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| A intriga do cachorro com o gato. Capa: autoria não identifada. |
O sucesso do folheto A festa dos bichos ou As aventuras de um porco embriagado, do piauiense Firmino Teixeira do Amaral, publicado pela Guajarina em 1922, inspirou José Pacheco da Rocha, o grande humorista do cordel, a compor, ao menos, duas obras-primas, A festa dos cachorros e A intriga do cachorro com o gato. A ideia central de tais histórias é extrair uma lição do tempo em que os bichos falavam associando cada bicho a uma atividade humana, ainda que conectada a uma característica “animal”:
Quando cachorro falava
gato falava também
gato tinha uma bodega
como hoje os homens têm
onde vendia cachaça
encostado ao armazém.
O peru
vendia milho
porco, feijão e farinha
com um cacho de banana,
mais tarde macaco vinha
raposa também trazia
um garajau de galinha.
Carneiro passava a noite
junto com a sua irmã
descaroçando algodão
e quando era de manhã
para o armazém do gato
trazia sacas de lã.
Guariba vendia escova
que fazia do bigode
urubu vendia goma
porque tem de lavra e pode
a onça suçuarana
vendia couro de bode.
A intriga do cachorro com o
gato é uma
livre adaptação do ATU 200 (Origem da inimizade entre cão e gato), tipo
do qual Braulio do Nascimento (2005) apresenta quatro versões orais, incluindo
a recolhida por Câmara Cascudo, “Por que o cachorro é inimigo do gato… e gato
de rato” (Cascudo, 2004, p. 274-5). A fábula “La Querelle des chiens et des
chats, et celle des chats et des souris” (A briga de cães com os gatos, e dos
gatos com os ratos), de Jean de La Fontaine, datada de 1694, com a mesmíssima
história, foi vertida para o português por um tradutor anônimo:
Tudo no mundo anda em guerra,
Seja bruto ou seja humano:
É a lei que rege a terra,
E não profundo este arcano.
Comparemos o preâmbulo acima
com o início do cordel de Pacheco:
A Intriga é mãe da Raiva,
o Mau-Pensamento é pai
da casa da Malquerença
o Desmantelo não sai
enquanto a Intriga rende
a Revolução não cai.
Já A festa dos cachorros
baseia-se em conhecida anedota, também de cariz etiológico, que explica o
porquê de estes animais cheirarem os traseiros uns dos outros (ATU 200B: Por que é que os cães se
cheiram). Há outra versão em cordel, de autoria de Abraão Batista, História
da razão dos cachorros cheirarem o fiofó uns dos outros, publicada em
Juazeiro do Norte, em 2010.
REFEFRÊNCIAS:
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do
Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004.
LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine.
São Paulo: Edigraf, [1957?].
NASCIMENTO, Bráulio do. Catálogo do conto
popular brasileiro. Rio de Janeiro: IBECC: Tempo Brasileiro, 2005.
PACHECO, José. A intriga do cachorro com o gato.
Juazeiro do Norte: Tipografia São Francisco, [199-?].

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