sexta-feira, 14 de julho de 2017

A arte "primitiva" do Nordeste



Somos um povo que não se reconhece como povo. Achamos bonitas as manifestações da cultura espontânea, mas não nos identificamos com elas. São bonitas à distância, com seu colorido, seu pitoresco, sua “brasilidade”. Elas, no entanto, integram um mundo à parte do meu. Têm uma única função: entreter turistas. E basta.

Dias atrás, num consultório, à espera de atendimento, assisti, pela primeira vez, ao programa “Encontro”, com Fátima Bernardes. Chico César estava por lá, ia ser feita uma homenagem a Ariano Suassuna, por ocasião de seus noventa anos de nascimento, e seria apresentado um trecho da peça O Auto do Reino do Sol, de autoria do meu amigo Braulio Tavares. Tudo ia bem até o momento em que os desenhos armoriais de Suassuna, baseados na heráldica e na simbologia sertaneja, vieram à baila. Foi aí que a apresentadora, disse algo mais ou menos assim: “Estes desenhos lembram as pinturas rupestres do Nordeste”.

Fiquei estupefato. A arte rupestre existe em todos os quadrantes. O desenho de um cavalo, animal desconhecido de nossos primeiros habitantes, foi o que ensejou o comentário de dona Fátima, talvez mal amparada conceituação de Niède Guidón, que chamou de Tradição Nordeste o conjunto muito peculiar de pinturas e gravuras da Serra da Capivara, no Piauí. Em que pese a brutal ignorância no que que concerne à arte pré-histórica ou ao movimento Armorial, o que chamou a atenção foi mesmo à referência ao Nordeste, tratado, quase sempre, nos meios de comunicação, como uma região descolada da realidade nacional, do Brasil “moderno”, produtivo, industrializado. O próprio Ariano foi tratado, reiteradas vezes, pela apresentadora como grande ícone da “cultura nordestina”. Ele que, inspirado por Gil Vicente, Calderón de la Barca, Lope de Vega, Plauto e Shakespeare, talvez seja – a opinião é muito pessoal – o mais universal de nossos dramaturgos.

A simples suposição de que o homem primitivo do “Nordeste” – que, como região, só existe há bem pouco tempo – tinha um estilo próprio oculta, de fato, um dos preconceitos mais arraigados nos meios ditos pensantes deste país.

No campo da literatura infantojuvenil, a coisa não é muito diferente. Em livros premiados, já deparei informações estapafúrdias, que passam a impressão de um Nordeste homogêneo, assolado pela seca, com um único bioma, a Caatinga, e povoado por pessoas tristes. Nesse circo dos horrores, mandacaru tem miolo, juazeiro seca durante a estiagem, a ponto de perder todas as folhas (!), e a Zona da Mata e a Caatinga parecem situar-se na mesma faixa geográfica.

Essa gente precisa comer um bom cortado de palma. Que, se não cura todos os preconceitos, é uma excelente receita contra a anemia. 

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