terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Aguardada biografia de Leandro Gomes de Barros será lançada na Bienal do Livro do Ceará

 

Lançamento da biografia de Leandro Gomes de Barros antecipa comemorações do sesquicentenário do mestre da Literatura de Cordel

Texto: Divulgação.

O escritor cearense Arievaldo Vianna lançará biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros na abertura do IV Congresso de cordelistas, editores e folheteiros, que acontecerá dia 10/12, no Espaço do Cordel, durante a XI Bienal Internacional do Livro do Ceará. O lançamento antecipa as comemorações pelo sesquicentenário de nascimento do poeta, que acontecerá no dia 19 de novembro de 2015. O autor já recebeu convite para lançar a obra na cidade de Pombal-PB, berço do grande cordelista, em março do ano que vem. Para o escritor paraibano Bráulio Tavares, em artigo publicado num jornal daquele estado por ocasião dos 90 anos de morte de Leandro Gomes de Barros, realizar uma biografia do poeta com as poucas informações que subsistiram à ação do tempo é a mesma coisa que catar confetes na rua um mês depois do carnaval.

Arievaldo Vianna encarou o desafio e apresenta um trabalho amparado em fotos, documentos e informações inéditas sobre a vida e obra de Leandro. Na opinião do poeta e pesquisador baiano Marco Haurélio, que assina o texto de apresentação, “trata-se da biografia do nosso mais importante poeta popular, Leandro Gomes de Barros, patriarca da literatura de cordel e autor de, pelo menos, vinte clássicos incontestáveis do gênero. Ari salda o débito que contraiu com o mestre paraibano desde que foi apresentado, na infância, pela avó Alzira de Souza Lima (1912-1994) ao grande pícaro Cancão de Fogo, espécie de Lazarillo de Tormes sertanejo, e maior criação de Leandro.”

O grande vate paraibano é autor de dois folhetos que influenciaram Ariano Suassuna na criação de sua obra mais famosa, o Auto da Compadecida. Trata-se de O Dinheiro (ou O testamento do Cachorro), de 1909 e O cavalo que defecava dinheiro. Em artigo que escreveu e publicou em 1976, Carlos Drummond de Andrade considera o poeta “Rei da poesia sertaneja” e reivindica para ele o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, que na verdade foi concedido a Olavo Bilac, em 1913. Esse polêmico artigo de Drummond é cuidadosamente analisado em um dos capítulos da biografia escrita por Arievaldo. Segundo o autor, foi uma pesquisa árdua e persistente, ao longo dos últimos dez anos, sem contar com apoio financeiro de qualquer espécie, apenas a colaboração de amigos que também admiram a obra do grande poeta.

Na opinião do professor Gilmar de Carvalho, respeitado estudioso da cultura popular e, em especial do Cordel, “Leandro é daquelas unanimidades a favor. Inegável que foi o grande nome do folheto e um dos sistematizadores da edição de cordéis no Brasil, com rima, métrica e folheto múltiplo de quatro páginas, com capa gráfica, no início, e com xilogravura, tempos depois. Curiosa essa passagem do violeiro para o poeta de bancada. Importante compreender como a maquinaria obsoleta para os grandes centros se interiorizava e dava lugar a jornais políticos e depois a uma atividade que movimentou a economia, que revolveu nossas camadas de memória e se fixou no imaginário social.”

Gilmar, que assina o prefácio da obra, afirma que “Leandro pode ser colocado, sem exagero, nas bases disso tudo. Não vale atribuir a ele um pioneirismo dissociado do contexto em que vivia e atuava. Ele existiu porque existiram os cantadores da Serra do Teixeira, na Paraíba, os folcloristas como Sílvio Romero, Rodrigues de Carvalho e Gustavo Barroso, os revendedores e agentes das casas editoras e os leitores ávidos pelos clássicos e pelas novidades trazidas por esta Indústria Cultural de bases assentadas na tradição popular.”

Apesar disso, reconhece Gilmar, que Leandro não tem tido o reconhecimento que lhe é devido. Temos algumas biografias tímidas, coletâneas de folhetos da Casa de Rui Barbosa, uma “Bibliografia Prévia”, de Sebastião Nunes Batista. Ultimamente, foram defendidas algumas teses nos programas de pós-graduação em Literatura e Linguística, mas tudo muito esparso, e fica cada vez mais difícil reunir tanta informação. Arievaldo não se propõe a juntar o que foi feito. Isso seria fácil nestes tempos de processadores de textos, programas de edição e de imagens e sítios virtuais. Ele foi além e buscou muitas coisas que ninguém buscara antes. Exercitou um faro de pesquisador/ detetive e foi fundo. Mostrou-se envolvido demais pelo tema. Não diria obcecado, porque é patológico e não faz jus à qualidade do que produziu.”

Marco Haurélio, no texto de apresentação observa que “Leandro não apenas se debruça sobre a tradição oral, sobre os clássicos contados nas feiras europeias e trazidos como folhetos (sem rima e sem métrica, em forma de prosa) para o Brasil a partir de 1808, quando a imprensa torna-se possível. Ele também interfere na forma de crônica na vida do Recife ou de um Nordeste que sofria por conta das secas e tinha em Padre Cícero (cantado por ele em 1910) um mito em ascensão. Era necessário que Arievaldo pusesse um ponto final em sua pesquisa. Ela corria o risco de se confundir com sua própria vida e ser uma daquelas tarefas exaustivas, inconclusas, para as quais uma existência é pouco. Seu Leandro ganha outros matizes, perde o peso do ícone e ganha a leveza da voz. Deixa para todos nós um legado precioso. Que segue para a Paraíba e faz pouso na Popular Editora, visitada por Mário de Andrade, em 1927. Que segue nas mãos de João Martins de Athayde. Que chega a Juazeiro do Norte por meio do alagoano José Bernardo da Silva. Que é “pirateado” tantas vezes que nem dá para dizer por quem.”

O livro de 176 páginas deveria vir acompanhado de uma Antologia com as obras mais expressivas do mestre de Pombal-PB, mas, infelizmente, a dificuldade de encontrar editor interessado fez com que o autor buscasse patrocínio de entidades do movimento sindical como a Fundação Sintaf e o Sindsaúde, além do aval da editora Queima-Bucha, de Mossoró-RN. Só assim foi possível lançar uma primeira edição de apenas mil exemplares para a Bienal do Ceará. Arievaldo espera conseguir o apoio necessário para lançar a obra completa em 2015. Para tanto, já iniciou uma negociação com as Edições Demócrito Rocha.

Poeta atemporal, Leandro também se valeu da sátira para criticar os desmandos de seu tempo: a influência estrangeira em Pernambuco, Estado onde se estabeleceu. Com o chicote da sátira, vergastou os coronéis da Velha República. Pleno de graça, lançou chispas em direção ao clero, sem esquecer os novas-seitas (protestantes) e a justiça (dos tribunais). Ao mesmo tempo, exaltou os cangaceiros liderados por Antônio Silvino, criando o modelo que seria seguido pelos futuros biógrafos de Lampião no cordel: a fusão do cangaceiro nordestino com o cavaleiro andante do Medievo europeu.

Mas o livro reúne, além dos fatos relacionados à vida do poeta, raridades como fotos de familiares do poeta, documentos que esclarecem aspectos antes obscuros da biografia de Leandro. Grande parte do mérito é de Cristina Nóbrega, bisneta de Daniel, irmão de Leandro.  Merecem destaque também as entrevistas enriquecedoras, realizadas com o escritor Pedro Nunes Filho e o consagrado cordelista Paulo Nunes Batista. O primeiro é bisneto de Josefa Xavier de Farias, irmã de Adelaide (mãe de Leandro). O segundo é filho do pioneiro do cordelismo, Francisco das Chagas Batista, grande amigo do criador de Cancão de Fogo, e guarda na memória uma série de episódios interessantes que ouvia de seu irmão Pedro Werta, afilhado do biografado. É este poeta, criador de um gênero literário, estrela mais fulgurante de uma constelação, que mereceu, de Arievaldo Viana, a pesquisa que redundou neste livro. A literatura de cordel agradece. Apenas, para não ser injusto com o biógrafo e o biografado, não direi que Arievaldo retratou com precisão o tempo de Leandro. Simplesmente porque o tempo de Leandro é a eternidade.

SERVIÇO: Dia 10 de dezembro de 2014 - 15h - Abertura do IV Congresso de cordelistas, editores e folheteiros, com a Palestra “A Literatura de Cordel de Inácio da Catingueira, Leandro Gomes de Barros aos dias atuais” com Arievaldo Viana e Arlene Holanda e Lançamento dos livros: Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra de Arievaldo Vianna e Inácio, o Cantador-Rei de Catingueira de Arlene Holanda. Mediação: Antônio Andrade Leal (Tuíca do Cordel)


Local: Praça do Cordel

sábado, 29 de novembro de 2014

Cordelista homenageia comediante mexicano Roberto Gomez Bolaños



O poeta cearense Antônio Carlos da Silva, o Rouxinol do Rinaré, homenageou, em sua conta no Facebook, o comediante mexicano Roberto Gomez Bolaños, mundialmente conhecido por seu papel no seriado Chaves, exibido no Brasil, desde os anos 1980, pelo SBT. Chespirito, como Bolaños era conhecido, morreu ontem, 28 de novembro, aos 85 anos. Abaixo,a homenagem de Rouxinol:

ADEUS, CHAVES! 

Roberto Gómez, o Chaves,
Alegrava multidões.
Gênio do humor ingênuo
Que transcendeu gerações,
Seu riso será eterno
Sempre em nossos corações!

É mais um ícone do riso
Que o mundo está perdendo.
Com aplauso e muita festa
O céu está recebendo
Ele que nos fez sorrir
Sempre “Sem querer querendo!”

Com seu humor inocente
Enchia-nos de alegria.
Nunca usou duplo sentido,
O chulo ou pornografia,
Com sua comédia ingênua
O mundo inteiro sorria!

domingo, 23 de novembro de 2014

Morre seu Lunga. O homem, não a lenda


Joaquim Rodrigues dos Santos, o Lunga, personagem que se tornou lendário por suas respostas aparentemente mal-humoradas, mas plenas de inteligência, não resistiu a um câncer no esôfago e deixou este mundo sábado, dia 22, em Barbalha, Ceará, no hospital São Vicente de Paulo, onde estava internado. Personagem folclórico, seu Lunga protagonizou centenas, talvez milhares, de folhetos de cordel que exploravam sua personalidade forte e suas respostas contundentes. A maior parte desses folhetos, verdade seja dita, é muito ruim,  e banalizava situações que, com o Lunga de carne e osso, deveriam ser bem mais inusitadas.


Para minha (boa) surpresa, o cearense Paulo de Tarso, o Poeta de Tauá, nos brinda com um texto excelente (ainda inconcluso) sobre a partida de Seu Lunga e sua chegada ao Céu. O folheto será lançado, segundo informa o poeta no Facebook, nesta segunda-feira. 
























A chegada de Seu Lunga no Céu
Santo Deus Onipotente
Oh! Virgem santa do véu
Dai-me força e fortaleza
Para eu ganhar meu troféu
E registrar a chegada
Do Seu Lunga lá no céu.
Joaquim Rodrigues dos Santos
O seu nome verdadeiro
Mais conhecido por Lunga
Nesse meu Brasil inteiro
Lá de Caririaçu
Mas morava em juazeiro.
Em dezoito de agosto
Que o Seu Lunga nasceu
Ano era vinte e sete
Conforme o poeta leu
E esse apelido de lunga
Foi a vizinha que deu.
...Em vinte e dois de novembro
Dois mil e quatorze o ano
O Seu Lunga nos deixou
E foi ao Pai Soberano
Para receber de deus
Todo o seu eterno plano.
A viagem foi tranquila
Por toda essa imensidão
Seu Lunga não recebeu
Qualquer incomodação
E chegou muito tranquilo
Lá na sagrada mansão.
Por estar muito tranquilo
Na mansão celestial
São Pedro estava dormindo.
Seu Lunga bem cordial
Disse assim: - Louvado seja
Nosso trio divinal.
Pai, Filho, Espírito Santo
Todos os anjos amém,
Meu "Padim Ciço Romão",
Pra seus romeiros também
Lampião, Luiz Gonzaga
E todo povo de bem.
São Pedro disse: - Seu Lunga
O que fazes por aqui?
E ele sério respondeu:
— Vim buscar manga e pequi,
Cortar cana e descascar
Três dúzias de abacaxi!
Mas São Pedro atordoado
Perguntou muito normal:
Seu Lunga, você morreu?
E o velho bem genial
Disse assim: — Meu bom porteiro,
Vim passar só o Natal!!!....


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Boas lembranças da FeliS


Estive, entre os dias 3 e 6 de novembro, em São Luís, para participar da tradicional Feira do Livro que, nesta edição, apresentou como tema a Literatura Infantil e como patrono a prata da casa Wilson Marques. Dia 4, além de uma palestra que enfocou a presença do cordel na Literatura Infantil, já no fim da tarde, foi lançado, às 19h, o livro Contos e Lendas da Terra do Sol (Folia de Letras), meu e de Wilson Marques.

No Salão Nobre do Teatro Artur Azevedo,
com Pedro Bandeira e Salgado Maranhão.
Da Feira, entre tantas boas lembranças, as conversas com, Maurício Melo Junior, Luís Gutenberg, além do passeio pela São Luís velha com Salgado Maranhão e Pedro Bandeira, guiados por Thiago Gaspar. Reencontrei, ainda, o cordelista cearense

Paulo de Tarso, que instalou uma banca no coração da Feira com enorme sucesso. Inesquecível também foi o jantar em companhia de Wilson Marques, Rosinha e Ninfa Parreiras.

Rosa Maria. a Rosinha, grande divulgadora da
Literatura Infantil e Juvenil no Maranhão.
Meu apreço e gratidão por Celso Borges, Paixão, Thiago Gaspar, Elen Oliveira e toda a turma que nos acompanhou nestes três dias de permanência na terra de Gonçalves Dias. 

Rosinha e  sua mãe, Maria das Dores (Dadole), retransmissora
do conto Corpinho de Pau, do livro Contos e Lendas da Terra do Sol.
No Mercado das Tulhas, com Pedro Bandeira e Salgado Maranhão.
Assinando o exemplar de "Dadole".


Poeta Marciano Medeiros cria a Editora Bisel



Texto: Divulgação

O poeta cordelista Marciano Medeiros já contabiliza mais de vinte folhetos produzidos. O autor começou a desvendar o mundo das rimas em 2007, ano no qual lançou sua primeira obra. Desde então foi se aperfeiçoando de modo gradativo e muito aprendeu, principalmente com seu primo Helânio Moreira, Antônio Francisco, Paulo Varela, Abaeté do Cordel, Manoel Cavalcante, Rosa Regis, Marcos Medeiros, José Acaci, Varneci Nascimento, Aderaldo Luciano, o poeta Marco Haurélio e grandes expoentes da cantoria, que, embora seja diferente do folheto, é uma parenta próxima do cordel.

Marciano Medeiros está ficando conhecido por fazer biografias de personalidades marcantes da história brasileira: relembrou Clara Camarão, Virgolino Ferreira da Silva (Lampião), Teotônio Vilela, Ronaldo Cunha Lima, os deputados Antônio Jácome e Vivaldo Costa, Diógenes da Cunha Lima, Luís da Câmara Cascudo, Marinho Chagas, poetisa Rita de Cássia Soares, jornalista Joaquim Pinheiro, o ex-governador Eduardo Campos, entre outros nomes. Por isso, seu amigo e pesquisador Gutenberg Costa, começou a chamar Marciano de o poeta das biografias.


Seu trabalho mais recente é um romance de ficção intitulado Lindo amor que floresceu nas páginas do Facebook. O cordelista, nascido em Santo Antônio e com origem familiar de Serra de São Bento, cidade que ama e onde reside atualmente, elaborou uma longa e surpreendente narrativa. Em pouco mais de duas semanas do lançamento ocorrido em 5 de novembro de 2014, vendeu metade da 1° edição e já se prepara para uma segunda reimpressão do trabalho, que tem despertado muito interesse entre adultos, mas principalmente no meio estudantil, que está apreciando a tecnologia vista na narrativa de um cordel.

A grande novidade trazida pelo autor é a fundação da Editora Bisel. Ao lembrar este nome anteriormente mencionado, está fazendo uma homenagem a seu bisavô paterno, José Gomes Crisanto, que tinha esse apelido. O artista Braga Santos fez o desenho e o diagramador Henrique Eduardo, elaborou a logomarca que a partir de agora constará em todas as futuras publicações de Marciano. Ele disse ter ficado muito feliz em poder realizar esta homenagem e que a família aprovou com emoção a sua iniciativa.

Que o poeta Marciano Medeiros continue sua luta na defesa do folheto, conseguindo redigir muitas obras de sucesso pela Editora Bisel.




sábado, 15 de novembro de 2014

Jornada Literária na Amazônia



Depois de três dias de trabalho e brincadeiras pelo glorioso estado do Amazonas, o maior da nossa república federativa, estou de volta a São Paulo. Participei, a convite de Adrianni Neves, do projeto Diálogos ao Pé do Ouvido, que foi apoiado pelo Ministério da Cultura e, na edição inaugural, homenageou o grande poeta Augusto dos Anjos. Além de mim, que tive a honra de ser o patrono desta aventura, participaram os autores Antônio Pinto Ferraz, Rafael Alvarenga, Francine Cruz, Vanessa Labarrere, Custódia Volney, Gélson Leite, Alex Bonifácio e Aguinaldo Tadeu. 

O projeto foi executado, além de Manaus, nas cidades de Iranduba e Novo Airão. Nesta última, aproveitamos, ainda, para visitar os seres encantados do rio Negro, os botos vermelhos, para o resto do Brasil, cor de rosa, lamentavelmente ameaçados de extinção.


Agradeço a Adrianni, a Fran e a todos que somaram esforços para que a iniciativa fosse um sucesso.


À noite, reencontro com os amigos Letícia e Joaquim Soares
 (e os pequenos Iasmin e João).
Bate-papo com os alunos em Novo Airão.

No Palácio da Justiça(hoje transformado em museu). Ao fundo, o Teatro Amazonas.
Em Iranduba, levando o cordel aos alunos da rede municipal.
Custódia Volney, em Novo Airão.

Autógrafos.
Gélson Leite anima a criançada em escola de Manaus.
Alex Bonifácio, Adrianni Neves, Gélson Leite e Vanessa Labarrere.
Com os escritores que tomaram parte no projeto em Novo Airão.

Gélsom Leite e Adrianni. Momento de descontração em Ponta negra, Manaus.
Em Ponta Negra, Manaus.
Os donos do rio.
Em Novo Airão. Ao fundo, o imponente rio Negro.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Cordel no Sítio do Picapau Amarelo

Cordel em debate: Moreira de Acopiara, Jô Oliveira e Marco Haurélio.
Mediação: Cristiane Cobra.

Este ano tive a honra de participar, pela primeira vez, do LIGAÇÃO – Literatura Infantojuvenil, Games e Artes em Ação, evento realizado na cidade de Taubaté, no Sítio do Picapau Amarelo, cenário da infância do escritor Monteiro Lobato. Participei, a convite de Cristiane Cobra, no dia 11, professora e pesquisadora da poesia popular, de uma mesa, Cordel em Debate, que contou ainda com o poeta Moreira de Acopiara e com o artista plástico Jô Oliveira.

Várias atividades culturais no Sítio, algumas delas com amigos queridos, como Penélope Martins, José Santos e Selma Maria, levaram às crianças histórias, poemas e canções, fechando com chave de ouro a Semana da Criança no berço do criador da Literatura Infantil Brasileira e grande incentivador da leitura.

Agradeço a Márcia Moura, Cristiane Cobra idealizadora do evento, Mariana Ribeiro e toda a equipe do LIGAÇÃO pelos momentos que guardarei no meu relicário de ouro. 

Com a escritora Penélope Martins.
Jô Oliveira, Penélope Martins, eu e Moreira.
Bate-papo durante o café da manhã.José Santos,
Moreira, eu, Selma Maria e Penélope.
Oficina de maracatu. No batuque, Penélope. Jô e Iskra de Oliveira.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ariano Suassuna e as vozes do povo





A revista Ponto (SESI-SP Editora), de outubro, traz um artigo de minha autoria em homenagem a Ariano Suassuna. Traz, ainda, ilustrações do pernambucano Jô Oliveira. E, de quebra, uma pequena antologia com homenagens feitas a Ariano por poetas populares, como Klévisson Viana, Bule-Bule, Pedro Monteiro e Paulo de Tarso. 

O ponto de partida foi o artigo que escrevi para o blogue da Nova Alexandria  por ocasião da morte de Ariano. A presença do cordel na obra do grande dramaturgo, poeta e romancista foi o mote que escolhi por razões que, por óbvias, me esquivo de explicar. 

Para acessar a versão digital da revista,clique aqui


O pai assassinado se transfigura em rei na ilustração de Jô Oliveira.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Shakespeare em cordel




Publicado pela Amarylis, selo infantojuvenil da editora Manole, Rei Lear em cordel traz ilustrações de Jô Oliveira. A obra faz parte das comemorações dos 450 anos de nascimento de William Shakespeare. Já foi publicada pela mesma editora Sonhos de uma noite de verão, de Arievaldo Viana, e, em breve, sairá Muito barulho por nada, de José Santos. 

Abaixo, a apresentação, que tem a minha assinatura:

Entre a história e a lenda

O drama do rei que, já na idade madura, sofre as consequências trágicas de uma ação imprudente, rendeu uma das mais celebradas peças de William Skakespeare, Rei Lear.  Antes de figurar no bloco de tragédias do dramaturgo inglês, o tema já havia sido aproveitado em outras obras, a exemplo da Historia regum britaniae (História dos reis da Bretanha), do galês Godofredo de Monmouth, datada de 1147, e da Gesta romanorum, coletânea de contos e anedotas do século XIII. Nesta última, o imperador romano Teodósio é personagem de uma trama semelhante à concebida por Shakespeare. Na tradição oral brasileira, inclusive, há contos do “ciclo do Rei Lear”, a exemplo de O rei Andrada, publicado em 1885 nos Contos populares do Brasil, de Sílvio Romero.

Na obra de Shakespeare, o velho tema folclórico recebe um tratamento grandioso. Lear, o octogenário rei da Bretanha, resolve testar as três filhas, Goneril, Regane e Cordélia, com o fito de descobrir qual delas o ama mais. Às lisonjas das duas irmãs Cordélia responde que o ama do tanto que uma filha deve amar a seu pai. Nem mais nem menos. É deserdada pelo velho monarca, sendo depois desposada pelo rei da França, que se encontrava na corte bretã por ocasião do fatídico episódio. Paralelamente, a peça trata do drama do velho conde de Gloster, que, depois de banir seu filho Edgar, vítima de uma falsa acusação, sucumbe à ambição de outro filho, Edmundo, personagem malévolo, cujo destino está entrelaçado ao das filhas ingratas de Lear.



Da peça para o cordel

Autor acostumado a trabalhar com temas oriundos da cultura popular, é possível que Shakespeare não estranhasse a recriação de sua memorável peça em cordel A adaptação preserva os pontos essenciais do texto original, aqui retrabalhado em sextilhas (estrofes de seis versos), que dão conta dos personagens mais importantes, sem abrir mão do ritmo característico da poesia popular:

Na terra onde o bem floresce
Logo a maldade se assanha,
Como na presente história
Em que a lisonja e a manha
Causaram a derrocada
De um grande rei da Bretanha.
Para dar voz ao bobo, personagem que funciona na trama como uma espécie de consciência do rei destronado, e que procura atenuar-lhe o desespero com improvisos e brincadeiras, foi usada, de forma inusitada, outra modalidade da poesia popular, o martelo agalopado.[1] O recurso aproxima o bobo — que, diga-se de passagem, era uma espécie de menestrel, com sua filosofia de vida simples, mas de sabedoria profunda — do repentista nordestino, herdeiro dos trovadores e cantores populares da Idade Média:

Sei que um carro não pode ir adiante
Dos cavalos, pois não é natural.
Por lisonjas, cedeste para o mal,
E quem amas agora está distante.
Se vivias num trono de brilhante,
Hoje até as migalhas são negadas,
Elogios tornados caçoadas
São o prêmio da tua insensatez,
Tua luz converteu-se em palidez,
Tuas glórias te foram confiscadas.

Com nova roupagem, descobrimos que as lições da história que vamos ler, mesmo com a grande distância no tempo e no espaço, são válidas para os dias de hoje, em que não desapareceram a ingratidão e a ganância. A leitura do cordel também é um convite a conhecer — ou revisitar, para os que já leram — a tragédia de Shakespeare, adaptada algumas vezes para o cinema, a exemplo da produção japonesa Ran, filmada em 1985 por Akira Kurosawa. Ambientado no Japão medieval e protagonizado por um senhor feudal que divide o seu trono entre os três filhos (de acordo com a tradição patriarcal do país), excluindo depois o caçula, por sua sinceridade, o filme comprova a universalidade do tema, já antigo em 1605, data de sua provável redação por William Shakespeare.






[1] Composto de dez versos, com a sílaba tônica caindo sempre na terceira, sexta e décima sílabas, o martelo é um dos gêneros mais cantados pelos repentistas nordestinos.

Morre João Paraibano, o menestrel do sertão


Dentre os poetas repentistas, ninguém cantou o sertão melhor que João Paraibano. Estrofes que tratavam de seca, fartura, da fauna e da flora caatingueiras correm na boca dos poetas populares, imortalizando, ainda em vida, o seu criador, João Pereira da Luz, nascido há 62 anos em Princesa Isabel, mas estabelecido há muito em Afogados da Ingazeira (PE). Como exemplo, transcrevo esta maravilhosa sextilha:

Coruja dá gargalhada
Na casa que não tem dono.
A borboleta azulada,
Da cor de um papel carbono,
Faz ventilador das asas
Pra rosa pegar no sono.

Vítima de um atropelamento por motocicleta, quando atravessava uma das ruas do centro da cidade em que vivia, o poeta estava internado havia mais de 20 dias. Hoje, 2 de setembro, à madrugada, seu coração parou de bater. O óbito ocorreu no hospital Alpha, em Recife, para onde foi transferido para tratar um coágulo. A causa-mortis do grande poeta foi infecção generalizada. 


Conheci-o em 2007, em São Paulo, ocasião em que entreguei-lhe um exemplar do livro Foi voando nas asas das Asa-Branca que Gonzaga escreveu a sua história (Luzeiro). Ele e vários expoentes do repente e do cordel glosaram o mote que dá título à obra, de minha autoria.  Os versos de João Paraibano, feitos de improviso, foram anotados por Assis Angelo.

Transcrevo suas duas glosas, que, por sinal, tratam da inevitabilidade da morte, em tributo à sua iluminada passagem pela Terra:

O rei morto da cova não se alui,
Mas o nome do rei está vivendo.
Foi um rei sem coroa merecendo
A coroa melhor que um rei possui.
Meditei no Museu, depois que fui,
Que a vida do homem é ilusória.
Deus não compra assinando promissória,
O portão do sepulcro não tem tranca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

Foi Gonzaga cantor e sanfoneiro,
Respeitou exigindo seu respeito,
Resgatou o baião, plantou no peito
Pra depois semear no mundo inteiro.
Ao soltar o suspiro derradeiro,
Encerrou a sua última trajetória.
Todo homem dá mão pra palmatória,
Quando a vida tropeça, o corpo manca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.