sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cordéis atemporais: História de João da Cruz

Um exemplo eloquente de narrativa híbrida na literatura de cordel é a História de João da Cruz, um dos melhores cordéis de Leandro Gomes de Barros, que classificamos como ATU 756A (A arrogância do virtuoso). Trata-se de uma variante, com muitos elementos acrescentados pelo autor, na qual o motivo do bordão que flore em razão do arrependimento do homem justo norteia a história, contada como uma lenda hagiográfica de queda e redenção:

 

Depois de Cristo, alguns anos

Existia um ancião;

Esse tinha um filho único

O qual se chamava João

Que ia sempre de encontro

À cristã religião.

Entre os motivos das lendas piedosas, há o sonho premonitório do herói com uma mulher, prefigurando a Virgem Maria, advertindo-lhe sobre o caminho a seguir. Desobedecendo-a, ele vai parar num prédio murado, onde é recebido pelo príncipe das trevas e testemunha os grandes castigos infligidos às almas danadas. Abandonando a casa maldita, João segue, pelo caminho da direita, chegando à outra casa, de indescritível beleza. Neste local...

 

Viu passar uma mulher

Com um majestoso manto;

Tudo ali se levantava,

Entoava um belo canto

Dizendo: “Salve, ó Esposa

Do Divino Espírito Santo.

Morrendo a mãe, João se despede do pai e torna-se eremita, sendo tentado pelo Demônio e consolado por um anjo, que lhe deixa o ramo da virtude:

 

Todo dia hás de vê-lo

Verde e com todo o fulgor

Aquele ramo é regado

Com o riso do Senhor

Se tu caíres em culpa,

Cai dele também a flor. 

Já adivinhamos que ele será iludido pelo Diabo que, inicialmente, se transforma em uma velha e, depois, numa jovem sedutora. Visita o seu castelo da falsa jovem, porém, lembrando-se do ramo, arrepende-se e retorna ao local onde vive como penitente. Depois de vinte e dois anos, morre e segue para o céu em companhia do seu anjo da guarda. Satanás, que assistira a sua “consumação”, obstinado em ganhar a alma de João, acompanha-os. No céu, Jesus esclarece o mistério da flor divina:


A flor que o anjo te deu

Foi uma das minhas chagas

Feitas pelos teus pecados

Naquelas horas amargas,

Feitas por ti e por outros,

E desta forma são pagas?

Forma-se o tribunal celeste e João, perdendo sua individualidade, e, agora chamado apenas de alma[1], será julgado por Jesus, ao passo que Satanás fará o papel de acusador. Vendo-se perdida, a alma rogará à Virgem para que seja sua advogada, e ela aceita. Não só aceita, mas, valendo-se dos melhores argumentos, termina por convencer o filho a salvar a alma, para desespero do Demônio. Antes, porém, São Miguel Arcanjo intervém, e o Diabo, diante de iminente derrota, recorre a um último artifício:

 

Pesam-se a alma e as culpas:

Se a alma for mais pesada

Lhe garanto que darei

A questão por terminada;

Se as culpas pesarem mais

Você não ganhará nada.

Trata-se da Psicostasia, a pesagem da alma, recurso definitivo para a salvação, no caso de João da Cruz, ou danação eternas. O tema do julgamento post-mortem está presente em muitas religiões, mas nenhuma parece preceder a egípcia, em processo similar àquele conservado pela tradição popular católica. São Miguel, com sua balança, substitui Anúbis, que pesava os corações dos defuntos no Tribunal da dupla Maat, presidido por Osíris. O professor E. Wallis Budge, tradutor e comentador do Livro dos mortos egípcio, descreve a Cena do Julgamento no salão de Osíris:

 

Não se sabe onde nem quando ocorria o julgamento, mas segundo o que parece ter sido a ideia original, os amplos céus, ou parte deles, formavam a sala do Julgamento, e a sentença era dada na presença das três Companhias de deuses; como cabeças da Companhia funérea, “Osíris ocupava posição proeminente, e acabou ficando o único juiz dos mortos. Parece que o julgamento de cada indivíduo acontecia logo depois da morte, e o aniquilamento ou a vida e a bem-aventurança eternas eram decretadas incontinenti para as almas dos mortos.

O julgamento de João da Cruz na eternidade, indicada no texto não como uma condição, mas como um lugar, se dá neste contexto, individialmente e logo após a sua morte. É o momento mais dramático do texto, indicando, a princípio, a condenação eterna. Câmara Cascudo, no ensaio “Anúbis”, menciona romances portugueses, recolhidos por Teófilo Braga (1867) e Jaime Lopes Dias (1944), sobre os transes angustiantes das almas diante do juízo divino com a mesma estrutura de João da Cruz. Reproduz, ainda, um trecho pinçado do Folclore pernambucano, de Pereira da Costa, com o mesmo esquema arquetípico:


Segundo a crendice popular, para verificar-se o destino final dos espíritos, é preciso um julgamento prévio. O espírito, apenas desprendido da matéria, comparece perante o arcanjo São Miguel, e tomando ele a sua balança, coloca em uma concha as obras boas e na outra as obras más, e profere o seu julgamento em face da superioridade do peso de umas sobre as outras.  Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, o espírito vai imediatamente para o céu; quando elas são insignificantes, vai purificar-se no purgatório, e quando não tem em seu favor uma obra boa sequer, vai irremediavelmente para o inferno, donde só sairá quando se der o julgamento final, no dia de juízo, seguindo-se então a ressurreição da carne.


Rodrigues de Carvalho atribui a Silvino Pirauá a “Peleja da alma”, com versos distribuídos em esquemas rímicos nem sempre coesos, embora o julgamento seja reproduzido de forma consistente, como se depreende da seguinte quintilha:

 

“Vem cá, Miguel!” — Quem me chama?

Lucifer[2] que vá embora,

Que ele não tem parte em nada,

Que a alma que ele veio ver

Da Virgem foi amparada”. 

É possível que Carvalho tenha confundido, pela proximidade temática, este poema com o folheto O castigo da soberba, também atribuído a Pirauá e aproveitado por Ariano Suassuna na parte final da peça Auto da Compadecida.

Além do julgamento celeste, as viagens ao além, reduzidas a um sonho em João da Cruz, refloresceram no imaginário judaico-cristão, influenciado por crenças pré-cristãs e inflamado pela literatura apocalíptica. Jacques Le Goff, ao historiar o nascimento do purgatório, investigou os seus antecedentes, recenseando, entre os viajantes do mundo espiritual, um ancestral do mundo grego:

 

Plutarco, nos seus Moralia, conta a visão de Tespésio, Este, depois de ter levado uma vida de deboche, segundo todas as aparências, morre e quando, passados três dias, volta à vida, leva daí em diante uma vida perfeitamente virtuosa. Pressionado com perguntas, revela que o seu espírito deixou o corpo e viajou no espaço entre as almas que andavam pelo ar das quais conheceu algumas, que emitiam terríveis lamentos, enquanto outras, mais em cima, pareciam tranquilas e felizes. Algumas destas almas são puramente brilhantes, outras têm manchas e outras são completamente escuras. As que estão carregadas com poucos pecados só sofrem um castigo ligeiro, mas as ímpias são entregues à Justiça que, se as acha incuráveis as abandona às Fúrias que as lançam num abismo sem fundo. Tespésio é depois levado para uma grande planície cheia de flores e de perfumes agradáveis onde algumas almas voam alegremente como pássaros. E visita por fim o lugar dos condenados onde assiste às suas torturas. Há notoriamente três lagos, um de ouro fervente, outro de chumbo gelado e um terceiro de ferro agitado por ondas. Demônios mergulham e tornam tirar as almas de um lago para outro. Por fim, noutro local, ferreiros modelam sem cerimônias as almas chamadas a uma segunda existência dando-lhes as mais diversas formas.

Em João da Cruz, a descrição do inferno não é menos assustadora:

 

Lá no fundo de uma estufa

Se ouvia gente gemer,

Ranger dente, blasfemar,

Avançar para morder,

Da urros que reboavam,

Fazendo a terra tremer. 

Anábase (subida ao céu) e catábase (descida ao inferno) são, afinal, topoi recorrentes no cordel e nos romances piedosos, herdados dos ritos fúnebres, guardando vestígios das religiões de mistério de muitos povos e quadrantes. O fogo que arde no inferno, afinal, fora aceso muito antes de os cristãos lançarem suas bases doutrinárias e ameaçarem seus inimigos com uma prisão onde os sofrimentos, aplicados em proporções muito maiores que os pecados, são eternos. Leandro Gomes de Barros, no entanto, não parece mover-se pela literatura apologética Ao mesclar um motivo pio, constante em contos religiosos, cujo modelo é Os três ramos verdes (ATU 756), seguido do subtipo 756B (no qual enquadramos João da Cruz), com lendas douradas, como a de Santo Antônio da Tebaida e outros santos tentados pelo Demônio, ele mostra que seu trabalho ia além da literatura e buscava atender à demanda de um público a um só tempo fascinado e assombrado pelas pregações missionárias. Ariano Suassuna, grande admirador do poeta, base de boa parte de sua dramaturgia, adaptou sua obra-prima, em 1949, rebatizando-a como Auto de João da Cruz. Para que não restassem dúvidas sobre as fontes, escrevendo em 1967, o dramaturgo afirmava ser o texto


inteiramente baseado em três folhetos nordestinos: História de João da Cruz, História do Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Reino do Vai não Torna e O Príncipe João Sem Medo e a Princesa da Ilha dos Diamantes, folhetos dos quais são autores ou divulgadores, respectivamente, Leandro Gomes de Barros, Severino Milanês da Silva e Francisco Sales Arêda, poetas populares do Nordeste, segundo se explicava na introdução escrita para a peça.

Há, no entanto, notórias diferenças entre o romance e a peça; a maior delas, provavelmente, se dá no perfil dramático do herói, não mais um ateu e sim um homem ambicioso, embora titubeante, que, assim como o doutor Fausto, assina um pacto com o Diabo (alegoricamente retratado como um cego) em troca de poder. “Esta é minha esperança mais secreta”, confessa João. “Hei de conquistar o mundo e tudo o que ele pode dar”. (Suassuna, 20121, p. 61). Nossa Senhora tem um papel mais ativo na peça, ambientada em Taperoá, Paraíba, com o nome de Regina, clara alusão à oração católica “Salve, Rainha”, na qual se enfatiza o seu papel de advogada.

 Nota: Texto adaptado de trecho da dissertação de mestrado O fio e a meada : classificação tipológica e uma história cultural da literatura de cordel, defendida em 2024, na Universidade de Campinas. Para ler o texto na íntegra, clique AQUI

REFERÊNCIAS:

BARROS, Leandro Gomes de. História de João da Cruz. São Paulo: Luzeiro, 1986.

BUDGE, E. A. Wallis. O livro egípcio dos mortos. Tradução: Octávio Mendes Cajado. São Paulo: Pensamento, 1993.

CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1967.

CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 2002.

COSTA, Pereira da. Folclore pernambucano. 2. ed. Recife: Arquivo Público Estadual, 1974.

LE GOFF, Jacques. O nascimento do purgatório. 2. ed. Tradução: Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo. Lisboa: Editorial Estampa, 1995.

SUASSUNA, Ariano. A compadecida e o romanceiro nordestino. In: DIÉGUES JÚNIOR, Manuel (org.). Literatura popular em verso: estudos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986.



[1] Compare-se este cordel com o Auto da alma, de Gil Vicente, representado em 1508, dedicado à devora rainha D. Leonor, esposa de D. Manuel, cognominado “o Venturoso”. O argumento, simples, mostra uma disputa entre Santo Tomás, Santo Agostinho, Santo Ambrósio e São Jerônimo, doutores da Igreja, aqui personificada e substituindo a Virgem, com o Diabo pela posse da alma.

[2] No cordel, e em alguns contos e poemas populares, Lucifer é palavra oxítona. O recurso do deslocamento da tonicidade da sílaba para uma sílaba posterior (diástole) não é incomum no cordel, bem como não o é na poesia em seu sentido lato.

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