quarta-feira, 14 de abril de 2021

Curso sobre Literatura de Cordel no Instituto Brincante

 

A Literatura de Cordel é um formidável legado do Nordeste para o Brasil. Contando histórias oriundas de várias partes do mundo ou recriando a saga nordestina, com beatos, coronéis e santos populares, além de retratar o drama do cangaço, o Cordel migrou da boca do povo para as tipografias de Pernambuco, alcançando um notável sucesso. Do Nordeste para o Brasil e, quem sabe, para o mundo, o Cordel soube se adaptar para sobreviver às muitas crises e hoje ressurge também na sala de aula, nos slams e em espaços culturais os mais diversos.

A QUEM SE DESTINA 

Público em geral, especialmente estudantes e entusiastas da poesia, independentemente de classificações, e da cultura popular brasileira.

PROGRAMA DO CURSO

  • Antecedentes da literatura de cordel no Brasil
  • Da oralidade ao papel: uma arte em metamorfose
  • O espaço geográfico de circulação do folheto
  • Precursores da literatura de cordel (Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá e Chagas Batista.)
  • Do heroico ao cômico, do histórico ao satírico: classificações da Literatura de Cordel
  • “Vestimentas” do cordel: da capa cega à policromia
  • Sextilhas, setilhas e décimas: ritmos e rimas do Cordel brasileiro
  • Mitos e arquétipos da Literatura de Cordel
  • Escrevendo um folheto: métrica, rima, ritmo e fluência
  • O Cordel na literatura infantil e juvenil
  • Estudos e abordagens contemporâneas da Literatura de Cordel

 

INSCRIÇÕES

  • Início: 08/04/21
  • Duração: 11/05 a 29/06
  • Horário: terças, das 20h às 21h30
  • Investimento: 2x de R$150,00 ou R$300,00 à vista
  • Plataforma Online

INSCREVA-SE

DÚVIDAS

contato@institutobrincante.org.br

 

O instrutor

Marco Haurélio nasceu em Ponta da Serra, sertão da Bahia, no dia 15 de julho de 1974, e conviveu desde cedo com as histórias tradicionais, contadas pela avó Luzia Josefina. Formado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, dedica-se a recolher e a catalogar a poesia popular e as histórias, patrimônios imateriais do nosso povo. Tem mais de 50 livros publicados, entre cordéis, infantojuvenis e estudos da tradição oral. Neste último campo, destacam-se as obras Contos folclóricos brasileiros, Contos e fábulas do Brasil, O príncipe Teiú e outros contos brasileiros, Contos e lendas da Terra do Sol (com Wilson Marques), Lá detrás daquela serra, Vozes da Tradição e Meus romances de cordel. Recebeu importantes distinções como o selo Seleção da Cátedra-Unesco (PUC-Rio) e o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e vários de seus livros foram selecionados ´para compor o Catálogo da Feira do livro de Bolonha, Itália. Idealizador de projetos como Encontro com o Cordel, realizado pelo SESC 24 de Maio, em São Paulo, foi também um dos curadores do Espaço do Cordel e do Repente na Bienal do Livro de São Paulo, por duas edições. Em 2018, a convite do Institute for Heritage de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, participou do International Forum Narrator, representando o Brasil. Recebeu, desta mesma instituição, uma medalha de honra, por sua atuação como pesquisador e divulgador das tradições populares.

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sexta-feira, 2 de abril de 2021

RUA DA AMARGURA

Senhor dos Passos (Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
Ponta da Serra). Foto: Marlon Castro


Em Locuções Tradicionais do Brasil (Global, p. 238), Luís da Câmara Cascudo, em breve verbete, alude à origem da expressão, ligada ao drama da Paixão:

“Sequência de padecimentos, humilhações, necessidades abandono. Denominação popular da Via sacra, imagem litúrgica do caminho percorrido por Jesus, carregando a cruz do Pretório de Pôncio Pilatos ao Gólgota, onde seria crucificado. Via da Amargura. Frei Pantaleão de Aveiro visitou a Terra Santa em 1563, e no sei Itinerário da Terra Santa e suas particularidades (Lisboa, 1593), informa: – (tomamos outra (rua) à mão direita, costa arriba, caminho do Calvário, a qual se chama Rua da Amargura”. Em Espanha, Calle de la Amargura”.

Nas procissões da Via sacra, na Ponta da Serra onde nasci, a imagem do Bom Jesus Senhor dos Passos saía da igreja, em frente à nossa casa, rumo ao cemitério, que está localizado numa região mais alta, figurando o Gólgota. Passadas as 14 estações, no campo santo, era comum rezarem-se benditos e orações apropriadas ao dia (Sexta-feira da Paixão), como a infalível “Sonho de Nossa Senhora”. O Bendito do Senhor dos Passos, que já divulguei cantado por minha tia Isaulite (Lili), traz, nesta quadra, a confirmação do sentido original da locução piedosa:

“O Senhor que vos trazia
Era filho da Virgem Pura:
Andava vertendo sangue
Pela Rua da Amargura”.

O Brasil, que está há um bom tempo na “Rua da Amargura” ou num “Vale de Lágrimas”, expressão esta descolada da “Salve Rainha”, sob o cetro da iniquidade, espera, para breve, o fim de seu “calvário”.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

O adeus a Antonio Amaury, o grande historiador do Cangaço


Pesquisador do cangaço há 70 anos, Antonio Amaury Corrêa de Araújo nos deixou nesta sexta, 26 de fevereiro, aos 87 anos. Paulista de Boa Esperança do Sul, Amaury era muito querido no meio do cordel, sendo inclusive organizador do volume dedicado ao poeta baiano Franklin Maxado na coleção Biblioteca de Cordel, da editora Hedra. Também escreveu uma série dedicada a Lampião, em sextilhas, mas publicou apenas o primeiro volume, que retrata a infância do futuro cangaceiro. 

Mas foi como historiador do cangaço, o mais meticuloso de quantos se aventuraram por esta seara, que Amaury alcançou o merecido reconhecimento. Obras como Assim morreu Lampião (1975), Gente de Lampião: Dadá e Corisco (1982) e Lampião, as mulheres e o cangaço (1984) se basearam em depoimentos colhidos pelo autor junto a antigos cangaceiros, coiteiros e membros de volantes, sempre confrontando fontes, refazendo, quando necessário o percurso, primando por uma escrita quase coloquial e, ainda assim, altamente sofisticada. 


Quando coordenei a coleção Saber de Tudo (da Editora Claridade), convidei-o a escrever um livro sobre Lampião, na verdade uma síntese de sua vasta pesquisa. Aceitando o convite, ele escreveu, junto ao filho Carlos Elydio, Lampião: herói ou bandido?, fartamente ilustrado com imagens do acervo de Amaury e fotos de Benjamim Abrahão. Em 2009 ainda convidei-a a dar uma palestra no Espaço Cineclubista, na época em que estava no auge o movimento Caravana do Cordel e ele, gentil, aceitou. Foi um grande momento para os que puderam ouvi-lo e guardam na lembrança os muitos fatos desfiados por sua memória privilegiada. 

Antonio Amaury. Foto: Blog do Mendes


O Brasil, onde morrem milhares por dia neste momento, talvez o mais triste da nossa história, o Brasil que para, bestializado, pelas futilidades do BBB, não sabe o que perdeu com a partida do mestre Amaury Corrêa. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Minhas impressões sobre 'Cidade Invisível'

 

Cidade Invisível, série brasileira de suspense com pitadas de horror, dirigida por Carlos Saldanha, mal estreou na plataforma de streaming Netflix e tornou-se um sucesso de público em muitos países. Na linha dos velhos contos de detetive do sobrenatural, narra a história de um membro da polícia ambiental, Eric (vivido por Marco Pigossi), que, após um evento traumático em sua família, tenta desvendar um mistério envolvendo uma vila de pescadores que sofre o assédio de uma grande construtora, e se depara com personagens da mitologia brasílica.

A primeira referência que me veio à mente foi Arquivo X, e essa impressão foi reforçada pelo fato de Eric contar uma parceira, Carla (Áurea Maranhão), com a diferença de que, na produção brasileira, eles não formam um par romântico, e há uma desproporção em termos de presença em cena entre os dois. Uma cena em retrospectiva, aliás, dá a entender que Carla poderia ter uma participação mais efetiva na história.

Instado a opinar sobre, por conta de minhas pesquisas em torno das tradições populares, separei este fim de semana para assistir à série, o que ocorreu num contexto em que a produção passava por uma reavaliação por, supostamente, conforme se lê em matéria da revista Veja, ter esnobado os elementos indígenas, já que, segundo que, segundo Eduardo F. Filho, que assina a matéria, boa parte do folclore brasileiro se apoia em tradições ameríndias. Tenho evitado abordar a tradição oral brasileira a partir de uma visão antropológico-racial, abonada por Silvio Romero e Nina Rodrigues e abandonada desde o início do século XX, já que, como comprovou mestres dos estudos etnográficos no Brasil, como Edison Carneiro e Renato Almeida, questões ligadas às origens são menos importantes que as transformações pelas quais passam as manifestações tradicionais. O caudal que, por vezes, de forma redundante, chamamos de folclore, equilibra-se, paradoxalmente, entre a permanência e a dinâmica. Se é velho na memória do povo (Cascudo) e segue vivo na contemporaneidade merece ser estudado pela ciência da psicologia social.

Dito isso, minha impressão sobre a série foi a melhor possível. O que vi nela não foi um painel sobre o folclore brasileiro, mas uma trama em que as personagens servem à narrativa, reforçando o arco do protagonista, que, à maneira dos personagens dos filmes de Hitchcock (e as comparações acabam aqui) vê-se acossado de todos os lados até o limite do suportável. Isso vai levá-lo a defrontar não somente um inimigo real (os interesses especulativos da construtora individualizados na figura de seu presidente, dr. Afonso (Rubens Caribé), mas também as criaturas fantásticas do Brasil lendário, agora misturadas ao comum dos mortais, vivendo ou vegetando nas áreas degradadas do Rio de Janeiro.

E, neste ponto, abro um parêntese para externar minha impressão sobre as personagens a partir das liberdades naturais do roteiro.


Cuca, segundo descreve Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos mitos brasileiros, p. 200, “é um ente velho, muito feio, desgrenhado, que aparece durante a noite para levar consigo os meninos inquietos, insones ou faladores”. As canções de ninar, que poderiam ser chamadas sem erro de canções de assustar, tornaram-na conhecida de norte a sul, daí a expressão “a cuca vai pegar”, com sentido e contexto ampliados, ter-se tornado “o bicho vai pegar”. Mas, distante da velha feia e corcunda, imagem caricatural da Bruxa celebrizada por Goya, ou da cabeça flamejante das tradições ibéricas, ou, ainda, do dragão que desfila nas procissões religiosas, como espantalho das crianças e advertência para os adultos, Cuca é interpretada pela atriz Alessandra Negrini e nos faz lembrar a Lilith hebraica, e há uma razão para isso.

No imaginário brasileiro, a Bruxa pode se metamorfosear em borboleta e, dessa forma, visita as parturientes, o que ocasiona a morte de recém nascidos. Daí o costume de se conservar uma tesoura aberta sob o colchão, inibindo a inoportuna visita. Lilith, em sua encarnação de primeira mulher de Adão, jamais conseguiu ser mãe, sofrendo abortos espontâneos ou, conforme versões mais dark da lenda, gerando demônios. Recolhi uma lenda em brumado, Bahia, na qual a bruxa era uma mulher bela, a sétima filha, que visitava a cidade em forma de borboleta. Manuel Ambrósio, Brasil interior, p. 21, consigna a superstição:

“A muié que pare incarriado seis fia fema, condo é pra tê as sete, bota logo o nome de Adão, tudo trocado, senão a menina vem e logo sai bruxa. Assim que chega no sete ano vira aquela barbuletona, entra p’la fechadura da porta da muié parida e xupa o embigo das criança que morre c’o mal de sete dia, condo a parteira não é boa mestra e esquece de botá a tesoura aberta debaixo da cama da parida, onde a criança nasce”.


Tutu, o bicho papão que assombrou os sonhos de muitas crianças desde o período colonial, é importação africana, embora Alfredo do Vale Cabral enxergasse no nome origem indígena: tu-tu seria “bate-bate” e evocaria as palmadas das amas na bunda dos meninos manhosos. Pertence, na vigorosa de classificação de Câmara Cascudo, ao “ciclo da angústia infantil”, do qual fazem parte, entre outros, a já citada Cuca e a Cabra-Cabriola, esta última personagem de um conto baiano recolhido pelo mestre João da Silva Campos. Cascudo faz derivar tutu de quitutu, do idioma quimbundo, significando “papão”, “ogre”, sendo a palavra também sinônimo de “briguento” na língua original. Por convergência, será chamado, no Brasil, Tutu-zambé, Tutu-Marambá ou Marabá e, ainda, Tutu-Marambaia, depois confundido com o Caititu (porco-do-mato), no processo natural de hibridação. Vale Cabral, no século XIX, registrou:

“Tutu Marambaia,
Não venhas mais cá;
Que o pai do menino
Te manda calar.”

Na série, o Tutu é um leão de chácara ruivo, barbudo e com cara de poucos amigos, muito bem interpretado pelo ator Jimmy London, em caracterização que se distancia muito de sua origem bantu.


Outra personagem fundamental na série é o Curupira, o primeiro a dar as caras, “o deus que protege as florestas”, como escreveu Couto de Magalhães em 1876. Foi a primeira entidade a ser registrada em papel por um europeu, no caso, o Padre José de Anchieta, em 1560, que grafa Coropira, incluindo-o na classe dos “demônios” que “acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes açoites, machucam-n’os e matam-n’os”. Ainda segundo o padre cronista, a entidade era apaziguada com penas de aves, abanadores e flechas, a título oblatório. Em Cidade Invisível, onde vive um deus no exílio, Curupira é interpretado pelo ator baiano, de ascendência indígena Fábio Lago, nacionalmente conhecido por dar vida a Fabiano na novela global Caras & Bocas (2009).


Do Saci e da Mãe d’Água falo com especial apreço, haja vista que ambos frequentam as matas e as águas correntes de minha infância sertaneja. À diferença do Saci retratado na série, traquino e manhoso, registrei na Bahia, no livro Contos e lendas da Terra do Sol (Paulus, 2018, parceria com Wilson Marques), uma lenda em que o pequeno duende negro aparece como um papão que carrega,  em um redemoinho, os meninos travessos para a floresta na intenção de devorá-los. Na história que reproduzi, o Saci parece se apropriar dos atributos de um papão pouco conhecido, o Pilão, e isso se deve à punição do menino, que é levado sentado num pilão para a mata, escapando por pouco, ao agarrar-se aos galhos de uma árvore muito alta. O Saci da série (Wesley Guimarães) está mais próximo do registro de Monteiro Lobato, mas, numa cena em especial, um flashback que nos transporta ao tempo da escravidão, tentativa de explicar o porquê de ele ser perneta, há ecos da lenda gaúcha do Negrinho do Pastoreio. Vivendo na Lapa, bairro boêmio do Rio, usando uma prótese, a personagem fica perigosamente próxima do estereótipo do malandro carioca.


Na vasta pesquisa que fiz, especialmente no sertão baiano, jamais ouvi a palavra Iara figurando sereia na boca do povo. É sempre Mãe d’Água, popularíssima em toda a área povoada do rio São Francisco, entidade das águas capturada por um pescador, com quem se casa, à força, cumulando-o de bens e abandonando-o, muitos anos depois, por ter ele “arrenegado” do povo rio, o seu povo. Vale dizer que toda a riqueza, incluindo os filhos que o casal tivera, é tragada pelo rio, para onde a Mãe d’Água (à maneira da Melusina) retorna, reassumindo o seu trono submerso. Confunde-se com Yemanjá, filha de Olokum e deusa do mar, segundo Pierre Verger, e com a Calunga bantu, também senhora das águas, citada na cantiga entoada pela Mãe d’Água, já liberta de seu voto, no registro de João da Silva Campos. Na mitologia ioruba, Yemanjá abre caminho para o mar quebrando uma garrafa que se transforma em rio, escapando das garras de Okere, seu marido possessivo. Estudei o tema da noiva sobrenatural cujo matrimônio está vinculado a um voto violado pelo marido humano no livro Contos e Fábulas do Brasil. Conscientemente ou não, na série a Iara (designação que parece vir de uma confusão verbal com Jara, "senhor" em tupi) é vivida por uma atriz negra, Jessica Córes, cantora de profissão, que, assim como sua ancestral mítica, a sereia retratada por Homero, na Odisseia, atrai, com sua bela voz os homens para o fundo do mar.

Desenho de um lobisomem para a história "The Werewolf Howls".
Revista Weird Tales (Novembro, 1941).

O grande antagonista, ainda que não corporificado, é o Corpo-seco. Na série, essa aleivosia aparece amalgamada a uma personagem de uma lenda mineira, o Bicho da Carneira ou Bicho da Pedra Azul, também chamado Lanudo, que, em sua motivação básica, tem origem europeia: o ente maldito recusado pela terra, pelo céu e pelo inferno, como o Jack da Lanterna do folclore irlandês. A lenda, contada no norte de Minas, envolve uma personagem real, Joaquim Antunes de Oliveira, homem letrado e de origem judaica que, segundo relatos, por volta de 1890, teria invadido uma igreja, sendo, por esse ato de impiedade, excomungado pelos padres jesuítas. Vítima de um mal súbito, que o deixou paralisado, por volta de 1900, o episódio da excomunhão foi rememorado e a doença, encarada como castigo. Morto e sepultado, por ocasião de uma mudança do local do cemitério, ao ser exumado, o seu corpo não revelava marcas de corrupção. O túmulo para onde foi o corpo trasladado, certa ocasião, amanheceu aberto, e a descoberta de animais domésticos trucidados alimentaram a lenda do Bicho. Variante da mesma lenda alude ao fato de Antunes (nome do vilão que se tornará o Corpo-seco na série) ter selado e montado a própria mãe, sendo, por isso, amaldiçoado. Essa variante aproxima-o do Romãozinho e do Gritador, filhos amaldiçoados que viram bichos depois de mortos. Recolhi, em Igaporã, Bahia, uma história ainda inédita em livro com alguns pontos em comum: o amaldiçoado é um fazendeiro do sul da Bahia, de nome João, ruim até não poder mais, cuja sepultura é encontrada aberta depois de muitos estragos nas criações (animais domésticos criados para venda ou abate). A sepultura é cercada por uma jaula onde foi encontrado preso um lobisomem que conservava o mesmo rosto do falecido.

À diferença da série, não encontrei, nem nos livros e nem em minhas anotações, Corpo-seco com a função de espírito obsessor. Imagino que os roteiristas, trazendo à luz uma personagem tão problemática, buscavam uma entidade que pudesse sintetizar a ganância predatória, verdadeira maldição no país onde biomas como o cerrado e a Amazônia ardem em chamas.

Por fim, o Boto, entidade cujo deslocamento geográfico causou profunda estranheza, em que pese o seu nome na série, Manaus, indicar a sua procedência. Em sua função de sedutor, contraparte masculino da Mãe d’Água, o Boto como amante antropomorfo inexiste nos relatos dos cronistas coloniais e o primeiro registro se dá apenas em meados do século XIX, culminando no Uauaiará da hierarquia de deuses estabelecida por Couto de Magalhães, vista hoje com ressalvas. No verbete Boto, do Dicionário do Folclore Brasileiro (INL, 1962, págs. 131-34), Luís da Câmara Cascudo, amparado em ampla bibliografia, indica fontes clássicas, como Auro Gélio, apontando para a antiga tradição dos delfins “voluptuosos e enamorados” do Mediterrâneo. Na série, o Boto em sua forma humana é vivido pelo ator Victor Sparapane, e, apesar de ter uma participação relativamente pequena, conecta-se à trama principal (o mistério, do qual pouco falei, evitando spoilers) e a uma interessante trama paralela, por meio da personagem Fabiana (Tainá Medina), que espera um filho dele.


Fora do ciclo encantado, mas inteiramente ligado a ele, está Ciço, líder comunitário da Vila Toré, interpretado pelo grande ator paraibano José Dumont, talvez a presença mais marcante de toda a série, representante do pensamento mágico, sempre ameaçado num país que se recusa a olhar para as suas tradições na mesma medida que se recusa a preservar as suas florestas e os modos de vida tradicionais.

Fecho o parêntese e volto a falar da série.

Há algumas semanas tenho lido, nas redes sociais, comentários a respeito da série e postagens com links sobre as criaturas fantásticas, incluindo dicas de livros, como o já citado, e imprescindível, Geografia dos mitos brasileiros, além de obras sobre o tema da escritora Januária Cristina Alves, consultora da série, autora de livros sobre o folclore brasileiro, homenageada pelos roteiristas, que batizaram com o seu nome a avó do protagonista (Thaia Perez). Os debates em torno de questões identitárias também são muito bem-vindos, desde que pautados no respeito à liberdade que é o cerne da criação artística. E é em torno desses debates, afinal o mundo da arte é essencialmente dialético, que se alicerçam as histórias contadas, escritas ou filmadas, alimentadas pela imaginação poderosa de todos os povos desta terra.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O que têm em comum os mitos clássicos e contos de fadas?

 DO MITO AO CONTO, DO CONTO AO MITO: UMA JORNADA POÉTICA



SOBRE O CURSO 

Onde começa o conto e termina o mito? Essa pergunta, ouvida em muitas ocasiões, sempre que respondida, deixa mais dúvidas que certezas. Afinal de contas, as jornadas aventurosas de Perseu, Gilgamesh, Hércules e Percival podem ser enquadradas em qual gênero? O que tem em comum a Brunhilde das sagas nórdicas com Briar Rose (a Bela Adormecida) dos contos de fadas? Por que o ciclo da Távola Redonda, ainda que calcados em aventuras, galantes ou tenebrosas, vividas por heróis lendários, traz tantas personagens femininas de destaque? Quem foi, afinal, Morgana Le Fay, quase sempre identificada ao mal e à dissolução da Távola Redonda? O que tem Deméter em comum com “a princesa que não sorria” dos contos maravilhosos e novelescos? Quais são os contos populares registrados pela antiga literatura do Egito e da Mesopotâmia? Bem, ficam as perguntas no ar à guisa de convite para uma imersão no universo das narrativas míticas que vivem para sempre em muitas estantes e nos nossos sonhos.

 

Percurso do grupo

Primeiro encontro (24/2): Gilgamesh, Perseu e Percival: as três faces do herói.

Segundo encontro (31/3): Deméter e o mito da terra devastada. E por que rir sempre foi o melhor remédio?

Terceiro encontro (28/4): Na corte do Rei Artur: Merlin e Viviane – Guinevere e Lancelot – O cavaleiro verde.

Quarto encontro (26/5): Lilith, Hécate e Medeia: o lado sombrio do eterno feminino.

Quinto encontro (30/6): Deuses da luz e das trevas: da mitologia aos quadrinhos e ao cinema.

 

SUGESTÕES DE LEITURA

ALCOFORADO, Doralice. Belas e feras baianas. Salvador: SECULT, 2008.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de mitos literários. Editora da UnB, José Olympio Editora, 1998.

CALVINO, Ítalo. Fábulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 1989.

_____________. Deusas: Os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2016.

CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as versões análogas dos países lusófonos). CEAO da Universidade do Algarve / Edições Afrontamento: Portugal, 2015.

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo:  Global, 2004.

COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.

ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno. Tradução de Mnuela Torres. Lisboa: Edições 70, sd.

FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.

FRANZ, Marie-Louise von. A sombra e o mal nos contos de fadas. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. São Paulo: Paulinas, 1985.

FROBENIUS, Leo; FOX, Douglas C. A gênese africana. Tradução de Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Landy, 2005.

GUIMARÃES, Ruth. Calidoscópio: a saga de Pedro Malasartes. São José dos Campos: JAC Editora, 2006.

GIMBUTAS, Marija. The Language of the Goddesses. San Francisco (EUA): Harper & Row, Publishers, 1995.

HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.

_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.

_____________. O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.

_____________, Wilson Marques. Contos e Lendas da Terra do Sol. São Paulo: Paulus, 2019.

_____________. Vozes da tradição. Colaboração: Lucélia Borges. Fortaleza: IMEPH, 2018.

KIRK, G. S. The nature of greek myths. EUA: Penguin Books, 1985.

LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot. Um Panorama da Mitologia Europeia.Readução de Vera Ribeiro. São Paulo: Zahar, 2004.

MEREGE, Ana Lúcia. Os contos de fada – origem, história e permanência no mundo moderno. São Paulo: Claridade, 2010.

MÜLLER, Max. Mitologia comparada. Barcelona: Vision Libros, sd.

NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.

PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Teresa (Três volumes). Brasília: Thesaurus, 1995.

PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

_____________. Édipo à luz do folclore. Tradução de António da Silva Lopes. Lisboa: Editorial Veja, sd.

ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.

VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses e os homens. Tradução de Rosa freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Quem é o professor

marcohaurelio

Marco Haurélio, escritor, professor e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha. Finalista do Prêmio Jabuti, suas obras receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileirosA lenda do Saci-PererêMeus romances de cordelLá detrás daquela serraO encontro da cidade criança com o sertão meninoTristão e Isolda em CordelA jornada heroica de Maria Contos e fábulas do Brasil. Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços os mais diversos.


Quando

Dias 24/2; 31/3; 28/4; 26/5 e 30/6 (às quartas-feiras)
Das 19h30 às 21h30

Onde 

Online
As informações de acesso serão disponibilizadas por e-mail.

Público

Geral

Turma

30 pessoas

Investimento

R$ 250,00 (os cinco encontros)
R$ 60,00 (encontros avulsos, não é possível parcelar)

PagSeguro
* em até 4X sem juros no cartão de crédito.
* 7% de desconto para pagamentos via boleto bancário.

PayPal
* 7% de desconto no cartão de crédito (parcela única).
* em até 6X sem juros no cartão de crédito.

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Fale com a gente e reserve sua vaga pelo e-mail cursos.acasatombada@gmail.com 

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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Uma crônica (quase) inédita de Arievaldo Viana

 

Leandro Gomes de Barros e a carnaubeira plantada pelo poeta Arievaldo Viana. .

LEANDRO E A CARNAÚBA

O escritor HUMBERTO DE CAMPOS plantou um pé de cajueiro e fez disso o norte de seu livro de memórias. Eu plantei um pé de CARNAÚBA. Dirão vocês que um cajueiro é mais útil. Eu diria que uma carnaubeira é muito mais bonita. Imponente. Palhas abertas ao vento, lembrando o fole de um acordeom. Planta do sertão. Tudo a ver comigo. Humberto vivia em Parnaíba, cidade que o Piauí "tomou" do Ceará, impingindo de volta um Crateús muito do mal-ajambrado.

Hoje, abri as janelas do meu escritório para ver a chuva banhar a minha pequena carnaubeira e me lembrei... Ela viverá dois séculos, se nenhum fela-da-gaita (descendente ou não) inventar de cortá-la. Eu fico por aqui até o dia que Deus quiser. Amém!

A CHUVA é o alento maior do povo nordestino e eu, cabra véi nascido e amamentado na fazenda Ouro Preto, recanto que já foi Quixeramobim e hoje pertence ao município de Madalena, pleno Sertão Central do Estado, vivo aqui nessa diáspora metropolitana lembrando todos os dias dos meus avós, do meu gadinho de osso, da ova de curimatã e das palhas do pé de Carnaúba na beira do riacho vermelho. Aquilo, sim, era vida.

O serrote dos Três Irmãos era o cenário. Dizia o velho Chico Pavio que aquilo eram três reinos encantados e que havia um dragão escondido no sopé do Olho D'água das Coronhas, onde eu ia buscar água com meu pai nos primeiros anos de minha vida. O autor de meus dias cantava trechos da 'Batalha de Oliveiros com Ferrabrás'. Eu pensava no banho gostoso e demorado no açude dos Calixtos. "Eram doze cavaleiros/Homens fortes destemidos...".

Leandro Gomes de Barros, o autor, povoava a minha infância pela voz de meu pai. Seria melhor se ele cantasse "Juvenal e o Dragão", que também sabe de cor. Rompe-ferro, nosso cachorro de estimação, teve seu nome extraído de um folheto de Leandro. Olho para ele, fiel e abnegado, e me lembro do "Cachorro dos Mortos". Eu, por minha vez, era o próprio Cancão de Fogo, escanchado na cangalha do jumento, atento à natureza, à poesia e ao cenário.

Sinto o cheiro da chuva que acabou de cair. A carnaubeira está exultante, plena de verde e de vigor. Eu fico por aqui, até o dia em que Deus for servido. Mas o mestre Leandro viverá mais alguns séculos, pela sua poesia vigorosa e forte como o meu pezinho de carnaúba, pelo seu pioneirismo e, sobretudo, por sua indiscutível genialidade.

Estou aqui, igual a chuva que acabou de cair, regando a obra do mestre.

Arievaldo Viana,

Caucaia, 31 de março de 2008.

Nota do blogue: O saudoso poeta Arievaldo Viana, amigo querido de obra vasta e vida breve, publicou esta crônica no fotolog Acorda Cordel (Portal Terra), que foi descontinuado. Daí o "quase" do título desta postagem. A foto da carnaúba foi enviada por Juliana Araújo, viúva do poeta. 


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Cordéis atemporais: História da Donzela Teodora

História da Donzela Teodora
Acervo: NUPPO (Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular)

A primeira versão em cordel desse clássico é de Leandro Gomes de Barros, e foi escrita, possivelmente, na primeira década do século XX. A história tem 142 estrofes em sextilhas, com esquema de rimas xaxaxa. Narra a disputa de uma donzela, de origem espanhola, com três sábios da corte do rei Almançor, da Tunísia. O autor, conhecedor de seu público e ciente da popularidade do romance original, já na primeira estrofe, refere-se à fonte onde seu estro foi beber:

Eis a real descrição
Da história da donzela
Dos sábios que ela venceu
E a aposta ganha por ela
Tirado tudo direito
Da história grande dela. 

As perguntas e respostas são feitas por três sábios, em inquéritos distintos, nos quais, um a um são derrotados pela Donzela:

— Donzela, o que é vida?
Disse ela: — Um mar de torpeza,
O que pode assemelhar-se
À vela que está acesa,
Às vezes está tão formosa
E se apaga de surpresa. 

— Donzela, por quantas formas
Mente a pessoa afinal?
Respondeu: — Mente por três,
Tendo como essencial
Exaltar a quem quer bem
E pôr taxa em quem quer mal.

A redação mais antiga da História da Donzela Teodora é a espanhola, de Toledo, publicada em 1498. A literatura árabe traz exemplos abundantes do motivo da inteligência posta à prova, enredo básico de muitos contos populares. La Docta Simpatia é a variante do livro das Mil e uma noites, publicado em Paris entre 1704 e 1717, mais de duzentos anos depois da primeira edição do romance espanhol.

Santa Catarina de Alexandria, possível matriz da História da Donzela.


A lenda piedosa de Santa Catarina de Alexandria, martirizada no século IV, sempre foi apontada como uma das prováveis fontes da
História. Donzela como Teodora, Catarina derrotou cinquenta sábios a serviço do imperador Maximino, sendo estes, ao fim da disputa, conforme relata Jacopo da Varazze, na Legenda áurea, convertidos ao cristianismo e igualmente martirizados. Câmara Cascudo, em Cinco livros do povo, aponta, no entanto, tradições mais antigas, já que os duelos em torno da sabedoria, cujo prêmio era a vida, figuram em muitos contos de matriz popular do Oriente Médio. O nome Catarina de Alexandria, explica Cascudo, é adotado após a conversão ao cristianismo, pois antes ela se chamava Doroteia. Ambos os nomes, Teodora e Doroteia, significam, traduzidos do grego, “dádiva de Deus”. Teodora, assim, é o modelo das virtudes cristãs e, com o advento do islamismo, passa a simbolizar, também, a donzela cujo equilíbrio entre o saber livresco e a astúcia representa um alto panegírico da figura feminina em tempos de extremada misoginia.

Ao verter para sextilhas a história milenar, Leandro Gomes de Barros ajuda a popularizar entre leitores e ouvintes uma narrativa saborosa, com rara habilidade, adaptando-a para nosso contexto sociocultural, sem prejuízo de sua ancestral sabedoria. Hoje em domínio público, a obra é publicada pelas duas principais editoras tradicionais do cordel, Tupynanquim e Luzeiro, e ainda é um dos títulos mais procurados. Sobre essa permanência opina Arlene Holanda:

"A espetacular difusão alcançada pela História da Donzela Teodora e por outras obras do gênero no Brasil nos convida a refletir sobre temporalidade. Após terem saído de cena na Europa há mais de cem anos, em pleno século das luzes e depois concomitantemente ao modernismo, essas historietas de temáticas medievais eram a leitura predileta de uma fatia significativa da população brasileira".

(Arlene HOLANDA, A Fonte da Donzela: cordel de repertório medieval como fonte-documento para a pesquisa e ensino de História, p. 50, monografia.)

Na literatura de cordel, temos outra personagem que, envolvida numa narrativa novelesca, traz elementos construídos a partir do arquétipo da donzela sábia. Trata-se de Helena, a virgem dos sonhos, protagonista de um drama de autoria de Manoel Pereira Sobrinho. Criada por uma duquesa, Helena é educada pelos grandes mestres de seu tempo, e, nas palavras do autor:

Química e astronomia 
Fazia toda parcela.
Vencia qualquer um sábio
Essa mimosa donzela.
Nem a Donzela Teodora
Sabia a metade dela.

Manoel Pereira Sobrinho é autor, ainda, de uma continuação do folheto de Leandro, A filha da Donzela Teodora.

Para saber mais: Marco Haurélio. Literatura de Cordel: do sertão à sala de aula. São Paulo: Paulus, 2013. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

OFÍCIO DAS BENDITAS ALMAS DO PURGATÓRIO



MATINAS

 

Abrirei meus lábios

Em tristes assuntos,

Para sufragar

Aos fiéis defuntos.

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, Cristo

Em vossa Paixão,

Redentor das almas

Dos filhos de Adão.

 

Por tal benefício

Público e notório,

Socorrei as almas

Lá no Purgatório.

 

Não entreis com elas,

Senhor, em juízo,

Para que não tenham

Total prejuízo.

 

Porque na presença

Do crucificado,

Nenhum dos viventes

É justificado.

 

Pelo sacrifício

Da sagrada Missa,

Não useis com elas

Da vossa justiça.

 

Com as tristes almas,

Meu Senhor, usai

Das misericórdias

De Deus, vosso Pai.

Vós sois o Cordeiro

Todo ensanguentado,

Para o bem das almas

Tão sacrificado.

 

Supra o vosso Sangue,

Precioso e Santo,

O dever das almas,

Que padecem tanto.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no Purgatório.

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

PRIMA

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, Excelso

Senhor compassivo,

Das almas que penam

Entre o fogo vivo.

 

Segundo Batismo,

Lhes dai, meu Senhor,

Batismo de fogo

Purificador.

 

Como em Babilônia

Os três inocentes,

Só de vós se lembram

Nas chamas ardentes.

 

Só a vossa clemência

As pode remir

Do fogo que arde

Sem as consumir;

 

Fogo que formastes

Com tais predicados

Para expiação

Dos nossos pecados.

 

Muito mais ativo

Que o calor do sol,

Pior que uma frágua,

Que um vivo crisol.

 

Supra o vosso Sangue,

Que é tão meritório

O dever das almas

Lá no Purgatório.

 

Aplacai das chamas

Também o calor,

Daquele tremendo

Fogo expiador.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no purgatório.

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

 

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

TERÇA

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, Pai

De misericórdia,

Onde resplandece

A paz e a concórdia.

 

Por tal excelência

Que em vós adoramos,

Socorrei as almas,

Por quem suplicamos.

 

Tão aferrolhadas,

Como Manassés,

Mover não podem

Suas mãos nem pés.

 

Privadas de verem

Ao grande Adonai,

Seu eterno Rei,

Seu divino Pai.

 

Mais penalizadas

Do que Absalão,

Por já não gozarem

De Deus a visão.

 

Como o Santo Jó,

Tão amargamente

Lágrimas derramam

Para Deus somente.

 

Qual o Rei Profeta,

Seus olhos aflitos

Estão já enfermos

Por falta de espírito.

 

Médico divino

Só vossa virtude

Pode dar às almas

Eterna saúde.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no purgatório.

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

 

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

SEXTA

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, nosso

Divino Mecenas,

Protetor das almas

Que estão entre penas.

 

Vós sois nosso irmão

Pela humanidade,

Nosso advogado

Com a divindade.

 

Derramai mil graças

Dessas vossas mãos

Sobre aquelas almas

Dos nossos irmãos.

 

Obrai, pois, com elas,

Já com brevidade,

Um gasto estupendo

De vossa bondade.

 

Apressai as horas,

Chegai os momentos

De finalizarem

Seus grandes tormentos.

 

Não vos recordeis

Dos tempos passados,

Quando cometeram

Seus grandes pecados.

 

Supra o vosso Sangue,

Tão satisfatório

O dever das almas

Lá no Purgatório.

 

Acabai as vossas

Correções fraternas,

Para que já gozem

Delícias eternas.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no purgatório.

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

 

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

NOA

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, Cristo

Pastor piedoso

Das almas benditas

Do lago penoso.

 

Libertai as almas

Pastor sempiterno,

Daquele lugar

Junto do inferno.

 

Qualquer dessas almas,

Que pena terá!

Porque no inferno

Quem vos louvará?

 

Nestas tristes almas,

Senhor, acabai

Os justos castigos

De Deus, vosso Pai.

 

Supra vosso Sangue,

Tão satisfatório

O dever das almas

Lá no Purgatório.

 

Quebrai, meu Jesus,

Poderoso e forte,

Aquelas prisões

Dos laços da morte.

 

Seja o vosso braço

O libertador

Das almas que penam

Em tanto rigor.

 

Por vós finalize,

Jesus soberano,

Nestas tristes almas

A pena do dano.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no Purgatório

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

 

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

VÉSPERAS

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, Filho

Do onipotente,

Com as tristes almas,

Sempre tão clemente.

 

Tende compaixão

Dessas tristes almas,

Que estão padecendo

Rigorosas chamas.

 

Bem como as escuras

Do rico avarento,

Padecem as almas

Outro igual tormento.

 

Assim como cervos

Dos vales e montes,

Quando sequiosos

Procuram as fontes.

 

Assim mesmo as almas

Querem excessivas

Só a vós, meu Deus,

Fontes d’águas vivas.

 

Mandai-lhes propício

As águas da graça,

Para melhorarem

Daquela desgraça.

 

O perdão das almas,

Senhor, alcançai

Das misericórdias

De Deus vosso Pai.

 

Vosso Sangue seja,

Propiciatório,

De Deus para as almas

Lá no Purgatório.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no Purgatório.

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

 

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

COMPLETAS

 

Converta-nos Deus,

A nós todos juntos,

Para sufragarmos

Os fiéis defuntos.

 

Sede em meu favor,

Salvador do mundo,

E das almas santas,

Do lago profundo.

 

Nós vos pedimos

Pronta salvação,

Preferindo aquelas

Da nossa atenção.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Elas já descansem

Para sempre. Amém.

 

HINO

 

Deus vos salve, Esposo

Das almas fiéis

Que estão padecendo

Tormentos cruéis.

 

Olhai compassivo

Para as fadigas

Dessas que não são

Vossas inimigas.

 

Mesmo assim vos amam

Em tal padecer,

Sem aqueles toques

De doce prazer.

 

Como as virgens loucas

Foram imprudentes,

Perdoai as suas

Ações negligentes.

 

Celebrai depressa

As núpcias eternas

Com aquelas almas

Humildes e ternas.

 

Conduzi-as logo

À feliz herança

Da vossa suprema

Bem-aventurança.

 

Transporta-as já,

Sem mais dilação

Para os tabernáculos

Da santa Sião.

 

Por vós gozem elas

Sem maior detença

Os doces efeitos

Da vossa presença.

 

Peçamos a Deus

A eterna luz,

Para os que já dormem

Em Cristo, Jesus.

 

Ouvi, meu bom Deus,

O deprecatório,

Em favor das almas

Lá no Purgatório.

 

Rezar Pai-Nosso e Ave-Maria.

 

ORAÇÃO

 

Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo dominador dos vivos e dos mortos, pelos merecimentos infinitos do vosso Unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos da sempre Virgem Maria, sua Mãe, e por todos os merecimentos dos bem-aventurados, concedei propício o perdão das penas que merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas preces para que, livres do Purgatório, vão gozar da eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amém.

 

OFERECIMENTO

 

Nós Vos oferecemos,

Ó bom Deus propicio,

Pelas tristes almas,

Este breve ofício.

 

Vós que sabeis tudo

Quanto nós pensamos,

Bem sabeis que almas

Hoje sufragamos.

 

Participem todas

Por vossa bondade,

Conforme a justiça

E a caridade.

 

Para que por vós,

Jesus, Sumo Bem,

Em paz já descansem

Para sempre. Amém.