sexta-feira, 18 de abril de 2014

Duas representações de Nossa Senhora da Piedade

IMAGEM Nº 1: Frei Cipriano da Cruz, Pietà,
cerca de 1685, Coimbra, Museu Machado de Castro
Por José Joaquim Dias Marques

Um dos modos mais interessantes de representar o Cristo morto é a chamada PIETÀ (em português, Nossa Senhora da Piedade), em que a Virgem surge com o filho morto no regaço.
A mãe que chora olhando o filho morto, que já não lhe cabe no colo, como quando era criança, e, pelo contrário, agora ultrapassa de modo tragicamente anormal os limites do regaço, talvez seja o ponto por onde esta representação toca na sensibilidade humana.
As figuras divinas humanizadas (sobretudo a mãe), representadas sofrendo o mesmo que quaisquer seres humanos, possibilitam uma identificação mais fácil com a divindade, que na Pietà deixa de ser um Deus distante, intangível, e se aproxima dos homens.
Esta humanização do divino é ainda mais nítida quando se tem em conta que a Pietà não representa nenhuma cena narrada nos evangelhos, pois nestes se não refere que Cristo, depois de baixado da cruz, tenha sido colocado no colo da mãe. Trata-se, pois, duma invenção moderna, mas de grande poder sugestivo.
As mais antigas pietàs conservadas são alemãs e datam de cerca 1320-1330. Inicialmente eram uma espécie de imagens temporárias, compostas por uma imagem de Nossa Senhora sentada, em cujo regaço se deitava uma imagem de Cristo que se retirava da cruz na Sexta-feira Santa. De notar que, de facto, em várias imagens de Cristo crucificado, o Cristo é “despregável” da cruz e tem braços articulados. Era essa mesma imagem de Cristo que, depois, se retirava do regaço da Virgem e era colocada num caixão, que se passeava na chamada procissão do Enterro do Senhor.
Na Pietà da igreja de Nossa Senhora da Ascensão (VER IMAGEM Nº 2), em Salmdorf, Munique, Alemanha (de cerca de 1340), pode-se observar bem que o Cristo é articulado.
À cena representada na Pietà está ligado o pequeno poema de origem medieval “O VOS OMNES” (ver o texto abaixo), que, sem dúvida pelo dramatismo da situação que evoca, foi posto em música por compositores de variadas épocas e lugares, até hoje.
Portanto, muito havia por onde escolher (por exemplo, a famosa versão de Tomás Luis de Victoria), mas decidi-me por uma versão bem moderna, dum compositor norte-americano nascido em 1983, BLAKE R. HENSON. É cantada pelo coro da escola secundária de Coronado, em Henderson, estado do Nevada, EUA, que me parece dá muito bem conta do recado.

Diz a letra:
“O vos omnes qui transitis per viam,
attendite et videte si est dolor similis sicut dolor meus”
(=Ó vós todos que passeis pelo caminho,
reparai e vede se há dor parecida à minha dor).


José Joaquim Dias Marques é doutorado em Literatura Oral pela Universidade do Algarve, onde é professor auxiliar. Desde 1980, tem-se dedicado à recolha e estudo da literatura oral portuguesa, sobretudo do romanceiro. Sobre este género tradicional publicou numerosos artigos e a ele dedicou a sua tese de doutoramento (A Génese do Romanceiro do Algarve de Estácio da Veiga, 2002). É co-autor (com Isabel Cardigos e Paulo Correia) do Catalogue of Portuguese Folktales (2006). 

Téo Azevedo concorrerá ao Prêmio da Música Brasileira

Recebi, do amigo Cláudio Rogério Guimarães, via e-mail, a notícia abaixo, que mostra, mais uma vez, a competência e o profissionalismo do produtor Téo Azevedo.
Divulgação

Valdo & Vael indicados ao Prêmio da Música Brasileira (Música Regional)

Antônio Carlos de Souza Gomes (Valdo – 13/06/1962) e Eurípedes José de Souza Gomes (Vael – 09/08/1965), filhos do casal Eurípedes de Souza Gomes e Ana de Souza, nasceram na região de Oncinha, distrito de Bocaiuva, Norte de Minas Gerais. Com os pais e mais seis irmãos, batalharam duro no serviço roceiro. Todos eles nasceram com o dom musical herdado do pai, que foi folião de Reis.

O primeiro passo no segmento artístico aconteceu em 1982, quando os dois irmãos fizeram uma dupla sertaneja chamada “Carlinhos & Zezinho”.

Ainda em 1982, em Montes Claros-MG, a dupla participou do Festival Realejo, promovido pela Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas. Na oportunidade, Téo Azevedo e o compositor Josecé Alves Santos tiveram a ideia de fazer uma coletânea só com artistas norte-mineiros. O vinil se chamava “Cantigas do Norte de Minas”, produzido por Téo para o selo Tradições Matutas, de São Paulo. A dupla “Carlinhos & Zezinho” cantou a faixa “Vaqueiro São-franciscano” e se saíram muito bem.

Em 1983, foram convidados a entrar no Terno de Folia de Reis de Alto Belo pelo mestre da época, Téo Azevedo.

Em 1984, o mais velho da dupla, Valdo, tornou-se o mestre do Terno da Folia de Reis de Alto Belo devido a seu grande conhecimento musical e religioso numa folia de Reis. A festa, que acontece anualmente no segundo fim de semana de janeiro, é a mais importante do Brasil nesse segmento. Ao criar a festa, Téo conseguiu juntar a religião católica com a cultura popular, um evento que no decorrer dos anos acabou tornando-se um encontro de todas as vertentes culturais do Brasil.

De 2013 para cá, a organização da festa está sob a batuta do mestre Valdo.

- Catálogo fonográfico da dupla Valdo & Vael:

01 – “Meu Grande Sonho” (Independente - Vinil)
02 – “Minha Decisão” (Independente - Vinil)
03 – “Forró Sertanejo” (Gravadora Pequizeiro - Cd)
04 – “Canto do Povo” (Independente - Cd)
05 – “Valdo & Vael Acústico” (Independente - Cd)
06 – “Quero Ver Alegria” (Independente - Cd)
07 – “Brasil com “S” (Allegretto - Cd)



A dupla tem uma formação de música autêntica de raiz, mas canta várias correntes da música sertaneja, devido aos muitos anos de experiência em barzinhos, boates, praças públicas, circos,programas de rádio e televisão, feiras agropecuárias e em diversas apresentações em parceria com Téo e Rodrigo Azevedo.

O recurso vocal da dupla é de impressionar. Só mesmo quem já ouviu é que sabe o real valor destas duas vozes.

Dos sete trabalhos fonográficos da dupla, cinco foram produzidos por Téo Azevedo, que foi quem descobriu e lançou a dupla em disco.

Finalmente um trabalho de música regional que se vem fazendo há muitos anos começa a gerar frutos. Primeiro com o Grammy Latino conquistado por Téo Azevedo em 2013, prêmio ao qual concorreu com dois álbuns na categoria Música de Raiz,“Salve Gonzagão – 100 Anos”, vencedor, e “Sob o Olhar Januarense”.

Agora Téo foi indicado ao Prêmio da Música Brasileira 2014 com dois trabalhos: “Meu Deus, que país é esse”, Caju & Castanha, e “Brasil com “S”, com a dupla Valdo & Vael. A entrega da premiação será dia 14 de maio de 2014, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Esta premiação em nível nacional substituiu aos antigos Prêmio Sharp da Música Brasileira e Prêmio Tim.

O disco de Valdo & Vael “Brasil com “S”é um autêntico trabalho da verdadeira música caipira brasileira, com temas e melodias inteiramente dentro do gênero e com acompanhamento de acordo com o que pede a produção. Ou seja, dois violões, duas violas, um baixo, um acordeom e uma leve percussão. Com exceção das faixas“Laço de Saudade”, de Vael e Paulo Queiroga, e “Amo-te muito”, de João Chaves, o restante do repertório é de autoria de Téo Azevedo com alguns parceiros, como Capitão Furtado, Braúna, Tony Gomide, Chicão Pereira e Sidnaldo Ezarchi.

É um disco que não pode faltar na coleção de quem gosta da música genuinamente brasileira de raiz.

Contato Valdo & Vael:(38) 9817-7099. Email: valdoevael@yahoo.com.br .
Gravadora Allegretto: (11) 3313-2040. Email: allegretto@allegretto.art.br.
Produtor: Téo Azevedo (38) 9999-9109 / (11) 99900-8141.


Téo Azevedo tem 70 anos de idade, 50 de produção. Tem mais de 3000 mil trabalhos produzidos e cerca de 2500 músicas gravadas, das quais mais da metade se perdeu no tempo. Possui em torno de 700 músicas cadastradas no ECAD. Téo já escreveu mais ou menos 1000 histórias da literatura de cordel. Tem por volta de 30 trabalhos como intérprete, 10 livros sobre cultura popular, é cantador, violeiro, poeta, repentista e contador de causos.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cordel na rede agora no Blog da Nova Alexandria



Em 2007, colaborei com a extinta revista eletrônica Music News, por meio da coluna Cordel na Rede. Depois, criei um blog com este nome, mas parei de atualizá-lo para me dedicar mais a este espaço, o Cordel Atemporal. Pois bem, agora retomei o projeto Cordel na Rede, desta vez em uma coluna semanal, no Blog da Nova Alexandria. A primeira postagem, abaixo reproduzida, vem em ritmo de martelo agalopado:


CHEGANÇA

Peço agora aos leitores do cordel
Um minuto somente de atenção,
Porque nossa poesia do sertão
Já cruzou as barreiras do papel.
Hoje em dia o moderno menestrel
Na Internet também está ligado,
Com o mundo ele está conectado
Pra compor uma nova rapsódia.
Que tem drama, comédia e tem paródia
Nos dez pés de martelo agalopado.

Para ler o texto na íntegra, clique AQUI.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Tarde antológica para um livro mitológico




Hoje, na Livraria Cortez, em grande estilo, foi lançado o livro Os 12 Trabalhos de Hércules, em parceria com o ilustrador Luciano Tasso. O livro é um divisor de águas em minha carreira, e o evento, de certa forma, ajudou a reafirmar o rito de passagem feito ano passado. O lançamento coincide com a celebração dos 10 anos de publicação de LIJ pela Cortez, e marca a minha estreia nesta importante casa editorial.

Um grande e eclético público abrilhantou o evento. O grupo Teatro de Gaia, com Alexandre Acquiste e Sabrina Carvalho, que fez a edição do Contações na Cortez com o nosso livro, foi impagável. Agradeço a todos que compartilharam esse momento. À Livraria Cortez, a primeira a divulgar e comercializar o cordel em São Paulo, e ao editor Amir Piedade, que deu o "imprimatur" para a nossa incursão pelo terreno da mitologia, a minha sincera gratidão!

Evoé!


Com o grande brasileiro Audálio Dantas.
Élia Azevedo e Oswaldo Maulicino.
Luciano Tasso, Moreira de Acopiara e Flavião "Wolverine".
Luciano Tasso, Sérgio Maciel e Dulce Seabra.
Com Margarete, Ivanilson e Luciano Tasso.
Com Claudionor Teles e Luciano Tasso.
Público assiste atento à apresentação dos atores
Alexandre Acquiste e Sabrina carvalho.
Entres os presentes, o mestre Ditinho da Congada
e a ativista cultural Neusa Borges (dir.) .
Com Nireuda Longobardi e Luciano Tasso.
O poeta, cantor e compositor Eduardo Valbueno.
Luciano autografa o exemplar do casal Monalisa e Evelson
e da pequena Ana Laura.
Mestre Aldy Carvalho observa o seu exemplar momentaneamente
 em poder de Luciano Tasso.
Apresentação do grupo Teatro de Gaia
sob o olhar do grande Maurício Negro.
Minha querida amiga Margarete Barbosa.
Luciano Tasso, sua esposa Clarice Chieppe e Luiz Carlos.
A escritora e blogueira Juliana Gobbe.
Reencontro com a amiga dos livros Andrea Régis.
Com a amiga escritora e roteirista Edmara Barbosa.
Luciano, encarnando o Hades,  e o pequeno grande Matheus.
Com Miguel Barros (e Homer Simpson).
Com a pequena Luisa, filha de Valéria Cordero.
Autografando o exemplar de Cícero Pedro de Assis.
O anfitrião Ednilson Xavier dá o alerta geral para o início da contação.
Com o campeão João Gomes de Sá.
Maria José Freitas, a Zeza do Campeão.
Ibys Maceioh, Luiz Carlos Bahia, João Gomes de Sá e Pedro Monteiro.
Minha ex-professora de Inglês na UNEB, Eliana Carvalho,
em fase final de doutoramento na PUC, prestigiou o nosso lançamento.
Marciano Vasques.
O editor Renato Coelho, do blog Passarinho.
Aldy das Barrancas.
Com o amigo Salvador Soares.
Ladeado por Telma Monteiro, mãe do ator Eriberto Leão,
e por seu companheiro Celso.

Com Eduardo Valbueno,  Nireuda Longobardi,
Moreira de Acopiara e Aldy Carvalho.
Com a escritora Goimar Dantas.











domingo, 6 de abril de 2014

Cordelistas homenageiam José Wilker


A inesperada morte do ator José Wilker, aos 66 anos, gerou comoção nacional e não passou em branco no universo do cordel. Fazendo as vezes de jornalistas, como seus colegas do passado, mas usando a Internet como meio de divulgação, os poetas populares relembraram a vida e a obra do celebrado ator cearense. Do conterrâneo Klévisson Viana são os versos abaixo:

Nossa vida aqui na terra
Parece com a lamparina
Tem um pavio que é igual
A sua jornada ou sina
Mas o querosene dela
Ninguém sabe onde termina.

Também pode ser um filme
De longa ou média metragem
O roteiro é um mistério
Fotografia e montagem
Ou mais simples como um curta
Se for bem breve a viagem.

Eu estava de passagem
Na cidade de Natal
Onde fui apresentar
Para o público um recital
Quando alguém falou Zé Wilker
Partiu para o plano astral.

Nesse momento eu parei
Sem querer acreditar
Solicitei para um moço
Para melhor me informar
Ele ligando a TV
Pude logo confirmar.

Foi Zé Wilker apaixonado
Pela a arte que fazia
Amou diversas mulheres
Fez da vida uma poesia
Mas sua paixão mais forte
Foi sempre a dramaturgia.

O filho de Juazeiro
Que tanto nos orgulhou
Não vive mais nesse plano
Partiu mas aqui deixou
A sua arte que é viva
No público que cativou.

Padre Cícero era do Crato
Mas fundou o Juazeiro
José Wilker nasceu lá
E mostrou pra o mundo inteiro
Que Juazeiro não tem
Só penitente e romeiro.

Jô Soares falou dele
Bastante emocionado
O grande Lima Duarte
Também deu o seu recado
De respeito pelo astro
Sua arte e seu legado.

Partiu enquanto dormia
Aos 66 de idade
Para amigos e colegas
Seguiu deixando saudade
E a sua família chora
A triste realidade.

Ceará está de luto
Sofre o Brasil por inteiro
Com a partida tão súbita
Que não tava no roteiro
Do nosso ator José Wilker
O filho de Juazeiro.

(...)


O poeta potiguar Marciano Medeiros registrou a notícia no cordel O nobre ator José Wilker partiu deixando saudade:


O nobre ator José Wilker 
Partiu deixando saudade,
Foi ter encontro com Deus
No plano da eternidade,
Deixando muitas lembranças
Que são flores de esperanças,
Para toda mocidade.

Era muito inteligente
Por filmes tinha paixão,
Interpretou Juscelino
Com bastante exatidão,
Divulgando sua imagem
Deixou bonita mensagem,
Cativando a multidão.

No cinema interpretou
O Antônio Conselheiro,
Mas antes deu vez e voz
Ao bravo Roque Santeiro
Que com viúva Porcina
Viveu paixão peregrina,
Mostrada no estrangeiro.

Menciono aqui chorando
Este sublime papel,
Do personagem marcante
Juntamente ao coronel,
Fizeram audiência alta
Roque e Sinhôzinho Malta,
Numa batalha cruel.

Eu assistia feliz
Essa novela marcante,
Numa TV preto e branco
Tinha frequencia constante,
Cada capítulo esperava:
O outro quando chegava,
Era muito interessante.

Seu sorriso inconfundível
Deixa lembrança singela,
Fazendo nossa memória
Pintar bonita aquarela,
Pois o tempo não destrói
Nem o coração corrói,
Seu brilhantismo na tela.

Natural do Juazeiro
Hoje sua terra chora,
Lembrando do garotinho
Que ali viveu outrora,
Sonhando timidamente;
E depois de adolescente:
A sua vida melhora.

Nosso povo brasileiro
Lamenta profundamente,
Pois com sessenta e seis anos
O grande ator deixa a gente
Por causa do coração,
Fonte de muita emoção
Deixou a vida inclemente.


O baiano radicado Brasília Gustavo Dourado também deixou sua contribuição:

José Wilker foi embora:
Um ator "felomenal"...
Teve grande Amor à Vida:
Um personagem central...
Destaque na televisão:
Quintessência teatral...

Nasceu em Juazeiro do Norte:
Cearense, nordestino...
Em 1946:
Começou o seu destino...
Foi locutor de rádio:
Um intérprete cristalino...

Do Ceará foi-se jovem:
Para o Rio de Janeiro...
Sociologia na PUC:
O teatro vem primeiro...
Deixou a faculdade:
Pra atuar no tabuleiro...

Presença em 51 filmes:
Foi crítico e diretor...
Gostava da narrativa:
Era apresentador...
Em dezenas de novelas:
Destacou-se como ator...

Gabriela, de Jorge Amado:
Foi Vadinho sedutor...
Em filmes de Cacá Diegues:
Bye Bye, Brasil, um primor...
Conquistou vários prêmios:
Molière de Melhor Ator...

Atuou em Xica da Silva:
Foi JK no cinema...
Como Antônio Conselheiro:
Em Canudos, um dilema...
José Wilker com maestria:
Fez da vida um poema...

Roque Santeiro impecável...
Com a viúva Porcina...
Muitos amores na vida:
Amou sua Guilhermina...
Dias Gomes dissecou:
Com atuação cristalina...

Viveu o doutor Hérbet:
Novela Amor à Vida...
Trama de Walcyr Carrasco:
Em sua longa avenida...
Rodrigo, em Anjo Mau:
Foi fecunda a sua lida...

Bicheiro Giovanni Improtta:
Em Senhora do Destino...
Fez Tenório Cavalcanti:
E o Coronel Jesuíno...
Ator de alta qualidade:
Tinha alma de menino...

Sai de Baixo, A Falecida:
Era mestre no humor...
Um craque na narrativa:
Do Oscar, apresentador...
Wilker foi magistral:
Um fenômeno como ator...

Deixo aqui na poesia:
Minha singela homenagem...
Ao grandioso ator:
Que segue a sua viagem:
Pelas sendas do destino:
Além da Terceira Margem... 

O inesquecível intérprete de Roque Santeiro, protagonista da novela homônima de Dias Gomes, levada ao ar pela Rede Globo em 1985 e 1986, realmente fez por merecer todas as homenagens. Por sinal, nesta novela, que evidenciou a literatura de cordel, numa das cenas mais marcantes, o personagem de Wilker descobre, lendo folhetos populares, que se tornara um mito para os habitantes da cidade de Asa Branca, que imaginavam que ele morrera heroicamente. O cordel, ironicamente, cruza novamente o caminho de Wilker agora que ele se tornou saudade.

 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O cordel na literatura infantil e juvenil

Coleção Clássicos em cordel: tradição renovada.

A literatura de cordel, sabemos, despontou no Brasil no século XIX, embora seu embrião, oriundo de Portugal e da Espanha, já alimentasse o romanceiro tradicional desde o início da colonização. Já em 1865, no Recife, a publicação de um folheto em quadras de autor anônimo, O testamento do macaco, chamava a atenção, pelo tom moralizante e ao mesmo tempo bem-humorado:

Tendo feito a diferentes
Animais seu testamento
Justo é que o do macaco
Empreenda neste momento

Muito semelhante, por sinal, a um cordel português igualmente em quadras, O testamento do gallo, publicado em Lisboa quatro anos antes:

Já que estou em meu juízo
Testamento quero fazer
Para meus bens deixar
A quem melhor me parecer.[1]

Edições pioneiras

Foi com Leandro Gomes de Barros (1865-1918) que o cordel desabrochou e alcançou um grande público. Grande empreendedor, este paraibano radicado no Recife burilou os temas preferidos pelo povo, mas se restringiu a isso. Dele são alguns dos maiores sucessos do cordel em todos os tempos, como os romances dramáticos O cachorro dos mortos, A força do amor, Os sofrimentos de Alzira e A vida de Pedro Cem. Dele são, ainda, os folhetos cômicos O cavalo que defecava dinheiro e O dinheiro (O enterro do cachorro), que, reaproveitados por Ariano Suassuna, inspiraram a peça Auto da Compadecida. O outro folheto que inspirou o Auto é O castigo da soberba, atribuído a outro poeta pioneiro, o também paraibano Silvino Pirauá de Lima (1848-1913).

Leandro Gomes de Barros ainda deu vida a um conto popular, a História de Juvenal e o Dragão, que, recontada em versos, vem encantando gerações em mais de um século de reedições ininterruptas. O seu enredo, que traz o mais arquetípico conto de herói, é a maior razão deste sucesso, e Juvenal e o Dragão pode ser considerado um dos primeiros cordéis infantis do Brasil. Não que, no tempo de Leandro, houvesse essa distinção, mas a razão de ser um dos preferidos dos pequenos leitores — ao longo dos anos, ao lado, talvez, de outro grande clássico, o Romance do Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Resende, escrito na década de 1920 — ratifica esta afirmação.

Outro patriarca do cordel, João Martins de Athayde (1880-1959), que se tornaria o grande editor do gênero no Brasil, homem de grande visão mercadológica, é autor de Raquel e a fera encantada, uma versão do conto A Bela e a Fera, e de História da princesa Eliza, que recria o conto Os cisnes selvagens, de Hans Christian Andersen. A bem da verdade, Athayde serviu-se de uma adaptação feita por Figueiredo Pimentel, Os onze irmãos da princesa, que integra a obra Contos da carochinha, publicada, pela primeira vez, em 1894. Manoel D’Almeida Filho (1914-1995), outro visionário, tentou, na década de 1980, publicar um livro infantil em cordel, que conteria duas histórias: A guerra dos passarinhos e O casamento do bode com a raposa. A primeira foi publicada pela primeira vez em 2011, na Antologia do cordel brasileiro (Global Editora), e logo em seguida ganhou uma edição pocket na Luzeiro, editora que detém os direitos sobre a obra. Há que se destacar ainda a iniciativa do poeta Marcus Aciolly que, em 1980, lançou Guriatã, um cordel para menino, ilustrado com linoleogravuras do mestre pernambucano José Cavalcante Soares, o Dila.

Tradição renovada

Um novo momento na história do cordel é instaurado a partir do emblemático evento 100 Anos do Cordel, idealizado pelo premiado escritor e jornalista alagoano Audálio Dantas, e realizado no SESC Pompeia, em 2001. A iniciativa, que se apoiava na ideia do início da produção regular do cordel a partir da cidade do Recife, no início do século XX, perfazendo, portanto, cerca de 100 anos, foi imprescindível para que o mercado editorial olhasse “com outros olhos” (sic.) a literatura bárdica do Nordeste. Mesmo assim, os investimentos iniciais foram tímidos e, aqui e ali, surgia uma publicação ainda carente de uma identificação maior com os temas clássicos do cordel.

A grande mudança veio em 2007, com a criação da coleção Clássicos em Cordel, idealizada por Nelson dos Reis, fundador da editora Nova Alexandria. Sem reivindicar o pioneirismo na ideia da adaptação de obras clássicas para a poesia popular, presente desde os tempos de Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, o projeto inovou ao enquadrar a mesma ideia em um projeto de coleção que abrangesse obras de diversos autores adaptadas livremente por poetas cordelistas. Já em seu primeiro ano, a editora emplacou três títulos no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) — Os miseráveis, de Klévisson Viana, O corcunda de Notre-Dame, de João Gomes de Sá, e A megera domada, de Marco Haurélio — e, até o momento, já conta com seis obras selecionadas pelo mesmo programa.


A Nova Alexandria, em seu selo Volta e Meia, publicou uma adaptação em quadrinhos, assinada por Klévisson Viana e Eduardo Azevedo, do grande épico do cordel A batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros. E, ilustrada pelo mesmo Eduardo, reeditou o clássico Juvenal e o Dragão, mantendo a integridade do texto original, e o romance O guarda-florestas e o capitão de ladrões, do poeta contemporâneo Rouxinol do Rinaré. Outro destaque do catálogo é O fantástico mundo do cordel, da escritora cearense Arlene Holanda, que traz um belo conto, de cores afetivas, e, no apêndice, apresenta as regras básicas para a composição de um folheto de cordel. 

Vale citar aqui a parceria do cordelista Arievaldo Viana com o ilustrador Jô Oliveira, que rendeu títulos como O navegador João de Calais e sua amada Constança (FTD) e A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau (Globinho). E destacar o papel de protagonistas assumido por nomes como Arlene Holanda, Klévisson Viana, Paiva Neves, Moreira de Acopiara e Evaristo Geraldo e outros descortinadores de horizontes da literatura de cordel brasileira. 

Marco Haurélio






[1] Ver Vera Lúcia de LUNA E SILVA. Primórdios da Literatura de Cordel no Brasil – um folheto de 1865

terça-feira, 1 de abril de 2014

ALEGORIA

A persistência da memória, de Dalí.















Por uma estrada comprida
Vão a Verdade e a Mentira.
Uma afirma e a outra nega,
Uma põe e a outra tira.
Ao lado de ambas caminha
Uma intrusa, a Falsidade.
Esta, apontando a Mentira
Diz se tratar da Verdade.
A Justiça ainda tenta
A Verdade defender,
Mas, com os olhos vendados,
Bem pouco pode fazer.
A Razão também procura
Algum esclarecimento,
Porém Razão sem Justiça
É mesa sem alimento.
A Verdade, atordoada,
Segue o estranho comboio.
Assim joio vira trigo,
E trigo torna-se joio.
Só mesmo o tempo responde 
Algumas velhas questões,
Porém o tempo do Tempo
Não cede às vãs ilusões
Quem, sem Razão, não dissipa
As névoas da Falsidade
Vê na Verdade a Mentira
E na mentira a Verdade.
E assim, na estrada da vida,
Seguem, sem achar o chão,
A Falsidade, a Mentira,
A Justiça e a Razão.
Marco Haurélio


domingo, 30 de março de 2014

A xilogravura popular na literatura de cordel


Em 2007, o casamento da xilogravura com a literatura de cordel completou cem anos. Para celebrar a data, o pesquisador Jeová Franklin e a produtora cultural Ana Peigon organizaram, em Brasília, um evento que, na palestra de abertura, contou com a presença do mítico Ariano Suassuna. A convite de Arievaldo Viana, escrevi, em parceria com ele um folheto, Cem Anos da Xilogravura na Literatura de  Cordel, publicado pela editora Queima-Bucha, de Mossoró (RN).

O folheto, composto em setilhas, está abaixo reproduzido:

Brasília está promovendo
Uma festa de cultura
Que trata sobre os 100 anos
Da nossa Xilogravura,
Impressa sobre o papel
Dos folhetos de cordel,
Popular literatura.
O cordel é mais antigo
Vem do século dezenove
Com Leandro e Pirauá
Começou, ninguém reprove
Minha rima, pois agora
Eu ando Nordeste afora
E tiro a prova dos nove!
Outros pioneiros são
João Melchíades Ferreira,
Galdino da Silva Duda,
Um poeta de primeira,
Francisco Chagas Batista
Também foi um grande artista
Da cultura brasileira.
Mil novecentos e sete,
Conforme a história apura,
Foi o ano em que o cordel
Casou com a xilogravura.
Num “taco” bem pequenino
Gravaram Antônio Silvino
Numa tosca iluminura.
Antes disso, só havia
A chamada “capa cega”,
Com letras e arabescos.
Assim a história prega
E quem conhece a história,
Puxando pela memória,
Essa verdade não nega.


Agora eu quero falar
De um grande historiador:
É nosso Jeová Franklin,
Poeta e pesquisador,
Da cultura popular
E é quem pode atestar
Da gravura o seu valor.
Ana Peigon é a produtora
Dessa mega-exposição.
Ao lado de Jeová
Tem feito a divulgação
Desse evento grandioso
Que já se tornou famoso
De norte a sul da nação.
Ariano Suassuna,
Ícone da nossa cultura
Que encantou o Brasil
Com sua Literatura,
Também presente estará
Ao lado de Jeová
Na palestra de abertura.
Jeová é o detentor
De uma grande coleção
De gravuras populares,
A maior desta nação.
De Damásio a Walderêdo,
Ele conhece o enredo
Da gravura no sertão.
Tem obras de J. Borges,
João Pereira e Mestre Noza,
Tem xilos de Minelvino,
Que foi bom em verso e prosa,
Tem Dila, tem Abraão,
Eu, que vi tal coleção,
Atesto ser valiosa.
Tem de Marcelo Soares
Que é grande figura humana,
Xilos de Stênio Diniz,
Outra pessoa bacana.
De Zé Bernardo ele é neto,
Um grande artista, inquieto,
Cujo valor sempre emana.
Dessa nova geração
Cito Erivaldo primeiro,
Zé Lourenço, Francorli,
João Pedro do Juazeiro,
Tem Ciro, outro gravador,
Um grande batalhador
Lá no Rio de Janeiro.
João Pedro do Juazeiro
É artista singular,
Escreveu até um livro
Sobre a arte de gravar.
Nas cidades nordestinas,
Faz palestras, oficinas,
Com o intuito de ensinar.
Mas voltemos à gravura
Feita por anônimo artista
Que ilustra um folheto
Do grande Chagas Batista.
Mil novecentos e sete
É a data a que remete
O início dessa lista.
Tempos depois n'O Rebate,
Um jornal de Juazeiro,
Surge uma seção de trovas,
Onde vê-se um violeiro,
Talhado em xilogravura,
Arte sublime e tão pura,
Presente no mundo inteiro.
Na gravura popular,
Uma escola muito forte
É a que ainda produz
Em Juazeiro do Norte,
Desde o passado milênio,
Que teve e tem em Stênio,
O verdadeiro suporte.
Pernambuco também traz
Contribuição certeira
No traço de Manoel
Apolinário Pereira.
Outro artista genuíno
Foi Cirilo ou Severino
Gonçalves de Oliveira.
Da mesma escola saído,
Com talento e sem enfeite,
Seu traço característico
É pra muitos um deleite.
É um poeta afamado
E um xilógrafo respeitado
Nosso José Costa Leite.
Jerônimo, que hoje respira
Em São Paulo novos ares,
Com seu traço singular,
Está em vários lugares.
A sua arte se expande,
Pois ele é filho do grande
Poeta José soares.
Também Marcelo Soares,
Que é de Jerônimo irmão,
Desenvolveu um estilo,
Que já beira a perfeição.
E ele, além de gravador,
É também um trovador
Pleno de inspiração.
J.Borges de Bezerros
Possui traço primoroso,
É A Prostituta no Céu
O seu taco mais famoso.
Ele é poeta e editor,
Com quem o Pai Criador
Foi bastante generoso.
O João Antônio de Barros
É de Glória do Goitá.
Com o nome de Jota Barros
Ele se projetará
No verso e na ilustração
E também na Coleção
Famosa de Jeová.
Dila é outro gravador,
Que possui boa figura.
Trabalhando na borracha,
Criou a linogravura.
Lampião, Rei do Cangaço,
Está presente em seu traço
E em sua literatura.
Na Bahia, Minelvino,
Que foi poeta e editor,
Escreveu a sua história
Também como gravador.
Co’ inspiração soberana
Ele traçou na umburana
Fé, caridade e amor.
Também deve ser citado,
Da terra de Minelvino,
Franklin Cerqueira Maxado,
O Maxado Nordestino,
Trovador e ensaísta
Que optou por ser artista,
Forjando o próprio destino.
Em Alagoas, a terra
Dos guerreiros de Palmares,
Floresceu a arte do
Poeta Enéias Tavares,
Que escreveu sobre João Grilo
E no cordel e na xilo
Possui obras singulares.
Não esqueçamos Nireuda,
Gravadora potiguar,
O mestre Antônio Lucena,
Que era bom no versejar.
Assim, a xilogravura,
Com nomes desta estatura,
Têm muito a comemorar.
E José Martins dos Santos
Não pode ser olvidado:
Com O Soldado Francês
Ou O Baralho Sagrado,
Fez com traço harmonioso
Um tema muito famoso,
Já por Leandro versado.
Dizem que José Camelo,
Cordelista talentoso,
Também fez xilogravuras
Com um traço primoroso.
Escreveu, com maestria,
Coco Verde e Melancia
E O Pavão Misterioso.
A gravura popular
Está muito divulgada
Até no primeiro mundo
É exposta e pesquisada
Arte simples do sertão
Na Europa e no Japão
Se tornou admirada.
Brasília que sempre foi
Porto de muitas culturas
Vai expor em grande estilo
A coleção de gravuras
Que vale mais do que ouro,
Um verdadeiro tesouro
Para as gerações futuras.