terça-feira, 31 de maio de 2016

Cordéis Atemporais: O Cavalo que Defecava Dinheiro

 
Desenho do mestre Jô Oliveira. Livro digital publicado pela editora O Fiel Carteiro.
O cavalo que defecava dinheiro, uma das obras-primas do Rei do Cordel, Leandro Gomes de Barros, é uma história que costura diferentes motivos de contos de esperteza.  As disputas entre o camponês rico e o camponês pobre (ATU 1535)[1] é a base de muitos contos populares e de versões literárias que bebem na tradição oral, como a conhecida história Nicolau Grande e Nicolau Pequeno, dos Contos de Andersen. O tema da superação das provas impostas ao herói pelo seu oponente rico (que pode ser um rei ou um fazendeiro) e o da trapaça final, com o herói afirmando retornar do fundo do mar com muitas riquezas, está no conto de Hans Christian Andersen citado acima. No Brasil são abundantes as versões em que Pedro Malasartes e Camões (personagem de muitos contos de astúcia) figuram como heróis vingadores.

O motivo do animal (uma cabra) que defeca dinheiro está na versão russa recolhida por Aleksandr Afanas’ev, O bobo da corte, bem como o do instrumento que ressuscita (um chicote). No conto O abade Scarpacífico, das Piacevoli notti, do escritor renascentista italiano Gianfrancesco Straparola, o esperto protagonista se serve de uma gaita-de-foles para ludibriar os seus perversos compadres. Ambos os motivos, a partir do cordel de Leandro, lido pelo dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, foram aproveitados na peça cômica Auto da Compadecida (1955), em que o cavalo foi substituído por um “gato que descomia dinheiro”. Ariano havia lido o texto na obra Violeiros do Norte, do folclorista cearense Leonardo Mota. Da mesma coletânea, consta o folheto de gracejo O dinheiro (com a história do testamento do cachorro), também de Leandro, e O Castigo da Soberba, de Silvino Pirauá de Lima.
 
Ilustração de Klévisson Viana.
Trecho seminal da obra:

Aí chamou o compadre 
E saiu muito vexado, 
Para o lugar onde tinha 
O cavalo defecado.
O duque ainda encontrou 
Três moedas de cruzado.
Então exclamou o velho: 
— Só pude achar essas três! 
Disse o pobre: — Ontem à tarde 
Ele botou dezesseis! 
Ele já tem defecado
Dez mil réis mais de uma vez.
— Enquanto ele está magro 
Me serve de mealheiro. 
Eu tenho tratado dele 
Com bagaço do terreiro, 
Porém depois dele gordo 
Não há quem vença o dinheiro...
Disse o velho: — Meu compadre, 
Você não pode tratá-lo. 
Se for trabalhar com ele, 
É com certeza matá-lo. 
O melhor que você faz 
É vender-me este cavalo!
— Meu compadre, este cavalo 
Eu posso negociar
Só se for por uma soma 
Que dê para eu passar 
Com toda minha família, 
Sem precisar trabalhar.
O velho disse ao compadre: 
— Não é assim que se faz. 
Nossa amizade é antiga, 
Desde o tempo de seus pais. 
Dou-lhe seis contos de réis, 
Acha pouco, inda quer mais?



[1] No Catálogo Internacional do Conto Popular, a sigla que homenageia os formuladores, Anti Aarne, Stith Thompson e Hans-Jörg Uther, conserva suas iniciais ATU. O sistema alfa-numérico engloba contos de animais, maravilhosos, religiosos, novelescos, jocosos etc. O conto-tipo O camponês rico e o camponês pobre pertence à categoria dos contos jocosos

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