sexta-feira, 18 de março de 2011

João Soldado, um cordel atemporal



Antônio Teodoro dos Santos (1916-1981) teve a ventura de versar, ou seja, verter para a literatura de cordel, a história de João Soldado, o Valente Praça que Meteu o Diabo num Saco, conhecida de muitos estudiosos e dos irmãos Grimm, que a recolheram na Alemanha, há cerca de dois séculos. Há uma versão mais antiga, O Diabo e o Soldado, escrita por Firmino Teixeira do Amaral e publicada pela extinta Editora Guajarina, de Belém do Pará. A versão de Teodoro situa o soldado na Palestina, onde, futuramente, ele irá encontrar o próprio Jesus Cristo:

João Soldado se criou
Na terra da Palestina
Ficou órfão logo cedo
Foi bem triste a sua sina
Mas porém foi coroado
Por uma estrela divina.


João, então, resolve “assentar praça”. Contudo, a sua honestidade impede que faça carreira na polícia; a crítica é sutil e, infelizmente, atual:

O que é certo que João
Na vida não fez carreira
Somente por um motivo
De não pegar na chaleira
Até que saiu da praça
Limpo sem eira nem beira.


Após vinte e quatro anos de bons serviços, João recebe como soldo “uma farda/ quatro vinténs e um pão/ um capacete rasgado/ e um par de botinão”. Voltando para a casa, João tem um encontro que mudará, para sempre, a sua vida: dois mendigos lhe pedem uma esmola e recebem uma parte do pão; por mais três vezes eles aparecerão até que João lhes entregue “o último dinheiro”. Aí há a revelação:

Aqueles dois mendicantes
Eram São Pedro e Jesus
Quando andavam neste mundo
Trazendo a divina luz
Provando os bons corações
Com sua pesada cruz.


Em retribuição à boa ação, Jesus se mostra disposto a satisfazer qualquer pedido de João. São Pedro, então, instiga-o a pedir a salvação de sua alma, mas ele acaba fazendo outro pedido:

... Peço ao mestre que me dê
Uma força divinal
De tudo quanto eu mandar
Entre aqui no meu bornal.


O dilema de João Soldado – escolher entre a salvação e a possibilidade de gozo no plano material – está presente em outras adaptações pertencentes ao mesmo ciclo. A título de comparação analisemos algumas delas. Em Jesus e o homem do Surrão misterioso, de Manoel D’Almeida Filho, há o encontro da personagem principal, apelidado de Moleza, com os dois benfeitores de João Soldado. Almeida assim descreve os dois velhos (note a semelhança com a descrição de Teodoro):

Então aqueles dois velhos
Que falavam com Moleza,
Eram Jesus e São Pedro,
Dentro da sua grandeza,
Que sofriam pela terra
Para ajudar a pobreza.


À pergunta direta de Jesus, “- Quer riqueza ou salvação?”, Moleza não titubeia e responde talqualmente João Soldado:

Quero que neste surrão
Tudo que eu mandar entrar
Entre no mesmo momento
Sem fugir nem recusar,
Seja coisa viva ou morta,
Só saia quando eu mandar.


Já em O ferreiro das três idades, de Natanael de Lima, a personagem principal tem o nome de Pobreza, o que pode ser interpretado como uma personificação ou mesmo uma alegoria, pois a cadela do ferreiro chama-se Miséria. Pobreza, como João Soldado, é contemporâneo de Jesus, que, sabendo do estado de penúria em que vivia o ferreiro, vai visitá-lo. Pobreza o hospeda em sua casa, mas, como não possui uma cama sequer, Jesus dorme no chão. No outro dia, respondendo às queixas e pedidos de desculpas do ferreiro, o divino mestre assim se reporta:

... Pobreza,
É triste a tua missão!
Então pede-me três coisas,
Que darei de coração –
Diz-me se queres riqueza,
Vida longa e salvação.


Como os antecessores, Pobreza renega a salvação e a riqueza, mas fará três pedidos que serão cruciais, quando, num futuro embate com o Diabo, conseguirá as três idades a que o título alude. O primeiro pedido:

Pobreza disse: - Eu não quero
Essa tua salvação –
Quero é que quem se sentar
Aqui neste meu pilão
Só possa se levantar
Com minha autorização.


No segundo pedido, ele descarta a riqueza:

- Riqueza também não quero
Que me acostumei pedir –
Quero que naquele pau,
A pessoa que subir
Dele só possa descer
Quando eu mandá-lo sair!


Jesus então aconselha-o a pedir mais anos de vida, mas ele reluta novamente:

- Senhor, eu também não quero
Que aumente mais minha vida
– Quero é que quem penetrar
No meu quarto de dormida
Fique lá preso até quando
Eu der ordem de saída.


Em Jesus, São Pedro e o ferreiro rei dos jogadores, de Manoel Caboclo e Silva, há o mesmo motivo de hospedagem das duas personagens sagradas e o pagamento que, dada a escolha (“ser o rei dos jogadores/ ou ganhar a salvação”), levanta a mesma questão da eterna luta entre o espiritual e o material, o cósmico e o telúrico. O ferreiro, obviamente, preferirá ser o rei dos jogadores e se valerá deste dom para derrotar o Diabo.

Pois bem, agora que conhecemos os mesmos motivos – uma dádiva milagrosa – e tipo – o homem que troca a salvação pela possibilidade de se destacar entre os vivos – voltemos a João Soldado. Após conceder-lhe o dom, Jesus abençoa o soldado e segue para a Galileia. João, já na Judeia, passa em frente a um hotel (o anacronismo na literatura de cordel é fascinante), “Onde tinha um lombo frito”. É este o primeiro milagre, pois, assim que João o chama, o “lombo” vai parar no bornal. Em seguida, João atrai um grande pão numa “padaria/ dum sovino tubarão”. Para evitar confusões, de acordo com os mores nordestinos, o autor faz questão de explicar que a atitude do soldado nada tinha de ilícita:

João fartou-se de comer
no bornal misterioso
porém não era roubando
é porque foi caridoso
e tudo isso eram obras
do grande Deus poderoso.


Em seguida, João chega a uma fazenda “dum rico bem pabulento” onde pede aposento, o que lhe é negado. Contudo, o rico lhe aponta um velho sobrado assombrado por um fantasma. Lá, ele deparará com todo o tipo de visão. Por fim, a alma condenada aparece e começa a desmontar-se, sempre se dirigindo ao soldado: “Seu João, eu quero cair!”, despencando todas as partes do corpo, que depois se reúnem. Trata-se de uma alma penada que, graças à coragem de João Soldado, é salva do inferno. Há versões orais desta história em que não há nenhuma alma penada mas uma legião de diabos a quem João aprisiona no saco e espanca impiedosamente. Na adaptação de Teodoro, a alma, para purificar-se de seu pecado, a avareza, presenteia João com três caixões de moedas de ouro, enterrados na casa.

No Nordeste, são muito comuns as histórias de tesouros oferecidos aos vivos por almas penadas. O mesmo motivo se repete em outras obras de cordel como O príncipe João Sem-Medo e a princesa da Ilha dos Diamantes, de Francisco Sales de Areda, e O gigante Quebra-osso e o Castelo mal-assombrado, que Minelvino Francisco Silva adaptou de um conto popular em que, em algumas versões, o Bocage folclórico aparece como herói.

Por ter resgatado a alma das trevas, João enfrentará a ira de Lúcifer, que envia um subalterno, o “cão” Permanente, disfarçado em “chefe de cabaré” (outro anacronismo) para iludir João Soldado. Quando este faz o sinal da cruz, o “cão” se denuncia e João o convida a entrar no bornal. E, assim que ele entra, João...

Pegou a mão de pilão
Mandou no cabra sem pena
O cão velho estrebuchava
Igual a gota serena
João Soldado o machucou
Só Jesus viu esta cena.


Quando o cão é solto, ainda leva outra surra no Inferno. Agora é Lucifer, o próprio, quem vai buscar o soldado. Há um embate verbal interessante onde o Diabo se reafirma príncipe deste mundo, respondendo a João, que se diz “filho de Adão/ Imagem do Criador!...”.

Ora, disse Lucifer
Adão caiu de bandão
Foi iludido e comeu
Do fruto da perdição
Quem tem alma, carne e osso
Vivi preso em minha mão.



Quando João evoca Jesus como guia, a resposta do Diabo vem salpicada de fina ironia:

... É bem errado o teu guia;
Se todos o imitassem
O mundo não existia
Não havendo cruzamento
Também gente não havia...


Trava-se uma luta onde João “arrancou o chifre” do Diabo. Depois, com outra espadada, “arrancou o tornozelo”; esta cena explica, à maneira dos contos etiológicos, o porquê de o Demônio ser coxo. Após infligir uma queda ao oponente “que quasi quebra o focinho”, o Diabo, “o chefe de todo cão”, é obrigado a entrar no bornal, sendo espancado com um “cacete/ dos que se bate feijão”. A tentativa de “suborno”, visando à liberdade, é hilária. Disse o Diabo:

... João, me solta
Que eu te ensino uma maneira
De você ficar querido
De toda moça solteira
E se quizer as casadas
Elas caem quasi em cegueira.

Ensino como se ganha
Dinheiro na loteria;
Como se corta baralho;
Como se atrai freguesia;
Ensino curar doentes
Toda espécie de magia.


Na literatura de cordel, às vezes, o Diabo se porta como o adversário do Altíssimo, mas, no presente caso, ele é apenas um charlatão de feira. João, obviamente, recusa as ofertas e redobra a pisa, só libertando o demônio mediante intervenção divina, atendendo ao pedido de um anjo “figurado numa ave”. O autor prossegue narrando a estória à maneira dos autos medievais. João está com setenta anos, embora não conheça doença. Porém o inevitável, na caracterização da Morte, aparece. Faz-se necessário descrever este encontro, pois a narração ratifica a assertiva de Câmara Cascudo, ao estabelecer a diferença entre a Morte e o Diabo na psicologia popular. João Soldado, percebendo a proximidade da Morte,

... Sentiu um pavor
Sentiu o mundo rodando
E o céu de toda cor
Viu anjos lá na altura
Cantando ao pai criador.



A descrição da Morte não podia ser mais perfeita; apesar de personificada como uma entidade feminina, remete a Hell , a deusa dos mortos na mitologia nórdica, e a Tânatos, divindade masculina da Morte na mitologia grega:

Viu uma velha sisuda
Com grande foice no ombro
O nariz era um serrote
Cada olho era um rombo
Muito magra esfarrapada
E a boca era um assombro.


Na sequência, uma imagem digna do Apocalipse: o cavaleiro pálido:

Tinha asas sobre as costas
Os dentes bem volteados
Riscava o céu com as unhas
Fazia relampejados
Pegava o sol e a lua
Tragava de dois bocados.


A reação de João Soldado mostra-se patética:

João quase fica nervoso
Nesse momento atual
Logo apressou-se rezando
Fazendo o pelo-sinal
Disse ele: Minha velha
Entre aqui no meu bornal.


Inapelavelmente, a Morte o conduz ao Inferno, aonde ele chega fazendo estragos, ferindo “dois irmãos”, que guardavam o local. Lúcifer, logicamente, não o acolhe e a “santa mulher” o escolta ao Purgatório, que ele confunde com o inferno. Lá “Vomitou toda a cachaça/ Inguiou leite materno/ Queimou as cascas dos olhos/ Por ver os ‘usos moderno’.” Só depois de purgar os pecados é que a Morte deixa-o no céu, na fila das almas. Ao tentar cortar a fila João é agredido por Sansão, que descontou nele a raiva que tinha de Dalila e é advertido por São Gabriel, “que ali era o regente”. Logo após surgem dois santos, cujas atribuições pré-cristãs o autor faz questão de descrever:
(...)
Santa Bárbara já zangada
Rosnou no peito um trovão
Lá se vinha São Miguel
Com a balança na mão.


Em Anúbis, Câmara Cascudo discute a sobrevivência de crenças originárias no antigo Egito, como a Psicostasia, a pesagem da alma, realizada no tribunal presidido por Osíris, por Anúbis, o deus psicopompo9 , ancestral do São Miguel do catolicismo popular. Não é por acaso que Teodoro insere estas figuras no cenário post-mortem por onde vagueia a alma de João Soldado.

No céu, João reencontra São Pedro, que o impede de entrar na glória sem o julgamento. Estranhamente, o santo que acompanhava Jesus quando este lhe concedeu a dádiva milagrosa, não o reconhece e o incita a provar se realmente o tal bornal era milagroso:

Abriu João o seu bornal
E mandou São Pedro entrar
Ele dentro da capanga
O recurso foi gritar
Dizendo: - Me solta João
Pois é certo o teu lugar!


A recompensa não tarda:

Ele alegre desatou
O seu bendito bornal;
São Pedro lhe deu o trono
No reino celestial
João Soldado hoje é santo
Foi grande o seu ideal.


Partindo do ponto de vista do poeta que versa a estória popular, é perceptível a existência de um esquema que estabelece não apenas a oposição entre dois mundos – o espiritual e o material, como foi dito – mas também entre a virtude e o vício, sendo o último finalmente derrotado. O que pode gerar certa confusão, pois os autores de cordel, independentemente de gênero ou tema que abracem, sempre pontuam as suas narrações com comentários que explicam como ao final das estórias, os bons são recompensados e os maus punidos. João Soldado, assim, não é uma estória de exemplo, embora haja certa aproximação temática: ele é recompensado por Jesus por sua caridade; com o dom recebido, se apossa do pão “dum sovino tubarão” ; depois, graças à sua coragem, liberta uma alma penada, cujo crime em vida foi a avareza. E por aí vai. O triunfo da virtude cristã sobre a avareza, um dos sete pecados capitais, é ressaltado nos dois últimos versos da penúltima estrofe (“Ninguém perde quando dá/ Do pouco que tem na mão”.) e no acróstico final (invertido):

Ornando a vida de glória
Imitemos João Soldado
Nas alturas está Deus
Olhando pra todo lado
Tomba o casquinha avarento,
Navega em mar opulento
Aquele que é denodado.


Os irmãos Grimm recolheram muitos contos em que a bondade do herói é recompensada por anões e outros seres do folclore europeu. João Soldado é, portanto, um conto de convergência, amalgamando tradições pagãs e cristãs, sendo o motivo da recompensa também comum nas histórias árabes. O motivo da punição pela falta de hospitalidade está presente na lenda grega de Licaon, transformado em lobo por ter negado abrigo a Zeus, travestido em peregrino. Dos irmãos Grimm, temos o conto Folgazão, em que a dádiva provém de São Pedro, disfarçado em mendigo. Folgazão é igualmente soldado e, da mesma forma, recebe como soldo “um pão e quatro vinténs” que divide com o santo, que será seu companheiro de viagem e a quem burlará com a mochila mágica, quando tentar entrar no céu.


Antônio Teodoro, o Poeta Garimpeiro, autor do clássico João Soldado

Um comentário:

Unknown disse...

não acredito que encontrei um blog dedicado a esse tipo de literatura
to feliz e vou acompanhar as historias agradecendo a excelente ideia do autor
valeu
angelo