quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Jornadas ao “outro mundo” na Literatura de Cordel

Entre os cordéis de enredo maravilhoso, merece destaque o bloco de histórias no qual o herói, geralmente o filho mais novo, e aparentemente o menos qualificado, de um rei acometido por uma doença, cegueira na maioria dos casos, vai em busca de um remédio encontrável num reino fora dos limites do mundo “conhecido”. Abaixo, um resumo e breve interpretação de duas narrativas, uma clássica e outra contemporânea, com tema semelhante, variando em seus pormenores. O trecho a seguir é uma adaptação de parte de minha dissertação de mestrado, O fio e a meada, defendida em 2024, no Instituto de Estudos Linguísticos da Universidade de Campinas (Unicamp):

O príncipe Oscar e a Rainha das Águas, romance atribuído a José Bernardo da Silva, conta a história de Nebul, rei da Pérsia, e dos seus filhos, Agar, André e Oscar. Sem uma razão aparente, o rei fica cego e uma velha, visitando o palácio, conta sobre um reino localizado a milhões de léguas, onde, vigiada por uma serpente, havia uma fonte milagrosa. Cada irmão, a um tempo, irá em busca do remédio para o pai, mas os dois primeiros terminam caindo em tentação e são aprisionados.

Oscar os liberta, chega ao reino e, instruído por um velho, mata a serpente, originalmente uma fada cruel que se apoderara da fonte. A Rainha das Águas, governante do lugar, promete visitá-lo em seu país no prazo de um ano. O rapaz acaba traído pelos irmãos que o embriagam e substituem a água milagrosa por água do mar. Quando Oscar banha os olhos do pai, este quase morre de dor. Os irmãos, então, curam o rei e o caçula é preso e condenado a morrer na floresta; escapa graças à compaixão dos guardas ante as suas súplicas. Termina escravizado por um camponês.

Passado um ano, a Rainha das Águas desembarca na Pérsia com um exército de cem mil homens, exigindo para falar com o vencedor da serpente. Agar e André vão ao navio e são expulsos. Começam as buscas por Oscar, agora reduzido à miséria. O camponês, sabendo tratar-se do príncipe, leva-o até a corte esperando ter a vida poupada. Oscar perdoa os irmãos, que tem a pena de morte comutada em exílio. Vai embora com a Rainha das Águas e acolhe o velhinho que fora o seu tutor.

Os exageros (a distância do reino, a quantidade de soldados a serviço da rainha) adicionam um humor involuntário à história. Racionalizado em alguns aspectos, em vez do morto agradecido, o enredo traz o velho conselheiro, que acrescenta bem pouco à história de ritmo irregular, embora não totalmente desarmoniosa. Ainda assim, está em consonância com o esquema de Joseph Campbell, reunindo vários passos da Aventura do herói.

Ressalte-se a importância do registro dos contos de tradição oral para comparação ou confronto, a exemplo de O reino da Água Azul, narrado por Djanira Feitosa, registrado em livro e adaptado, pela autora, para o cordel:

 

Vou contar uma história

Que se deu lá pelo sul

Trata-se de um senhor

Que se chamava Raul

A mesma recebe o título

O Reino da Água Azul

 

Esse senhor era rico,

Um homem de posição

E era pai de três filhos

José, Francisco e João

Porém não era feliz

Porque não tinha visão.

João, o protagonista, terá ajuda da rainha das garças, que lhe cederá as penas para chegar ao tal reino, do outro lado do mar. Antes encontra uma raposa, que diz ser seu anjo da guarda, e, em seguida, um cadáver já inchado, ao qual dá sepultura. A raposa reaparece e não fica claro se era a alma do defunto insepulto e sua aparição anterior serviu para guiar o rapaz até o cadáver. Ou se houve, em algum momento da transmissão oral do conto, um erro, antecipando um episódio que, quase sempre, tem lugar após o sepultamento. O palácio, onde vivia o pássaro encantado que, quando cantava, deixava escorrer do bico uma baba azul com poderes curativos, era guardado por uma serpente. João, com o par de asas confeccionadas com as penas da rainha das garças e suas filhas, chega ao reino, tenta despertar a princesa, colhe a baba mágica, mas, inadvertidamente, acorda a serpente. Esta sai em sua perseguição, mas, cansada, cai no mar e se afoga.

O herói reencontra os irmãos que o prendem numa cacimba e lhe roubam o elixir. É libertado por uma voz (o morto agradecido) e, ao chegar ao reino, encontra o pai curado. Em razão das mentiras contadas pelos irmãos, é enxotado para a cozinha, onde passa a dormir em meio às cinzas. A princesa, desencantada, vai em busca de seu salvador com um numeroso exército e chega à casa do velho Raul. Os filhos mais velhos são chamados, mas, quando indagados sobre o que viram no reino, mentem e são espancados a mando da princesa. Convocado, João conta a verdade, incluindo as injúrias sofridas em sua casa. O pai toma de volta a riqueza dividida com os filhos e a repassa a João.

Como os demais contos aqui estudados, o que inspirou o cordel de Djanira Feitosa replica algumas aventuras míticas. Quanto à raposinha, ausente do desfecho, situação anômala em contos do tipo, é graças à sua ajuda que se repara o dano (cegueira do rei ou do pai) e se restabelece a justiça. 

Em contos semelhantes, o auxiliar mágico sempre guia o herói para os reinos que se localizam fora do mundo “comum”, e que, nos ritos iniciáticos, equivalem ao além, o reino dos confins, segundo Vladimir Propp:


O reino a que chega o herói é separado da casa paterna por uma floresta impenetrável, um mar, um rio de fogo, com uma ponte vigiada pelo dragão, ou um abismo onde o herói cai ou desce. É o “reino dos confins”, o “outro reino” ou o “nunca visto”. Nele reina uma princesa altiva e orgulhosa, nele vive o dragão. É onde o herói vem procurar a bela raptada, raridades, as maçãs da juventude, a água da cura da vida, que proporcionam juventude e saúde eternas.

O animal como morto agradecido é o ancestral totêmico do herói e as suas viagens são similares às perigosas jornadas xamânicas à terra dos mortos das quais ele retorna somente quando encontra o elixir. Já o tema do morto figurado em cavaleiro ou comerciante é uma clara atualização, refletindo contextos sociais e econômicos consonantes com a área de difusão, bem como a transformação do reino dos confins em uma ilha ou cidade comum.

Para Propp, “uma racionalização das mais tardias transforma o herói em mercador, a travessia em viagem marítima de negócios e a cidade em porto”, situação que claramente remete ao “livro do povo” João de Calais. No conto “A raposinha”, recolhido por Silvio Romero, e nos cordéis com motivos similares, remanescentes de contextos mitológicos arcaicos, o resgate ocorre por meio de uma jornada ao “outro mundo”.

Referências:

FEITOSA, Djanira. A história do reino da água azul. [S. l.]: Edição do Autor, 2013.

PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução: Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

SILVA, José Bernardo da Silva. O príncipe Oscar e a rainha das águas. Fortaleza: Tupynanquim, 2001.

 

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