segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Obrigado, Sharjah!



Sábado, 4 de outubro, no Espaço do Emirado de Sharjah, convidado de honra da 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, participei de um painel com o Professor Abdulaziz Al-Musallam, Presidente do Sharjah Institute for Heritage (Instituto para o Patrimônio de Sharjah), grande referência nos estudos sobre os contos folclóricos no mundo árabe. A conversa, mediada por Marwa al Aqrobi, presidente do UAE Board on Books for Young People (UAEBBY), girou em torno das narrativas com versões comuns aos nossos países. E, assim como no Brasil, com dezenas de versões registradas de "Maria Borralheira" (ATU 510A), também em Sharjah, um conto de magia similar à Cinderela aparece com especial destaque na tradição oral.


Depois da atividade, o Professor Abdulaziz, gentilmente, nos acompanhou até o Espaço do Cordel e Repente, no momento em que Socorro Lira lançava o seu livro A Língua que a Gente Fala (IMEPH). Também esteve conosco Aisha Rashid ALhesan Alshamsi, diretora do Arab Heritage Center.

E, na segunda, 6 de agosto, fui convidado, junto ao escritor e contador de histórias Fábio Lisboa, para uma reunião no Espaço de Sharjah. A proverbial hospitalidade árabe, que nós, nordestinos, herdamos, manifestou-se mais uma vez.  E também a generosidade, pois, ao final, para minha surpresa, recebi das mãos do Dr. Abdul Aziz Al Musallam, uma medalha de honra ao mérito. Tal premiação deve-se ao meu trabalho de recolha, catalogação, salvaguarda e publicação de contos de tradição oral em nosso país. 

Agradeço ao Dr. Abdul Aziz, grande referência nos estudos do folclore de seu país, de quem partiu o convite, a Ali Al Shemmari, membro do UAEBBY, e à Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), na pessoa de Beth Serra, que mediou os contatos por ocasião da montagem do painel sobre Contos Folclóricos do Brasil e do Mundo Árabe.

A todos, minha eterna (e terna) gratidão.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Lobisomem, um Mito Universal

Ataque de um lobisomem em xilogravura de Lucas Cranach o Velho, 1512.

Uma historieta, contada à luz da fogueira ou da lamparina, nos serões noturnos do Brasil interior por quase cinco séculos, fala sobre dois companheiros que viajam à luz da lua, quando um deles cria um pretexto para se ausentar; logo em seguida, o que ficara na estrada é atacada por um animal enorme, da parecência de cachorro, embora mais feroz e ameaçador. O sujeito, apesar do medo e do desespero, consegue ferir o atacante, decepando-lhe uma das orelhas. Espera em vão pelo amigo até decidir continuar a viagem. Dias depois, vai à casa de um parente do desaparecido e descobre que ele está muito mal de saúde. Vai até o quarto onde o outro convalesce e constata que lhe falta uma orelha.
O lobisomem, assombração conhecida em todo o Brasil, não faltando, inclusive, testemunhas oculares, gente que se viu cara a fuça com o bicho, corre o mundo com versões e variantes que encheriam muitas páginas. Gustavo Barroso, no livro O sertão e o mundo, reproduz uma versão cearense da história acima, e, citando Léon Wieger, autor de Folk-lore chinoise (Folclore chinês), resume a lenda de Kiang-Tcheu, velho camponês que, depois de curar-se de uma moléstia, desaparece sem deixar vestígios. Um lenhador que adentra a floresta é acossado por um enorme lobo, mas escapa subindo a uma árvore, mesmo tendo sua calça abocanhada pelo animal, ao qual fere com sua machadinha. No outro dia, seguindo o rastro de sangue vai ter à casa do camponês e o encontra ferido na cabeça com pedaços de suas calças entre os dentes.
Mestre Câmara Cascudo consigna a universalidade do mito. Sua presença maléfica se encontra nas páginas de Plínio, o Velho, Heródoto, Petrônio, Ovídio e Petrônio. Este último, no capítulo LXII do Satyricon, nos conta a história de Niceros que, em companhia de um soldado, deambulava à noite sob a lua da lua cheia. Quando passavam por um cemitério, o soldado livra-se das roupas, urinando sobre elas, enquanto conjura os astros, transformando-se em lobo e fugindo em seguida através da mata. Niceros chega à casa de Melissa de Tarento, que lhe conta uma história estranha e aterrorizante: um lobo atacara seu rebanho e fugira, depois de ser ferido no pescoço por um escravo. No outro dia, Niceros encontra o companheiro de jornada ferido na nuca. Era, com efeito, um licantropo.
Amparada no medo ancestral dos predadores, dos quais o lobo, animal totêmico, parece ser exemplo notório, a origem da crença em lobisomens é motivo de muita controvérsia. Licaon, rei da Arcádia, foi transformado em lobo por Zeus, por haver infringido as regras da hospitalidade. A Arcádia era a terra dos pastores e do poeta Evandro, que, segundo a tradição, levou a festa das Lupercais para Roma. Havia, por outro lado, um culto ao Zeus-Licaeus, identificado ao Baal fenício, igualmente um deus da tempestade. Licaon deve ter sido um herói civilizador que reelaborações posteriores do mito transformaram num rei impenitente. Na Roma do tempo de Augusto, cujo herói epônimo fora amamentado por uma loba, Virgílio releu a lenda sob o viés da metamorfose punitiva.
A besta de Gevaudan, que entre 1764 e 1767, assombrou a França sob Luís XV, matando em torno de 100 pessoas, seria um loup-garou.
Há mais de uma explicação para a metamorfose lupina, mas as suspeitas recaem, quase sempre, sobre os sujeitos amarelos e pálidos, que, nas noites de quinta para sexta-feira, procuram um local onde os animais costumam espojar-se e, depois de despirem-se, viram as roupas ao avesso e vestem-nas, começando a rolar sobre o bosteiro. Depois, transformados, vão correr fado, visitando sete cemitérios e sete vilas, devorando rebanhos, pequenas criações e até crianças. Os “escolhidos” são os filhos de compadre com comadre, sobrinho com afilhada, o sétimo filho “homem”, o filho nascido depois de sete filhas etc.
Câmara Cascudo descreve, com sua peculiar prosa poética, a sina do lobisomem sertanejo:
“Até o terceiro cantar do galo, o lobisomem galopa e rincha, berra e foge, espalhando terror. Ataca os caminhantes solitários para sugar-lhes o sangue. Vendo duas pessoas, esconde-se. Picando-o à faca, “quebram” o fado por aquela noite. É vulnerável a tiro. Some-se ouvindo o canto do galo. O galo, em todas as histórias e lendas sertanejas, é o libertador do medo, o vencedor das trevas, augúrio do Sol, arauto do dia longínquo. Não há fantasma ou alma penada que resista a seu canto sonoro.”
No livro “Contos e lendas da Terra do Sol”, escrito em parceria com Wilson Marques, coligimos uma lenda sobrenatural com o temível lobisomem. Na literatura de cordel, por incrível que pareça, não há muitos títulos enfocando o tema. De cabeça, me vêm quatro histórias: O lubzhomem do mar, de Luís da Costa Pinheiro, que Câmara Cascudo incluiu em Geografia dos mitos brasileiros; O lobisomem encantado, de Manoel d’Almeida Filho, da coleção Luzeiro, e O lobisomem da Avenida São João, de Costa Senna, um resumo do romance em prosa, do mesmo autor, e A Malassombrada peleja de Pedro Tatu com o Lobisomem, de Klévisson Viana. Por outro lado, temos um autor do gênero, Victor Alvim, que assumiu, sem medo nem culpa, a acunha Lobisomem. O lobisomem, como totem ou tabu, vive na boca do povo e na verve de nossos aedos.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Do Folclore ao Cordel



Da página do Centro Cultural Fiesp.

Com Marco Haurélio

L - Livre para todos os públicos

Viaje pelo Brasil por meio da rica literatura de cordel!

Conhecido por suas lendas, mitos e contos populares, o folclore brasileiro abriga a essência da nossa formação como povo. Como um legado de uma geração para outra, a tradição oral do país chamou a atenção de estudiosos como Sílvio Romero e Luís da Câmara Cascudo.  A literatura de cordel é uma delas, grande propagadora de lendas e contos populares que foram além do Nordeste e alcançaram todo o Brasil.

A Lenda do Batatão é um desses livros que bebem na fonte da tradição. Autor de mais de 40 livros, maior parte voltada à cultura popular, Marco Haurélio propõe nesse encontro uma viagem pelo território brasileiro profundo, enquanto conta como se dá o processo criativo e outras etapas do livro.


CENTRO CULTURAL FIESP
Sala do Educativo
Av. Paulista, 1.313

(Em frente à estação Trianon-Masp do metrô)

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Guerreiro sereno



Em memória de Audálio Dantas (1932-2018)



Foi Audálio Dantas, guerreiro sereno,
Dotado de rara sensibilidade,
Repórter que sempre buscou a verdade,
Senhor de si mesmo, altivo e tão pleno.

Em tempos sombrios, sempre em tom ameno,
Falava de um mundo com mais liberdade,
Foi sopro da brisa contra a tempestade
E fez da decência seu firme terreno.

Audaz cavaleiro das lutas inglórias,
Depois registradas nas muitas memórias
De vozes e letras, de livros e gentes...

Amigo querido, que a tua coragem,
Guiando-te agora na Terceira Margem,
Esparja nas almas dos justos sementes.

sábado, 5 de maio de 2018



A  edição nº 77 da revista Literatura: Conhecimento Prático (Escala), disponível nas bancas de todo o país, traz um artigo de autoria da companheira Lucélia Borges (capa) sobre Ariano Suassuna e o Brasil Real. O texto passeia pela romancista e dramaturgo paraibano, alicerçada na cultura popular brasileira. Desde o Romance da Pedra do reino, cujos capítulos são chamados folhetos, em homenagem ao cordel, passando pelas peças premiadas, como O santo e a porca, A farsa da boa preguiça e Auto da Compadecida, a persona artística de Ariano vai muito além das aulas-espetáculo, que o tornaram conhecido de muita gente. 

Para a mesma edição escrevi um artigo (uma quase matéria) sobre o cordel na contemporaneidade, com foco em alguns autores e editores independentes. Também presto uma homenagem a Leandro Gomes de Barros (1865-1918), a quem batizo de "poeta-ponte",  no centenário de sua morte. 

Para acessar a página da revista, clique AQUI

sexta-feira, 30 de março de 2018

Bendito em louvor a Senhor dos Passos

Imagem de Senhor dos Passos. Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
Ponta da Serra (Igaporã, Bahia)



Bom Jesus Senhor dos Passos,
Venha ver com alegria,
Venha ver contar os passos
Do Senhor que voz trazia.

O Senhor que voz trazia
Era filho da Virgem Pura:
Andava vertendo sangue
Pela rua da amargura.

Por favor, você me ajuda,
Senhor, eu ajudarei.
O madeiro é tão pesado
E eu não sei se eu levarei.

Eu não sei se eu levarei
Com tamanha crueldade,
Cada passada que dava,
Caía, e se ajoelhava.

Caía e se ajoelhava
Sem poder se levantar.
Quando ia levantar,
Gota de sangue suava.

A lançada que vos deu
São Longuinho com sua mão
Trespassou Jesus no peito
E Maria no coração.

Ofereço este bendito
Pra o Senhor que está na cruz
Em tenção de Senhor dos Passos
E o coração de Jesus.





















Informante: Isaulite Fernandes Farias (Tia Lili), 80 anos. Nascida e criada na Ponta da Serra, zona rural de Riacho de Santana (hoje Igaporã), Bahia, onde a devoção a Senhor dos Passos, co-padroeiro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, movia multidões, principalmente às quintas e sextas da Semana Santa.


quarta-feira, 21 de março de 2018

Convite: Cordel no Memorial



A importância da literatura de cordel vai muito além do volume de folhetos produzido em mais de um século de existência. O seu reaproveitamento em outras manifestações artísticas, as releituras e apropriações feitas por poetas de outras searas, são indicadores de sua presença na cena cultural brasileira. Imaginemos o cinema novo, sem as inovações narrativas de Glauber Rocha, que chegou a compor um cordel, cantado por Sergio Ricardo, no clássico Deus e o diabo na terra do sol e inseriu trechos de A chegada de Lampião no inferno, no experimental O dragão da maldade contra o santo guerreiro. A luta pela preservação da identidade, ante a opressão da cultura de massas, é a metáfora do belo filme de João Batista de Andrade, O homem que virou suco, protagonizado por José Dumont, que encarna um poeta popular. 

Nota: Trecho do capítulo O Cordel na cena Cultural Brasileira. in: Literatura de Cordel: do sertão à sala de aula (Paulus, 2013). 

Serviço: O Cordel na cena Cultural Brasileira
Local: Memorial da América Latina (Biblioteca Victor Civita
Data: 24 de março (sábado), 17h. 

terça-feira, 13 de março de 2018

Festa do Cordel no Memorial da América Latina


Banda de Pífanos “Fulô da Chica Boa” é uma das novidades desse ano
O cordel, manifestação popular presente em várias vertentes da cultura brasileira – está na literatura, nos quadrinhos, no cinema e na música – faz sua festa anual no Memorial da América Latina com vasta programação que será aberta ao público no dia 17 de março e traz como grande atração a Banda de Pífanos “Fulô da Chica Boa”, de Maceió.
A Feira do Cordel e da Cultura Popular tem agenda diária até o sábado seguinte, 24, na Biblioteca Latino-Americana, onde também haverá exposição com as mais recentes publicações de cordel na área editorial. A exposição fica aberta ao público até o dia 1º de abril.
Seguindo o mesmo padrão de organização desde que foi realizado pela primeira vez no Memorial, o evento abrange o que há de mais expressivo das tendências e linguagens do cordel, adaptando-as para o contexto atual da realidade brasileira.
A programação contempla atrações e atividades para iniciados ou simplesmente interessados pela narrativa do cordel em todas as suas imersões pela cultura popular oral, escrita e visual. Assim, as temáticas estão presentes nos saraus litero-musicais, na contação de histórias e causos, apresentações teatrais, no desafio de repentistas, na exposição de xilogravura e em palestras que atualizam o panorama do mercado editorial, a projeção do cordel nos meios coletivos de comunicação, sua influência nas áreas de educação, ambiental e sua utilização na era digital.
Confira, agende o passeio, traga a família e participe. É tudo de graça.
Programação

  • Dia 17 (sábado)
  • 17h – Abertura com a banda “Fulô da Chica Boa” (Maceió/AL)
  • 19h – Violeiro “Aldy  Carvalho” (Petrolina/PE)
  • 21h – Contador de causos “Eufra Modesto” (BA)
  • Dia 18 (domingo)
  • 10h – “A Arte de Jorge Mello” – cantor, músico, ator e memorialista
  • 11h – Lançamento do Cordel “Bandinha Fulô da Chica Boa”, de João Gomes de Sá, com a presença da Banda Pífanos “Fulô da Chica Boa”
  • 14h – Grupo “Máscaras de Teatro e Dança” (Guaranésia/MG)
  • 16h – Banda “DonaZé” (Guaranésia/MG)
  • Dia 20 (terça-feira)
  • 15h – Lançamento de Cordéis do poeta João Paulo Resplandes (Caiçara/MA)
  • Dia 21 (quarta-feira)
  • 14h – Palestra “Mulheres Cordelistas”, com Maria Psoa (Natal/RN)
  • Dia 22 (quinta-feira)
  • 10h – Lançamento de Cordéis
  • 14h – Palestra “O Cordel na Escola”, com Varneci Nascimento, Pedro Monteiro e João Gomes de Sá
  • 16h – “A Arte de Ibys Maceioh” – músico e compositor
  • Dia 23 (sexta-feira)
  • 15h – Lançamento do Cordel “O Velho Mágico e o Gato na Cartola”, de Cleusa Santo (cordelista e contadora de história)
  • Dia 24 (sábado)
  • 11h – Encontro com a poeta Socorro Lira (PB)
  • 13h – Lançamento de Cordéis
  • 14h – Oficina “A Técnica da Xilogravura”, com Nireuda Longobardi e Lucélia Pardim
  • 17h – Palestra “O Cordel na Cena Cultura Brasileira”, com Marco Haurélio (BA)
  • 19h – Show de encerramento com a banda “Cuca Monga” (SP)

  • Exposição de Cordéis
  • Abertura: 17 de março, às 10h
  • Em cartaz até 1º de abril de 2018
  • Visitações: todos os dias, das 9h às 18h
  • Entrada gratuita
  • Classificação livre

 Serviço
Feira do Cordel e da Cultura Popular

Data: De 17 a 24 de março de 2018
Local: Memorial da América Latina  – Biblioteca Latino-Americana
Endereço: Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Barra Funda
Acesso: Portões 1 e 5 (Praça Cívica)
Entrada Gratuita


O REINO DA PEDRA FINA e a HISTÓRIA DA PRINCESA DA PEDRA FINA

Acervo da Casa de Rui Barbosa. 


Pouca gente, mesmo no meio do cordel, conhece estes versos, de Leandro Gomes de Barros:

É esta a real história
Do Reino da Pedra Fina,
Do moço Moysaniel 
E da princesa Angeltrina,
Filha do reino encantado
Da tenebrosa colina.

Havia um grande país
De nação civilizada,
Aonde tinha uma serra
De grandes pedras formada.
Diziam que lá havia
Uma princesa encantada.

A serra era muito alta,
Tinha uma grande colina.
Da serra descia um rio
D’água muito cristalina.
Via-se escrito nas águas:
PRINCESA DA PEDRA FINA. 

NOTAS
1. Circula por aí, ainda hoje, atribuída erroneamente a Leandro Gomes de Barros, a versão mais conhecida dessa história que tem por base um conto maravilhoso. O romance iniciado com estes versos “No reino da Pedra Fina/ Havia uma princesa/ Misteriosa, encantada/ Por obra da natureza,/ Com ela as duas irmãs/ Que eram a flor da beleza.", aqui representada por uma antiga edição da Guajarina, de Belém (PA), nunca foi de Leandro, como dá a entender o famoso rapsodo nos dois primeiros versos acima reproduzidos: “É esta a REAL história/ Do Reino da Pedra Fina (....)”. A versão em que o protagonista é chamado José e o antagonista é um barbeiro, sombra do herói, nas antigas edições, jamais teve, que se saiba, um autor identificado. 
2. O saudoso cordelista João Firmino Cabral (1940-2016) me disse, em conversa informal, que, quando criança, ouvia  dos mais velhos a afirmação de que se tratava de um dos mais antigos romances de Silvino Pirauá. 
3. Na década de 1970, as filhas de José Bernardo da Silva passaram a publicá-la em nome de Leandro, incorrendo num erro que, desde então, vem sendo repisado. 
4. A editora Prelúdio de São Paulo publicou, na década de 1950, uma variante de Manoel Pereira Sobrinho, amparada na versão de Leandro. Por engano, a capa desta edição foi reutilizada, no início dos anos 2000 na versão mais conhecida, aumentando ainda mais a confusão.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Bule-Bule reconta mitologia dos orixás em cordel

Capa do livro. Ilustrações: Klévisson Viana

Os orixás, ensina-nos Pierre Verger, foram homens excepcionais, cujos feitos garantiram-lhes a imortalidade. Exu, por sua astúcia; Ogum, por sua coragem e ferocidade guerreira; Xangô, por sua valentia; Iansã e Oxum, belas e sensuais, opostas e complementares, protagonistas de lendas, por sua rara beleza. Iemanjá, deusa-mãe, emblema do princípio feminino, senhora digna das maiores reverências, por triunfar sobre as forças da desordem. Humanos e divinos, forças da natureza, símbolos de nossos medos e de nossas esperanças. E é por intermédio de Antônio Ribeiro da Conceição, o mestre Bule-Bule, que vemos, pela primeira vez, a mitologia dos orixás vertida, em uma grande e coesa antologia, para o cordel. É difícil imaginar outro autor, não familiarizado com a vida nos terreiros, esmiuçando, com profundidade e graça, as lendas e os mitos de origem diversa, narrados de forma tão atraente. Por vezes contraditórias, graças à sua origem nem sempre homogênea, enfatizada pelas lendas em que as rivalidades, mormente entre Xangô e Ogum, ganham destaque, pelas mãos e estro de Bule-Bule entramos em contato com os pontos fulcrais da gesta Ioruba. A figura de Iemanjá, divindade cosmogônica, neste particular, tem grande importância, pois ela é a fonte da qual brotam não apenas as outras divindades, mas também as nuvens e as estrelas. Diferentemente de outras cosmogonias (babilônica, grega, nórdica), esta grande deusa não representa as forças do caos, a serem vencidas, mas a ponte entre o nada e o mundo como o conhecemos.  Que o machado de Xangô, o raio de Iansã, a espada de Ogum e, agora, a pena de Bule, sejam armas eficazes contra esse monstro terrível, o preconceito, filho do ódio e da ignorância.

Orgulhosamente assino o texto de orelha, reproduzido acima, e a revisão. O trecho abaixo abre o poema Xangô se torna rei de Oió:

Para o homem triunfar
É preciso estar ciente
De que atrás dum pau tem outro,
Por mais que seja valente.
Um homem sempre encontra outro
Que possa tomar-lhe a frente.


Pedir ajuda a quem pode
No momento lhe ajudar,
Consultar quem sabe mais,
Ser humilde e perguntar,
Seguir o regulamento,
Servir a quem precisar.

A mitologia estuda
Deuses, semideuses, mitos,
Magros, gordos, altos, baixos,
Os horrendos e os bonitos,
Os que convencem na paz
E os que comandam nos gritos. 

Mestre Bule-Bule da Bahia.