pequeno relicário.
Marco Haurélio
Autor de O cavaleiro de prata e
Breve história da literatura de cordel




ARTINÉSIO WIDNESSE SAGUATE nasceu em 1982 na Província central da Zambézia, Distrito de Namarrói, em Moçambique. Parte de sua infância foi vivida em meio à guerra civil que fustigava seu país. Cresceu ouvindo histórias de animais contadas por sua mãe e pelos seus irmãos mais velhos, mas também pelo seu avô paterno. Em 1988, refugiou-se, junto com sua família, no Malawi, país vizinho ao seu. Aos 8 anos de idade, teve o primeiro contato com o alfabeto em uma das escolas primárias locais. Os textos lidos na escola enriqueceram ainda mais a educação tradicional por ele recebida de sua família. Em 1993, retornou a Moçambique, onde continuou seus estudos. Apaixonou-se pela linguística e, também, pela literatura, tendo se formado em Ensino de Português, em 2008, na Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da Universidade Pedagógica de Moçambique (UP), Delegação de Nampula.

Na faculdade, começou uma afinidade com o Brasil, por meio de leitura de textos de autores brasileiros, como José de Alencar e Machado de Assis. Essa afinidade se consolidou em 2010, quando veio ao país cursar o mestrado. Em 2012, voltou a Moçambique, onde atuou como professor universitário. Em meados de 2013, foi agraciado com mais uma bolsa de estudos e optou, de novo, pelo Brasil. Em 2017, tornou-se doutor em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP).

Sua tese de doutorado abordou o ensino bilíngue no curso fundamental em Moçambique. E foi na esteira desse espírito de concepção de material para o ensino que nasceu a ideia de registrar a cultura tradicional de seu povo. O livro que ora se publica no Brasil constitui sua estreia e faz parte de um projeto amplo de coleta e publicação de histórias de diferentes áreas de Moçambique, sobretudo as regiões rurais, com destino ao público infantojuvenil. As histórias aqui apresentadas são transcrições de histórias contadas por sua mãe e parentes.


FICHA TÉCNICA:
Título: ITHALE fábulas de Moçambique
Autor: Artinésio Widnesse
Ilustrações: Lucélia Borges
ISBN: 978-85-293-0213-3
Formato fechado: 16 x 23 cms
Nº de páginas: 48
Profundidade: 0,4 cm
Peso: 0,112 kg
Assunto principal: Contos
Assunto secundário: Literatura infantojuvenil moçambicana
Preço de capa: R$ 46,00