quarta-feira, 19 de julho de 2017

Glosas no Dia do Trovador


Ontem, 18 de julho, Dia do Trovador, postei esta foto com o multi-artista Antônio Nóbrega e o seguinte poema:

Poeta? Nem chego perto,
E isso quem contestará?
Poeta é Zé Adalberto
Do Caroço do Juá.

Folclorista? Não me iludo.
Não me chame folclorista,
Onde Câmara Cascudo
Ocupa o topo da lista.

Sou eterno buscador
Da poeira das estradas,
Garimpeiro, coletor,
De belezas bem-guardadas.

E entre risos, mágoas, dores,
Nos carreiros do sertão,
Ajudo a regar as flores
Do Jardim da Tradição.

Em seguida, outro nordestino genial, Braulio Tavares, saiu-se com esta glosa na tradicional modalidade "Nos oito pés a quadrão":

Uma dupla de marmanjo
fazendo cara de anjo,
se exibindo com um banjo,
cheios de amostração.
São artistas nordestinos,
são gurus e são meninos,
são tonhetas, são ladinos,
nos oito pés a quadrão.

Ao que respondi:

No repique de mil sinos,
Nos acordes dos destinos,
Nos vaqueiros-beduínos
Do Saara e do sertão,
A nossa arte está em festa,
Cantando do povo a gesta,
Nossa vocação é esta
Nos oito pés a quadrão.

A poesia que nos irmana e nos ilumina.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A arte "primitiva" do Nordeste



Somos um povo que não se reconhece como povo. Achamos bonitas as manifestações da cultura espontânea, mas não nos identificamos com elas. São bonitas à distância, com seu colorido, seu pitoresco, sua “brasilidade”. Elas, no entanto, integram um mundo à parte do meu. Têm uma única função: entreter turistas. E basta.

Dias atrás, num consultório, à espera de atendimento, assisti, pela primeira vez, ao programa “Encontro”, com Fátima Bernardes. Chico César estava por lá, ia ser feita uma homenagem a Ariano Suassuna, por ocasião de seus noventa anos de nascimento, e seria apresentado um trecho da peça O Auto do Reino do Sol, de autoria do meu amigo Braulio Tavares. Tudo ia bem até o momento em que os desenhos armoriais de Suassuna, baseados na heráldica e na simbologia sertaneja, vieram à baila. Foi aí que a apresentadora, disse algo mais ou menos assim: “Estes desenhos lembram as pinturas rupestres do Nordeste”.

Fiquei estupefato. A arte rupestre existe em todos os quadrantes. O desenho de um cavalo, animal desconhecido de nossos primeiros habitantes, foi o que ensejou o comentário de dona Fátima, talvez mal amparada conceituação de Niède Guidón, que chamou de Tradição Nordeste o conjunto muito peculiar de pinturas e gravuras da Serra da Capivara, no Piauí. Em que pese a brutal ignorância no que que concerne à arte pré-histórica ou ao movimento Armorial, o que chamou a atenção foi mesmo à referência ao Nordeste, tratado, quase sempre, nos meios de comunicação, como uma região descolada da realidade nacional, do Brasil “moderno”, produtivo, industrializado. O próprio Ariano foi tratado, reiteradas vezes, pela apresentadora como grande ícone da “cultura nordestina”. Ele que, inspirado por Gil Vicente, Calderón de la Barca, Lope de Vega, Plauto e Shakespeare, talvez seja – a opinião é muito pessoal – o mais universal de nossos dramaturgos.

A simples suposição de que o homem primitivo do “Nordeste” – que, como região, só existe há bem pouco tempo – tinha um estilo próprio oculta, de fato, um dos preconceitos mais arraigados nos meios ditos pensantes deste país.

No campo da literatura infantojuvenil, a coisa não é muito diferente. Em livros premiados, já deparei informações estapafúrdias, que passam a impressão de um Nordeste homogêneo, assolado pela seca, com um único bioma, a Caatinga, e povoado por pessoas tristes. Nesse circo dos horrores, mandacaru tem miolo, juazeiro seca durante a estiagem, a ponto de perder todas as folhas (!), e a Zona da Mata e a Caatinga parecem situar-se na mesma faixa geográfica.

Essa gente precisa comer um bom cortado de palma. Que, se não cura todos os preconceitos, é uma excelente receita contra a anemia. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Bafafá na Arca de Noé (DCL), parceria com Anabella López, será lançado dia 29, em São Paulo



Bafafá na Arca de Noé, parceria com Anabella Lopez, é meu segundo livro pela DCL. O primeiro, para quem não se lembra, é Mateus, esse boi é seu, ilustrado por Jô Oliveira, publicado em 2015. A história gira em torno da disputa dos animais para saber quem pode ou não entrar na arca. É, portanto, uma fábula sobre as diferenças escrita em quadras, modalidade poética muito presente nas rondas e brincadeiras infantis. 



Abaixo, algumas páginas internas, nas quais se pode observar o belíssimo trabalho da Anabella. 


 


SERVIÇO:

O quê? Lançamento: Bafafá na arca de Noé, de Marco Haurélio e Anabella López (DCL )

Quando? 29/7, SÁBADO, das 15h às 18h 

Onde? Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915)

Haverá oficina de desenhos com a ilustradora Anabella López.

Clique AQUI e confirme presença no evento no Facebook. 

domingo, 2 de julho de 2017

O UNIVERSO MARAVILHOSO DOS CONTOS TRADICIONAIS


Jacob  e Wilhelm Grimm retratados por Elisabeth Jerichau-Baumann (1855) 

Quando os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm registraram, em 1812, a literatura oral de seu país, a Alemanha, não faziam ideia do sucesso de sua iniciativa, em especial no tangente aos contos populares, a parte mais significativa de sua recolha. O fato é que, com o êxito alcançado pelos Contos da criança e do lar, outros pesquisadores europeus, impregnados do mesmo espírito romântico que moveu os alemães, foram a campo em busca de lendas, baladas, romances e das velhas histórias narradas ao pé do fogo, sementes espargidas e cultivadas no fértil solo da imaginação humana. Quando o termo folclore foi consignado em 1848, pelo inglês William John Thoms, sob o pseudônimo de Ambrose Merton, em artigo publicado na revista The Atheneum, o conto tradicional, irmão da lenda e filho do mito, já havia alcançado, em vários países, a merecida atenção dos escritores e estudiosos.
Giambattista Basile

Antes, a novelística popular mereceu registros em recriações literárias, algumas em versos, como Os contos de Canteburry, de Geoffrey Chaucer, e os lais de Maria de França, ainda no século XII. Em prosa, destacam-se as jornadas do Decameron, de Giovanni Boccaccio, o livro do Conde Lucanor, de D. Juan Manuel (1335), Os contos de proveito e exemplo, de Gonçalo Fernandes Trancoso, além do impressionante Pentamerone (1636), de Giambattista Basile, obra-prima do barroco italiano. Inspirado neste último, sem a mesma espontaneidade, Contos da Mamãe Gansa, de Charles Perrault, coletânea moralista celebrizada pelo tempo e contemplada com muitas reedições, levou à corte francesa as histórias da gente humilde, devidamente polidas e adaptadas ao gosto do (nobre) freguês. Isso sem falar no conjunto monumental de histórias prevalentemente maravilhosas, o monumental livro das Mil e uma noites, apresentado ao Ocidente pelo francês Antoine Galland, cujo primeiro volume foi publicado em 1704.


Coube a Adolfo Coelho Portugal a empresa de ser o desbravador desta seara em Portugal, com Contos populares portugueses, publicado em 1879. Foi seguido por Consiglieri Pedroso, autor de Portuguese folktales (1882), em edição inglesa, e por Teófilo Braga, com Contos tradicionais do povo português (1883). Igualmente relevante, a antologia de Contos tradicionais do Algarve, de Ataíde Oliveira, reuniu 400 contos do sul de Portugal, ampliando a área geográfica e as possibilidades de comparação e confronto.
Silvio Romero, pioneiro na recolha e nos estudos
das tradições populares

No Brasil, a iniciativa pioneira coube a Silvio Romero, autor de Contos populares do Brasil (1885), publicado originalmente em Portugal, com organização e notas de Teófilo Braga. Antes, o estudo do geólogo canadense Charles Frederik Hartt, Os mitos amazônicos da tartaruga (1875), com o Jabuti, grande trickster dos contos indígenas, e a coletânea O selvagem (1876), do General Couto de Magalhães, apresentaram contos de origem indígena ou tradicionalizados entre os povos nativos da Amazônia. A coletânea de Sílvio Romero, no entanto, teve o mérito de ser abrangente, enfocando além dos supostos contos indígenas, contos de origem africana e europeia. Há que se levar em conta o esforço do coletor, que se dispensou de um trabalho comparativo, privilegiando critérios antropológicos e raciais, em voga na época. E, por isso mesmo, incorreu em equívocos, como o de arrolar entre os contos africanos Doutor Botelho, história na qual um macaco aparece como auxiliar do herói de origem humilde, que, graças aos seus préstimos, acaba casando-se com uma princesa. Apenas esta breve descrição nos mostra ser esta, em linhas gerais, a hoje conhecidíssima história do Gato de botas, divulgada por Charles Perrault, na versão literária do século XVIII. A coletânea se reveste de grande importância, também, por abrir uma picada, inspirando, em diferentes épocas, outros pesquisadores das tradições populares.
Imprescindíveis são as obras de Lindolfo Gomes (Contos populares brasileiros, 1915), João da Silva Campos (Contos e fábulas populares da Bahia, 1928), Aluísio de Almeida (142 histórias brasileieas, 1951) e Luís da Câmara Cascudo (Contos tradicionais do Brasil, 1946). Mais recentemente, sobressaíram-se Ruth Guimarães, Waldemar Iglésias Fernandez, Oswaldo Elias Xidieh, Doralice Alcoforado, Bráulio do Nascimento, Altimar Pimentel e Edil Costa.
Paulo Correia e Isabel Cardigos com o fundamental
Catálogo dos contos tradicionais portugueses

Ainda assim, são, lamentavelmente, raras as coletâneas de contos tradicionais brasileiros colhidos diretamente da fonte. Raras diante das possibilidades oferecidas por um país de dimensões continentais, diverso na cultura e nas variantes linguísticas, nascidas das profundas desigualdades, reveladoras de nossas mazelas, mas também da resistência de povos de diferentes matrizes e matizes. A
 recolha de contos de “primeiro grau” será sempre bem-vinda, especialmente por mostrar que, em pleno século XXI, as árvores do Jardim da Tradição ainda dão saborosos frutos. Nesta seara, os trabalhos de minha autoria (Contos folclóricos Brasileiros e Contos e fábulas do Brasil), encontram-se classificados de acordo co
m o Catálogo Internacional do Conto Popular, o Sistema ATU[*] As principais referências vêm do monumental Catálogo dos contos tradicionais portugueses (com as versões análogas dos países lusófonos), de Isabel David Cardigos e Paulo Jorge Correia, com o qual, orgulhosamente, colaborei. 
Em qualquer recolha que se preze, todos os informantes e os locais da recolha devem ser identificados. Se a literatura dos antigos salvou do esquecimento os deuses e heróis, os contos de tradição oral, por outro lado, preservam episódios e estruturas arcaicas, informações sobre ritos e mitos, nos conectando a um tempo que, talvez, somente nos sonhos e nos domínios do inconsciente, ousávamos perscrutar.
Marco Haurélio


[*] Em 1910, foi publicado o livro Types of the Internacional Folktales, do finlandês Anti Aarne que reuniu, em um catálogo, os tipos predominantes dos contos orais. Em 1962, a obra foi revista e ampliada pelo folclorista norte-americano Stith Thompson, e os contos catalogados passaram a ser conhecidos pela sigla AT (em homenagem aos dois estudiosos) seguida por um número que indicava o gênero a que pertenciam. Em 2004, o alemão Hans-Jorg Uther atualizou o sistema, que passou a ser chamado de ATU. Os contos de animais vão do número 1 ao 299. Os maravilhosos, do 300 ao 749. Os religiosos, do 750 ao 999, e assim por diante. 

domingo, 25 de junho de 2017

O Cavaleiro de Prata é lançado na NoveSete



Não poderia ser melhor. Não somente pelo grande público que foi à NoveSete nessa tarde de São João, em que, além do lançamento, celebrei 30 anos de estrada E, sim, pela diversidade. Pelas motivações, pelo talento que os artistas convidados generosamente compartilharam: 

Eufra Modesto, o mestre da prosa engraçada, com repertório de primeira que vai de Amazan a Chico Pedrosa. 
Aldy Carvalho e seu grupo afiado, que me emocionaram por ouvir, pela primeira vez ao vivo, a canção Elegia, da qual sou coautor. E Penélope Martins, que narrou com maestria um conto compósito, com a graça e a ternura das grandes contadoras, que se apoiam na voz e no gestual.

O Cavaleiro de Prata (Editora de Cultura), agora, já voou para dezenas de estantes. 

Que venham outros 30 anos!

Aldy Carvalho e seu grupo emocionando os presentes. 
Cícero Pedro de Assis, cordelista pernambucano. 
Conceição da Peirópolis,
uma amiga das mais queridas. 
Losana Prado, do colégio Magno. 
Valeria Cordero, do colégio Marista Glória.
Regina Machado, Penélope Martins e a arte do encontro. 
Mirlene Medeiros, do colégio Glória. 
Autografando os exemplares dos pequenos Leandro e Nicole. 
Com o ator José Negreiros. 
Eufra Modesto, mestres dos causos e cantigas. 
Penélope Martins: quem conta um conto...
Duda, Sirliane e Lalá. 
Adicionar legenda
A grande amiga Edmara Barbosa. 
Juliana Gobbe e Gilberto, defensores das boas causas e da arte.
A grande amiga e consagrada atriz de dublagem
Sandra Mara Azevedo. 
O talentoso ator e grande amigo Munir Pedrosa.

Família e pequenos leitoree

Valéria e Gustavo: vizinhos e amigos. 

Lucélia e Nireuda. 


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Trinta Anos de Poesia



Foi na sala da casa de Luzia,
Minha avó, minha grande professora,
Que escutei sua voz acolhedora,
E, escutando-a, viagens eu fazia.
Ia além do sertão, onde vivia,
Para reinos longínquos, irreais,
Em benditos, cantigas, madrigais,
No romance de “Jorge e Juliana”,
Garimpado da verve soberana
Da mestria dos bardos ancestrais.

Dela ouvia os romances de cordel,
Muitos deles gravados na memória,
“Zezinho e Mariquinha”, a linda história,
De um casal que ao amor era fiel,
“Juvenal e o Dragão”, do menestrel
Que, hoje sei, se destaca entre seus pares,
Adentrando, orgulhoso, muitos lares,
Com a sua assombrosa inteligência:
É Leandro esse herói por excelência,
Criador dos enredos singulares.

Foi na Ponta da Serra, onde nasci,
Inda à luz da candeia a querosene,
Que a cultura do povo, a mais perene,
Com os olhos brilhando conheci.
Nesse tempo, me lembro, ainda li
O valente herói “João Acaba-Mundo”,
“Três Conselhos da Sorte”, o mais profundo
Dos romances com temas enlevados”,
Também li “Três Cavalos Encantados,
De José Camelo, um autor fecundo.

Minha avó foi embora desta terra,
Mas deixou para sempre o seu exemplo.
As lições que legou são como um templo
Que do ser no profundo d’alma encerra.
Sua luz brilhou na Ponta da Serra,
E inda brilha nos contos e cantigas,
Que nos falam de amores e de intrigas,
Nos meus medos, saudades, preces, ritos,
Nos abismos que geram infinitos,
Nas memórias tão novas, tão antigas.

O doutor Pensamento me conduz
Para as plagas da Serra do Ramalho,
Para onde o meu pai, hoje grisalho,
Se mudou, carregando a sua cruz.
E foi lá, com as graças de Jesus,
Que escrevi um romance hoje afamado,
Num caderno que tenho ainda guardado,
Sob a sombra de um belo flamboaiã,
Esse livro é pra mim um talismã,
E foi pela Luzeiro publicado.

Escrevi desde os seis anos histórias,
Versos soltos, poemas de ABC,
Mas “O Herói da Montanha Negra” é o que
Reuniu em si as muitas memórias.
Outras obras, quais aves migratórias,
São lembranças que guardo com apreço,
Mesmo as que se perderam, não esqueço,
Mas “O Herói”, para mim, é o limiar
Que mostrou aonde eu posso chegar,
O que quero, o que faço e o que teço.

Tinha então treze anos, e a vontade
De, munido da pena e do papel,
Ser um bardo, um aedo, um menestrel,
Viajando entre o campo e a cidade,
A levar para o povo a novidade
Ansiada, depois da faina dura.
Muita gente falou que era aventura,
E o melhor era ter algum emprego
Que pudesse gerar paz e sossego,
Pois sonhar não passava de loucura.

Fui menor aprendiz, fui professor,
Raleei algodão, tangi boiada,
Palmilhei muita terra, muita estrada,
Conheci a paixão e o desamor,
Alegria, tristeza, fome e dor,
Mas jamais, dos meus sonhos abri mão.
Mesmo tendo deixado o meu sertão,
Meu sertão, que jamais saiu de mim,
Seguirá em minha alma até o fim,
A pulsar junto do meu coração.

Trinta anos de estrada... Lá distante
Escutei o chamado da aventura,
E entendi que, depois da noite escura,
Descortina uma Aurora radiante
E que é sempre preciso ir adiante,
Tendo medo somente do temor,
Na sagrada missão do trovador,
Que faz dessa aridez jardim florido,
E o Futuro, esse deus desconhecido,
Saberá premiar o contendor.

O que vem pela frente, quem dirá?
O que importa é seguir de fronte erguida,
O que importa é cantar, louvar a vida,
O que importa é viver o hoje, o já.
A aquarela que descolorirá,
Em poesia sublime decantada,
É a prova de que sua jornada,
Com tropeços e acertos, segue em frente,
O que importa é ser gente, porque gente
É quem ama o que faz. O resto é nada.

Marco Haurélio


Adendo: Dia 24 de junho, estarei celebrando 30 anos de Cordel e lançando o livro O Cavaleiro de Prata (Editora de Cultura) na Livraria Nove Sete.

terça-feira, 13 de junho de 2017

30 anos de cordel



Dia 24 de junho, a partir das 15 h, na Livraria NoveSete (Rua França Pinto, 97, próximo ao metrô Ana Rosa), será lançado o livro O Cavaleiro de Prata (Editora de Cultura). Neste dia, além do lançamento, celebrarei 30 anos de estrada, 30 anos de cordel. E, para marcar a data, o evento traz contação de histórias da amiga Penélope Martins e cantigas e causos nas vozes de dois grandes artistas: Aldy Carvalho e Eufra Modesto. 

Em 1987, escrevi o primeiro cordel que julguei publicável, O Herói da Montanha Negra, romance que foi levado ao prelo 19 anos depois, com o selo da tradicional editora Luzeiro. Antes desta obra, já havia escrito várias outras, mas como esta foi publicada, considero-a o marco inicial. Já O Cavaleiro de Prata começou a ser escrito em 1992, sendo retomado em 1996. Somente em 2015, finalizei o texto, que, por meio de Helena Maria Alves, da Editora de Cultura, será materalizado em livro.

Com ilustrações de Klévisson Viana, parceiro em muitos trabalhos, O Cavaleiro de Prata se baseia no vasto caudal da mitologia nórdica, que lhe serve de pano de fundo.

Thor, o deus do trovão, em ilustração de Klévisson Viana

Leiam, abaixo, o prólogo da da história:

Terras há muito esquecidas
Hoje estão repovoadas,
Seus cenários recobertos,
Suas glórias olvidadas,
E as grandes lendas parecem
Para sempre sepultadas.

Porém, como uma centelha,
A lenda chega até nós,
Revivendo uma era mítica,
Como igual não houve após,
De cujas reminiscências
Falavam nossos avós.


O vento vaga no norte
Do continente europeu
Narrando a saga dos povos
Que o tempo quase esqueceu,
Porém, cuja tradição
De todo não se perdeu.

Pois ainda sobrevive
Nas narrativas orais
Que conseguiram transpor
As cercas nacionais
E, espalhadas pela Terra,
Se tornaram imortais.

Neste livro narro a lenda
De um guerreiro altivo e forte,
O príncipe Borg, orgulho
Dos velhos povos do Norte,
Que celebraram seus feitos
Em vida e depois da morte.

domingo, 14 de maio de 2017

JUSTIÇA PARA SANTANINHA


Os esforços envidados pelos poetas e pesquisadores Arievaldo Viana e Stelio Torquato Lima para trazer à baila a fascinante e fugidia personagem Santaninha, pseudônimo de João Santana de Maria, pioneiro da literatura de cordel brasileira, representam um salto qualitativo poucas vezes visto nos estudos da poesia popular. A certeza fulminante advinda da pesquisa, agora transformada em livro, é a de que a cronologia do cordel precisa ser urgentemente revista. Santaninha antecede, em pelo menos duas décadas, Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o paraibano genial que nos legou alguns dos maiores clássicos do gênero.

Por que, então, seu nome não consta ou é citado marginalmente por uma reduzida gama de pesquisadores? Por que não há qualquer referência a ele no Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada, de Átila Almeida e José Alves Sobrinho?

Bem, são muitas as perguntas, e os autores deste livro respondem à maior parte delas com a desenvoltura de quem foi além das fontes primárias. À parte a conhecida e repisada citação de Sílvio Romero em seus Estudos da poesia popular, Arievaldo e Stelio recorreram a acervos, recortes de jornal e obras de referência há muito fora de circulação. Se Santaninha, a princípio, era uma personagem distante, quase evanescente, a pesquisa criteriosa, deu-lhe um rosto, esboçou traços de sua personalidade e reconstruiu sua trajetória de migrante que deixou o Ceará e se instalou no Rio de Janeiro, tornando-se, na capital federal, um cronista popular. Citei-o brevemente, reproduzindo, em nota, o verbete do Barão de Studart que também consta deste volume. Sabia de sua importância, mas não fazia ideia de como inseri-lo no universo da literatura de cordel, tal como se estabeleceu a partir do modelo legado principalmente por Leandro Gomes de Barros. Este livro faz isso muito bem e vai além.

Para começo de conversa, Santaninha não era um poeta tradicionalista como Leandro e os demais pioneiros, longe disso. Seu arsenal compunha-se, majoritariamente, de folhetos-reportagens e de relatos históricos, como o célebre registro da guerra do Paraguai, merecedor da atenção de Sílvio Romero. Leandro também se ocupou de temas históricos e circunstanciais, mas, com um faro mais apurado, por possuir a centelha do gênio, dedicou-se, também, aos grandes temas universais, extraindo das velhas histórias ouvidas no sertão paraibano (A peleja de Manoel Riachão com o Diabo, História do Boi Misterioso) e da poesia tradicional, fonte dos “livros do povo” (Os sofrimentos de Alzira, A donzela Teodora) os motivos delineadores da poesia popular imortalizada no Nordeste.

Santaninha não possuía essa bagagem e, nem por isso, deixou de ser, em seu tempo, um poeta invisível. Faltou-lhe, talvez, se o compararmos a Leandro, um cuidado maior na elaboração de seus versos, carecedores de retoques, numa época em que as regras ainda não estavam claramente definidas. Rimas toantes são muito comuns em sua obra, assim como frequentaram, às fartas, a obra de Silvino Pirauá de Lima (1848 ou 1860-1913), que pertencia ao universo da cantoria e só no Recife, no início do século XX, publicou os seus romances.

A atribuição da introdução da sextilha na poesia popular a Pirauá cai por terra quando vem a lume a obra de Santaninha. Por influência dos estudos pioneiros de Sílvio Romero, que fez escola, tendia-se a considerar a sextilha uma evolução natural da quadra, quando, de verdade, são modalidades estróficas que sempre coexistiram, embora, no cordel, a primeira tenha se tornado preponderante. Essa visão evolucionista, ainda hoje repetida em oficinas e palestras, é impactada pelos poemas publicados neste livro, como o contundente A seca no Ceará, que traz sextilhas como esta:

Deus é quem sabe de tudo,
O homem em nada imagina.
Quando ninguém esperava,
Pelas culpas, esta ruína,
Foi quando Deus das alturas
Baixou sua disciplina.

Não é absurdo, portanto, imaginar que os versos de Santaninha fossem conhecidos por Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista, cujo trabalho editorial, de alguma forma, se inspirava no empreendimento de Pedro Quaresma, no Rio de Janeiro. Sobre essa importante casa publicadora, escreveu a pesquisadora Vilma Quintela:

(...) cumpre ressaltar que o advento do cordel brasileiro como um sistema literário relativamente autônomo relaciona-se, fundamentalmente, com a história da edição popular no Brasil. Nesta, como foi dito acima, destaca-se como pioneira a Livraria Editora Quaresma, que atuou no Rio de Janeiro desde as últimas décadas do século XIX até meados do século XX. No cenário da belle époque carioca, dominado por editoras estrangeiras, tais como a Laemmert, a Garnier e a Francisco Alves, que atendiam sobretudo a uma elite cultural e econômica, o brasileiro Pedro Quaresma se estabeleceu, no final da década de 1870, difundindo, em várias partes do Brasil, incluindo o Nordeste, uma literatura feita em boa parte de encomenda para atender a um público semiletrado, então, emergente. [1]

Embora não tenhamos provas documentais, não é difícil imaginar que não somente Leandro e Chagas Batista, mas, também, João Martins de Athayde, continuador da saga de Leandro, leram Santaninha e tiveram nele um modelo. Modelo imperfeito, é verdade, mas, ainda assim, digno de ser lido, merecedor de aplausos pelo papel que lhe tem sido negado até agora: o de desbravador do cordel, que, como todos os pioneiros, tateando no escuro, conseguiu imprimir a sua marca.

Que este livro seja o primeiro passo para que se lhe façam justiça. Aos autores, nosso aplauso e nossa gratidão.





[1] QUINTELA, Vilma Mota. “A edição popular no Brasil: o caso da literatura de cordel”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 35. Brasília, janeiro-junho de 2010, p. 41-50.

Nota: Santaninha (IMEPH), um poeta popular na capital do império, foi lançado na bienal do Livro do Ceará. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

A TRISTE HISTÓRIA DE JOÃO VICTOR E A LANCHONETE HABIB'S

Capa: Jorge Guidacci



PRÓLOGO

O coração de manteiga
Que a natureza me deu
Não pode ficar isento
Ao caso que aconteceu...
Uma criança agredida,
Só porque pediu comida
Pra saciar sua fome?
Se eu ficasse calado
Meu coração revoltado
Renegaria o meu nome.


APRESENTAÇÃO

Parabéns pelo cordel. Um grito no silêncio que impera nesse mundo de barbárie. Não mais que a história narrada, com a beleza da arte. Fato é fato. Não há uma linha, um verso nas estrofes em que exista uma calúnia, injúria e difamação. Mas a defesa da vida, da dignidade humana, em forma de poesia. Pois a vida é uma poesia no deserto do mundo inorgânico. Mas a vida e o direito à vida tem sido aviltado. Poesia denúncia. Poesia história. Poesia cidadã. Publiquem e deem voz a essa vítima. Vocês estão protegidos pela liberdade de expressão. Publiquem e denunciem que está longe da Constituição virar realidade no universo dos brasileiros. Fracasso do Estado. Fracasso da política. Fracasso da sociedade. Nesse caos e nesse inferno, só a arte pode falar mais alto que a loucura. 

Um forte abraço. Sucesso.

Dr. Valdecy Alves – Advogado, escritor e documentarista


A TRISTE HISTÓRIA DE JOÃO VICTOR E A LANCHONETE HABIB'S

Autores: Klévisson Viana e Arievaldo Viana 

Meu coração de poeta
Não pode ficar calado
A pena do cordelista
Precisa dar seu recado,
Protestar contra esse crime
Que me deixou abalado.

Porque a ganância humana
Perdeu de vez a noção,
Não valoriza mais nada;
Só atende ao deus cifrão,
Somente o lucro interessa
Ao homem sem coração.

Este mundo vem errado
Desde o começo da Era,
Quando o homem não domina
O seu instinto de fera,
Age contra o semelhante
E a maldade prolifera.

Surgiram as religiões,
Mas de pouco adiantaram.
Quando vejo as divergências
Que elas próprias criaram,
Percebo que foi inútil
O que os Mestres pregaram.

A morte dessa criança
Não pode ficar de graça,
Pois todo o Brasil espera
Que a Justiça se faça,
Não deixemos que este caso
Vire comida de traça.

Falo aqui de João Victor,
Um pobrezinho sem nome,
Mais um filho injustiçado
Desse Brasil que não come,
Implorando por migalhas
Para aplacar sua fome.

Covardemente arrastado,
Conforme vi na manchete,
Por dois grandes trogloditas
Em frente a uma lanchonete,
Franqueada do Habib’s,
Levando tapa e bofete.


Dizem que até o gerente
Participou da chacina...
A mim não importa o cargo
Dessa serpente assassina,
Mas o vil capitalismo
Que em tudo predomina.

Depois dessa covardia
Os seus pais denunciaram,
Porém os policiais
Sequer se interessaram
De apurar as denúncias,
Desinteresse mostraram.

A grande mídia se cala
Em nome do vil metal,
É covarde e conivente,
Age a serviço do mal,
Joga o país no abismo,
Chafurda no lodaçal.

Se fosse um garoto rico
A vítima dessa maldade,
O caso rapidamente
Teria notoriedade,
Mas como é um pobrezinho,
É vítima da impunidade.

Ficam inventando desculpas
Para atenuar o crime,
Tomando sempre o partido
Daquele que nos oprime,
Porém quem oculta o mal
Seu pecado não redime!

A Lava Jato não lava
Esse tipo de indecência
Dessa imprensa covarde
Que age por conivência...
Por que a Justiça Cega
Não protege a inocência?

Justiça só a de Deus.
Não, dessas feras mesquinhas
Que agem pela ganância,
Almas perversas, daninhas!
Não sabem que Jesus disse:
— Vinde a mim as criancinhas?

Quantas crianças famintas
São vítimas dessa torpeza?
Quando aparece uma voz
Pra consolar a pobreza
É calada e perseguida
Por quem pratica a vileza.

Cadê o Estatuto da
Criança e do Adolescente?
E os Direitos Humanos,
Onde andarão minha gente?
Por que não clamam à Justiça
Para esse pobre inocente?

Quem vive a bater panelas
Não sabe o que é passar fome,
Nem sabe o que é miséria,
Porque todo dia come!
Não cata restos de lixo,
Não é um pobre sem nome.

A vida humana hoje em dia
Não vale mais um real...
A voz de um pobre faminto
Transborda logo o dedal
Do ódio e da violência
Que move a máquina do mal.

O caso foi em São Paulo
E as câmeras registraram
E mostram os dois brutamontes
Que a criança arrastaram,
Porém para inocentá-los
Mil versões apresentaram.

Mas não são os seguranças
Que eles querem proteger.
Há interesses mais fortes,
Todos podem perceber;
Quem entende de negócios
Sabe o que eu quero dizer.

Não é preciso ser GÊNIO
Para entender a questão,
Nem ter a sabedoria
Do grande Rei Salomão;
Tudo provém da ganância
Do maldito deus Cifrão.

As fotos mostram um menino
Pequeno, magro e mirrado,
Mas tinha um semblante meigo,
Mesmo vivendo humilhado,
Porém a mídia distorce,
Dizendo que era drogado.

Porém, essa alegação,
Da culpa não os redime.
A verdade é que ali
Se praticou mais um crime
Por culpa do Capital
Que nos avilta e oprime.

Pois a balança só pesa
Pro lado que tem dinheiro,
E defende os interesses
Do capital estrangeiro,
Tá cada vez mais difícil
Para quem é BRASILEIRO.

Quando eu digo BRASILEIRO
Falo em quem é PATRIOTA,
Que sente a dor dos irmãos
E a grande miséria nota;
Não em quem bate panelas
Porque esse é IDIOTA.

Nessa pátria sem governo,
Onde o preconceito avança,
Milhões são discriminados
E o capital não se cansa:
Com o seu GÊNIO DO MAL
Assassina até criança.

Se aqui tomamos partido
Perante a sociedade,
É porque fomos crianças
Despidas de vaidade,
Batalhando pelo pão
Nas ruas de uma cidade.

Desde criança sabemos
O quanto é dura a peleja...
Já vi criança humilhada
Na calçada de uma igreja!
Mas Deus que sabe e vê tudo
Não descansa nem fraqueja.

Nós que vivemos no mundo
Precisamos entender
Que a roda da fortuna
Pode se contradizer
E quem hoje está por cima
Poderá retroceder.

Jesus, nosso grande Mestre,
Profeta justo, inspirado,
Diz no Sermão da Montanha
Que é bem aventurado
Quem tem sede de Justiça
Porque será saciado.


FIM.