sexta-feira, 19 de junho de 2020

40 ANOS DO NÚCLEO DE CORDEL DA BAHIA



Edilene Matos (ao centro), idealizadora do Núcleo de Pesquisa e Cultura
da Literatura de Cordel da Bahia.

 Por Edilene Matos
em seu perfil no Facebook. 

É com muita tristeza que lembro aqui os 40 anos de implantação do Núcleo de Pesquisa e Cultura da Literatura de Cordel da Fundação Cultural do Estado da Bahia e que foi totalmente transfigurado. Antes de contar um pouco a história desse importante centro de memória, faço um apelo para um movimento em torno de uma reabertura plena e digna desse acervo.

Em 1979, apresentei ao então Conselho Deliberativo da Fundação Cultural da Bahia um projeto para a criação do Núcleo de Pesquisa e Cultura da Literatura de Cordel, com o objetivo de atender à necessidade, que me parecia justa e urgente, de testemunhar e documentar esse riquíssimo patrimônio da cultura do povo, ainda desconhecido ou insuficientemente valorizado pelos estudiosos da dita literatura culta ou letrada. A transmissão oral, o domínio poético do encantamento e do fantástico, a transfiguração do real através da simbologia, o recurso recorrente ao tema da metamorfose, a capacidade de interpretar e expressar os desejos e os valores de certos grupos sociais ignorados pela elite intelectual, são alguns dos elementos que denotam as especificidades da literatura popular, também chamada literatura de cordel ou de folhetos. Em 1980, o referido Projeto foi aprovado, relatado em sessão por Carlos Vasconcelos Domingues e fui designada, pelo presidente da Casa, Geraldo Machado (a quem sou eternamente grata pelo empenho e o profundo respeito), para ser a primeira coordenadora do recém-criado Núcleo. Passei a visitar alguns centros de excelência no assunto, como o da Fundação Casa de Rui Barbosa (Rio de Janeiro), o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o NUPPO da Universidade Federal da Paraíba e a Fundação Joaquim Nabuco (Recife). Passei a frequentar feiras e mercados desse Brasil afora para a aquisição do acervo.

O Núcleo de Cordel da Bahia passou a contar com razoável acervo de folhetos populares todo ele fichado e acondicionado em caixas especiais, assim como uma considerável bibliografia de apoio – livros, teses, revistas, jornais, artigos diversos -, além de uma discografia, de arquivos com fotos e documentos diversos sobre a matéria.

Era um espaço vivo, onde transitavam poetas de cordel, violeiros, repentistas, intelectuais, pesquisadores brasileiros, americanos e europeus, estudantes, público em geral. Tinha uma programação sistemática, que se estendia para ações de extensão, a exemplo da criação da Banca dos Trovadores e Violeiros na parte externa do Mercado Modelo.

Hoje, desalojado de seu espaço, a memória da literatura de cordel na Bahia sobrevive graças ao persistente e dedicado empenho da bibliotecária Ana Lúcia Reis Fonseca, embora conservado em local precário e inapropriado para a relevância dessas obras singularmente expressivas de nossa cultura). Felizmente, há um catálogo, editado em 2006, com 246 páginas, pela mesma Fundação Cultural, trabalho feito amorosamente por Ana Lúcia Reis Fonseca, amiga querida, na gestão de Armindo Bião, também envolvido com a literatura de cordel.

Desde sua inauguração oficial (19 de junho de 1980), o Núcleo de Cordel destacou-se no cenário da cultura baiana pelo original e promissor projeto que apresentava, destacando-se, entre as ações, o projeto da Banca dos Trovadores e Repentistas, envolvendo a criação de um espaço onde poetas e cantadores /repentistas passariam a ter um local específico para o desenvolvimento de suas atividades artísticas, sobretudo as atuações performáticas.

Esse espaço chamou muita atenção e tanto o povo quanto os intelectuais sensíveis à criação popular passavam por lá e se deliciavam com os versos improvisados. Lembro-me, por exemplo, de Rodolfo Cavalcante Bule- Bule, Zé Pedreira, Papada, Valeriano, Minelvino, Jorge Amado, Queiroz, José Calasans, Hildegardes Vianna, Zélia Gattai, Orígenes Lessa, Dias Gomes, Mário Vargas Llosa, Lêdo Ivo, Zumthor, Gilbert Durand, Sylvie Raynal, etc.

O cordel é um movimento artístico interdisciplinar por excelência, pois que o folheto integra em si diversas linguagens: temas e esquemas narrativos; canto, sonoridade e ritmos; artes plásticas, pois envolve desenhos, silhuetas e xilogravuras, além de variadas performances.



Edilene Dias Matos concluiu o doutorado em Comunicação e Semiótica/Literaturas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1999. Tem Pós-Doutorado em Literatura/Cultura Brasileira pela USP – Instituto de Estudos Brasileiros (2000-2002). Tem Pós-Doutorado (2012- 2013) pela Université Paris-Ouest Nanterre La Défense (França). Foi professora da Universidade Católica de Salvador. Foi Professora Doutora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo nos cursos de Graduação e Pós-Graduação (2003 a 2009). Foi diretora do Departamento de Literatura da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Atualmente é Professora Adjunta da Universidade Federal da Bahia. Foi docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É Docente permanente do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado e Doutorado) e é a atual Coordenadora do referido Programa. Publicou vários artigos em periódicos especializados, além de mais de uma dezena de capítulos de livros e livros, em várias edições. Tem participado de vários eventos no Brasil e no exterior. Tem oferecido disciplinas na Université Paris-Ouest Nanterre La Défense. Atua na área de Semiótica da Cultura, tendo por base a área de Letras e Artes, com ênfase em Cultura Brasileira, Literatura Brasileira, Poéticas da Voz, Interfaces da literatura com outras artes. Em suas atividades profissionais interage com diversos colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. Em seu currículo Lattes, os termos mais freqüentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural são: Literatura Brasileira, Poéticas da Voz, teatralidade das poéticas orais. Interfaces da literatura com outras manifestações artístico-culturais, Interdisciplinaridade, Fundos Villa-Lobos, cordel, crítica, ficção e intertextualidade, culturas e artes. Foi eleita para a Academia de Letras da Bahia. (Informações disponíveis da página do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Curso on-line sobre o conto de fadas na Casa Tombada




Sobre o curso

Contar histórias vai além do mero entretenimento. Uma das mais antigas expressões culturais da humanidade, a arte de contar histórias aproxima pessoas e cria laços afetivos que dificilmente serão rompidos com o tempo. Os velhos contos populares, sementes da tradição, nascidos não se sabe onde, trazidos não se sabe por quem, vivem na memória coletiva nas vozes dos narradores-guardiães. Marco Haurélio, valendo-se de sua experiência como coletor e divulgador de centenas de contos e lendas brasileiras, além de respeitado cordelista, nos convida a viajar pelo universo mágico da tradição em sua familiar universalidade.


      Roteiro do curso

Primeiro encontro (09/07): Belas e feras: o vasto e longevo ciclo do noivo animal
Segundo encontro (16/07): Zeus, Jesus e Odin: os deuses caminham entre nós
Terceiro encontro (23/07):  Heróis tortos ou anti-heróis: de Ulisses a Pedro Malasartes
Quarto encontro (30/07): Eita diabo! O medo e o mal nos contos pulares.



SUGESTÕES DE LEITURA

ALCOFORADO, Doralice. Belas e feras baianas. Salvador: SECULT, 2008.
AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Hucitec, 1976. ARAUJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 3ª ed. São Paulo: Martins  Fontes, 2007.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
CALVINO, Ítalo. Fábulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 1989.
CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as versões análogas dos países lusófonos). CEAO da Universidade do Algarve / Edições Afrontamento: Portugal, 2015.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo:  Global, 2004.
COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.
FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.
FRANZ, Marie-Louise von. A sombra e o mal nos contos de fadas. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. São Paulo: Paulinas, 1985.
FROBENIUS, Leo; FOX, Douglas C. A gênese africana. Tradução de Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Landy, 2005.
GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
GUIMARÃES, Ruth. Calidoscópio: a saga de Pedro Malasartes. São José dos Campos: JAC Editora, 2006.
_____________. Os filhos do medo. Porto Alegre: Globo, 1950.
HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.
_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.
_____________. O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.
_____________, Wilson Marques. Contos e Lendas da Terra do Sol. São Paulo: Paulus, 2019.
_____________. Vozes da tradição. Colaboração: Lucélia Borges. Fortaleza: IMEPH, 2018.
KIRK, G. S. The nature of greek myths. EUA: Penguin Books, 1985.
LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot. Um Panorama da Mitologia Europeia.Readução de Vera Ribeiro. São Paulo: Zahar, 2004.
MEREGE, Ana Lúcia. Os contos de fada – origem, história e permanência no mundo moderno. São Paulo: Claridade, 2010.
NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.
PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Teresa (Três volumes). Brasília: Thesaurus, 1995.
PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.
XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas pias populares. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros – USP, 1967.



Quem é o professor

Marco Haurélio, escritor, professor e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Também Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha. Finalista do Prêmio Jabuti, suas obras receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileiros, A lenda do Saci-Pererê, Meus romances de cordel, Lá detrás daquela serra, O encontro da cidade criança com o sertão menino, Tristão e Isolda em Cordel, A jornada heroica de Maria e Contos e fábulas do Brasil. Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços os mais diversos.
]
Onde 
Online
As informações de acesso serão disponibilizadas por e-mail.

Público
Geral.
Turma
40 pessoas

Investimento
R$160,00
em até 4x sem juros ou
7% de desconto à vista pelo PagSeguro.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

O Cordel se despede de Piúdo, mas Piúdo está vivo em sua arte




Para homenagear Luís Eduardo Serra Azul Filho, o Piúdo, poeta cordelista, compositor e cordelista, que nos deixou no último sábado, 6 de junho, os poetas Rouxinol do Rinaré, Evaristo Geraldo e Godofrêdo Solón, escreveram, em parceria, um belo cordel que contou com capa de Klévisson Viana. Piúdo nasceu em Fortaleza (CE) no dia 30 de julho de 1967. Coincidentemente, tinha a mesma idade de Arievaldo Viana, outro grande cordelista que também nos deixou recentemente. 

Nosso adeus em poesia
Ao Serra Azul, o Piúdo!

Autores: Evaristo Geraldo, Godofredo
e Rouxinol do Rinaré

A morte em 2020
Traz na foice um corte agudo:
Fim de maio leva Ari,
Um cordelista graúdo,
E agora início de junho
Levou o nosso Piúdo!

O Serra Azul, ou Piúdo,
Era grande, um multiartista:
Poeta, compositor,
Um talentoso humorista,
Também deixou sua marca
Como escritor cordelista.

O Serra Azul foi embora
Nesse momento de dor...
A Terra está cor de cinza,
Mas o céu ganha mais cor,
Pois Piúdo vai levando
Poesia e muito humor!

A morte veio sisuda,
Sorrateira e preparada.
Piúdo estava dormindo,
Ela o chamou: — Camarada,
Vamos comigo pro céu
Fazer um show de piada!

"A COVID tem matado
Indiscriminadamente
E no céu está faltando
Quem alegre tanta gente.
Estou aqui pra levá-lo
Por ordem do Onipotente."

Piúdo disse: — Senhora,
Procure vates decanos.
Eu ainda sou tão jovem.
Só fiz cinquenta e dois anos!
— Sem "queixo"! – retruca a morte –,
Pois Deus não comete enganos.

“Você já cumpriu na Terra
O seu papel de poeta.
Tem vários cordéis escritos,
Está na lista seleta.
Agora irás para o céu
Cumprir uma nova meta.

Não queira me ‘desdobrar’,
Entre logo no transporte.
Conheço bem sua fama,
Seu inteligente porte...
Compro ordens do Altíssimo
E ninguém foge da morte!”

Piúdo disse: — Está certo!
Deus chamou, vamos embora.
Se é para fazer show,
Não posso passar da hora.
E lá irei encontrar
A plateia que me adora.

Vamos abrir um parêntese
Pra falar da trajetória
Desse singular artista,
De uma cultura notória
E saber como se deu
O início de sua história.

Nosso Luís Eduardo
Serra Azul Filho, o Piúdo,
Descende de grandes vates,
Seu sobrenome diz tudo,
Não é à toa que tinha
Métrica, rima e conteúdo!

O fim dos anos noventa
Abre A PORTA CULTURAL
DOS ALETÓFILOS, com ela
Nasce o homônimo jornal
Com inspiração na famosa
Padaria Espiritual.

Rouxinol, Francisco e Magnos
Dão início ao movimento.
Paiva Neves aderiu
Ao grupo, em dado momento,
E Serra Azul, o Piúdo,
Completou com seu talento.

Com prosa e com poesia
Mostravam seus ideais
De resgatar a cultura,
A história e muito mais,
Tendo heróis iguais Rodolfo
Como figuras centrais.

Nosso Rodolfo Teófilo,
Essa personagem rara,
Firme, o grupo de A PORTA
A sua memória ampara
Nesse movimento histórico
Junto ao povo em Pajuçara!

O jornal foi bem efêmero,
Só teve quatro edições...
Com o tempo os artistas tomam
Diferentes direções,
Mas A PORTA abriu a todos
Muitas realizações.

Francisco hoje é filósofo,
Rouxinol é escritor,
Paiva é poeta e docente,
Magnos tornou-se editor,
Piúdo publicou livros,
E gravou CDs de humor.

Piúdo escreveu cordéis
Com boa trama e enredo.
Tem muitas obras inéditas...
A vida é mesmo um segredo,
Porque ninguém esperava
Que ele partisse tão cedo!

No mundo do cordelismo
Já na primeira "incursão"
Escreveu com Rouxinol,
Com humor em profusão,
O cordel O GRANDE ENCONTRO
DE CAMÕES COM SALOMÃO.

Tomou fôlego, publicou
Cordéis, livros de poesias,
Foi premiado em concursos,
Se insere em antologias,
Fortaleceu nossas letras
Com diversas parcerias.

Pela Editora IMEPH
Também fez publicação
E Nas Ondas da Leitura
Seus textos navegam, então,
Chegando às salas de aula,
Brilhando na educação!

Alegrou rodas de amigos
Nos tempos da SOPOEMA...
Tinha um grande repertório
De piada, em qualquer tema.
Foi um humorista nato,
Um cearense da gema!

Pras festas de aniversário
O Piúdo era chamado.
Lá chegando ele deixava
O lugar bem animado,
Pois, até mesmo em silêncio,
O Piúdo era engraçado.

Recordaremos Piúdo
Sempre com muita alegria,
Nos movimentos de humor,
Pois, onde quer que ele ia,
Arrancava gargalhadas
Com as piadas que fazia.

Junto a Klévisson Viana
E de Ari seu irmão,
Rouxinol do Rinaré,
E Marcos Aurélio, então,
Piúdo e suas piadas
Foi sempre grande atração.

Serra Azul, com Evaristo
E Stélio, em muitas, viagens,
Contava alegre seus causos,
Às vezes, de sacanagens,
E diversas "pegadinhas",
Incomparável em “trolagens”.

Ao lado de seus parceiros
Costa Senna, Godofrêdo,
Paiva Neves, Julie Ane,
Revelava um novo enredo
Ou belas composições,
Nunca as deixava em segredo.

Lembramos já com saudades
Das suas declamações,
Dos encontros literários,
Das nossas reuniões
Em diversas editoras
Pra fechar contratações.

Na histórica SOPOEMA
Deixou seu nome gravado.
Com o fardão da AML*
Ficou imortalizado.
E até mesmo em Portugal
Seu trabalho é premiado.

Os filhos Igor e Yuri
São sementes que deixou,
O riso em nossas lembranças
Das piadas que contou
E um legado cultural
Nas obras que publicou.

Nós somos a somatória
De tudo que nos rodeia.
E quando um vate se encanta,
Volta ao pó, torna-se areia,
O mundo fica mais triste,
No céu um astro passeia.

Na Terra a vida é estágio
Na escola da Providência.
A morte ceifou seu corpo,
Mas não matou sua essência...
Piúdo subiu ao Pai,
O Deus de toda existência.

Fechando os olhos da carne,
N’outra vida despertou.
A saudosa Conceição
Lhe esperando avistou
E, assim, seguiu abraçado
À mulher que tanto amou!

Fim
___
*Academia Maracanauense de Letras



sexta-feira, 5 de junho de 2020

Arievaldo chega ao céu e encontra Leandro, Ariano e Patativa em cordel de Klévisson Viana


O encantamento de Arievaldo Viana
e sua chegada no Céu

Capa: Jô Oliveira, grande parceiro de Arievaldo Viana

Que a Divina Providência
Inspire esses versos meus,
Traga a verdade e a doçura
De Jesus, Rei dos Judeus
E o sopro incontestável
Da influência de Deus.

Arievaldo Vianna
Foi poeta brasileiro,
Cordelista de renome,
Bom irmão, bom companheiro;
Tudo que fez tinha o brilho
De um talento verdadeiro.

Aqui no plano terrestre
Só semeou a bondade,
Ajudou o semelhante,
Nunca perdeu a humildade,
Foi um artista dotado
De grande simplicidade.

Tinha verve de humorista
A qualquer hora do dia
E, quando contava um causo,
Botava encanto e magia
E, por onde ele passava,
Brotava um pé de alegria.

Encantador de plateia,
Com voz bonita e possante,
Culto, suave e profundo,
Com sua prosa instigante,
Da cultura popular
Era devoto e amante.

Viveu 52 anos,
Porém produziu por dez
Artistas mais dedicados.
Cumpriu bem os seus papéis
E teve destaque como
Um dos grandes menestréis.

Deixou mais de 30 livros,
Folhetos bem mais de 100.
Com imensa facilidade,
Escrevia muito bem
E, em matéria de humor,
Não tinha para ninguém!

‘O Baú da Gaiatice’
Foi o seu livro de estreia,
Sua prosa e o seu verso
Tinha o dulçor da colmeia
Do mel silvestre extraído
Pra o deleite da plateia.

Escreveu pra São Francisco
Um livro bem pesquisado
Com tudo que era folheto
Sobre o tema registrado.
Com paciência, anotou
Depois deixou publicado.

Com o “Acorda Cordel”
Alçou voos nacionais
E teve oportunidade
De produzir muito mais
Junto com Jô Oliveira,
Artista muito capaz!!!

E, para Leandro Gomes
De Barros, fez com valia
Um livro muito importante
Contendo a biografia
Do mestre lá de Pombal
Que foi rei da poesia.

Vários livros publicados
De sua verve tão fina...
Fez “Sertão em Desencanto”,
“No Tempo da Lamparina”.
Cada obra que escrevia
Era única, genuína.

Na família era estimado
Por pais, irmãos e por filhos.
Pra ajudar quem precisava
Nunca botava empecilhos,
Pois seu vagão de bondade
Nunca saía dos trilhos

Deixou centenas de amigos
Que choram sua partida
Prematura, na verdade,
Sem direito a despedida.
Todos lembram de Ari
Nos bons momentos da vida.

Dizem que os bons morrem cedo,
Ari cumpriu a missão!
E o bom Deus o levou
Pra residir na Mansão
Celeste onde a poesia
É linda igual oração.

Marcos Aurélio chorou,
Autemar tá descontente,
Chora Itamar e Vandinha
Sua presença inda sente,
E Klévisson Viana luta
Pra tocar o barco em frente.

Sua mãe, dona Hatiane,
Seu paizinho Evaldo Lima
Rezam para o filho amado
Por quem nutrem grande estima.
Ari fez da vida um verso
Com oração, métrica e rima.

O seu filho Daniel,
Sua filha Mariana,
O Yuri e o João Miguel
E a esposa Juliana
Lamentam a partida súbita
De Arievaldo Vianna.

Contudo, o bom Deus achou
Por bem chamar o poeta,
Pois viu que sua jornada
Já estaria completa.
Como Deus tinha outros planos
Traçou pra ele outra meta.

Quando o corpo de Ari
Sucumbiu à bactéria
E o espírito do poeta
Se desprendeu da matéria,
Os anjos levaram Ari
Dessa terra deletéria.

Chegou no Céu Arizinho
Com uma mala de cordel.
No portão logo avistou
Alzirinha e Seu Manoel,
Os seus avós estimados
Que abraçaram o menestrel.

E Ari, não mais sentindo
Dores, fraqueza e cansaço,
Vendo seus avós queridos,
Os envolveu num abraço
E confirmou que a família
É incontestável laço.

Após descansar um pouco,
São Pedro, bem sorridente,
Cumprimentou o poeta,
Que já estava contente,
E não sentiu mais tristeza
Daquele instante pra frente.

Num belo jardim que havia
Perto da Santa Mansão
Estava Alberto Porfírio
Improvisando em quadrão
E junto a ele encontrou
João Firmino e Azulão.

João disse a Arievaldo:
— Que bom lhe ver por aqui!
Se achegue, ande pra cá
E venha olhar de per si
A festa que hoje faremos
Pra lhe receber, Ari.

E chegou Ribamar Lopes
Escrevendo num caderno.
Quando viu que era Ari,
Deu-lhe um abraço fraterno
E disse: — Ari, lhe esperava
Na morada do Eterno!

Ariano Suassuna
Cumprimentou o poeta,
Chegou Gonzaga Vieira
Andando de bicicleta
E logo foi se formando
Uma plateia seleta.

Chegou ali Santo Antônio
(Seu santo de devoção)
Ao lado de São Francisco,
Veio apertar sua mão.
Ari segurou as lágrimas
De alegria e emoção.

A Santa Virgem Maria
Lhe mandou carta lacrada.
Quando Ari abriu e leu,
Disse a Santa Imaculada:
“Fique calmo, sua mãezinha
Por mim será confortada.

A seu pai, Evaldo Lima,
Já mandei uma mensagem.
Ele é maduro e entende
Que a vida é uma passagem
E as riquezas terrenas
Não passam de uma miragem”.

João Firmino se achegou,
Perguntou: — Arievaldo,
Como vai Klévisson Viana,
Meu amigo de respaldo,
Rouxinol do Rinaré
E Evaristo Geraldo?

Ari disse: — Eles estão
Com medo da pandemia,
Mas, mesmo em tempos difíceis,
Nunca perdem a alegria
E não abandonam o front
Em defesa da poesia.

Ari disse: — Também tem
O Pedro Paulo Paulino,
Marco Haurélio e Eduardo
Macedo, poeta fino!!!
E o nosso Jota Batista
Que é um cabra malino!

Depois chegou Valdir Teles
Com a viola afinada
Junto a João Paraibano,
Vate de mente afiada,
Cantaram pra Arievaldo
Uma bonita toada.

Chamaram então o poeta
Patativa do Assaré
E Paulo Nunes Batista,
Com inspiração e fé,
Deu vivas ao bom poeta
Que viveu em Canindé.

Ari olhou para um lado
Onde se avistavam uns jarros
Chegou uma comitiva
E estacionou uns carros
Trazendo o grande poeta
Leandro Gomes de Barros.

Leandro deu-lhe um abraço
Com efusiva alegria,
Lhe cobriu de elogios,
Recitou uma poesia
E agradeceu Ari
Por sua biografia.

Ari louvou a Leandro
(Aquele espírito de luz),
Quando o foi chamar de mestre
Disse Leandro: — Jesus,
Só ele é quem é o Mestre
Que morreu por nós na cruz!

Foi uma festa bonita
Que durou mais de um dia
O jardim celestial
Se encheu de alegria
E em toda parte nasceram
Muitas flores de poesia.

FIM

Nota: Escrito por Klévisson Viana, irmão e maior parceiro artístico de Arievaldo, o cordel O encantamento de Arievaldo Vianna e sua chegada no Céu será distribuído na missa de sétimo dia pela alma do saudoso poeta cearense, grande amigo de todos nós.