Por ELIANE VERBENA / VERBENA ASSESSORIA
![]() |
| Coldelteca (foto de André Bueno) |
Blogue do cordelista e pesquisador Marco Haurélio
Por ELIANE VERBENA / VERBENA ASSESSORIA
![]() |
| Coldelteca (foto de André Bueno) |
![]() |
| Xilogravura de Lucélia Borges (detalhe) |
O Juiz Injusto
Um homem, que falava sempre em Deus, foi acusado injustamente
de ter matado outro. O verdadeiro assassino arranjou falsas testemunhas contra
ele. Um juiz muito cruel, pago pelo assassino, ordenou que prendessem o homem
devoto e o julgamento foi marcado. Se condenado, ficaria preso por muitos anos.
Para parecer que o julgamento seria justo, o juiz chamou o povo para
assisti-lo. Depois, pegou dois papéis dobrados e os levou até o réu dizendo:
— Já que você fala tanto em Deus, vamos deixar que Ele
decida por você. Num papel está escrito condenado
e no outro, inocente. Boa sorte!
Mas nos dois papéis constava somente a palavra condenado.
O réu murmurou: “Deus me livre!” e rompeu em direção à caixa
onde estavam os dois papéis; pegou um, fez de conta que ia abri-lo, mas, para
surpresa geral, levou-o à boca e o engoliu. O juiz, que recebera por fora para
condená-lo, ferveu de raiva:
— Está maluco, infeliz?
O homem, sereno, respondeu:
— Não, seu juiz. Pelo contrário. Agora, sim, tenho certeza
de que se fará justiça. O senhor não disse que o papel decidiria minha sina?
Pois bem: se neste papel que restou estiver escrito inocente, o que engoli era o condenado.
Se, ao contrário, neste papel contiver a palavra condenado, significa que engoli o inocente.
Aberto o papel, o homem foi inocentado e o juiz ficou
desmoralizado perante o povo.
Passados muitos anos, arrependido, o juiz encontrou o homem
e contou toda a história.
Contado por José Alexandrino de Oliveira
Serra do Ramalho, Bahia.
NOTA: Nathan Ausubel reuniu no
livro A Treasury of Jewish Folklore (Crown Edition, 1948), como o
próprio título indica, várias preciosidades da tradição oral judaica,
espalhadas por muitos países. Um desses contos, O rabino e o inquisidor,
é ambientado em Sevilha antes da expulsão dos judeus da Espanha, em
plena efervescência da fúria persecutória da Inquisição espanhola.
Um menino cristão fora morto e os
judeus acusados de assassinato. O rabino, como líder da comunidade judaica, compareceu
diante do Grande Inquisidor. Não havia qualquer prova, mas o ardiloso
inquisidor valeu-se de um truque: deixaria a decisão para Deus, depositando
numa caixa dois pedaços de papel; um, com a palavra “culpado”, e o outro em
branco. Notando que o astuto inquisidor queria mandá-lo para a fogueira, o rabino
rapidamente levou à boca um dos papéis, engolindo- o em seguida. Ante a fúria
do inquisidor, o rabino, sereno, explicou que bastava conferir o papel na
caixa, o que foi feito. Se aquele papel dizia “culpado”, ele engolira o que estava
em branco, argumentou. E o inquisidor, humilhado, teve de deixá-lo partir.
Nos Studies in Jewish and
World Folklore (p. 237-38), Haim Schwarzbaum compendiou, além da lenda acima,
outras, ligadas à tradição judaica. Numa, o juiz simula escrever “for life”
(para a vida) ou “for death” (para a morte), depositando as duas folhas numa
caixa. O judeu sagaz, sentindo cheiro de farsa, escondeu um dos papéis no
bolso. Questionado sobre o que estava escrito na folha, ele pediu que
examinassem a deixada na caixa. Foi absolvido. Schwarzbaum cita ainda uma
versão iraquiana na qual um judeu afirma diante do rei, que o condenara à
morte, que este morrerá dois dias depois dele, e se safa por meio da astúcia. O
juiz injusto segue a estrutura dos contos citados; todavia, sobrepõe
a arrogância do homem da lei à devoção do acusado, atualização temática que
conserva vestígios dos contos de sabedoria do povo de Israel. No Índice de
Stith Thompson, o motivo H220 se refere às provocações para definição de culpa
ou inocência.
In: HAURÉLIO, Marco. Contos Encantados do
Brasil. Belo Horizonte: Aletria, 2022.
Foi publicado, no apagar das luzes de 2025, o livro Cordéis para a vida inteira, pela editora Movimenta. Ilustrada em xilogravuras por Lucélia Borges, que entalhou inclusive os títulos dos folhetos, é uma obra que reúne sete títulos escritos em cerca de vinte anos de caminhada. Abaixo a breve apresentação, que dá uma ideia do conjunto da obra:
Quando se fala em cordel, a imagem que vem à cabeça de muita gente é a de um mandacaru florido ou um chapéu estrelado de cangaceiro. Esse reducionismo também faz com que muitos pensem que os temas mais recorrentes do cordel estejam relacionados unicamente ao Nordeste. Ocorre que, desde os primórdios da editoração do cordel no Nordeste, no início do século XX, o cordel sempre se recusou a obedecer a fronteiras estabelecidas. Essas produções pioneiras, que podem ser divididas em dois grandes blocos – um de temas perenes, ligados à tradição oral e à literatura em sentido mais amplo, e outro de temas históricos ou circunstanciais –, sempre fugiam à simplificação, mesclando, por vezes, o imaginário medieval aos dramas sertanejos. A maior parte dos textos que compõem a presente antologia está arrolada no primeiro bloco.
![]() |
| Peripécias da Raposa no Reino da Bicharada. Xilo de Lucélia Borges |
![]() |
| História do Urubu-Rei. Xilogravura de Lucélia Borges. |
Gênero cujas origens são imprecisas,
embora converse com as canções de gesta da Idade Média e a literatura popular
de Portugal, Espanha e França, influenciada ainda por todas as matrizes que
compõem o mosaico de nossa identidade, o cordel, como o conhecemos, alcançou o
seu ápice com o poeta pioneiro Leandro Gomes de Barros (1965-1918). Nascido no
sertão paraibano, mas estabelecido, desde a juventude em Pernambuco, este poeta
lançou as bases do cordel nordestino, fundindo sagas de cavaleiros com
histórias sertanejas, lidas até hoje. Leandro é a minha principal referência,
e, por isso, eu o homenageou no romance “O tribunal do destino”.
![]() |
| Muitos anos de poesia. Xilo de Lucélia Borges |
Folhetos que compõem a coletânea:
Peripécias da Raposa no reino da bicharada
O pobre que trouxe a sina de casar com uma princesa
História do Urubu-rei e da princesa que não mentia
Viva Deus e mais ninguém!
As babuchas de Abu Kasem
O tribunal do destino
Muitos anos de poesia
[*] Romance, no sentido original, era uma
composição em versos, mais longa que a maioria dos poemas, escrito em línguas
também chamadas de “romance” (derivadas do latim, a exemplo do português, do
espanhol ou do francês).
![]() |
Marcus Lucenna, autodenominado Cantador dos Qu4tro Cantos, poeta e forrozeiro, divulgador incansável das tradições populares do Nordeste, nos deixou ontem, 5 de março, vitimado por um ataque cardíaco. Natural de Mossoró, Rio Grande do Norte, tinha no pai, Antônio Lucena, o Majó Lucena, o grande espelho de sua arte e em Luiz Gonzaga a inspiração maior.
Foi Chico
Salles, também de saudosa memória, que me apresentou a Lucenna, em 2006, quando
estive pela primeira vez no Rio de Janeiro, na sede da Academia Brasileira de
Literatura de Cordel. Depois disso, nos encontramos muitas vezes. Estivemos
juntos em vários encontros em Brasília, onde foi lançada a semente para que a
Literatura de Cordel fosse reconhecida como patrimônio cultural e imaterial do
Brasil.
Quando fui “eleito”
para a ABLC, ele e Chico Salles me apoiaram, pregando uma renovação nos quadros
da entidade. E quando me desliguei, em 2008, externou a sua decepção, mas não
deixou de apoiar minha decisão, compreendendo minha postura de autonomia e
independência no tocante às entidades ligadas ao mundo do cordel.
E, toda vez que
eu retornava ao Rio, a cerveja, regada a boa prosa, era obrigatória. Fora
testemunha de muitas histórias envolvendo o rei do Baião, Luiz Gonzaga, e
personagens imortalizados em seu repertório, como o Zé Nabo, do clássico “Forró
de cabo a rabo”. Quando, em 2020, de forma inesperada, perdemos Arievaldo Viana,
ele me contou como conheceu o poeta, ainda jovem, “sem parentes importantes e
vindo do interior”, para fazer história na capital cearense e no restante do
país.
| Homenagem do cordelista e cartunista Klévisson Viana |
O cordel mais
conhecido de Lucenna é A peleja do cérebro com o coração, que ele orgulhava de
ter licenciado dezenas de vezes para livros didáticos, ampliando em muito a
divulgação e alcance da obra. Na peleja da vida com a morte, o coração do poeta
não resistiu, e ele nos deixa aos 68 anos. Sua obra, no entanto, permanece viva
em discos, cordéis e nas trajetórias de inúmeros artistas para os quais abriu
portas e janelas.
Por isso, não surpreende que tenha recebido muitas homenagens, desde políticos a instituições, como o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, além de artistas como Klévisson Viana. O repentista cearense Miguel Bezerra, radicado Em Nova Iguaçu, no Rio, por exemplo, dedicou-lhe estes versos, publicados no Facebook:
Marcus
Lucenna vivia,
Cantando
xote e baião,
Seresta
samba canção,
Glosa,
cordel, cantoria,
Mas
se nós temos um dia,
Pra
perder nossos encantos,
Hoje
tem dores e prantos
Nos
moldes da sua arena:
Perdemos
Marcos Lucenna,
Cantador
dos Quatro Cantos.
![]() |
| A intriga do cachorro com o gato. Capa: autoria não identifada. |
O sucesso do folheto A festa dos bichos ou As aventuras de um porco embriagado, do piauiense Firmino Teixeira do Amaral, publicado pela Guajarina em 1922, inspirou José Pacheco da Rocha, o grande humorista do cordel, a compor, ao menos, duas obras-primas, A festa dos cachorros e A intriga do cachorro com o gato. A ideia central de tais histórias é extrair uma lição do tempo em que os bichos falavam associando cada bicho a uma atividade humana, ainda que conectada a uma característica “animal”:
Quando cachorro falava
gato falava também
gato tinha uma bodega
como hoje os homens têm
onde vendia cachaça
encostado ao armazém.
O peru
vendia milho
porco, feijão e farinha
com um cacho de banana,
mais tarde macaco vinha
raposa também trazia
um garajau de galinha.
Carneiro passava a noite
junto com a sua irmã
descaroçando algodão
e quando era de manhã
para o armazém do gato
trazia sacas de lã.
Guariba vendia escova
que fazia do bigode
urubu vendia goma
porque tem de lavra e pode
a onça suçuarana
vendia couro de bode.
A intriga do cachorro com o
gato é uma
livre adaptação do ATU 200 (Origem da inimizade entre cão e gato), tipo
do qual Braulio do Nascimento (2005) apresenta quatro versões orais, incluindo
a recolhida por Câmara Cascudo, “Por que o cachorro é inimigo do gato… e gato
de rato” (Cascudo, 2004, p. 274-5). A fábula “La Querelle des chiens et des
chats, et celle des chats et des souris” (A briga de cães com os gatos, e dos
gatos com os ratos), de Jean de La Fontaine, datada de 1694, com a mesmíssima
história, foi vertida para o português por um tradutor anônimo:
Tudo no mundo anda em guerra,
Seja bruto ou seja humano:
É a lei que rege a terra,
E não profundo este arcano.
Comparemos o preâmbulo acima
com o início do cordel de Pacheco:
A Intriga é mãe da Raiva,
o Mau-Pensamento é pai
da casa da Malquerença
o Desmantelo não sai
enquanto a Intriga rende
a Revolução não cai.
Já A festa dos cachorros
baseia-se em conhecida anedota, também de cariz etiológico, que explica o
porquê de estes animais cheirarem os traseiros uns dos outros (ATU 200B: Por que é que os cães se
cheiram). Há outra versão em cordel, de autoria de Abraão Batista, História
da razão dos cachorros cheirarem o fiofó uns dos outros, publicada em
Juazeiro do Norte, em 2010.
REFEFRÊNCIAS:
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do
Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004.
LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine.
São Paulo: Edigraf, [1957?].
NASCIMENTO, Bráulio do. Catálogo do conto
popular brasileiro. Rio de Janeiro: IBECC: Tempo Brasileiro, 2005.
PACHECO, José. A intriga do cachorro com o gato.
Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, [199-?].
O papagaio misterioso, extenso romance de Luís da Costa Pinheiro, começa com um alerta ao leitor e um autoelogio para, em seguida, retomar a fórmula tradicional de opor virtudes e vícios para evidenciar a feição exemplar da história. O termo trancoso, aqui, aparece negativado ante a jactância do autor:
Leitor, não venho massar-te
Com história de trancoso
Dos dramas de aventura
Este é o mais primoroso
A vida de uma princesa
E um Papagaio Misterioso.
Nessa história se vê
A luz da santa pureza
Da falsidade cruel
A perturbante surpresa
Como um Papagaio fez
Dos dois santos a defesa.
Depois de realçar a originalidade
de sua história, o autor nos apresenta ao papagaio, que fará a defesa dos
“santos”, ou seja, do casal protagonista, formado por Alvino, um rapaz
pobrezinho, e uma princesa fadada a casar-se com ele e, por isso, isolada do
mundo por ordem do pai. Servindo ao rei como jardineiro, Alvino adentra o
palácio da princesa reclusa e, depois de trocarem juras de amor, usa um ardil
para livrá-la da “prisão”: esconde-a num saco, como se fosse uma cavala
(peixe). O jardineiro pede permissão ao rei para casar-se com sua noiva, que,
por enquanto, deveria permanecer incógnita, e é atendido. Ganha do sogro, que
ignora o truque, um palácio, onde vai viver com a esposa. Contudo, ao receber o
ultimato de um príncipe pagão, que exige a mão de sua filha, o rei promove Alvino
a general e o envia para a guerra. Antes de partir, ele encontra um menino que
lhe oferece um papagaio:
— Me
compre esse papagaio
Que lhe
pretendo vender
Um
bichinho inteligente
Que
tudo sabe dizer
Conhece
segredos ocultos
Que ninguém pode saber.
Alvino adquire o papagaio para
fazer companhia à mulher em sua ausência. A princesa não escapa ao olhar
cobiçoso de Jobão, o irmão cruel de Alvino, que o enxotara de casa antes de ele
entrar a serviço do rei. Depois de ser escorraçado pelo papagaio, o malvado
recorre a uma velha, que se fingia de mendiga, com quem sela um pacto de
sangue, para iludir a princesa e marcar um encontro com ele. A velha vai até a
casa, mas leva uma sova do papagaio, que a deixa por morta, arrancando-lhe um
olho:
Assim
que ele soltou-a
Ela sai
dizendo: — Raio!
Quase
que morro agora
Nas
unhas do sarangaio
Quem
não conhece Miguel
Chama aquilo papagaio.
Depois da surra, a velha, que,
na verdade, era o Diabo, ensina a Jobão um meio de vingar-se de Alvino e da
princesa: ele deve denunciá-la como adúltera ao rei, descrevendo, como prova
irrefutável, um sinal que ela traz no peito, em forma de rosa. Feita a
denúncia, a princesa e, depois Alvino, que voltara vitorioso da guerra, são
presos e sentenciados à morte. Na hora da execução, o papagaio pede licença ao
rei e sai à caça da velha/Diabo, trazendo-a sob ameaça de nova surra e
obrigando-a a contar toda a verdade. Desfeito o engano, Alvino é promovido a
marechal e recebe, do sogro, a coroa. O papagaio revela ser o anjo tutelar do casal
e voa para o céu. Alvino perdoa o irmão.
Teria Luís da Costa Pinheiro se
inspirado em uma obra em particular ou teria montado um quebra-cabeça com os
motivos readequados ao enredo por ele desenvolvido?
Classificação tipológica - Há um conto de tradição oral, The Tale-Telling Parrot (O papagaio contador de histórias), nº 1352A no Índice ATU, com vários episódios do “drama de aventuras” acima parafraseado ao qual o autor, para disfarçar sua fonte, adicionou motivos independentes, como remendos, extraídos de outras histórias. Em seu essencial, o conto consiste na ação de um papagaio (conto-moldura) que narra histórias para a sua senhora, impedindo-a de, na ausência do marido, acompanhar uma velha alcoviteira a serviço de um rapaz apaixonado (Mot. K1591).
Sílvio Romero registrou duas
versões sergipanas do conto, ambas denominadas “O príncipe cornudo”. Na
primeira (nº 13), um príncipe, que veio ao mundo com a sina de ser cornudo, migra
para uma terra distante para livrar o pai de tal vergonha. Arremata, num
leilão, um papagaio e, precisando partir para “umas guerras”, deixa-o com a
princesa, com quem se casara. A princesa sai, então, à sacada, sendo vista por
um moço, que por ela se apaixona. Pede a uma velha para intermediar o encontro
e esta convida a princesa para ser madrinha de um batizado. O papagaio que até
então mantivera-se calado pede para contar uma história, e a princesa consente.
A história se estende até altas horas, frustrando os planos da velha. Isso se
repetirá por três noites, até o retorno do príncipe e a consequente quebra da
maldição. O papagaio, “que era um anjo, voou para os céus” (Romero, 1985, p.
62). A segunda versão (nº 50) diverge da anterior nas histórias narradas e no
final: o papagaio, depois de cumprir a missão, morre e o casal avista, em
seguida, um anjinho subir ao céu.
Portugal apresenta, conforme o Catálogo do conto tradicional português (2015),
três versões recolhidas por Ataíde Oliveira (1900), “Um papagaio”, Leite de
Vasconcelos (1963), “O papagaio”, e Jeanne Purcell (1969/70), “A aposta”.
![]() |
| Papagaio discursando para Khojasta no Tutinama, obra encomendada por Akbar, c. 1556-1565. |
Ecos do Oriente - O enredo-base do Papagaio misterioso consta do Sukasaptati
(Çukasaptati) hindu ou Setenta
contos do papagaio, coletânea do século XII, traduzida (ou adaptada) para o
persa pelo médico sufi Ziya'al-Din Nakhshabi, no século XIV, como Tuti-namé
(variando em Tooti Nameh, Tutinama) ou O livro do papagaio.
Este último narra a história do mercador Miemun e de sua esposa Khojisteh: ao
viajar a negócios, o marido a deixa aos cuidados de um papagaio adquirido
mediante grande quantia. O episódio a seguir, determinante em todas as versões
orais, traz uma invariável (a descoberta da beleza da princesa) e uma variável
(ela corresponde ao galanteio do sedutor): “Quando um príncipe de outro país,
que havia viajado para aquela cidade, tendo sido fisgado pelas bochechas
brilhantes de Khojisteh, distraiu-se por seu amor; e Khojisteh também ficou fascinada
ao ver o príncipe”. (Nakhshabi, 1801, p. 13, tradução nossa).
Ainda que o papagaio, na
ausência do amo, distraia a senhora com belas histórias, sua propensão ao
adultério acaba sendo punida pelo ciumento marido, em seu retorno, com a morte.
Os contos e o cordel, como se nota, amenizam o caráter misógino do Tuti-namé
e trazem um elemento verdadeiramente novo: o papagaio é o anjo da guarda do
casal. Diferentemente, no Sukasaptati, Prabhavattî, a esposa é perdoada
pelo marido, o príncipe Madana. E o papagaio, atuando como conciliador, narra a
última história para ambos:
Madana, então, obediente ao desejo do Papagaio, levou Prabhavattî para casa, e seu pai, Haridatta, regozijando-se com o retorno do filho, promoveu uma grande festa. Enquanto o festival prosseguia, uma chuva de flores caiu do céu, e o Papagaio — o conselheiro e confidente de Prabhavati — livre da maldição que o obrigara a usar a forma de um papagaio, ascendeu à morada dos deuses, e Madana e Prabhavattî passaram o resto de suas vidas em paz e felicidade (Chintamani, 1911, p. 127).
A apoteose do papagaio, culminando
com a chuva de flores, fato extraordinário em si mesmo, repete-se no cordel:
Olhem,
não sou Papagaio
Sou [o]
anjo tutelar
O anjo
da tua guarda
Que vim
para te livrar
Receba
os quatro vinténs
Que
quero me retirar.
[...]
Quando
ele ia voando
Ia
soltando muitas flores
E cujas
flores caíam
Sobre o
colo dos senhores
Cantando
hinos angélicos
Oferecendo a Deus louvores.
A ascensão do papagaio à morada dos deuses explica por que, nas versões modernas de cariz cristão e no cordel, ele foi convertido em anjo, evitando, não somente o adultério da esposa, mas, também, o desfecho trágico do Tuti-namé.
Nota: para acessar a minha dissertação de mestrado, Ofio e a meada: classificação tipológica e uma história cultural da literaturade cordel, de onde o texto acima foi extraído, no repositório da Unicamp, clique AQUI.
REFERÊNCIAS
CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos
contos tradicionais portugueses: com as versões análogas dos países lusófonos.
Lisboa: Afrontamento, 2015.
CHINTAMANI. The Enchanted Parrot, a Selection
from the Suka Saptati, or, The Seventy Tales of a Parrot. Tradução para o
inglês: Biscoe Hale Wortham. Londres: Luzac & Co, 1911.
NAKHSHABI, Ziya'al-Din. The Tooti Nameh: or
tales of a parrot in the Persian language with an English translation. London:
J. Debrett, Piccadilly, 1801.
PINHEIRO, Luís da Costa. O papagaio misterioso; os
sofrimentos de Jobão. São Paulo: Luzeiro, [195-?].
ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil.
Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985.
Entre os cordéis de enredo maravilhoso, merece destaque o bloco de histórias no qual o herói, geralmente o filho mais novo, e aparentemente o menos qualificado, de um rei acometido por uma doença, cegueira na maioria dos casos, vai em busca de um remédio encontrável num reino fora dos limites do mundo “conhecido”. Abaixo, um resumo e breve interpretação de duas narrativas, uma clássica e outra contemporânea, com tema semelhante, variando em seus pormenores. O trecho a seguir é uma adaptação de parte de minha dissertação de mestrado, O fio e a meada, defendida em 2024, no Instituto de Estudos Linguísticos da Universidade de Campinas (Unicamp):
O
príncipe Oscar e a Rainha das Águas, romance atribuído a José
Bernardo da Silva, conta a história de Nebul, rei da Pérsia, e dos seus filhos,
Agar, André e Oscar. Sem uma razão aparente, o rei fica cego e uma velha,
visitando o palácio, conta sobre um reino localizado a milhões de léguas, onde,
vigiada por uma serpente, havia uma fonte milagrosa. Cada irmão, a um tempo,
irá em busca do remédio para o pai, mas os dois primeiros terminam caindo em
tentação e são aprisionados.
Oscar os liberta, chega ao reino
e, instruído por um velho, mata a serpente, originalmente uma fada cruel que se
apoderara da fonte. A Rainha das Águas, governante do lugar, promete visitá-lo
em seu país no prazo de um ano. O rapaz acaba traído pelos irmãos que o
embriagam e substituem a água milagrosa por água do mar. Quando Oscar banha os
olhos do pai, este quase morre de dor. Os irmãos, então, curam o rei e o caçula
é preso e condenado a morrer na floresta; escapa graças à compaixão dos guardas
ante as suas súplicas. Termina escravizado por um camponês.
Passado um ano, a Rainha das
Águas desembarca na Pérsia com um exército de cem mil homens, exigindo para
falar com o vencedor da serpente. Agar e André vão ao navio e são expulsos. Começam
as buscas por Oscar, agora reduzido à miséria. O camponês, sabendo tratar-se do
príncipe, leva-o até a corte esperando ter a vida poupada. Oscar perdoa os
irmãos, que tem a pena de morte comutada em exílio. Vai embora com a Rainha das
Águas e acolhe o velhinho que fora o seu tutor.
Os exageros (a distância do
reino, a quantidade de soldados a serviço da rainha) adicionam um humor involuntário
à história. Racionalizado em alguns aspectos, em vez do morto agradecido, o
enredo traz o velho conselheiro, que acrescenta bem pouco à história de ritmo
irregular, embora não totalmente desarmoniosa. Ainda assim, está em consonância
com o esquema de Joseph Campbell, reunindo vários passos da Aventura do herói.
Ressalte-se a importância do
registro dos contos de tradição oral para comparação ou confronto, a exemplo de O reino da Água Azul, narrado por
Djanira Feitosa, registrado em livro e adaptado, pela autora, para o cordel:
Vou contar uma história
Que se deu lá pelo sul
Trata-se de um senhor
Que se chamava Raul
A mesma recebe o título
O Reino
da Água Azul.
Esse senhor era rico,
Um homem de posição
E era pai de três filhos
José, Francisco e João
Porém não era feliz
P
João, o protagonista, terá ajuda
da rainha das garças, que lhe cederá as penas para chegar ao tal reino, do
outro lado do mar. Antes encontra uma raposa, que diz ser seu anjo da guarda,
e, em seguida, um cadáver já inchado, ao qual dá sepultura. A raposa reaparece
e não fica claro se era a alma do defunto insepulto e sua aparição anterior
serviu para guiar o rapaz até o cadáver. Ou se houve, em algum momento da
transmissão oral do conto, um erro, antecipando um episódio que, quase sempre,
tem lugar após o sepultamento. O palácio, onde vivia o pássaro encantado que,
quando cantava, deixava escorrer do bico uma baba azul com poderes curativos,
era guardado por uma serpente. João, com o par de asas confeccionadas com as
penas da rainha das garças e suas filhas, chega ao reino, tenta despertar a
princesa, colhe a baba mágica, mas, inadvertidamente, acorda a serpente. Esta
sai em sua perseguição, mas, cansada, cai no mar e se afoga.
O herói reencontra os irmãos que
o prendem numa cacimba e lhe roubam o elixir. É libertado por uma voz (o morto
agradecido) e, ao chegar ao reino, encontra o pai curado. Em razão das mentiras
contadas pelos irmãos, é enxotado para a cozinha, onde passa a dormir em meio
às cinzas. A princesa, desencantada, vai em busca de seu salvador com um
numeroso exército e chega à casa do velho Raul. Os filhos mais velhos são
chamados, mas, quando indagados sobre o que viram no reino, mentem e são
espancados a mando da princesa. Convocado, João conta a verdade, incluindo as
injúrias sofridas em sua casa. O pai toma de volta a riqueza dividida com os filhos
e a repassa a João.
Como os demais contos aqui
estudados, o que inspirou o cordel de Djanira Feitosa replica algumas aventuras
míticas. Quanto à raposinha, ausente do desfecho,
situação anômala em contos do tipo, é graças à sua ajuda que se repara o dano
(cegueira do rei ou do pai) e se restabelece a justiça.
Em contos semelhantes, o auxiliar mágico sempre guia o herói para os reinos que se localizam fora do mundo “comum”, e que, nos ritos iniciáticos, equivalem ao além, o reino dos confins, segundo Vladimir Propp:
O reino a que chega o herói é separado da casa paterna por uma floresta impenetrável, um mar, um rio de fogo, com uma ponte vigiada pelo dragão, ou um abismo onde o herói cai ou desce. É o “reino dos confins”, o “outro reino” ou o “nunca visto”. Nele reina uma princesa altiva e orgulhosa, nele vive o dragão. É onde o herói vem procurar a bela raptada, raridades, as maçãs da juventude, a água da cura da vida, que proporcionam juventude e saúde eternas.
O animal como morto agradecido é
o ancestral totêmico do herói e as suas viagens são similares às perigosas
jornadas
Para Propp, “uma racionalização das mais tardias transforma o herói em mercador, a travessia em viagem marítima de negócios e a cidade em porto”, situação que claramente remete ao “livro do povo” João de Calais. No conto “A raposinha”, recolhido por Silvio Romero, e nos cordéis com motivos similares, remanescentes de contextos mitológicos arcaicos, o resgate ocorre por meio de uma jornada ao “outro mundo”.
Referências:
FEITOSA, Djanira. A história do reino da
água azul. [S. l.]: Edição do Autor, 2013.
PROPP, Vladimir. As raízes históricas do
conto maravilhoso. 2. ed. Tradução: Rosemary Costhek Abílio. São Paulo:
Martins Fontes, 2002.
SILVA, José Bernardo da Silva. O príncipe Oscar e a
rainha das águas. Fortaleza: Tupynanquim, 2001.
Um exemplo eloquente de narrativa híbrida
na literatura de cordel é a História de João da Cruz, um dos melhores
cordéis de Leandro Gomes de Barros, que classificamos como ATU 756A (A
arrogância do virtuoso). Trata-se de uma variante, com muitos elementos
acrescentados pelo autor, na qual o motivo do bordão que flore em razão do
arrependimento do homem justo norteia a história, contada como uma lenda
hagiográfica de queda e redenção:
Depois de Cristo, alguns anos
Existia um ancião;
Esse tinha um filho único
O qual se chamava João
Que ia sempre de encontro
À cristã religião.
Entre os motivos
das lendas piedosas, há o sonho premonitório do herói com uma mulher,
prefigurando a Virgem Maria, advertindo-lhe sobre o caminho a seguir.
Desobedecendo-a, ele vai parar num prédio murado, onde é recebido pelo príncipe
das trevas e testemunha os grandes castigos infligidos às almas danadas.
Abandonando a casa maldita, João segue, pelo caminho da direita, chegando à
outra casa, de indescritível beleza. Neste local...
Viu passar uma
mulher
Com um majestoso
manto;
Tudo ali se
levantava,
Entoava um belo
canto
Dizendo: “Salve, ó
Esposa
Do Divino Espírito Santo.
Morrendo a mãe,
João se despede do pai e torna-se eremita, sendo tentado pelo Demônio e
consolado por um anjo, que lhe deixa o ramo da virtude:
Todo dia hás de
vê-lo
Verde e com todo o
fulgor —
Aquele ramo é
regado
Com o riso do
Senhor —
Se tu caíres em
culpa,
Cai dele também a flor.
Já adivinhamos que ele será iludido pelo Diabo que, inicialmente, se transforma em uma velha e, depois, numa jovem sedutora. Visita o seu castelo da falsa jovem, porém, lembrando-se do ramo, arrepende-se e retorna ao local onde vive como penitente. Depois de vinte e dois anos, morre e segue para o céu em companhia do seu anjo da guarda. Satanás, que assistira a sua “consumação”, obstinado em ganhar a alma de João, acompanha-os. No céu, Jesus esclarece o mistério da flor divina:
Foi uma das minhas chagas
Feitas pelos teus pecados
Naquelas horas amargas,
Feitas por ti e por outros,
E desta forma são pagas?
Forma-se o tribunal
celeste e João, perdendo sua individualidade, e, agora chamado apenas de alma[1],
será julgado por Jesus, ao passo que Satanás fará o papel de acusador. Vendo-se
perdida, a alma rogará à Virgem para que seja sua advogada, e ela aceita. Não
só aceita, mas, valendo-se dos melhores argumentos, termina por convencer o
filho a salvar a alma, para desespero do Demônio. Antes, porém, São Miguel
Arcanjo intervém, e o Diabo, diante de iminente derrota, recorre a um último
artifício:
Pesam-se a alma e
as culpas:
Se a alma for mais
pesada
Lhe garanto que
darei
A questão por
terminada;
Se as culpas
pesarem mais
Você não ganhará nada.
Trata-se da
Psicostasia, a pesagem da alma, recurso definitivo para a salvação, no caso de
João da Cruz, ou danação eternas. O tema do julgamento post-mortem está
presente em muitas religiões, mas nenhuma parece preceder a egípcia, em
processo similar àquele conservado pela tradição popular católica. São Miguel,
com sua balança, substitui Anúbis, que pesava os corações dos defuntos no
Tribunal da dupla Maat, presidido por Osíris. O professor E. Wallis Budge,
tradutor e comentador do Livro dos mortos egípcio, descreve a Cena do Julgamento no salão de Osíris:
Não se sabe onde nem quando ocorria o julgamento, mas segundo o que parece ter sido a ideia original, os amplos céus, ou parte deles, formavam a sala do Julgamento, e a sentença era dada na presença das três Companhias de deuses; como cabeças da Companhia funérea, “Osíris ocupava posição proeminente, e acabou ficando o único juiz dos mortos. Parece que o julgamento de cada indivíduo acontecia logo depois da morte, e o aniquilamento ou a vida e a bem-aventurança eternas eram decretadas incontinenti para as almas dos mortos.
O julgamento de João da Cruz na eternidade, indicada no texto não como uma condição, mas como um lugar, se dá neste contexto, individialmente e logo após a sua morte. É o momento mais dramático do texto, indicando, a princípio, a condenação eterna. Câmara Cascudo, no ensaio “Anúbis”, menciona romances portugueses, recolhidos por Teófilo Braga (1867) e Jaime Lopes Dias (1944), sobre os transes angustiantes das almas diante do juízo divino com a mesma estrutura de João da Cruz. Reproduz, ainda, um trecho pinçado do Folclore pernambucano, de Pereira da Costa, com o mesmo esquema arquetípico:
Segundo a crendice popular, para verificar-se o destino final dos espíritos, é preciso um julgamento prévio. O espírito, apenas desprendido da matéria, comparece perante o arcanjo São Miguel, e tomando ele a sua balança, coloca em uma concha as obras boas e na outra as obras más, e profere o seu julgamento em face da superioridade do peso de umas sobre as outras. Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, o espírito vai imediatamente para o céu; quando elas são insignificantes, vai purificar-se no purgatório, e quando não tem em seu favor uma obra boa sequer, vai irremediavelmente para o inferno, donde só sairá quando se der o julgamento final, no dia de juízo, seguindo-se então a ressurreição da carne.
Rodrigues de Carvalho atribui a Silvino
Pirauá a “Peleja da alma”, com versos distribuídos em esquemas rímicos nem sempre
coesos, embora o julgamento seja reproduzido de forma consistente, como se
depreende da seguinte quintilha:
“Vem cá, Miguel!” —
Quem me chama?
Lucifer[2] que
vá embora,
Que ele não tem
parte em nada,
Que a alma que ele
veio ver
Da Virgem foi amparada”.
É possível que
Carvalho tenha confundido, pela proximidade temática, este poema com o folheto O
castigo da soberba, também atribuído a Pirauá e aproveitado por Ariano
Suassuna na parte final da peça Auto da Compadecida.
Além do julgamento
celeste, as viagens ao além, reduzidas a um sonho em João da Cruz,
refloresceram no imaginário judaico-cristão, influenciado por crenças
pré-cristãs e inflamado pela literatura apocalíptica. Jacques Le Goff, ao
historiar o nascimento do purgatório, investigou os seus antecedentes,
recenseando, entre os viajantes do mundo espiritual, um ancestral do mundo
grego:
Plutarco, nos seus Moralia, conta a visão de Tespésio, Este, depois de ter levado uma vida de deboche, segundo todas as aparências, morre e quando, passados três dias, volta à vida, leva daí em diante uma vida perfeitamente virtuosa. Pressionado com perguntas, revela que o seu espírito deixou o corpo e viajou no espaço entre as almas que andavam pelo ar das quais conheceu algumas, que emitiam terríveis lamentos, enquanto outras, mais em cima, pareciam tranquilas e felizes. Algumas destas almas são puramente brilhantes, outras têm manchas e outras são completamente escuras. As que estão carregadas com poucos pecados só sofrem um castigo ligeiro, mas as ímpias são entregues à Justiça que, se as acha incuráveis as abandona às Fúrias que as lançam num abismo sem fundo. Tespésio é depois levado para uma grande planície cheia de flores e de perfumes agradáveis onde algumas almas voam alegremente como pássaros. E visita por fim o lugar dos condenados onde assiste às suas torturas. Há notoriamente três lagos, um de ouro fervente, outro de chumbo gelado e um terceiro de ferro agitado por ondas. Demônios mergulham e tornam tirar as almas de um lago para outro. Por fim, noutro local, ferreiros modelam sem cerimônias as almas chamadas a uma segunda existência dando-lhes as mais diversas formas.
Em João da Cruz,
a descrição do inferno não é menos assustadora:
Lá no fundo de uma
estufa
Se ouvia gente
gemer,
Ranger dente,
blasfemar,
Avançar para
morder,
Da urros que
reboavam,
Fazendo a terra tremer.
Anábase (subida ao céu) e catábase (descida ao inferno) são, afinal, topoi recorrentes no cordel e nos romances piedosos, herdados dos ritos fúnebres, guardando vestígios das religiões de mistério de muitos povos e quadrantes. O fogo que arde no inferno, afinal, fora aceso muito antes de os cristãos lançarem suas bases doutrinárias e ameaçarem seus inimigos com uma prisão onde os sofrimentos, aplicados em proporções muito maiores que os pecados, são eternos. Leandro Gomes de Barros, no entanto, não parece mover-se pela literatura apologética Ao mesclar um motivo pio, constante em contos religiosos, cujo modelo é Os três ramos verdes (ATU 756), seguido do subtipo 756B (no qual enquadramos João da Cruz), com lendas douradas, como a de Santo Antônio da Tebaida e outros santos tentados pelo Demônio, ele mostra que seu trabalho ia além da literatura e buscava atender à demanda de um público a um só tempo fascinado e assombrado pelas pregações missionárias. Ariano Suassuna, grande admirador do poeta, base de boa parte de sua dramaturgia, adaptou sua obra-prima, em 1949, rebatizando-a como Auto de João da Cruz. Para que não restassem dúvidas sobre as fontes, escrevendo em 1967, o dramaturgo afirmava ser o texto
inteiramente baseado em três folhetos nordestinos: História de João da Cruz, História do Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Reino do Vai não Torna e O Príncipe João Sem Medo e a Princesa da Ilha dos Diamantes, folhetos dos quais são autores ou divulgadores, respectivamente, Leandro Gomes de Barros, Severino Milanês da Silva e Francisco Sales Arêda, poetas populares do Nordeste, segundo se explicava na introdução escrita para a peça.
Há, no entanto,
notórias diferenças entre o romance e a peça; a maior delas, provavelmente, se
dá no perfil dramático do herói, não mais um ateu e sim um homem ambicioso,
embora titubeante, que, assim como o doutor Fausto, assina um pacto com o Diabo
(alegoricamente retratado como um cego) em troca de poder. “Esta é minha
esperança mais secreta”, confessa João. “Hei de conquistar o mundo e tudo o que
ele pode dar”. (Suassuna, 20121, p. 61). Nossa Senhora tem um papel mais ativo
na peça, ambientada em Taperoá, Paraíba, com o nome de Regina, clara alusão à oração católica “Salve, Rainha”, na qual se
enfatiza o seu papel de advogada.
REFERÊNCIAS:
BARROS, Leandro Gomes de. História de
João da Cruz. São Paulo: Luzeiro, 1986.
BUDGE, E. A. Wallis. O livro egípcio dos
mortos. Tradução: Octávio Mendes Cajado. São Paulo: Pensamento, 1993.
CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1967.
CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no
Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 2002.
COSTA, Pereira da. Folclore pernambucano.
2. ed. Recife: Arquivo Público Estadual, 1974.
LE GOFF, Jacques. O nascimento do
purgatório. 2. ed. Tradução: Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo. Lisboa:
Editorial Estampa, 1995.
SUASSUNA, Ariano. A compadecida e o
romanceiro nordestino. In: DIÉGUES JÚNIOR, Manuel (org.). Literatura popular
em verso: estudos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986.
[1] Compare-se este cordel com o Auto
da alma, de Gil Vicente, representado em 1508, dedicado à devora rainha D.
Leonor, esposa de D. Manuel, cognominado “o Venturoso”. O argumento, simples,
mostra uma disputa entre Santo Tomás, Santo Agostinho, Santo Ambrósio e São
Jerônimo, doutores da Igreja, aqui personificada e substituindo a Virgem, com o
Diabo pela posse da alma.
[2] No cordel, e em alguns contos e
poemas populares, Lucifer é palavra oxítona. O recurso do deslocamento
da tonicidade da sílaba para uma sílaba posterior (diástole) não é incomum no
cordel, bem como não o é na poesia em seu sentido lato.