quinta-feira, 19 de março de 2015

A caminho da Flipoços 2015






Flipoços 2015
Conta com todo respaldo,
Homenageia as crianças
Na figura de Ziraldo,
O Menino Maluquinho,
Que da arte engrossa o caldo.

São  atrações variadas
Em gêneros os mais diversos:
Literatura, Saúde,
Em contos, cinema, versos,
Conversando, sem ressalvas,
Com todos os universos.

Lá estarão escritores
Da mais alta relevância,
Editoras consagradas,
Obras de grande importância
E brincadeiras que trazem
Para nós a “velha infância”.

Lá estarei divulgando
A cultura popular:
No Encontro com o Cordel
O público vai viajar
Nas asas da poesia
Sem se mexer do lugar.

E com o Cordel Brincante
Seguiremos outras trilhas:
Numa jornada encantada
Em torno das redondilhas
Que adornam a poesia
E a cobrem de maravilhas.

Portanto, convido todos
Que amam a nossa cultura:
Em 25 de abril
Começa a grande aventura,
Que se encerra em 3 de maio
Com muita literatura.

P.S.: Em 2015, a convite de Gisele Corrêa, diretora da GSC Eventos, responsável pela realização do Festival Literário e Feira do Livro de Poços de Caldas (Flipoços), retorno para a 10ª edição deste evento que é um dos mais tradicionais do Brasil, no ano em que se celebra a literatura infantil. 

Atividades:

30 de abril (Teatro da Urca):

Encontro com o Cordel (das 09:00 às 10:00h)

Cordel Brincante (Árvores Falantes)


Participação na Flipoços 2014. Foto: Aline Falacci.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Nem borboleta, nem cobra


Nem borboleta, nem cobra é o nome de meu novo livro, que sai com o selo da editora Volta e Meia (que compõe o Grupo Editorial Nova Alexandria)

Voltado para os pequenos leitores, conta com ilustrações de Júnior Caramez e projeto gráfico de Viviane Santos.

Só um pouquinho do texto, que dialoga com o cordel e reconta uma história de nossa rica tradição oral:

Quando a onça dá as caras,
Muito bicho se amofina,
Pois são poucos os que medem
Forças com esta felina.

O coelho usa de astúcia,
Pois sabe que a onça é osso:
Mesmo o chamando de amigo,
Só o vê como um almoço.

2015 realmente começou!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Novo livro de cordéis de Marco Haurélio e Arlene Holanda contará a história de antigo império africano

montanha negra luciano3
Era um jovem audacioso/ Ilustre e respeitado,/ Que, em busca de aventuras,/ Corria todo o reinado,/ Com uma espada já velha,/ O seu único legado. Foi assim que, aos 13 anos de idade, o autor baiano Marco Haurélio apresentou o protagonista de O Herói da Montanha Negra, de 1987, seu primeiro romance em cordel – gênero literário tipicamente nordestino escrito em rimas. A partir daí, Marco engajou-se na criação e difusão do cordel pelo país. Em 2015, o autor lançará pela Global Editora um novo livro, intitulado Uagadu – Uma Odisseia Africana, em parceria com a escritora Arlene Holanda. A obra contará, em forma de cordel, a história de Uagadu (“País dos Rebanhos”), também conhecido como Império de Gana, antigo Estado localizado na África Ocidental.
“Depois de ler A Gênese Africana, de Leo Frobenius, surgiu o interesse de contar a história de Uagadu, que aparece em quatro narrativas lendárias do referido livro”, explica Marco Haurélio. “Um dia, conversando com a Arlene, ela me disse que estava pensando em escrever um livro sobre o mesmo tema”, completa. Surgiu aí a ideia de unirem forças para publicar um livro sobre as lendas africanas. A autora cearense realizou a partilha 

das histórias e ficará responsável pela adaptação das duas primeiras: A Canção de Gassire e O Tabele Mágico. Já Marco ficará com as duas últimas: A Grande Serpente Bida e Samba Gana.

Marco Haurélio e Arlene Holanda.
Previsto para o segundo semestre de 2015, Uagadu – Uma Odisseia Africana será um livro voltado principalmente para o público infantojuvenil, “mas deve agradar a leitores mais velhos também, estejam eles habituados a ler cordel ou não”, esclarece Marco Haurélio.

O autor promete uma leitura inusitada, pois fará uma desconstrução do estereótipo africano – que geralmente retrata a África como homogênea, exótica, selvagem e atrasada –, e apresentará personagens tão nobres quanto os famosos heróis e heroínas europeus. “Enfim, Uagadu traz, em suas quatro histórias, a grande experiência humana”, assegura o autor.
Marco Haurélio tem publicado pela Global Editora o livro Meus Romances de Cordel, que conta com histórias que escreveu ao longo de 20 anos, participou também da seleção de textos das obras Caminhos Diversos – Sob os Signos do Cordel, do autor Costa Senna, e Antologia do Cordel Brasileiro.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Cordel canta Dorival Caymmi


Graças a Juliana Gobbe, poeta, ativista e agitadora cultural, o centenário de Caymmi não passou em branco no meio cordelístico. Cinco autores de cordel foram convidados para participar de um projeto que, entre outras coisas, incluí a criação de um livro digital sobre o cantor e compositor baiano, nascido em 1914. O livro, lançado em um evento em homenagem ao músico, ocorrido em Atibaia (SP), no dia 12 de dezembro, foi apresentado pelo celebrado escritor e jornalista Audálio Dantas, idealizador da memorável exposição 100 Anos de Cordel, de 2001.

Abaixo, alguns trechos do livro que contou com projeto gráfico de Daniel Caribé. A versão completa pode ser acessada AQUI.

Acontece que eu (também) sou baiano
Autor: Marco Haurélio

Eu, que nasci na Bahia,
Não sei de onde você é,
Mas o que sei é que sou
Devoto de São José,
E no mês de março sempre
Mostro ao mundo minha fé.

Mas a minha devoção
Em mais de uma crença está,
Pois, a dois de fevereiro,
Preparo meu samburá
E me mostro agradecido
À rainha Iemanjá.

E quando a minha jangada
Ia bem longe do cais,
Deixava meu bem-querer,
Entre lamentos e ais,
Pois quem vai para o alto mar
Pode até não voltar mais.

O fato é que eu retornava,
Pois era essa minha sina,
Mas muitos por lá ficaram,
Sem ver mais Amaralina,
E terminaram no leito
Verde-azul de Janaína.

Já fui à Maracangalha,
Com Anália e até sem ela,
Trajando uniforme branco
Com uma flor na lapela,
Porém sempre retornava
Aos braços da minha bela.

(...)

Assim nasceu João Valentão
Autor: João Gomes de Sá

Diziam as boas línguas
Que ele era homem um decente,
Trabalhador responsável,
Até muito paciente.
Conhecido na Ribeira
Por jogar bem capoeira
Junto com a sua gente.

Seu trabalho era nas docas,
Carregando caminhão,
Com fardos de mercadorias:
— Café, cacau e feijão.
No dia a dia, na lida,
Andava feliz da vida
Com sua profissão.

Desde cedo, inda menino,
Aprendera a dedilhar
Um violão que ganhou
Do seu avô Ribamar.
E nos finais de semana
Entornava sua “cana”
E desabava a cantar.

E daí foi só um pulo,
Tornou-se compositor;
Compôs verso e fez canção —
Era um boêmio-cantor.
Foi nos botecos do porto
Que descobriu seu conforto,
O seu verdadeiro amor.

(...)

Dorival Caymmi, eterno ‘Canoeiro’
Autor: Moreira de Acopiara

No meu tempo de menino
O meu prazer era tanto!...
Mamãe me contava histórias
De pescaria e de espanto,
Mas na hora de dormir
Sempre tinha um acalanto.

Eram muitas as canções
Que ela sabia cantar:
‘Marina’, ‘Maracangalha’,
‘É doce morrer no mar’,
‘Meu eu’, ‘Boi da cara preta’
E outras canções de ninar.

‘Saudade de Itapoã’
Ela cantava também,
Assim como ‘Anjo da noite’,
‘O que é que a baiana tem?’,
‘O vento’, ‘Só louco’... ‘O mar’
Ela interpretava bem.

E ainda cantarolava
‘Suíte dos pescadores’.
Cantando assim, minha mãe
Aplacava minhas dores.
Com ‘Samba da minha terra’
Me mostrava novas cores.

Tudo isso ela cantava
Do modo mais natural.
Gostava de outras canções,
Mas nutria especial
Paixão pelas melodias
Do baiano Dorival.

(...)

Vatapá na MPB
Autor: Pedro Monteiro

Sobre Dorival Caymmi
Em versos quero narrar
A sua chegada ao mundo
Feito canção de ninar.
Como uma dádiva de amor,
A bela São Salvador
Viu esse filho chegar.

A Divina Providência,
Nessa expressão de alegria,
Harmonizando a cantata,
Composta com maestria,
Consultou o calendário
E o pôs num lindo cenário
Na capital da Bahia.

A música na sua vida,
Adensada ano a ano,
Das cordas de um bandolim,
Aos teclados de um piano,
Do violão, baluarte,
Abraçado pela arte
No seio cotidiano.

Ouvindo muitas cantigas
E contos que vêm do povo,
Num desenrolar de curvas,
Em busca de um tempo novo,
Ele deixou Salvador,
Era um jovem sonhador
Quebrando a casca do ovo!

Pegou o Ita no Norte
E foi pra o Rio morar.
Buscando espaço no rádio,
Aprimorou o seu cantar;
Vencendo muitas barreiras,
Com suas canções praieiras,
Fazendo louvor ao mar!

(...)

365 igrejas
Autor: Arievaldo Vianna

Todo baiano é devoto
Reza o dito popular
Num sagrado sincretismo
Aonde pode juntar
Santos da Igreja Cristã
Com Oxum, Ogum, Nanã
Para os reverenciar.

E desse modo, a rezar
Dos mais distantes recantos
Vai compondo as orações
Seus louvores e seus cantos
Repletos de poesia
Pois afinal, a Bahia
Adora todos os santos.

Mestre Dorival Caymmi         
Notável compositor
Cantou a faina praieira
E os encantos do amor
Nessas canções e pelejas
Falou também das Igrejas
Que existem em São Salvador.

São trezentos e sessenta
E cinco, que alegria,
As igrejas que existem
No Estado da Bahia
Tem igreja em todo canto
Uma para cada santo
E um santo pra cada dia.

(...)

Cordel é tema de exposição na Casa de Rui Barbosa

LiteraturaCordel

Divulgação

Está em cartaz no Museu Casa de Rui Barbosa até 1º de fevereiro a exposição "Folhetos de cordel portugueses: coleção Arnaldo Saraiva". Com origem na literatura popular ibérica, mais especificamente lusitana, o cordel brasileiro sempre inspirou manifestações eruditas da cultura brasileira, na literatura, no cinema, nas artes plásticas.
 
A exposição da Fundação Casa de Rui Barbosa, entidade vinculada ao Ministério da Cultura, apresenta a continuidade secular que liga o folheto de cordel português ao nordestino. A mostra permite observar,  no cordel do Nordeste brasileiro, a manutenção, por períodos de tempo muito vastos, de ciclos temáticos, bem como o compartilhamento, no aspecto plástico dos folhetos, da arte da xilogravura e das artes tipográficas entre Portugal e Brasil – bem como da litografia, da fotogravura, chegando mesmo, nos dois lados do Atlântico, a uma idêntica reprodução de stills de filmes norte-americanos. Isso fica ainda mais claro na exibição de mais de uma centena de folhetos, que cobrem mais de três séculos e meio da literatura de cordel em Portugal.
 
O material exposto pertence ao professor Arnaldo Saraiva, catedrático de Literatura da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, crítico, poeta, tradutor, sócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores conhecedores e divulgadores da cultura brasileira em Portugal e outros países. Saraiva reuniu a mais vasta coleção particular que se conhece de folhetos de cordel portugueses, com exemplares impressos desde primórdios do século XVII até a extinção dessa forma de expressão em Portugal, na segunda metade do século XX, muitos deles exemplares únicos. Sua coleção de folhetos brasileiros, por sua vez, reúne igualmente milhares de exemplares. 
 
A Casa de Rui Barbosa, centro dos estudos de literatura popular oral e impressa – com grande destaque para os folhetos de cordel – dá nova oportunidade a brasileiros e visitantes no país de conhecer a mostra já exibida, com grande sucesso, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, em Portugal, em 2006; no Museu de Arte Popular do Recife, em 2011; e na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, em 2013.
 

Serviço

De 11 de dezembro de 2014 a 1º de fevereiro de 2015
Museu Casa de Rui Barbosa
Horário de funcionamento:
Visitação de terça a sexta-feira,10h às 18h.
Sábados, domingos e feriados, 14h às 18h.
Toda última terça-feira do mês, o Museu fica aberto para visitação das 10h às 20h
(última entrada: 45 minutos antes do fechamento)
Informações: 21 3289 8686
Curadoria:Alexei Bueno
Patrocínio: Fundo Nacional de Cultura/Ministério da Cultura
 
 
Assessoria de Comunicação Social do Ministério da Cultura
Com informações da Fundação Casa de Rui Barbosa


Leia mais sobre esse assunto em matéria do jornal O Globo, assinada por Maurício Meireles. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A lenda da Moça de Branco

Imagem: Winchester Home

Em certo bairro surgiu um boato que dizia que quem passasse por um pedaço da estrada, que ia de uma porteira a outra depois, das 11 da noite, aparecia uma moça vestida de branco, em cima do barranco, e pulava na garupa do cavalo, e só descia quando chegava na outra porteira.

Um rapaz, muito descrente, ouvindo isso, disse à sua mãe: 

— É hoje que vou carregar a moça de branco na garupa e vou até beijá-la, pois tenho de ir à cidade e só volto depois das 11 da noite.

Sua mãe lhe implorou para que não fizesse isso, mas não adiantou. E o rapaz foi. Quando já estava dando 11 horas, ele veio embora. Mas, quando estava chegando na porteira, começou a ficar com medo e pensou:

— Vou bater a espora bem forte no cavalo para que ele corra bastante de uma porteira — outra, não dando tempo para a moça de branco subir.

Mas quando atravessou a primeira porteira, já viu a moça e ela ainda falou:

— É hoje!

E seu cavalo, mesmo ele batendo a espora bem forte, não corria.

A moça de branco subiu na garupa do cavalo e, pegando em seu rosto com a mão gelada, falava:

— Você não vai me dar um beijo? Cadê o beijo que você me prometeu? — e repetia isso várias vezes.

Enquanto isso, seu cavalo ia andando bem devagar como se tivesse um peso enorme nas costas. Quando chegou à outra porteira, a moça de branco sumiu. E o cavalo do rapaz correu tanto que parecia voar, fazendo um enorme barulho com as patas. A mãe do moço, que já estava preocupada, veio correndo. Quando abriu a porta, o rapaz desmaiou.

Só foi acordar o outro dia, muito assustado e dizendo:

— Desça daí, desça daí!

Quando sua mãe o acalmou, ele disse que nunca ia abusar e nem andar naquele pedaço de estrada mais à noite.

Contado por: Maria Cândida, mãe.
Recolhido por: Creusa Maria de Souza.
Local: São Francisco Xavier – SP.


Nota: Há alguns meses, quando me sobra um tempinho, leio os contos e lendas recolhidos por meu amigo Daniel D'Andrea. Incumbi-me da tarefa de conseguir uma editora para uma coletânea de histórias recolhidas na região "tropeira" de São Paulo. A história que reproduzo aqui, A moça de branco, aproxima -se da "Vanishing Hitchhiker", o fantasma da boleia de incontáveis relatos, estudada por meu amigo J.J. Dias Marques. Mas segundo este pesquisador, a razão de ser da "Vanishing Hitchhiker" é a suposição de se tratar de uma pessoa viva, o que não acontece no relato acima reproduzido.

Krampus e "Seu Dezembro"

Instigado por uma postagem do ilustrador Dane D'Angeli,  no Facebook, fui pesquisar a estranha figura acima reproduzida, o Krampus, ser mitológico que assombra e pune as crianças que não se comportaram bem em países como Alemanha e Áustria. O dito cujo aparece no dia 5 de dezembro, um dia antes da visita de São Nicolau (Sinterklaas ou Santa Claus), personagem que serviu de base para o Papai Noel.
Aí lembrei-me de uma história que minha tia Lili costumava contar sobre a chegada de um andarilho à casa de sua avó (e minha bisavó), que, salvo engano, chamava-se Josefina. A casa ficava numa região rural de Igaporã, próximo ao Barreiro, e a "visita" se deu em circunstâncias peculiares. Josefina havia, há poucos dias, descansado de uma gravidez, e o resguardo a impedia de se levantar. O seu marido, por necessidade, se ausentara justo naquele dia. E as crianças foram obrigadas a servir ao andarilho: primeiro ele exigiu comida, no que foi atendido. Depois, reclamando do frio, fê-los acender uma fogueira na própria varanda em que se instalara. Acabada a lenha, os meninos passaram a queimar sabugos de milho.
Além de reclamar o tempo todo, o "visitante" prometeu, quando a fogueira se extinguisse, dar cabo de cada menino, a quem chamava, indistintamente, "Cu de sabugo". Um deles, escapando pelo fundo da casa, foi chamar os tios, irmãos de Josefina, que moravam perto. Quando estes chegaram, o "visitante" que, a bem da verdade, devia ser um dos escravos "libertos" pela Lei Áurea, sem eira nem beira, fugiu, sem fazer mal a nenhuma das crianças.
O fato é que a sua passagem ficou gravada indelevelmente na memória das crianças. Quando queria assustar os netos, Josefina contava a história da Menina e do Velho do Surrão, aquela mesma dos brincos de ouro esquecidos na fonte, associando-a com o fato testemunhado pela família. E o visitante foi rebatizado como "Seu Dezembro", pois foi neste mês que ele aparecera.
E "Seu Dezembro" se tornou uma espécie de Papão para mais de uma geração. Menos assustador que o Krampus, é verdade, mas, ainda assim, uma boa razão para se comportar bem durante o ano.
PARA SABER MAIS SOBRE O KRAMPUS:

E, para fechar esta postagem, Feliz Natal!


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Aguardada biografia de Leandro Gomes de Barros será lançada na Bienal do Livro do Ceará

 

Lançamento da biografia de Leandro Gomes de Barros antecipa comemorações do sesquicentenário do mestre da Literatura de Cordel

Texto: Divulgação.

O escritor cearense Arievaldo Vianna lançará biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros na abertura do IV Congresso de cordelistas, editores e folheteiros, que acontecerá dia 10/12, no Espaço do Cordel, durante a XI Bienal Internacional do Livro do Ceará. O lançamento antecipa as comemorações pelo sesquicentenário de nascimento do poeta, que acontecerá no dia 19 de novembro de 2015. O autor já recebeu convite para lançar a obra na cidade de Pombal-PB, berço do grande cordelista, em março do ano que vem. Para o escritor paraibano Bráulio Tavares, em artigo publicado num jornal daquele estado por ocasião dos 90 anos de morte de Leandro Gomes de Barros, realizar uma biografia do poeta com as poucas informações que subsistiram à ação do tempo é a mesma coisa que catar confetes na rua um mês depois do carnaval.

Arievaldo Vianna encarou o desafio e apresenta um trabalho amparado em fotos, documentos e informações inéditas sobre a vida e obra de Leandro. Na opinião do poeta e pesquisador baiano Marco Haurélio, que assina o texto de apresentação, “trata-se da biografia do nosso mais importante poeta popular, Leandro Gomes de Barros, patriarca da literatura de cordel e autor de, pelo menos, vinte clássicos incontestáveis do gênero. Ari salda o débito que contraiu com o mestre paraibano desde que foi apresentado, na infância, pela avó Alzira de Souza Lima (1912-1994) ao grande pícaro Cancão de Fogo, espécie de Lazarillo de Tormes sertanejo, e maior criação de Leandro.”

O grande vate paraibano é autor de dois folhetos que influenciaram Ariano Suassuna na criação de sua obra mais famosa, o Auto da Compadecida. Trata-se de O Dinheiro (ou O testamento do Cachorro), de 1909 e O cavalo que defecava dinheiro. Em artigo que escreveu e publicou em 1976, Carlos Drummond de Andrade considera o poeta “Rei da poesia sertaneja” e reivindica para ele o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, que na verdade foi concedido a Olavo Bilac, em 1913. Esse polêmico artigo de Drummond é cuidadosamente analisado em um dos capítulos da biografia escrita por Arievaldo. Segundo o autor, foi uma pesquisa árdua e persistente, ao longo dos últimos dez anos, sem contar com apoio financeiro de qualquer espécie, apenas a colaboração de amigos que também admiram a obra do grande poeta.

Na opinião do professor Gilmar de Carvalho, respeitado estudioso da cultura popular e, em especial do Cordel, “Leandro é daquelas unanimidades a favor. Inegável que foi o grande nome do folheto e um dos sistematizadores da edição de cordéis no Brasil, com rima, métrica e folheto múltiplo de quatro páginas, com capa gráfica, no início, e com xilogravura, tempos depois. Curiosa essa passagem do violeiro para o poeta de bancada. Importante compreender como a maquinaria obsoleta para os grandes centros se interiorizava e dava lugar a jornais políticos e depois a uma atividade que movimentou a economia, que revolveu nossas camadas de memória e se fixou no imaginário social.”

Gilmar, que assina o prefácio da obra, afirma que “Leandro pode ser colocado, sem exagero, nas bases disso tudo. Não vale atribuir a ele um pioneirismo dissociado do contexto em que vivia e atuava. Ele existiu porque existiram os cantadores da Serra do Teixeira, na Paraíba, os folcloristas como Sílvio Romero, Rodrigues de Carvalho e Gustavo Barroso, os revendedores e agentes das casas editoras e os leitores ávidos pelos clássicos e pelas novidades trazidas por esta Indústria Cultural de bases assentadas na tradição popular.”

Apesar disso, reconhece Gilmar, que Leandro não tem tido o reconhecimento que lhe é devido. Temos algumas biografias tímidas, coletâneas de folhetos da Casa de Rui Barbosa, uma “Bibliografia Prévia”, de Sebastião Nunes Batista. Ultimamente, foram defendidas algumas teses nos programas de pós-graduação em Literatura e Linguística, mas tudo muito esparso, e fica cada vez mais difícil reunir tanta informação. Arievaldo não se propõe a juntar o que foi feito. Isso seria fácil nestes tempos de processadores de textos, programas de edição e de imagens e sítios virtuais. Ele foi além e buscou muitas coisas que ninguém buscara antes. Exercitou um faro de pesquisador/ detetive e foi fundo. Mostrou-se envolvido demais pelo tema. Não diria obcecado, porque é patológico e não faz jus à qualidade do que produziu.”

Marco Haurélio, no texto de apresentação observa que “Leandro não apenas se debruça sobre a tradição oral, sobre os clássicos contados nas feiras europeias e trazidos como folhetos (sem rima e sem métrica, em forma de prosa) para o Brasil a partir de 1808, quando a imprensa torna-se possível. Ele também interfere na forma de crônica na vida do Recife ou de um Nordeste que sofria por conta das secas e tinha em Padre Cícero (cantado por ele em 1910) um mito em ascensão. Era necessário que Arievaldo pusesse um ponto final em sua pesquisa. Ela corria o risco de se confundir com sua própria vida e ser uma daquelas tarefas exaustivas, inconclusas, para as quais uma existência é pouco. Seu Leandro ganha outros matizes, perde o peso do ícone e ganha a leveza da voz. Deixa para todos nós um legado precioso. Que segue para a Paraíba e faz pouso na Popular Editora, visitada por Mário de Andrade, em 1927. Que segue nas mãos de João Martins de Athayde. Que chega a Juazeiro do Norte por meio do alagoano José Bernardo da Silva. Que é “pirateado” tantas vezes que nem dá para dizer por quem.”

O livro de 176 páginas deveria vir acompanhado de uma Antologia com as obras mais expressivas do mestre de Pombal-PB, mas, infelizmente, a dificuldade de encontrar editor interessado fez com que o autor buscasse patrocínio de entidades do movimento sindical como a Fundação Sintaf e o Sindsaúde, além do aval da editora Queima-Bucha, de Mossoró-RN. Só assim foi possível lançar uma primeira edição de apenas mil exemplares para a Bienal do Ceará. Arievaldo espera conseguir o apoio necessário para lançar a obra completa em 2015. Para tanto, já iniciou uma negociação com as Edições Demócrito Rocha.

Poeta atemporal, Leandro também se valeu da sátira para criticar os desmandos de seu tempo: a influência estrangeira em Pernambuco, Estado onde se estabeleceu. Com o chicote da sátira, vergastou os coronéis da Velha República. Pleno de graça, lançou chispas em direção ao clero, sem esquecer os novas-seitas (protestantes) e a justiça (dos tribunais). Ao mesmo tempo, exaltou os cangaceiros liderados por Antônio Silvino, criando o modelo que seria seguido pelos futuros biógrafos de Lampião no cordel: a fusão do cangaceiro nordestino com o cavaleiro andante do Medievo europeu.

Mas o livro reúne, além dos fatos relacionados à vida do poeta, raridades como fotos de familiares do poeta, documentos que esclarecem aspectos antes obscuros da biografia de Leandro. Grande parte do mérito é de Cristina Nóbrega, bisneta de Daniel, irmão de Leandro.  Merecem destaque também as entrevistas enriquecedoras, realizadas com o escritor Pedro Nunes Filho e o consagrado cordelista Paulo Nunes Batista. O primeiro é bisneto de Josefa Xavier de Farias, irmã de Adelaide (mãe de Leandro). O segundo é filho do pioneiro do cordelismo, Francisco das Chagas Batista, grande amigo do criador de Cancão de Fogo, e guarda na memória uma série de episódios interessantes que ouvia de seu irmão Pedro Werta, afilhado do biografado. É este poeta, criador de um gênero literário, estrela mais fulgurante de uma constelação, que mereceu, de Arievaldo Viana, a pesquisa que redundou neste livro. A literatura de cordel agradece. Apenas, para não ser injusto com o biógrafo e o biografado, não direi que Arievaldo retratou com precisão o tempo de Leandro. Simplesmente porque o tempo de Leandro é a eternidade.

SERVIÇO: Dia 10 de dezembro de 2014 - 15h - Abertura do IV Congresso de cordelistas, editores e folheteiros, com a Palestra “A Literatura de Cordel de Inácio da Catingueira, Leandro Gomes de Barros aos dias atuais” com Arievaldo Viana e Arlene Holanda e Lançamento dos livros: Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra de Arievaldo Vianna e Inácio, o Cantador-Rei de Catingueira de Arlene Holanda. Mediação: Antônio Andrade Leal (Tuíca do Cordel)


Local: Praça do Cordel

sábado, 29 de novembro de 2014

Cordelista homenageia comediante mexicano Roberto Gomez Bolaños



O poeta cearense Antônio Carlos da Silva, o Rouxinol do Rinaré, homenageou, em sua conta no Facebook, o comediante mexicano Roberto Gomez Bolaños, mundialmente conhecido por seu papel no seriado Chaves, exibido no Brasil, desde os anos 1980, pelo SBT. Chespirito, como Bolaños era conhecido, morreu ontem, 28 de novembro, aos 85 anos. Abaixo,a homenagem de Rouxinol:

ADEUS, CHAVES! 

Roberto Gómez, o Chaves,
Alegrava multidões.
Gênio do humor ingênuo
Que transcendeu gerações,
Seu riso será eterno
Sempre em nossos corações!

É mais um ícone do riso
Que o mundo está perdendo.
Com aplauso e muita festa
O céu está recebendo
Ele que nos fez sorrir
Sempre “Sem querer querendo!”

Com seu humor inocente
Enchia-nos de alegria.
Nunca usou duplo sentido,
O chulo ou pornografia,
Com sua comédia ingênua
O mundo inteiro sorria!

domingo, 23 de novembro de 2014

Morre seu Lunga. O homem, não a lenda


Joaquim Rodrigues dos Santos, o Lunga, personagem que se tornou lendário por suas respostas aparentemente mal-humoradas, mas plenas de inteligência, não resistiu a um câncer no esôfago e deixou este mundo sábado, dia 22, em Barbalha, Ceará, no hospital São Vicente de Paulo, onde estava internado. Personagem folclórico, seu Lunga protagonizou centenas, talvez milhares, de folhetos de cordel que exploravam sua personalidade forte e suas respostas contundentes. A maior parte desses folhetos, verdade seja dita, é muito ruim,  e banalizava situações que, com o Lunga de carne e osso, deveriam ser bem mais inusitadas.


Para minha (boa) surpresa, o cearense Paulo de Tarso, o Poeta de Tauá, nos brinda com um texto excelente (ainda inconcluso) sobre a partida de Seu Lunga e sua chegada ao Céu. O folheto será lançado, segundo informa o poeta no Facebook, nesta segunda-feira. 
























A chegada de Seu Lunga no Céu
Santo Deus Onipotente
Oh! Virgem santa do véu
Dai-me força e fortaleza
Para eu ganhar meu troféu
E registrar a chegada
Do Seu Lunga lá no céu.
Joaquim Rodrigues dos Santos
O seu nome verdadeiro
Mais conhecido por Lunga
Nesse meu Brasil inteiro
Lá de Caririaçu
Mas morava em juazeiro.
Em dezoito de agosto
Que o Seu Lunga nasceu
Ano era vinte e sete
Conforme o poeta leu
E esse apelido de lunga
Foi a vizinha que deu.
...Em vinte e dois de novembro
Dois mil e quatorze o ano
O Seu Lunga nos deixou
E foi ao Pai Soberano
Para receber de deus
Todo o seu eterno plano.
A viagem foi tranquila
Por toda essa imensidão
Seu Lunga não recebeu
Qualquer incomodação
E chegou muito tranquilo
Lá na sagrada mansão.
Por estar muito tranquilo
Na mansão celestial
São Pedro estava dormindo.
Seu Lunga bem cordial
Disse assim: - Louvado seja
Nosso trio divinal.
Pai, Filho, Espírito Santo
Todos os anjos amém,
Meu "Padim Ciço Romão",
Pra seus romeiros também
Lampião, Luiz Gonzaga
E todo povo de bem.
São Pedro disse: - Seu Lunga
O que fazes por aqui?
E ele sério respondeu:
— Vim buscar manga e pequi,
Cortar cana e descascar
Três dúzias de abacaxi!
Mas São Pedro atordoado
Perguntou muito normal:
Seu Lunga, você morreu?
E o velho bem genial
Disse assim: — Meu bom porteiro,
Vim passar só o Natal!!!....