quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Sonho de Nossa Senhora (reza)


Quem quiser ouvir o sonho da Santíssima Mãe de Deus sobre o Monte das Oliveiras, onde Jesus Cristo deu tão alto e grande suspiro.

Deus chamando pelo anjo São Gabriel:

— Oh anjo São Gabriel, vamos ver se a Virgem Santa Maria dorme ou vigia o filho.

— Filho meu, bento filho, eu não durmo nem vigio. Só assim sonhei um sonho que gente humana não sonharia. Eu vi cordas grossas lhe amarrando, mil açoites que lhe davam, fel e vinagre que bebia. Eu vi o Sol gemer e a Lua suspirar.

***

Na porta da Alma Santa nasceu nosso Bom Jesus. Alma Santa respondeu:

— Bom Jesus, que quer agora?

— Quero que entre comigo dentro da Glória.

Não quero nem cama de ouro nem cama de cortina.

Quero em uma manjedoura
onde o boi bento lá comia com seu bafo.

Nossa Senhora com dor,
São José foi buscar luz,
São José não é chegado,
Nasceu nosso Bom Jesus.

Padre Filho perguntou:

— Como lá ficou?

— Ficou em uma manjedoura onde o boi bento lá comia com seu bafo.

Quem essa oração rezar
Sexta-feira da paixão
Seu pai e sua mãe
Têm cem anos de perdão
Nesse mundo será rei
E no outro rei coroado.
Amém.

***
Nota: esta é a versão da famosa oração herdada de Portugal. Sobre o “Sonho de Nossa Senhora” há numerosas superstições: a pessoa que a reza constantemente será avisada de sua morte três dias antes da partida pela própria Mãe de Deus. Na Ponta da Serra, onde nasci, quando a procissão da Via-Sacra deixava a igreja com destino ao cemitério, Sexta-feira da Paixão, conduzindo a imagem de Senhor dos Passos, era rezada, na necrópole, a poderosa oração. A presente versão, contaminada com motivos do ciclo natalino, foi passada por meu pai, Valdi Fernandes Farias.

A foto mostra a igreja construída pelo Major Ramiro Faria, meu bisavô, na Ponta da Serra (BA).


JOVENS CORDELISTAS



Josué cria cordéis baseados em contos clássicos da literatura infantil
FOTO: GEORGIA SANTIAGO

Fonte: CADERNO ZOEIRA, DIARIO DO NORDESTE
Edição de 21 de abril de 2011

Inspiração e técnica são elementos essenciais para um bom cordel criar. Entre métricas e versos, uma bela história vamos contar. Dois jovens cordelistas viajam nesse mundo de poesia para a sua própria rima cantar

Os assuntos são os mais variados. Fatos da política, sertão, cotidiano ou romances podem virar tema de cordel. Pesquisadores apontam que a origem desta literatura, que ficou tão popular no Nordeste, seja alemã. No Brasil, os primeiros folhetos apareceram em 1893.

A popularização do cordel foi possível, apesar dos altos índices de analfabetismo, porque os poetas entoavam seus versos nas praças. As rimas melodiosas podem despertar os mais diversos sentimentos dos leitores. Reflexão, emoção, alegria, tristeza e até sonhos são revelados a cada novo verso. É neste sentido que trabalha a estudante de Pedagogia Julie Ane Oliveira, 18 anos. Filha de cordelista (Rouxinol do Rinaré), ela sempre esteve envolvida com cordéis. "Diria que desde que ´me entendo por gente´. No meu lar, a leitura sempre foi presente, assim como o arroz e o feijão (risos)", diz ela, que teve o primeiro contato com a literatura de cordel através da leitura dos trabalhos do pai, bem como também de clássicos de autoria de Leandro Gomes de Barros.


Julie Ane já publicou quatro cordéis e se prepara para lançar um novo trabalho
FOTO: KID JÚNIOR


Entre eles, "O cavalo que defecava dinheiro", "O cachorro dos mortos" e "A peleja de riachão com o diabo". "Como toda criança me encantei pela sonoridade das rimas, pelas histórias de príncipes, princesas, causos engraçados. Me via como personagem das histórias lidas. Algumas até tentava decorar. Até que um dia, descobri que podia criar minhas próprias histórias também", comenta Julie.


A estudante destaca que a leitura de autores contemporâneos, como Arievaldo Viana, Marco Haurélio e Klevisson Viana, também fez parte de sua formação enquanto escritora.


Atualmente, o encanto de Julie vai além das histórias e pelas rimas. "Meu maior fascínio é pela capacidade versátil que o cordel assume na sociedade atual, não apenas como instrumento de entretenimento, mas como uma eficiente ferramenta na educação, sendo utilizado em sala de aula como recurso paradidático", comenta ela, que fará o trabalho de conclusão da faculdade sobre essa temática.



Primeiros passos
Aos 10 anos, Julie já começava a criar seus primeiros versos. Um ano depois, ela já teve a oportunidade de publicar o primeiro texto em cordel: "A esperteza de João, o rapaz pobre que casou com uma princesa", publicado pela Tupynanquim Editora (2003). Hoje, a cordelista tem quatro publicações e pretende aumentar este número em breve.


"Tenho alguns trabalhos engavetados, mas nesse momento estou com um trabalho novo sendo ilustrado por Rafael Limaverde. O livro será direcionado para educação infantil, especialmente aos anos iniciais. A obra é intitulada ´Brincando com a matemática´ e será publicada pela Conhecimento Editora. O lançamento está previsto para maio na Livraria Cultura de Fortaleza", adianta ela, que desde quando começou a escrever, sentiu maior interesse pela literatura infantil.


"Minhas abordagens no geral são adaptações de contos clássicos, aventuras, romances de bravura (com príncipes e princesas). Só tenho um tema de drama. Chama-se ´Uma tragédia em família ou o pai que matou o filho´, que inclusive não foi tão bem aceito pelo público quanto o primeiro. Imagino que pelo impacto da temática talvez", destaca ela, que vê no cordel a possibilidade de dar uma cara nova para esses contos clássicos. "Mas procuro não me limitar, já fiz trabalhos por encomenda e trabalhei com variados temas. A minha real preferência são histórias que encantem o imaginário das crianças, assim como encantaram o meu", diz.

Inspiração nos Clássicos

Este é o mesmo caminho seguido pelo estudante Josué Lima, 13 anos. Há dois anos, ele fez uma oficina de cordel e já começou a escrever os primeiros versos. Depois de fazer um trabalho escolar sobre drogas, o jovem cordelista aproveitou o tema e lançou seu primeiro trabalho: "Os malefícios das drogas na visão de uma criança". Na sequência, lançou "O príncipe sortudo e a sapinha encantada" e "O Mandarim e a borboleta", em parceria com o pai Evaristo Geraldo.

Tímido, Josué gosta mesmo é de se expressar através dos textos. Segundo ele, seu processo criativo é natural e espontâneo. "Leio muito e depois vou criando as histórias aos poucos. Às vezes consulto o dicionário também", comenta o adolescente que está no oitavo ano e que ainda não pensou sobre qual carreira vai seguir. Uma coisa certa é que ele pretende mesmo continuar escrevendo.

Julie conta que também não tem uma rotina definida de criação. "A inspiração é que comanda. Algumas vezes no caso de encomendas, ou convite para participar de uma coleção, sento e rabisco meus primeiros versos. Mas, no geral, não tem hora nem lugar. O importante é ter sempre papel e caneta à mão", declara.



Desafios
Publicar os cordéis ainda é uma dificuldade encontrada pelos cordelistas. Atualmente, eles contam com algumas editoras especializadas, mas o público nem sempre valoriza a produção.

Além disso, a questão técnica (métrica, por exemplo) ainda é um desafio diário para Josué, que se aperfeiçoa por meio da leitura de outros cordéis. Já para Julie, não há problema nenhum. Meu hábito de leitura e escrita vem desde a infância. No entanto, algumas pessoas têm o dom, porém precisam aperfeiçoar a técnica. Pois, o cordel assim como o soneto, a crônica, o conto, tem suas peculiaridades na estrutura. Por isso, hoje trabalhamos muito com oficinas de cordel, visando dar um suporte a essas pessoas", diz a cordelista.

Izakeline Ribeiro - Repórter

Pata ver matéria na íntegra: Diário do Nordeste