segunda-feira, 20 de maio de 2013

Do sertão à sala de aula


Autografando o exemplar de Neusa Borges. Ao lado, Margarete Barbosa.
Na fria manhã paulista de 18 de maio, a Paulus da Vila Mariana foi palco da culminância de um projeto de grande importância em minha militância cultural: o lançamento do livro Literatura de Cordel – do sertão à sala de aula. Por lá passaram muitos amigos: poetas cordelistas, editores, professores, produtores culturais, editores, escritores, leitores dos livros e da vida. Amigos de longa data e novos amigos.

Acostumado a eventos como este, há muito tempo não padeço de ansiedade na véspera. Mas, desta vez, estranhamente, sonhei, por duas vezes, um sonho. No sonho, eu estava em outro local que não o do lançamento e, para chegar lá, precisava passar por estradas de chão, carrascosas, com mandacarus enfeitando-lhes as bordas e sombriosos juazeiros a cada cem metros. A estrada era longa e o tempo curto. Somente hoje, pude compreender esse (s) sonho (s): o próprio título do livro ajudou-me na tarefa. Era a minha própria trajetória, real e simbólica, que estava no sonho. A travessia de alguém que nasceu na roça, pegou água na cacimba, bebeu “escuma” de leite no curral, apanhou estrume seco para ser queimado à noite (a hora dos borrachudos) e, dessa experiência, deu parto a uma obra que é, ao mesmo tempo,
letra e voz.

Por isso, meus amigos, vocês, que hoje compartilharam esse momento, fazem parte também desta história, da mesma forma, que eu, acredito, faço parte da história de vocês. Um livro nada representa se não envolve memória e afetividade. Daí a minha gratidão. E que possamos, mais à frente, escrever juntos outras histórias.


Com o amigo jornalista João Marques.
Joyce Néia, grande amiga da poesia (e dos poetas).
Com Marcélio Soares.
Encontro de poetas: Marco Haurélio, Geraldo Amancio,
Costa Senna e Pedro Monteiro
Autografando o exemplar de Salvador Soares. Ao fundo,
João Gomes de Sá, Gregório Nicoló, João Pedro e Jeosafá.
Com João Paulo e frei Varneci.
Pedro Monteiro, Joana Neiva e seu filho Augusto.
O amigo Artur Nogueira, 
A vquerida amiga Valéria Cordero, bibliotecária do
M arista Nossa  Senhora da Glória.
Indianara Brum, gerente da Paulus Vila Mariana.
Conversa com o professor Salvador Soares.
João Paulo Resplandes e Gregório Nicoló, proprietário da lendária Luzeiro.
Movimento na entrada da livraria.
Com Joyce Néia, Pedro, Marciano Vasques, Rosa Zuccerato e João Marques.
Com o teatrólogo Alexandre Cascão e sua esposa Fernanda.
A escritora Goimar Dantas e Ana Rita Tavares.
O meu parceiro de muitos livros Luciano Tasso
e o poeta Moreira de Acopiara.
Lucélia, Moreira, Marciano, Nireuda Longobardi, Dani e Luciano.
Maria Auxiliadora e Marciano Vasques.
Palestra boa com o cantador Aldy Carvalho.
Cacá quer autógrafo.
Conversa boa com Ditinho da Congada, Antonio Iraildo, coordenador
do editorial de Educação da Paulus, Pedro Monteiro e Aldy Carvalho.





quinta-feira, 16 de maio de 2013

Lançamento em Salvador


Por Antônio Barreto, via e-mail.

Fundação Pedro Calmon/SecultBA, juntamente com a Quarteto Editora, tem o prazer de convidar a todos para o evento de lançamento do novo livro do cordelista baiano Antonio Barreto.   

Big Brother Brasil, um programa imbecil e outros cordéis não é apenas mais uma reunião de folhetos, por diversas razões: primeiramente por se tratar de uma belíssima edição. AQuarteto Editora procurou dar aos textos do autor um tratamento editorial luxuoso, o que reitera a importância do gênero como referência cultural.

Esse não é mais um lançamento de folhetos de cordel também porque Barreto não é apenas mais um cordelista. O poeta de Santa Bárbara consegue, mais que denunciar e satirizar as dores do dia-a-dia,  fazê-lo com muita reverência às metrificações que regem e caracterizam o gênero, recuperando, assim, uma tradição trovadoresca rigorosa, ao tempo que cumpre tudo isso com muito frescor e vitalidade.

O início da noite do dia 16 de maio promete ser muito descontraído  não apenas pelo livro que é lançado, mas porque será  animado pela música do Grupo Tapuia, que traz a fina flor do cancioneiro nordestino para alegrar o evento.

Big Brother Brasil, um programa imbecil e outros cordéis (FPC/ Quarteto Editora, 2013) é o volume 5 da Coleção Estante de Bolso e chega para ratificar a importância do texto alegre e irreverente na formação do leitor.

Compareça e leve a família!


terça-feira, 14 de maio de 2013

Obra da PAULUS apresenta a literatura de cordel brasileira



Literatura de Cordel - Capa
Serviço
Título: Literatura de Cordel – do sertão à sala de aula
Autor: Marco Haurélio
Coleção: Ler Mais
Acabamento: Costurado
Formato: 13,5 cm x 20,5 cm
Páginas: 168
Área de Interesse:Educação
LISTA DE RELEASES
O lançamento oficial e sessão de autógrafos da obra acontecerão sábado, dia 18 de maio,às 10h30, na Livraria PAULUS Vila Mariana, que fica na Rua Dr. Pinto Ferraz, 207, Vila Mariana, São Paulo/SP.
Escrito por Marco Haurélio, poeta popular, editor e folclorista,Literatura de Cordel – do sertão à sala de aula, da PAULUS, introduz o leitor no amplo campo desse gênero literário que, durante muito tempo, foi o principal, quando não, o único divertimento do homem do campo.
A proposta da obra é levar o cordel a todos os públicos, sem desprezar a tradição, a coluna em que essa arte se sustenta, mas também sem fugir às lutas impostas pelos novos tempos. “É preciso, também, buscar uma nova definição para esse gênero, para além dos estereótipos e das significações restritivas dos que, sob o pretexto de defendê-lo, quase o mataram”, explica o autor.
A literatura de cordel brasileira teve o Nordeste como berço e o poeta paraibano Leandro Gomes de Barros como grande divulgador. O gênero literário, por muito tempo, serviu também como jornal e cartilha do sertanejo. Declamados ou cantados, os cordéis levaram o público ávido por novidades as façanhas dos cangaceiros Lampião e Antônio Silvino, os milagres do Padre Cícero, entre outros.
De acordo com Marco Haurélio, muitos autores “se atreveram” a contar a história da literatura de cordel. Baseando-se em evidências, hipóteses ou mera suposição, pesquisaram as origens, os grandes títulos, os mais notórios autores. No cordel abaixo, reproduzido em parte, de um poeta popular, Carlos Alberto Fernandes, o texto é composto em sextilhas de sete sílabas:
“Por sua simplicidade,
Existe quem o despreze;
Mas, por sua aceitação,
Tem sido alvo de tese;
Por seu vasto conteúdo,
Cartilha de catequese.”
Da coleção Ler Mais, a obra Literatura de Cordel – do sertão à sala de aula é dividida em 15 capítulos e conta com ilustrações e excelente bibliografia para consulta, que é um verdadeiro guia para o leitor compreender o assunto proposto e sentir-se incentivado a continuar seus estudos.
Marco Haurélio cursou Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia, Campus VI, de Caetité. Em 2005, em São Paulo, dedicou-se a difusão da literatura de cordel e à luta por sua inclusão nas salas de aula. Tem vários livros publicados, a exemplo dos infantis A lenda do Saci-Pererê e Traquinagens de João Grilo, lançados pela PAULUS.
Publicado no site da Paulus Editora.

domingo, 12 de maio de 2013

Um cordel para ler no Dia das Mães















Amor de Mãe, do mestre Severino  Borges Silva, é a dica do blog Cordel Atemporal não só para o Dia das Mães, mas para o ano todo. Afinal, trata-se de um clássico do gênero dramático.

Já que o Deus da Ciência
Gravou na minha memória
As setas da poesia,
Irei contar uma história
De amor e sofrimento,
Sacrifício, honra e vitória.

Desenrolou-se este drama
Perto do Rio de Janeiro,
Na fazenda Santa Inês,
Do coronel João Monteiro —
Homem rico e conhecido
Como o maior fazendeiro.

Para adquiri-lo vá ao site da Editora Luzeiro.  

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Dia 18 de maio, o cordel pede passagem


Dia 18 de maio, lançarei  mais um livro, Literatura de Cordel: do sertão à sala de aula (Paulus Editora). Além de artigos, ensaios e de um roteiro para oficinas, a obra traz, na íntegra, cordéis de Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá e apresenta a visão particular do universo da poesia dita popular por um de seus criadores, o poeta paraibano Carlos Alberto Fernandes da Silva. As ilustração são do consagrado gravador pernambucano Marcelo Soares.

Desta vez, o cenário será a Livraria Paulus da Vila Mariana, localizada à rua Pinto Ferraz, 207 (ao lado Metrô Vila Mariana). 

Para celebrar, posto abaixo trecho de um dos capítulos do livro, O cordel pede passagem, cujo título fala por si mesmo:


Entre abril e maio de 2001, uma mostra no SESC Pompeia, em São Paulo, com curadoria do escritor e jornalista Audálio Dantas, celebrou os cem anos da literatura de cordel brasileira. Poetas, ilustradores, editores e repentistas se revezaram em apresentações, exposições, palestras e oficinas. Tudo certo, não fosse um detalhe: a literatura de cordel brasileira, em 2001, já havia ultrapassado um século de existência. O que, evidentemente, não ofuscou o brilho do evento, nem diminuiu a importância da iniciativa. A dificuldade em se apontar o marco inicial se deve em parte à escassez de referência bibliográfica do período. Sílvio Romero, pioneiro dos estudos etnográficos e historiador literário, já fazia uso do termo “literatura de cordel" em Estudos sobre a poesia popular, de 1885. Por outro lado, Romero não destaca nenhum poeta em particular, à exceção de João Sant’Anna de Maria, o que leva a crer que estas publicações incipientes ainda não haviam atingido o padrão que imortalizaria o gênero na memória popular e na cultura brasileira.

A travessia fatalmente seria feita. E, num Nordeste com forte presença do imaginário da Idade Média, dominado pelo misticismo e por crenças impregnadas do ideário cavaleiresco, em especial da gesta de Carlos Magno, foi Leandro Gomes de Barros, poeta paraibano radicado no velho Recife, o herói desbravador da seara do cordel e o modelo a ser seguido por todos os poetas do gênero. São dele alguns dos maiores clássicos do cordel: Juvenal e o dragão, O cachorro dos mortos, História da Donzela Teodora, Os sofrimentos de Alzira, Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, O cavalo que defecava dinheiro etc. A partir da gesta de Carlos Magno, Leandro escreveu A batalha de Oliveiros com Ferrabrás e A prisão de Oliveiros. Obras que já ultrapassaram com folga a casa dos milhões de exemplares vendidos, e são reeditadas há mais de cem anos, ininterruptamente, fazendo de seu autor o mais importante criador da poesia popular brasileira.

Leandro teve — e tem — muitos seguidores. João Martins de Athayde, seu sucessor, é o mais conhecido e controverso deles. Admirador de Leandro, criou uma peleja fictícia com o ídolo, mesmo antes de conhecê-lo. Depois da morte do grande poeta, comprou junto à viúva deste, Dona Venustiniana Eulália de Barros, os direitos de publicação de sua obra. Com o tempo, passou a suprimir a informação sobre a autoria de Leandro das capas dos folhetos e, não satisfeito, passou a assinar os títulos como se fossem de sua lavra. Athayde, paraibano de Ingá do Bacamarte, se estabeleceu no Recife, onde criou um importante parque gráfico. Publicou os principais autores de seu tempo, entre eles, José Camelo de Melo Resende, João Melchíades Ferreira da Silva, Silvino Pirauá de Lima, José Pacheco da Rocha, Pacífico Pacato Cordeiro Manso e até mesmo o desafeto Francisco das Chagas Batista, que fora o grande amigo de Leandro. Estes e mais alguns outros, hoje pouco lembrados, são a geração primeira do cordel, os patriarcas, todos nascidos em meados ou nas últimas décadas do século XIX.

O trabalho dos patriarcas irrigou o terreno da poesia popular e ensejou o surgimento de uma importante geração de autores nas primeiras décadas do século XX: o pernambucano João Ferreira de Lima, autor de Proezas de João Grilo e da História de Mariquinha e José de Souza Leão, é um exemplo. Foi a Paraíba, no entanto, o berço dos autores de maior brilho: Manoel D’Almeida Filho, Joaquim Batista de Sena, Manoel Camilo dos Santos, Cícero Vieira da Silva, Natanael de Lima, Apolônio Alves dos Santos, entre outros. Todos nascidos no interior e estabelecidos, por força da necessidade, em grandes centros, onde conciliavam a atividade de criadores de versos populares com a luta pela sobrevivência. Uma exceção é Delarme Monteiro da Silva. Nascido em Recife, foi ajudante na tipografia de João Martins de Athayde. Frequentador dos cinemas da capital pernambucana, buscou nos filmes e nos livros inspiração para seus romances de enredo impactante e fluência notável.

Vinculados às tipografias tradicionais, os autores de cordel, quase sempre, abriam mão de suas obras por preços irrisórios ou em troca de exemplares editados dos livrinhos cedidos definitivamente aos editores-proprietários. Na maioria dos folhetos sequer constava o nome do autor na capa. Quando muito, aparecia uma referência em acróstico, ficando para o leitor a tarefa de identificá-lo. Até hoje, em trabalhos acadêmicos, muitos títulos clássicos do cordel brasileiro são atribuídos ao editor-proprietário.
Paraíba e Pernambuco eram, até a primeira metade do século XX, os centros da produção cordelística no Nordeste. Os outros estados nordestinos eram a periferia. Isso começa a mudar com a chegada do alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante à Bahia. Instalado em Salvador, esse poeta, que também foi uma grande liderança, fez do Mercado Modelo um centro difusor da lira popular. No interior do estado, percorrendo várias cidades, o poeta, xilógrafo e impressor Minelvino Francisco Silva semeava poesia desde Itabuna, no sudoeste baiano, até o norte de Minas Gerais.

Essa geração, responsável pela consolidação do cordel, e a seguinte, que tem entre seus expoentes poetas do calibre de Cícero Vieira da Silva, José João dos Santos (Azulão), Eneias Tavares e João Firmino Cabral, sofreram com as sucessivas crises econômicas, cujas consequências não cabe aqui discutir, e com a falta de renovação, o que levou alguns estudiosos com tendências paternalistas a apregoarem, no fim dos anos 1980, a morte da literatura de cordel.


Mas o cordel, felizmente, não morreu. E ressurgiu forte, na última década do século XX, graças a uma nova geração que soube preservar a temática tradicional, ao mesmo tempo que, aceitando novos desafios, incorporou a poesia popular à literatura infantil e juvenil, levando-a para a sala de aula.

(...)

 
Personagens do universo do cordel por Marcelo Soares.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Cordel no Memorial


O Memorial da América Latina conta, desde o dia 13 de abril, com uma banca de folhetos sob a responsabilidade dos cordelistas João Gomes de Sá e Varneci Nascimento. A iniciativa visa facilitar o acesso de alunos, professores e leitores ao cordel e faz parte da nova política do Memorial, que premia, assim, a diversidade cultural. Todos os sábados e domingos, a dupla estará expondo cordéis de autores clássicos e contemporâneos, além de livros e xilogravuras (assinadas por João Gomes de Sá).

Um canto que lava a alma


Postei, há algum tempo no Facebook, o texto abaixo com um trecho de um bendito cantado por D. Jesuína Pereira Magalhães, de Igaporã, Bahia, nascida em 1915.


Estava Senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do seu bento filho.

Maria lavava,
José estendia,
O menino chorava
Do fri que sentia.

As duas quadras fazem parte de um conto que a informante chamou 'O Menino Governador do Mundo' e se insere no conjunto de narrativas apócrifas enfocando a fuga da sagrada família para o Egito. Obviamente, o interlúdio poético é uma contaminação do texto em prosa, que lhe serve de moldura.



Meu amigo José Joaquim Dias Marques, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira (CEAO), da Universidade do Algarve, Faro, Portugal, generosamente, enviou-me a versão abaixo, que compartilho com os leitores deste espaço:


"Marco Haurélio, aqui fica uma versão portuguesa inédita dessa oração, bastante mais comprida do que as nossas versões habituais (que costumam ser curtas como a versão da Bahia que tu gravaste e ter, no máximo, três quadras).

Segundo explicou a informante, este texto era cantado durante a recitação do terço, provavelmente numa das pausas que marcam a separação entre os vários mistérios. Esta versão tem de especialmente interessante as séries de quadras paralelísticas. Foi recolhida por uma aluna minha.

Está Nossa Senhora
À beira do rio
Lavando os paninhos
Do seu bendito filho.

A Virgem lavava,
S. José estendia
E o menino chorava
Do frio que fazia.

Calai, meu menino,
Calai, meu amor,
Que essas tuas chagas
Me partem com dor.

Os filhos dos homens
Em bons travesseiros;
Meu Deus, meu menino
Em cama de madeiros!

Os filhos dos homens
Em berço dourado;
Meu Deus, meu menino,
Em palhas deitado!

Olhais para o céu,
Verás estar Maria,
Cercada de anjos,
Com tanta alegria.

Olhais para o céu,
Verás estar José,
Cercado de anjos,
E Maria ao pé.

Olhais para o céu,
Verás uma cruz,
Cercada de rosas,
E o Menino Jesus.

Informante: Cesaltina Peleja, 71 anos, natural de Clarines, concelho de Alcoutim, distrito de Faro.
Recolha de Cristina Martins, aluna da Universidade do Algarve, em 18/12/2004."




Acima, a cantora e compositora paraibana Socorro Lira, uma das mais belas vozes da música brasileira, interpreta o bendito, que é  também acalanto, Senhora Santana, gravado no álbum Intersecção: a Linha e o Ponto, que repete alguns versos das versões acima reproduzidas.

Senhora Santana 
Ao redor do mundo, 
Aonde ela passava, 
deixava uma fonte 

Quando os anjos passam, 
Bebem água dela. 
Oh que água tão doce, 
Oh Senhora tão bela! 

Encontrei Maria 
Na beira do rio 
Lavando os paninhos 
Do seu bento filho. 

Maria lavava, 
José estendia. 
O menino chorava 
Do fri que sentia 

Os filhos dos homens 
Em berço dourado, 
E tu, meu menino, 
em palhas deitado. 

Calai, meu menino, 
Calai, meu amor, 
Que a faca que corta 
Não dá tai sem dor.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O Pobre que Trouxe a Sorte de Casar com uma Princesa


O folclorista russo Vladímir Propp, no clássico estudo Édipo à luz do folclore, analisa um motivo recorrente nos contos tradicionais: a tentativa de evitar-se uma profecia condenando-se à morte o provável causador do futuro dano. Geralmente, o herói (ou a heroína) tem um rei (ou uma rainha) como antagonista. A tentativa de “reparação” sempre dá errado e a pessoa condenada à morte — há exemplos de ambos os gêneros — escapa graças a um acesso de compaixão por parte do carrasco e, depois de muitas peripécias, termina por confirmar a predição. Além de Édipo, enviado à morte pelo próprio pai, Laio, na vã tentativa de mudar um destino terrível para toda a família, temos, ainda na mitologia grega, o exemplo de Perseu, condenado a morrer com sua mãe Dânae, numa caixa de madeira jogada no oceano. Acrísio, rei de Argos, responsável pela sentença, temia a realização de uma profecia segundo a qual seria morto por seu neto.

O exemplo mais famoso, na literatura oral, é o de Branca de Neve, conto conhecido mundialmente desde que os Irmãos Grimm o recolheram, na Alemanha, salvando-o do desaparecimento, e publicando-o no clássico livro Contos da criança e do lar. No mesmo livro, encontramos outro conto, Os três fios de cabelo de ouro do diabo, em que um rei, temeroso de que sua filha venha a desposar um pobre, busca eliminá-lo de todas as maneiras. Por estas paragens, Maria de Oliveira, dos Contos tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, talvez seja o mais característico. Em Portugal, Teófilo Braga recolheu Maria da Silva, história que pode ser lida nos Contos tradicionais do povo português.

Na literatura de cordel, encontramos, ainda, A princesa Anabela e o filho do lenhador, de Severino Borges, com o mesmo motivo e a tentativa frustrada de se evitar uma profecia calamitosa (para o rei). Outro exemplo clássico, no cordel, é Dimas e Madalena nos labirintos da sorte, de Manoel Pereira Sobrinho, em que o rei Simão, para evitar a profecia funesta — sua filha Madalena “Trouxe a infeliz sorte/ de se casar na pobreza” —, ordena a morte de todos os meninos da Grécia, rememorando o episódio bíblico da “matança dos inocentes” pelo rei Herodes, do Evangelho segundo São Mateus.

O presente trabalho ampara-se também na tradição, posto que se baseia em um conto tradicional popular por mim na Bahia, A princesa e o filho da criada, que integra o livro Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010). Mesmo com as adaptações próprias de uma recriação literária, deixa entrever, aos curiosos, a crença antiquíssima na infalibilidade do destino.


Ilustração de Arlene Holanda

Acima reproduzida está a apresentação que fiz do livro O pobre que trouxe a sorte de casar com uma princesa (Armazém da Cultura), que integra a  belíssima coleção Reinos do Cordel, sob coordenação de Arlene Holanda, que assina, ainda, as ilustrações deste livro.

Trecho:

Peço à Musa inspiradora
Que minha mente não canse
E eu possa versar um conto
Descrevendo cada lance
De uma história comovente
Neste meu novo romance.

Há cerca de nove séculos
Num reino muito distante
Viveu Gusmão, um mau rei,
De orgulho extravagante.
Não houve e não haverá
Outro assim tão arrogante.

Seu imenso poderio
Não conhecia empecilho,
Mas há um tempo seus olhos
Haviam perdido o brilho,
Pois, apesar de tão rico,
Ainda não tinha filho.

A rainha, sua esposa,
Vivia desconsolada,
Pois para o cruel marido
Ela só era a culpada,
E, por mais que se explicasse,
Não podia fazer nada.

Luzia, a sua criada,
Ouvia a sua lamúria,
Ela também conhecia
O monarca e sua fúria.
Assim vivia a rainha
Sempre coberta de injúria.

Até que um dia, cansada,
Ela foi ao oratório
E fez um pedido a Deus,
— Senhor, nesse dia inglório,
Eu venho aqui implorar
Livrai-me do purgatório.

Vós sabeis que vivo triste
E o meu espoco cabreiro,
Pois o reino que governa
Ainda não tem herdeiro.
Por isso peço o auxílio
Do grande Deus verdadeiro.

Então, no dia seguinte,
Ela estava diferente,
A tristeza fora embora,
E, agora, muito contente,
Sentiu que era atendida
Pelo Deus onipotente.

Em breve, porém, chegou
A feliz confirmação.
A rainha em gravidez,
Não escondia a emoção.
Até o severo esposo
Abrandou o coração.


domingo, 21 de abril de 2013

Impressão do cordel na cultura brasileira


MARCO HAUReLIO

Por Fernanda Faustino no site da Global Editora
Autor de Meus Romances de Cordel e selecionador da Antologia do Cordel Brasileiro, Marco Haurélio é um dos atuais expoentes da literatura de cordel no Brasil. Poeta, cordelista, professor, editor e pesquisador do folclore brasileiro, Marco teve desde muito cedo contato com a literatura de cordel e escreveu sua primeira história aos seis anos de idade, quando conheceu, graças ao convívio com sua avó paterna, vários contos populares.
Uma curiosidade a respeito do cordel é a origem do nome que veio de Portugal quando poemas populares eram pendurados para venda em cordas ou cordéis. O Nordeste do Brasil herdou esse nome. Como característica, eles são escritos em forma de rima e alguns são ilustrados.
Outro atributo importante a se destacar é que os autores de cordel recitam os versos de forma melodiosa e cadenciada, e, algumas vezes, acompanhados por instrumentos musicais, fazendo leituras ou declamações para conquistar os possíveis compradores. A pluralidade de temas e de personagens construídos por seus escritores é um dos principais traços que marcam esse estilo de escrita.
Haurélio conta que a inspiração para começar a escrever sua primeira obra O herói da montanha negra, surgiu após ler a história em quadrinhos ‘A espada selvagem de Conan’. “Além de histórias da mitologia grega, juntava todas as referências que achava como se fossem um quebra-cabeça. Também escrevi cordéis a partir de histórias que ouvia o povo contar.” O autor lembra que cada história tem um aspecto diferente.
Ele relata, como exemplo, a história de Belisfronte, ‘O filho do pescador’, por que a avó contava. Outro personagem de quem Haurélio recebeu bastante influência foi o Major Ramiro, que era bisavô dele, além de histórias baseadas no folclore brasileiro tanto de cordel como dos contos tradicionais.
Na antologia organizada para a Global Editora, a Antologia do Cordel Brasileiro, Haurélio lembra que o objetivo foi cobrir todas as gerações do cordel no Brasil. “Os poetas contemporâneos, em especial, quase sempre são deixados pelos estudiosos que se embaraçam na busca pelas origens do cordel ou se perdem no labirinto de obviedades dos que confundem esse gênero com a poesia matuta ou com o canto improvisado dos repentistas. A publicação desta antologia salda em parte a dívida com estes artesãos do verso, e aponta novas possibilidades no campo da pesquisa”, destaca. Afinal, de acordo com Haurélio, tão ou mais importante que saber de onde veio o cordel é saber para onde ele vai.
obras marcoEle ressalta que um dos aspectos que definem o cordel é que ele sempre vai seguir uma métrica e os cordéis mais atuais abordam temáticas universais. “O fato de os cordéis abrangerem temática universal difunde mais a cultura. Essa cultura não é mais tão pontual como costumava ser e a consequência disso é a propagação”.
O autor explica que os cordéis de sua autoria são ambientados no sertão. “Procuro trazer essa marca impressa do sertão para o mundo e opto por esse estilo porque é como se o sertão conservasse e a grande metrópole diluísse”, analisa. “Uma vez ouvi uma crítica de um professor do Ceará que comprou meu livro. Ele disse que uma das características presentes na minha obra é que ela tem o sabor dos velhos cordéis sem perder a conexão com o público e tudo isso faz parte de uma impressão de identidade”.
Haurélio lembra que o contato do público leitor com o cordel é o proveito que qualquer pessoa tem ao entrar em contato com uma manifestação cultural. “Isso ajuda a deslanchar o conhecimento com a cultura e conhecer o Brasil. Quem quiser conhecer a fundo as manifestações culturais brasileiras tem de mergulhar e pesquisar sobre o cordel”, relata o autor. “Por exemplo, o cineasta Glauber Rocha usou elementos do cordel para fazer filmes. No teatro, Ariano Suassuna produziu O auto da compadecida e tudo isso faz parte de uma cultura”.
Segundo o autor, é importante lembrar que o cordel brasileiro é uma hibridização. Tem elementos da métrica portuguesa, entretanto o cordel desenvolvido aqui no Brasil é diferente do cordel de Portugal. “Tem, sim, certa influência portuguesa, mas essa diferença se dá no período de formação. Depois, cada estilo segue um caminho”, relata.
E finaliza: “É preciso entender o cordel não como uma peça pitoresca, mas como uma manifestação cultural. Quem tem contato com bons autores vai saber diferenciar o que é de qualidade e o que não é, sem que haja necessidade de apontar”.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Cordel em Irecê


Evento é organizado pelos alunos do 6º semestre do curso de letras do Campus XVI















O município de Irecê sediará, de 22 a 24 de maio, o II Seminário de Cordel da Uneb/Campus XVI, que traz como tema “A Arte Cultural Popular em Múltiplas Linguagens no Território de Irecê”. Organizado pelos alunos do 6º semestre do curso de Letras, o evento tem a coordenação do acadêmico e professor da rede pública, Sandro Gomes Oliveira, e apoio da diretora do Campus, Helga Porto, e do professor Orlando Freire.

A atividade vai reunir nomes importantes do cenário cultural do País, a exemplo do cantor, compositor e repentista Bule Bule. Também agitarão a programação os professores Antônio Barreto, Helder Pinheiro, Amarino Queiroz, Flanklin Maxado, Ady teles e Luiz Natividade; além dos poetas Carlos Silva, Felipe Júnior (PE), Lucas de Oliveira e Janete Lainha. No dia 24, às 19h, haverá a ‘Noite Cultural do Cordel’com shows de Markinhos Forró Furado e Nelinho e Banda.

Espaço de Formação e Aprendizagens
De acordo com Sandro Oliveira, o Seminário de Cordel tem por objetivo despertar o interesse da comunidade acadêmica e do território pela manifestação cultural do Cordel, bem como fomentar a importância da Literatura de Cordel no Campus XVI como corpus de pesquisas acadêmicas no curso de Letras. “Além disso, queremos oportunizar um momento de significativas aprendizagens na formação dos sujeitos envolvidos, possibilitando uma real aproximação entre universidade/comunidade”, enfatiza o coordenador do evento.

Para se inscrever e obter maiores informações, a organização do evento disponibiliza o blog http://www.cordeluneb.blogspot.com.br/. Informações também podem ser obtidas através dos números: 74.3641.3503 e 74.9949.9831 (Sandro).

Pascoal Ferreira/Irecê Repórter