quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Cordéis atemporais: A Intriga do Cachorro com o Gato

A intriga do cachorro com  o gato. Capa: autoria não identifada.

O sucesso do folheto A festa dos bichos ou As aventuras de um porco embriagado, do piauiense Firmino Teixeira do Amaral, publicado pela Guajarina em 1922, inspirou José Pacheco da Rocha, o grande humorista do cordel, a compor, ao menos, duas obras-primas, A festa dos cachorros e A intriga do cachorro com o gato. A ideia central de tais histórias é extrair uma lição do tempo em que os bichos falavam associando cada bicho a uma atividade humana, ainda que conectada a uma característica “animal”:

 

Quando cachorro falava

gato falava também

gato tinha uma bodega

como hoje os homens têm

onde vendia cachaça

encostado ao armazém.

 

O peru vendia milho

porco, feijão e farinha

com um cacho de banana,

mais tarde macaco vinha

raposa também trazia

um garajau de galinha.

 

Carneiro passava a noite

junto com a sua irmã

descaroçando algodão

e quando era de manhã

para o armazém do gato

trazia sacas de lã.

 

Guariba vendia escova

que fazia do bigode

urubu vendia goma

porque tem de lavra e pode

a onça suçuarana

vendia couro de bode.

A intriga do cachorro com o gato é uma livre adaptação do ATU 200 (Origem da inimizade entre cão e gato), tipo do qual Braulio do Nascimento (2005) apresenta quatro versões orais, incluindo a recolhida por Câmara Cascudo, “Por que o cachorro é inimigo do gato… e gato de rato” (Cascudo, 2004, p. 274-5). A fábula “La Querelle des chiens et des chats, et celle des chats et des souris” (A briga de cães com os gatos, e dos gatos com os ratos), de Jean de La Fontaine, datada de 1694, com a mesmíssima história, foi vertida para o português por um tradutor anônimo:

 

Tudo no mundo anda em guerra,

Seja bruto ou seja humano:

É a lei que rege a terra,

E não profundo este arcano.

Comparemos o preâmbulo acima com o início do cordel de Pacheco:

 

A Intriga é mãe da Raiva,

o Mau-Pensamento é pai

da casa da Malquerença

o Desmantelo não sai

enquanto a Intriga rende

a Revolução não cai.

A festa dos cachorros baseia-se em conhecida anedota, também de cariz etiológico, que explica o porquê de estes animais cheirarem os traseiros uns dos outros (ATU 200B: Por que é que os cães se cheiram). Há outra versão em cordel, de autoria de Abraão Batista, História da razão dos cachorros cheirarem o fiofó uns dos outros, publicada em Juazeiro do Norte, em 2010.

 

REFEFRÊNCIAS:

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004.

LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine. São Paulo: Edigraf, [1957?].

NASCIMENTO, Bráulio do. Catálogo do conto popular brasileiro. Rio de Janeiro: IBECC: Tempo Brasileiro, 2005.

PACHECO, José. A intriga do cachorro com o gato. Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, [199-?].

 

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