segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cordéis atemporais: Os Três Conselhos da Sorte

Pequena resenha de um grande clássico



Os Três Conselhos da Sorte, de Manoel D'Almeida Filho, é uma história cuja antiguidade é difícil precisar. Encontramos um antepassado ilustre no livro de Tobias (Tobit), ausente dos textos sagrados de judeus e protestantes, mas constante da Bíblia católica. Conta a história do casamento de Tobias e Sara, após o exorcismo do demônio Asmodeu, responsável pela morte dos sete homens com quem ela tinha casado anteriormente. Apenas Tobias, que subjuga (exorciza) o demônio, terá direito às núpcias, após três dias de abstinência. Os Três Conselhos da Sorte conserva este motivo, embora a rainha Formosante, antes de ver triunfar seu amado Francisquinho, não entende como morreram seus catorze maridos. O herói, de posse de três conselhos, outro motivo universal, terá às mãos as rédeas do destino, revertendo em sorte todo o infortúnio que até então lhe acompanhara os passos.

As estrofes iniciais vêm apoiadas pela sabedoria dos adágios populares:

Ninguém entende esta vida,
Em tudo existe um segredo,
Surpresa sobre surpresa,
Enredo em cima de enredo
A sorte nunca aparece
Na casa de quem tem medo.

Aqui queremos mostrar,
O quanto o destino é forte,
Como um rapaz inocente
Passou por cima, da morte,
Achando a felicidade
Nos três conselhos da sorte.

Ninguém entende porque
Um nasce para gozar,
Outro vem para sofrer
Sem nenhum mal praticar,
Às vezes um faz um crime,
Mas outro é quem vai pagar.

À frente de um caso desse,
Um ataca, outro defende,
A mente humana cansada
Luta, porém não entende,
Os mistérios desta vida
Só o bom Deus compreende.

Mestre Câmara Cascudo identificou ecos da história bíblica numa quadra conhecida em todo o Nordeste (pelo menos em seu tempo), registrada em Superstição no Brasil:

Sete vezes fui casada,
Sete homens conheci,
E juro por fé de Cristo,
Inda estou como nasci!...

Rica em detalhes, a história de Tobias abasteceu outros contos populares, trazendo, inclusive, o tema do morto agradecido. Rafael, o anjo, simboliza a gratidão dos mortos a quem Tobias deu sepultura, num episódio similar à posterior História de João de Calais, à qual Madame de Gómez deu redação em fins do século XVIII. Sílvio Romero recolheu o conto exemplar Os Três Conselhos, em Sergipe. Recolhi, em Brumado, Bahia, Os Três Conselhos Sagrados, em 2005. Vertido para o cordel, foi premiado pela Fundação Cultural da Bahia com o segundo lugar no Concurso Nacional de 2006.

A fusão de conto maravilhoso com história de exemplo fez de Os Três Conselhos da Sorte um clássico da literatura de cordel. Manoel D’Almeida Filho recriaria a história, apenas na aproximação temática, em Os Conselhos do Destino. Prova irrefutável na crença na existência de uma divindade – ou melhor, de uma lei – intangível, que regula e, em alguns casos, reorienta os nossos passos. “Um cavalo não passa na porta encilhado duas vezes”, diz a sabedoria popular. Sabedoria que o afortunado Francisquinho, protagonista do romance, soube escutar.

O romance Os Três Conselhos da Sorte integra a Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.