sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa

Siegfried e Brunnhilde, de Charles Ernest Butler (1909)



...E assim vedes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)



Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

CAIXA CULTURAL FORTALEZA RECEBE A QUARTA EDIÇÃO DA FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO



Texto: Divulgação.

Evento reúne expoentes da autêntica Cultura Popular Brasileira e grandes personalidades da Literatura do Cordel


De 17 a 20 de outubro de 2019 a CAIXA Cultural Fortaleza recebe a IV Feira do Cordel Brasileiro, uma realização da AESTROFE – Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará. A feira traz lançamentos literários, exposição de obras raras, vendas de folhetos de cordel, livros, camisetas e CDs referenciais, além de shows, recitais, palestras, oficinas de xilogravura e de cordel.

Nesta edição, a IV Feira do Cordel Brasileiro é apadrinhada pelos mestres da cultura Chico Pedrosa e Bule-Bule, e presta homenagens a grandes nomes da cultura nordestina: Jackson do Pandeiro (centenário), João Melchíades Ferreira (sesquicentenário), Alberto Porfírio (in memoriam) e o comunicador Carneiro Portela.

O multiartista pernambucano Antônio Nóbrega, um dos expoentes do gênero literário e referências da cultura popular, ministra uma palestra ilustrada intitulada ‘Da quadrinha ao galope a beira mar’, no dia 18/10, às 14h. Entre as atrações do evento, estão ainda a xilogravadora Lucélia Borges, o ator e cordelista Edmilson Santini, a dupla de emboladores Marreco e Pinto Branco, o Trio Arupemba e CIA, os Tecelões Teatro com Bonecos, os cantadores Guilherme Nobre e Geraldo Amâncio Pereira, o humorista-cordelista Tranquilino Ripuxado, a xilogravurista Lucélia Borges e a repentista Fabiane Ribeiro. Para apresentar pesquisas temáticas, participam Gilmar de Carvalho, Alberto Perdigão, Vládia Lima, Ana Claudia Veras, Stélio Torquato, entre outros.  

Também marca presença o renomado ilustrador pernambucano Jô Oliveira, que assina o cartaz da feira. Mestre dos Quadrinhos pelo HQ-MIX (2004), Jô publicou diversas histórias em quadrinhos, tendo várias ilustrações e selos premiados, no Brasil e no exterior. A programação completa está disponível em https://www.facebook.com/FeiradoCordelBrasileiro

Serviço:

[Vivências] IV FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO
Local: CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema
Data: De 17 a 20 de outubro de 2019
Horário: Quinta a sábado: 14 às 21h | Domingo: 14 às 19h
Entrada Franca
Classificação indicativa: livre para todos os públicos
Acesso para pessoas com deficiência
Paraciclo disponível no pátio interno
Informações gerais| Bilheteria da CAIXA Cultural Fortaleza: (85) 3453-2770
Patrocínio: CAIXA e Governo Federal

Atendimento à imprensa:
Isabelle Vieira - (85) 98871.4139 / vieira.aisabelle@gmail.com 
Assessoria de Imprensa da CAIXA Cultural Fortaleza (CE):
www.caixa.gov.br/imprensa | @imprensaCAIXA
Acesse o site www.caixacultural.gov.br
Baixe o aplicativo “Caixa Cultural”



PROGRAMAÇÃO DA
IV FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO
De 17 a 20 de outubro de 2019
na CAIXA Cultural Fortaleza
Mestre Bule-Bule da Bahia

DIA 17 (Quinta-feira)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h ABERTURA com a participação dos mestres do cordel e da cantoria | Declamação com Klévisson Viana (CE) e Aldanísio Paiva (CE), apresentação com Mestre Bule-Bule (BA), Jefferson Portela (RJ) e Zé Rodrigues (CE), César Barreto (CE) e do Grupo Cordel de Raiz, da EMEF Ernesto Gurgel Valente (Aquiraz/CE)
15h10 – Mesa "O CORDEL COMO OBJETO DE PESQUISA"
Com Gilmar de Carvalho (CE) ‘’Cordel Cearense’’, Vládia Lima (CE) ‘’Alberto Porfírio’’, Ana Claudia Veras (CE) ‘’Caldeirão’’ e Alberto Perdigão (CE) ‘’Jornalismo em Cordel’’
Mediação do professor e cordelista Stélio Torquato Lima (CE)

Lucélia Borges

Sala de Ensaio: José Pacheco
15h – Oficina de xilogravura com o mestre João Pedro de Juazeiro (CE) e Lucélia Borges (BA)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
16h40 – Recital “AS MULHERES NO CORDEL” com Julie Oliveira (CE), Bia Lopes (CE) e Ivonete Morais (CE)
17h30 – Recital com Dideus Sales (CE)
18h – Repente ao som da viola com Fabiane Ribeiro (MA) e Guilherme Nobre (CE)                                                                    
19h – Show “CANTIGAS DO SERTÃO” com José Rodrigues (PE) e o Trio Cabeça de Fósforo (CE), participação especial do mestre Bule-Bule (BA.                                                                         
20h – Show “DE CANTIGAS E ROMANCES” com Eugênio Leandro (CE), participação especial de David Simplício (CE)

Antônio Nóbrega

DIA 18 (Sexta-feira)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h20 – Aula-ilustrada “DA QUADRINHA AO GALOPE A BEIRA MAR” com Antônio Nóbrega (PE)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
16h – Espetáculo “CHICO MAMULENGO CONTRA A COBRA CANINANA” com a Cia Tecelões Teatro com Bonecos (CE)
17h – Recital com Rafael Brito (CE), Evaristo Geraldo (CE), Ian Fermon (CE) e Esperantivo (PE)

Edmillson Santini

18h – Espetáculo “JACKSON, SOM DO PANDEIRO E A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU” com Edmilson Santini (RJ)
19h – Recital com Chico Pedrosa (PB), Arievaldo Viana (CE) Lucarocas (CE) e Aldanísio Paiva (CE)
20h – Cantoria de embolada com Marreco (CE) e Pinto Branco (CE)


 
Jô Oliveira

DIA 19 (Sábado)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h – Palestra ‘’A DIVERSIDADE NA ILUSTRAÇÃO DE FOLHETOS DE CORDEL” com o mestre Jô Oliveira (DF), Lucélia Borges (BA), Eduardo Azevedo (CE) e Cayman Moreira (CE)
Mediação: Arievaldo Vianna (CE)

Sala de Ensaio: José Pacheco
14h – Oficina “APRENDA A FAZER CORDEL” com Rouxinol do Rinaré (CE)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
16h – Recital ‘’ANUNS E CORDÉIS”  com Breno de Holanda (PE) e Lançamento do livro
17h – Trio Arupemba (CE)
18h – Repente com Geraldo Amâncio (CE) e Zé Vicente (CE)
19h – Recital ‘’O PATATIVA QUE EU CONHECI’’ com Daniel Gonçalves (CE)
20h – Show ‘’CANTIGAS PRA BEM VIVER’’ com Paola Torres (CE) e lançamento dos livros “O RIO E A NUVEM” e “VAMOS FALAR SOBRE O CÂNCER?”

DIA 20 (Domingo)
Teatro: Jackson do Pandeiro
14h – Mesa “PEIXEIRAS AO ALTO: O FANTÁSTICO ARMORIAL NORDESTINO” com Rodrigo Passolargo (CE), Vinícius Rodrigues (CE) e Eduardo Macedo (CE)
Mediação: Paulo de Tarso (CE)

Café: Luiz Gonzaga
15h – Lançamento do Cordel “SUPERAÇÃO NA EDUCAÇÃO” de Maria de Lourdes Fernandes (CE)

Sala Multiuso: Palco Alberto Porfírio
15h30 – Show ‘’PIMENTINHA DO FORRÓ’’ com Cecília do Acordeon (CE)
16h20 – Show de humor e cordel com Tranquilino Ripuxado (CE)
17h20 – Cutuca a Burra

Pátio Externo
18h – Intervenção Artística com Pifarada Urbana (CE)
   

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Coletânea de contos populares será lançada na Casa Tombada




Vozes da tradição (editora IMEPH), livro que tem por base uma recolha no interior da Bahia e em Araxá (MG), será lançado sexta, dia 20 de setembro, a partir das 20:30h, na Casa Tombada, em Perdizes. Além de um bate-papo com os autores, Marco Haurélio e Lucélia Borges, haverá, ainda, uma roda de histórias. 

Para conhecer melhor o livro, o ideal é ler a breve apresentação, escrita por Marco Haurélio, reproduzida abaixo:

Quando os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm registraram, em 1812, a literatura oral de seu país, a Alemanha, não faziam ideia do sucesso de sua iniciativa, em especial no tangente aos contos populares, a parte mais significativa de sua recolha. O fato é que, com o êxito alcançado pelos Contos da criança e do lar, outros pesquisadores europeus, impregnados do mesmo espírito romântico que moveu os alemães, foram a campo em busca de lendas, baladas, romances e das velhas histórias narradas ao pé do fogo, sementes espargidas e cultivadas no fértil solo da imaginação humana. Quando o termo folclore foi consignado em 1848, pelo inglês William John Thoms, sob o pseudônimo de Ambrose Merton, em artigo publicado na revista The Atheneum, o conto tradicional, irmão da lenda e filho do mito, já havia alcançado, em vários países, a merecida atenção de escritores e estudiosos.

Antes, a novelística popular mereceu registros em recriações literárias, algumas em versos, como Os contos de Canterbury (1387), de Geoffrey Chaucer, e os lais de Maria de França, ainda no século XII. Em prosa, destacam-se as jornadas do Decameron (1348-53), de Giovanni Boccaccio, o livro do Conde Lucanor (1335), de D. Juan Manuel, Os contos e histórias de proveito e exemplo (1575), de Gonçalo Fernandes Trancoso, além do impressionante Pentamerone (1634-36), de Giambattista Basile, obra-prima do barroco italiano. Inspirado neste último, sem a mesma espontaneidade, Contos do tempo passado ou Contos da Mamãe Gansa (1697), de Charles Perrault, coletânea moralista celebrizada pelo tempo e contemplada com muitas reedições, levou à corte francesa as histórias da gente humilde, devidamente polidas e adaptadas ao gosto do (nobre) freguês.

Isso sem falar no conjunto de histórias prevalentemente maravilhosas provenientes do mundo árabe, o monumental livro das Mil e uma noites, traduzido e apresentado ao Ocidente pelo orientalista francês Antoine Galland, cujo primeiro volume foi publicado em 1704.

Coube a Adolfo Coelho a empresa de ser o desbravador desta seara em Portugal, com Contos populares portugueses, publicado em 1879. Foi seguido por Consiglieri Pedroso, autor de Portuguese folktales (1882), em edição inglesa, e por Teófilo Braga, com Contos tradicionais do povo português (1883). Igualmente relevante, a antologia de Contos tradicionais do Algarve, de Ataíde Oliveira, reuniu 400 contos do sul de Portugal, ampliando a área geográfica e as possibilidades de comparação e confronto.

No Brasil, a iniciativa pioneira coube a Silvio Romero, autor de Contos populares do Brasil (1885), publicado originalmente em Portugal, com organização e notas de Teófilo Braga. Antes, o estudo do geólogo canadense Charles Frederik Hartt, Os mitos amazônicos da tartaruga (1875), com o Jabuti, grande trickster dos contos indígenas, e a coletânea O selvagem (1876), do General Couto de Magalhães, apresentaram contos de origem indígena ou tradicionalizados entre os povos nativos da Amazônia. A coletânea de Sílvio Romero, no entanto, teve o mérito de ser abrangente, enfocando, além dos supostos contos indígenas, contos de origem africana e europeia. Há que se levar em conta o esforço do coletor, que se dispensou de um trabalho comparativo, privilegiando critérios antropológicos e raciais, em voga na época. E, por isso mesmo, incorreu em equívocos, como o de arrolar entre os contos africanos Doutor Botelho, história na qual um macaco aparece como auxiliar do herói de origem humilde, que, graças aos seus préstimos, acaba casando com uma princesa. Apenas esta breve descrição nos mostra ser esta, em linhas gerais, a hoje conhecidíssima história do Gato de botas, divulgada por Charles Perrault, na versão literária do século XVIII. A coletânea se reveste de grande importância, também, por abrir uma picada, inspirando, em diferentes épocas, outros pesquisadores das tradições populares.

Imprescindíveis são as obras de Lindolfo Gomes (Contos populares brasileiros, 1915), João da Silva Campos (Contos e fábulas populares da Bahia, 1928), Aluísio de Almeida (142 histórias brasileiras, 1951) e Luís da Câmara Cascudo (Contos tradicionais do Brasil, 1946). Mais recentemente, sobressaíram-se Ruth Guimarães, Waldemar Iglésias Fernandez, Oswaldo Elias Xidieh, Doralice Alcoforado, Bráulio do Nascimento, Altimar Pimentel e Edil Costa.

Ainda assim, são, lamentavelmente, raras as coletâneas de contos tradicionais brasileiros provenientes da fonte da memória. Raras diante das possibilidades oferecidas por um país de dimensões continentais, diverso na cultura e nas variantes linguísticas, nascidas das profundas desigualdades, reveladoras de nossas mazelas, mas também da resistência de povos de diferentes matrizes e matizes. O trabalho que empreendi, com a companheira Lucélia, supre em parte esta lacuna, preservando, sempre que possível, as marcas da oralidade, o estilo e a verve dos contadores, embora seja impossível reproduzir o gestual, as pantomimas e o momento em que os contos foram registrados.

Um exemplo: a excelente contadora Enedina Rodrigues de Sousa forneceu-nos as histórias de que se tornou guardiã numa noite de muito frio, fato raro na região onde mora, no quintal de sua casa, povoado de Palma, município de Serra do Ramalho, Bahia. O São Francisco, o rio de sua aldeia, era o cenário de fundo. Entre uma história e outra, ela cantou chulas e relembrou as debulhas de feijão do seu tempo de menina, ocasião em que as histórias eram contadas em jornadas que vincaram sua memória afetiva.

Apesar das dificuldades demandadas por uma iniciativa como esta, a recolha de contos de “primeiro grau” será sempre bem-vinda, especialmente por mostrar que, em pleno século XXI, as árvores do Jardim da Tradição ainda dão saborosos frutos. Este trabalho, como outros de minha lavra (Contos folclóricos Brasileiros e Contos e fábulas do Brasil), encontra-se classificado de acordo com o Catálogo Internacional do Conto Popular, o Sistema ATU. As principais referências vêm do monumental Catálogo dos contos tradicionais portugueses (com as versões análogas dos países lusófonos), de Isabel David Cardigos e Paulo Jorge Correia, com o qual, orgulhosamente, colaborei. O professor Paulo é responsável, ainda, pela classificação de boa parte dos contos deste volume.
Na presente coletânea, todos os informantes e os locais da recolha são identificados. A maior parte dos contos pertence ao gênero maravilhoso, menos encontradiço hoje, devido a uma estrutura mais complexa, resultante de sua assombrosa ancianidade. É o caso de Guimar e Guimarim, que pertence ao ciclo de histórias que têm origem no mito de Jasão e Medeia, no qual o herói, numa terra estrangeira, conta com o auxílio da filha do rei para realizar tarefas impossíveis.

Se a literatura dos antigos salvou do esquecimento os deuses e heróis, os contos de tradição oral, por outro lado, preservam episódios e estruturas arcaicas, informações sobre ritos e mitos, nos conectando a um tempo que, talvez, somente nos sonhos e nos domínios do inconsciente ousássemos perscrutar.



terça-feira, 3 de setembro de 2019

Conto de fadas em cordel será lançado na Bienal do Rio



Texto: Divulgação

O cordel infantojuvenil A Jornada Heroica de Maria (texto de Marco Haurélio, xilogravuras de Lucélia Borges) será lançado amanhã, no espaço Pela Estrada Afora, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. O livro marca a estreia de Marco Haurélio, que já se aproxima dos 50 livros publicados, na editora Melhoramentos. Escrita em 2005, concebida originalmente como um folheto, a história ganhou novo tratamento e passou por algumas adaptações, adequando-se ao público leitor a que se destina. Ainda assim, mantém o encanto característico de narrativas poéticas que trazem como substrato os contos de tradição popular. Estudioso do folclore brasileiro, coletor de centenas de contos tradicionais, Marco Haurélio, escreveu à guisa de posfácio um texto esclarecedor que lança luzes sobre as origens e os motivos constituintes do conto que ele recria em cordel:
 
O início da jornada. Xilogravura de Lucélia Borges.
"Um dos contos populares mais difundidos, a história do príncipe encantado em pássaro frequenta as páginas de quase todas as antologias de histórias tradicionais, incluindo Verde Prato, do clássico O Conto dos Contos, de Giambattista Basile (1634). Câmara Cascudo, em nota à versão colhida em Sergipe por Sílvio Romero, O Papagaio do Limo Verde, elenca os elementos característicos da história: “a transformação do príncipe depois do banho noturno, a ação das invejosas, a viagem da amada, vestido de bronze, sete pares de sapatos de ferro etc., a hospedagem na casa do Sol, da Lua, do Vento, dos pássaros etc., os presentes mágicos, a moléstia do príncipe, o curativo a troco do objeto raro, reconhecimento, identificação e desfecho”.

No Catálogo Internacional do Conto Popular, a história é classificada como ATU 432 (O Príncipe Pássaro). Outras versões brasileiras: O Papagaio Real (Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo); O Príncipe Papagaio (Lendas e fábulas do Brasil, de Ruth Guimarães); O Verdelim (narrado por Djanira Feitosa, Contos e Lendas da Terra do Sol, de Marco Haurélio e Wilson Marques) e O Passarinho do Limo Verde (Estórias de Luzia Teresa, de Altimar Pimentel). Em Portugal, encontramos O Príncipe das Palmas Verdes (Contos Populares Portugueses, de Adolfo Coelho); A Paraboinha de Ouro (Contos Populares do Povo Português, de Teófilo Braga) etc. Na Sicília, Giuseppe Pitré recolheu, no terceiro quartel do século XIX, Li Palli Magichi (As Bolas Mágicas)."


A casa do Sol. Xilogravura de Lucélia Borges

Trechos selecionados


Meus versos viajam muito
Em busca de inspiração:
Vão até reinos distantes,
Depois voltam pro sertão,
Trazendo as flores colhidas
No Jardim da Tradição.

Na história que ora conto,
De amor eu quero falar.
Quem caminha nesta senda
Um dia irá encontrar
A essência verdadeira
Que brota do caminhar.

Quem a ler até o fim
Verá a perseverança
Fazer brotar a semente
No canteiro da esperança,
Pois o amor verdadeiro
É mais forte que a vingança.

(...)

Maria fez-se andarilha
Por causa do dissabor,
Arrastou por muitas terras
A mais lancinante dor,
A todo o mundo indagando
Acerca do seu amor.


DADOS DO LIVRO

Título: A JORNADA HEROICA DE MARIA
ISBN: 9788506086438
Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Formato: 17 x 24
Páginas: 72
Ano de edição: 2019
Edição: 1ª

domingo, 1 de setembro de 2019

Marco Haurélio será patrono da Feira do Livro de Morro Reuter (RS)



No dia 27 de agosto, eu estive em dupla jornada pelo Rio Grande do Sul. Pela manhã proferi uma palestra, O Abraço da Tradição, no Seminário Paulus de Educação (um dia antes, estive em Caxias do Sul, ainda no Seminário Paulus, em companhia do escritor Gabriel Perissé). No início da noite, acompanhado da consultora da Paulus em Porto Alegre, Adriana Bittencourt, segui para Morro Reuter, para participar do lançamento oficial da 26ª Feira do Livro. Em volta do obelisco que resume a vocação de Morro Reuter como cidade leitora, e no chalé dos Heylmann, fui anunciado, pela prefeita Carla Chamorro, como patrono da feira do livro deste ano. Além disso, revi muita gente querida, como Mírian Torres, Alana Schuck, Janice Jung e Carmem Ramminger, educadoras e grandes promotoras da leitura.

Tudo começou, de verdade, em 2018, quando a feira teve por patrono o grande ser humano e excepcional escritor Fabio Monteiro. Sendo o sertão o tema do evento, recebi dele o generoso convite. Em 2019, o tema, que é "Memória, cultura e identidade", já reverbera nas escolas em projetos que, certamente, trarão grandes resultados.

Abaixo, a notícia veiculada na página da Prefeitura de Morro Reuter:

A 26ª Feira do Livro de Morro Reuter, que será de 7 a 10 de novembro, terá como patrono o poeta e folclorista baiano Marco Haurélio. A apresentação foi feita na noite de ontem (27/8), em solenidade que reuniu os professores de todas as escolas de Morro Reuter, e iniciou com um abraço ao Obelisco de Livros, que em outubro completa 15 anos e representa todo o trabalho de incentivo à leitura, feito em Morro Reuter. A apresentação foi realizada pela Secretaria de Educação e Cultura, com apoio do Sicredi.
A noite foi dividida em dois momentos: no primeiro, junto ao Obelisco de Livros, a prefeita Carla Chamorro e a secretária de Educação e Cultura, Juliana Zimmer, receberam todos os professores e lembraram no aniversário do monumento. A prefeita Carla chamou o grupo de professores que participou das mobilizações pela construção do Obelisco, desde 2002,  relembrou a batalha para construí-lo com doações, e leu o nome das 54 famílias e empresas que contribuíram para que a cidade tenha seu monumento representativo de algo pelo que tanto preza: a leitura. Em seguida foi dado um abraço simbólico no Obelisco, momento em que os professores o iluminaram com as lanternas dos celulares.

Em seguida todos foram recebidos no chalé dos Heylmann, onde o patrono Marco Haurélio falou sobre a honra em receber o convite, disse que ficou encantado pela cidade durante a edição da feira em 2018, e contou um pouco sobre a sua trajetória. Também enfatizou sobre a cultura regional e colocou-se à disposição dos professores, para os trabalhos de preparação para a feira, junto às escolas. Após, as diretoras de cada escola receberam um kit de livros do autor, para trabalharem com seus estudantes, em sala de aula.  A noite também contou com o lançamento do Concurso de Narrativas, cujo regulamento será lançado na próxima semana.


SOBRE O PATRONO: Baiano de Riacho de Santana, Marco Haurélio é poeta popular, editor e folclorista. Em cordel, tem vários títulos editados, dentre os quais: ‘Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo’; ‘História da Moura Torta’ e ‘Os Três Conselhos Sagrados’. É autor, também, dos livros infantis ‘A Lenda do Saci-Pererê’, ‘Traquinagens de João Grilo’, ‘O Príncipe que Via defeito em Tudo’, ‘Lendas do Folclore Capixaba’, ‘As Babuchas de Abu Kasem’ , ‘A Megera Domada’ (recriado em cordel a partir do original de William Shakespeare) e ‘O Conde de Monte Cristo’ (versão poética do romance de Alexandre Dumas), os dois últimos para a coleção Clássicos em Cordel, da Nova Alexandria, onde atuou como editor. Profere palestras e ministra oficinas sobre Cordel e Folclore em vários estados brasileiros. Atuou como consultor da telenovela Velho Chico (Rede Globo).
Foi curador e idealizador do projeto ‘Encontro com o Cordel’, que em agosto de 2018 reuniu cordelistas, gravadores, músicos e pesquisadores em São Paulo. Foi, ainda, com Arlene Holanda, curador do Espaço do Cordel e do Repente, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Em setembro de 2018, esteve em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, a convite do Institute for Heritage, presidido pelo Dr. Abdulaziz Al-Mussalam, de quem recebeu uma medalha de honra ao mérito por seu trabalho de pesquisa e difusão no campo das tradições populares.





Um cordel para Jerusa

JERUSA PIRES FERREIRA
NO PASSO DAS ÁGUAS MORTAS



A vida é um grande texto
Que se escreve e se reescreve.
Por vezes, é tão pesada,
Outras tantas, é tão leve,
Mas ante o tempo e a memória,
Termina sendo tão breve.

Jerusa Pires Ferreira,
Mestra de grande cultura,
Viveu buscando refúgio
Na rica literatura
Dos contos tradicionais,
Do chamado da aventura.

Foi em Feira de Santana,
A Princesa do Sertão,
Que Jerusa veio ao mundo
Em tempos que longe vão,
E desde cedo encantou-se
Com a nossa tradição.

Apesar de ser herdeira
De aristocratas baianos,
Cultivou desde menina
Grandes valores humanos
E viajou pelas linhas
Dos segredos e arcanos.

Nos livros que leu na Infância,
Visitou longínquas terras,
Contava histórias incríveis
De amor, de paz e de guerras,
E sua mente voava
Por vales, rios e serras.

A cada passo que deu,
Fez da escola seu escudo,
Do vasto chão da cultura
Conhecia quase tudo:
Foi a vida em plenitude
Seu objeto de estudo.

Do sertão, que foi seu berço,
Alçou voo, foi além
Conheceu muitos países,
Viu muitos povos também,
Notou as encruzilhadas
Que cada cultura tem.

Viajou por toda a Europa,
Pelas estepes sem fim
Aos campos verdes da Itália
E, “nel mezzo del camin”,
Encontrou na velha Espanha
Os ecos do muezzin.

Canções tradicionais
Que na infância conheceu,
Nas viagens que encetou,
Muitas delas reviveu:
O passado não passou,
Pois a vida não morreu.

Descobriu-se e descobriu
Um mundo dentro do mundo,
Um pensamento que vaga
Como errante vagabundo,
Soprando no ouvido d’alma
Um canto de amor profundo.

Ou mesmo um canto guerreiro,
Mas que ainda é de amor
À terra, ao povo, à poesia,
À Luta contra o opressor,
O canto da gesta santa
Do Cid Campeador.

Cruzou os mesmos caminhos
Que Carlos Magno cruzou
Pisou a terra onde um dia
Grande luta se travou
E o sangue de muitos bravos
A mesma terra lavou.

Seguiu as sendas guerreiras
Do cavaleiro Roldão,
Os passos de Santiago
Nesta terra e na amplidão,
Contemplou o sol nascente
E o chamou de “meu irmão”.

Viu florestas onde outrora
Várias lendas floresceram,
Inda escutou os murmúrios
De ventos que apareceram
Soprando muitas histórias
Das ninfas que não morreram.

Depois, voltou e encontrou-se,
Nas suas muitas memórias,
E nas memórias dos povos
Alegres e merencórias,
Forjadas por fios mágicos
No tecido das histórias.

Viu as bordas da cultura,
Mas nunca escolheu um lado:
Preferiu transitar livre
Entre presente e passado
E essa insubmissão
É o seu maior legado.

Ao Reino do Vai-Não-Torna,
Há um tempo viajou.
Com o seu querido Boris
Certamente se encontrou;
Por linhas certas e tortas
No Passo das Água Mortas
Seu nome em pedra gravou.

Nota: cordel escrito em homenagem à professora, ensaísta e tradutora baiana Jerusa Pires Ferreira (1938-2019), autora de livros essenciais  como Cavalaria em cordel, Fausto no horizonte e Matrizes impressas do oral. O poema foi lido pela professora Micheliny Verunschk no encontro Jerusa em presença, organizado pelo professor Amálio Pinheiro, no Tucarena, dia 13 de agosto, ocasião em que artistas, alunos e professores homenagearam a grande mestra dos estudos sobre a oralidade no Brasil. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Vem aí o Oralidades: Simpósio Nacional de Contadores de Histórias


Texto: Divulgação
A  primeira edição do Oralidades começou a ser desenhada há 2 anos e agora ganha vida. O que é a Arte de Contar Histórias hoje? É teatro? É literatura? É performance? É educação? É Arte? É tudo isso? Não é nada disso? É uma linguagem em si? Quais seus fundamentos?
O mercado para esse profissional continua crescendo, bem como os cursos oferecidos para sua formação (com pós-graduação se instaurando em diversas universidades). Nas últimas décadas é notório o ressurgimento de contadores de histórias nas cidades.
Desvinculados das comunidades e povos tradicionais, os narradores urbanos têm buscado nas linguagens artísticas (literatura, artes cênicas, música, audiovisual, artes visuais) suas balizas formativas e profissionais. Ocupam espaços públicos culturais e educativos, ora mediando assuntos literários, ora aproximando-se dos campos da cena e da performance. Muitas são as facetas desse narrador das cidades.
O Projeto ORALIDADES, conta com mesas de debate, fóruns com contadores de histórias de diversas partes do país, apresentações de narrações de histórias e oficinas relativas à arte da oralidade. Visa responder demandas de instituições culturais, educacionais e de contadores de histórias com vistas a alargar as possibilidades artísticas, educativas, éticas e poéticas da arte de contar histórias nas cidades brasileiras.
Curadoria: Ailton GuedesGiuliano Tierno e Solange Alboreda.
PROGRAMAÇÃO 
Distribuição dos ingressos para as Narrações Artísticas 02 horas antes das atividades. Entrada sujeita à lotação do espaço.
Haverá interprete de libras em todas as apresentações artísticas realizadas.
Inscrições para as Oficinas, Mesas e Fóruns a partir de 06 de agosto.
 

Dia 21/08 (QUARTA)
17h. Abertura do Oralidades
Documentário / Cor / 23min / Dir. Dino Menezes / Prod. Camila Genaro e Atelier About / 2018.
Exibição do documentário História Oral da Gente de Santos. Projeto audiovisual que documenta a tradição da oralidade, dando forma, cor, textura e imagens para o poder da palavra. A produção foi contemplada pelo 6º Concurso de Apoio a Projetos Culturais .
Teatro

17h30 às 19h
Maratona de Narrações
Participação de  Camila Genaro, Alexandre Camilo, Arquimedes e Márcio Barreto, contadores presentes no documentário História Oral da Gente de Santos, e mais três convidados da região: Coletivo Contar é Preciso, Jaci Aragão e Tatiana Félix.

Teatro
20h. Poesia Eletrônica
Recital poético com Lirinha.
Teatro

Dia 22/08 (QUINTA)
11h às 13h. Mesa de Debate 1
A História das Histórias
Com Gislayne Avelar Matos (BH) e Marco Haurélio (BA).
Abertura: Conto com Yohana Ciotti (SP) e Warley Goulart (RJ). Mediador: Giuliano Tierno (SP).
Teatro

15h às 17h. Mesa de Debate 2
A Narração de Histórias como Linguagem
Com Alicce Oliveira (MT), Vinícius Mazzon (PR) e Aretha Sadick (SP).
Abertura: Conto com Giselda Perê (SP) e Luciene Souza (BA). Mediador: Ailton Guedes (Santos).
Teatro

17h30 às 19h. Fórum: Reflexões Coletivas sobre os Temas das Mesas 1 e 2.
Coordenadores: Aline Cantia (BH), Ailton Guedes (Santos) e Giuliano Tierno (SP).
Teatro

20h. Apresentação de Contos
Espetáculo narrativo com Alicce Oliveira (MT), Vinícius Mazzon (PR) e Linete Matias (AL).
Teatro

Dia 23/08 (SEXTA)
11h às 13h. Mesa de Debate 3
A Narração de Histórias na Era da Imagem e seus possíveis Processos de Interdição ou Expansão da Palavra.
Com Giselda Perê (SP), Linete Matias (AL) e Luciene Souza (BA).
Abertura: Conto com Aretha Sadick (SP) e Simone Grande (SP). Mediadora: Aline Cantia (MG).
Teatro

15h às 17h. Fórum: Reflexões Coletivas sobre o Tema da Mesa 3
Coordenadores: Aline Cantia (BH), Ailton Guedes (Santos) e Giuliano Tierno (SP)
Teatro

17h30 às 19h. Oficinas * Vagas Esgotadas*
Carga Horária total (2 dias): 3h30
Vagas: 25 por oficina

O Narrador e as Linguagens da Cena * Vagas Esgotadas*
Com Simone Grande (SP)
Aborda a arte de contar histórias como linguagem específica e como as demais linguagens cênicas, que permeiam as experiências dos narradores, contribuem para a potencialização de suas performances e a criação da poética única de cada artista.
Sala 2

O Narrador e o Audiovisual * Vagas Esgotadas*
Com Yohana Ciotti (SP)
Ateliê de vídeo para contadores de histórias
É um convite para explorar técnicas narrativas e ferramentas audiovisuais que permite pensar o vídeo para além do registro. A partir de técnicas de roteirização, enquadramento, cenografia e finalização.
Comedoria 

O Narrador e as Visualidades * Vagas Esgotadas *
Com Warley Goulart (RJ)
O artista irá abordar intersecções entre texto e têxtil, apontamentos sobre cultura a partir de produções plásticas para infância, considerações sobre o contador de histórias e os recursos externos que produz para uso ou registro de suas narrativas orais.
Sala 1

20h. Apresentação de contos
Espetáculo narrativo com Gislayne Matos (MG).

Dia 24/08 (SÁBADO)

11h às 14h. Finalização das Oficinas
O Narrador e as Linguagens da Cena
Com Simone Grande (SP).
Sala 2

O Narrador e o Audiovisual
Com Yohana Ciotti (SP).
Auditório

O Narrador e as Visualidades
Com Warley Goulart (RJ).
Sala 1

15h às 17h. Painel dos Fóruns
Síntese coletiva das reflexões levantadas durante os fóruns com registro feito pelos mediadores, promovendo um documento com o panorama geral para ser disponibilizado posteriormente.
Coordenadores: Aline Cantia (BH), Ailton Guedes (SP) e Giuliano Tierno (SP)
Teatro

17h30. Encerramento
Sessão de Narração com Giba Pedroza e convidados.
Teatro

Inscrições para as Mesas e Fóruns de Debate abertas. Faça online aqui ou presensialmente na Central de Atendimento.
O certificado de participação será emitido mediante presença de 50% (professores) e 75% (público em geral).

Quando? 
21/08 A 24/08
QUA, QUI, SEX, SAB
10H ÀS 22H
Mais informações: Página do evento (SESC).