quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Lançamento!



Nesta quinta, 13 de agosto, às 20h00, serão lançados quatro folhetos de cordel, todos com o selo da Rouxinol do Rinaré Edições, de Fortaleza (CE):

A Lenda da Loira do Banheiro (reedição). Parceria com João Gomes de Sá. Xilogravura de Lucélia Borges.

O Tostão da Discórdia. Parceria com Pedro Monteiro. Capa: Eduardo Azevedo.


Marúsia e a Maldição do Vampiro. Capa: Eduardo Azevedo.


Balada de Pero e Isabel. Xilogravura de Lucélia Borges.

O evento será via Instagram, no perfil @rouxinoldorinare e terá mediação de Julie Oliveira (Ganesha Produções).

domingo, 9 de agosto de 2020

Bença, Painho (crônica para o Dia dos Pais)


Ninguém nasce no sertão à toa. Não é lição, nem frase de efeito. É constatação. Hoje, quando revisito a casa onde nasci, na Ponta da Serra, no semiárido baiano, onde caatinga e cerrado se abraçam, sou invadido por uma sensação estranha de vazio e de plenitude. A casa amarela, construída por meu bisavô, major Ramiro José de Farias, na década de 1920, é a única ainda de pé no que antes fora um casario. Um belo casario. Meu pai, Valdi, vendeu a propriedade em 1986, quando nos mudamos para Serra do Ramalho, muitas léguas além, nas barranceiras do rio São Francisco. Ficaram para trás, além da casinha de adobe, a igreja, também erguida por meu bisavô, e o umbuzeiro do quintal, que foi meu gabinete de leitura quando, enfim, comecei a decifrar, muito por conta própria, mas, principalmente, pelas leituras dos cordéis, o mundo da escrita. Ficou para trás a casa de meus avós paternos, Luzia e Joaquim, ela minha grande professora, contadora de histórias extraordinárias, Sherazade das noites sem fim do sertão de minha infância. Hoje, entre os escombros da casa, pastam as reses do atual proprietário.

E por que a sensação de vazio e de plenitude da qual falei há pouco? Talvez pela impossibilidade de recompor, mesmo na memória, tantas sensações, cheiros, sabores, vozes, cantos, choros, rezas, risos, vida jorrando de lábios e olhos. Ofício de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da comunidade, rezado nas sentinelas e no dia da Santa, 8 de dezembro. A voz de Tio Dão, João Farias, se sobressaindo às demais, nas rezas ao pé do cruzeiro. Os ramos de Tio Maçu espantando a doença, o mau olhado, afugentando a peste. Madrinha Nenzinha, na moldura da janela de sua casinhola, à espera de alguém que lhe pedisse rapadura. Cachorro latindo, adivinhando assombração. Mas a lembrança que vincou mais forte é, sem dúvida, a de meu pai retornando todo o sábado, da feira de Bom Jesus da Lapa, aonde ia vender tijolos (doces feitos em tachos) e requeijão. A cada retorno ele trazia, sem falta, dois folhetos de cordel, que eram lidos no dia seguinte, com a presença de toda a família. A sua coleção, herdada de minha avó, já passava de uma centena. Os novos “moradores” disputavam com os mais velhos a minha predileção.

Não era incomum, ainda, ele cantar para eu dormir. Cantiga de adormecer menino pode ser assustadora, engraçada ou melancólica. Minha mãe, Maria, repetia, sempre, “o sapo cururu/ na beira do rio,/ quando o sapo canta/ é porque tem frio”. E ele respondia com um acalanto triste e bonito ao mesmo tempo. Aprendera-o com sua mãe. Falava de um passarinho que, por perder o amor, sucumbe à tristeza. A quadrinha final, com melodia dolente, era esta:

Passarinho, se eu pudesse
não te enterrava no chão:
mandava abrir sua cova
dentro do meu coração.

Hoje, quando retorno à Bahia, ainda peço para os meus pais fazerem uma roda de versos. E eles o fazem, abrindo as janelas das relembranças. O passado é um terço cujas contas são as memórias. De tempos idos. Sementes de primaveras que ainda florirão.

Marco Haurélio

Crônica publicada na revista Páginas Abertas, da Paulus Editora.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Literatura oral do Brasil e de Portugal




Texto: Divulgação. 

O programa Leituras de Mundo (amanhã, dia 28/07 às 17h do Brasil e 21h em Portugal) trará um encontro com: Marco Haurélio e Paulo Correia! Autores e investigadores do conto tradicional, eles apresentarão as suas leituras de mundo em nosso canal youtube Escola de Narradores Online - a não perder! Saiba mais sobre os nossos convidados:

Paulo Correia: Antropólogo, mestre em Literatura Portuguesa, investigador, folclorista e professor da Universidade do Algarve em Faro, antes de enveredar pela investigação dos contos e das lendas, trabalhou como técnico de eletrónica especializado em instrumentos musicais dos 15 aos 25 anos, foi sonoplasta do grupo de teatro universitário Sincera, onde traduziu uma peça e escreveu sobre a obra Rei Lear de W. Shakespeare. Também fez parte do Cineclube de Faro, onde apresentava filmes oralmente e escrevia textos para os livrinhos que acompanhavam os ciclos de cinema. Publicou um livro sobre a história do cinema no Algarve (2007), dezenas de artigos científicos e colaborou como catalogador em diversas publicações. Desde 1996, é membro do CEAO (Centro de Estudos Ataíde Oliveira) da UAlg, unidade de investigação que se dedica ao estudo interdisciplinar da Literatura Oral Tradicional e membro colaborador do IELT (Instituto de Estudos de Literatura Tradicional) da FCSH Universidade Nova de Lisboa, desde 2017.

Marco Haurélio: Escritor, professor, folclorista e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália. Finalista do Prêmio Jabuti, seus livros receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileiros, A lenda do Saci-Pererê, Meus romances de cordel, Lá detrás daquela serra, O encontro da cidade criança com o sertão menino, Tristão e Isolda em Cordel, A jornada heroica de Maria, Vozes da Tradição e Contos e fábulas do Brasil (a primeira e a última obra contam com a colaboração do pesquisador português Paulo Correia). Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços diversos como a Casa Tombada em São Paulo e a Escola de Narradores Online (turmas Brasil e Portugal).




quinta-feira, 25 de junho de 2020

CARTA DE SATANÁS A TASSO JEREISSATI SOBRE A PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA



| Texto coletivo | Obra Completa |

Inferno, Corte das Trevas,
24 do mês seis
Eu escrevo essa missiva
Com coragem e altivez
Para parabenizar
O senador de vocês!

Grande Tasso Jereissati,
Orgulho aqui das Profundas,
Não cansa de amealhar
Pra suas contas rotundas
Dinheiro até mesmo à custa
Das pessoas moribundas.

Aproveita a pandemia
Momento de desespero
Para levar mil vantagens
Do povinho brasileiro,
Pois pouco lhe importa a vida,
Só tem valor o dinheiro.

Por isso até sinto inveja
Das grandes calamidades.
Aqui você é destaque
Entre as grandes sumidades,
No inferno um cão não tem
Seu rosário de maldades.


Tu és gênio, camarada!
Porque nunca pensei nisso?
A água que é bem vital
Luta para dar sumiço;
Tiro o chapéu e lhe louvo
Por planejar tudo isso!!!

Senador, o próximo passo
Que você deve pensar
É cobrar a luz do sol
E o ar privatizar
Para que seus eleitores
Paguem para respirar!

Nesse inferno aí da Terra
Você supera o capeta.
Seus projetos diabólicos
É sempre grande faceta.
Quem vota em você merece,
Chapéu de otário é marreta!

Aproveito esta missiva
Pra lhe parabenizar.
Jogue duro, bote quente,
O segredo é massacrar.
E como contrapartida
Reservei o seu lugar.

Tu sabes, somos amigos,
Você é grande parceiro.
Já lascou o Ceará
De Sobral a Juazeiro
Agora o plano execrável
É lascar o Brasil inteiro.

Meu galeguinho, esta carta
É seu comparsa quem posta.
Já sei que você me atende,
Pois do seu amigo gosta,
Faça tudo que lhe peço
E nem precisa resposta.

Meu distinto senador,
Você é astuto e sagaz,
Querer privatizar a água
Prova do que és capaz.
Do jeito que você é
Destrona até Satanás.

Já vendeste a energia,
Cuja empresa era estatal,
E queres privatizar
Água – um bem universal!
Tu serás bem-vindo aqui,
Grande senador do mal!

Eleito por um Estado
Onde a seca sempre assola,
Mas para a população
Nunca moveste uma mola.
Queres toda a água agora
Para fazer coca-cola?

Quanto mais dinheiro tens,
Mais tu queres ter tutu,
Nós vemos tua ganância,
Eu, Capeta e Belzebu.
O inferno inteiro te espera,
“Coroné dos zói azu”!

Tasso você é amigo,
Mas tá me causando espanto.
Não aceito concorrência,
Meu rosto já rola pranto,
Já estou é percebendo
Que tu quer tomar meu canto.

Quando chegar no inferno
Você será aclamado,
"Galego dos olhos azul",
Capitalista afamado.
Seguindo assim, "nas profundas",
Tu serás condecorado!

Posso até mudar seu nome:
Tassanás te chamará
Com essa sua jogada
O mundo conhecerá
Entre Tasso e Satanás
Que diferença não há.

Aqui no inferno todos
Querem contigo aprender,
Melhorar o repertório
Pra mais maldades fazer.
Jamais te superarão,
Oh, mestre do malquerer!!!

Como embaixador do inferno
Prossiga em sua maldade,
Passe por cima de pobre
Pra viver com qualidade,
Que depois o próprio pobre
Lhe implora por caridade.

Água não é para todos,
Siga a privatização.
Apenas finja ser bom
Em período de eleição,
Mas agora você faça
O mal pra sua nação.

Também a telefonia,
Por preço muito mirrado,
Tu vendeste, meu galego,
Desmilinguiu o Estado.
Quer rifar os mananciais
De um povo já ressecado.

Portando várias safenas
Em São Pedro não medita
Toda nossa encanação
Mira em ganância maldita
O pobre vai passar sede
E nem mais banho cogita.

Mas o pior no vil enredo
Pra entupir nossos canos
É golpe na Educação
Usado em passados anos
Põe depois a pedra em cima
E por isso amo Tucanos!

O prefeito do inferno
Por ordem superior
Já vai lhe condecorar,
Estimado senador.
Que privatizará a água
Onde faz muito calor.

Aqui estamos contentes
Com o plano empresarial.
Em pouco tempo, o Brasil
Será nossa filial.
Dispensará combustíveis,
Será inferno natural.

Bolou um plano brilhante:
Pra fabricar cola-cola
Quer ser o dono da água,
No mal não possui bitola,
Vendendo refrigerante
No inferno fez escola.

Eu penso amolando os chifres:
Tu és o maior avaro!
Irmão, somos um só sangue,
Eu, você e Bolsonaro;
Nossa missão é fazer
O povo tomar no aro!

Ah, delícia de idiotas
Que votam na vossa laia!
O veneno da burrice
Do meu rabo de lacraia
Inoculado por biltres
Como Silas Malafaia.

Dizem orar pra Jesus
Em templos, que na verdade,
Pregam a minha doutrina,
Lá eu sou autoridade!
De cristãos só têm o nome,
Pra nossa felicidade!

Já você, tem outros modos,
Meu cheiroso Galeguinho.
Posa de grande empresário,
Filantropo (seu mesquinho!),
Enquanto tange os mandatos
Para o maior descaminho.

Acho lindos teus discursos
Mal ajambrados, capengas,
Na plenária ou aos repórteres,
Que lindas, toscas arengas;
Te sentes “a sumidade”,

Acho lindos teus discursos
Mal ajambrados, capengas,
Na plenária ou aos repórteres,
Que lindas, toscas arengas;
Te sentes “a sumidade”,
Proferindo lengas-lengas.!

Mas vamos aqui parar
Com tais classificações.
Sigamos para o trabalho:
Desviar aos borbotões
As águas de toda parte
Às nossas instalações!

Ao findar minha cartinha
Realizei meu afã.
Da sua mente perversa
Eu já me tornei um fã,
Assino aqui na outra linha
Seu velho amigo Satã.

Ao concluir sua carta
Satanás suspirou fundo
E falou: — O Tasso tem
Conhecimento profundo
Para cometer maldade
É ele o melhor do mundo!

Nosso Tasso é escolado
Que sempre engana à socapa.
Não sei porque não foi vice
De Bozo na sua chapa
Pra ganhar a eleição
Tinha sido uma garapa!


Lusbel escutando tudo
Falou assim: — Ora sebo!!!
Tasso sempre foi um mestre
Novinho, jovem mancebo,
Já era droga pesada
Porque nunca foi placebo.

Naquela hora sublime
Festejava o Satanás.
Pensou sorrindo: — O galego
Mostrou do que é capaz.
Com à água privatizada
Viverei dando risada
E de todos tiro a paz.

"Este nobre senador
Tem mostrado que é esperto.
Uma pessoa como ele
Eu quero sempre por perto.
Com ele no parlamento
A todo e qualquer momento
Meu canal está aberto".

"Galeguim dos zói azul –
Disse o capeta sorrindo –
Vais privatizar a água
Com a verdade omitindo.
Ele ficando mais rico,
Eu festejo e alegre fico
Por estar contribuindo.

“Não te esqueças, meu Galego,
Dessa nossa parceria!
Tu privatizas a água
Como tua mercadoria!
Vão comer em tua mão,
Principalmente o sertão
Onde água é iguaria”.

Mate esse povo de sede!
Tire-lhe o refrigério
Pra que pobre beber água?
Mas que falta de critério!
Água é pra quem tem dinheiro!
Privatize até bueiro,
Se morrer, tem cemitério!

Porém cuide, enquanto há tempo,
Pois tão fazendo um cordel
Denunciando a parceria –
E clamando a São Miguel –
E a Jesus que é comunista
Deus me livre de esquerdista
Essa escória é infiel.

Seja esse criminoso,
Faça valer sua história,
Pois esse povo sem água
Não terá escapatória.
Ficarão em teu curral,
Feito um bando de animal,
Mate de sede essa escória.

Esta privatização
Vai encher o meu caderno.
"Galeguim, dos zói azul"
Já que és homem moderno.
Vou fazer uma postagem
Te mostrar a homenagem
Que a ti fiz no inferno.


FIM


AUTORES:

Eduardo Macedo
Silvio Roberto Santos
Joaquim Mendes (Joames)
Pedro Paulo Paulino
Evaristo Geraldo da Silva
Jader Soares (Zebrinha)
Klévisson Viana
Rouxinol do Rinaré
Francisco Paiva Neves
Antônio Marcos Bandeira
Paulo Filho
Junior do Cordel
Angelim do Icó
Demétrio Andrade
Antônio Queiroz de França
Leo Manoel

Capa: Cayman Moreira

sexta-feira, 19 de junho de 2020

40 ANOS DO NÚCLEO DE CORDEL DA BAHIA



Edilene Matos (ao centro), idealizadora do Núcleo de Pesquisa e Cultura
da Literatura de Cordel da Bahia.

 Por Edilene Matos
em seu perfil no Facebook. 

É com muita tristeza que lembro aqui os 40 anos de implantação do Núcleo de Pesquisa e Cultura da Literatura de Cordel da Fundação Cultural do Estado da Bahia e que foi totalmente transfigurado. Antes de contar um pouco a história desse importante centro de memória, faço um apelo para um movimento em torno de uma reabertura plena e digna desse acervo.

Em 1979, apresentei ao então Conselho Deliberativo da Fundação Cultural da Bahia um projeto para a criação do Núcleo de Pesquisa e Cultura da Literatura de Cordel, com o objetivo de atender à necessidade, que me parecia justa e urgente, de testemunhar e documentar esse riquíssimo patrimônio da cultura do povo, ainda desconhecido ou insuficientemente valorizado pelos estudiosos da dita literatura culta ou letrada. A transmissão oral, o domínio poético do encantamento e do fantástico, a transfiguração do real através da simbologia, o recurso recorrente ao tema da metamorfose, a capacidade de interpretar e expressar os desejos e os valores de certos grupos sociais ignorados pela elite intelectual, são alguns dos elementos que denotam as especificidades da literatura popular, também chamada literatura de cordel ou de folhetos. Em 1980, o referido Projeto foi aprovado, relatado em sessão por Carlos Vasconcelos Domingues e fui designada, pelo presidente da Casa, Geraldo Machado (a quem sou eternamente grata pelo empenho e o profundo respeito), para ser a primeira coordenadora do recém-criado Núcleo. Passei a visitar alguns centros de excelência no assunto, como o da Fundação Casa de Rui Barbosa (Rio de Janeiro), o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o NUPPO da Universidade Federal da Paraíba e a Fundação Joaquim Nabuco (Recife). Passei a frequentar feiras e mercados desse Brasil afora para a aquisição do acervo.

O Núcleo de Cordel da Bahia passou a contar com razoável acervo de folhetos populares todo ele fichado e acondicionado em caixas especiais, assim como uma considerável bibliografia de apoio – livros, teses, revistas, jornais, artigos diversos -, além de uma discografia, de arquivos com fotos e documentos diversos sobre a matéria.

Era um espaço vivo, onde transitavam poetas de cordel, violeiros, repentistas, intelectuais, pesquisadores brasileiros, americanos e europeus, estudantes, público em geral. Tinha uma programação sistemática, que se estendia para ações de extensão, a exemplo da criação da Banca dos Trovadores e Violeiros na parte externa do Mercado Modelo.

Hoje, desalojado de seu espaço, a memória da literatura de cordel na Bahia sobrevive graças ao persistente e dedicado empenho da bibliotecária Ana Lúcia Reis Fonseca, embora conservado em local precário e inapropriado para a relevância dessas obras singularmente expressivas de nossa cultura). Felizmente, há um catálogo, editado em 2006, com 246 páginas, pela mesma Fundação Cultural, trabalho feito amorosamente por Ana Lúcia Reis Fonseca, amiga querida, na gestão de Armindo Bião, também envolvido com a literatura de cordel.

Desde sua inauguração oficial (19 de junho de 1980), o Núcleo de Cordel destacou-se no cenário da cultura baiana pelo original e promissor projeto que apresentava, destacando-se, entre as ações, o projeto da Banca dos Trovadores e Repentistas, envolvendo a criação de um espaço onde poetas e cantadores /repentistas passariam a ter um local específico para o desenvolvimento de suas atividades artísticas, sobretudo as atuações performáticas.

Esse espaço chamou muita atenção e tanto o povo quanto os intelectuais sensíveis à criação popular passavam por lá e se deliciavam com os versos improvisados. Lembro-me, por exemplo, de Rodolfo Cavalcante Bule- Bule, Zé Pedreira, Papada, Valeriano, Minelvino, Jorge Amado, Queiroz, José Calasans, Hildegardes Vianna, Zélia Gattai, Orígenes Lessa, Dias Gomes, Mário Vargas Llosa, Lêdo Ivo, Zumthor, Gilbert Durand, Sylvie Raynal, etc.

O cordel é um movimento artístico interdisciplinar por excelência, pois que o folheto integra em si diversas linguagens: temas e esquemas narrativos; canto, sonoridade e ritmos; artes plásticas, pois envolve desenhos, silhuetas e xilogravuras, além de variadas performances.



Edilene Dias Matos concluiu o doutorado em Comunicação e Semiótica/Literaturas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1999. Tem Pós-Doutorado em Literatura/Cultura Brasileira pela USP – Instituto de Estudos Brasileiros (2000-2002). Tem Pós-Doutorado (2012- 2013) pela Université Paris-Ouest Nanterre La Défense (França). Foi professora da Universidade Católica de Salvador. Foi Professora Doutora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo nos cursos de Graduação e Pós-Graduação (2003 a 2009). Foi diretora do Departamento de Literatura da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Atualmente é Professora Adjunta da Universidade Federal da Bahia. Foi docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É Docente permanente do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado e Doutorado) e é a atual Coordenadora do referido Programa. Publicou vários artigos em periódicos especializados, além de mais de uma dezena de capítulos de livros e livros, em várias edições. Tem participado de vários eventos no Brasil e no exterior. Tem oferecido disciplinas na Université Paris-Ouest Nanterre La Défense. Atua na área de Semiótica da Cultura, tendo por base a área de Letras e Artes, com ênfase em Cultura Brasileira, Literatura Brasileira, Poéticas da Voz, Interfaces da literatura com outras artes. Em suas atividades profissionais interage com diversos colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. Em seu currículo Lattes, os termos mais freqüentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural são: Literatura Brasileira, Poéticas da Voz, teatralidade das poéticas orais. Interfaces da literatura com outras manifestações artístico-culturais, Interdisciplinaridade, Fundos Villa-Lobos, cordel, crítica, ficção e intertextualidade, culturas e artes. Foi eleita para a Academia de Letras da Bahia. (Informações disponíveis da página do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Curso on-line sobre o conto de fadas na Casa Tombada




Sobre o curso

Contar histórias vai além do mero entretenimento. Uma das mais antigas expressões culturais da humanidade, a arte de contar histórias aproxima pessoas e cria laços afetivos que dificilmente serão rompidos com o tempo. Os velhos contos populares, sementes da tradição, nascidos não se sabe onde, trazidos não se sabe por quem, vivem na memória coletiva nas vozes dos narradores-guardiães. Marco Haurélio, valendo-se de sua experiência como coletor e divulgador de centenas de contos e lendas brasileiras, além de respeitado cordelista, nos convida a viajar pelo universo mágico da tradição em sua familiar universalidade.


      Roteiro do curso

Primeiro encontro (09/07): Belas e feras: o vasto e longevo ciclo do noivo animal
Segundo encontro (16/07): Zeus, Jesus e Odin: os deuses caminham entre nós
Terceiro encontro (23/07):  Heróis tortos ou anti-heróis: de Ulisses a Pedro Malasartes
Quarto encontro (30/07): Eita diabo! O medo e o mal nos contos pulares.



SUGESTÕES DE LEITURA

ALCOFORADO, Doralice. Belas e feras baianas. Salvador: SECULT, 2008.
AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Hucitec, 1976. ARAUJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 3ª ed. São Paulo: Martins  Fontes, 2007.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
CALVINO, Ítalo. Fábulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 1989.
CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as versões análogas dos países lusófonos). CEAO da Universidade do Algarve / Edições Afrontamento: Portugal, 2015.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo:  Global, 2004.
COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.
FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.
FRANZ, Marie-Louise von. A sombra e o mal nos contos de fadas. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. São Paulo: Paulinas, 1985.
FROBENIUS, Leo; FOX, Douglas C. A gênese africana. Tradução de Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Landy, 2005.
GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
GUIMARÃES, Ruth. Calidoscópio: a saga de Pedro Malasartes. São José dos Campos: JAC Editora, 2006.
_____________. Os filhos do medo. Porto Alegre: Globo, 1950.
HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.
_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.
_____________. O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.
_____________, Wilson Marques. Contos e Lendas da Terra do Sol. São Paulo: Paulus, 2019.
_____________. Vozes da tradição. Colaboração: Lucélia Borges. Fortaleza: IMEPH, 2018.
KIRK, G. S. The nature of greek myths. EUA: Penguin Books, 1985.
LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot. Um Panorama da Mitologia Europeia.Readução de Vera Ribeiro. São Paulo: Zahar, 2004.
MEREGE, Ana Lúcia. Os contos de fada – origem, história e permanência no mundo moderno. São Paulo: Claridade, 2010.
NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.
PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Teresa (Três volumes). Brasília: Thesaurus, 1995.
PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.
XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas pias populares. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros – USP, 1967.



Quem é o professor

Marco Haurélio, escritor, professor e divulgador da literatura de cordel, tem mais de 40 títulos publicados, a maior parte dedicada a este gênero que conheceu na infância, passada na Ponta da Serra, sertão baiano, onde nasceu. Também Vários de seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha. Finalista do Prêmio Jabuti, suas obras receberam distinções como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, e o selo Seleção Cátedra-UNESCO (PUC-Rio). Em sua bibliografia destacam-se as obras Contos folclóricos brasileiros, A lenda do Saci-Pererê, Meus romances de cordel, Lá detrás daquela serra, O encontro da cidade criança com o sertão menino, Tristão e Isolda em Cordel, A jornada heroica de Maria e Contos e fábulas do Brasil. Ministra cursos sobre cordel e contos tradicionais em espaços os mais diversos.
]
Onde 
Online
As informações de acesso serão disponibilizadas por e-mail.

Público
Geral.
Turma
40 pessoas

Investimento
R$160,00
em até 4x sem juros ou
7% de desconto à vista pelo PagSeguro.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

O Cordel se despede de Piúdo, mas Piúdo está vivo em sua arte




Para homenagear Luís Eduardo Serra Azul Filho, o Piúdo, poeta cordelista, compositor e cordelista, que nos deixou no último sábado, 6 de junho, os poetas Rouxinol do Rinaré, Evaristo Geraldo e Godofrêdo Solón, escreveram, em parceria, um belo cordel que contou com capa de Klévisson Viana. Piúdo nasceu em Fortaleza (CE) no dia 30 de julho de 1967. Coincidentemente, tinha a mesma idade de Arievaldo Viana, outro grande cordelista que também nos deixou recentemente. 

Nosso adeus em poesia
Ao Serra Azul, o Piúdo!

Autores: Evaristo Geraldo, Godofredo
e Rouxinol do Rinaré

A morte em 2020
Traz na foice um corte agudo:
Fim de maio leva Ari,
Um cordelista graúdo,
E agora início de junho
Levou o nosso Piúdo!

O Serra Azul, ou Piúdo,
Era grande, um multiartista:
Poeta, compositor,
Um talentoso humorista,
Também deixou sua marca
Como escritor cordelista.

O Serra Azul foi embora
Nesse momento de dor...
A Terra está cor de cinza,
Mas o céu ganha mais cor,
Pois Piúdo vai levando
Poesia e muito humor!

A morte veio sisuda,
Sorrateira e preparada.
Piúdo estava dormindo,
Ela o chamou: — Camarada,
Vamos comigo pro céu
Fazer um show de piada!

"A COVID tem matado
Indiscriminadamente
E no céu está faltando
Quem alegre tanta gente.
Estou aqui pra levá-lo
Por ordem do Onipotente."

Piúdo disse: — Senhora,
Procure vates decanos.
Eu ainda sou tão jovem.
Só fiz cinquenta e dois anos!
— Sem "queixo"! – retruca a morte –,
Pois Deus não comete enganos.

“Você já cumpriu na Terra
O seu papel de poeta.
Tem vários cordéis escritos,
Está na lista seleta.
Agora irás para o céu
Cumprir uma nova meta.

Não queira me ‘desdobrar’,
Entre logo no transporte.
Conheço bem sua fama,
Seu inteligente porte...
Compro ordens do Altíssimo
E ninguém foge da morte!”

Piúdo disse: — Está certo!
Deus chamou, vamos embora.
Se é para fazer show,
Não posso passar da hora.
E lá irei encontrar
A plateia que me adora.

Vamos abrir um parêntese
Pra falar da trajetória
Desse singular artista,
De uma cultura notória
E saber como se deu
O início de sua história.

Nosso Luís Eduardo
Serra Azul Filho, o Piúdo,
Descende de grandes vates,
Seu sobrenome diz tudo,
Não é à toa que tinha
Métrica, rima e conteúdo!

O fim dos anos noventa
Abre A PORTA CULTURAL
DOS ALETÓFILOS, com ela
Nasce o homônimo jornal
Com inspiração na famosa
Padaria Espiritual.

Rouxinol, Francisco e Magnos
Dão início ao movimento.
Paiva Neves aderiu
Ao grupo, em dado momento,
E Serra Azul, o Piúdo,
Completou com seu talento.

Com prosa e com poesia
Mostravam seus ideais
De resgatar a cultura,
A história e muito mais,
Tendo heróis iguais Rodolfo
Como figuras centrais.

Nosso Rodolfo Teófilo,
Essa personagem rara,
Firme, o grupo de A PORTA
A sua memória ampara
Nesse movimento histórico
Junto ao povo em Pajuçara!

O jornal foi bem efêmero,
Só teve quatro edições...
Com o tempo os artistas tomam
Diferentes direções,
Mas A PORTA abriu a todos
Muitas realizações.

Francisco hoje é filósofo,
Rouxinol é escritor,
Paiva é poeta e docente,
Magnos tornou-se editor,
Piúdo publicou livros,
E gravou CDs de humor.

Piúdo escreveu cordéis
Com boa trama e enredo.
Tem muitas obras inéditas...
A vida é mesmo um segredo,
Porque ninguém esperava
Que ele partisse tão cedo!

No mundo do cordelismo
Já na primeira "incursão"
Escreveu com Rouxinol,
Com humor em profusão,
O cordel O GRANDE ENCONTRO
DE CAMÕES COM SALOMÃO.

Tomou fôlego, publicou
Cordéis, livros de poesias,
Foi premiado em concursos,
Se insere em antologias,
Fortaleceu nossas letras
Com diversas parcerias.

Pela Editora IMEPH
Também fez publicação
E Nas Ondas da Leitura
Seus textos navegam, então,
Chegando às salas de aula,
Brilhando na educação!

Alegrou rodas de amigos
Nos tempos da SOPOEMA...
Tinha um grande repertório
De piada, em qualquer tema.
Foi um humorista nato,
Um cearense da gema!

Pras festas de aniversário
O Piúdo era chamado.
Lá chegando ele deixava
O lugar bem animado,
Pois, até mesmo em silêncio,
O Piúdo era engraçado.

Recordaremos Piúdo
Sempre com muita alegria,
Nos movimentos de humor,
Pois, onde quer que ele ia,
Arrancava gargalhadas
Com as piadas que fazia.

Junto a Klévisson Viana
E de Ari seu irmão,
Rouxinol do Rinaré,
E Marcos Aurélio, então,
Piúdo e suas piadas
Foi sempre grande atração.

Serra Azul, com Evaristo
E Stélio, em muitas, viagens,
Contava alegre seus causos,
Às vezes, de sacanagens,
E diversas "pegadinhas",
Incomparável em “trolagens”.

Ao lado de seus parceiros
Costa Senna, Godofrêdo,
Paiva Neves, Julie Ane,
Revelava um novo enredo
Ou belas composições,
Nunca as deixava em segredo.

Lembramos já com saudades
Das suas declamações,
Dos encontros literários,
Das nossas reuniões
Em diversas editoras
Pra fechar contratações.

Na histórica SOPOEMA
Deixou seu nome gravado.
Com o fardão da AML*
Ficou imortalizado.
E até mesmo em Portugal
Seu trabalho é premiado.

Os filhos Igor e Yuri
São sementes que deixou,
O riso em nossas lembranças
Das piadas que contou
E um legado cultural
Nas obras que publicou.

Nós somos a somatória
De tudo que nos rodeia.
E quando um vate se encanta,
Volta ao pó, torna-se areia,
O mundo fica mais triste,
No céu um astro passeia.

Na Terra a vida é estágio
Na escola da Providência.
A morte ceifou seu corpo,
Mas não matou sua essência...
Piúdo subiu ao Pai,
O Deus de toda existência.

Fechando os olhos da carne,
N’outra vida despertou.
A saudosa Conceição
Lhe esperando avistou
E, assim, seguiu abraçado
À mulher que tanto amou!

Fim
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*Academia Maracanauense de Letras