sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O BOI CARDIL




Xilogravura de Severino Borges reproduzindo o auto popular do Bumba meu boi

Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:
– Porque te ris? – perguntou o rei.
– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.


Nota: Esta versão do célebre conto O Vaqueiro que não Mentia consta dos Contos Tradicionais do Povo Português, recolhidos por Teófilo Braga e publicados em 1883.


A origem da história se perde na noite dos tempos. É encontrada na literatura oral de vários países e tem especial valor para o povo nordestino, pois seu eixo central gira em torno da idoneidade do vaqueiro, incapaz de proferir uma mentira. Na versão em cordel, História do Boi Leitão ou O Vaqueiro que não Mentia, de Francisco Firmino de Paula, o vaqueiro Dorgival é convencido a matar o Boi Leitão, de estimação do patrão, pela filha do próprio. É este o dilema que afligirá o honesto empregado. Câmara Cascudo traz duas versões: O Boi Leição, de Alagoas, e Quirino, o Vaqueiro do Rei, do Rio Grande do Norte. A substituição do fazendeiro por um rei em muitas versões atesta a ancianidade deste conto que, segundo Théo Brandão, se não é o mãos velho, é “pelo menos um dos mais velhos da História da Humanidade”. O motivo da morte do boi para satisfação do desejo duma mulher ganhou independência nas encenações do Bumba meu boi.

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