sábado, 20 de janeiro de 2018

Viva São Sebastião!



Esta foto é de 2013, da festa de São Sebastião da Boa Vista, no município de Serra do Ramalho (BA). A imagem do santo, que vem de Bom Jesus da Lapa, transportada numa lancha, com a presença da Marinha, percorre as duas ruas do povoado de Boa Vista. Durante os nove dias que antecedem o 20 de Janeiro, dia em que se festeja São Sebastião, ocorre a novena em louvor ao orago. 

A festa, infelizmente, nos últimos anos, graças à interferência nefasta de políticos oportunistas, vem sendo conspurcada, e o seu sentido original, além do protagonismo da comunidade, têm ficado em segundo plano. Apesar de conservar o nome do santo, sabe Deus até quando, a inserção de shows de bandas de forró de plástico ou coisa pior, tem sido a tônica da "festa". A comunidade, lógico, fica dividida, pois a inserção de tais "atrações" ajuda a aumentar sensivelmente o público, embora, no bojo, traga outros problemas.

Assisti, ainda em 2013, a uma das celebrações na igreja, e, enquanto as mulheres rezavam os benditos, lá fora, carros lá fora, com sons a toda altura, atrapalhavam, o tempo todo, a celebração. Não se tratava mais da luta entre o sagrado e o profano. Mas da espiritualidade contra a imbecilidade. 

É preciso que haja uma reação. Que a comunidade se insurja. Que os mantenedores, devotos como Tonho de Renato, que bravamente ajudam a manter viva a tradição, se valham das setas de São Sebastião, para afastar essa turma de aproveitadores e conspurcadores. Essa gente tem todo o tempo do mundo para demonstrar sua parvoíce. Que o façam em outras oportunidades! 

Deixem as festas tradicionais em paz!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Vida e Memória

Dane de Jade e o boizinho de papel 
Indo contra o senso comum, e até mesmo contra o ‘bom senso’, ouso afirmar que o nosso bem mais valioso não é a vida. Por que digo isso? Por que a vida não é um privilégio. É uma condição. ‘Vivemos’ como vivem o escorpião, o guepardo, o coala e o bacilo de Koch. Algo tão valioso assim não se se encontra em toda parte. O que fazemos desta condição é o que importa. Passamos, então, do viver para o existir.

Para mim, o bem mais valioso é a memória. Por que afirmo isso? A resposta envolve outras perguntas. Por que, quatro milênios depois de escrito, ainda nos fascinamos com o Épico de Gilgamesh? Por que ainda torcemos para que Ulisses, herói hesitante e de caráter duvidoso, volte para Ítaca e ponha fim aos desmandos dos pretendentes de Penélope? E por falar em Penélope, são as nossas mãos que tecem e a destecem a mortalha de Laertes, como se o seu destino fosse o nosso destino. Por que nos postamos ao lado de Psiquê, que precisa derrotar Vênus, ancestral das rainhas-ogras, e conquistar o Amor (com A maiúsculo mesmo), depois de tantas provações, conforme o registro de Apuleio, no século II da era cristã

Porque, no fundo, do baú e da cacimba, todos nós somos Gilgamesh, Ulisses, Penélope e Psiquê. Não se trata, aqui, de ratificar as ideias elementares, os arquétipos, aquilo que faz de nós uma grande fraternidade ainda que sejamos, em essência, únicos. Porque, além das fronteiras forjadas por tratados e baionetas, há elos que não podem ser rompidos, e não podem ser rompidos por não possuírem a ambicionada materialidade. Se quiser fazer um teste, pergunte para alguém por que faz determinado gesto. O mais banal que seja. Ele poderá não saber o motivo, mas, dirá que o faz “inconscientemente” ou imita outra pessoa. 
Mestre Aldenir no Centro de Pesquisa e Formação do SESC.

Domingo, Lucélia e eu recebemos a visita da atriz e produtora cultural Dane de Jade. Veio acompanhada do mestre Aldenir, figura de proa do reisado cearense. Depois do almoço, conversa vai, conversa vem, mestre Aldenir contou uma história que, em resumo, é a primeira parte do célebre conto “Ali-babá e os quarenta ladrões”. E que eu registrei no livro Contos Folclóricos Brasileiros sob o título “O olho maior que o corpo”. Contou outras, exemplares, e me apresentou versões incríveis de contos do tempo em que Jesus andava na terra, além de facécias protagonizadas por Camões. Depois, Dane falou de sua ONG Beatos e da importância dos líderes religiosos do Nordeste, nomeando Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina, Padre Cícero, a beata Maria de Araújo e o beato Zé Lourenço. Ao referir-se ao último, citou a Casa do Boi, que ela mantém no Crato (CE), cujo mote é a história do boi Mansinho. História permeada de lendas. O boi Mansinho, da raça zebu, foi um presente de Delmiro Gouveia a padre Cícero, e que, confiado pelo sacerdote do Juazeiro a Zé Lourenco, acabou sendo cultuado pelo povo. Isso no alvorecer do século 20. O terrível deputado Floro Bartolomeu, espécie de cardeal Richelieu de Juazeiro, inconformado com o culto ao boi, mandou prender o beato, traiçoeiramente, no dia em que este lhe fizera uma visita, e ordenou que abatessem o boi em frente à cadeia onde Zé Lourenço fora encerrado.
Mestre Aldenir, Dane e Lucélia

Dane viu, na nossa estante, um boizinho, cujo bojo era um rolo de papel toalha envolto num tecido encarnado, feito por Lucélia, e se interessou pela peça. Pediu, e Lucélia confeccionou um para ela. O boizinho representado é o do bumba meu boi, auto que remete aos mistérios dionisíacos da morte e do renascimento. Que é o mesmo boi que os antigos puseram entre as constelações, o touro celeste caçado por Gilgamesh e Enkidu, o boi Ápis no Egito, Zagreus na Grécia, o touro sacrificado por Mitra, cujo culto tem origem no Neolítico, migra do Oriente Médio para Creta, se espalha pela Grécia e é levado para a Península Ibérica, sobrevivendo, hoje, na Espanha, na cerimônia profana e sangrenta das touradas. E na representação feiticeira do boi misterioso da gesta nordestina, imortalizada pela literatura oral e pela poesia bárdica do Nordeste, vulgarmente chamada de cordel.

O boizinho de Zé Lourenço era adornado com grinaldas, como o touro sacrificial dos tempos arcaicos, inspiradores. Deuses e heróis daqueles tempos, incluindo o eclético Serápis, morreram, mas sua gesta, vive em nossa memória, Mnemósine, a mais poderosa das deusas. Maior do que o tempo. Maior do que a vida. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cinco livros do povo

Cinco livros do povo:edição fac-similar da original de 1953.
A Literatura do Povo, segundo Luís da Câmara Cascudo, no célebre estudo Cinco livros do povo, divide-se em três gêneros distintos: A Literatura Oral, a Popular e a Tradicional. A primeira, que se caracteriza pela transmissão verbal, inclui os contos de fadas, facécias, anedotas, adivinhas desafios etc. A Literatura Popular, conforme palavras do próprio Cascudo, “é impressa, tendo ou não autores identificáveis. É portanto a literatura de cordel, pois, mais adiante, ele enumera alguns temas do que hoje se conhece por cordel circunstancial: “acontecimentos sociais, grandes caçadas ou pescarias, enchentes, incêndios, lutas, festas, monstruosidades, crimes, vitórias eleitorais.” Há, ainda, as histórias perenes, em especial as escritas por Leandro Gomes de Barros, o favorito do povo, com “folhetos sem ocaso na predileção sertaneja e agresteira [...] lidos, decorados, cantados permanentemente. Antes dele, Cascudo cita Silvino Pirauá, “o primeiro a escrever romances em versos...”, entre os quais cita Zezinho e Mariquinha, A Vingança do Sultão e História do capitão do Navio.

Por fim, a Literatura Tradicional é “a que recebemos impressa há séculos e é mantida pelas reimpressões brasileiras depois de 1840.” 

São exemplos deste gênero novelas como a História de Roberto do Diabo, a Donzela Teodora, História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, O Herói João de Calais, A imperatriz Porcina, A princesa Magalona. Para se desfazer algumas confusões, faz-se necessário esclarecer que, por livros do povo, Câmara Cascudo entendia essas novelas, e não as versões rimadas dos poetas nordestinos, o que fica claro no abalizado estudo crítico que acompanha cada uma dessas narrativas. Esta concepção foi buscada nos estudos do grande folclorista português Teófilo Braga. Na introdução ao volume 2 da obra clássica Contos tradicionais do povo português, Braga fazia referência a estas novelas, herdadas da França e da Espanha, exceção da Imperatriz Porcina, criação do Cego Baltazar Dias, da Ilha da Madeira, contemporâneo do rei D. Sebastião. A esta influência Braga atribui a queda da preferência popular pelos contos literários reelaborados a partir da tradição oral, como as Histórias de Proveito e exemplo de Trancoso:

“Os contos tornaram-se raros e foram deixando de ser lidos, ao passo que entre o povo se vulgarizaram as folhas volantes traduzidas do espanhol desde o governo dos Filipes, tais como A Donzela Teodora, a Formosa Magalona, o Roberto do Diabo, a História de Carlos Magno, os Sete Infantes de Lara, que formam a base da literatura popular portuguesa; outros escritores, como Baltazar Dias, descobriram também o segredo de se apoderar da imaginação do povo, e é deste poeta cego a elaboração literária da grande lenda de Crescência, conhecida e ainda vigente em Portugal sob o título de História da Imperatriz Porcina.”

A acomodação destes textos à nossa realidade, sua aceitação imediata no ambiente sertanejo e o interesse perene de leitores e de estudiosos mereceram, de Câmara Cascudo as seguintes considerações: “O sertão recebeu e adaptou ao seu espírito as velhas histórias que encantam os rudes colonos nos serões das aldeias minhotas e alentejanas. Floresceram, noutra indumentária, as tradições seculares que tantas inteligências rudes haviam comovido. Os versos do cego Baltazar Dias, madeirense contemporâneo a El-rei dom Sebastião, o Desejado, prosa híspida e monótona, descrevendo as aventuras de Robero do Diabo, Duque de Normandia, do Marquês Simão de Mântua, de João de Calais, da Imperatriz Porcina, da Donzela Teodora, da Princesa Magalona, episódios vindos de vinte fabulários, de árabes, francos, sarracenos, germanos, ibéricos, confusos e maravilhosos de ingenuidade, de grandeza anímica, de arrojo guerreiro ou de disposição intelectual, ficaram na alma do povo como uma base cultural inamovível e profunda”.


 Para saber mais:

Breve história da Literatura de Cordel (Claridade, 2010)

Literatura de Cordel: do sertão à sala de aula (Paulus, 2013)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Mais dois títulos para a bibliografia




A Cordelaria Flor da Serra, de Fortaleza, lançou, em 2017, dois folhetos de minha autoria. Uma versão do conto Teig O’Kane e o Cadáver, de William Butler Yeats, que rebatizei de A Estrada do Medo. A capa é do amigo Cayman Moreira. 

Quem anda na senda escura,
Com passo ligeiro ou tardo,
Terá de levar um dia
Da vida o pesado fardo
E, após mirar o rival,
Sentir em si mesmo o dardo.

Na velha Irlanda, vivia
Um mancebo dissoluto.
Por seu pai ser um barão,
Ele, nem por um minuto,
Imaginou que a maldade
Cobrasse, um dia, o tributo.

Chamava-se Teig O’Kane
Esse moço sem valor;
Por sua bela aparência,
Tornou-se um desonrador,
Seduzindo sem cair
Nas armadilhas do amor.

E um romance que reconta, com fidelidade, a jornada de um dos maiores heróis da Grécia Antiga, A História de Perseu e Andrômeda, com capa do mestre Jô Oliveira:

Um vento frio percorre
As velhas ruas de Argos
E a aparente harmonia
Sofrerá duros embargos
Com a paz cedendo espaço
Aos sentimentos amargos.

Acrísio, o rei da cidade,
Soberbo por natureza,
Viajara para Delfos,
Ilha de grande beleza,
Porém seu retorno foi
Marcado pela tristeza.

Dânae, sua linda filha,
Ao vê-lo, segue animada
Para abraçá-lo e na hora
Pelo rei é rechaçada,
E sua alma pura fica
Pela dúvida tomada.

Logo ela foi conduzida
Para seu nobre aposento
E, por ordem de seu pai,
Posta num confinamento.
Sem entender o motivo,
Era grande o sofrimento.



A Flor da Serra, iniciativa do poeta Paiva Neves, mesmo em um curtíssimo tempo de vida, já tem dezenas de títulos publicados, com destaque para uma coleção de clássicos adaptados pelo expert Stélio Torquato Lima. 

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Cordelaria Flor da Serra

Rua 47, número 543 - Conjunto Carlos Jereissati II, Maracanaú (CE). CEP 61901-070
E-mail: cordelariaflordaserra@gmail.com
Fones: (85) 9 8584-0221 e (85) 9 9956 9091

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Promoção Cordel Atemporal

Atenção, gentes boas!
Quem quiser poderá ter em sua coleção a recém-lançada PELEJA DE BRAULIO TAVARES COM MARCO HAURÉLIO (Tupynanquim Editora) acompanhada de quatro folhetos meus da mesma editora (Traquinagens de João Grilo, A Maldição das Sandálias do Pão-Duro Abu Kasem, As Três Folhas da Serpente e A Roupa Nova do Rei).
Preço do kit: R$ 30,00 (frete incluso).
Pedidos : marcohaurelio@gmail.com

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tristão e Isolda no folclore brasileiro

The Mouth of the Truth (A Boca da Verdade), de Lucas Cranach, o Velho. 

Pode parecer estranho o título acima, até por não existir na tradição oral brasileira nenhuma versão, mesmo resumida, da grande história de amor. Não foi tema dos cantadores e poetas de bancada nordestinos, que celebraram em versos o imperador francês Carlos Magno e os Doze Pares de França, até o aparecimento da minha versão em cordel, a ser publicada este ano com o selo da SESI-SP Editora, que tem o mérito de devolver a saga ao gênero no qual debutou: a poesia. A presença e permanência do mito está nos contos tradicionais maravilhosos e novelescos, que reproduzem, e até ampliam cenas vivenciadas por Tristão e sua amada Isolda, a Loura.

Um exemplo é a presença do episódio do juramento ambíguo na nossa tradição oral. Registrei, em Serra do Ramalho, na Bahia, um conto popular, A pedra-mármore, que traz, também, um triângulo amoroso. A jovem é levada pelo marido até a tal pedra onde será testada, por meio de um juramento, sua fidelidade. Alertada pela irmã do rapaz, que cumpre um papel similar ao da fiel serva Brangiene no mito de Tristão e Isolda, a moça finge desmaiar e o marido recorre a um pastor de ovelhas, cujo abraço poderá reanimá-la. Voltando a si ela jura que, além do marido, só tivera em seus braços o tal pastor (seu amante sob disfarce). A presença da pedra-mármore, como detector de mentiras infalível, evoca La Bocca della Verità (A Boca da Verdade) romana. A cena foi imortalizada numa pintura de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553). Vem a ser o mesmo episódio da rainha Isolda, obrigada a prestar um juramento diante das relíquias da Santa Igreja e do venerando rei Artur, no vau do Mau Passo, depois de Tristão, disfarçado em leproso, ajudá-la a atravessar uma ponte estreita.

Outro episódio que figura em nossos contos de cariz maravilhoso é o do tributo do dragão (ATU 300). A literatura de cordel, por exemplo, imortalizou-o na História de Juvenal e o Dragão, de Leandro Gomes de Barros, em que o herói, depois de libertar uma princesa condenada a morrer devorada pelo monstro, precisa provar que ele foi o seu salvador. A moça, ameaçada pelo cocheiro que a levaria de volta ao seu reino, confirma a versão de que este é o matador do dragão, e o pai dela acaba por marcar o seu casamento com o falso herói. Juvenal, na véspera do casamento, vai até o palácio e prova, assim como Tristão, que desmascara o pérfido Aguiguerran, ter sido ele o responsável pela grande façanha. Recolhi um conto, José e Maria, com o mesmo motivo: descoberto, o falso herói se atira de uma grande altura e morre.

Também o pitoresco e comovente episódio da loucura de Tristão não é estranho a nossos contadores tradicionais, embora o herói esteja tão irreconhecível quanto no original. Geralmente, o conto tem como protagonista um jovem que viola um tabu imposto por um feiticeiro (ou um ogro), mergulhando o dedo num caldeirão ou abrindo um quarto interdito. A história do rapaz dos cabelos dourados escondidos sob uma bexiga de boi era a mais ouvida pelo célebre folclorista Luís da Câmara Cascudo durante a infância. O disfarce abjeto, aparece, no conto O careca, registrado por Sílvio Romero em 1885. O conto João Ferrugem, dos Irmãos Grimm, com um benfeitor sobrenatural, aponta na direção de um conto que recolhi, em Serra do Ramalho, O Príncipe-Pastor. O conto alemão traz episódios, como o do herói oculto sob um disfarce, lutando heroicamente e livrando todo um reino dos inimigos, que indicam parentesco com a lenda de Roberto do Diabo. No conto baiano, o herói Bu, que tinha todo o corpo dourado, troca as ricas roupas que levava pelos molambos de um pastor, e desta forma se apresenta a um rei, ao qual vai servir como copeiro. Sofrendo toda a sorte de ultrajes por parte dos genros do rei, termina por se vingar e, ao final, casa com a filha caçula, herdando, ainda, o trono. O moço dourado, sob disfarce, é Tristão a fingir-se de louco, de cabeça raspada e coberto de fuligem e vitupérios, para estar perto de Isolda, podendo ainda significar o sol em seu ocaso, já que Tristão foi, desde sempre, como matador de um dragão, identificado aos heróis solares.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Peleja virtual



A título de informação


Por Marco Haurélio

Pelejas virtuais não são incomuns em tempos de redes sociais e de serviços de mensagens instantâneas. Braulio Tavares, por exemplo, já havia contendido com Klévisson Viana e Astier Basílio. As várias modalidades foram debulhadas em trocas de e-mails, portanto, ainda sem a presença de uma “plateia”. Não parece, mas disputas do tipo vêm de longe, desde 1997, quando Américo Gomes, da Paraíba, e José Honório, de Pernambuco, desfraldaram a bandeira. Há inclusive uma pesquisa ampla, um inventário transformado em tese de doutoramento e em livro, com o inusitado título No Visgo do Improviso ou a Peleja Virtual entre a Cibercultura e Tradição, de autoria da professora Maria Alice Amorim.

O diferencial desta nova peleja é que o palco foi a maior das redes sociais, o Facebook, entre os dias 7 e 14 de setembro, nos poucos minutos de folga de que dispúnhamos. E, como em todo bom pé-de-parede, a nossa gesta virtual foi acompanhada por um grande público, com sugestões de temas e motes e eventuais aplausos. Começamos com a tradicional sextilha, evoluímos para o martelo agalopado, com mote proposto pelo poeta, pesquisador e apologista Ésio Rafael, passamos à gemedeira, por sugestão do também poeta Rouxinol do Rinaré, e ao galope à beira-mar (versos hendecassílabos). A disputa abarcou ainda outras modalidades: No tempo de Pai Tomás, Preto Velho e Pai VicenteNos oito pés a quadrão (oitavas), martelo alagoano (decassílabos). Os versos de despedida foram embalados pelo mote Povo bom, muito obrigado/ Adeus, até outro dia!

Agora publicada em folheto pela Tupynanquim Editora, de Klévisson Viana, com capa em xilogravura de Maércio Siqueira, a peleja alcança novos leitores, promovendo o casamento antes inimaginável da tecnologia com a tradição.

Abaixo, parte da peleja, em galopes à beira-mar (versos de 11 sílabas com tônicas na 2ª, 5ª, 8ª e 11ª sílabas):

MH
Mudando de estilo, por outras paragens,
Sigamos agora com nossa peleja:
Da grimpas dos Andes à chã sertaneja,
O verso permite diversas viagens.
Sem Timothy Leary a encher as bagagens,
Com fome e com sede do eterno buscar,
Nas tábuas de argila, nas mesas do bar,
Na longe Cocanha ou na caixa-prego
Na luz escondida nos olhos do cego,
Nos dez de galope na beira do mar.

BT
A rima deixada é a mesma que eu pego,
E ligo o motor pra subir nas alturas,
Nas asas do vento das literaturas
Eu vôo e eu nado, mergulho e navego.
Meu verso é composto de peças de Lego
É só ir pegando e depois encaixar
Formando um conjunto que dê pra cantar
Dizendo as belezas do mundo da escrita
Em verso e em prosa se escreve e recita
Cantando galope na beira do mar.

MH
Na velha Tebaida, me fiz eremita,
De lá alcei voo pra os mares do sul,
Vi Constantinopla virar Istambul,
E a sanha cruzada na terra ‘bendita’;
Vi Fitzcarraldo, com grande pepita,
Na verde floresta querer navegar,
Cantando uma loa para o rei Lear,
Pensando se estava tão longe ou tão perto.
Cansado de tudo, voltei ao deserto,
Sonhando que estava na beira do mar.

BT
Tornei-me famoso por ter descoberto
os grandes tesouros de terras distantes;
lutei contra gregos, salvei os atlantes,
mostrei a Colombo o caminho mais certo.
Na Besta Fubana do tal Luís Berto
montei corajoso e me pus a voar,
cruzando o espaço na luz do luar
por entre uma nuvem de naves e drones
igual um dragão de um Game of Thrones
cantando galope na beira do mar.

MH
Na terra tomada por fogo e ciclones,
Sorri o tirano de juba acaju,
Sentindo no rabo o tridente de Exu,
Enquanto se estorce na guerra dos clones;
E sobre as ruínas não há cicerones,
Nem sheiks barbudos e nem lupanar.
A paz posta a ferros, a guerra a gritar
E agentes laranjas trazendo pavor,
Deixando giestas na cova do amor
Nos dez de galope na beira do mar.

BT
País que se preza não quer salvador
Nação com moral não precisa de heróis
Precisa de votos, precisa de voz,
Lutando, cantando, do jeito que fôr.
Na hora difícil se sente o valor
Do quanto se perde e não pode salvar,
A guerra é a guerra, a terra é o lar,
O chão é do povo, a vida é da gente,
O mundo é cruel, mas a alma é valente
Nos dez de galope na beira do mar.

Pedidos: marcohaurelio@gmail.com
                 
                (11) 9 8347 4357


O Boi-Espácio

Barbatão. Xilogravura de Lucélia Borges

Eu tinha meu Boi-Espácio,
Qu'era meu boi corteleiro,
Que comia em três sertão,
Bebia na Cajazeira,
Malhava lá no oiteiro,
Descansava em Riachão.
Eu tinha meu Boi-Espácio,
Meu boi preto caraúna;
Por ter a ponta mui fina,
Sempre fui botei-lhe a unha.
Estava na minha casa,
Na minha porta assentado; .
Chegou seu Antonio Ferreira,
Montado no seu rução.

Com o irmão de Damião.
Montado no seu lazão;
Dizendo de coração:
—— Botai-me este boi no chão.
Gritei pelo meu cachorro,
Meu cachorro Tubarão:
"Agora, meu boi, agora,
Faz ato de contrição!
Ecô, meu cachorro ecô!..."
No curral da Piedade
Eu dei com meu boi no chão.
Ao depois do boi no chão,
Chegou o moleque João,
Se arrastando pelo chão,
Fazendo as vezes de cão,
Pedindo o sebo do boi
Pra temperar seu feijão.
A morte deste meu boi
A todos fizera pena;
Ao depois deste boi morto
Cabou-se meu boi, morena.
"No ano em que eu nasci,
No outro que me criei,
No outro que fui bezerro,
No outro que fui mamote,
No outro que fui garrote,
No outro que me caparam
Andei bem perto da morte.
"Minha mãe era uma vaca,
Vaquinha de opinião;
Ela tinha o ubre grande
Que arrastava pelo chão.
Minha mãe era uma vaca,
Vaquinha de opinião;
Enquanto fui barbatão
Nunca entrei em curralão,
Estava no meu descanso
Debaixo da cajazeira,
Botei os olhos na estrada,
Lá vinha seu Antonio Ferreira...
Estando numa malhada
Já na sombra recolhido,
Logo que vi o Ferreira
Ali achei-me perdido.
Foi-me tudo ao contrário,
E semprei fui perseguido;
Já me conhecem o rasto,
O Boi-Espácio está perdido.
Não tem a culpa o Ferreira,
Que não me pôde avistar,
Foi o caboclo danado
Que parte de mim foi dar.
O seu Antonio Ferreira
Tem três cavalos danados:
O primeiro é o ruço,
O segundo é o lazão,
O terceiro é o Piaba...
Três cavalo endiabrados!

Mas eu não temo cavalo,
Que se chama o Deixa-fama,
Tambem não temo o vaqueiro
Que derrubei lá na lama.
Me meteram no curral,
Me trancaram de alçapão;
E bati num canto e noutro,
Não pude sair mais não!
Adeus, fonte onde eu bebia,
Adeus, pasto onde eu comia,
Malhador onde eu malhava;
Adeus, ribeira corrente,
Adeus, caraíba verde,
Descanso de tanta gente!...

O couro do Boi-Espácio
Deu cem pares de surrão,
Para carregar farinha
Da praia de Maranhão.
O fato do Boi-Espácio
Cem pessoas a tratar,
Outras cem para virar...
O resto pra urubusada.
O sebo do Boi-Espácio
Dele fizeram sabão
Para se lavar a roupa
Da gente lá do sertão.
A língua do Boi-Espácio,
Dela fizeram fritada;
Comeu a cidade inteira,
Não foi mentira, nem nada.
Os miolos do Boi-Espácio,
Deles fez-se panelada;
Comeu a cidade inteira,
O resto pra cachorrada.
Os cascos do Boi-Espácio,
Deles fizeram canoa,
Para se passar Marotos
Do Brasil para Lisboa.
Os chifres do Boi-Espácio,
Deles fizeram colher
Para temperar banquetes
Das moças de Patamuté.
Os olhos do Boi-Espácio,
Deles fizeram botão
Para pregar nas casacas
Dos moços lá do sertão.
Costelas do Boi-Espácio,
Delas se fez cavador
Para se cavar cacimbas;
De duras não se quebrou.
O sangue do Boi-Espácio
Era de tanta exceção
Que afogou a três vaqueiros,
Todos três de opinião.
Canelas do Boi-Espácio
Delas se fizeram mão
Para pisar o milho
Da gente lá do sertão.
E da pá do Boi-Espácio,
Dela se fez tamborete
Para mandar de presente
A nosso amigo Cadete.
Do rabo do Boi-Espácio,
Dele fizeram bastão
Para as velhas de cima]
Andar com ele na mão.

[Silvio Romero, Cantos populares do Brasil]

José Pacheco: 120 anos de um mestre


Jose Paulo Ribeiro, de Guarabira (PB), pesquisador do cordel que dispensa os holofotes e bravatas em favor da boa informação, lembra-nos que, há exatos 120 anos, em Correntes (PE), nascia José Pacheco da Rocha, autor da obra-prima do cordel A Chegada de Lampião no Inferno. Apesar de identificado com temas jocosos, por ser autor dos igualmente clássicos folhetos A Intriga do Cachorro com o Gato e A Festa dos Cachorros, Pacheco foi exímio romancista, destacando-se, em sua bibliografia, Os Prantos de Cacilda e a Vingança de Raul, A Princesa Rosamunda e a Morte do Gigante e Vicente e Josina.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O morto agradecido na literatura de cordel

O verdadeiro romance do herói João de
Calais
em edição da Luzeiro. 
Por Marco Haurélio 

A história de João de Calais gira em torno do tema do morto agradecido (ATU 505), episódio que figura em muitos contos populares. A redação do romance é da francesa Magdeleine Angèlique Poisson (1684-1770), tornada Madame de Gómez após contratar núpcias com um fidalgo espanhol, Dom Gabriel de Gómez, o qual, ela descobriria depois, “possuía apenas a voz bonita e de patrimônio coisa alguma”.[1] Para sustentar-se, dedicou-se à literatura, dando preferência a temas apreciados pelo povo. Sua bibliografia é extensa, mas nenhuma obra alcançou o público e a longevidade do João de Calais. A história, publicada em uma coleção de novelas, Jounées amusantes, ganhou independência e passou a integrar, com redação modificada, acrescida de episódios estranhos ao conto de Madame de Gómez, a Biblioteca Azul. Esta versão é atribuída por Câmara Cascudo a Jean de Castillon.

A história narra como João de Calais, filho de um negociante abastado do norte das Gálias, limpa os mares de “um enxame de piratas” e, ao retornar à pátria, vê seu navio ser arrastado por uma tempestade a uma ilha desconhecida, a Orimânia, cuja capital era a Palmânia. Lá, uma cena chama-lhe a atenção: um cadáver, exposto em praça pública, estava sendo dilacerado por cães. João, horrorizado, interroga o porquê de tal impiedade e descobre que o homem morreu sem saldar suas dívidas, merecendo, assim, aquele castigo. Reúne os credores, salda as dívidas e dá sepultura ao cadáver. Depois, vê um navio ancorado e, condoído, compra de um corsário duas belas moças, Constança e Isabel, que este disse serem escravas. Já em Albion, casa-se com uma delas, Constança, sem saber que se trata da filha do rei de Portugal. No retorno, apresenta a esposa ao pai, mas este desaprova o casamento. O casal tem um filho. João parte num navio com destino a Portugal, onde o rei, admirado da beleza da embarcação, vai conhecê-la, deparando, na câmara do capitão, um quadro com os retratos de Constança, Isabel e o filho do casal. Chamado ao palácio para explicar-se, conta toda a história, e fica sabendo que Constança é filha do rei e Isabel é herdeira do Duque de Messina. Na viagem de retorno a Calais, o herói tem a companhia do príncipe D. João, sobrinho do rei, que, tempos antes declarara amor a Constança, pois almejava o trono português. Quando chegam, o pai de João, sabedor da história, pede perdão ao filho. A armada retorna à Sicília, com a princesa, e, durante uma tempestade, D. João, traiçoeiramente, empurra João de Calais do navio, e este é dado como morto. Em Portugal, a tristeza não impede que o traidor, passado um tempo e aproveitando-se de uma vitória militar na qual se destacou entre os seus comandados, peça a mão de Constança. Contra a vontade desta, o casamento é marcado.

O infeliz João não morre, mas, vencendo a fúria dos elementos, vai ter a uma ilha. Depois de algum tempo, vê caminhando em sua direção um home que lhe põe a par de todo o ocorrido, até mesmo do casamento marcado de Constança com o homem que o atraiçoara. Promete ainda levá-lo ao local do casamento, caso ele consinta em dar-lhe metade daquilo que mais estima. João, depois de consentir, adormece e acorda em Portugal, onde, apesar de sua deplorável aparência, é reconhecido por Isabel. Descoberta a traição, o príncipe D. João é condenado à morte. O homem que o salvara aparece e pede-lhe a metade de seu filho. João, mesmo notando o desespero de Constança, oferece o menino para que o desconhecido faça a partilha. Este, então, revela-se: era um enviado do Altíssimo, aquele mesmo homem da Palmânia, que recebera, pela generosidade de João, sepultura cristã. Após a revelação desaparece, causando em todos grande admiração. João manda erigir um mausoléu para o fantasma, que previra muitas felicidades para ele.

Este é um resumo do famoso conto. A tradução portuguesa mudou alguns detalhes da história. O reino de Portugal tornou-se o reino da Sicília, o príncipe D. João foi rebatizado como Florimundo e as qualidades de João de Calais ganharam mais relevância.

A literatura oral do Brasil e de Portugal traz muitos contos do ciclo do “morto agradecido”. Silvio Romero, nos Contos populares do Brasil, traz A raposinha. Aluísio de Almeida, apresenta uma versão com o título João de Calais, reproduzida na obra 50 contos populares de São Paulo. Recolhi, em Brumado, Bahia, uma interessante versão, O príncipe e o mestre-sala, narrado por D. Maria Rosa Fróes, então com 89 anos, que desconhecia o conto João de Calais. A obra integra o livro Contos folclóricos brasileiros.

Em Portugal, circulou um folheto de cordel, Nova história de João de Calais, em quadras. Câmara Cascudo diz desconhecer versão poética da história no Brasil. Há, no entanto, muitas, com resultados distintos. Talvez a mais antiga seja a anônima publicada pela editora Guajarina. A História completa do Herói João de Calais, atribuída ao folheteiro Manoel Tranquilino Pereira, vulgo Baraúna, é de 1945. Outras mais recentes são de autoria de Damásio Paulo, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel Pereira Sobrinho, José Costa Leite e Severino Borges Silva. Este último, com O verdadeiro romance do herói João de Calais, fez a melhor versão da clássica história, e, por isso, tem merecido sucessivas reimpressões. As duas primeiras e as duas últimas estrofes, com o acróstico BORGES, dão ideia da feliz releitura do poeta pernambucano:

Vinde musas que habitam
As regiões divinais
Banhar-me nas santas águas
Das fontes celestiais
Que vou contar o romance
Do herói João de Calais.

Lá nos recônditos das Gálias
Havia um homem abastado,
O qual tinha um filho único
Que por João era chamado.
Foi um herói que deixou
Seu nome imortalizado.

Florismundo desgraçou-se,
Mas João ficou em paz
Com sua esposa querida
Amando-a de mais a mais.
Aqui termina o romance
Do herói João de Calais.

Bem feliz João ficou,
O rei mui regozijado
Regendo aquela nação
Geralmente apreciado
E a prima de Constança
Sempre viveu a seu lado.

Relativamente recente é a versão resumida de Arievaldo Viana, História completa do navegador João de Calais, publicada em Fortaleza e em Mossoró. Foi reeditada como história em quadrinhos, em parceria com o grande cartunista pernambucano Jô Oliveira, com o título História do navegador João de Calais e de sua amada Constança.

O tema do “morto agradecido” aparece ainda no Romance de João sem direção, de Natanael de Lima. O herói João, um tanto desajeitado, paga as dívidas de um morto e, no cumprimento de ordens de um rei, é auxiliado por um macaco que, ao cabo, revela ser a alma do falecido. Há o episódio da promessa da metade do filho em troca dos favores prestados e o bom fado a sorrir para o bondoso João:

Sou um ser do invisível
Que no espaço figura.
João, eu não sou um macaco —
Sou aquela criatura
Que tu pagaste as dívidas
E deste-me a sepultura.
 
A noite de casamento de Tobias e Sara. Jan Steen (1626 - 1679)
No livro bíblico de Tobias (século II a.C.), a história do velho Tobit, cegado pelo excremento de pardais e curado pelo filho Tobias, com o auxílio do anjo Rafael (modelo do morto agradecido, já que representa as almas dos mortos a quem o velho deu sepultura durante o exílio judeu na Assíria), que lhe aplica nos olhos o fel de um peixe. Tradicionalizado em Portugal, a História do Tobias consta dos contos tradicionais do Catálogo Português organizado por Paulo Correia e Isabel Cardigos. Nas Piacevoli notti, de Straparolla, [XI, 2], o tema aparece num conto muito semelhante ao do romance de Madame de Gómez, embora o protagonista seja um toleirão.

Hans Christian Andersen registrou O companheiro de jornada, em que o protagonista Johannes paga as dívidas de um defunto, que encontra em uma igreja, e depois será auxiliado por este na conquista da mão de uma princesa. Nos Contos populares espanhóis[2], figura o Juan de Calaís, com o episódio do resgate da dívida do morto, da traição do primo da esposa do herói, e do tributo dispensado pela gratidão do fantasma.

NOTA: Para saber mais, leia Literatura de cordel:do sertão à sala de aula (Paulus, 2013). 




[1] CASCUDO, Luís da Câmara, op. cit., p. 363.
[2] Contos populares espanhóis. Seleção de Yara Maria Camilo. São Paulo: Landy, p. 149-156.