sábado, 5 de setembro de 2020

Selo Altamente recomendável para A Lenda do Teatro de Sombras

 


A comemoração é em dobro. Além  de A Jornada Heroica de Maria (Melhoramentos), o livro A Lenda do Teatro de Sombras (Paulinas) também recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na categoria Poesia. Com texto meu e preciosas ilustrações de Fernando Vilela, o livro conta a história do imperador chinês Wu-Ti e do mago Shao-Weng, que recebe a incumbência de trazer de volta do Reino da Sombras do soberano. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

'Jornada' altamente recomendável

 


O livro A Jornada Heroica de Maria, lançado pela Melhoramentos em 2019, recebeu mais uma importante distinção. Depois do selo Seleção Cátedra-Unesco, da PUC Rio, e de ser escolhido para compor o catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália, a Jornada, agora recebe o selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Inspirado em contos da tradição oral brasileira, escrito em sextilhas de cordel e ilustrado com xilogravuras, por Lucélia Borges, a obra segue os parâmetros clássicos da poesia popular do Nordeste brasileiro.




Meus versos viajam muito

Em busca de inspiração:

Vão até reinos distantes,

Depois voltam pro sertão,

Trazendo as flores colhidas

No Jardim da Tradição.

 

Na história que ora conto,

De amor eu quero falar.

Quem caminha nesta senda

Um dia irá encontrar

A essência verdadeira

Que brota do caminhar.

 

Quem a ler até o fim

Verá a perseverança

Fazer brotar a semente

No canteiro da esperança,

Pois o amor verdadeiro

É mais forte que a vingança.

 

Xilogravura de Lucélia Borges
Xilogravura de Lucélia Borges.

Maria, a protagonista, como entrevê-se pelo título, precisa fazer uma jornada em busca de seu amado, o Príncipe do Reino do Limo Verde, que está entre a vida e a morte. Terá de ir ao reino do Sol, da Lua e do Vento e ainda enfrentará uma monstruosa serpente para salvar o amado e a si mesma.

Nosso agradecimento à Editora Melhoramentos pela edição primorosa e pela ampla divulgação da obra, adotada em vários colégios. 

Para adquirir o livro, clique AQUI. 


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Curso on-line sobre o lado obscuro dos contos de fadas

 


Conto de Fadas: Retorno ao País da Infância - com Marco Haurélio - 3º módulo - Casa Tombada

Sobre o curso

Muitos contos populares ao redor do mundo trazem histórias tenebrosas mostrando a face perversa do ser humano, desencadeando um círculo vicioso que só se romperá com o despertar da consciência, que implica desobedecer a uma ordem expressa por parte da pessoa oprimida, uma mulher, nos contos-tipo Barba Azul. Por outro lado, há um vasto ciclo de narrativas em que o demônio propõe um pacto ao homem que o invoca, por vezes involuntariamente, nas quais a alma deve ser oferecida em troca de riquezas. Há, ainda, os contos em que a Morte figura como um aliado, ainda que temporário, de um homem com quem estabelece relações de compadrio. São incontáveis, também, os contos em que alguém, geralmente uma pessoa jovem, precisa superar o medo para realizar uma tarefa tida como impossível. Contos como “Os três fios de cabelo do Diabo” ilustram bem esse bloco de histórias. Já a história “O jovem que queria saber o que é ter medo” subverte o pressuposto do conto de herói ao apresentar um protagonista que sai pelo mundo em busca de uma necessidade básica, que não pode, jamais, ser confundida com a covardia. Parece satirizar certo ideário medieval, que forja o arquétipo do cavaleiro sem medo, que se opõe à população acovardada, à qual deve defender. O medo, afinal de contas, nasce de nossa atitude defensiva ante aquilo que tememos ou não compreendemos. Temos medo, pois sabemos que, um dia, todos morreremos.


Encontro 1 (16/09): A câmara do Barba-Azul;

Encontro 2 (30/9): O conto do jovem que desconhecia o medo;

Encontro 3 (14/10): O ciclo do demônio logrado no folclore e no cordel

Encontro 4 (28/10): Ó Morte, tu que és tão forte

Encontro 5 (11/11): Noivas sobrenaturais: Yuki-Ona, Melusina e a Mãe d’Água

Encontro 6 (25/11): Os filhos do medo, a obra-prima de Ruth Guimarães


SUGESTÕES DE LEITURA


ALCOFORADO, Doralice. Belas e feras baianas. Salvador: SECULT, 2008.

AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Hucitec, 1976. ARAUJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

CALVINO, Ítalo. Fábulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 1989.

CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as versões análogas dos países lusófonos). CEAO da Universidade do Algarve / Edições Afrontamento: Portugal, 2015.

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004.

COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.

FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.

FRANZ, Marie-Louise von. A sombra e o mal nos contos de fadas. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. São Paulo: Paulinas, 1985.

FROBENIUS, Leo; FOX, Douglas C. A gênese africana. Tradução de Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Landy, 2005.

GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.

GUIMARÃES, Ruth. Calidoscópio: a saga de Pedro Malasartes. São José dos Campos: JAC Editora, 2006.

_____________. Os filhos do medo. Porto Alegre: Globo, 1950.

HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.

_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.

_____________. O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.

_____________, Wilson Marques. Contos e Lendas da Terra do Sol. São Paulo: Paulus, 2019.

_____________. Vozes da tradição. Colaboração: Lucélia Borges. Fortaleza: IMEPH, 2018.

KIRK, G. S. The nature of greek myths. EUA: Penguin Books, 1985.

LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot. Um Panorama da Mitologia Europeia. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Zahar, 2004.

MEREGE, Ana Lúcia. Os contos de fada – origem, história e permanência no mundo moderno. São Paulo: Claridade, 2010.

NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.

PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Teresa (Três volumes). Brasília: Thesaurus, 1995.

PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.

XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas pias populares. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros – USP, 1967.


Quem é o professor

marcohaurelio

Marco Haurélio, escritor, professor e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha. Finalista do Prêmio Jabuti, suas obras receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileirosA lenda do Saci-PererêMeus romances de cordelLá detrás daquela serraO encontro da cidade criança com o sertão meninoTristão e Isolda em CordelA jornada heroica de Maria Contos e fábulas do Brasil. Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços os mais diversos.


Quando

Dias 16 e 30/09; 14 e 28/10; 11 e 25/11
Horário: das 19h às 21h

Todos os encontros são gravados, portanto é possível fazer a inscrição após o início do curso e ter acesso ao conteúdo anterior

Onde 

Online
As informações de acesso serão disponibilizadas por e-mail.

Público

Geral.

Turma

40 pessoas

Investimento

R$ 240,00
(10% de desconto para alunos dos módulos anteriores)
em até 4x sem juros ou
7% de desconto à vista pelo PagSeguro.

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Cordel e xilogravura: tesouros da cultura brasileira


 Sexta, 15h00, temos um encontro marcado! Participarei, com a companheira Lucélia Borges (@luborges_xilo), da feira do Livro de São Sebastião (FLISS), edição 2020, numa conversa mediada por Tereza Oliveira. Na pauta, o casamento do cordel com a xilogravura, dois tesouros da cultura brasileira.

Acesso: https://www.sympla.com.br/eventos?s=mpumalanga

Instituto Mpumalanga

terça-feira, 18 de agosto de 2020

FOLCLORE, A CIÊNCIA DA PSICOLOGIA COLETIVA

 

Luís da Câmara Cascudo, nosso mais importante folclorista






O que vem a ser mesmo o Folclore, esta “cultura do popular tornada normativa pela tradição”, segundo mestre Luís da Câmara Cascudo? Quem são os garimpeiros que foram a campo, coligiram, estudaram e, mais raramente, interpretaram, à luz de mais de uma doutrina, as sementes espargidas em muitos locais, desde o tempo em que se acreditava que a Terra tinha quatro cantos? Eles atendem por vários nomes e pertencem a uma Sociedade Internacional, sem sede definida e cujos estatutos, sempre renovados, atualizados, valem em qualquer tempo e lugar. Atendem pelos nomes de Jakob e Wilhelm Grimm, Aurélio M, Spinosa, Carmen Lyra, Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Sílvio Romero, João Ribeiro, General Couto de Magalhães, Lindolfo Gomes, Consiglieri Pedroso, Leite de Vasconcelos, René Basset, Carolina Michaelis de Vasconcelos,  Paul Sebillot, Giuseppe Pitré, Ion Creanga, Aleksander Afanas’ev, Joseph Jakobs, João da Silva Campos, Leite de Vasconcelos, Stith Thompson, Luís da Câmara Cascudo, Raffaele Corso, Andrew lang, Aluísio de Almeida, Waldemar Iglésias Fernandez, Oswaldo Elias Xidieh, Altimar Pimentel, Carlos Rodrigues Brandão, Idália Farinho Custódio, Abdulaziz Al Mussalam, Maria Aliete Farinho Galhoz, Theo Brandão, Joaquim Ribeiro, Edil Costa, Daniel D’Andrea, Doralice Alcoforado, Oswaldo Meira Trigueiro, Paulo Correia, Francisco Assis de Souza Lima, Ruth Guimarães, José Joaquim Dias Marques, Bráulio do Nascimento, Isabel Cardigos etc. e tantos outros admiráveis guardiães do Jardim da Tradição!

William John Thoms, criador do termo "Folclore"

O termo Folclore (de folk, povo, e lore, saber, conhecimento), que abrange, além do patrimônio oral, tradições diversas vinculadas a usos, crenças e costumes, definidoras dos laços identitários que justificam a existência de povos e nações, surgiu nas páginas da revista londrina The Atheneum, no dia 22 de agosto de 1848. Empregou-a, pela primeira vez, sob o pseudônimo Ambrose Merton, o arqueólogo William John Thoms, bibliotecário da Câmara dos Lordes e reconhecido antiquário. O neologismo foi adotado pelos povos latinos, substituindo a palavra demologia. Os primeiros folcloristas concentraram esforços em recolher antigas tradições, frente ao risco iminente de desaparecimento. Peter Burke, em Cultura popular na Idade Moderna, relata essa “corrida do ouro” que desconcertou os humildes moradores de regiões até então pouco lembradas pelas elites econômicas e do pensamento: “Foi no final do século XVIII e início do século XIX, quando a cultura popular tradicional estava justamente começando a desaparecer que o ‘povo’ (o folk) se converteu num tema de interesse para os intelectuais europeus. Os artesãos e camponeses decerto ficaram surpresos ao ver suas casas invadidas por homens com roupas e pronúncias de classe média, que insistiam para que cantassem canções tradicionais ou contassem velhas histórias (2010, P. 26)”.

Doralice Alcoforado, coletora de contos e romances.

Houve, claro, nesses 182 anos que se seguiram à publicação do artigo de Thoms, muitas disputas em torno do objeto de estudo dessa ciência da psicologia coletiva, notáveis avanços, raros retrocessos, motivando polêmicas que extrapolaram a fileira daqueles que defendiam o Folclore como ciência autônoma mas não desirmanada de outras áreas do pensamento, notadamente a Etnografia, a Antropologia e a Sociologia, sem esquecer, obviamente, a História. Câmara Cascudo, citado no início desse texto, reconhece esse equilíbrio, entre a permanência e a mobilidade, com a prevalência, no campo das predileções coletivas, de manifestações que comportam certos rituais, quando afirma: “Nenhuma disciplina de investigação humana imobilizou-se nos limites impostos, quando de seu nascimento. Qualquer objeto que projete interesse humano, além de sua finalidade imediata, material e lógica, é folclórico”. (Dicionário do Folclore Brasileiro, p. 319). É de João Ribeiro, pioneiro nos estudos sistemáticos da matéria no Brasil, conquanto estivesse impregnado, para além da conta, das ideias da escola alemã de Folclore, talvez a melhor definição: “O Folclore é, pois, uma pesquisa da psicologia dos povos, das suas ideias e seus sentimentos comuns, do seu inconsciente feito e refeito secularmente e que constitui a fonte viva de onde saem os gênios e as individualidades de escol” (O Folclore, p. 29).

Ponta da Serra, Bahia.

Nascido numa localidade rural do interior baiano, acostumado desde cedo ao canto alegre dos acalantos e à melodia triste das “incelenças”, aos aboios e aos adjuntos, jamais imaginei que as procissões, corridas de argolinha, cavalhadas e festas de reis, além das histórias populares, cantigas e romances, vasto cortejo de tradições que conheci vivas e amadas, eram objeto de estudo para folcloristas e etnógrafos. Aquilo tudo, para mim, resumia-se em uma palavra: vida. Vida em plenitude.

Imagens: 1. Luís da Câmara Cascudo. 2. William John Thoms. 3. Doralice Alcoforado. 4. Ponta da Serra (Bahia). 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

1001 Histórias do Ceará

 

Um livro valioso, mas pouco conhecido e divulgado nos meios em que se estuda a tradição oral no Brasil é 1001 Histórias do Ceará – Contos Populares. Escrito por Fabiano dos Santos, atual secretário de Cultura do Ceará e parceria com a antropóloga Andréa Havt Bindá, a obra, publicada em 2006, reúne, salvo engano, 28 contos tradicionais coletados no estado do Ceará e publicadas com o selo da Secretaria de Cultura do Estado. Os locais da recolha e a região a que pertencem aparecem ao lado do nome dos informantes, 21, sendo 14 homens e sete mulheres.

Entre os contos coletados, lemos “O rei que tinha chifres  (ATU 782 : O príncipe com orelhas de burro), versão cabocla do episódio jocoso envolvendo o mítico rei Midas; Os Três Conselhos da Sorte (ATU 910B : Os bons conselhos do patrão) e “O Filho Pródigo” (ATU 935 : O regresso do Filho Pródigo), que imagino ser a única versão documentada no Brasil da parábola bíblica. Encontramos ainda histórias que foram popularizadas pelo cordel, mas têm origem na tradição, caso de Melancia e Coco Verde (ATU 885A : A falsa morta) e o Romance do Floriano (ATU 513A Seis companheiros vão correr mundo), parte em prosa parte em verso, por se tratar de uma versão incompleta do clássico cordel Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira, de Manoel D’Almeida Filho. O acróstico ALMEIDA, inclusive, aparece na íntegra ao final da história. Este é o senão da coletânea e, numa reedição, deverá constar uma nota remetendo ao autor do cordel e, se possível, um estudo comparativo sobre a versão tradicionalizada, em parte mutilada.

Mas o livro tem outras pérolas, como o conto Encontro com a Morte (ATU 332 : A Morte madrinha), muito bem narrado e transcrito, e O rei que não acreditava em Deus (Marzolph *930D : O anel do rei), tradicionalíssima história divulgada nas “Cantigas de Santa Maria”, do rei D. Alfonso o Sábio, no século XI, mas conhecida desde a Antiguidade em seu episódio mais importante, o do anel perdido  que reaparece no ventre de um peixe, na lenda do Anel de Polícrates, imortalizada por Heródoto.

Ah! E eu ia me esquecendo: o livro é ilustrado pelo craque Rafael Limaverde.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Lançamento!



Nesta quinta, 13 de agosto, às 20h00, serão lançados quatro folhetos de cordel, todos com o selo da Rouxinol do Rinaré Edições, de Fortaleza (CE):

A Lenda da Loira do Banheiro (reedição). Parceria com João Gomes de Sá. Xilogravura de Lucélia Borges.

O Tostão da Discórdia. Parceria com Pedro Monteiro. Capa: Eduardo Azevedo.


Marúsia e a Maldição do Vampiro. Capa: Eduardo Azevedo.


Balada de Pero e Isabel. Xilogravura de Lucélia Borges.

O evento será via Instagram, no perfil @rouxinoldorinare e terá mediação de Julie Oliveira (Ganesha Produções).

domingo, 9 de agosto de 2020

Bença, Painho (crônica para o Dia dos Pais)


Ninguém nasce no sertão à toa. Não é lição, nem frase de efeito. É constatação. Hoje, quando revisito a casa onde nasci, na Ponta da Serra, no semiárido baiano, onde caatinga e cerrado se abraçam, sou invadido por uma sensação estranha de vazio e de plenitude. A casa amarela, construída por meu bisavô, major Ramiro José de Farias, na década de 1920, é a única ainda de pé no que antes fora um casario. Um belo casario. Meu pai, Valdi, vendeu a propriedade em 1986, quando nos mudamos para Serra do Ramalho, muitas léguas além, nas barranceiras do rio São Francisco. Ficaram para trás, além da casinha de adobe, a igreja, também erguida por meu bisavô, e o umbuzeiro do quintal, que foi meu gabinete de leitura quando, enfim, comecei a decifrar, muito por conta própria, mas, principalmente, pelas leituras dos cordéis, o mundo da escrita. Ficou para trás a casa de meus avós paternos, Luzia e Joaquim, ela minha grande professora, contadora de histórias extraordinárias, Sherazade das noites sem fim do sertão de minha infância. Hoje, entre os escombros da casa, pastam as reses do atual proprietário.

E por que a sensação de vazio e de plenitude da qual falei há pouco? Talvez pela impossibilidade de recompor, mesmo na memória, tantas sensações, cheiros, sabores, vozes, cantos, choros, rezas, risos, vida jorrando de lábios e olhos. Ofício de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da comunidade, rezado nas sentinelas e no dia da Santa, 8 de dezembro. A voz de Tio Dão, João Farias, se sobressaindo às demais, nas rezas ao pé do cruzeiro. Os ramos de Tio Maçu espantando a doença, o mau olhado, afugentando a peste. Madrinha Nenzinha, na moldura da janela de sua casinhola, à espera de alguém que lhe pedisse rapadura. Cachorro latindo, adivinhando assombração. Mas a lembrança que vincou mais forte é, sem dúvida, a de meu pai retornando todo o sábado, da feira de Bom Jesus da Lapa, aonde ia vender tijolos (doces feitos em tachos) e requeijão. A cada retorno ele trazia, sem falta, dois folhetos de cordel, que eram lidos no dia seguinte, com a presença de toda a família. A sua coleção, herdada de minha avó, já passava de uma centena. Os novos “moradores” disputavam com os mais velhos a minha predileção.

Não era incomum, ainda, ele cantar para eu dormir. Cantiga de adormecer menino pode ser assustadora, engraçada ou melancólica. Minha mãe, Maria, repetia, sempre, “o sapo cururu/ na beira do rio,/ quando o sapo canta/ é porque tem frio”. E ele respondia com um acalanto triste e bonito ao mesmo tempo. Aprendera-o com sua mãe. Falava de um passarinho que, por perder o amor, sucumbe à tristeza. A quadrinha final, com melodia dolente, era esta:

Passarinho, se eu pudesse
não te enterrava no chão:
mandava abrir sua cova
dentro do meu coração.

Hoje, quando retorno à Bahia, ainda peço para os meus pais fazerem uma roda de versos. E eles o fazem, abrindo as janelas das relembranças. O passado é um terço cujas contas são as memórias. De tempos idos. Sementes de primaveras que ainda florirão.

Marco Haurélio

Crônica publicada na revista Páginas Abertas, da Paulus Editora.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Literatura oral do Brasil e de Portugal




Texto: Divulgação. 

O programa Leituras de Mundo (amanhã, dia 28/07 às 17h do Brasil e 21h em Portugal) trará um encontro com: Marco Haurélio e Paulo Correia! Autores e investigadores do conto tradicional, eles apresentarão as suas leituras de mundo em nosso canal youtube Escola de Narradores Online - a não perder! Saiba mais sobre os nossos convidados:

Paulo Correia: Antropólogo, mestre em Literatura Portuguesa, investigador, folclorista e professor da Universidade do Algarve em Faro, antes de enveredar pela investigação dos contos e das lendas, trabalhou como técnico de eletrónica especializado em instrumentos musicais dos 15 aos 25 anos, foi sonoplasta do grupo de teatro universitário Sincera, onde traduziu uma peça e escreveu sobre a obra Rei Lear de W. Shakespeare. Também fez parte do Cineclube de Faro, onde apresentava filmes oralmente e escrevia textos para os livrinhos que acompanhavam os ciclos de cinema. Publicou um livro sobre a história do cinema no Algarve (2007), dezenas de artigos científicos e colaborou como catalogador em diversas publicações. Desde 1996, é membro do CEAO (Centro de Estudos Ataíde Oliveira) da UAlg, unidade de investigação que se dedica ao estudo interdisciplinar da Literatura Oral Tradicional e membro colaborador do IELT (Instituto de Estudos de Literatura Tradicional) da FCSH Universidade Nova de Lisboa, desde 2017.

Marco Haurélio: Escritor, professor, folclorista e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália. Finalista do Prêmio Jabuti, seus livros receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileiros, A lenda do Saci-Pererê, Meus romances de cordel, Lá detrás daquela serra, O encontro da cidade criança com o sertão menino, Tristão e Isolda em Cordel, A jornada heroica de Maria, Vozes da Tradição e Contos e fábulas do Brasil (a primeira e a última obra contam com a colaboração do pesquisador português Paulo Correia). Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços diversos como a Casa Tombada em São Paulo e a Escola de Narradores Online (turmas Brasil e Portugal).




quinta-feira, 25 de junho de 2020

CARTA DE SATANÁS A TASSO JEREISSATI SOBRE A PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA



| Texto coletivo | Obra Completa |

Inferno, Corte das Trevas,
24 do mês seis
Eu escrevo essa missiva
Com coragem e altivez
Para parabenizar
O senador de vocês!

Grande Tasso Jereissati,
Orgulho aqui das Profundas,
Não cansa de amealhar
Pra suas contas rotundas
Dinheiro até mesmo à custa
Das pessoas moribundas.

Aproveita a pandemia
Momento de desespero
Para levar mil vantagens
Do povinho brasileiro,
Pois pouco lhe importa a vida,
Só tem valor o dinheiro.

Por isso até sinto inveja
Das grandes calamidades.
Aqui você é destaque
Entre as grandes sumidades,
No inferno um cão não tem
Seu rosário de maldades.


Tu és gênio, camarada!
Porque nunca pensei nisso?
A água que é bem vital
Luta para dar sumiço;
Tiro o chapéu e lhe louvo
Por planejar tudo isso!!!

Senador, o próximo passo
Que você deve pensar
É cobrar a luz do sol
E o ar privatizar
Para que seus eleitores
Paguem para respirar!

Nesse inferno aí da Terra
Você supera o capeta.
Seus projetos diabólicos
É sempre grande faceta.
Quem vota em você merece,
Chapéu de otário é marreta!

Aproveito esta missiva
Pra lhe parabenizar.
Jogue duro, bote quente,
O segredo é massacrar.
E como contrapartida
Reservei o seu lugar.

Tu sabes, somos amigos,
Você é grande parceiro.
Já lascou o Ceará
De Sobral a Juazeiro
Agora o plano execrável
É lascar o Brasil inteiro.

Meu galeguinho, esta carta
É seu comparsa quem posta.
Já sei que você me atende,
Pois do seu amigo gosta,
Faça tudo que lhe peço
E nem precisa resposta.

Meu distinto senador,
Você é astuto e sagaz,
Querer privatizar a água
Prova do que és capaz.
Do jeito que você é
Destrona até Satanás.

Já vendeste a energia,
Cuja empresa era estatal,
E queres privatizar
Água – um bem universal!
Tu serás bem-vindo aqui,
Grande senador do mal!

Eleito por um Estado
Onde a seca sempre assola,
Mas para a população
Nunca moveste uma mola.
Queres toda a água agora
Para fazer coca-cola?

Quanto mais dinheiro tens,
Mais tu queres ter tutu,
Nós vemos tua ganância,
Eu, Capeta e Belzebu.
O inferno inteiro te espera,
“Coroné dos zói azu”!

Tasso você é amigo,
Mas tá me causando espanto.
Não aceito concorrência,
Meu rosto já rola pranto,
Já estou é percebendo
Que tu quer tomar meu canto.

Quando chegar no inferno
Você será aclamado,
"Galego dos olhos azul",
Capitalista afamado.
Seguindo assim, "nas profundas",
Tu serás condecorado!

Posso até mudar seu nome:
Tassanás te chamará
Com essa sua jogada
O mundo conhecerá
Entre Tasso e Satanás
Que diferença não há.

Aqui no inferno todos
Querem contigo aprender,
Melhorar o repertório
Pra mais maldades fazer.
Jamais te superarão,
Oh, mestre do malquerer!!!

Como embaixador do inferno
Prossiga em sua maldade,
Passe por cima de pobre
Pra viver com qualidade,
Que depois o próprio pobre
Lhe implora por caridade.

Água não é para todos,
Siga a privatização.
Apenas finja ser bom
Em período de eleição,
Mas agora você faça
O mal pra sua nação.

Também a telefonia,
Por preço muito mirrado,
Tu vendeste, meu galego,
Desmilinguiu o Estado.
Quer rifar os mananciais
De um povo já ressecado.

Portando várias safenas
Em São Pedro não medita
Toda nossa encanação
Mira em ganância maldita
O pobre vai passar sede
E nem mais banho cogita.

Mas o pior no vil enredo
Pra entupir nossos canos
É golpe na Educação
Usado em passados anos
Põe depois a pedra em cima
E por isso amo Tucanos!

O prefeito do inferno
Por ordem superior
Já vai lhe condecorar,
Estimado senador.
Que privatizará a água
Onde faz muito calor.

Aqui estamos contentes
Com o plano empresarial.
Em pouco tempo, o Brasil
Será nossa filial.
Dispensará combustíveis,
Será inferno natural.

Bolou um plano brilhante:
Pra fabricar cola-cola
Quer ser o dono da água,
No mal não possui bitola,
Vendendo refrigerante
No inferno fez escola.

Eu penso amolando os chifres:
Tu és o maior avaro!
Irmão, somos um só sangue,
Eu, você e Bolsonaro;
Nossa missão é fazer
O povo tomar no aro!

Ah, delícia de idiotas
Que votam na vossa laia!
O veneno da burrice
Do meu rabo de lacraia
Inoculado por biltres
Como Silas Malafaia.

Dizem orar pra Jesus
Em templos, que na verdade,
Pregam a minha doutrina,
Lá eu sou autoridade!
De cristãos só têm o nome,
Pra nossa felicidade!

Já você, tem outros modos,
Meu cheiroso Galeguinho.
Posa de grande empresário,
Filantropo (seu mesquinho!),
Enquanto tange os mandatos
Para o maior descaminho.

Acho lindos teus discursos
Mal ajambrados, capengas,
Na plenária ou aos repórteres,
Que lindas, toscas arengas;
Te sentes “a sumidade”,

Acho lindos teus discursos
Mal ajambrados, capengas,
Na plenária ou aos repórteres,
Que lindas, toscas arengas;
Te sentes “a sumidade”,
Proferindo lengas-lengas.!

Mas vamos aqui parar
Com tais classificações.
Sigamos para o trabalho:
Desviar aos borbotões
As águas de toda parte
Às nossas instalações!

Ao findar minha cartinha
Realizei meu afã.
Da sua mente perversa
Eu já me tornei um fã,
Assino aqui na outra linha
Seu velho amigo Satã.

Ao concluir sua carta
Satanás suspirou fundo
E falou: — O Tasso tem
Conhecimento profundo
Para cometer maldade
É ele o melhor do mundo!

Nosso Tasso é escolado
Que sempre engana à socapa.
Não sei porque não foi vice
De Bozo na sua chapa
Pra ganhar a eleição
Tinha sido uma garapa!


Lusbel escutando tudo
Falou assim: — Ora sebo!!!
Tasso sempre foi um mestre
Novinho, jovem mancebo,
Já era droga pesada
Porque nunca foi placebo.

Naquela hora sublime
Festejava o Satanás.
Pensou sorrindo: — O galego
Mostrou do que é capaz.
Com à água privatizada
Viverei dando risada
E de todos tiro a paz.

"Este nobre senador
Tem mostrado que é esperto.
Uma pessoa como ele
Eu quero sempre por perto.
Com ele no parlamento
A todo e qualquer momento
Meu canal está aberto".

"Galeguim dos zói azul –
Disse o capeta sorrindo –
Vais privatizar a água
Com a verdade omitindo.
Ele ficando mais rico,
Eu festejo e alegre fico
Por estar contribuindo.

“Não te esqueças, meu Galego,
Dessa nossa parceria!
Tu privatizas a água
Como tua mercadoria!
Vão comer em tua mão,
Principalmente o sertão
Onde água é iguaria”.

Mate esse povo de sede!
Tire-lhe o refrigério
Pra que pobre beber água?
Mas que falta de critério!
Água é pra quem tem dinheiro!
Privatize até bueiro,
Se morrer, tem cemitério!

Porém cuide, enquanto há tempo,
Pois tão fazendo um cordel
Denunciando a parceria –
E clamando a São Miguel –
E a Jesus que é comunista
Deus me livre de esquerdista
Essa escória é infiel.

Seja esse criminoso,
Faça valer sua história,
Pois esse povo sem água
Não terá escapatória.
Ficarão em teu curral,
Feito um bando de animal,
Mate de sede essa escória.

Esta privatização
Vai encher o meu caderno.
"Galeguim, dos zói azul"
Já que és homem moderno.
Vou fazer uma postagem
Te mostrar a homenagem
Que a ti fiz no inferno.


FIM


AUTORES:

Eduardo Macedo
Silvio Roberto Santos
Joaquim Mendes (Joames)
Pedro Paulo Paulino
Evaristo Geraldo da Silva
Jader Soares (Zebrinha)
Klévisson Viana
Rouxinol do Rinaré
Francisco Paiva Neves
Antônio Marcos Bandeira
Paulo Filho
Junior do Cordel
Angelim do Icó
Demétrio Andrade
Antônio Queiroz de França
Leo Manoel

Capa: Cayman Moreira