quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Jornadas ao “outro mundo” na Literatura de Cordel

Entre os cordéis de enredo maravilhoso, merece destaque o bloco de histórias no qual o herói, geralmente o filho mais novo, e aparentemente o menos qualificado, de um rei acometido por uma doença, cegueira na maioria dos casos, vai em busca de um remédio encontrável num reino fora dos limites do mundo “conhecido”. Abaixo, um resumo e breve interpretação de duas narrativas, uma clássica e outra contemporânea, com tema semelhante, variando em seus pormenores. O trecho a seguir é uma adaptação de parte de minha dissertação de mestrado, O fio e a meada, defendida em 2024, no Instituto de Estudos Linguísticos da Universidade de Campinas (Unicamp):

O príncipe Oscar e a Rainha das Águas, romance atribuído a José Bernardo da Silva, conta a história de Nebul, rei da Pérsia, e dos seus filhos, Agar, André e Oscar. Sem uma razão aparente, o rei fica cego e uma velha, visitando o palácio, conta sobre um reino localizado a milhões de léguas, onde, vigiada por uma serpente, havia uma fonte milagrosa. Cada irmão, a um tempo, irá em busca do remédio para o pai, mas os dois primeiros terminam caindo em tentação e são aprisionados.

Oscar os liberta, chega ao reino e, instruído por um velho, mata a serpente, originalmente uma fada cruel que se apoderara da fonte. A Rainha das Águas, governante do lugar, promete visitá-lo em seu país no prazo de um ano. O rapaz acaba traído pelos irmãos que o embriagam e substituem a água milagrosa por água do mar. Quando Oscar banha os olhos do pai, este quase morre de dor. Os irmãos, então, curam o rei e o caçula é preso e condenado a morrer na floresta; escapa graças à compaixão dos guardas ante as suas súplicas. Termina escravizado por um camponês.

Passado um ano, a Rainha das Águas desembarca na Pérsia com um exército de cem mil homens, exigindo para falar com o vencedor da serpente. Agar e André vão ao navio e são expulsos. Começam as buscas por Oscar, agora reduzido à miséria. O camponês, sabendo tratar-se do príncipe, leva-o até a corte esperando ter a vida poupada. Oscar perdoa os irmãos, que tem a pena de morte comutada em exílio. Vai embora com a Rainha das Águas e acolhe o velhinho que fora o seu tutor.

Os exageros (a distância do reino, a quantidade de soldados a serviço da rainha) adicionam um humor involuntário à história. Racionalizado em alguns aspectos, em vez do morto agradecido, o enredo traz o velho conselheiro, que acrescenta bem pouco à história de ritmo irregular, embora não totalmente desarmoniosa. Ainda assim, está em consonância com o esquema de Joseph Campbell, reunindo vários passos da Aventura do herói.

Ressalte-se a importância do registro dos contos de tradição oral para comparação ou confronto, a exemplo de O reino da Água Azul, narrado por Djanira Feitosa, registrado em livro e adaptado, pela autora, para o cordel:

 

Vou contar uma história

Que se deu lá pelo sul

Trata-se de um senhor

Que se chamava Raul

A mesma recebe o título

O Reino da Água Azul

 

Esse senhor era rico,

Um homem de posição

E era pai de três filhos

José, Francisco e João

Porém não era feliz

Porque não tinha visão.

João, o protagonista, terá ajuda da rainha das garças, que lhe cederá as penas para chegar ao tal reino, do outro lado do mar. Antes encontra uma raposa, que diz ser seu anjo da guarda, e, em seguida, um cadáver já inchado, ao qual dá sepultura. A raposa reaparece e não fica claro se era a alma do defunto insepulto e sua aparição anterior serviu para guiar o rapaz até o cadáver. Ou se houve, em algum momento da transmissão oral do conto, um erro, antecipando um episódio que, quase sempre, tem lugar após o sepultamento. O palácio, onde vivia o pássaro encantado que, quando cantava, deixava escorrer do bico uma baba azul com poderes curativos, era guardado por uma serpente. João, com o par de asas confeccionadas com as penas da rainha das garças e suas filhas, chega ao reino, tenta despertar a princesa, colhe a baba mágica, mas, inadvertidamente, acorda a serpente. Esta sai em sua perseguição, mas, cansada, cai no mar e se afoga.

O herói reencontra os irmãos que o prendem numa cacimba e lhe roubam o elixir. É libertado por uma voz (o morto agradecido) e, ao chegar ao reino, encontra o pai curado. Em razão das mentiras contadas pelos irmãos, é enxotado para a cozinha, onde passa a dormir em meio às cinzas. A princesa, desencantada, vai em busca de seu salvador com um numeroso exército e chega à casa do velho Raul. Os filhos mais velhos são chamados, mas, quando indagados sobre o que viram no reino, mentem e são espancados a mando da princesa. Convocado, João conta a verdade, incluindo as injúrias sofridas em sua casa. O pai toma de volta a riqueza dividida com os filhos e a repassa a João.

Como os demais contos aqui estudados, o que inspirou o cordel de Djanira Feitosa replica algumas aventuras míticas. Quanto à raposinha, ausente do desfecho, situação anômala em contos do tipo, é graças à sua ajuda que se repara o dano (cegueira do rei ou do pai) e se restabelece a justiça. 

Em contos semelhantes, o auxiliar mágico sempre guia o herói para os reinos que se localizam fora do mundo “comum”, e que, nos ritos iniciáticos, equivalem ao além, o reino dos confins, segundo Vladimir Propp:


O reino a que chega o herói é separado da casa paterna por uma floresta impenetrável, um mar, um rio de fogo, com uma ponte vigiada pelo dragão, ou um abismo onde o herói cai ou desce. É o “reino dos confins”, o “outro reino” ou o “nunca visto”. Nele reina uma princesa altiva e orgulhosa, nele vive o dragão. É onde o herói vem procurar a bela raptada, raridades, as maçãs da juventude, a água da cura da vida, que proporcionam juventude e saúde eternas.

O animal como morto agradecido é o ancestral totêmico do herói e as suas viagens são similares às perigosas jornadas xamânicas à terra dos mortos das quais ele retorna somente quando encontra o elixir. Já o tema do morto figurado em cavaleiro ou comerciante é uma clara atualização, refletindo contextos sociais e econômicos consonantes com a área de difusão, bem como a transformação do reino dos confins em uma ilha ou cidade comum.

Para Propp, “uma racionalização das mais tardias transforma o herói em mercador, a travessia em viagem marítima de negócios e a cidade em porto”, situação que claramente remete ao “livro do povo” João de Calais. No conto “A raposinha”, recolhido por Silvio Romero, e nos cordéis com motivos similares, remanescentes de contextos mitológicos arcaicos, o resgate ocorre por meio de uma jornada ao “outro mundo”.

Referências:

FEITOSA, Djanira. A história do reino da água azul. [S. l.]: Edição do Autor, 2013.

PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução: Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

SILVA, José Bernardo da Silva. O príncipe Oscar e a rainha das águas. Fortaleza: Tupynanquim, 2001.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cordéis atemporais: História de João da Cruz

Um exemplo eloquente de narrativa híbrida na literatura de cordel é a História de João da Cruz, um dos melhores cordéis de Leandro Gomes de Barros, que classificamos como ATU 756A (A arrogância do virtuoso). Trata-se de uma variante, com muitos elementos acrescentados pelo autor, na qual o motivo do bordão que flore em razão do arrependimento do homem justo norteia a história, contada como uma lenda hagiográfica de queda e redenção:

 

Depois de Cristo, alguns anos

Existia um ancião;

Esse tinha um filho único

O qual se chamava João

Que ia sempre de encontro

À cristã religião.

Entre os motivos das lendas piedosas, há o sonho premonitório do herói com uma mulher, prefigurando a Virgem Maria, advertindo-lhe sobre o caminho a seguir. Desobedecendo-a, ele vai parar num prédio murado, onde é recebido pelo príncipe das trevas e testemunha os grandes castigos infligidos às almas danadas. Abandonando a casa maldita, João segue, pelo caminho da direita, chegando à outra casa, de indescritível beleza. Neste local...

 

Viu passar uma mulher

Com um majestoso manto;

Tudo ali se levantava,

Entoava um belo canto

Dizendo: “Salve, ó Esposa

Do Divino Espírito Santo.

Morrendo a mãe, João se despede do pai e torna-se eremita, sendo tentado pelo Demônio e consolado por um anjo, que lhe deixa o ramo da virtude:

 

Todo dia hás de vê-lo

Verde e com todo o fulgor

Aquele ramo é regado

Com o riso do Senhor

Se tu caíres em culpa,

Cai dele também a flor. 

Já adivinhamos que ele será iludido pelo Diabo que, inicialmente, se transforma em uma velha e, depois, numa jovem sedutora. Visita o seu castelo da falsa jovem, porém, lembrando-se do ramo, arrepende-se e retorna ao local onde vive como penitente. Depois de vinte e dois anos, morre e segue para o céu em companhia do seu anjo da guarda. Satanás, que assistira a sua “consumação”, obstinado em ganhar a alma de João, acompanha-os. No céu, Jesus esclarece o mistério da flor divina:


A flor que o anjo te deu

Foi uma das minhas chagas

Feitas pelos teus pecados

Naquelas horas amargas,

Feitas por ti e por outros,

E desta forma são pagas?

Forma-se o tribunal celeste e João, perdendo sua individualidade, e, agora chamado apenas de alma[1], será julgado por Jesus, ao passo que Satanás fará o papel de acusador. Vendo-se perdida, a alma rogará à Virgem para que seja sua advogada, e ela aceita. Não só aceita, mas, valendo-se dos melhores argumentos, termina por convencer o filho a salvar a alma, para desespero do Demônio. Antes, porém, São Miguel Arcanjo intervém, e o Diabo, diante de iminente derrota, recorre a um último artifício:

 

Pesam-se a alma e as culpas:

Se a alma for mais pesada

Lhe garanto que darei

A questão por terminada;

Se as culpas pesarem mais

Você não ganhará nada.

Trata-se da Psicostasia, a pesagem da alma, recurso definitivo para a salvação, no caso de João da Cruz, ou danação eternas. O tema do julgamento post-mortem está presente em muitas religiões, mas nenhuma parece preceder a egípcia, em processo similar àquele conservado pela tradição popular católica. São Miguel, com sua balança, substitui Anúbis, que pesava os corações dos defuntos no Tribunal da dupla Maat, presidido por Osíris. O professor E. Wallis Budge, tradutor e comentador do Livro dos mortos egípcio, descreve a Cena do Julgamento no salão de Osíris:

 

Não se sabe onde nem quando ocorria o julgamento, mas segundo o que parece ter sido a ideia original, os amplos céus, ou parte deles, formavam a sala do Julgamento, e a sentença era dada na presença das três Companhias de deuses; como cabeças da Companhia funérea, “Osíris ocupava posição proeminente, e acabou ficando o único juiz dos mortos. Parece que o julgamento de cada indivíduo acontecia logo depois da morte, e o aniquilamento ou a vida e a bem-aventurança eternas eram decretadas incontinenti para as almas dos mortos.

O julgamento de João da Cruz na eternidade, indicada no texto não como uma condição, mas como um lugar, se dá neste contexto, individialmente e logo após a sua morte. É o momento mais dramático do texto, indicando, a princípio, a condenação eterna. Câmara Cascudo, no ensaio “Anúbis”, menciona romances portugueses, recolhidos por Teófilo Braga (1867) e Jaime Lopes Dias (1944), sobre os transes angustiantes das almas diante do juízo divino com a mesma estrutura de João da Cruz. Reproduz, ainda, um trecho pinçado do Folclore pernambucano, de Pereira da Costa, com o mesmo esquema arquetípico:


Segundo a crendice popular, para verificar-se o destino final dos espíritos, é preciso um julgamento prévio. O espírito, apenas desprendido da matéria, comparece perante o arcanjo São Miguel, e tomando ele a sua balança, coloca em uma concha as obras boas e na outra as obras más, e profere o seu julgamento em face da superioridade do peso de umas sobre as outras.  Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, o espírito vai imediatamente para o céu; quando elas são insignificantes, vai purificar-se no purgatório, e quando não tem em seu favor uma obra boa sequer, vai irremediavelmente para o inferno, donde só sairá quando se der o julgamento final, no dia de juízo, seguindo-se então a ressurreição da carne.


Rodrigues de Carvalho atribui a Silvino Pirauá a “Peleja da alma”, com versos distribuídos em esquemas rímicos nem sempre coesos, embora o julgamento seja reproduzido de forma consistente, como se depreende da seguinte quintilha:

 

“Vem cá, Miguel!” — Quem me chama?

Lucifer[2] que vá embora,

Que ele não tem parte em nada,

Que a alma que ele veio ver

Da Virgem foi amparada”. 

É possível que Carvalho tenha confundido, pela proximidade temática, este poema com o folheto O castigo da soberba, também atribuído a Pirauá e aproveitado por Ariano Suassuna na parte final da peça Auto da Compadecida.

Além do julgamento celeste, as viagens ao além, reduzidas a um sonho em João da Cruz, refloresceram no imaginário judaico-cristão, influenciado por crenças pré-cristãs e inflamado pela literatura apocalíptica. Jacques Le Goff, ao historiar o nascimento do purgatório, investigou os seus antecedentes, recenseando, entre os viajantes do mundo espiritual, um ancestral do mundo grego:

 

Plutarco, nos seus Moralia, conta a visão de Tespésio, Este, depois de ter levado uma vida de deboche, segundo todas as aparências, morre e quando, passados três dias, volta à vida, leva daí em diante uma vida perfeitamente virtuosa. Pressionado com perguntas, revela que o seu espírito deixou o corpo e viajou no espaço entre as almas que andavam pelo ar das quais conheceu algumas, que emitiam terríveis lamentos, enquanto outras, mais em cima, pareciam tranquilas e felizes. Algumas destas almas são puramente brilhantes, outras têm manchas e outras são completamente escuras. As que estão carregadas com poucos pecados só sofrem um castigo ligeiro, mas as ímpias são entregues à Justiça que, se as acha incuráveis as abandona às Fúrias que as lançam num abismo sem fundo. Tespésio é depois levado para uma grande planície cheia de flores e de perfumes agradáveis onde algumas almas voam alegremente como pássaros. E visita por fim o lugar dos condenados onde assiste às suas torturas. Há notoriamente três lagos, um de ouro fervente, outro de chumbo gelado e um terceiro de ferro agitado por ondas. Demônios mergulham e tornam tirar as almas de um lago para outro. Por fim, noutro local, ferreiros modelam sem cerimônias as almas chamadas a uma segunda existência dando-lhes as mais diversas formas.

Em João da Cruz, a descrição do inferno não é menos assustadora:

 

Lá no fundo de uma estufa

Se ouvia gente gemer,

Ranger dente, blasfemar,

Avançar para morder,

Da urros que reboavam,

Fazendo a terra tremer. 

Anábase (subida ao céu) e catábase (descida ao inferno) são, afinal, topoi recorrentes no cordel e nos romances piedosos, herdados dos ritos fúnebres, guardando vestígios das religiões de mistério de muitos povos e quadrantes. O fogo que arde no inferno, afinal, fora aceso muito antes de os cristãos lançarem suas bases doutrinárias e ameaçarem seus inimigos com uma prisão onde os sofrimentos, aplicados em proporções muito maiores que os pecados, são eternos. Leandro Gomes de Barros, no entanto, não parece mover-se pela literatura apologética Ao mesclar um motivo pio, constante em contos religiosos, cujo modelo é Os três ramos verdes (ATU 756), seguido do subtipo 756B (no qual enquadramos João da Cruz), com lendas douradas, como a de Santo Antônio da Tebaida e outros santos tentados pelo Demônio, ele mostra que seu trabalho ia além da literatura e buscava atender à demanda de um público a um só tempo fascinado e assombrado pelas pregações missionárias. Ariano Suassuna, grande admirador do poeta, base de boa parte de sua dramaturgia, adaptou sua obra-prima, em 1949, rebatizando-a como Auto de João da Cruz. Para que não restassem dúvidas sobre as fontes, escrevendo em 1967, o dramaturgo afirmava ser o texto


inteiramente baseado em três folhetos nordestinos: História de João da Cruz, História do Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Reino do Vai não Torna e O Príncipe João Sem Medo e a Princesa da Ilha dos Diamantes, folhetos dos quais são autores ou divulgadores, respectivamente, Leandro Gomes de Barros, Severino Milanês da Silva e Francisco Sales Arêda, poetas populares do Nordeste, segundo se explicava na introdução escrita para a peça.

Há, no entanto, notórias diferenças entre o romance e a peça; a maior delas, provavelmente, se dá no perfil dramático do herói, não mais um ateu e sim um homem ambicioso, embora titubeante, que, assim como o doutor Fausto, assina um pacto com o Diabo (alegoricamente retratado como um cego) em troca de poder. “Esta é minha esperança mais secreta”, confessa João. “Hei de conquistar o mundo e tudo o que ele pode dar”. (Suassuna, 20121, p. 61). Nossa Senhora tem um papel mais ativo na peça, ambientada em Taperoá, Paraíba, com o nome de Regina, clara alusão à oração católica “Salve, Rainha”, na qual se enfatiza o seu papel de advogada.

 Nota: Texto adaptado de trecho da dissertação de mestrado O fio e a meada : classificação tipológica e uma história cultural da literatura de cordel, defendida em 2024, na Universidade de Campinas. Para ler o texto na íntegra, clique AQUI

REFERÊNCIAS:

BARROS, Leandro Gomes de. História de João da Cruz. São Paulo: Luzeiro, 1986.

BUDGE, E. A. Wallis. O livro egípcio dos mortos. Tradução: Octávio Mendes Cajado. São Paulo: Pensamento, 1993.

CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1967.

CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 2002.

COSTA, Pereira da. Folclore pernambucano. 2. ed. Recife: Arquivo Público Estadual, 1974.

LE GOFF, Jacques. O nascimento do purgatório. 2. ed. Tradução: Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo. Lisboa: Editorial Estampa, 1995.

SUASSUNA, Ariano. A compadecida e o romanceiro nordestino. In: DIÉGUES JÚNIOR, Manuel (org.). Literatura popular em verso: estudos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986.



[1] Compare-se este cordel com o Auto da alma, de Gil Vicente, representado em 1508, dedicado à devora rainha D. Leonor, esposa de D. Manuel, cognominado “o Venturoso”. O argumento, simples, mostra uma disputa entre Santo Tomás, Santo Agostinho, Santo Ambrósio e São Jerônimo, doutores da Igreja, aqui personificada e substituindo a Virgem, com o Diabo pela posse da alma.

[2] No cordel, e em alguns contos e poemas populares, Lucifer é palavra oxítona. O recurso do deslocamento da tonicidade da sílaba para uma sílaba posterior (diástole) não é incomum no cordel, bem como não o é na poesia em seu sentido lato.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cordéis atemporais: O Cachorro dos Mortos

                        Xilogravura do artista paraibano Álvaro Barbosa (ABA), datada, provavelmente, dos anos 1930,                                     retratando dois momentos do clássico O cachorro dos mortos. 

Considerada por boa parte dos leitores a obra-prima de Leandro Gomes de Barros, a história ora analisada traz como protagonista um cachorro, de nome Calar, única testemunha de um crime bárbaro que vitimou os três filhos de seus donos, Sebastião de Oliveira e Maria da Glória. O crime, ocorrido na Bahia, nas proximidades de São Salvador, em 1806, foi motivado pela rejeição de Angelita, caçula dos Oliveira, às investidas do dândi Valdivino de Amorim, filho do espanhol Elisiário. 

Depois de tocaiar e matar o estudante Floriano, irmão mais velho de Angelita, Valdivino consegue amarrar o cachorro. Angelita e Esmeralda, sobressaltadas, vão até o local, onde encontram o irmão morto. Esmeralda é alvejada e morta na sequência. O assassino tenta beijar Angelita à força, mas ela resiste, mordendo-o, e recebe, de volta uma punhalada. À beira da morte, a jovem invoca o testemunho do cachorro, de um gameleiro (sic) e das flores. O bandido desfere uma punhalada contra o cachorro, mas, sem querer, acaba cortando a corda e libertando-o.

Dona Maria encontra os corpos dos filhos e comunica ao marido. Ela morre dois dias depois, de tristeza, e o velho Oliveira enlouquece em três dias, falecendo em duas semanas. Fica apenas Calar guardando a sepultura dos irmãos. O crime ocorreu numa encruzilhada, onde se realizava uma festa anual:

 

Onde deu-se o crime havia

Duas estradas em cruz

Diziam que ali acharam

Umas flores muito azuis

Formando uma lapa igual

A do menino Jesus.

            Três anos depois, perto do fim da festa, estando presentes ao local o presidente da província, o bispo e um general, Valdivino reaparece. Calar o reconhece e só não lhe rasga a garganta porque é impedido por Pedro, velho caçador amigo da família Oliveira. Diante da reação do cão, o bispo acusa Valdivino de ser o assassino, mas ele nega. Por fim, duas crianças, desmanchando um ninho de rato, no alto da gameleira, encontram a carteira perdida por Valdivino, contendo um bilhete em que confessou seu desejo de matar Angelita e seus irmãos ou de tirar a própria vida caso fracassasse. 

    O povo presente tenta linchá-lo, mas as autoridades impedem, garantindo que haverá justiça. Valdivino é preso, julgado e condenado à morte por enforcamento. Seu pai suborna o carrasco, Zeferino, que facilita a sua fuga em um cavalo. O carrasco é estrangulado por um dos presentes ao ato e Valdivino se esconde na casa de Roberto, um amigo de seu pai. Antes, avista, sob uma gameleira, os cinco fantasmas da família Oliveira. Calar o persegue e descobre o seu esconderijo. Novamente preso, o criminoso é enforcado no mesmo dia. Calar, depois de festejar junto ao general, deita-se entre as três cruzes e morre “nas condições de guerreiro”.

Depois da morte de Calar, temos um flashback informando que ele havia sido salvo por Sebastião, quando tinha somente quinze dias de vida, pois seu primeiro dono tencionava matá-lo. Crescendo, tornou-se grande caçador e defensor das criações da fazenda.

***

            Como enquadrar, numa classificação sistemática com base no Sistema Aarne-Thompspn-Uther (ATU), uma história, ambientada em época e local definidos (proximidades de Salvador, entre os anos de 1806 e 1809), de enredo realista ainda que resvale, sem muita convicção, no fantástico? A resposta foi dada pelo próprio Leandro, já na primeira estrofe, uma das mais conhecidas da história do cordel:

 

Os nossos antepassados

Eram muito prevenidos,

Diziam: mato tem olhos

E paredes têm ouvidos,

Os crimes são descobertos

Por mais que sejam escondidos.

O dito popular, do terceiro e quarto versos, aponta para o tema da “natureza denunciante” e aparece, em sua forma primitiva, no “Conto do cavaleiro”, dos Contos da Cantuária (1348), de Chaucer (2013, p. 69):

Conforme um dito antigo nos atesta:

A campina tem olhos; e a floresta,

Ouvidos”. Então urge estar atento:

O inesperado surge num momento.

A cena em que Angelita, à beira da morte, invoca o testemunho da natureza, autentica O cachorro dos mortos neste ciclo:

Olhou para um gameleiro

que tinha junto à estrada

dizendo: e tu gameleiro,

vistes a cena passada;

eis uma das testemunhas

quando a hora for chegada.

 

Já na última agonia

exclamou: “monstro assassino,

tiraste agora três vidas

e não sacias o destino

isso eu hei de lembrar

perante o Juiz Divino.

 

Não julgues que fique impune

este sangue no deserto,

tu não vês três testemunhas,

que estão aqui muito perto?

estas perante o público

irão depor muito certo.”

 

Disse Valdivino: és louca

quem viu o que foi passado?

disse Angelita: este cão

que está ali amarrado,

a gameleira e as flores

dirão no dia chegado.

O cachorro dos mortos deve ser classificado como uma versão desviante do ATU 960 (Tudo é revelado à luz do dia), enquadrado no grupo “Ladrões e assassinos” (950-969) dos Contos realísticos. No conto-padrão, “O sol brilhante há de trazê-lo à luz do dia”, nº 115 dos Irmãos Grimm, um aprendiz de alfaiate mata um judeu para roubá-lo, mesmo este jurando ter no bolso apenas oito tostões. O moribundo profere a frase-título e, muito tempo depois, já casado e bem estabelecido, o alfaiate, enquanto contempla um raio de sol sobre o café servido pela mulher, evoca a lembrança, mas sem revelar, ainda, o seu crime. Instado a esclarecer de que se tratava, o homem conta a história à mulher, que conta para uma comadre e, logo, toda a cidade estará a par do crime. Três dias depois ocorre a prisão do assassino.

Há apenas duas versões brasileiras catalogadas: “As testemunhas de Valdivino” (Cascudo, op. cit., p. 300) em que, curiosamente, a vítima tem o mesmo nome do assassino no cordel, e “O testemunho das gotas de chuva” (Haurélio, 2011, p. 131-132). Das nove versões portuguesas documentadas, destaca-se a de Ataíde Oliveira (1900), “A Deus nada se esconde”, na qual um compadre rico atira seu compadre pobre em um algueirão (caverna). O infeliz pede ao carrasco para que batize o seu filho, ainda por nascer, com o nome A Deus Nada se Esconde. Passados cinco anos, o rei e dois conselheiros encontram o menino e, quando lhe perguntam o nome, admiram-se da resposta. Interrogam primeiro a mãe do garoto e, em seguida, o compadre rico, que, apertado, confessa o crime. Milagrosamente o pobre é regatado ainda vivo, tão magro “que parecia uma mirra”, e o rico, atirado ao algueirão, morre imediatamente (Cf. Oliveira, 2002, p. 401-402).

A lenda do poeta grego Íbicus, que teria vivido no século VI a.E.C., tema de um epigrama de Antipatro de Sidon (século II a.E.C.), ensejou o ensaio de Câmara Cascudo, “Os grous de Íbicus voam em português”. Íbicus, já idoso, teria sido raptado e morto por salteadores, mesmo tendo sido pago o valor exigido para o resgate. Antes de morrer, o poeta pediu a uns grous, que sobrevoavam a sua cabeça, que fossem as suas testemunhas. Muito tempo depois, num anfiteatro de Corinto, os ladrões, ao avistarem alguns grous, rememoraram o fato com um gracejo, chamando a atenção dos circunstantes. Presos, confessam o crime e são executados.

A força que denunciou os assassinos de Íbicus, advinda de uma justiça imanente, é a mesma que fez Valdivino perder a carteira, encontrada depois pelas crianças na gameleira que Angelita invocara como testemunha de seu assassinato:

 

Porém uma força oculta

Permitiu que ele perdesse

E essa mesma força impôs

Que ele dela se esquecesse

Para dizer ao seu tempo:

O assassino foi esse. 

Essa “força oculta”, talvez derivada das antigas crenças animistas, deve ser a mesma a que alude Jesus, explicando a “Parábola do semeador”, no Evangelho de São Lucas (8, 17): “Porque não há nada de oculto que não venha a ser revelado e não há nada de escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz do dia”.

Nota: Texto adaptado de trecho da dissertação de mestrado O fio e a meada : classificação tipológica e uma história cultural da literatura de cordel, defendida em 2024, na Universidade de Campinas. Para ler o texto na íntegra, clique AQUI. 


Referências

BARROS, Leandro Gomes de. Literatura popular em versos: antologia, tomo III. Brasília: Ministério da Educação e Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 2002.

CHAUCER, Geoffrey. Contos da Cantuária. Tradução: José Francisco Botelho. São Paulo: Penguin Classics: Companhia das Letras, 2013.

GRIMM, Irmãos. Contos completos. Tradução: Teresa Aica Barros. Lisboa: Temas e Debates, 2012.

HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.

OLIVEIRA, F. Xavier Ataíde de. Contos tradicionais do Algarve. Lisboa: Vega, 2002.

UTHER, Hans Jörg. The types of international folktales: a classification and bibliography. 2. ed. Helsinki: Academia Scientiarum Fennica, 2011.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Aventuras de Roldão, o Paladino da França


Tenho me descuidado deste blogue, espaço que cultivo desde 2009, e cujo nome, inspirado na canção "Baião atemporal", de Gilberto Gil, confere a mesma dignidade à Literatura de Cordel. Apesar de postar cada vez menos, tenho constatado que a marca de mil acessos diários tem sido uma constante. Por isso, não poderia deixar de registrar um dos meus grandes orgulhos: o lançamento, pela Editora de Cultura, na coleção Cordel na Estante, por mim coordenada, do épico em cordel Aventuras de Roldão, o Paladino da França. Ilustrada por Jefferson campos, um dos grandes talentos da xilogravura popular brasileira, este livro esperou mais de dez anos para ir ao prelo. Chega, vestido de azul, a cor do partido francês nas Cavalhadas dramáticas, com mais de 300 sextilhas. Para não perder tempo, reproduzo abaixo um dos paratextos, o Introito, e os versos que abrem o livro:

Foi um desafio, uma peleja e uma grande honra trazer para o cordel a saga do cavaleiro Roldão, o mais famoso dos heroicos guardas pessoais do imperador Carlos Magno (742-814), ou Carlos, o Grande, que uniu os diversos reinos existentes na Europa durante a Idade Média. Roldão era o principal dos Doze Pares de França, a fraternidade guerreira desse importante monarca.

Milão e Berta fogem de Carlos Magno

Baseei-me na monumental História do Imperador Carlos Magno, traduzida para o português por Jerônimo Moreira de Carvalho, e em A Canção de Rolando, escrita ou copiada por Turold, obscuro monge de origem normanda, entre o final do século XI e o início do século XII. Li, ainda, os entrechos de duas cavalhadas dramáticas baianas, nas quais se conservam vivos e atuantes os personagens da chamada Matéria Francesa – isto é, o material lendário relativo à França na literatura medieval. Recorri às epopeias italianas Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, e Orlando Enamorado, de Matteo Maria Boiardo. Orlando e Rolando são designações do mesmo herói. Roldão foi tema de acalorada discussão no imortal D. Quixote, de Miguel de Cervantes. Reli ainda todos os folhetos da matéria carolíngia e o Romance da Pedra do Reino, do inesquecível romancista e dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna (1927-2014), no qual as referências a Carlos Magno e aos Doze Pares de França são abundantes. As fases da vida do herói foram garimpadas em obras distintas: a infância, a juventude e o episódio do leão de ouro aparecem na História de Carlos Magno, e a sua morte heroica em Roncesvales, na Espanha, é a razão de existir da Canção de Rolando. Optei pela forma Roldão, como o grande paladino é conhecido no Brasil e em Portugal, não apenas nas fontes escritas, mas também nos folguedos. Além das cavalhadas, eles envolvem as cheganças, marujadas e autos independentes, como o de Floripes, dispensando maiores justificativas. Outra dificuldade foi fixar o nome dos Doze Pares, por conta da disparidade entre a Canção e a História de Carlos Magno. Optei, nesse caso, pela última obra, que dialoga mais de perto com as nossas tradições populares.

Roldão mostra a Ricarte o retrato de Angélica. 

Encruzilhada semelhante se apresentou no tocante ao nome da amada do herói: Alda, irmã de Oliveiros, na Canção; Angélica, filha de Abderraman, na História de Carlos Magno e nos cordéis. Fiquei, também, com a segunda opção. E descobri, quando pesquisava outras versões da história do combate entre Roldão e o gigante Ferragus, o livro Legends of Charlemagne or Romance of the Middle Ages, de Thomas Bulfinch [“Lenda de Carlos Magno ou Romance da Idade Média”], inédito no Brasil.

Roldão e o leão de ouro

É preciso advertir que as aventuras atribuídas ao paladino foram compostas ao longo de nove séculos e, a depender do contexto, apresentarão muitas variações. Personagem fascinante, Roldão figura na literatura de cordel e no repente nordestino como símbolo do herói indomável, campeão da Cristandade, líder de uma fraternidade guerreira, cavaleiro indômito e modelo que inspiraria, em outras épocas, os caubóis do Faroeste americano e os cangaceiros e vaqueiros nordestinos.

Carlos Magno foi um rei
Eternizado na história;
De suas grandes façanhas
Ainda existe a memória.
Já em vida era coberto
Por uma auréola de glória.
 
Governou por muitos anos
Com o cetro, a espada e a lança,
Aumentou o seu império
Com força e perseverança,
Graças aos seus cavaleiros,
Os Doze Pares de França.
 
De todos estes guerreiros,
Um tinha voz de trovão,
A astúcia duma raposa,
Com a força do leão.
Se a França o chamou Roland,
No Brasil, ele é Roldão.
 
Roldão era um cavaleiro
De figura soberana.
Em campo, quando brandia
Sua espada Durindana,
Assustava os inimigos
Com coragem sobre-humana.
 
Este guerreiro que foi
De Carlos Magno sobrinho
Jamais se curvou ao medo,
Nunca em vida foi mesquinho,
Fez da honra o seu brasão,
Da justiça o seu caminho.

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