quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

10 Cordéis nota 10



Atenção! Tenho exemplares da caixinha de folhetos da coleção 10 Cordéis nota 10 (editora IMEPH) disponíveis para venda. São 10 títulos que cobrem quase 30 anos de caminhada poética:

O Herói da Montanha Negra

O Pobre que Trouxe a Sorte de Casar com uma Princesa

João Destemido e as Três Folhas da Serpente

A Briga do Major Ramiro com o Diabo

O Príncipe que Via  Defeito em Tudo

Galopando o Cavalo Pensamento

A Idade do Diabo

Os Três Conselhos Sagrados

As Babuchas de Abu Kasem

História da Moura Torta



Para fazer seu pedido, clique aqui. 

A caixa custa R$ 30,00 (frete incluso).

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Breve História da Literatura de Cordel (segunda edição)



Já está disponível, no site da Nova Alexandria, a nova edição do livro Breve História da Literatura de Cordel. Esta nova edição, revista e ampliada, traz, assim como a anterior, ilustração de capa de Jô Oliveira.

Abaixo, um trecho da Introdução ao livro, sugestivamente batizada como Chegança:

Dobrada a esquina do século e do milênio, a Literatura de Cordel do Brasil, contrariando previsões pessimistas, continua viva. A resistência deste ramo da literatura popular tem motivado inúmeras discussões no meio acadêmico, no qual os estudos sobre Cordel são cada vez mais frequentes. Há várias editoras tradicionais ou instituições imprimindo e comercializando folhetos populares e, a cada dia, mais e mais títulos são lançados em várias mídias, que vão da reprodução por xerox até a impressão em off-set. Verdade que, como em qualquer outro gênero literário, qualidade e quantidade nem sempre caminham juntas. Mas, ao final, somente a joeira do tempo dirá quem sobreviveu às novas possibilidades.

Desde a origem, quando circulou em manuscritos ou em poemas preservados na memória de cantadores e contadores de histórias, até o momento em que se iniciou a produção em larga escala por iniciativa do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros, paraibano de Pombal que migrou para cidades dos arredores do Recife, até fixar-se definitivamente na capital pernambucana, o Cordel conheceu cumes e abismos, passou por transformações e se adaptou aos novos tempos. Algumas características básicas definidoras, como a preferência dos autores pelos versos em redondilha maior (de sete sílabas poéticas), com predominância da sextilha, além de temáticas que mesclam o regional ao universal, permanecem. Com Leandro, até hoje considerado o maior poeta do gênero, no final do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, o Cordel atingiu o primeiro ápice. Não que este poeta tenha sido o primeiro a imprimir e vender folhetos. Definitivamente não o foi. Há registros de folhetos de autores portugueses e brasileiros que circularam antes da alardeada e nunca comprovada data – 1893 – de publicação do primeiro folheto de Leandro. A sua contribuição maior, para além da qualidade de sua obra, foi a criação de uma atividade editorial regular, com o estabelecimento de um modelo que seria imitado por todos os futuros editores, fossem eles poetas ou não. Sua estratégia de publicar os romances e folhetos em fatias, à maneira dos folhetins, mimetizando uma prática comum aos jornais do século XIX, foi muito bem-sucedida, se levarmos em conta a formação de um público fiel e ávido por novidades.

 A editoração, a partir da década de 1920, com a ascensão de João Martins de Athayde, outro paraibano radicado na Veneza brasileira, chegou a um nível de profissionalismo tal que, para atender à demanda de uma legião de leitores, eram impressos milhares de exemplares de um único volume. Athayde, que trabalhava com os títulos de sua autoria e de outros poetas, adquiridos por compra ou permuta (a popular conga), aperfeiçoou o sistema de publicação e distribuição de Leandro, publicando os cordéis em versões integrais ou, quando necessário, em dois ou mais volumes. De 1921 a 1949, embora enfrentando a concorrência do aguerrido poeta, editor e livreiro paraibano Francisco das Chagas Batista, em suas aventuras em tipografias pelo interior e, finalmente, na capital de sua terra natal, Athayde foi quase senhor absoluto de seu ofício.


Muitos outros nomes ajudaram a definir os rumos da literatura de cordel nordestina, a exemplo de José Camelo de Melo Resende, autor do Romance do Pavão Misterioso e de outros tantos títulos de prestígio, e José Pacheco da Rocha, o brilhante autor de A chegada de Lampião no Inferno, o mais memorável dos folhetos humorísticos, cuja inspiração parece vir do teatro de mamulengos, por sua vivacidade despojada de adornos e floreios. Outra geração, nascida no início do século passado, teve um papel igualmente importante na consolidação do gênero, com a ampliação do referencial temático, resultante das muitas diásporas sertanejas, e a consequente evolução gráfica, a partir do desenvolvimento de uma atividade industrial de impressão em São Paulo, depois da década de 1950. Destaca-se, então, a editora Prelúdio, a princípio assessorada pelo baiano Antônio Teodoro dos Santos e depois por Manoel D’Almeida Filho, rebatizada na década de 1970 como Editora Luzeiro, responsável por uma revolução em termos comerciais, a ponto de chocar com suas capas coloridas e edições bem cuidadas os pesquisadores puristas ou “tradicionalistas”.

Para adquirir a obra, clique AQUI

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Cantando com o banjo na beira do mar


Antonio Nóbrega declama estrofe de Marco Haurélio

Mestre Antonio Nóbrega criou o mote do título e o Instituto Brincante promoveu um concurso em que o prêmio era um banjo. Não um banjo qualquer, mas um instrumento da estima do grande artista pernambucano. Escrevi duas estrofes em galope à beira-mar, e uma delas saiu vencedora do concurso.

É a que segue abaixo:

Voltamos ao tempo do arbítrio e da bala,
da bomba que fere, estilhaço que cega,
e do olho que enxerga, mas, mesmo assim, nega;
da boca que fala, mas hoje se cala.
Se cala com medo, pois quando se fala,
se planta a semente do novo pensar;
semente que grita, porque faz brotar
de novo a esperança, que foi violada.
Pela liberdade, contra a mão armada,
cantando com o banjo na beira do mar.


















Atualização: Estive no domingo, 26 de novembro, no Instituto Brincante, a convite de Antônio Nóbrega, para pegar o prêmio. Aliás, o segundo prêmio foi conhecer pessoalmente este grande artista pernambucano, cantor, compositor, ator, poeta e dançarino. A tradução viva e pulsante do Movimento Armorial de Ariano Suassuna. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Romance de Iracema

Lira e Nenzinha, duas mestras da cultura popular de Igaporã (BA). 















No dia 5 de maio,
O sol lá por trás dos galhos,
Parecia adivinhar...
Os passarinhos cantavam,
Muita gente até chorava:
Esta história eu vou contar.
Iracema namorava,
Mas nunca ela pensava
De um destino traiçoeiro.
Em palavras bem mesquinhas,
Achou que não lhe convinha
Seguir com Antônio Ribeiro.
Antônio se aborreceu,
Um suspiro logo deu,
Não soltava a sua fala.
Ele fez uma promessa:
Prometeu cumprir depressa
Perseguindo pra matá-la.
O triste acontecimento
Que não teve salvamento
Às sete horas da manhã.
Aos trabalhos dirigia
Iracema nesse dia
Junto com suas irmãs.
Na travessa da avenida
Foi o fim da sua vida,
Coitadinha! não sabia!
Iracema, já cansada,
No meio da encruzilhada
Tropeçava e já caía.
Ele lhe deu três facadas,
Sangue corre às enxurradas,
Travessando seu pulmão.
Antônio saiu contente,
Por ter matado a inocente
Na maior judiação.
E, depois de ter matado,
Declarou o corpo de um lado
Na pavadeira do chão.
Antônio saiu calado
E logo foi agarrado,
Seguindo para a prisão.
Todo mundo arrodeava
E todo se recordava
Com a dor no coração
Ao ver a pobre coitada
Em sangue estava deitada
No meio da multidão.
Pra chegar em casa dela,
Parecia ser a mais bela
Das flores do seu jardim.
Os seus pais, com desespero,
Logo saem para o terreiro
Para ver seu triste fim.
Ela, deitada e já fria,
O povo até invadia
Com suspiro e soluçante.
Não teve quem não chorasse
Ao beijar aquela face
Neste dia lagrimante.
Onde morreu a coitada
Todo mundo faz parada
Somente pra recordar.
Iracema foi-se embora,
Nesta terra já não mora,
Foi pra nunca mais voltar.
O dia do enterro dela,
Pelas ruas, na janela,
Chamava logo a atenção.
Vestida com lindo véu,
Já estava lá no céu,
Deixando recordação.

Informantes: Lira e Nenzinha (Igaporã, Bahia)

NOTA: Este romance em versos composto em sextilhas (esquema AABCCB com rimas toantes e consoantes) é cantado pelas irmãs Lira e Nenzinha Amaral, de Igaporã (BA). Certamente, reproduz um fato real, o assassinato de uma inocente, que causou grande comoção, merecendo o registro de um poeta popular, cujo nome se perdeu. Lira e Nenzinha perderam a visão ainda meninas, conservando uma memória prodigiosa. Conhecem uma infinidade de romances, desde os ibéricos, com grande número de versões e variantes, aos romances trágicos brasileiros, categoria que inclui o exemplar acima reproduzido.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Esconjuros portugueses contra bruxas

Por: José Joaquim Dias Marques
Lionel Lindsay, A Bruxa, xilogravura, 1924.
Como em grande parte do mundo, a noite de Halloween tem-se vindo a tornar uma tradição também em Portugal, e certas pessoas costumam aqui designá-la por "noite das BRUXAS", numa curiosa adaptação terminológica da tradição norte-americana (tradição essa de longínqua origem europeia, claro).

Tendo em mente essa nova (?) designação, de noite das bruxas, vou transcrever alguns ESCONJUROS (subgênero das orações tradicionais que inclui os textos destinados a afastar o mal) contra as BRUXAS, recolhidos por duas antigas alunas minhas da disciplina de Literatura Oral da Universidade do Algarve:

-1-

Informante: Fernanda Teresa Fernandes, 74 anos. Tem a 4ª classe.
Natural de Alfarrobeira, freguesia de S. Clemente, concelho de Loulé, distrito de Faro. Mora em Quarteira, concelho de Loulé.

Esconjuro recolhido nas Baceladas, freguesia de Quarteira, concelho de Loulé, distrito de Faro, em 24/4/2011, por Elisabete Andrade Reis.

Este esconjuro diz-se quando, na rua, se encontra alguém que se suspeita que é bruxa e nos pode deitar mau-olhado. A informante explica que o aprendeu com uma vizinha, em Quarteira.

A folha do alho tem três porras.
Tu és o Diabo que para mim olhas.
Ainda agora Nosso Senhor Jesus Cristo me viu.
Quero que tu vás para a puta que te pariu!

- 2 -

Outro esconjuro com o mesmo objetivo, da mesma informante, Fernanda Teresa Fernandes, recolhido também por Elisabete Andrade Reis, na mesma data do anterior:

Bruxa refinada,
Não tenho nada para te dar,
Senão o leite da Virgem
Ou o pão do altar.

- 3 -

Informante: Catarina Rosária, 85 anos. Foi trabalhadora rural. Analfabeta.
Natural de Algunha, freguesia de S. Barnabé, concelho de Almodôvar, distrito de Beja.
Recolhido em Várzea da Mão, concelho de Loulé, distrito de Faro, a 21/12/2002, por Elisabete Andrade Reis.

Este esconjuro recitava-se quando uma pessoa se cruzava com alguém que tinha fama de bruxa. Repetiam-se estas palavras até se estar a uma distância considerável da bruxa. Enquanto se dizia este esconjuro, colocava-se o polegar entre o dedo indicador e o dedo médio, segundo mostrou a informante, por gestos. A informante aprendeu este esconjuro com a tia e a avó.

Figas real!
Tu és de ferro,
E eu de aço.
Tu és bruxa, 
E eu te embaço.

- 4 -

Informante: Maria Rosa Guerreiro, 62 anos. Natural de Alte, concelho de Loulé, distrito de Faro. É costureira. Sabe escrever e ler, mas muito pouco.

Recitava-se quando uma pessoa se cruzava com outra que tinha fama de bruxa. A informante aprendeu com o avô e já ensinou à filha.

Quando se diz este esconjuro, a pessoa deve colocar o polegar entre o dedo indicador e o dedo do meio (segundo mostra a informante, por gestos) e só parar quando a bruxa se afastou.

Recolhido em Várzea da Mão, concelho de Loulé, distrito de Faro, a 21/12/2002, por Elisabete Andrade Reis.

Tu és de ferro
E eu sou de aço.
Tu és bruxa
E eu te embaço!

- 5 -

Informante: Lucília Maria Cabrita dos Santos, 54 anos. Natural de Castro Marim, concelho de Castro Marim, distrito de Faro. Foi aí que aprendeu este esconjuro, com as amigas, quando era adolescente.
Recolhido em Olhão, a 28/12/2004, por Cláudia Sofia Cabrita dos Santos.

Como se poderá ver, a funcionalidade desta versão é afastar o Diabo e não as bruxas. No entanto, o texto pertence sem dúvida ao mesmo esconjuro das versões nºs 3 e 4.

Tu és ferro e eu sou aço. 
Foge, Diabo, que te embaraço.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Espaço do Cordel e do Repente é destaque na Bienal de São Paulo



Foram 10 dias de muito encantamento naquele que muitos consideraram o espaço mais aprazível desta edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O Espaço do Cordel e do Repente serviu àquilo que Vinicius de Moraes chamava de arte do encontro. Quando Lucinda Azevedo, presidente da Câmara Cearense do Livro, me convidou para fazer a curadoria artística, não imaginava o tamanho da responsabilidade. Divido com Arlene Holanda, Crispiniano Neto, Rouxinol do Rinaré, Delma, Zé e todos que ajudaram na construção do projeto e em sua realização, a alegria de ter feito parte de uma equipe que jamais desafinou.

Cordel, repente, xilogravura, coco, ciranda, narração de histórias, cantigas, parlendas, trava-línguas, cantoria, mamulengo, chula, samba de roda fizeram parte de um cardápio generosamente servido ao longo da feira. A justa homenagem a dois grandes nomes do cordel, o pesquisador Joseph Luyten e o poeta Antônio Teodoro dos Santos, que batizaram o prêmio concedido pela CCL a poetas e divulgadores da nossa arte, mostrou-se adequada, pois ambos residiam em São Paulo. Luyten, nascido na Holanda, estabelecido inicialmente no Recife, à rua Motocolombó, na mesma casa em que morou Leandro Gomes de Barros, a estrela mais fulgurante da constelação do cordel, foi um dos grandes pesquisadores do cordel. Teodoro, nascido em Jaguarari, na Bahia, migrou para São Paulo e ajudou a sedimentar o cordel na capital bandeirante, contribuindo sobremaneira com a editora Prelúdio (hoje Luzeiro).

Não podemos esquecer de Luís Antônio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro, entidade que organiza a Bienal. Sem o seu aval, nada disso teria acontecido. E nem de José Xavier Cortez que, há muito tempo, reivindica a presença do cordel numa feira do porte da Bienal de São Paulo.

Aos meus amigos, companheiros de arte, reitero minha gratidão. Por muitas vezes, me vi debaixo do umbuzeiro que ficava nos fundos da casa em que nasci na Ponta da Serra, na Bahia, lendo a História de Juvenal e o Dragão e outros clássicos do cordel. É preciso sempre olhar para trás para dar um passo adiante. E, sem essa evocação da memória afetiva, o cordel será apenas um amontoado de rimas e mais nada.


Gratidão!

Apresentação de Paulo Araújo na abertura do Espaço do Cordel. 
José Santos e Jonas brincando de poesia. 
Jô Oliveira.
Genildo Costa e Paulo Araújo
Arlene Holanda dedica livro à pequena fã.
Mestres da cantoria: Sebastião Marinho e Geraldo Amancio.
Luciano Tasso e Lucinda Marques. 
Com o jovem multiartista Rafael Brito.
Xamgai e Lucinda Marques
Lucélia conta histórias.
Paiva Neves, Valdério Costa, Marco Haurélio e Leila Freitas.
Moreira de Acpiara, Stênio Diniz, Chico Pedrosa, Lucinda Marques, Dideus Sales,Bráulio Tavares,
Rafael Brito, Rouxinol do Rinaré, Lirinha, Crispiniano Neto, Paulo de Tarso e Paulo Araújo.
Agachados: Zé Lourenço, Sapiranga, Antônio Francisco, Marco Haurélio e Antônio Barreto. 
  
Lucélia Pardim. 
Eraldo Miranda, Fábio Santos, Lucélia e este que vos escreve. 
Com Antonio Barreto, El Barretón. 
Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Cacá Lopes, Varneci Nascimento,
Arievaldo Viana, Crispiniano Neto e Rafael Brito.
José Walter Pires, Marco Haurélio, Antonio Barreto e Raissa.
Josué Campos, Costa Senna e Eugenio Leandro. 
Dois mestres: Chico Pedrosa e Bule-Bule. 
Rafael Brito e Luiz Carlos Bahia. 
Rosi, Paulo Araújo, Bule-Bule, Lucinda e Assis Angelo. 
Socorro Lira em apresentação memorável. 
Dideus Sales e Fátima Ferreira
Luiz Wilson, Pedro Monteiro, Paulo Viana e Marco Haurélio.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Clássico infantil ganha versão em cordel


Texto: Divulgação.


A história do principezinho que veio do espaço para ensinar valiosas lições a um aviador que aterrissou com o avião em pleno deserto do Saara, de autoria do francês Antoine de Saint-Exupéry, foi publicada originalmente em 1943. O autor, que era piloto e serviu às Forças Livres da França durante a Segunda Guerra Mundial, contou sua trajetória na infância e a maneira reducionista como muitos adultos enxergam as crianças. Traduzido em mais de 200 idiomas, O PEQUENO PRÍNCIPE já foi adaptado para cinema, quadrinhos e televisão. E agora ganha também uma encantadora versão em cordel, marcada pelas rimas e pelo ritmo bem marcado da poesia, o piloto conta tudo que aprendeu com o menino do asteroide. Inclusive sobre amar e sentir saudade.

CORDEL DO PEQUENO PRÍNCIPE, é o primeiro título da Coleção CORDEL NA ESTANTE.

Título: Cordel do Pequeno Príncipe
Autor: Stélio Torquato Lima
Ilustração: Maércio Siqueira
Coleção: CORDEL NA ESTANTE
ISBN: 989-85-293-0191-4
Formato fechado: 16 x 23
Nº de páginas: 56
Profundidade: 0,4  cm
Preço de capa: R$ 32,90


Stélio Torquato Lima, nasceu em 8 de outubro de 1966. É doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB – e professor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Ceará – UFC, onde também coordena o Grupo de Estudos Literatura Popular (GELP). Entre outras obras para o cordel, publicou: Primas em cordel (versão de 12 obras da literatura universal para o cordel); Iracema, (Adaptação do romance de José de Alencar); Lógikka, a Bruxinha Verde (Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, organizado pelo Ministério da Cultura); O pastorzinho de nuvens (1º lugar Programa de Alfabetização na Idade Certa – PAIC, da Secretaria de Educação do Estado do Ceará) e Shakespeare em cordel (reunião de 11 peças do bardo inglês para o cordel, publicada em 2013).

Máercio Lopes de Figueirêdo Siqueira, nasceu em Santana do Cariri, no estado do Ceará, em 21 de novembro de 1977. É formado em Letras pela Universidade Regional do Cariri e concluiu Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. É membro da Academia dos Cordelistas do Crato. Graças à literatura de cordel, faz xilogravura desde 1999, a princípio para ilustrar capas e folhetos e depois como forma de expressão artística.


domingo, 24 de julho de 2016

A história dentro da História

Thor com seu martelo Mjolnir. Ilustração de Klévisson Viana.

No romance O Cavaleiro de Prata, que irá ao prelo com o sel oda Editora de Cultura, as personagens contam histórias. E as histórias justificam a História. É o caso da luta da ordem com o caos, simbolizado nos combates recorrentes entre o deus nórdico Thor e os gigantes, que duram até o Ragnarok (o crepúsculo dos deuses). O excerto abaixo reproduzido traz a fala de um dos soldados do rei da montanha, inimigo mortal do príncipe Borg, o protagonista de nossa história:

Há uma lenda que diz
Que há muito tempo viveu
O gigante mais perverso
Que esse mundo conheceu,
Mas,  pelas mãos do deus Thor,
Esse monstro pereceu.

E, conforme a tradição,
Aquela fera esquisita,
Unindo-se a outros monstros,
De feição nada bonita,
Espalhou por toda a terra
A sua prole maldita.
 
Esses monstros miseráveis
Foram vencidos por Thor;
Mas, Odin, o pai do herói,
Como divindade-mor,
Intercedeu na matança
E sobreveio o pior.                                      

Odin achava que os homens
Deviam ser castigados
E assim esses monstros eram
Como flagelos mandados
Para punir os humanos
Pelos deuses condenados.

Resignado, o deus Thor
Interrompeu a matança.
Os monstros ficaram livres
Para a terrível vingança
Contra os homens, pois os deuses
Demônio nenhum alcança.
Odin. Gravura de Klévisson Viana.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Cordel e a Cultura Popular na novela Velho Chico

Ao sofrer com a seca do Nordeste, Belmiro decidiu se mudar com a família para Grotas do São Francisco (Foto: Caiuá Franco/ Globo)
O retirante Belmiro (Chico Diaz). Foto: Caiuá Franco.

Quem acompanha a novela das 9 da Globo, Velho Chico, sabe que, de vez em quando, surge em cena uma dupla de cantadores que, à maneira do coro grego, apresenta, em versos, acontecimentos cruciais da trama ou improvisa, de forma bem-humorada, sobre as rixas dos clãs rivais na fictícia Grotas do São Francisco: Sá Ribeiro e dos Anjos. Interpretada pelos cantores Xangai (Avelino) e Maciel Melo (Egídio), a dupla desfiou, ao longo de cem capítulos, sextilhas, setilhas, mourões de sete pés e mourões voltados, entre outras modalidades da poesia popular, abrangendo os mais variados temas: uma loa para Jacinto (personagem de Tarcísio Meira), que morre no primeiro capítulo da trama de Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi; um folheto narrando o encontro do Capitão Rosa (personagem de Rodrigo Lombardi) com Saruê (apelido depreciativo de Jacinto) no portão do Paraíso; um improviso jocoso acerca de um suposto “chifre” de que foi vítima Afrânio (Rodrigo Santoro); e, mais de uma vez, improvisos sobre a disputa entre o honesto vereador Bento (Irandhir Santos) e o corrupto prefeito Raimundo (vivido pelo grande cantador mineiro Saulo Laranjeira).

Como é sabido por muita gente, tendo sido divulgado em alguns espaços da rede, sou eu o autor destes poemas. Escrevi a maior parte por sugestão dos autores, e, em alguns casos, apresentei sugestões que foram acatadas. Conheci Edmara Barbosa no início de 2014, em Serra do Ramalho, Bahia, cidade banhada pelo Velho Chico, ocasião em que ela se encontrava na região coletando informações acerca das tradições e costumes da região para incorporar à sinopse que escrevera em parceria com o filho Bruno. Ela, assim que soube que eu era cordelista e pesquisador da cultura popular, quis conhecer o meu trabalho que, além de quase uma centena de cordéis, inclui livros com recolhas de contos e cantos populares, cobrindo uma vasta região da Bahia e, eventualmente, outros estados. Depois de um tempo, aprovada a sinopse, a seu convite, tornei-me consultor da história, já aprovada pela Globo, com supervisão de Benedito Ruy Barbosa e direção artística de Luís Fernando Carvalho, o mais autoral dos realizadores da TV brasileira.

A minha missão, além de escrever os cordéis, era apresentar hábitos, festas, costumes, lendas e crendices que margeiam o rio São Francisco. Numa viagem que fizemos, em maio do ano passado, da foz do rio, entre Sergipe e Alagoas, a Bom Jesus da Lapa, Bahia, assistimos, na Vila Boa Esperança, em Serra do Ramalho, a uma roda de São Gonçalo, realizada com a presença de arcos manuseados pelos pares, que foi reproduzida, com esmero, em dois momentos cruciais da história. Os autores ainda incorporaram à história o hábito de muitos idosos, ainda hoje, tecerem a própria mortalha, comprovando que a morte é aceita com naturalidade. O costume, estranho para quem não é do sertão, aparece ligado à figura emblemática da matriarca dos de Sá Ribeiro, Encarnação (a estupenda Selma Egrei), personagem que parece saída de um romance de Gabriel García Márquez, mas representa a arcaica aristocracia rural do Nordeste, que agoniza, se arrasta, mas ainda está viva.

Também estão presentes na trama as pegas de boi na Caatinga, rememorando a civilização do couro, e lembrando que o rio São Francisco, protagonista da história, por seu papel importante na colonização do país, já se chamou Rio dos Currais. O costume antigo de se sair em demanda do gado bravio, criado solto nos tabuleiros e reunido pelos intrépidos vaqueiros, deu origem à vaquejada moderna. Na novela, foi mostrada a pega de boi no “cipoá” (o carrasco), termo que aparece numa obra seminal do cordel, a História do Valente Sertanejo Zé Garcia, de João Melchíades Ferreira, que serviu de inspiração aos autores. A cena, que mostra a disputa entre o herói Santo (Renato Góes) e Cícero (Pablo Morais), filmada com um apuro raras vezes visto, pelo meticuloso Luís Fernando Carvalho, lembrou a disputa épica entre Messala e Ben-Hur, no clássico filme dirigido por William Wyler em 1959.

Isso sem falar na presença mágica de Ceci (Luci Pereira), retrato fiel das benzedeiras, das cassandras sertanejas, com seus prognósticos e meizinhas, transitando, naturalmente, entre a realidade e o sonho. Nos mal-assombros do rio, em que pontifica o Negro d’Água, ou Compadre d’Água, duende benéfico ou maléfico, que só respeita a carranca na proa das embarcações e o tabaco deixado em troca de seu obséquio. E no Gaiola-Encantado, barco-fantasma que recolhe a alma dos mortos que habitam as margens do rio. Tudo isso emoldurado por uma trilha sonora que é uma síntese do sertão mítico e agônico, com nomes como Elomar, Geraldo Azevedo, Tom Zé e Maria Bethânia, além da revelação Paulo Araújo, compositor de Bom Jesus da Lapa, Bahia, barranqueiro até a medula. E pela trilha instrumental de Tim Rescala, que, por vezes, remete aos westerns de Sergio Leone, sem esquecer as matrizes populares da nossa música de que ele se abeberou.

Em síntese, Velho Chico já retratou, em sua história, cantos de lavadeira, benditos, acalantos, "incelenças", samba de roda, além do bom e velho forró pé de serra. Ouso dizer que, na história da TV brasileira, é a novela com maior presença de elementos de nossa cultura popular. E isso, definitivamente, não é pouco. 
Santo (Renato Góes) e Tereza (Julia Dalavia). Foto: Adriana Garcia.
Trechos de cordéis escritos para a novela

REPENTE EM MEMÓRIA DO CORONEL JACINTO 

Vamos cantar em memória
O finado coronel.
Uns dizem que era bom,
Outros que era cruel,
Ninguém vive para sempre
Eis a verdade fiel.

Foi-se embora o coronel
Que dominava o sertão.
Vai comparecer diante
Da Virgem da Conceição,
Contrito, para pedir
De suas culpas perdão.

Hoje, grande multidão
Se aglomera no terreiro
Para beber o defunto
Jacinto de Sá Ribeiro,
Um nome imortalizado
No Nordeste brasileiro.

Foi um grande fazendeiro,
Saruê velho de guerra.
As terras do coronel
Vão do rio ao pé da serra,
Mas hoje ele vai morar
Nos sete palmos de terra.

REPENTE SOBRE POSSÍVEL CHIFRE NO CORONEL SARUÊ

Meu amigo Criatura,
Preste atenção, não se esqueça
O sintoma é muito simples
Basta que o dito apareça,
Pois chifre é bicho que nasce
E não escolhe a cabeça.

Tendo cabeleira espessa,
Seja pobre ou "coroné",
Chifre é bicho democrático:
Vai da nobreza à ralé,
Quem já foi está no lucro,
Azar mesmo é de quem é.

REPENTE EM HOMENAGEM A MIGUEL

Hoje aqui nesta fazenda
A festa é grande porque
Chegou das “Oropa” o neto
Do Coroné Saruê,
E de agora por diante
Vai ser grande o fuzuê.

O neto do Saruê
Chegou falando bonito,
É um moço muito fino,
Já deixou de ser cabrito,
Vai escrever sua história,
Tenho visto e tenho dito.

Vai deixar seu nome escrito
Para toda eternidade.
Nos termos do São Francisco
Será uma autoridade.
Por isso, dr. Miguel,
Bem-vindo à nossa cidade.

Miguel, eu digo a verdade,
Nunca passei por falsário.
Para mim o doutor é
Um moço extraordinário
Que veio para ensinar
O Padre Nosso ao vigário.

O ENCONTRO DE ROSA COM SARUÊ NO PORTÃO DO PARAÍSO

Essa história, meus leitores,
É de fundir o juízo,
Eu não queria contá-la,
Mas juro que foi preciso.
O encontro de Saruê
Com Rosa no Paraíso.

Quando deixou esta terra,
Saruê ficou perdido,
Vagou nas regiões ermas
Do espaço desconhecido,
Passou pelo Purgatório,
Onde não foi recebido.

Foi bater no Paraíso,
Mas a fila era horrorosa.
Lá todo mundo é igual,
Ninguém ganha só na prosa,
E depois de grande espera
Topou o capitão Rosa.

Assim que Rosa chegou,
Sem saber de seu destino,
Viu o coronel Jacinto,
Foi dizendo: “Ô assassino!
Será que nem no outro mundo,
Me livro desse cretino?”

Saruê, vendo o rival,
Disse: Aqui não tem valente!
Mesmo assim, é muito bom
Bater contigo de frente,
Perco a salvação, mas nunca
Deixo um assunto pendente!

Coronel e capitão
Perderam a compostura.
São Pedro partiu de lá,
Disse: “Aqui a casa é pura!
Nunca foi e nem será
Bar de Chico Criatura!”

Brigar na terra, vá lá!
Porque ninguém é perfeito,
Mas aqui na Casa Santa
Não é certo, nem direito.
Vai morar lá nos infernos
O que agir desse jeito!

Os dois, ouvindo São Pedro,
Pararam com a lambança.
São Miguel, logo em seguida,
Chegava com a balança
Pra ver quem seria honrado
Com a bem-aventurança.

Gostariam de saber
Quem se salvou? Eu não sei.
Do céu acabei expulso
E para Grotas voltei.
A verdade é que, por lá,
Só Jesus Cristo é o rei. 

Para assistir à belíssima cena em que este cordel é cantado, clique AQUI.