terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Cordel reconta história que emocionou o Brasil


ABC DO TOURO AFOGADO
Autor: Eduardo de Menezes Macedo

AFOGADO é o meu nome.
Lancei-me às ondas do mar.
Meu sonho era viver livre,
Sem ninguém pra me abusar.
Fugi, vivi cinco dias
Fora das baias sombrias.
Ninguém pôde me pegar.

BARBATÃO do novo século,
Não me rendo ao cativeiro.
Sou parente do Boi Prata,
Do Espácio, do Mandingueiro.
O Mão de Pau eu copio,
Do Rabicho sigo o fio,
Não dou cartaz a vaqueiro.

CONTO aqui, neste ABC,
O caso que sucedeu,
Quem foi o Touro Afogado
Como viveu e morreu:
Tinha três anos de idade,
Nasceu preso, isso é verdade,
Porém, livre faleceu.

DESTINADO a procriar,
Tantos bezerros gerei
Que a conta total de filhos
É coisa que eu nunca sei.
Centenas de bois criados,
Mil embriões congelados,
Aos quais meus genes passei.

EMBORA tamanha prole
De mim veio a existir,
Nenhuma vaca sequer
Jamais eu pude cobrir,
Pois sempre no ato do coito
Surgia um peão afoito
Pro meu sêmen extrair.

FALTA de água ou de comida
Não passei na Gameleira.
Mas ração e suplementos
Regrados a vida inteira
É coisa que dá gastura.
Enfim, solto na verdura
Pastei pela vez primeira.

GRANDE foi minha alegria
Quando fui a Salvador.
Sempre quis ver a cidade.
Como alguém do interior
Meu sonho era ver o mar,
Em suas águas banhar
E sentir o seu sabor.

HORA que eu ia descendo
De cima do caminhão
Para ser vendido ali,
No parque de exposição,
O tratador descuidou
E como mãe me ensinou
Da sorte não abri mão.

INVESTI com toda a força
De zebu de que disponho
Puxando a corda da mão
Do condutor que, bisonho,
Soltou-me sem resistir
E quando me viu fugir
Soltou um grito medonho.

JÁ pensou se todo bicho
Que tem força mas é manso
Pudesse raciocinar,
Fazendo um simples balanço
Do potencial que tem?
Não teria pra ninguém,
Gente não tinha descanso!

LIVRE de cordas, cabresto,
Desembestei pelas ruas
Até que logo avistei
Um par de alvas dunas, nuas
Com alguns pontos de relva
E uma pequena selva
Que no chão unia as duas.

ME embrenhei naquelas matas
Comendo o pasto praiano.
Comi que me repastei
Fora de controle ou plano.
Comi só vegetação,
À noite deitei no chão.
Dormi sob o céu de Urano.

NADA igual ao que deixei
Em Teodoro Sampaio.
Pensei, no dia seguinte,
“Naquela prisão não caio;
Não voltarei pra fazenda,
Vivo solto ou viro lenda!
Peguei gosto nesse ensaio”.

OUTRA coisa é viver solto,
De acordo co’ a natureza.
Quem é preso não conhece
Alegria nem beleza.
Todo curral é prisão,
Campo de concentração,
Reino de dor e tristeza.

PENSE num bezerro novo
Que da vaca é apartado
Muitas vezes logo após
Que ao mundo vem. O coitado
Bebe leite em mamadeira
Enquanto a matriz leiteira
Só produz para o mercado.

QUANTAS vezes eu não vi
Uma bezerra parida
Que adoeceu por estar
Longe da mamãe querida!?
Morreu berrando por ela,
Virou carne de vitela
E no quilo foi vendida.

RESPONDI a tais abusos
Enfrentando o desatino.
Não aceitei a miséria
Que o nelore zebuíno
Está fadado a sofrer.
Nisso eu preferi correr
Cinco dias sem destino.

SAÍ do caminhão velho
Pelas estradas de asfalto,
Ganhei as matas da praia,
Nas areias subi alto,
Vi as luzes, carros, casas,
Aviões com suas asas,
Gente, confusão, assalto...

TRATEI de manter distância;
Vez por outra aparecia
Para observar de perto
O movimento que havia.
Foi quando alguns cavaleiros
Da polícia e vaqueiros
Estragaram o meu dia.

UMA bonita carreira
Dei nos cavalos ferrados.
Tomei o rumo da praia
Com eles atrás, pegados.
De repente, que visão:
Vi aquela imensidão
De rolos d’água salgados.

VACILEI por um instante
Vendo eles atrás de mim,
Mas estava decidido
A não terminar assim,
Como rês presidiária
Da indústria agropecuária
Aguardando pelo fim.

XEQUE-MATE: entrei nas águas
E mar adentro nadei.
Não divisei terra ao longe,
Também não me preocupei
Quando as ondas me levaram.
Meu corpo do mar tiraram,
Mas, enfim, me libertei.

ZELEI pela liberdade,
Padeci com dignidade,
Me espostejaram, verdade,
Mas já não estava vivo.
Morto, sim, nunca cativo,
Digo adeus à Gameleira.
Adeus vaquinha leiteira,
Adeus bezerros do estrado.
Assina o Touro Afogado,
Alma livre e altaneira.

Fortaleza, novembro de 2018

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

'O Encontro da Cidade Criança com o Sertão Menino' é premiado com o selo Cátedra-Unesco



O livro O Encontro da Cidade Criança com o Sertão Menino (Editora do Brasil) acaba de ser premiado com o selo SELEÇÃO da Cátedra Unesco (PUC-Rio), edição 2018. Quem me trouxe a boa nova foi o editor de literatura infantil e juvenil Gil Vieira Sales. O livro, ilustrado por Laerte Silvino, conta, em cordel, a história de dois primos, José Silva e João Wenceslau, o primeiro morador do sertão alagoano e o segundo, de São Paulo. Os dois ainda não se conhecem, pois o pai de João, filho da matriarca Sinhana, desde que arribou para o “sul”, ainda não havia retornado ao sertão. Ciúmes à parte, os meninos acabam construindo uma sólida amizade que durará toda a vida.
O trecho inicial apresenta um dos cenários da história, o sertão alagoano:

Vamos viajar agora
Para o sertão nordestino,
Num recanto de Alagoas,
Onde vivia um menino,
Criado por sua avó
Desde muito pequenino.

Zé Silva, menino esperto,
Nascido lá no sertão,
Num vilarejo no qual
Não tinha televisão,
Mas mesmo assim não faltavam
Brincadeira e diversão.

Menino muito aplicado,
Ele ia para a escola
Montado no Pouca-Prosa,
O seu jumento pachola,
E no retorno, à tardinha,
Brincava de jogar bola.

Subia nos umbuzeiros
E nadava nas lagoas,
Depois, quando anoitecia,
No sertão das Alagoas,
Ia ouvir a sua avó
Contar histórias das boas.

A Lapinha, tradição natalina ainda viva no sertão, não foi esquecida nesta viagem afetiva à infância:

João e o filho Joãozinho
Ouviram as lindas loas
Para o Menino Jesus,
Cantadas por almas boas,
Moradoras dos remotos
Recantos das Alagoas.

A luz fraca da candeia
Iluminava a varanda.
Lá fora muitas crianças
Dançavam linda ciranda,
Louvando a vida que segue,
A marcha que não desanda.

Devotos de Santos Reis
Cantavam com muita fé:
“– Ô de casa, ô de fora.
– Maria, vai ver quem é.
– São os cantadô de Reis.
Quem mandou foi São José.”.




A Editora do Brasil conta com mais dois livros premiados na mesma categoria. São eles: Tinha um livro no meio do caminho, de Rosana Rios e Ana Matsusaki, e Uma casa para dez, de Caio Riter e Graça Lima.

Cabe, aqui, um agradecimento especial à amiga Penélope Martins, que me apresentou ao Gil, o que resultou na publicação do livro ora premiado. 

domingo, 4 de novembro de 2018

O adeus a Santa Helena



O cordelista paraibano, ou paraibense, como ele gostava de dizer, Raimundo Luiz do Nascimento, o Raimundo Santa Helena, personagem de destaque na história da literatura popular em versos, morreu ontem, 3 de novembro, aos 92 anos. Deixa uma obra monumental, um acervo gigantesco e uma série de realizações em prol de sua coletividade. A ele dediquei o seguinte trecho em meu livro Breve História da Literatura de Cordel:

"O combativo poeta popular paraibano Raimundo Santa Helena, nascido em 1926 e batizado Raimundo Luiz do Nascimento, começou a publicar seus folhetos relativamente tarde – em 1978. Contudo, seu espírito levou-o a empreender verdadeiras cruzadas em defesa da Literatura de Cordel. Ousou, inclusive, questionar o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, do MEC, que, num verbete específico, definia Cordel como “literatura de pouca ou nenhuma qualidade”. Esta visão depreciativa vem desde os tempos em que o português Caldas Aulete fixou o termo no Dicionário Contemporâneo, de 1881. O Dicionário Escolar, portanto, apenas endossava um absurdo repetido por mais de um século. Foi esta a razão do protesto de Santa Helena, apoiado por Carlos Drummond de Andrade, que numa crônica publicada no Jornal do Brasil, a 21.08.1982, recomendou: “A expressão ‘de cordel’ não é mais pejorativa. Não custa ao MEC rever, em edição futura, o verbete desatualizado”.

Por esta e outras, inclusive por sua luta em favor das eleições diretas, em 1984, Raimundo de Santa Helena é um nome maiúsculo do Cordel em sua face urbana."

Para saber mais sobre o poeta, leia sua biografia na página Paraíba Criativa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O nome do defunto



Anúbis protege e cuida do defunto. 

Em Totem e Tabu, Sigmund Freud estuda várias crendices e interdições de povos em diferentes estágios civilizatórios, uma delas relativa à morte e ao medo de, ao pronunciar o nome de pessoas mortas, invocar ou atrair sobre si uma maldição. Escreveu ele: “Um dos costumes mais estranhos e singulares, ligados ao tabu dos motos, entre os primitivos, é a proibição de pronunciar o ‘nome’ do defunto”.

A crença se faz presente entre povos de todos os quadrantes e foi registrada entre polinésios, hindus, mongóis, ainos, tuaregues e indígenas de toda a América. Os massai da África, por exemplo, costumavam mudar os nomes dos falecidos, assim como alguns povos nativos da Austrália. O luto e a observância de algumas regras presentes nos ritos fúnebres, que tangem ao apaziguamento do espírito teriam a ver, em parte, com o horror despertado pelas mudanças observáveis nos cadáveres. Luís da Câmara Cascudo (sempre ele!), no ensaio Anúbis, dedica um tópico à superstição ligada ao nome do morto e as trágicas consequências dele advindas: “O nome pertence ao morto e participa de sua substância. É inseparável. Chamá-lo, pronunciando-o em voz perceptível, é evoca-lo, sugerindo-lhe a presença imediata, quase irresistível pela magia poderosa do nome”.

O medo dos demônios, segundo Wundt, derivaria do medo original das almas dos mortos. Os que morrem de causa violenta, ou mediante operações mágicas, tornam-se espíritos vingativos, demônios, enfim. (cf. Wetermarck). Certo é que, nos sertões de outrora, evitava-se pronunciar os nomes de entidades demoníacas, substituindo-os por apelativos. Nomen numen, diriam os supersticiosos romanos. Evitava-se, de igual modo, pronunciar-se o nome de quem dorme o sono eterno, substituindo-o por “finado”, “falecido”, “defunto”. A devoção às santas almas do Purgatório, vivas no medo e na reverência dos penitentes, é mais antiga que a própria concepção de Purgatório, popularizada por Dante, e as alimentadeiras de almas dos termos do São Francisco atualizam, simplesmente, as oferendas votivas às almas dos mortos que povoam os nossos sonhos e pesadelos desde que o mundo é mundo.

Tristão e Isolda ganha versão em cordel





Tristão e Isolda, a mais bela história de amor do Ocidente, ganha, graças ao poeta Marco Haurélio, uma versão em cordel. O livro, segundo do autor pela SESI-SP Editora, será lançado sábado, 10 de novembro, a partir das 14 horas, na PanaPaná (rua Leandro Dupré, 396), livraria voltada exclusivamente à literatura infantojuvenil. 

Tristão e Isolda é uma história que desafia o tempo e as convenções sociais. Nela, Tristão, o cavaleiro perfeito, poeta e herói civilizador, defensor da honra e da liberdade, é envolvido na teia de um amor fatal, do qual não pode ou não quer se livrar. Isolda é a imagem da mulher ao mesmo tempo bela e misteriosa, herdeira dos segredos das fadas da mitologia da Irlanda, senhora dos filtros mágicos que podem trazer a cura ou a morte. Corrente nas águas da tradição do mundo celta, a lenda dos desventurados amantes foi recontada nos séculos XII e XIII, principalmente, por poetas e prosadores, alcançando grande sucesso. Depois do relativo esquecimento nos anos que se seguiram à Renascença, o mito foi relido por Richard Wagner na clássica ópera de 1859. Esta versão em cordel, gênero poético que, em sua feição mais genuína, se vincula à canção de gesta e à epopeia, tem o mérito de devolver a saga ao gênero no qual debutou: a poesia. 

Tristão e Isolda, a encarnação do amor moderno

Maior mito concebido pelo Ocidente, junto com o Santo Graal, segundo o historiador Jean-Marie Fritz, Tristão e Isolda conta, basicamente, uma história de amor, mas não qualquer história. A impossibilidade de um final redentor não impede a realização do amor, em que pesem as armadilhas preparadas pelos adversários, o maior de todos o próprio destino. O mito parece provir da cultura céltica, continental (da Bretanha Armórica, norte da França) e insular (Grã-Bretanha e Irlanda). O contexto em que o mito se cristaliza, no entanto, é a França na época em que estava em voga o amor cortês, ao menos na literatura, e em que a sociedade altamente estratificada assistia a profundas transformações. Sua difusão pela Europa deu-se, inicialmente, por meio de dois romances em versos: um de autoria do clérigo anglo-normando Thomas, entre 1170 e 1173, e outra de Béroul, poeta normando, que forneceria a versão mais difundida da qual resta um fragmento de 4.485 versos. Vieram em seguida outros textos: Loucura de Tristão (há duas versões, uma de Berna, outra de Oxford) e o Lai da Madressilva, da princesa Marie de France, que fixou a fórmula do casal inseparável mesmo após sua trágica morte de cujos túmulos brotarão uma madressilva e uma aveleira: “Nem vós sem mim, nem eu sem vós”.

O mito passará por poucas transformações, talvez a maior delas seja um romance prosificado, composto por volta de 1230, em que Tristão, talvez por influência do Lancelote em prosa, se torna um cavaleiro da Távola Redonda. A história fazia sucesso nas cortes, até mesmo na fria Noruega, onde o célebre rei Haakon IV encomendou, em 1226, uma versão a Frei Robert. Outro romance, desta vez composto na Alemanha, aparece na primeira década do século XIII, por Godofredo de Estrasburgo, que, séculos depois, servirá de base à célebre ópera de Wagner. A Alemanha conheceu mais duas versões, de Ulrich von Thürheim e Heinrich von Freiberg, a Inglaterra outra, Sir Tristrem (cerca de 1300), além de um romance em prosa italiano do final do século XIII, conhecido como Tristano Ricardino. Em meados do século XV, o célebre Sir Thomas Mallory, autor de A Morte de Artur, escreve Tristam de Lyone [Tristão de Leonis], com grande sucesso.

A história, a partir das primeiras versões, obedece a um esquema básico: o herói nasce em meio à tragédia (razão de seu nome associado ao radical latino tristis: triste) e cresce desconhecendo a sua identidade (como Perseu, o Rei Artur e, modernamente, Luke Skyawalker da cinessérie Star Wars). Sabedor de sua origem, destrona o usurpador, liberta o reino de seu tio, o rei Marc, de um injusto tributo, derrotando o Morholt da Irlanda (assim como Teseu derrotou o Minotauro, livrando Atenas de um fardo semelhante), mas fica entre a vida e a morte. É nesse ponto que o mito aponta para a sua principal matriz, a mitologia celta irlandesa, na figura de Isolda, princesa e mortal, mas detentora, assim como sua mãe, dos segredos da vida, do amor e da morte. Tristão é curado por Isolda e, em outra ocasião, quando chefia uma embaixada em nome de seu tio, livra a Irlanda de outro tributo, derrotando um dragão e conquistando a mão da princesa para Marc. Este motivo, que o aproxima uma vez mais do mito grego de Perseu e Andrômeda e da lenda de São Jorge, justifica a reivindicação do herói diante de um rei rival do seu povo. A lealdade vassálica, própria da Europa feudal, explica em parte a voluntariedade de Tristão e seu dilema posterior à conquista da mão de Isolda, dividido que fica entre a lealdade ao rei, que também é seu tio, e o amor puro que devota à sua amada.  

A poção do amor, oferecida pela mãe da heroína, geralmente identificada com o mesmo nome desta, como presente de casamento a ser oferecido ao rei Marc, e bebida acidentalmente por Tristão e Isolda durante a viagem que os levará a Cornualha, escancara o amor entre ambos e precipita a tragédia. Tudo o que vem a seguir – as intrigas dos vassalos, instigadas principalmente por Audret, também sobrinho de Marc, os truques de Isolda, com a ajuda da fiel serva Brangiene, a fuga para a floresta de Morois, o exílio do herói – confere à história uma dimensão humana, com alguns alívios cômicos, que alternam heroísmo e sagacidade em doses idênticas. O lirismo dos episódios da floresta de Morois dialogam com outra lenda céltica, a de Diarmuid e Gráinne, esposa do rei Fionn mac Cumhaill, herói do ciclo feniano da mitologia irlandesa, perseguidor implacável do jovem e infeliz casal.

Trecho inicial do romance:

Meu pensamento viaja
Para outro tempo e lugar,
Enfrenta ventos vorazes,
Atravessa o velho mar
E numa fonte encantada
Vai a sede saciar.

Depois de dar muitas voltas,
Detém-se na Cornualha,
País onde Marc, o rei,
Encara feroz batalha,
Pois, se perder, trocará
O cetro pela mortalha.

Era uma guerra cruenta,
Porém Marc, sem temor,
Por Rivaleno ajudado,
Saíra-se vencedor,
E ofereceu ao amigo
A sua irmã Brancaflor.

Rivaleno governava
O reino de Leonis.
Ele amava Brancaflor;
Por isso ficou feliz
E com ela foi morar
No seu bonito país.

Brancaflor e Rivaleno
Vivem felizes um ano.
Quando a rainha engravida,
Vem o triste desengano:
O reino é ameaçado
Pelo pérfido Morgano.

Esse sujeito um exército
De mercenários formou,
Mas, fingindo querer paz,
Um banquete preparou,
Chamou o rei, ele foi,
E lá o bruto o matou.

Brancaflor, com a notícia,
Quis chorar, mas não podia.
O coração lhe apertava,
O corpo todo tremia.
Em gravidez avançada,
A pobre quase morria.

Quatro dias depois disso,
A rainha recebeu
O seu filhinho nos braços,
O que muito a enterneceu,
Porém a dor que sentia
Quase nada arrefeceu.

Dizia: – Filho querido,
Corda do meu coração,
Já que nasceste em tristeza,
Desde a sua conceição,
Tu, meu menino tão belo,
Serás chamado Tristão.

sábado, 13 de outubro de 2018

Entrevista a Assis Angelo


O BRASIL DAS ARÁBIAS


Marco Haurélio e Némer Salamún
Concedi, na última terça, uma entrevista ao jornalista Assis Angelo. O mote foi a minha recente incursão pelo Oriente Médio, no emirado de Sharjah, além das conexões culturais do Brasil com o mundo árabe. 

Marco Haurélio é um baiano nascido na roça. No sudoeste da Bahia. Ele plantou e, agora, está colhendo os frutos da cultura, da vida e da história. Fugindo à regra nordestina, das quebradas lá de longe, ele aprendeu o beabá desenvolvendo o intelecto. Intelecto é aquela coisinha, massa cinzenta, que carregamos no cérebro. E os seus pais, Valdi e Maria, fizeram tudo para lhe dar um canudo uma beca. E, assim, Marco Haurélio Fernandes Farias entrou na universidade m Caetité (BA) e, quatro depois, licenciado em Letras, fez sorrir seus pais. E o mundo abriu-se para Marco. Abriu-se, ele continua lutando apaixonadamente pela história do Brasil, pela cultura popular, pelas coisas da gente. Eu conheci muitas pessoas importantes da área da cultura popular como Luís da Câmara Cascudo ou Mário Souto Maior. Eu tenho certeza de que Cascudo e Souto Maior orgulhar-se-iam do Marco como eu.

Assis – Marco, você andou pelo mundo todo, ou quase. Você esteve ausente? Tá bom, eu sei onde você esteve, mas os leitores do blog não sabem. Diga. Onde você esteve ultimamente.

Marco – Estive em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, a convite do Institute for Heritage, ou melhor, do presidente desta importante instituição do Oriente Médio, o Dr. Abdulaziz Al-Mussalam.

A – E você foi o que lá, nesse lugar tão distante?

M – Fui contar histórias de nossa tradição oral num evento que acontece por lá há 18 anos, o International Narrator Forum, que reúne narradores e pesquisadores de várias partes do mundo.

A – O que se fez mais presente lá, a cultura popular ou a erudita? Ou as duas se juntaram?

– As duas estão tão mescladas que não dá para saber onde termina uma e começa a outra. Vi grupos de música tradicional, ouvi a voz do muezzin, convocando os fiéis para a mesquita, e lembrei do nosso vaqueiro na solidão dos ermos nordestinos. Li sobre lendas e mal-assombros muito próximos dos nossos mitos, como o camelo sem cabeça, em tudo semelhante à nossa mula-sem-cabeça. Vi, no Museu da Civilização Árabe, artigos em couro que lembravam a civilização do couro do Nordeste, evocada por Capistrano de Abreu. Confesso que me senti em casa.

A – Ao pisar o solo árabe, você lembrou-se de quê? Das Mil e Uma Noites?

M – As Mil e Uma Noites são a nossa principal referência cultural em termos de literatura, abrangendo a vastidão do mundo islâmico, que vai da Índia ao Marrocos. Lá, a arquitetura, os trajes, as saudações, a devoção remetiam aos velhos contos narrados por Xerazade, mas vai muito além disso. Há todo um caudal de tradições que dialogam com os nossos costumes, com o Brasil que, irresponsavelmente, estamos deixando morrer.

A – O real e o imaginário se confundem mais em Sharjah do que em outro lugar que você conhece?

– O trabalho de recolha e catalogação feito pelo Dr. Abdulaziz Al-Mussalam, entre os povos do deserto, revelou um mundo muito rico, em que as superstições, os seres fantásticos impregnam a vida cotidiana. Na capital, isso não está tão presente, mas, uma coisa é certa: Sharjah é um exemplo de país em que a modernidade e a tradição convivem em perfeita harmonia.

A – Estamos falando de cultura popular. Provocado, o que você viu no mundo árabe semelhante ao local em que você nasceu?

M – Muita coisa em comum. O fato de as mulheres usarem lenço no sertão é uma herança do mundo árabe. O medo de criaturas que habitam nas profundezas da caatinga, assombrando árvores como juazeiro, umbuzeiro e gameleira é parecida com uma lenda de lá, de uma tamareira assombrada. Lá, tem um camelo que leva embora as pessoas ruins num saco que traz entre os dentes, assim como nós temos o velho do saco ou velho do surrão. E, na música, embora não saiba nada de árabe, conversando com pessoas de lá, descobri que os temas eram quase sempre amorosos, líricos, e me lembrei de Teófilo Braga, etnógrafo português, que estudou as cantigas de amor portuguesas, as aravias, assim chamadas, pois tiveram origem entre os povos do deserto que conquistaram e deitaram raízes na Península Ibérica.

A – A distância é um ponto de vista. Você encontrou na Arábia o Brasil, Marco?

M – Claro. O Brasil recebeu, dos povos de cultura islâmica, além de várias palavras incorporadas para sempre ao nosso vocabulário, crenças arraigadas na alma de nosso povo. O saci preso na garrafa com o fito de propiciar riqueza deriva do djin do folclore árabe, o gênio das lâmpada dos contos das Mil e Uma Noites. Outra ligação que merece ser ressaltada tem a ver com a culinária, principalmente a nordestina, carregada de tempero, saborosa como mais não pode ser. A história explica isso, pois, além de Portugal ter sido dominado pelos mouros, tempos depois, no período de expansão marítima, os nossos patrícios foram os primeiros povos do Ocidente a conquistar a região, usada como entreposto em suas viagens à Índia.

A – O que te fez aceitar um convite para ir para um lugar tão distante?

M – Na Bienal do Livro de São Paulo, por indicação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, participei de uma mesa redonda sobre contos folclóricos com o Dr. Abdulaziz, representante de Sharjah, país homenageado no evento. Dois dias depois, numa cerimônia reservada, recebi, das mãos do Dr. Addulaziz, uma medalha de honra por meu trabalho de pesquisa e salvaguarda da tradição oral brasileira. O convite foi feito nesse mesmo dia, 6 de agosto, uma segunda feira.

A – Marco, fala-se muito da mulher árabe. O que você viu por lá?
M – Lá, as mulheres ocupam cargos importantes, dirigindo entidades, na coordenação de importantes eventos. Lá estive com minha companheira Lucélia, também convidada pela organização do Forum, para ministrar uma oficina de xilogravura para crianças. Lá esteve ainda um casal de amigos, Fabio Lisboa e Bianca Tozato, também representando o Brasil. Sentimo-nos muito à vontade, como eu disse antes, estávamos em casa.

– Então, você se sentiu em casa. Temos muito a ver com o mundo árabe. E a Donzela Teodora, você a encontrou?

M – A Donzela Teodora, Simbad, Ali Babá estão presentes na fala cantada de nossos irmãos. A Donzela Teodora é a Douta Simpatia das Mil e Uma Noites, a mulher sábia que foi imortalizada em nosso cordel por Leandro Gomes de Barros e na voz de Elomar. Afinal de contas, o nosso Brasil, repositório de culturas, é também filho das Arábias. Salam Aleikum!
 
Oficina de xilogravura para crianças com Lucélia Borges


– Dá pra resumir tudo isso numa estrofe em decassílabo?

M – O Brasil, um país continental,
Traz na veia o sangue de mil povos,
Dos nativos e de outros bem mais novos,
Integrando o concerto universal.
Das Arábias herdou um cabedal,
Reunido ao cantar do lusitano,
Índio negro, francês, bantu, cigano,
Que atravessam minh’alma como açoites,
Como os contos das Mil e Uma Noites,
Que eu celebro em martelo alagoano.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Brasil marca presença no Fórum Internacional de Narradores de Sharjah (EAU)


"El Príncipe Caballito". Parceria com Némer Salamúm

A convite do Sharjah Institute for Heritage (Instituto para o Patrimônio), participei, do  18º  Sharjah International Narrator Forum, que ocorreu no início desta semana em Sharjah, uma das pérolas do Oriente Médio. O pequeno emirado, que erigiu a cultura como um dos seus grandes pilares, sediou o encontro que reuniu mais de uma centena de narradores e pesquisadores de tradição oral de vários países, incluindo o Brasil. Dr. Abdulziz Al Mussalan, presidente do Instituto, escritor poeta e estudioso das tradições milenares do povo árabe, foi o responsável pelo convite, ainda na Bienal do Livro de São Paulo, onde dividimos uma mesa, no Espaço de Sharjah, que tinha os contos folclóricas e a heranças árabes no Brasil como tema.

Oficina com Fábio Lisboa

No dia 25, no Centro de Convenções, no Espaço dedicado ao Forum, fiz uma breve e inesquecível participação. Uma honra que, por mais que eu busque, não conseguirei expressar em palavras, foi dividir o mesmo espaço com o genial Némer Salamún. Recontei em espanhol o conto popular O Príncipe Cavalinho (do livro Contos e Fábulas do Brasil), do ciclo do noivo animal, que ele, Némer, vertia imediatamente para o árabe, arrancando risos e aplausos da plateia composta majoritariamente por crianças. O encanto pelas histórias, velhas como a humanidade, afinal de contas, é universal.
 
Willo e Rafo Diaz, grandes narradores e divulgadores da tradição oral. 
Némer ainda traduziu contos narrados pelos parceiros latino-americanos, o colombiano William Arunategui (Willo) e o peruano Rafo Diaz. No período da manhã, a companheira Lucélia Borges ministrou uma oficina de isogravura para crianças e expôs algumas matrizes de xilogravura de seu acervo. O casal de amigos Fábio Lisboa e Bianca Tozzato ministraram uma oficina de confecção de brinquedos tradicionais feitos com papelão. Fábio participou ainda da abertura do evento, ao lado de outros narradores, saudando o sheik Sultan bin Muhammad Al-Qasimi, governante de Sharjah, grande incentivador das artes e das ciências, também ele um renomado intelectual, com formação em várias áreas do conhecimento.

Volto para casa muito feliz depois dessa breve estadia entre o povo do deserto, cuja herança cultural avançou pelo norte da África, chegou à Península Ibérica e, por meio de portugueses e espanhóis, alcançou a terra depois chama de América. No Brasil, a região Nordeste é a que melhor guardou o patrimônio imaterial do povo árabe e dos povos berberes, ainda hoje vivo em costumes e crenças, contos, lendas, autos populares e até mesmo em nossa poesia popular, mormente no cordel, repente e nos aboios dos vaqueiros.

Mais uma vez, minha gratidão a Sharjah, em especial ao dr. Abdulziz, a Aisha Alshams, diretora do Center for Heritage, incluindo toda a comissão organizadora que nos recebeu tão bem, comprovando a proverbial hospitalidade dos povos do Crescente.

Salam Aleikum!


Exposição de livros e folhetos

Wayqui César Villegas, mestre peruano



No Center for Heritage, encontrei esse "cavalo marinho"


Apresentando o cordel a Sherif Mahmoud Aly, representante do Egito

Némer Salamúm e Willo em bela dobradinha.



No Museu da Civilização Islâmica, um elo com a
"civilização do couro" do Nordeste

Oficina de isogravura para crianças, com Lucélia Borges



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Meus livros no PNLD Literário




Foi divulgado, no Diário Oficial da União, no dia 28 de agosto, o resultado do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD 2018 Literário). Cinco títulos de minha autoria foram aprovados no programa. 

Segue a lista com seus respectivos códigos:


  • Peripécias da Raposa no Reino da Bicharada (SEI/LeYa). Ilustrações de Klévisson Viana  (cód. 1415L18601)
  • Mateus, Esse Boi é Seu (DCL/Farol). Ilustrações de Jô Oliveira  (cód. 0768L18602)
  • Bafafá na Arca de Noé (DCL/Universo dos Livros). Ilustrações de Anabella López  (cód. 0546L18601)
  • Lucíola em Cordel (Manole) Ilustrações de Luís Matuto  (cód. 0691L18601)
  • O Circo das Formas (Estrela Cultural). Ilustrações de Camila de Godoy  (cód. 0349L18601)
Nesta etapa, a escolha caberá às escolas públicas de todo o Brasil. 

Gratidão! 

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Projeto Encontro com o Cordel encanta São Paulo


Braulio Tavares e Marco Haurélio



Socorro Lira e banda no show Meu interior urbano
Foram três dias de encantamento. O nosso projeto Encontro com o Cordel, abraçado pelo SESC 24 de Maio, teve grande presença de público e uma programação rica e variada. Recitais, shows, oficinas, bate-papos, mesas redondas, além da Feira de Cordel e Xilogravura, montada na área de convivência, apresentaram aos paulistanos as várias faces da Literatura de Cordel. Muita gente se reencontrou com os clássicos lidos ou ouvidos na infância e conheceu os novos artesãos e artesãs da poesia bárdica nordestina.
Assis Ângelo e Moreira de Acopiara
O espaço da Feira foi também um ambiente festivo, com muita conversa e interação entre os artistas e o público. Num 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, Braulio Tavares, o multiartista que todos nós aprendemos a admirar, inaugurou o evento com uma palestra sobre o nosso homenageado, o poeta paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e as muitas faces da literatura de cordel e seu diálogo com outras artes e gêneros, incluindo a ficção científica. Depois, Sebastião Marinho e Luzivan Matias, repentistas paraibanos estabelecidos em São Paulo, encantaram o público com modalidades do repente, a exemplo das sextilhas, do "boi da cajarana", do martelo alagoano e encerraram com o tradicional coqueiro da Bahia. Em seguida, entraram em cena Assis Angelo e Moreira de Acopiara, em bate-papo que batizei como Baião de Dois, homenageando o Cego Aderaldo, morto há 50 anos, e discorrendo sobre o cordel e sua secular história.  
Luzivan Matias e Sebastião Marinho
Lucélia Borges e os Contos rimados
Socorro Lira, a premiada cantora e poeta paraibana de Brejo do Cruz, fechou o primeiro dia do evento com chave de ouro, cantando joias de seu cancioneiro e outras canções de nomes históricos como Zé do Norte, que ela homenageou no premiado disco Lua Bonita, de 2012. No dia seguinte, com a concorrida oficina de xilogravura do mestre J. Borges e de seu filho Pablo Borges, iniciou-se mais uma bela jornada. A atividade Cordel-Show foi aberta por Aldy Carvalho, acompanhado pelo violão de Tony Marshall, e teve Costa Senna, além de  Maércio e Júbilo Jacobino como músicos acompanhantes, no encerramento. A Biblioteca, no 4º andar, recebeu Lucélia Borges e seus "Contos Rimados".Quase ao mesmo tempo, Klévisson Viana e Jô Oliveira abordaram a influência do cordel nas histórias em quadrinhos e vice-versa. Tivemos ainda o popular teatro de bonecos de Pernambuco, o Mamulengo, com mestre Valdeck de Garanhuns e Trio Tropeiros da Serra.Fechando a noite, mestre Bule Bule mostrou o que é que o baiano tem, com seu repertório de chulas, cocos, cirandas e sambas de roda, além de uma linda homenagem a Leandro Gomes de Barros, em que cantou trechos da História do Boi Misterioso. No teatro, enquanto isso, ocorria o show do pernambucano Siba, que se repetiu no dia seguinte
Bule Bule em noite memorável 

Domingo, 26, ocorreu a segunda parte da oficina de xilogravura e, ao meio-dia, Inimar dos Reis e João Batista Cidrão, filho de Patativa do Assaré, emocionaram o público com o espetáculo Pelejas de um Cantador. 
Visivelmente emocionado, João declamou poemas de seu pai, hoje clássicos da poesia brasileira. As vozes femininas da literatura de cordel ecoaram forte com Izabel Nascimento e Salete Maria, provando que a poesia popular precisa discutir temas contemporâneos, como a presença e a afirmação das mulheres, além de temáticas que, geralmente, são deixadas de lado pelos cordelistas tradicionalistas, como os direitos das minorias e a inclusão cultural e social. E o dia foi mesmo das mulheres, pois, na Biblioteca, Cleusa Santo e Auritha Tabajara, com Contos, lendas e cordéis, encantaram o público, com uma afinação impressionante. No espaço da Ginástica, mestre Antonio Nóbrega, com sua domingueira, convidou o público a dançar ao som de emboladas, frevos e maracatus. Ao final, foi visitar o espaço da Convivência, onde foi montada a exposição. 


Izabel Nascimento e Salete Maria: Cordel em cena. 
Outros artistas que abrilhantaram o evento, como expositores, foram: Paulo Dantas, Samuel de Monteiro, Pablo Borges, Cacá Lopes, Pedro Monteiro, Tin Tin, Gina, esposa de Bule Bule, Regina Drozina, Varneci Nascimento, Chico Feitosa, Ronnaldo Andrade, Nireuda Longobardi e João Gomes de Sá. Contamos ainda com visitantes ilustres, a exemplo do cantor e compositor baiano Gereba, dos poetas Josué Gonçalves e João Paulo Resplandes, da pesquisadora francesa Solenne Deringond e da pesquisadora a cantora Mari Ananias. 

A todos os artistas e, especialmente a Luciana Tavares Dias, do SESC 24 de Maio, entusiasta de primeira hora, que acolheu a nossa ideia e ajudou a dar a ela o formato que, ao final, se mostrou exitoso, nossa eterna gratidão. Estendemos os  agradecimentos à Delahousse Produções, que nos deu o suporte necessário, e a toda a equipe do SESC, especialmente a Luci e Marco, nossos anjos da guarda. 

O cordel está vivo e, mais do que vivo, forte! 


Oficina com mestre J. Borges
Ditinho da Congada e Bule Bule
Na Biblioteca, ao final da contação de Cleusa e Auritha
Domingueira com Antonio Nóbrega


Cordel e quadrinhos com Jô Oliveira e Klévisson Viana

Costa Senna e o Cordel-Show
Entregando o selo da Ação do Coração, idealizado por Alexandre Camilo,
ao mestre J. Borges


Pedro Monteiro, Bule Bule, Klévisson Viana e Marco Haurélio
Antonio Nóbrega, Marco Haurélio e Bule Bule 

Alexandre Camilo e J. Borges