domingo, 23 de julho de 2017

Um cordel para Câmara Cascudo

Ilustração de Jô Oliveira
A cultura não está
Somente nos alfarrábios.
Há doutores pouco doutos
E matutos muito sábios.
O néctar da inteligência
Pode vir de rudes lábios.

O Brasil é a nação
Que da mistura se fez.
Em sua alma há muitas almas,
Se olhamos com sensatez,
Enxergamos um país
Mestiçado em sua tez.

Por guardião da cultura,
Armado de espada e escudo,
O Brasil teve um guerreiro
Que sabia quase tudo
E sempre prestará preito
Ao gênio Câmara Cascudo.

O nome de São Luís,
Foi dado por garantia
Para que não sucumbisse
Ao crupe, à difteria.
Para gáudio do Brasil,
Ele sobreviveria.

Menino livre, peralta,
Ouvidos d’alma aguçados,
Desde cedo conviveu
Com as chulas, os reisados,
As histórias de Trancoso,
Os ritos, os encantados.

O pai, Francisco Cascudo,
Grande contador de histórias,
Foi, com saudade, evocado
Em inúmeras memórias.
Ser o pai de Cascudinho:
A maior de suas Glórias.

Já a mãe Ana Maria,
A imagem da ternura,
Serviu a ele de bússola
Quando a via fez-se escura,
Iluminando pra sempre
A sua literatura.

O menino fez-se homem
E brilhante professor,
Da cultura popular
Foi o grande difusor.
Das tradições brasileiras
Mostrou, com arte, o valor.

Os aboios dos vaqueiros,
Os gênios da cantoria,
As rezas e benzeduras,
Os devotos de Maria.
As superstições, os medos,
Tudo ele registraria.

Recolheu e comentou
Diversos contos e lendas,
Nas praias, várzeas e campos,
Nos alpendres das fazendas,
Não esqueceu as cirandas,
Os ditados e as parlendas.

Estudou, com muito afinco,
Os romances de cordel,
Perscrutou, com grande acerto,
Da oralidade ao papel,
Como nasceu e vingou
A arte do menestrel.

Investigou os costumes,
Os temores do demônio,
Vislumbrou informações
Em Dante, Ovídio Petrônio,
Trouxe luzes sobre a crença
No bom frade Santo Antônio.

Enalteceu a Mãe África,
Saudando a rainha Ginga,
Estudou a capoeira,
Esmiuçou a mandinga.
Do baralho da cultura,
Cascudo é nosso Coringa.

Em vida o maior dos sábios
Do Rio Grande do Norte,
Ao lado de sua Dhália,
Julgou-se um homem de sorte.
E disso ninguém duvida,
Porque vive além da morte.

Apesar de ser católico,
Fez de sua casa um templo
De devoção ao saber,
Que eu, seu seguidor, contemplo.
E legou a todos nós,
Como láurea, o seu exemplo.

Hoje, está no tempo eterno,
Com Dhália e os seus dois filhos,
Fernando e Ana Maria,
Que seguem por outros trilhos,
Pelas veredas do céu,
Nas quais vemos quatro brilhos.

Há trinta anos, partiu
Nosso maior folclorista.
Porém eu prefiro crer
Que o Celestial Artista
Quis ter perto dele um gênio,
Pra enriquecer sua lista.

C ontudo, aqui neste plano,
A inda rendemos preito,
M as jamais lamentaremos
A quilo que não tem jeito.
R eceba de todos nós
A mor, estima e respeito.

C âmara Cascudo é símbolo
A temporal de cultura.
S eu exemplo é nossa luz,
C hamando-nos lá da altura.
U m abraço, grande mestre,
D e nossa casa terrestre
O seu legado perdura.


Nota: O poema acima reproduzido foi publicado em folheto que homenageou Luís da Câmara Cascudo em seus 30 anos de encantamento (1986-2016). A iniciativa foi apoiada pelo Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo, por meio de sua presidente, Daliana Cascudo, neta do eminente folclorista. 

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