quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Cordel e a Cultura Popular na novela Velho Chico

Ao sofrer com a seca do Nordeste, Belmiro decidiu se mudar com a família para Grotas do São Francisco (Foto: Caiuá Franco/ Globo)
O retirante Belmiro (Chico Diaz). Foto: Caiuá Franco.

Quem acompanha a novela das 9 da Globo, Velho Chico, sabe que, de vez em quando, surge em cena uma dupla de cantadores que, à maneira do coro grego, apresenta, em versos, acontecimentos cruciais da trama ou improvisa, de forma bem-humorada, sobre as rixas dos clãs rivais na fictícia Grotas do São Francisco: Sá Ribeiro e dos Anjos. Interpretada pelos cantores Xangai (Avelino) e Maciel Melo (Egídio), a dupla desfiou, ao longo de cem capítulos, sextilhas, setilhas, mourões de sete pés e mourões voltados, entre outras modalidades da poesia popular, abrangendo os mais variados temas: uma loa para Jacinto (personagem de Tarcísio Meira), que morre no primeiro capítulo da trama de Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi; um folheto narrando o encontro do Capitão Rosa (personagem de Rodrigo Lombardi) com Saruê (apelido depreciativo de Jacinto) no portão do Paraíso; um improviso jocoso acerca de um suposto “chifre” de que foi vítima Afrânio (Rodrigo Santoro); e, mais de uma vez, improvisos sobre a disputa entre o honesto vereador Bento (Irandhir Santos) e o corrupto prefeito Raimundo (vivido pelo grande cantador mineiro Saulo Laranjeira).

Como é sabido por muita gente, tendo sido divulgado em alguns espaços da rede, sou eu o autor destes poemas. Escrevi a maior parte por sugestão dos autores, e, em alguns casos, apresentei sugestões que foram acatadas. Conheci Edmara Barbosa no início de 2014, em Serra do Ramalho, Bahia, cidade banhada pelo Velho Chico, ocasião em que ela se encontrava na região coletando informações acerca das tradições e costumes da região para incorporar à sinopse que escrevera em parceria com o filho Bruno. Ela, assim que soube que eu era cordelista e pesquisador da cultura popular, quis conhecer o meu trabalho que, além de quase uma centena de cordéis, inclui livros com recolhas de contos e cantos populares, cobrindo uma vasta região da Bahia e, eventualmente, outros estados. Depois de um tempo, aprovada a sinopse, a seu convite, tornei-me consultor da história, já aprovada pela Globo, com supervisão de Benedito Ruy Barbosa e direção artística de Luís Fernando Carvalho, o mais autoral dos realizadores da TV brasileira.

A minha missão, além de escrever os cordéis, era apresentar hábitos, festas, costumes, lendas e crendices que margeiam o rio São Francisco. Numa viagem que fizemos, em maio do ano passado, da foz do rio, entre Sergipe e Alagoas, a Bom Jesus da Lapa, Bahia, assistimos, na Vila Boa Esperança, em Serra do Ramalho, a uma roda de São Gonçalo, realizada com a presença de arcos manuseados pelos pares, que foi reproduzida, com esmero, em dois momentos cruciais da história. Os autores ainda incorporaram à história o hábito de muitos idosos, ainda hoje, tecerem a própria mortalha, comprovando que a morte é aceita com naturalidade. O costume, estranho para quem não é do sertão, aparece ligado à figura emblemática da matriarca dos de Sá Ribeiro, Encarnação (a estupenda Selma Egrei), personagem que parece saída de um romance de Gabriel García Márquez, mas representa a arcaica aristocracia rural do Nordeste, que agoniza, se arrasta, mas ainda está viva.

Também estão presentes na trama as pegas de boi na Caatinga, rememorando a civilização do couro, e lembrando que o rio São Francisco, protagonista da história, por seu papel importante na colonização do país, já se chamou Rio dos Currais. O costume antigo de se sair em demanda do gado bravio, criado solto nos tabuleiros e reunido pelos intrépidos vaqueiros, deu origem à vaquejada moderna. Na novela, foi mostrada a pega de boi no “cipoá” (o carrasco), termo que aparece numa obra seminal do cordel, a História do Valente Sertanejo Zé Garcia, de João Melchíades Ferreira, que serviu de inspiração aos autores. A cena, que mostra a disputa entre o herói Santo (Renato Góes) e Cícero (Pablo Morais), filmada com um apuro raras vezes visto, pelo meticuloso Luís Fernando Carvalho, lembrou a disputa épica entre Messala e Ben-Hur, no clássico filme dirigido por William Wyler em 1959.

Isso sem falar na presença mágica de Ceci (Luci Pereira), retrato fiel das benzedeiras, das cassandras sertanejas, com seus prognósticos e meizinhas, transitando, naturalmente, entre a realidade e o sonho. Nos mal-assombros do rio, em que pontifica o Negro d’Água, ou Compadre d’Água, duende benéfico ou maléfico, que só respeita a carranca na proa das embarcações e o tabaco deixado em troca de seu obséquio. E no Gaiola-Encantado, barco-fantasma que recolhe a alma dos mortos que habitam as margens do rio. Tudo isso emoldurado por uma trilha sonora que é uma síntese do sertão mítico e agônico, com nomes como Elomar, Geraldo Azevedo, Tom Zé e Maria Bethânia, além da revelação Paulo Araújo, compositor de Bom Jesus da Lapa, Bahia, barranqueiro até a medula. E pela trilha instrumental de Tim Rescala, que, por vezes, remete aos westerns de Sergio Leone, sem esquecer as matrizes populares da nossa música de que ele se abeberou.

Em síntese, Velho Chico já retratou, em sua história, cantos de lavadeira, benditos, acalantos, "incelenças", samba de roda, além do bom e velho forró pé de serra. Ouso dizer que, na história da TV brasileira, é a novela com maior presença de elementos de nossa cultura popular. E isso, definitivamente, não é pouco. 
Santo (Renato Góes) e Tereza (Julia Dalavia). Foto: Adriana Garcia.
Trechos de cordéis escritos para a novela

REPENTE EM MEMÓRIA DO CORONEL JACINTO 

Vamos cantar em memória
O finado coronel.
Uns dizem que era bom,
Outros que era cruel,
Ninguém vive para sempre
Eis a verdade fiel.

Foi-se embora o coronel
Que dominava o sertão.
Vai comparecer diante
Da Virgem da Conceição,
Contrito, para pedir
De suas culpas perdão.

Hoje, grande multidão
Se aglomera no terreiro
Para beber o defunto
Jacinto de Sá Ribeiro,
Um nome imortalizado
No Nordeste brasileiro.

Foi um grande fazendeiro,
Saruê velho de guerra.
As terras do coronel
Vão do rio ao pé da serra,
Mas hoje ele vai morar
Nos sete palmos de terra.

REPENTE SOBRE POSSÍVEL CHIFRE NO CORONEL SARUÊ

Meu amigo Criatura,
Preste atenção, não se esqueça
O sintoma é muito simples
Basta que o dito apareça,
Pois chifre é bicho que nasce
E não escolhe a cabeça.

Tendo cabeleira espessa,
Seja pobre ou "coroné",
Chifre é bicho democrático:
Vai da nobreza à ralé,
Quem já foi está no lucro,
Azar mesmo é de quem é.

REPENTE EM HOMENAGEM A MIGUEL

Hoje aqui nesta fazenda
A festa é grande porque
Chegou das “Oropa” o neto
Do Coroné Saruê,
E de agora por diante
Vai ser grande o fuzuê.

O neto do Saruê
Chegou falando bonito,
É um moço muito fino,
Já deixou de ser cabrito,
Vai escrever sua história,
Tenho visto e tenho dito.

Vai deixar seu nome escrito
Para toda eternidade.
Nos termos do São Francisco
Será uma autoridade.
Por isso, dr. Miguel,
Bem-vindo à nossa cidade.

Miguel, eu digo a verdade,
Nunca passei por falsário.
Para mim o doutor é
Um moço extraordinário
Que veio para ensinar
O Padre Nosso ao vigário.

O ENCONTRO DE ROSA COM SARUÊ NO PORTÃO DO PARAÍSO

Essa história, meus leitores,
É de fundir o juízo,
Eu não queria contá-la,
Mas juro que foi preciso.
O encontro de Saruê
Com Rosa no Paraíso.

Quando deixou esta terra,
Saruê ficou perdido,
Vagou nas regiões ermas
Do espaço desconhecido,
Passou pelo Purgatório,
Onde não foi recebido.

Foi bater no Paraíso,
Mas a fila era horrorosa.
Lá todo mundo é igual,
Ninguém ganha só na prosa,
E depois de grande espera
Topou o capitão Rosa.

Assim que Rosa chegou,
Sem saber de seu destino,
Viu o coronel Jacinto,
Foi dizendo: “Ô assassino!
Será que nem no outro mundo,
Me livro desse cretino?”

Saruê, vendo o rival,
Disse: Aqui não tem valente!
Mesmo assim, é muito bom
Bater contigo de frente,
Perco a salvação, mas nunca
Deixo um assunto pendente!

Coronel e capitão
Perderam a compostura.
São Pedro partiu de lá,
Disse: “Aqui a casa é pura!
Nunca foi e nem será
Bar de Chico Criatura!”

Brigar na terra, vá lá!
Porque ninguém é perfeito,
Mas aqui na Casa Santa
Não é certo, nem direito.
Vai morar lá nos infernos
O que agir desse jeito!

Os dois, ouvindo São Pedro,
Pararam com a lambança.
São Miguel, logo em seguida,
Chegava com a balança
Pra ver quem seria honrado
Com a bem-aventurança.

Gostariam de saber
Quem se salvou? Eu não sei.
Do céu acabei expulso
E para Grotas voltei.
A verdade é que, por lá,
Só Jesus Cristo é o rei. 

Para assistir à belíssima cena em que este cordel é cantado, clique AQUI.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Vem aí O Cavaleiro de Prata


O gênero fantasia não tem merecido muita atenção dos poetas cordelistas da atualidade, em que pese sua importância ao longo da história. Não por acaso, todos os grandes contadores de história do cordel têm obras no gênero. Comecei a escrever o romance O Cavaleiro de Prata em 1992 e só concluí ano passado.
No enredo, há muitas referências à mitologia nórdica e ao cinema e a história está estruturada como um roteiro de filme de aventura do subgênero “sword and sorcery” (o que não é inédito em minha obra, haja vista O Herói da Montanha Negra).
Com ilustrações de Klévisson Viana, a obra sairá, ainda este, com o selo da Editora de Cultura.

Abaixo, a brevíssima apresentação:
O romance de cordel O Cavaleiro de Prata foi iniciado em 1988, e era ambientado na Inglaterra, uma aventura heroica, inspirada na lenda arturiana e na história de Robin Hood. Não consegui, na época, chegar ao fim da história do jovem Henry, que, ao lado de um grupo de mercenários, combate o despótico rei Ricardo. Em 1992, reescrevi o texto, transportando a história para outro cenário, a Jutllândia, parte da atual Dinamarca, mas não o concluí. Entraram em cena outros personagens: o príncipe Borg, o gigante Guruk, descendente de Skrimir, e a princesa Fridda. As referências à mitologia nórdica pontuam todo o cordel.
Em 1996, escrevi mais algumas linhas, só voltando à saga 10 anos depois. Em 2010 e 2013, cortei várias estrofes e inseri outras, corrigindo a métrica, sem mexer no enredo original e nas rimas. E, no dia 11 de setembro de 2015, finalmente, concluí a obra, totalizando 244 estrofes que cobrem 27 anos de trabalho.
Com O Herói da Montanha Negra, escrito em 1987, mas publicado somente em 2006, homenageei a mitologia grega, sem me basear num episódio ou mito específico do panteão clássico. Com O Cavaleiro de Prata, adentro as florestas e escalo as montanhas geladas da mitologia nórdica (e germânica). Evoco seus guerreiros sedentos de glórias, escondidos sob arneses, brandindo a espada contra os inimigos, humanos ou sobrenaturais. Evoco o amor, vassalo da honra, aparentemente vencido pela morte e pelo tempo.

Terras há muito esquecidas
Hoje estão repovoadas,
Seus cenários recobertos,
Suas glórias olvidadas,
E as grandes lendas parecem
Para sempre sepultadas.
Porém como uma centelha
A lenda chega até nós,
Revivendo uma era mítica
Como igual não houve após,
De cujas reminiscências
Falavam nossos avós.
Na argila sumeriana,
No cretense pavimento,
No papiro faraônico,
No gaélico monumento
Forjou-se a eternidade
Além do fugaz momento.
As caravanas cruzavam
Os desertos do existir,
Quando as falanges da História
Marchavam rumo ao porvir,
O sol sorria fulgores
Olhando a noite dormir.
Os fatos que se passaram
No alvorecer da História
Foram logo enriquecidos
Pelo poder da memória.
Trazem figuras notáveis
E heróis cobertos de glória.
O vento vaga no norte
Do continente europeu
Narrando a saga dos povos
Que o tempo quase esqueceu,
Porém, cuja tradição
De todo não se perdeu.
Pois ainda sobrevive
Nas narrativas orais
Que conseguiram transpor
As fronteiras nacionais,
E, espalhadas pela Terra,
Se tornaram imortais.
A lenda do príncipe Borg,
O guerreiro altivo e forte,
Há séculos encheu de orgulho
Os velhos povos do Norte,
Que celebraram seus feitos
Em vida e depois da morte.
Filho do rei godo Inger,
Há anos estava ausente
Lutando contra os avaros
Numa guerra inconsequente,
Que depois lhe pareceu
Sangrenta, vã, inclemente.
Uma armadura possante
O seu corpo protegia.
Se um perigo o ameaçasse,
A sua espada brandia;
Por Cavaleiro de Prata
Todo o mundo o conhecia.
Nas andanças, travou lutas
Com monstros descomunais,
As criaturas perversas
Dos gigantes ancestrais,
Que, vez ou outra, causavam
Algum trabalho ao rapaz.
Queria provar ao pai
Sua bravura tamanha.
Para tanto era preciso
Obrar incrível façanha
E encher de orgulho as terras
Da primitiva Alemanha.

(...)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cordel, cultura popular e boa música. Uma noite inesquecível na Fnac Paulista


A noite de 7 de julho dificilmente se apagará de nossas lembranças. Com grande presença de público na Fnac Paulista, fizemos um bate-papo em torno do cordel, da cultura popular e do Rio São Francisco. Mediei a conversa descontraída com Paulo Araujo e Edmara Barbosa. Em seguida, ocorreu o pocket-show reunindo o trio Paulo Araújo, Lui Almeida Araújo e Rafael Amadeu. Na ocasião, além da exposição de meus livros publicados pela Nova Alexandria, foi lançado o CD da novela Velho Chico, do qual I-Margem, de Paulo Araújo, é a faixa número 9.
O bacana de tudo isso é que a plateia estava repleta de artistas (músicos, poetas, escritores produtores culturais, ilustradores etc.), grandes companheiros de uma jornada que não está nem na metade. E lá estava a turma do cordel, alguns deles parceiros da coleção Clássicos em Cordel, da Editora Nova Alexandria, responsável pelo contato inicial, que deu origem ao evento.
Obrigado a todos que ajudaram na divulgação, aos que lá estiveram e aos que, por contingências outras, não puderam se fazer presentes.
Até a próxima!

Fatel Barbosa, Paulo Araújo e Luiz Wilson. 
Na plateia, artistas consagrados, como Aldy Carvalho,de Petrolina (PE)
O Trio Privintino: Rafael Amadeu, Paulo Araújo e Luí Almeida.
Penélope Martins, Pedro Monteiro, Valéria Cordero e Juliana Suellen.



Cacá Lopes. Marco Haurélio, Edmara, Luiz Wilson e Tin Tin
Rafael Luperi, Lucélia, Jorge Diaz, Paulo, Luí, Edmara e Luiz Carlos.
Com a pesquisadora Márcia Pituba.
Na plateia, entre outros, Cacá Lopes, João Gomes de Sá.
Maria José, Moreira de Acopiara e João Paulo Resplandes.
Valdeck De Garanhuns, Luiz Wilson, João Gomes de Sá,
Pedro Monteiro, Fatel Barbosa e Maria José.

Fotos: Lucélia Borges, Darlan Ferreira, Margarete Barbosa, Pedro Monteiro e Valéria Cordero.

sábado, 2 de julho de 2016

Jackson Ricarte lançará primeiro CD


Jackson Ricarte lançará, em breve, seu primeiro CD, Estrada Afora, reunindo composições autorais e parcerias. Com uma carreira construída ao longo de mais de uma década, Ricarte é um violeiro que incorpora elementos do meio urbano sem perder as referências do Brasil rural. Cearense, radicado em São Paulo, sua música equilibra influências da terra de origem, a exemplo do repente, do cordel e dos pastoris, mas é a viola caipira que dita o ritmo em suas canções.

Em 2010, quando lancei o livro Contos folclóricos brasileiros (Paulus), convidei-o para se apresentar ao final do evento. E o público se emocionou com suas versões de clássicos do nosso cancioneiro, como Triste berrante, do saudoso Adauto Santos, e Disparada, de Vandré e Theo de Barros.
Mas, para que este projeto (o CD) se materialize, Ricarte pede a sua contribuição por meio de uma campanha de Crowdfunding no site Clickante. Leia abaixo sua mensagem:

O Projeto Estrada Afora é o resultado de mais de 10 anos de trabalho que Jackson Ricarte vem desenvolvendo com a Música Regional Brasileira, imerso na pesquisa e na vivência cultural do universo da Viola Caipira, instrumento norteador de todo seu trabalho.
Já se apresentou em diversos palcos importantes do cenário musical, levando seus shows para SESCs, Casas de Cultura, Bibliotecas, Festivais como o Violas e Ponteios, e Caipirapuru. No Palco do Revelando São Paulo, o maior Festival da Cultura Tradicional Paulista, Jackson Ricarte ganhou visibilidade e reconhecimento pelo o seu trabalho com a Viola Caipira, realizando a abertura e encerramento do evento desde 2006 ao lado do Diretor Cultural da O.S Abaçaí Cultura e Arte, Toninho Macedo, seu mestre do folclore brasileiro. O Projeto Estrada Afora é um trabalho autoral totalmente independente dos meios midiáticos do mercado fonográfico das grandes gravadoras. Sabemos que o mercado comercial das grandes produções musicais não abrem espaços e não valorizam projetos como este. Com o objetivo de valorizar a cultura regionalista através da música e de fomentar a arte dos artistas independentes, o projeto Estrada Afora se torna urgente por sua produção de qualidade que possibilita ao público mergulhar cada vez mais na sua história, despertando novas percepções de reconhecimento dos valores culturais, fortalecendo as raízes, conscientizando do cuidado e respeito que devemos ter com a natureza e nosso meio ambiente, proporcionando a todos o lazer, a apreciação da boa música e o encontro de si mesmo. O CD Estrada Afora apresentará canções de autoria própria de Jackson Ricarte e de amigos compositores consagrados do cancioneiro popular, como Levi Ramiro, Aidê Fernandes, João Evangelista, Cicero Gonçalves e Luis Avelima.

Para contribuir com o projeto, clique AQUI.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Evento na Fnac Paulista celebrará o cordel e a cultura popular brasileira

Paulo Araújo fará pocket-show com o Maestro Rafael Amadeu 
A literatura de cordel brasileira, já uma centenária senhora, seguiu um caminho próprio, por vezes se aproximando, por vezes se afastando da literatura dita oficial. Com o tempo, o gênero, nascido no Nordeste, conquistou seu espaço e abraçou a literatura infantil e juvenil. Também influenciou grandes produções do cinema, a exemplo dos filmes do lendário Glauber Rocha, e marcou presença, também, nas telenovelas, como SaramandaiaRoque SanteiroCordel Encantado e, mais recentemente, Velho Chico. Para celebrar a cultura popular em seus muitos matizes, a Fnac reunirá alguns de seus porta-vozes. Edmara Barbosa, autora de grandes sucessos da TV, como Cabocla e Sinhá Moça (a partir das versões originais escritas por seu pai, Benedito Ruy Barbosa), além de Velho Chico, estará com o cordelista baiano, curador da coleção Clássicos em Cordel e autor de cerca de 40 livros Marco Haurélio e o cantor e compositor Paulo Araújo, num bate-papo descontraído sobre a arte que nasce do povo. Ao final, Paulo Araújo, autor da canção I-Margem, que faz parte da trilha sonora da novela global, ao lado do Maestro Rafael Amadeu, farão um pocket-show com as canções que nasceram do sussurro poético do Velho Chico, o rio do encantado. 




Cordel | Marco Haurélio, Paulo Araújo e Edmara Barbosa
Bate-papo e Lançamento do CD da novela Velho Chico
Dia 7, quinta às 19h
Local: Fnac Brasil (Avenida Paulista, 901, São Paulo)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Romance do Velho Rio

Um poema em louvor do Velho Chico

No  leito quase seco do rio São Francisco.
Povoado de Palma (Serra do Ramalho-BA)




















ROMANCE DO VELHO RIO

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...
Me chamavam de Opará
No momento em que eu nascia
Das lágrimas de Iati,
Que pelo amado sofria.
Nasci em Minas Gerais,
Que ainda nem existia.
De lá fui abrindo espaço
E atravessei a Bahia;
Até chegar no oceano,
Longo caminho eu faria,
Atravessando caatingas,
E rasgando a serrania,
Para sentir o abraço
Do mar, que me recebia.
Que eu entrasse 15 léguas
Em seu leito permitia.
Foram tempos bem ditosos
De remanso e calmaria,
Tempos de muita fartura,
Mas tudo mudou um dia...

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...

E hoje, já velho e cansado,
Não tenho a mesma valia,
Gaiola não mais navega,
Acabou-se a pescaria,
São tantos os paredões,
É tamanha a covardia...
Não sou sombra do guerreiro
Imponente que corria,
O meu leito de abundância
Fez-se leito de agonia,
Jamais pensei nesta vida
Que tal golpe sofreria:
Que aquele que alimentei
De mim tudo tiraria.

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...

Ainda assim, sou teimoso,
Ainda tenho energia.
E se pudesse voltar
No tempo, não mudaria:
Para o homem, esse ingrato,
Tudo de novo eu daria.
Pagando ódio com amor,
Como Francisco faria
E minha última gota d’água,
Sem queixas lhe ofertaria.

O meu nome é São Francisco,
Mas tenho outro de pia...

Marco Haurélio

terça-feira, 31 de maio de 2016

Cordéis Atemporais: O Cavalo que Defecava Dinheiro

 
Desenho do mestre Jô Oliveira. Livro digital publicado pela editora O Fiel Carteiro.
O cavalo que defecava dinheiro, uma das obras-primas do Rei do Cordel, Leandro Gomes de Barros, é uma história que costura diferentes motivos de contos de esperteza.  As disputas entre o camponês rico e o camponês pobre (ATU 1535)[1] é a base de muitos contos populares e de versões literárias que bebem na tradição oral, como a conhecida história Nicolau Grande e Nicolau Pequeno, dos Contos de Andersen. O tema da superação das provas impostas ao herói pelo seu oponente rico (que pode ser um rei ou um fazendeiro) e o da trapaça final, com o herói afirmando retornar do fundo do mar com muitas riquezas, está no conto de Hans Christian Andersen citado acima. No Brasil são abundantes as versões em que Pedro Malasartes e Camões (personagem de muitos contos de astúcia) figuram como heróis vingadores.

O motivo do animal (uma cabra) que defeca dinheiro está na versão russa recolhida por Aleksandr Afanas’ev, O bobo da corte, bem como o do instrumento que ressuscita (um chicote). No conto O abade Scarpacífico, das Piacevoli notti, do escritor renascentista italiano Gianfrancesco Straparola, o esperto protagonista se serve de uma gaita-de-foles para ludibriar os seus perversos compadres. Ambos os motivos, a partir do cordel de Leandro, lido pelo dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, foram aproveitados na peça cômica Auto da Compadecida (1955), em que o cavalo foi substituído por um “gato que descomia dinheiro”. Ariano havia lido o texto na obra Violeiros do Norte, do folclorista cearense Leonardo Mota. Da mesma coletânea, consta o folheto de gracejo O dinheiro (com a história do testamento do cachorro), também de Leandro, e O Castigo da Soberba, de Silvino Pirauá de Lima.
 
Ilustração de Klévisson Viana.
Trecho seminal da obra:

Aí chamou o compadre 
E saiu muito vexado, 
Para o lugar onde tinha 
O cavalo defecado.
O duque ainda encontrou 
Três moedas de cruzado.
Então exclamou o velho: 
— Só pude achar essas três! 
Disse o pobre: — Ontem à tarde 
Ele botou dezesseis! 
Ele já tem defecado
Dez mil réis mais de uma vez.
— Enquanto ele está magro 
Me serve de mealheiro. 
Eu tenho tratado dele 
Com bagaço do terreiro, 
Porém depois dele gordo 
Não há quem vença o dinheiro...
Disse o velho: — Meu compadre, 
Você não pode tratá-lo. 
Se for trabalhar com ele, 
É com certeza matá-lo. 
O melhor que você faz 
É vender-me este cavalo!
— Meu compadre, este cavalo 
Eu posso negociar
Só se for por uma soma 
Que dê para eu passar 
Com toda minha família, 
Sem precisar trabalhar.
O velho disse ao compadre: 
— Não é assim que se faz. 
Nossa amizade é antiga, 
Desde o tempo de seus pais. 
Dou-lhe seis contos de réis, 
Acha pouco, inda quer mais?



[1] No Catálogo Internacional do Conto Popular, a sigla que homenageia os formuladores, Anti Aarne, Stith Thompson e Hans-Jörg Uther, conserva suas iniciais ATU. O sistema alfa-numérico engloba contos de animais, maravilhosos, religiosos, novelescos, jocosos etc. O conto-tipo O camponês rico e o camponês pobre pertence à categoria dos contos jocosos

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Livro novo na praça!


Já está disponível, em algumas casas do ramo, o livro Lucíola em Cordel, baseado na obra-prima de José de Alencar. A obra traz o selo Manole/Amarylis, que publicou, de minha autoria, Rei Lear em Cordel.


Ilustrado por Luís Matuto e apresentado por Severino Rodrigues (abaixo, na íntegra), a história de Maria da Glória, obrigada a prostituir-se para salvar a família, foi publicada originalmente em 1862, e desde então encanta gerações a perder de vista.


Amor (im)possível?

Ao chegar à Corte, o recém-formado advogado Paulo se apaixona por Lúcia. A priori, um simples amor à primeira vista. Mas o leitor se engana. Lúcia é cortesã, ou melhor, a prostituta mais admirada, mais desejada e mais luxuosa. E o conflito não acaba por aí. Afinal, estamos no século XIX, as aparências ditam o comportamento adequado aos integrantes da sociedade burguesa, ou aos mais endinheirados da época, e se envolver a sério com uma mulher como Lúcia nunca seria aceito.

Paulo, apesar de burguês, também não pode manter um relacionamento com a cortesã por certas limitações financeiras e, principalmente, morais. Ele não quer Lúcia somente como uma amante. Quer muito mais que isso. E ela, que tem apenas dezenove anos, embora tenha uma vida pautada nos ganhos da luxúria, também não é dona das suas próprias vontades... Apaixonar-se e querer um homem íntegro ao seu lado? Utopia demais...

Mas o que fazer quando a regra do jogo romântico são os sentimentos mais exacerbados? Esse amor se torna possível?

Lucíola foi publicado em 1862 pelo fabuloso escritor cearense José de Alencar. Ao lado de O Guarani, este é meu romance favorito. Li no colégio e, depois, na universidade. E o tempo só me fez gostar cada vez mais! Nesta história, há, meu caro leitor, uma atmosfera de mistério. Nos perguntamos a todo momento se Paulo e Lúcia terão coragem de enfrentar a sociedade, qual a punição que um tipo de amor assim pode acarretar... Antes, é preciso conhecer os motivos que levaram Lúcia àquela vida, para muitos, desregrada. Qual o seu passado? Ah, existe ainda uma densidade dramática, quase teatral, entre os diálogos desses personagens, que revelam o quanto podem ser complexos perante suas próprias dúvidas.

É, então, o embate psicológico entre o privado e o público que guia as ações e as escolhas dos personagens desta história agora adaptada incrivelmente para o cordel e que você encontra em mãos. Espero que este cordel de Marco Haurélio, autor de várias obras no gênero, seja o primeiro passo para se conhecer as obras de José de Alencar, um dos maiores autores brasileiros, e para se encantar e ler inúmeros cordéis, representantes da mais legítima linguagem poética regional — e universal.

Severino Rodrigues
Mestrando em Letras, professor de Língua Portuguesa
e autor dos livros juvenis Sequestro em Urbana
e Mistério em Verdejantes




Estrofes iniciais:

Quando o amor faz pousada 
No coração dos amantes, 
Provoca grandes mudanças, 
Causa dores torturantes, 
E quem ama tem certeza: 
“Nada será como antes". 

A história aqui narrada,
Que relata um caso sério,
Fala de um drama pungente,
Envolvido num mistério,
Que se passou no Brasil,
Sob a mão forte do Império.

Foi no século XIX,

Cinquenta e cinco era o ano,
Em que Paulo Silva, um jovem
Do torrão pernambucano,
Foi ao Rio de janeiro,
Sem ter medo nem engano.

Mas vamos dar voz a Paulo,

Pois é o protagonista,
E os fatos aqui narrados,
Sob seu ponto de vista,
Serão aceitos porque
Não são invenções de artista:

Leitores, meu nome é Paulo,

Pernambucano de Olinda,
Vim ao Rio de Janeiro,
Essa cidade tão linda,
Sem imaginar que aqui
Ficaria na berlinda.

Na capital federal

Quis construir minha história.
Com um amigo de infância,
O Sá, de boa memória,
Eu fui, todo prazenteiro,
Pra ver a festa da Glória.

Ali, naquele momento,

Vi ante mim desfilar
Brancos, negros e mulatos,
Gente de todo lugar,
Desde o banqueiro ao mendigo,
Banhados pelo luar.

A lua vinha assomando

Pelas montanhas fronteiras,
Quando notei que passava,
No meio das rezadeiras,
Uma moça tão bonita
Quanto as deusas estrangeiras.