segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O mundo do cordel de luto: o adeus a João Firmino Cabral

Com Assis Ângelo, Bule-Bule, Mestre Azulão, Klévisson Viana
e o já saudoso João Firmino Cabral em Fortaleza, (2008).
O meu contato com a obra de João Firmino Cabral deu-se muito cedo. Li Amor e martírio de uma escrava (Luzeiro) no mesmo período em que li Juvenal e o dragão, A louca do jardim, Os quatro sábios do reino e outros clássicos da literatura de cordel. Depois veio A coragem de um vaqueiro em defesa do amor, um dos mais engraçados (e exagerados) folhetos de valentia já escritos. Tudo isso em minha meninice, na Ponta da Serra, meu berço na Bahia. Então, posso afirmar que sua obra exerceu sobre este poeta benéfica influência. João Firmino nasceu em Itabaiana, Sergipe, a 1º de janeiro de 1940. O pai, Pedro Firmino, era embolador, e a mãe, Cecília da Conceição, agricultora. Uma viagem de trem a Aracaju mudaria, para sempre, a sua vida. Nesta ocasião, entraria em contato com o já consagrado poeta Manoel D’Almeida Filho, que viria a ser seu tutor, na vida e na arte. O encontro foi narrado assim por Arievaldo Viana, que, em 2008, fez uma longa entrevista com João Firmino:

“Corria o ano de 1954... Aos 14 anos, o garoto João Firmino Cabral saiu de sua pequena Itabaiana e foi para Aracaju, onde encontrou-se com o poeta Manoel D'Almeida Filho, que, na companhia de dois outros folheteiros, cantava e vendia seus romances na feira próxima ao mercado. Munido de um alto-falante e um microfone, Manoel D'Almeida encantava a todos com sua pose de galã e a sua voz cadenciada e vibrante. O menino, que já era fascinado pela poesia popular, ficou embevecido. Esqueceu de fazer as compras que a mãe havia lhe ordenado e passou o dia inteiro na companhia dos poetas. Quando se deu conta, já eram quatro e meia da tarde e o último (e único) trem para Itabaiana já havia partido.

João Firmino começou a chorar desoladamente e foi socorrido por Manoel D'Almeida, que lhe ofereceu dormida e um prato de sopa para o jantar. O menino falou de seu grande amor pela Literatura de Cordel e disse que gostaria de se tornar um revendedor de folhetos. Manoel D'Almeida, vendo o interesse do garoto, confiou-lhe uma maleta com trezentos folhetos (trinta títulos diferentes) e Firmino seguiu para a feira de Itabaiana. Nascia ali um grande folheteiro que viria a se tornar, dois anos depois, um dos maiores poetas populares dessa geração.”

Escreveu seu primeiro cordel aos 17 anos, uma Profecia do Padre Cícero, no qual ainda não mostra a sua faceta mais conhecida: a do narrador de histórias dramáticas, com enredos muito bem urdidos. Com Manoel D’Almeida Filho aperfeiçoou-se como poeta e folheteiro. Da experiência com o “professor”, algumas histórias ficaram gravadas na memória privilegiada de João Firmino, como a que segue:

Na década de 1950, Almeida havia composto um grande romance dramático, A sorte do amor, até hoje reeditado pela Editora Luzeiro. A história mostra a disputa de dois honestos roceiros, José Miguel e Manoel João, pela mão de uma linda camponesa, Rosa Maria. Os dois tentam resolver a disputa em um duelo, mas acabam escapando da morte, ambos muito feridos. Um sorteio, proposto pela moça, deverá solucionar o caso. No dia do casamento com o “sorteado”, um incêndio na roça deste antecipa a tragédia. Manoel D’Almeida lia para uma plateia atenta e curiosa este romance. Ao chegar ao clímax da história, no entanto, seus olhos estavam embotados de lágrimas. Diga-se o mesmo da assistência. O grande poeta, inconformado, foi depois se queixar para João Firmino: “Eu não podia ter chorado. Fui eu que criei Manoel João, José Miguel, Rosa Maria... Eles só existem no meu texto. Por que não me controlei?”

Em 2005, fui trabalhar na editora Luzeiro, a convite de Gregório Nicoló. A missão era renovar com qualidade o catálogo e garimpar, entre as raridades da Prelúdio, títulos para reedição. Assim que cheguei, liguei para João Firmino me apresentando. A sua primeira reação, creio, foi de desconfiança. Afinal, quem cuidava do editorial da casa paulistana era Manoel D’Almeida, morto em 1995. Nas conversas, mostrando meu interesse em revitalizar a Luzeiro e o meu envolvimento afetivo com a literatura de cordel, além de sempre consultá-lo acerca dos títulos clássicos a serem reeditados, consegui não só convencê-lo de que buscava contribuir para a arte da qual ele era um grande expoente, renovando o catálogo, sem perder de vista os títulos tornados clássicos pela predileção popular. João Firmino tornou-se para mim um professor e um grande amigo. Aos poucos, à medida que títulos como Os três conselhos sagrados e O herói da Montanha Negra, escritos por mim, foram lançados, recebia dele calorosos e encorajadores elogios.

Dele colhi, como disse, preciosas informações. Quando a Luzeiro publicou, pela primeira vez, a História de Roberto do Diabo, pairava sobre esse texto clássico a dúvida sobre a autoria. Recorri a João Firmino, e ele cravou: “É de Leandro Gomes de Barros”. E justificou: “Quando criança, ouvia todos os poetas e folheteiros se referirem a este romance como de Leandro Gomes de Barros”, mesmo que as edições mais recentes trouxessem na capa a autoria atribuída a João Martins de Athayde. Essa assertiva de João Firmino foi ratificada pelo veterano poeta, editor e vendedor de folhetos piauiense João Vicente da Silva. A edição saiu com a autoria atribuída a Leandro e uma nota explicativa, dando créditos aos responsáveis pela valiosa informação. Noutra ocasião, instado sobre quem era o verdadeiro autor da História da Princesa da Pedra Fina (não confundir com O Reino da Pedra Fina, de Leandro Gomes de Barros), João Firmino não teve dúvidas: “Este é um dos primeiros folhetos de Silvino Pirauá de Lima, Pelo menos é o que diziam os cantadores de folhetos da minha infância”.

Encontrei João Firmino uma única vez: durante a Bienal do Livro do Estado do Ceará, e com ele dividi uma das Mesas do Congresso de Cordelistas, realizado durante o evento que teve como curador o poeta Klévisson Viana. Sempre que possível, eu ligava para ele. Ouvia suas reclamações a respeito de novos títulos que, segundo ele, nada acrescentavam ao cordel. E ouvia seus elogios a poetas que, ainda segundo ele, assegurariam a continuidade à tradição. Toda vez que conversávamos, ele pedia para retransmitir um abraço ao poeta Cícero Pedro de Assis, a quem considerava um irmão. O fato é que, mesmo com os problemas de saúde, João Firmino jamais deixou de trabalhar e sua produção, nos últimos anos, quase toda publicada na Editora Tupynanquim, é muito significativa. A Luzeiro, a casa que lhe abriu as portas, publicou, ano passado, seu romance A revolta de um escravo, que foi motivo de muita alegria para o velho poeta.

O fato é que a vida é transitória, mas muitos passam por ela e não vivem, como dizia Francisco Otaviano. João Firmino Cabral não apenas passou pela vida. Viveu-a. E viveu da forma que imaginou, escrevendo histórias que divertiram e emocionaram milhares de pessoas. Até a sua partida, no primeiro dia do mês de fevereiro de 2013.

João Firmino agora é saudade. João Firmino agora é história.


Aqui apareço ao lado de João Firmino, em companhia do poeta Arievaldo Viana e do editor Gustavo Luz.

Um comentário:

Rouxinol do Rinaré disse...

Partiu um mestre dos versos,
João Firmino Cabral.
Foi versejar para Deus,
Na Corte Celestial.
Na Terra, entre os cordelistas,
Já se tornou imortal.

Rouxinol do Rinaré