quarta-feira, 24 de agosto de 2011

24 de agosto: O Diabo está solto!

O Diabo aparece sob disfarce na obra do genial
Leandro Gomes de Barros


Hoje, dia 24 de agosto, consagrado a São Bartolomeu, segundo a crença popular, o Diabo está solto. Está solto porque, neste dia, Deus afrouxa o laço com que o subjuga.

Na literatura de cordel, as referências ao dia mais aziago do ano são muitas. Escolhemos três títulos – um do ciclo do gado, um conto picaresco e uma história de exemplo – para ilustrar essa presença. Leandro Gomes de Barros, na História do Boi Misterioso, descreve o nascimento do bovino aleivoso, na data consagrada ao santo:

A vinte e quatro de agosto,
Data esta receosa,
Que é quando o Diabo pode
Soltar-se e dar uma prosa,
Pois foi nesse dia o parto
Da vaca Misteriosa.

É possível que a lembrança do massacre havido na França num 24 de agosto do distante ano de 1572, quando milhares de huguenotes, como eram chamados os protestantes franceses, foram massacrados por ordem do rei Carlos IX, tenha aquilatado o medo. O folclorista mineiro Lindolfo Gomes, no entanto, apontou indícios da presença da superstição do dia de São Bartolomeu no texto medieval Crestomatia arcaica, de J. J. Nunes.

 Os heróis picarescos, famosos por suas diabruras, também são associados ao demo, a ponto de um deles, Camões, vir ao mundo no dia de São Bartolomeu. Pelo menos é o que lemos em As perguntas do rei e as respostas de Camões, de Severino Gonçalves de Oliveira, o Cirilo, que assim apresenta a origem do famoso poeta sob as vestes do pícaro:

Camões foi um enjeitado
Ninguém sabe onde nasceu
Dizem que foi encontrado
Na porta de um fariseu
Num dia santificado
Do santo Bartolomeu.

José Pacheco foi quem melhor explorou o tema da
superstição de São Bartolomeu






















Nesse dia, é proibida a caça, sob risco de o caçador deparar as aleivosias que surgem por arte do tinhoso. É o que acontece num valioso opúsculo do genial José Pacheco, a História do Caçador que foi ao Inferno.  É uma história exemplar, semelhante a tantas outras narradas desde a Idade Média, e plantadas em solo brasílico pela catequese jesuítica:

Um homem que existia
Naquela época passada
Tomou como profissão
A diversão de caçada —
Às vezes caçava só,
Por lhe faltar camarada.

Uma vez, estava só,
Cumprindo o destino seu.
Um cão que lhe acompanhava
Uivou, ganiu e correu —
Com menos de dois minutos,
Ele desapareceu.

Tinha o nome de Valente,
Este nome que quadrava,
Porque ele, estando solto,
Na porta ninguém passava,
Entrava em furna de pedra,
Puxava onça e matava.

Raposa e gato do mato
Não pegavam criação.
No terreiro de seu dono
Não encostava ladrão.
Vizinhos ali de perto
Tinham a mesma proteção.

Porém, deixemos ficar
Valente e o furor seu,
Tratemos sobre a história
De que forma aconteceu,
Num dia que muita gente
Teme São Bartolomeu.

(...)

O Inferno segundo Bosch
O caçador não encontra o cachorro e, internando-se numa furna de pedra, acaba chegando ao local do eterno suplício:

E transformou-se o gemido
Em choros descomunais,
Qual um ente que sofria
Sob penas infernais.
Então sua consciência
Pediu pra não seguir mais.

(...)

No folheto, há ainda outra crença muito difundida entre os devotos do catolicismo popular: a da intercessão da Virgem Maria, que a iconografia católica representa pisando a cabeça da serpente. Esse motivo foi aproveitado por Ariano Suassuna no Auto da Compadecida:

Chegou uma mulher alva,
Com um rosário na mão,
Toda vestida de azul,
Encostou-se no portão
E disse assim: — Acompanha-me,
Vim salvar-te do vulcão!

Satanás ainda disse,
Com seu gesto triste feio:
— Também aquela mulher,
Se mete em todo paleio!
Eu tenho raiva de casa
Que toma o que é alheio!

Estes versos, presentes em autos populares, evidentemente adapatados, não fogem à regra e repercutem os valores próprios das sociedades patriarcais. Ao final, um alerta do poeta:

Leitor, se és caçador,
Atende um conselho meu —
No dia que se disser:
“Hoje é São Bartolomeu”,
Guarda tua munição,
Esconde o teu mosquetão,
Amarra o tubarão teu.

E, na última estrofe, uma imprecação aos que não ajudarem, comprando-lhe o folheto. Esta é uma reminiscência dos povos celtas, para os quais os bardos, donos do poder da palavra, eram temidos até pelos mais valorosos guerreiros, que não ousavam ofendê-los. Muitas lendas assombrosas ligadas à caça têm origem entre estes povos:

Quem comprar este livrinho,
Terá Deus por defensor —
E quem não comprar terá
O diabo por protetor!
Pra onde for se atrasa,          
Finda parando na casa
Que parou o caçador!

























Nota: São Bartolomeu, também chamado Natanael, foi um dos discípulos de Jesus. Era um israelita devoto até o encontro com o Mestre. Teria pregado o evangelho na Índia. O martirológio romano informa que o apóstolo morreu por esfolamento em Albanópolis, atual Derbent, na região do Cáucaso, numa das perseguições movidas aos cristãos, em 51 d.C. Michelangelo, no teto da Capela Sistina, pintou-o segurando a própria pele com a mão esquerda, tendo na outra uma espada. Talvez a associação deste santo à caça – e à interdição no dia dedicado a ele – se deva à forma com que é retratado em seu suplício, uma vez que as presas abatidas pelos caçadores são também esfoladas.

Um comentário:

J. J. disse...

Em algumas zonas litorais de Portugal, no dia de São Bartolomeu, ainda hoje se mantém a tradição do "banho santo", sobretudo de crianças, para lhes tirar "o medo". Numa localidade do Minho chamada São Bartolomeu do Mar, há mesmo uma pequena romaria, que acompanha o banho com uma visita à igreja local, à qual se dão três voltas, oferecendo-se depois uma galinha preta. Podes ver uma pequena reportagem de um canal de TV feita este ano:
http://sicnoticias.sapo.pt/cultura/2012/08/24/banho-santo-em-esposende-para-afastar-males-medos
Atenção: quando, no vídeo, se fala em "banheiro", isso significa o homem que, de calças arregaçadas ou de fato de banho (maillot), se mete na água e dá banho às crianças, pegando nelas e mergulhando-as (sem as soltar), quando chega a onda. Quando eu era criança (início dos anos 60), lembro-me bem de ainda existirem esses banheiros nas praias da zona de Lisboa, durante o verão, mas essa profissão, entretanto, desapareceu. ("Banheiro", no sentido brasileiro, diz-se em Portugal "casa / ou "quarto" / de banho", que deve ser palavra inventada com base no francês "salle de bain")