O papagaio misterioso, extenso romance de Luís da Costa Pinheiro, começa com um alerta ao leitor e um autoelogio para, em seguida, retomar a fórmula tradicional de opor virtudes e vícios para evidenciar a feição exemplar da história. O termo trancoso, aqui, aparece negativado ante a jactância do autor:
Leitor, não venho massar-te
Com história de trancoso
Dos dramas de aventura
Este é o mais primoroso
A vida de uma princesa
E um Papagaio Misterioso.
Nessa história se vê
A luz da santa pureza
Da falsidade cruel
A perturbante surpresa
Como um Papagaio fez
Dos dois santos a defesa.
Depois de realçar a originalidade
de sua história, o autor nos apresenta ao papagaio, que fará a defesa dos
“santos”, ou seja, do casal protagonista, formado por Alvino, um rapaz
pobrezinho, e uma princesa fadada a casar-se com ele e, por isso, isolada do
mundo por ordem do pai. Servindo ao rei como jardineiro, Alvino adentra o
palácio da princesa reclusa e, depois de trocarem juras de amor, usa um ardil
para livrá-la da “prisão”: esconde-a num saco, como se fosse uma cavala
(peixe). O jardineiro pede permissão ao rei para casar-se com sua noiva, que,
por enquanto, deveria permanecer incógnita, e é atendido. Ganha do sogro, que
ignora o truque, um palácio, onde vai viver com a esposa. Contudo, ao receber o
ultimato de um príncipe pagão, que exige a mão de sua filha, o rei promove Alvino
a general e o envia para a guerra. Antes de partir, ele encontra um menino que
lhe oferece um papagaio:
— Me
compre esse papagaio
Que lhe
pretendo vender
Um
bichinho inteligente
Que
tudo sabe dizer
Conhece
segredos ocultos
Que ninguém pode saber.
Alvino adquire o papagaio para
fazer companhia à mulher em sua ausência. A princesa não escapa ao olhar
cobiçoso de Jobão, o irmão cruel de Alvino, que o enxotara de casa antes de ele
entrar a serviço do rei. Depois de ser escorraçado pelo papagaio, o malvado
recorre a uma velha, que se fingia de mendiga, com quem sela um pacto de
sangue, para iludir a princesa e marcar um encontro com ele. A velha vai até a
casa, mas leva uma sova do papagaio, que a deixa por morta, arrancando-lhe um
olho:
Assim
que ele soltou-a
Ela sai
dizendo: — Raio!
Quase
que morro agora
Nas
unhas do sarangaio
Quem
não conhece Miguel
Chama aquilo papagaio.
Depois da surra, a velha, que,
na verdade, era o Diabo, ensina a Jobão um meio de vingar-se de Alvino e da
princesa: ele deve denunciá-la como adúltera ao rei, descrevendo, como prova
irrefutável, um sinal que ela traz no peito, em forma de rosa. Feita a
denúncia, a princesa e, depois Alvino, que voltara vitorioso da guerra, são
presos e sentenciados à morte. Na hora da execução, o papagaio pede licença ao
rei e sai à caça da velha/Diabo, trazendo-a sob ameaça de nova surra e
obrigando-a a contar toda a verdade. Desfeito o engano, Alvino é promovido a
marechal e recebe, do sogro, a coroa. O papagaio revela ser o anjo tutelar do casal
e voa para o céu. Alvino perdoa o irmão.
Teria Luís da Costa Pinheiro se
inspirado em uma obra em particular ou teria montado um quebra-cabeça com os
motivos readequados ao enredo por ele desenvolvido?
Classificação tipológica - Há um conto de tradição oral, The Tale-Telling Parrot (O papagaio contador de histórias), nº 1352A no Índice ATU, com vários episódios do “drama de aventuras” acima parafraseado ao qual o autor, para disfarçar sua fonte, adicionou motivos independentes, como remendos, extraídos de outras histórias. Em seu essencial, o conto consiste na ação de um papagaio (conto-moldura) que narra histórias para a sua senhora, impedindo-a de, na ausência do marido, acompanhar uma velha alcoviteira a serviço de um rapaz apaixonado (Mot. K1591).
Sílvio Romero registrou duas
versões sergipanas do conto, ambas denominadas “O príncipe cornudo”. Na
primeira (nº 13), um príncipe, que veio ao mundo com a sina de ser cornudo, migra
para uma terra distante para livrar o pai de tal vergonha. Arremata, num
leilão, um papagaio e, precisando partir para “umas guerras”, deixa-o com a
princesa, com quem se casara. A princesa sai, então, à sacada, sendo vista por
um moço, que por ela se apaixona. Pede a uma velha para intermediar o encontro
e esta convida a princesa para ser madrinha de um batizado. O papagaio que até
então mantivera-se calado pede para contar uma história, e a princesa consente.
A história se estende até altas horas, frustrando os planos da velha. Isso se
repetirá por três noites, até o retorno do príncipe e a consequente quebra da
maldição. O papagaio, “que era um anjo, voou para os céus” (Romero, 1985, p.
62). A segunda versão (nº 50) diverge da anterior nas histórias narradas e no
final: o papagaio, depois de cumprir a missão, morre e o casal avista, em
seguida, um anjinho subir ao céu.
Portugal apresenta, conforme o Catálogo do conto tradicional português (2015),
três versões recolhidas por Ataíde Oliveira (1900), “Um papagaio”, Leite de
Vasconcelos (1963), “O papagaio”, e Jeanne Purcell (1969/70), “A aposta”.
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| Papagaio discursando para Khojasta no Tutinama, obra encomendada por Akbar, c. 1556-1565. |
Ecos do Oriente - O enredo-base do Papagaio misterioso consta do Sukasaptati
(Çukasaptati) hindu ou Setenta
contos do papagaio, coletânea do século XII, traduzida (ou adaptada) para o
persa pelo médico sufi Ziya'al-Din Nakhshabi, no século XIV, como Tuti-namé
(variando em Tooti Nameh, Tutinama) ou O livro do papagaio.
Este último narra a história do mercador Miemun e de sua esposa Khojisteh: ao
viajar a negócios, o marido a deixa aos cuidados de um papagaio adquirido
mediante grande quantia. O episódio a seguir, determinante em todas as versões
orais, traz uma invariável (a descoberta da beleza da princesa) e uma variável
(ela corresponde ao galanteio do sedutor): “Quando um príncipe de outro país,
que havia viajado para aquela cidade, tendo sido fisgado pelas bochechas
brilhantes de Khojisteh, distraiu-se por seu amor; e Khojisteh também ficou fascinada
ao ver o príncipe”. (Nakhshabi, 1801, p. 13, tradução nossa).
Ainda que o papagaio, na
ausência do amo, distraia a senhora com belas histórias, sua propensão ao
adultério acaba sendo punida pelo ciumento marido, em seu retorno, com a morte.
Os contos e o cordel, como se nota, amenizam o caráter misógino do Tuti-namé
e trazem um elemento verdadeiramente novo: o papagaio é o anjo da guarda do
casal. Diferentemente, no Sukasaptati, Prabhavattî, a esposa é perdoada
pelo marido, o príncipe Madana. E o papagaio, atuando como conciliador, narra a
última história para ambos:
Madana, então, obediente ao desejo do Papagaio, levou Prabhavattî para casa, e seu pai, Haridatta, regozijando-se com o retorno do filho, promoveu uma grande festa. Enquanto o festival prosseguia, uma chuva de flores caiu do céu, e o Papagaio — o conselheiro e confidente de Prabhavati — livre da maldição que o obrigara a usar a forma de um papagaio, ascendeu à morada dos deuses, e Madana e Prabhavattî passaram o resto de suas vidas em paz e felicidade (Chintamani, 1911, p. 127).
A apoteose do papagaio, culminando
com a chuva de flores, fato extraordinário em si mesmo, repete-se no cordel:
Olhem,
não sou Papagaio
Sou [o]
anjo tutelar
O anjo
da tua guarda
Que vim
para te livrar
Receba
os quatro vinténs
Que
quero me retirar.
[...]
Quando
ele ia voando
Ia
soltando muitas flores
E cujas
flores caíam
Sobre o
colo dos senhores
Cantando
hinos angélicos
Oferecendo a Deus louvores.
A ascensão do papagaio à morada dos deuses explica por que, nas versões modernas de cariz cristão e no cordel, ele foi convertido em anjo, evitando, não somente o adultério da esposa, mas, também, o desfecho trágico do Tuti-namé.
Nota: para acessar a minha dissertação de mestrado, Ofio e a meada: classificação tipológica e uma história cultural da literaturade cordel, de onde o texto acima foi extraído, no repositório da Unicamp, clique AQUI.
REFERÊNCIAS
CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos
contos tradicionais portugueses: com as versões análogas dos países lusófonos.
Lisboa: Afrontamento, 2015.
CHINTAMANI. The Enchanted Parrot, a Selection
from the Suka Saptati, or, The Seventy Tales of a Parrot. Tradução para o
inglês: Biscoe Hale Wortham. Londres: Luzac & Co, 1911.
NAKHSHABI, Ziya'al-Din. The Tooti Nameh: or
tales of a parrot in the Persian language with an English translation. London:
J. Debrett, Piccadilly, 1801.
PINHEIRO, Luís da Costa. O papagaio misterioso; os
sofrimentos de Jobão. São Paulo: Luzeiro, [195-?].
ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil.
Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985.



