terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cordéis atemporais: O Cachorro dos Mortos

                        Xilogravura do artista paraibano Álvaro Barbosa (ABA), datada, provavelmente, dos anos 1930,                                     retratando dois momentos do clássico O cachorro dos mortos. 

Considerada por boa parte dos leitores a obra-prima de Leandro Gomes de Barros, a história ora analisada traz como protagonista um cachorro, de nome Calar, única testemunha de um crime bárbaro que vitimou os três filhos de seus donos, Sebastião de Oliveira e Maria da Glória. O crime, ocorrido na Bahia, nas proximidades de São Salvador, em 1806, foi motivado pela rejeição de Angelita, caçula dos Oliveira, às investidas do dândi Valdivino de Amorim, filho do espanhol Elisiário. 

Depois de tocaiar e matar o estudante Floriano, irmão mais velho de Angelita, Valdivino consegue amarrar o cachorro. Angelita e Esmeralda, sobressaltadas, vão até o local, onde encontram o irmão morto. Esmeralda é alvejada e morta na sequência. O assassino tenta beijar Angelita à força, mas ela resiste, mordendo-o, e recebe, de volta uma punhalada. À beira da morte, a jovem invoca o testemunho do cachorro, de um gameleiro (sic) e das flores. O bandido desfere uma punhalada contra o cachorro, mas, sem querer, acaba cortando a corda e libertando-o.

Dona Maria encontra os corpos dos filhos e comunica ao marido. Ela morre dois dias depois, de tristeza, e o velho Oliveira enlouquece em três dias, falecendo em duas semanas. Fica apenas Calar guardando a sepultura dos irmãos. O crime ocorreu numa encruzilhada, onde se realizava uma festa anual:

 

Onde deu-se o crime havia

Duas estradas em cruz

Diziam que ali acharam

Umas flores muito azuis

Formando uma lapa igual

A do menino Jesus.

            Três anos depois, perto do fim da festa, estando presentes ao local o presidente da província, o bispo e um general, Valdivino reaparece. Calar o reconhece e só não lhe rasga a garganta porque é impedido por Pedro, velho caçador amigo da família Oliveira. Diante da reação do cão, o bispo acusa Valdivino de ser o assassino, mas ele nega. Por fim, duas crianças, desmanchando um ninho de rato, no alto da gameleira, encontram a carteira perdida por Valdivino, contendo um bilhete em que confessou seu desejo de matar Angelita e seus irmãos ou de tirar a própria vida caso fracassasse. 

    O povo presente tenta linchá-lo, mas as autoridades impedem, garantindo que haverá justiça. Valdivino é preso, julgado e condenado à morte por enforcamento. Seu pai suborna o carrasco, Zeferino, que facilita a sua fuga em um cavalo. O carrasco é estrangulado por um dos presentes ao ato e Valdivino se esconde na casa de Roberto, um amigo de seu pai. Antes, avista, sob uma gameleira, os cinco fantasmas da família Oliveira. Calar o persegue e descobre o seu esconderijo. Novamente preso, o criminoso é enforcado no mesmo dia. Calar, depois de festejar junto ao general, deita-se entre as três cruzes e morre “nas condições de guerreiro”.

Depois da morte de Calar, temos um flashback informando que ele havia sido salvo por Sebastião, quando tinha somente quinze dias de vida, pois seu primeiro dono tencionava matá-lo. Crescendo, tornou-se grande caçador e defensor das criações da fazenda.

***

            Como enquadrar, numa classificação sistemática com base no Sistema Aarne-Thompspn-Uther (ATU), uma história, ambientada em época e local definidos (proximidades de Salvador, entre os anos de 1806 e 1809), de enredo realista ainda que resvale, sem muita convicção, no fantástico? A resposta foi dada pelo próprio Leandro, já na primeira estrofe, uma das mais conhecidas da história do cordel:

 

Os nossos antepassados

Eram muito prevenidos,

Diziam: mato tem olhos

E paredes têm ouvidos,

Os crimes são descobertos

Por mais que sejam escondidos.

O dito popular, do terceiro e quarto versos, aponta para o tema da “natureza denunciante” e aparece, em sua forma primitiva, no “Conto do cavaleiro”, dos Contos da Cantuária (1348), de Chaucer (2013, p. 69):

 

Conforme um dito antigo nos atesta:

A campina tem olhos; e a floresta,

Ouvidos”. Então urge estar atento:

O inesperado surge num momento.

A cena em que Angelita, à beira da morte, invoca o testemunho da natureza, autentica O cachorro dos mortos neste ciclo:

 

Olhou para um gameleiro

que tinha junto à estrada

dizendo: e tu gameleiro,

vistes a cena passada;

eis uma das testemunhas

quando a hora for chegada.

 

Já na última agonia

exclamou: “monstro assassino,

tiraste agora três vidas

e não sacias o destino

isso eu hei de lembrar

perante o Juiz Divino.

 

Não julgues que fique impune

este sangue no deserto,

tu não vês três testemunhas,

que estão aqui muito perto?

estas perante o público

irão depor muito certo.”

 

Disse Valdivino: és louca

quem viu o que foi passado?

disse Angelita: este cão

que está ali amarrado,

a gameleira e as flores

dirão no dia chegado.

O cachorro dos mortos deve ser classificado como uma versão desviante do ATU 960 (Tudo é revelado à luz do dia), enquadrado no grupo “Ladrões e assassinos” (950-969) dos Contos realísticos. No conto-padrão, “O sol brilhante há de trazê-lo à luz do dia”, nº 115 dos Irmãos Grimm, um aprendiz de alfaiate mata um judeu para roubá-lo, mesmo este jurando ter no bolso apenas oito tostões. O moribundo profere a frase-título e, muito tempo depois, já casado e bem estabelecido, o alfaiate, enquanto contempla um raio de sol sobre o café servido pela mulher, evoca a lembrança, mas sem revelar, ainda, o seu crime. Instado a esclarecer de que se tratava, o homem conta a história à mulher, que conta para uma comadre e, logo, toda a cidade estará a par do crime. Três dias depois ocorre a prisão do assassino.

Há apenas duas versões brasileiras catalogadas: “As testemunhas de Valdivino” (Cascudo, op. cit., p. 300) em que, curiosamente, a vítima tem o mesmo nome do assassino no cordel, e “O testemunho das gotas de chuva” (Haurélio, 2011, p. 131-132). Das nove versões portuguesas documentadas, destaca-se a de Ataíde Oliveira (1900), “A Deus nada se esconde”, na qual um compadre rico atira seu compadre pobre em um algueirão (caverna). O infeliz pede ao carrasco para que batize o seu filho, ainda por nascer, com o nome A Deus Nada se Esconde. Passados cinco anos, o rei e dois conselheiros encontram o menino e, quando lhe perguntam o nome, admiram-se da resposta. Interrogam primeiro a mãe do garoto e, em seguida, o compadre rico, que, apertado, confessa o crime. Milagrosamente o pobre é regatado ainda vivo, tão magro “que parecia uma mirra”, e o rico, atirado ao algueirão, morre imediatamente (Cf. Oliveira, 2002, p. 401-402).

A lenda do poeta grego Íbicus, que teria vivido no século VI a.E.C., tema de um epigrama de Antipatro de Sidon (século II a.E.C.), ensejou o ensaio de Câmara Cascudo, “Os grous de Íbicus voam em português”. Íbicus, já idoso, teria sido raptado e morto por salteadores, mesmo tendo sido pago o valor exigido para o resgate. Antes de morrer, o poeta pediu a uns grous, que sobrevoavam a sua cabeça, que fossem as suas testemunhas. Muito tempo depois, num anfiteatro de Corinto, os ladrões, ao avistarem alguns grous, rememoraram o fato com um gracejo, chamando a atenção dos circunstantes. Presos, confessam o crime e são executados.

A força que denunciou os assassinos de Íbicus, advinda de uma justiça imanente, é a mesma que fez Valdivino perder a carteira, encontrada depois pelas crianças na gameleira que Angelita invocara como testemunha de seu assassinato:

 

Porém uma força oculta

Permitiu que ele perdesse

E essa mesma força impôs

Que ele dela se esquecesse

Para dizer ao seu tempo:

O assassino foi esse. 

Essa “força oculta”, talvez derivada das antigas crenças animistas, deve ser a mesma a que alude Jesus, explicando a “Parábola do semeador”, no Evangelho de São Lucas (8, 17): “Porque não há nada de oculto que não venha a ser revelado e não há nada de escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz do dia”.

Nota: Texto adaptado de trecho da dissertação de mestrado O fio e a meada : classificação tipológica e uma história cultural da literatura de cordel, defendida em 2024, na Universidade de Campinas. Para ler o texto na íntegra, clique AQUI. 


Referências

BARROS, Leandro Gomes de. Literatura popular em versos: antologia, tomo III. Brasília: Ministério da Educação e Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 2002.

CHAUCER, Geoffrey. Contos da Cantuária. Tradução: José Francisco Botelho. São Paulo: Penguin Classics: Companhia das Letras, 2013.

GRIMM, Irmãos. Contos completos. Tradução: Teresa Aica Barros. Lisboa: Temas e Debates, 2012.

HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.

OLIVEIRA, F. Xavier Ataíde de. Contos tradicionais do Algarve. Lisboa: Vega, 2002.

UTHER, Hans Jörg. The types of international folktales: a classification and bibliography. 2. ed. Helsinki: Academia Scientiarum Fennica, 2011.

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