terça-feira, 29 de setembro de 2026

Lançamento: Cordel de Todos os Tempos


Xilogravura da Capa: Jefferson Campos

A antologia Cordel de Todos os Tempos (Palavras Educação), publicada recentemente, nasceu de uma pesquisa que envolve poetas pioneiros e vozes contemporâneas da Literatura de Cordel. Desde 2017, eu acalentava a ideia e cheguei a propor a uma conhecida editora um projeto semelhante, mas não obtive resposta. Há uns dois anos, em reunião editorial na Palavras, que havia publicado outro texto de minha autoria, O Dragão da Maldade e a Donzela Guerreira, apresentei algumas propostas, e a de uma coletânea abarcando autores e textos de diferentes temporalidades, foi de pronto acolhida. 

História da Princesa da Pedra Fina. Xilogravura de Lucélia Borges

Adotei um critério cronológico e o primeiro cordel selecionado foi a História da Princesa da Pedra Fina, de autoria desconhecida, um dos primeiros textos que li na vida e um dos meus favoritos no gênero maravilhoso. Seguem-se História da Princesa Rosa e História de João da Cruz, de Silvino Pirauá e Leandro Gomes de Barros, respectivamente. Fechando o bloco de autores pioneiros, homenageei José Pacheco (O Grande Debate de Lampião com São Pedro) e Severino Gonçalves de Oliveira (A Vitória do Príncipe Roldão no Reino do Pensamento). Todos autores nascidos em meados ou no final do século 19.

O Corcunda de Notre-Dame. Xilogravura de Luciana Costa

A grande novidade nesta coletânea é a presença de Maria das Neves Batista Pimentel, que assinava seus folhetos sob a alcunha "Altino Alagoano", nome de guerra de seu marido, Altino Alencar Pimentel, personagem singular, seja por sua trajetória de pioneira da autoria feminina na Literatura de Cordel, seja por pertencer à grande família Batista, a começar por seu pai, o famoso Francisco das Chagas Batista, e por seu avô materno, Agostinho Nunes da Costa, além de seu tio, Ugolino do Sabugi, entre outros nomes igualmente emblemáticos. A inclusão de O Corcunda de Notre-Dame, versão rimada do clássico romance de Victor Hugo, lançada originalmente em 1935, não visa à reparação de uma injustiça, mas leva-nos a compreender o contexto histórico de apagamento e silenciamento da autoria feminina. Maria das Neves, falecida em 1994, sintetiza a ponte intergeracional proposta neste projeto.

A Chegada de Ariano Suassuna no Céu. Xilogravura de Maercio Siqueira

E, assim, chegamos às vozes contemporâneas, autores e autoras, originários do Nordeste ou nascidos em contexto de diáspora, como Nilza Dias, profundamente conectados com suas raízes culturais e suas comunidades narrativas. Mestres da palavra, como Bule-Bule, vaqueiro por muito tempo, ferreiro, agricultor, sem nunca ter abandonado o pandeiro e a viola, com que complementava a sua renda. Mulheres que escancaram portas e janelas, como Nezite Alencar e Josenir Lacerda, oriundas do campo, cantando os dramas de seu povo e também as suas conquistas. Vozes indígenas, como Auritha Tabajara, que carrega em seu nome ancestral a marca identitária de seu povo. Ou como João Gomes de Sá, nutrido pelas histórias ouvidas às margens do São Francisco ou na voz de sua avó, de etnia Jeripankó. Gente nascida no campo, como Klévisson Viana e Maria Celma, nutrida por histórias de serras e encruzilhadas, assistindo aos festejos populares do Grande Sertão imemorial.

Histórias de um Mentiroso. Xilogravura de Nireuda

É de grande relevância, ainda, a identidade visual construída por meio da contribuição de xilogravuristas de nosso tempo, a exemplo de Lucélia Borges, Nireuda Longobardi, Jefferson Campos, Luciana Costa, Maercio Siqueira, Catarina Dantas e Regina Drozina. 

Ao final, elaborei notas com informações importantes sobre os cordéis, destacando sua intertextualidade, o contexto em que foram escritos e a razão de alguns terem se tornado clássicos do gênero no Brasil. Ao final de cada cordel, um vocabulário ajuda na compreensão do contexto e dá prova da diversidade linguística da Literatura de Cordel.

A Sagrada Pedra Encantada. Xilogravura de Regina Drozina

A coletânea Cordel de Todos os Tempos é constituída das seguintes obras:

  • História da Princesa da Pedra Fina [autoria desconhecida, xilogravuras de Lucélia Borges]
  • História da Princesa Rosa [Silvino Pirauá de Lima. Xilogravura de Nireuda Longobardi]
  • História de João da Cruz [Leandro Gomes de Barros, xilogravuras de Jefferson Campos]
  • O Grande Debate de Lampião com São Pedro [José Pacheco, xilogravura de Luciana Costa]
  • A Vitória do Príncipe Roldão no Reino do Pensamento [Severino Gonçalves de Oliveira, xilogravura de Catarina Dantas]
  • O Corcunda de Notre-Dame [Maria das Neves Batista Pimentel, xilogravura de Luciana Costa]
  • Histórias de um Mentiroso [Nezite Alencar, xilogravura de Nireuda Longobardi]
  • A Chegada de Ariano Suassuna no Céu [Bule-Bule e Klévisson Viana, xilogravura de Maércio Siqueira]
  • O Sopro da Deusa [Josenir Lacerda, xilogravura de Lucélia Borges]
  • O Corcunda e o Ranheta [Marco Haurélio e João Gomes de Sá, xilogravura de Maércio Siqueira]
  • A Sorte do Preguiçoso [Maria Celma, xilogravura de Catarina Dantas]
  • Expressões Populares em Cordel [Nilza Dias, xilogravura de Regina Drozina]
  • A Sagrada Pedra Encantada [Auritha Tabajara, xilogravura de Regina Drozina]

Cordel de Todos os Tempos está disponível para vendas em vários espaços físicos e virtuais.

Para adquirir, clique AQUI ou AQUI. 




Nenhum comentário: