segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Mitos, contos e arquétipos: novo curso na Casa Tombada

 


com Marco Haurélio

Sobre o curso

Marco Haurélio nos convida para uma jornada mitopoética através dos mitos e contos de fadas vivos e persistentes na literatura e no cinema. Serão oito encontros, cada um deles voltado a um tema fundamental (ou fundador) que nos ajudará a compreender melhor os fatores que moldaram o mundo e, consequentemente, a nossa psique.



29/8 – Encontro 1 – As três faces da Deusa

Jovem, esposa e anciã. Presente passado e futuro. O que a Deusa, com seus muitos nomes e títulos, ainda tem a nos dizer?



12/9 – Encontro 2 – O nascimento do herói

A tradição ocidental confere ao herói um papel central em mitos e contos maravilhosos, rivalizando em prestígio com alguns deuses.



26/9 – Encontro 3 – Rei Artur e o mito solar do Salvador

A “história” de Artur, o menino que, tutelado por Merlin, o Mago, reinou sobre os galeses, começou a ser contada muito antes de seu nascimento. Uma análise do mito do herói redentor sob a perspectiva da mitologia comparada é o que propomos nessa jornada.



10/10 – Encontro 4 – Na isbá da Baba-Yaga

Doadora ou punidora, sábia tola, una ou tríplice, Baba-Yaga surge como um enigma indesvendável nos contos eslavos. Seu papel central em centenas de contos a torna a personagem mais intrigante de um ciclo vasto e longevo.



24/10 – Encontro 5 – A esposa perseguida

Crescência, Genoveva, Porcina são alguns nomes da personagem-símbolo da virtude feminina segundo o ethos medieval. Intrigas, queda e redenção, sob o influxo do crescente culto mariano, marcam a história da esposa fiel falsamente acusada de adultério.



7/11 – Encontro 6 – A Donzela na Torre: um motivo persistente nos mitos e contos tradicionais

De Dânae a Creusa, protagonista do romance de cordel O pavão misterioso, quem vem a ser a donzela reclusa na torre por ordem do próprio pai, tentativa sempre frustrada de evitar uma profecia funesta.



21/11 – Encontro 7 – “A igreja do diabo” à luz da literatura e da religião

Com base em contos populares e fragmentos bíblicos, passando por excertos de obras clássicas como A Divina Comédia e Paraíso Perdido, analisaremos o conto “A igreja do diabo”, de Machado de Assis, à luz da ordem hierárquica medieval e da crítica de costumes, tão ao gosto do autor.



5/12 – Encontro 8 – Chapeuzinho Vermelho e a jornada em busca de si mesmo

O périplo de Chapeuzinho Vermelho da casa da mãe à casa da avó, escamoteado nas versões canônicas do conto sob a aparência de um véu admonitório ou moralista,  pode ser interpretado sob vários ângulos; um deles trata do retorno à ancestralidade, simbolizada pela avó. E impõe a pergunta talvez irrespondível: importa mais o destino ou a jornada em si?

 

SUGESTÕES DE LEITURA

 

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

CALVINO, Ítalo. Fábulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 1989.

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo:

Global, 2004.

COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. Paulinas: São Paulo, 2020.

FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.

FRANZ, Marie-Louise von. A sombra e o mal nos contos de fadas. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. São Paulo: Paulinas, 1985.

GIMBUTAS, Marija. The Language of the Goddesses. San Francisco (EUA): Harper & Row, Publishers, 1995.

GRAVES, Robert. The Greek Myths. Nova York: Penguin Books, 1992.

_____________. The White Goddess. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2013.

HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.

_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.

_____________. Vozes da tradição. Colaboração: Lucélia Borges. Fortaleza: IMEPH, 2018.

KIRK, G. S. The nature of greek myths. EUA: Penguin Books, 1985.

LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot. Um Panorama da Mitologia Europeia.Readução de Vera Ribeiro. São Paulo: Zahar, 2004.

MEREGE, Ana Lúcia. Os contos de fada – origem, história e permanência no mundo moderno. São Paulo: Claridade, 2010.

NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.

PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Sobre o professor


Marco Haurélio é escritor, professor e divulgador da literatura de cordel. Tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha. Finalista do Prêmio Jabuti, suas obras receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileirosA lenda do Saci-PererêMeus romances de cordelLá detrás daquela serraO encontro da cidade criança com o sertão meninoTristão e Isolda em CordelA jornada heroica de Maria Contos e fábulas do Brasil. Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços os mais diversos.


Quando


(segundas-feiras)
das 19h às 21h

Onde 

Online
Todos os cursos online d’A Casa Tombada são realizados em nossa plataforma de estudo digital e podem ser acessados por três meses após o término do curso.
O acesso à plataforma será disponibilizado por e-mail.

Investimento

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Mínimo de 16 participantes e máximo de 30.

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terça-feira, 26 de julho de 2022

Senhora Sant'Ana

 

“A Virgem e o Menino com Santa Ana”, de Leonardo Da Vinci (1513).

26 de julho é o dia de Sant'Ana, esposa de São Joaquim (também festejado neste dia), mãe da Virgem Maria e avó de Jesus Cristo. Ana e Joaquim não constam dos evangelhos canônicos, mas surgem, com frequência, nas lendas cristãs a partir do século IV, aparecendo primeiramente nos livros de Santo Epifânio. A fixação de seu dia votivo veio somente no século XVI, em bula do Papa Gregório XIII, datada de 1º de maio de 1584. O reconhecimento tardio, sufragando devoção antiga e inconteste fidelidade cultual, talvez se deva à aproximação da história de Ana à de muitas deidades femininas, representantes de um mesmo princípio, o da fecundidade a serviço da regeneração da natureza.

 Ana (Graça) representaria, conforme muitas teorias, divindades meteorológicas do Oriente próximo e médio. Ana parece ser um aproveitamento da divindade semita Annah, Anahid, Anahita, Anat. Em Roma, o culto de Ana Perena, representada como uma anciã que alimenta, em 493, os plebeus, no monte Sacro, por ocasião da revolta destes com os Patrícios. Converge com outra Ana, importada de Cartago, irmã de Dido e Pigmalião. Derivaria da Ana Purnâ Dévi, divindade hindu provedora dos mais pobres, representada assentada sobre um lótus com uma colher. Os seus atributos como deusa do amor e, por conseguinte, da fertilidade, sobrevivem nas duas quadras abaixo, colhidas por Teófilo Braga, em que o caráter orgiástico do culto antigo aparece realçado:


Senhora Santa Anna,
Dai-me outro marido,
Que este que eu tenho
Não dorme commigo.
 
— Senhora Santa Anna,
Esta mulher mente,
Que eu durmo com ela
E não a contento.

Sobrevive nalgumas quadras, cantadas em Portugal e no Brasil, sua associação aos locais de cultos, em montes e colinas, onde a água da vida brota à sua passagem. Ainda Teófilo Braga:


Senhora Santana
Subiu ao monte;
Aonde se assentou
Abriu uma fonte.
 
Oh água tão doce!
Oh água tão bela!
Anjinho do céu,
Vinde beber dela!

 

Ana Purnâ, didindade hindu da nutrição.

No Brasil, onde Sant’Ana é padroeira de cidade como Feira de Santana, Serrinha e Caetité, todas na Bahia, Renato Almeida registrou a mesma quadra, com poucas modificações:


Senhora Sant’Ana
Assubiu aos montes.
Aonde ela andou
Deixou muitas fontes.
 

Em Bom Jesus da Lapa, Bahia, Frei Chico recolheu a mesma reza, em muito semelhante à versão portuguesa, mas com duas quadras suplementares:


Senhora Santana
Dos cabelo louro,
Me dais uma esmola
Com vosso tesouro.
 
Senhora Santana
Mora em Belém,
Leve nós na glória
Para sempre amém.

Os pais da Virgem Maria surgem no Protoevangelho de São Tiago Menor, no Evangelho da Natividade de Maria e no Evangelho da Infância do Salvador. A longa esterilidade de Ana chega ao fim após divina revelação. Ana e Joaquim, ambos em veneranda idade, alertados por um anjo, se encontram na porta dourada, local de Jerusalém em que se praticavam os ritos hetairistas, e a Virgem Maria é Concebida. O motivo é claramente inspirado na história da concepção do profeta Samuel, cuja mãe também se chamava Ana (Hannah). E, claro, ecoa ainda a história de Abraão e Sara e a concepção tardia de Isaque. A Legenda Aurea, de Jacopo de Varazze (séc. XIII), informa que Ana tinha uma irmã, chamada Isméria, e esta foi mãe de Isabel e avó de João Batista.

O grande ocultista Éliphas Lévi dedica às lendas piedosas de Santa Ana todo um capítulo de seu livro “A Ciência dos Espíritos”.

Nos cultos afro-brasileiros, na Bahia, identifica-se a Nanã, em todas as variantes de seu nome.

 

Sant'Ana concebendo a Virgem Maria. Por Jean Bellegambe.

Para saber mais, veja-se:

Teófilo Braga. As lendas cristãs;

Francisco van der Poel (Frei Chico). Dicionário da religiosidade popular;

Luís da Câmara Cascudo. Verbete Ana, Dicionário do Folclore Brasileiro;

Leite de Vasconcelos. Tradições Populares, v. II.


terça-feira, 15 de março de 2022

O ENCANTO DAS FÁBULAS



Feliz aquele tempo fabuloso

Dos bons demônios e dos deuses lares,

Dos trasgos e duendes familiares!

Esses contos ouvíamos com gozo,

Em casa, à noite, junto do fogão:

O pai, o tio, o avô, a mãe, a filha,

Os vizinhos e os membros da família,

Davam ouvidos ao mestre capelão,

Que relatava histórias encantadas...

Banimos o demônio, como as fadas,

Sob a razão, as graças abafadas

Enchem-nos de fastio. O pensador

Em si mesmo acredita tristemente:

Em busca da verdade corre a gente...

O erro, pensando bem, tem seu valor.

 

Voltaire retratado por Nicolas de Largillière











François Marie Arouet de Voltaire

Tradução de Modesto de Abreu


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Poderosa oração de São Silvestre



Eu me encomendo a Deus e a São Silvestre, com as três camisas que ele veste, com seus anjos que são trinta e sete.

Meu anjo, assim como quebrarás o pé, a mão e o coração de quem meu inimigo for; ainda que tenha pé de banda não me alcançarão; olhos não me vejam, boca não me fala; arma não me fira e se ferir não me passe; todos eles se chegarão a mim com paz e mansidão, assim como chegou Nosso Senhor Jesus Cristo na casa do escrivão.

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Deus esteve e está. Oh! Meu anjo, assim como alcançastes as boas bem-aventuranças, assim alcançarás todos os meus inimigos presos e amarrados, debaixo do meu pé esquerdo, todos os meus inimigos “sujegados”. 

Amém.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Marco Haurélio recebe hoje colar Guilherme de Almeida

 


Marco Haurélio, criador e mantenedor desta página, poeta e pesquisador das tradições populares, receberá hoje, em Sessão Solene, o Prêmio Colar Guilherme de Almeida, de maneira presencial, no Plenário da Câmara Municipal. Segundo o site da Câmara Municipal, o Prêmio "homenageia pessoas físicas e jurídicas, nacionais ou estrangeiras, que tenham prestado colaborações valiosas para a literatura, cinema, teatro, música, artes plásticas e outras formas artísticas que valorizem e preservem a história da cidade de São Paulo".  

A cerimônia, transmitida pela TV Câmara e pelas redes sociais da Câmara Municipal de São Paulo, ocorrerá hoje, a partir das 17h. 

Quem quiser pode acompanhar pela TV Câmara: canal 8.3 da TV aberta digital e pelo Portal da Câmara


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

NAS VEREDAS DO CORDEL


Começa hoje um novo ciclo de lives com curadoria do poeta Marco Haurélio. Serão 10 encontros na página Cordel e Repente do Facebook, sempre às 18:30h,  e retransmitidos pelas bibliotecas públicas da cidade de São Paulo. O projeto Nas Veredas do Cordel foi pensado para abarcar a poesia popular em sua diversidade. Todos os encontros contarão com intérprete de libras. 

O convidado do primeiro dia, em evento batizado como Ecos da Mãe África, é o Mestre Bule-Bule, reconhecido como um dos grandes nomes da cultura popular brasileira. Cordelista, repentista, embolador, coquista, sambador, Bule-Bule relançou recentemente a obra-prima Orixás em cordel, pela Tupynanquim Editora, de Fortaleza.

A Biblioteca Vicente Paulo Guimarães hospedará o encontro hoje. 

Para acessar a página Cordel e Repente, clique AQUI

sábado, 30 de outubro de 2021

RAINHA MAB

O poema “Queen Mab”, escrito pelo poeta inglês (de origem escocesa) Thomas Hood (1799-1845), foi musicado pelo cantor e compositor escocês Donovan. Apenas a primeira parte do poema, que trata das recompensas da rainha das fadas às crianças boas, foi aproveitada na composição, incluída no álbum HMS, de 1971.

Imagem: Gustave Doré


A fada pequena toda noite vem,
Cabelos castanhos e olhos azuis,
Com manchas argênteas sobre suas asas,
Descendo da Lua em jorros de luz.
Nas mãos, ela porta prateada vara,
Se a boa criança sente o sono vir,
Da direita à esquerda vai fazendo um círculo,
Sobre a cabecinha de quem vai dormir.
E chegam os sonhos com seus peixes-fadas
Em fontes de encanto, beleza e mister,
E árvores que curvam os seus galhos mágicos
E ofertam seus frutos para quem quiser.
Das árvores cheias de perfume etéreo
Nascem flores lindas que enfeitam a alfombra,
As moscas cintilam aos raios do sol
E larvas luzentes se movem na sombra.
Pássaros falantes entoam canções
E contam histórias de tempos passados,
E belos duendes apontam colinas
E vales distantes por fadas tomados.
Mas quando a criança má vai para a cama
Da esquerda à direita, vai tecendo anéis,
E então ela sonha através da noite
Com coisas horrendas, terríveis, cruéis.
Chegam leões bravos com olhos fulgentes,
E tigres rosnantes de garras ferinas,
E os ogros com facas sedentas do sangue
De meninos maus e malvadas meninas.
Tormentas que querem engolir o mundo
Ou chamas que queimam sem ter compaixão,
E dragões ferozes pairando no ar
Enquanto serpentes se arrastam no chão.
Crianças malvadas acordam chorando,
Querem longe as trevas em grande agonia,
E as boas encontram na noite, que adoram,
Prazer semelhante ao da luz do dia.

Tradução de Marco Haurélio


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

LEONOR

"Leonor e Guilherme sobre o dorso do cavalo"
de Johann David Schubert


Ralada de ruins sonhos

Já desperta está Leonor,

E 'inda agora os céus d'oriente

Da manhã tingiu o alvor.

 

«Guilherme, és morto?―ela exclama―

Ou traíste a pobre amante?

Se vives, porque retardas

De te eu ver feliz instante?»

 

Nas tropas de Frederico 

Tempo havia que partira 

Para a batalha de Praga,

E cartas dele quem vira?

 

Mas a imperatriz e o rei

De guerras, enfim, cansados, 

Depondo os ânimos feros,

De paz faziam tratados.

 

Já aos seus lares tornavam 

Ambas as hostes folgando. 

Cingem frentes ramos verdes; 

Vem atabales rufando.

 

E por montes e por vales 

Velhos e moços chegavam, 

Dando brados de alegria,

A encontrar os que voltavam.

 

―«Boa vinda! Adeus!―diziam

As filhas, noivas, e esposas.

E Leonor? Nenhum dos vindos

Lhe faz carícias saudosas.

 

Por Guilherme ela pergunta;

Por qual estrada viria.

Vão trabalho; vãs perguntas: 

Novas dele quem sabia?

 

Não o vê. Passaram todos...

Em furioso devaneio,

Ei-la arranca as negras tranças;

Fere cru o lindo seio.



Sua mãe, correndo a ela:

―«Valha-me Deus!―lhe bradou.

― Minha filha, pois que é isso?!»―

E entre os braços a apertou.

 

―«Minha mãe, perdeu-se tudo!

O mundo, tudo perdi:

De nada Deus se condói...

Oh dor, oh pobre de mi!»―

 

―«Ai! Jesus venha à minha alma!

Filha, um padre-nosso reza. 

Deus é pai: sempre nos ouve:

Nunca a humana dor despreza.»―

 

―«Minha mãe, inútil crença!

Que bens me tem feito Deus? 

Padre-nossos!.. padre-nossos!..

Que importam rezas aos céus?»―

 

―«Ai! Jesus venha á minha alma! 

Pois não é quem reza ouvido? 

Busca da igreja o consolo

Verás teu pesar vencido.»―

 

―«Mãe, oh mãe, esta amargura

Nenhum sacramento adoça: 

Não sei nenhum sacramento,

Que aos mortos dar vida possa.»―

 

―«Filha, quem sabe se, ingrato,

Ele ás promessas faltou;

E lá na remota Hungria 

Novo amor o cativou?

 

Se, mudável, te abandona, 

Do crime o prêmio terá:

Do último trance na angústia

O remorso o punirá.»―

 

―«Morreu-me, oh mãe, a esperança. 

Perdido... tudo é perdido!

Morrer, também, só me resta. 

Nunca eu houvera nascido!

 

Foge, oh sol resplandecente!

Manda a noite e os seus terrores... 

Deus, oh Deus, que nunca escutas 

O gemer de humanas dores.»―



―«Meu Senhor! A desditosa

Não pensa o que a língua exprime. 

Não julgues a filha tua:

Nem te lembres do seu crime.

 

Vãs paixões esquece, oh filha: 

Cogita no gozo eterno,

No sangue que te remiu,

E nos tormentos do inferno.»―

 

–«O que é gozo eterno, oh mãe, 

E o inferno em que consiste?

Com Guilherme há gozo eterno, 

Sem Guilherme o inferno existe.

 

Sem ele, que a luz fugindo,

Se troque em noturno horror;

Sem ele, no céu, na terra

Só conheço acerba dor!»–

 

Assim no sangue e na mente 

Fúria insana lhe fervia: 

Cruel chamando ao Senhor,

Mil blasfêmias repetia.

 

Desde o sol brilhar no oriente 

Até que o céu se estrelava, 

As mãos, louca, retorcia,

O brando seio pisava.

 

Porém ouçamos!.. A terra 

Pisa um cavalo lá fora!..

E pelos degraus da escada 

Tinem sons d'espada e espora...

 

Ouçamos! Batem na argola 

Pancadas que mal feriram... 

E através das portas, claro, 

Estas palavras se ouviram:

 

―«Oh lá, querida, abre a porta.

Dormes? Estás acordada? 

Folgas em riso? Pranteias?

De mim és 'inda lembrada?»―

 

―«Guilherme, tu?! Na alta noite?

Tenho velado e gemido.

Quanto padeci!.. Mas, d'onde

Até 'qui tens tu corrido?!»―

 

―«Nós montamos à meia-noite Só. 

Vim tarde, mas ligeiro,

Desde a Boêmia, e comigo

Levar-te-ei, por derradeiro.»―

 

―«Oh meu querido Guilherme, 

Vem depressa: aqui te abriga 

Entre meus braços; que o vento 

Do bosque as crinas fustiga.»―

 

―«Rugir o deixa nos matos.

Sibila? Sibile embora!

Não paro... que o meu ginete 

Escarva o chão... tine a espora...

 

Nosso leito nupcial

Dista cem milhas d'aqui.

Sobraça as roupas... vem... salta

No murzelo, atrás de mi.»―

 

«Além cem milhas, me queres 

Hoje ao tálamo guiar?

Ouve... o relógio ainda soa:

Doze vezes fere o ar.»―

 

―«Olha em roda! A lua é clara: 

Nós e os mortos bem corremos. 

Aposto eu que n'um instante 

Ao leito nupcial iremos?»―

 

―«Mas dize-me, onde é que habitas?

Como é o leito do noivado?―

«Longe, quedo, fresco, breve:

De oito tábuas é formado.»―

 

―«Para dous?―«Para nós ambos.

Sobraça as roupas: vem cá.

 Os convidados esperam:

O quarto patente está.»―

 

Sobraçada a roupa, a bela

Para o ginete saltou,

E ao seu leal cavaleiro

Co' as alvas mãos se enlaçou.

 

Ei-los vão! Soa a corrida.

Ei-los vão, à fula-fula!

Ginete e guerreiro arquejam:

A faísca, a pedra pula.

 

Ui, como, à direita, à esquerda, 

Ante seus olhos se escoam

Prado e selva, e do galope

Sob a ponte os sons ecoam!

 

―«Tremes, cara? A lua é pura. 

Depressa o morto andar usa.

Tens medo de mortos?―«Não.

 Mas deles falar se escusa.»―

 

―«Que sons e cantos são estes?

O corvo ali remoinha!

Sons de sino? Hinos de morte?

É morto que se avizinha!»―

 

Era de feito um saimento, 

Que andas e esquife levava: 

Aos silvos de cobra em pego

Seu canto se assemelhava.

 

―«Um enterro à meia-noite, 

Com salmos e com lamento,

 E eu a minha noiva levo

Ao sarau do casamento?

 

Vinde, sacristão e o coro,

O epitalâmio entoai-nos;

Vinde, abade, e antes que entremos

No leito, a bênção lançai-nos.»―

 

Cala o som e o canto: a tumba 

Some-se: finda o clamor

A seu mando; e o tropel voa

Na pista do corredor.

 

Sempre mais alto a corrida 

Soa. Vão á fula-fula.

Ginete e guerreiro arquejam:

A faísca, a pedra pula.

 

Como à destra e esquerda fogem 

Montes, bosques, matagais!

Como á destra e esquerda fogem 

Cidades, vilas, casais!

 

―«Tremes, cara? A lua é pura. 

Depressa o morto usa andar. 

Temes os mortos, querida?»―

―«Ai, deixa-os lá repousar!»―


―«Olha! Ao redor de uma forca 

Dançar em tropel não vês

Aéreos corpos, que alvejam

Da luz da lua através?

 

Oh lé, birbantes, aqui!

Birbantes, acompanhai-me! 

Vinde. A dança do noivado

Junto do leito dançai-me.»―

 

E os vultos vêm após logo, 

Ruído imenso fazendo,

Como o furacão nas folhas 

Secas do vergel rangendo.

 

E ressoando a corrida

Ei-los vão, á fula-fula.

Ginete e guerreiro arquejam:

 A faísca, a pedra pula.

 

Para trás fugir parece 

Quanto o luar alumia;

Para trás suas estrelas

Sumir o céu parecia.

 

―«Tremes, cara? A lua é pura. 

Depressa o morto andar usa. 

Temes os mortos, querida?―

―«Ai, deles falar se escusa!»―

 

―«Murzelo, o galo ouvir creio! 

Breve a areia há-de correr... 

Murzelo, avia-te, voa;

Que sinto o ar do amanhecer!

 

Nossa jornada está finda:

Ao leito nupcial chegamos: 

Ligeiro os mortos caminham:

A meta final tocamos.»―

 

D'uma porta às grades férreas 

À rédea solta chegaram,

E de frágil vara ao toque 

Ferrolho e chave saltaram.

 

Fugiram piando as aves:

A corrida, enfim, parara

Sobre campas. Os moimentos

Alvejam; que a noite é clara.

 

Peça após peça, ao guerreiro 

Cai a armadura lustrosa

Em negro pó impalpável,

Qual de isca fuliginosa.

 

Sua cabeça era um crânio 

Branco-pálido, escarnado:

Nas mãos tem foice e ampulheta, 

Triste adorno de finado.

 

Alça-se e arqueja o ginete: 

Ígneas faíscas lançou,

E debaixo de seus pés

Abriu-se a terra, e o tragou.

 

Dos covais surgem fantasmas:  

Feio urrar os ares corta:

Bate incerto o coração

Da donzela semimorta.

 

Ao redor danças de espectros 

Em remoinho passavam: 

Canto de medonhas vozes

Era o canto que cantavam:

 

«Afliges-te? Oh, tem paciência!

Não fosses com Deus audaz.

Teu corpo pertence á terra:

À tua alma o céu dê paz.»―

 

Gottfried August Bürger

Traduzido por Alexandre Herculano