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segunda-feira, 25 de junho de 2012

O cordel no futebol é destaque no Globoesporte.com

Cordelistas abusam da criatividade ao retratar o futebol na literatura popular

Expressão da cultura nordestina, cordel mexe com a rivalidade dos clubes, fala de Copa do Mundo e promove clássico imaginário entre Lampião e Satanás

Por Thiago Barbosa

Aracaju


Chegaram os festejos juninos. É hora de exaltar as tradições populares, de se deliciar com as comidas típicas do período, de apreciar a arte das quadrilhas, dançar forró e ler os versos de um bom Cordel. Nos 'arraiás' espelhados pelo Nordeste, sempre há uma banquinha expondo os cordéis e poetas populares declamando suas rimas para chamar a atenção do público.


Na Literatura de Cordel, uma das maiores expressões da cultura popular brasileira, os mais variados assuntos acabam se transformando em versos. E neste São João, o GLOBOESPORTE.COM pega carona na criatividade dos cordelistas e mostra como esses poetas retratam o futebol, paixão dos brasileiros, nos folhetos de Cordel.

Futebol no inferno
Cordel é um dos mais populares do gênero (Foto: Reprodução)Cordel é um dos mais populares do gênero
(Foto: Reprodução)
Futebol é um esporte tão apaixonante que já foi praticado até no inferno. Pelo menos no imaginário dos cordelistas. José Soares, conhecido como o poeta repórter, falecido no início da década de 80, criou um folheto que narrava um clássico inusitado, realizado 'nas profundas', entre o time de Satanás, os donos da casa, e a esquadra de Lampião, o Rei do Cangaço.
As divertidas estrofes contam que houve duas partidas, com uma vitória para cada lado. Precisava-se então de uma terceira, a do desempate.
"Lampião ganhou um turno
Satanás outro também
no Domingo que passou
empataram em cem a cem
agora melhor de três
vai ser Domingo que vem".
Eis a grande confusão. Os rivais, reconhecidos pela valentia e tirania, travaram um embate antecipado por causa da data do jogo e da escolha da arbitragem. A 'CBF do Inferno' teve que intervir no impasse.
"O jogo era quarta-feira
porém Lampião não quis
além disso ele só faz
o que lhe vem ao nariz
e por isso o pau cantou
na escolha do juiz.
Porque satanás queria
que o juiz fosse Cancão
e essa escolha também
não agradou Lampião
que ficou mais irritado
do que cavalo do cão.
A CBF do inferno
quis suspender o torneio
porém a rádio profundas
opinou para um sorteio
já dizem que na loteca
vai dar coluna do meio".
Assim como muitos jogadores do mundo real, os boleiros do inferno também possuem nomes estranhos, como mostra a escalação:
"O goleiro do inferno
chama-se Dr. Buçu
o beque central Peitica
o volante é Papacú
para ser o quarto zagueiro
estão procurando tú
O tripé de meio campo
tem o diabo Rabichola
o ponta direita é Bimba
na esquerda Caçarola
o armado é cão côxo
que é Côxo mais joga bola.


Vejam só a escalação
do time de Lampião
Curisco, Chapéu de couro
Maritaca e Capitão
Sucuri e Pé de Quenga
Tarraspado e Tira a Mão".
'Futebol no Inferno' fez tanto sucesso nas páginas dos folhetos que ganhou musicalidade na voz e no pandeiro da dupla Caju & Castanha. Os emboladores gravaram em repente o 'clássico das profundas'.
- Uma outra dupla já havia gravado o Futebol no Inferno. Nosso produtor ouviu e sugeriu que gravássemos também, pois seria sucesso garantido. Dito e feito. Foi um dos discos que mais venderam e vendem até hoje. Onde quer que vamos o povo pede para cantar. Ai da gente se não cantar (risos). É legal porque todos adoram futebol e acham engraçada essa partida inusitada - disse Castanha ao GLOBOESPORTE.COM.
Caju&Castanha fazem sucesso versando sobre futebol (Foto: Divulgação/Assessoria de Imprensa)Caju & Castanha fazem sucesso versando sobre futebol (Foto: Divulgação/Assessoria de Imprensa)
O futebol é um instrumento inesgotável de inspiração para os cordelistas. Boa parte deles usa do bom humor para tratar dos assuntos do mundo da bola. A própria dupla Caju & Castanha explorou bem a rivalidade dos times.
- Nós fizemos vários cordéis em forma de embolada, com desafio entre torcedores de times rivais. Teve Ba-Vi, Gre-Nal, Santa Cruz e Sport, Corinthians e São Paulo e vários outros. Sempre quando falamos sobre futebol a aceitação do públlico é boa - disse Castanha.
O mais conhecido do público é o de Corinthians e São Paulo, que reproduz uma discussão quente entre dois torcedores, cada um defendendo a sua bandeira.
"O Corinthians é da ralé
É um time de maloqueiro
Esse tal de 'Zé Povinho'
Picareta e trambiqueiro
Favelado, indigente,
Pé rapado e cachaceiro.
São paulo é refrigerado
Falta marcha e não me engano
Usa brinco de argola
Pois só vive rebolando
Não tem homem no São Paulo
E chamam um Corintiano".
Cordel fez crítica às torcidas organizadas (Foto: Reprodução)Cordel fez crítica às torcidas organizadas
(Foto: Reprodução)
Crítica social
Além do bom humor, os cordelistas retrataram também a crítica social na poesia popular. O racismo no futebol e a violência de algumas torcidas organizadas serviram de inspiração para os autores.
Um dos mais emblemáticos sobre a insegurança nas arquibancadas é o 'Torcida Organizada, Violência Anunciada', do cordelista radicado em Salvador Antônio Carlos de Oliveira Barreto. O folheto faz duras críticas aos que frequentam estádios de futebol para semear um comportamento violento.
"Manifestação de ódio
De torcedores rivais
Aos poucos tiram do estádio
Aqueles que prezam a paz.
Parece até que os fanáticos
Se transformam em animais!"
Em seguida, o autor dá bons exemplos nas estrofes de como deve ser o comportamento da torcida nos estádios.
"Devemos reconhecer
que a torcida organizada
tem o seu grande valor
quando conscientizada,
mas para isso é preciso
de gente civilizada.
A torcida organizada
Também pode pressionar
À direção do seu time
Podendo então opinar.
Basta que todos aprendam
O verbo dialogar".
O caso policial que repercutiu em todo o Brasil, envolvendo Bruno, ex- goleiro do Flamengo, também ecoou nos folhetos de cordel. Nas estrofes, o cordelista Isael de Carvalho dá a sua versão sobre o fato ocorrido.
"Bruno com seus amigos
Em ato que traz repúdio
De forma vil e cruel
Matou Eliza Samudio
Como em filme de terror
Produzido num estúdio".
Cordel retrata história das copas (Foto: Reprodução/Editora Luzeiro)Cordel retrata história das copas
(Foto: Reprodução/Editora Luzeiro)
Copa em cordel
A Copa do Mundo também serviu de tema para a Literatura de Cordel. Vários poetas dedicaram suas rimas para falar do maior evento do futebol. Em 2006, J. Victtor fez um manual da copa, falando dos grupos e das chances de cada seleção, também com pitadas de bom humor.
"Com a Coréia do Sul,
a França tome cuidado:
dizem que um jogador
é todo falsificado,
mas não se sabe quem é
quando estão lado a lado".
Manoel D'Almeida Filho, um dos maiores cordelistas brasileiros, escreveu um folheto em homenagem ao Tri no México. Mais recentemente, um selecionado de poetas populares produziu um cordel coletivo que conta a história das Copas do Mundo. Cada poeta escreveu sobre uma edição do Mundial.
Um dos autores foi o cordelista e pesquisador Marco Haurélio, que tratou sobre o pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo de 2002, na Coréia e no Japão.
- No capítulo da Copa de 2002 preferi usar um tom mais crítico. Geralmente os cordéis sobre futebol se enquadram no estilo circunstancial, tem prazo de validade curto, pois retratam assuntos da atualidade. À exceção desses cômicos, que também fazem sucesso - disse o poeta.
Com humor, crítica social ou boa dose de história, os cordelistas mostram que são craques nos versos e batem um bolão no quesito criatividade. Em cada folheto criado, marcam um gol de placa e provam que Cordel e Futebol sempre podem fazer uma tabelinha de qualidade.
Fonte: Globo Esporte (site)
Nota do blog: Esta matéria, assinada pelo jornalista sergipano Thiago Barbosa, foi destaque, no sábado na página nacional do Globo Esporte.

terça-feira, 13 de março de 2012

Cordel de ontem e hoje



O jornal A Tarde, de Salvador, publicou, na última sexta-feira, uma matéria extensa sobre a Antologia do Cordel Brasileiro, assinada pelo jornalista Marcos Dias. A íntegra da matéria está na imagem acima. Abaixo, alguns trechos da entrevista que concedi ao jornalista, reproduzidos em parte na matéria:


Como ser baiano, do sertão, marcou sua aproximação com o cordel?
Nasci num lugar chamado Ponta da Serra, município de Riacho de Santana. Desde criança, ouvia minha avó paterna, D. Luzia, contando as histórias do nosso romanceiro de cordel. Também gostava de ouvir cantigas e acalantos, contos de encantamento e orações. Parafraseando o mestre Câmara Cascudo, eu diria que ela foi minha grande professora de folclore. Não tínhamos água encanada nem luz elétrica, mas, em compensação, o meu quintal era o mundo.

Preconceito e senso comum.
Em qualquer gênero literário, preconceitos são reproduzidos, de forma intencional ou velada. No cordel, atualmente, os poetas têm se manifestado abertamente contra preconceitos e estereótipos, especialmente no tocante ao gênero e à cor. É preciso, no entanto, tomar cuidado para não transformar o politicamente correto no “policiamento incorreto”.

O que pensa nos editais do Estado (Bahia) e MinC para cordelistas?
Na Bahia, havia um concurso nacional de literatura de cordel, de grande relevância. Hoje, não existe mais, o que é uma pena. No plano nacional, a boa surpresa foi o Prêmio mais Cultura do MinC. Uma bela iniciativa com graves equívocos no plano prático, em espacial no tangente à seleção de projetos. Um livro de minha autoria, O Conde Monte Cristo me Cordel, ad editora Nova Alexandria, foi premiado, mas nem por isso eu deixo de reconhecer os problemas, que, espero, na próxima edição, não se repitam.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

JOVENS CORDELISTAS



Josué cria cordéis baseados em contos clássicos da literatura infantil
FOTO: GEORGIA SANTIAGO

Fonte: CADERNO ZOEIRA, DIARIO DO NORDESTE
Edição de 21 de abril de 2011

Inspiração e técnica são elementos essenciais para um bom cordel criar. Entre métricas e versos, uma bela história vamos contar. Dois jovens cordelistas viajam nesse mundo de poesia para a sua própria rima cantar

Os assuntos são os mais variados. Fatos da política, sertão, cotidiano ou romances podem virar tema de cordel. Pesquisadores apontam que a origem desta literatura, que ficou tão popular no Nordeste, seja alemã. No Brasil, os primeiros folhetos apareceram em 1893.

A popularização do cordel foi possível, apesar dos altos índices de analfabetismo, porque os poetas entoavam seus versos nas praças. As rimas melodiosas podem despertar os mais diversos sentimentos dos leitores. Reflexão, emoção, alegria, tristeza e até sonhos são revelados a cada novo verso. É neste sentido que trabalha a estudante de Pedagogia Julie Ane Oliveira, 18 anos. Filha de cordelista (Rouxinol do Rinaré), ela sempre esteve envolvida com cordéis. "Diria que desde que ´me entendo por gente´. No meu lar, a leitura sempre foi presente, assim como o arroz e o feijão (risos)", diz ela, que teve o primeiro contato com a literatura de cordel através da leitura dos trabalhos do pai, bem como também de clássicos de autoria de Leandro Gomes de Barros.


Julie Ane já publicou quatro cordéis e se prepara para lançar um novo trabalho
FOTO: KID JÚNIOR


Entre eles, "O cavalo que defecava dinheiro", "O cachorro dos mortos" e "A peleja de riachão com o diabo". "Como toda criança me encantei pela sonoridade das rimas, pelas histórias de príncipes, princesas, causos engraçados. Me via como personagem das histórias lidas. Algumas até tentava decorar. Até que um dia, descobri que podia criar minhas próprias histórias também", comenta Julie.


A estudante destaca que a leitura de autores contemporâneos, como Arievaldo Viana, Marco Haurélio e Klevisson Viana, também fez parte de sua formação enquanto escritora.


Atualmente, o encanto de Julie vai além das histórias e pelas rimas. "Meu maior fascínio é pela capacidade versátil que o cordel assume na sociedade atual, não apenas como instrumento de entretenimento, mas como uma eficiente ferramenta na educação, sendo utilizado em sala de aula como recurso paradidático", comenta ela, que fará o trabalho de conclusão da faculdade sobre essa temática.



Primeiros passos
Aos 10 anos, Julie já começava a criar seus primeiros versos. Um ano depois, ela já teve a oportunidade de publicar o primeiro texto em cordel: "A esperteza de João, o rapaz pobre que casou com uma princesa", publicado pela Tupynanquim Editora (2003). Hoje, a cordelista tem quatro publicações e pretende aumentar este número em breve.


"Tenho alguns trabalhos engavetados, mas nesse momento estou com um trabalho novo sendo ilustrado por Rafael Limaverde. O livro será direcionado para educação infantil, especialmente aos anos iniciais. A obra é intitulada ´Brincando com a matemática´ e será publicada pela Conhecimento Editora. O lançamento está previsto para maio na Livraria Cultura de Fortaleza", adianta ela, que desde quando começou a escrever, sentiu maior interesse pela literatura infantil.


"Minhas abordagens no geral são adaptações de contos clássicos, aventuras, romances de bravura (com príncipes e princesas). Só tenho um tema de drama. Chama-se ´Uma tragédia em família ou o pai que matou o filho´, que inclusive não foi tão bem aceito pelo público quanto o primeiro. Imagino que pelo impacto da temática talvez", destaca ela, que vê no cordel a possibilidade de dar uma cara nova para esses contos clássicos. "Mas procuro não me limitar, já fiz trabalhos por encomenda e trabalhei com variados temas. A minha real preferência são histórias que encantem o imaginário das crianças, assim como encantaram o meu", diz.

Inspiração nos Clássicos

Este é o mesmo caminho seguido pelo estudante Josué Lima, 13 anos. Há dois anos, ele fez uma oficina de cordel e já começou a escrever os primeiros versos. Depois de fazer um trabalho escolar sobre drogas, o jovem cordelista aproveitou o tema e lançou seu primeiro trabalho: "Os malefícios das drogas na visão de uma criança". Na sequência, lançou "O príncipe sortudo e a sapinha encantada" e "O Mandarim e a borboleta", em parceria com o pai Evaristo Geraldo.

Tímido, Josué gosta mesmo é de se expressar através dos textos. Segundo ele, seu processo criativo é natural e espontâneo. "Leio muito e depois vou criando as histórias aos poucos. Às vezes consulto o dicionário também", comenta o adolescente que está no oitavo ano e que ainda não pensou sobre qual carreira vai seguir. Uma coisa certa é que ele pretende mesmo continuar escrevendo.

Julie conta que também não tem uma rotina definida de criação. "A inspiração é que comanda. Algumas vezes no caso de encomendas, ou convite para participar de uma coleção, sento e rabisco meus primeiros versos. Mas, no geral, não tem hora nem lugar. O importante é ter sempre papel e caneta à mão", declara.



Desafios
Publicar os cordéis ainda é uma dificuldade encontrada pelos cordelistas. Atualmente, eles contam com algumas editoras especializadas, mas o público nem sempre valoriza a produção.

Além disso, a questão técnica (métrica, por exemplo) ainda é um desafio diário para Josué, que se aperfeiçoa por meio da leitura de outros cordéis. Já para Julie, não há problema nenhum. Meu hábito de leitura e escrita vem desde a infância. No entanto, algumas pessoas têm o dom, porém precisam aperfeiçoar a técnica. Pois, o cordel assim como o soneto, a crônica, o conto, tem suas peculiaridades na estrutura. Por isso, hoje trabalhamos muito com oficinas de cordel, visando dar um suporte a essas pessoas", diz a cordelista.

Izakeline Ribeiro - Repórter

Pata ver matéria na íntegra: Diário do Nordeste