terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Victor Hugo em dose dupla


Comentei, uma vez, com o amigo e poeta Pedro Monteiro sobre dois poemas do francês Victor Hugo, marcantes na minha vida: Palavras de um conservador a propósito de um perturbador, com tradução parafrástica de Castro Alves, e A um bispo que me chamou de ateu, traduzido por Modesto de Abreu. "E como eu tenho acesso a estes poemas?", perguntou Pedro. "Digite no Google que, certamente, alguém os terá postado", foi a minha ingênua resposta. Ingênua, sim, pois, em casa, fazendo um teste, constatei que nem um e nem outro estavam disponíveis, comprovando a tese de que a internet sem alimentação nada é, Então, de posse do Livro de ouro da poesia da França (organizado por R. Magalhães Jr.), resolvi postar em meu blog Cordel atemporal os dois poemas.

À leitura, pois!

A um bispo que me chamou ateu
                       
Ateu? Ao vosso asserto eu dou explicação.
Espreitar-me, vigiar minh’alma, remexer,
Virar do avesso o fundo ignoto de meu ser,
Buscar o ponto ao qual minhas dúvidas vão,

Interrogar o inferno, inquirir seu registro
De polícia, através de um dédalo sinistro.
Para ver o que eu nego e o que eu admito e aceito,
Não convém. Minha fé, meu credo, satisfeito,
Vou expor. Amo, estimo a caridade franca:

Se se trata de um Deus de longa barba branca,
De uma espécie de rei, de papa ou imperador,
Num trono que se chama em teatro bastidor,
Tendo sobre a cabeça um vulgar passarinho,
À esquerda um profeta e à direita um anjinho
Com seu filho no colo exangue, desmaiado,
Deus uno e triplo, Deus invejoso e malvado;
Se se trata de um Deus que calca sob os pés
As vítimas das leis terríveis de Moisés,
De um deus que santifica os chacais nas cavernas,
E os filhos faz punir pelas faltas paternas,
Que faz o sol parar no ocaso diariamente,
Em risco de o avariar com seu gesto imprudente,
Deus geógrafo medíocre e astrônomo pior,
Que o homem por ignorância adora com terror,
Deus furioso, a fazer careta à espécie humana,
Empunhando na destra imensa durindana
Deus que perdoa pouco e pune de bom grado,
Que condena a virtude e premia o pecado
Deus que em seu céu azul, por não ter que fazer,
Nossos erros imita e entrega-se ao prazer
De flagelos semear, soltando sobre nós
Cambises e Nenrod, e Átila – o cão feroz –
Mandando assassinar os ímpios e os incréus,
Ó padre, sou ateu: não creio nesse Deus!
Se se trata, porém, do ser imaterial
Que resume com toda a evidência o ideal;
Ser cuja alma em minh’alma intimamente sinto,
Ser que me fala em suave e misterioso enleio,
Que opõe o verdadeiro ao falso, entre os instintos
Cuja vaga letal nos submerge até o meio;
Se se trata do Ser transcendente e sem par
Que uma só religião não consegue explicar,
Que adivinhamos bom e sentimos sapiente,
Sem contorno e sem limite, imenso, transcendente,
Que não tem filhos, mas tem mais paternidade,
E amor que o verão calor e claridade,
Se se trata do vasto etéreo e incognoscível
Que ao Gênese explicar não é jamais possível,
Que vemos todos nós com os olhos da razão,
Impossível de ser comido em algum pão,
Que, por dois corações se amarem não se rala,
E vê a natureza onde vês o pecado;
Se se trata do ser eterno sublimado,
Que pela estranha voz dos elementos fala,
Sem bíblias, sem cardeais, sem materialidade,
Por livro o abismo e por igreja a imensidade,
Vida, Espírito, Lei, tão grande que é invisível,
De tal modo sublime, impalpável, etéreo,
Que enchendo com seu vulto o infinito sidéreo,
Nota-se em tudo, e é não obstante indefinível;
Se se trata do ser imenso que elabora
E distribui o bem, a justiça e a razão,
Por limite o infinito, imutável outrora,
Hoje, agora, amanhã, sempre, dando à Criação
Sua estabilidade e aos corações paciência,
Que, luz fora de nós, é, dentro de nós, consciência;
Se é desse Deus grandioso e belo que se trata,
Que, na aurora ou na treva, augusto se retrata;
Se se trata, por fim, do princípio eternal
Que encerra a vida e o pensamento universal
E que, à falta de um nome a altura, eu chamo Deus,
Tudo se muda então,voltam-se nossas almas,
A tua para a noite, o abismo dos proteus,
Dos vermes, dos anões, dos monstros, dos chacais,
E a minha para o dia, a aurora, o sol, o céu,
A Natureza, a luz, as coisas divinais,
E então eu sou o crente e tu, padre, és o ateu!

                       (Tradução de Modesto de Abreu)

Palavras de Um Conservador
A PROPÓSITO DE UM PERTURBADOR
(Paráfrase de V. HUGO)

SERIA SONHO OU não... Depois vós me direis...
Um homem... era um grego, era um persa, um chinês,
Ou judeu?... Eu não sei... tão somente me lembro
Que era um ente verídico e grave, que era membro
Do partido da ordem...

                                          E ele dizia então:

"Esta morte jurídica imposta a um charlatão,
Ferindo este anarquista é soberana e justa...
Faz-se mister que a ordem e a autoridade augusta
Defendam-se... Tais cousas hoje ninguém discute.
Depois, se a lei existe é para que se execute.
Verdades santas há de origem tão divina
Que devem sustentar-se até na guilhotina.

“Este inovador pregava a filosofia
Do amor e do progresso... histórias... utopia!
Ria do nosso culto antigo e namorado.
Era um destes p'ra quem nada existe sagrado
Nem respeitam jamais o que o mundo respeita...

"P'ra lhes inocular doutrina assaz suspeita
Ele ia procurar nos bordéis crapulosos,
Boieiro e pescador, patifes biliosos,
Imundo povilhéu não tendo eira nem beira...
E entre canalha tal pregava de cadeira.
Jamais se dirigia aos homens de dinheiro,
Aos sábios, aos honrados, ao honesto banqueiro.

"Anarquizava as massas... e com dedos p'ra o ar
Enfermos e feridos entendia curar
Contra a letra da lei.

                             Não para aí o horror...
Ressuscitava os mortos... este vil impostor
Tomava nomes falsos e falsas qualidades
E errando ora nos campos, ora pelas cidades,
Ouviam-no dizer: "Podeis me acompanhar!"

"Ora, falai, senhor. Não é mesmo excitar
Uma guerra civil entre os concidadãos?

Via-se ir ter com ele horrorosos pagãos,
Que dormiam nos fossos e acompanhar-lhe o rastro:
Um coxo, outro com o olho escondido no emplastro
Outro surdo, outro envolto em pústulas tenazes.
Vendo este feiticeiro andar com tais sequazes
O homem de bem entrava em casa envergonhado...

"Um dia... eu já nem sei quando isto foi passado,
Numa festa... pegou de um chicote, imprudente!
E se pôs a expelir, mas muito brutalmente,
Gritando e declamando, honestos mercadores,
Que vendiam ali pássaros, aves, flores,
E outras coisas, que mesmo o clero permitia,
E de cujo produto uma parte auferia.

"Uma mulher sem brio seguia-lhe na trilha.
Ele ia perorando, abalando a família,
A santa religião e a sociedade,
Decepando a moral e a propriedade.

"O povo o acompanhava, e o campo estava inculto.
Era ousado demais... Chegava o seu insulto
Até ferir o rico!...

                                  E revoltava o pobre.
Sempre, sempre a dizer que todos que o céu cobre,
São irmãos, são iguais... que não há superiores,
Nem grandes, nem pequenos, ou servos, ou senhores,
E que o fruto é comum...

                                       Té ao clero insultava!...
Bem vê, bem vê, senhor, que este homem blasfemava.
E tudo isto era dito assim em meio à rua,
A uma canalha vil, grosseira, imunda e nua.
Preciso era acabar, as leis eram formais...
Foi, pois, crucificado..."

                               Ouvindo frases tais
Ditas com tão singela e adocicada voz...
Eu surpreso exclamei: "Senhor, mas quem sois vós?
Ele me respondeu: "Preciso era um exemplo;
Eu me chamo Elisab, sou escriba do templo”...
“Porém de quem falais?... Dizei-me de quem é.
"Meu Deus! deste vadio... Jesus de Nazaré".

(Castro Alves)

Um comentário:

Luiz Fermino Freitas Soares disse...

Cada texto, cada poema de Victor Hugo me emociona e me impulsiona ainda mais para a crença em Deus e a imortalidade da Alma.