O
cavalo que defecava dinheiro, uma das obras-primas do Rei do Cordel, Leandro Gomes de Barros, é uma
história que costura diferentes motivos de contos de esperteza. As disputas entre o camponês rico e o camponês
pobre (ATU 1535)[1] é
a base de muitos contos populares e de versões literárias que bebem na tradição
oral, como a conhecida história Nicolau Grande e Nicolau Pequeno,
dos Contos de Andersen. O tema da superação das provas impostas ao herói
pelo seu oponente rico (que pode ser um rei ou um fazendeiro) e o da trapaça final,
com o herói afirmando retornar do
fundo do mar com muitas riquezas, está no conto de Hans Christian Andersen
citado acima. No Brasil são abundantes as versões em que Pedro Malasartes e
Camões (personagem de muitos contos de astúcia) figuram como heróis vingadores.
O
motivo do animal (uma cabra) que defeca dinheiro está na versão russa recolhida
por Aleksandr Afanas’ev, O bobo da corte, bem como o do instrumento que
ressuscita (um chicote). No conto O abade Scarpacífico, das Piacevoli
notti, do escritor renascentista italiano Gianfrancesco Straparola, o
esperto protagonista se serve de uma gaita-de-foles para ludibriar os seus
perversos compadres. Ambos os motivos, a partir do cordel de Leandro, lido pelo
dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, foram aproveitados na peça cômica Auto da Compadecida (1955), em que o
cavalo foi substituído por um “gato que descomia dinheiro”. Ariano havia lido o
texto na obra Violeiros do Norte, do
folclorista cearense Leonardo Mota. Da mesma coletânea, consta o folheto de
gracejo O dinheiro (com a história do
testamento do cachorro), também de Leandro, e O Castigo da Soberba, de Silvino Pirauá de Lima.
Trecho seminal da obra:
Aí chamou o compadre
E saiu muito vexado,
Para o lugar onde tinha
O cavalo defecado.
O duque ainda encontrou
Três moedas de cruzado.
E saiu muito vexado,
Para o lugar onde tinha
O cavalo defecado.
O duque ainda encontrou
Três moedas de cruzado.
Então exclamou
o velho:
— Só pude achar essas três!
Disse o pobre: — Ontem à tarde
Ele botou dezesseis!
Ele já tem defecado
Dez mil réis mais de uma vez.
— Só pude achar essas três!
Disse o pobre: — Ontem à tarde
Ele botou dezesseis!
Ele já tem defecado
Dez mil réis mais de uma vez.
— Enquanto ele está
magro
Me serve de mealheiro.
Eu tenho tratado dele
Com bagaço do terreiro,
Porém depois dele gordo
Não há quem vença o dinheiro...
Me serve de mealheiro.
Eu tenho tratado dele
Com bagaço do terreiro,
Porém depois dele gordo
Não há quem vença o dinheiro...
Disse o velho:
— Meu compadre,
Você não pode tratá-lo.
Se for trabalhar com ele,
É com certeza matá-lo.
O melhor que você faz
É vender-me este cavalo!
Você não pode tratá-lo.
Se for trabalhar com ele,
É com certeza matá-lo.
O melhor que você faz
É vender-me este cavalo!
— Meu compadre, este
cavalo
Eu posso negociar
Só se for por uma soma
Que dê para eu passar
Com toda minha família,
Sem precisar trabalhar.
Eu posso negociar
Só se for por uma soma
Que dê para eu passar
Com toda minha família,
Sem precisar trabalhar.
O velho disse
ao compadre:
— Não é assim que se faz.
Nossa amizade é antiga,
Desde o tempo de seus pais.
Dou-lhe seis contos de réis,
Acha pouco, inda quer mais?
— Não é assim que se faz.
Nossa amizade é antiga,
Desde o tempo de seus pais.
Dou-lhe seis contos de réis,
Acha pouco, inda quer mais?
[1] No Catálogo Internacional do Conto Popular, a sigla que homenageia os formuladores, Anti Aarne, Stith
Thompson e Hans-Jörg Uther, conserva suas iniciais ATU. O sistema alfa-numérico
engloba contos de animais, maravilhosos, religiosos, novelescos, jocosos etc. O
conto-tipo O camponês rico e o camponês
pobre pertence à categoria dos contos
jocosos.


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