sexta-feira, 5 de abril de 2013

Um alento (e um depoimento)

O cordel faz parte de minha vida desde que me conheço por gente. Para quem me conhece, de fato, isso não é nenhuma novidade. Por tê-lo conhecido desde muito cedo, nas brenhas do sertão, em meio às histórias de trancoso e às lendas do lugar que me viu nascer, a Ponta da Serra, a minha produção, que também vem de longa data, tem muito a ver com essas memórias sentimentais. Por isso esse blog foi batizado de Cordel Atemporal. Por valorizar, dentro do espectro amplo da literatura de cordel, a temática que tem sido mais resistente à passagem do tempo. Basta uma olhada no catálogo de uma editora tradicional como a Luzeiro, para constatar que, apesar  da variedade de títulos, os que são reeditados há quarenta,  cinquenta anos, ou mais, são aqueles que transcendem, por seu apelo universalista, a época em que que foram inscritos e se tornam o que chamamos, com ou sem razão, de clássicos.

Sempre reafirmei minha dívida de gratidão para com os mestres do cordel e muitas referências a autores do passado na Internet foram feitas por mim e repercutidas por colegas sensível à causa à qual me dedico. Um exemplo foi a homenagem a Antônio Teodoro dos Santos, feita pela Caravana do Cordel em 2009, com a presença da família do poeta, que entrou em contato comigo depois de uma postagem que eu fiz no meu antigo fotolog. O fato de seguir um caminho, no entanto, não me dá o direito de apontar o caminho para os outros. Todos têm, no cordel e na vida, vivências que moldam o seu modo de ver e sentir o mundo, e isso repercute em seu trabalho. 

Por isso, um e-mail que recebi no final de 2011, assinado por Nabupolasar Alves Feitosa, fez com que eu reafirmasse a minha opção que, se não agrada a todos, não deixa de ter também quem a abalize. Nabupolasar é Professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Mestre em Filosofia pela UECE e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP. Mas, como se deduz da leitura da carta, a mim endereçada e reproduzida com a autorização do remetente, que conheci pessoalmente há duas semanas aqui em São Paulo, não é em sua formação acadêmica que ele se apoia, mas em sua vivência sertaneja, em suas lembranças afetivas. O motivo da missiva é uma história que aprendi na infância e que, acrescida de um farto referncial cultural, se transformou em um dos meus cordéis favoritos, a História de Belisfronte o filho do pescador.

"Prezado Marco Haurélio,

Acabei de ler o seu História de Belisfronte, o Filho do Pescador, publicado pela Luzeiro. Fiquei muito contente e feliz com o resultado da obra. Normalmente antes de escolher um folheto, procuro ler a biografia do autor, pois, para mim, quanto mais antigo melhor. Numa exceção, comprei o seu cordel na Bienal do Livro em Fortaleza, no último sábado, e escolhi mais pela temática que a capa e o título da obra me apresentavam do que pela biografia que, confesso, não havia lido até ontem.

Qual não foi minha surpresa ao longo do enredo, porque você escreve como os grandes clássicos da literatura de cordel, trazendo de volta a base das histórias de trancoso - muitas das quais minha mãe, também cordelista, contava para os filhos - e uma séria de outros elementos de importante referência, não apenas no tocante a outras obras da literatura de cordel como a Donzela Teodora e Juvenal e o Dragão, como é fácil notar um influência da obra de Shakespeare, quando Belisfronte se acorda com a cotovia, lembrando ao leitor a cena do balcão em Romeu e Julieta, além de outras referência clássicas, como Helena de Troia, e do jeito de os cordelistas, assim como os escritores épicos, invocarem as musas e deusas, como faz Camões em Os Lusíadas.

Na sua obra o fantástico e o sobrenatural são retratados de forma bela, sem deixar de lado o jeito típico de escrever o cordel dos grandes mestres, com expressões como "ali", "naquele instante", além do arcabouço moral e cristão, que era o fio condutor dos enredos desse tipo de literatura.
Pois bem, quero parabenizar pela obra e dizer que Leandro Gomes de Barros ficaria contente com o seu estilo.

Grande abraço!

Nabupolasar Alves Feitosa"

E não é de hoje que a História de Belisfronte me traz essas boas surpresas. Em julho de 2011, Levon Nascimento, baiano radicado em Taiobeiras (MG), em visita a Bom Jesus Lapa, cidade baiana onde, todo ano milhares de romeiros, em busca de alento, rezam para o padroeiro da cidade, o Bom Jesus, cuja igreja é uma gruta às margens do rio São Francisco, publicou esse texto em seu blog:

"Ao subir o caminho sagrado que leva ao cruzeiro no alto do Morro do Bom Jesus da Lapa (BA), na manhã de 19 de julho de 2011, tive a grata satisfação de encontrar lá a banca de Antônio Rufino, o Tonho do Livro, onde me deparei com dezenas de títulos do encantado Cordel sertanejo (nordestino) que alegra e aviva, ainda mais, a cultura popular brasileira.


Adquiri vários títulos, a maioria escolhida por minha filha de sete anos de idade e que gosta muito de Cordel. Apreciamos, em especial, a HISTÓRIA DE BELISFRONTE, O FILHO DO PESCADOR, de autoria do baiano de Riacho de Santana (BA), Marco Haurélio, publicado pela Editora Luzeiro. Aliás, ao ver a logomarca da Luzeiro, lembrei-me de minha infância em Taiobeiras (MG). Não sei se alguém se lembra, mas o Sr. Hermínio Miranda costumava por uma banquinha de livros de Cordel nas feiras do sábado. Eu comprei vários títulos dessa editora na mão dele. Grata memória!"

Outra manifestação de carinho veio de Valéria Aparecida Cordero, bibliotecária do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória do Cambuci, coração de São Paulo, com quem deixei um exemplar do Belisfronte, depois de ter estado na escola a convite da editora Nova Alexandria:

"Ontem li Belisfronte, é fantástico!
Ele desperta várias emoções: tristeza no ínicio, com a miséria da família e o desespero do pai, depois exemplo de amor quando o filho honra a promessa do pai, a recompensa pelo feito, Bela.

A demonstração de solidariedade quando ele ajuda o Leão, os urubus e as formigas.

Humor com o segredo do rei,  (eu ri muito nesta parte) de como tinha que fazer para desmanchar o encanto,  monstros e tudo mais.

O final é maravilhoso romance com final feliz. Tudo isso com um vocabulário riquíssimo.

MuitObrigada!!"

A História de Belisfronte, o filho do pescador, além da edição da Luzeiro, integra a coletânea Meus romances de cordel, publicada pela Global Editora e apresentada pela Professora Vilma Quintela, que, generosamente, fez a análise que abaixo reproduzo:

Belisfronte em gravura de Luciano Tasso

"Encontramos ainda, entre os romances de aventura e encantamento reunidos nesta coletânea, A historia de Belisfronte, o filho do pescador, que, como os demais, também poderíamos inserir na categoria do maravilhoso e do fantástico, tomando como referencia a classificação temática do cordel, de Ariano Suassuna.  Esse romance tem como núcleo narrativo uma versão masculina do mito de Eros e Psique, na qual se articulam outros motivos recorrentes no repertorio tradicional nordestino. Estes aparecem, por exemplo, em uma historia intitulada “O Bicho Manjaléu”, que integra a coleção de contos orais reunidos por Silvio Romero no fim do seculo XIX. Nesse conto, semelhantemente ao que ocorre na historia de Belisfronte, o herói consegue resgatar a princesa apos desvendar o segredo da imortalidade do monstro que a mantém cativa, e, assim, destruí-lo com a intervenção de seres sobrenaturais que vem ao seu auxilio. No romance de Marco Haurélio, o Bicho Manjaléu dá lugar a um rei tirano, que, como aquele, não será derrotado pela forca do herói, mas pela sua sabedoria. Na seqüência, e narrado o reencontro de Belisfronte com a princesa enclausurada, a quem caberá desvendar o segredo da imortalidade do monarca:

Mesmo que o momento fosse
De grande felicidade,
O moco recobrou logo
A sua serenidade,
E disse para a amada,
Com muita tranquilidade:

– Oh, Bela, eu sei que esse rei
Esconde um grande segredo.
E tu iras descobri-lo,
Mais tardar, amanhã cedo,
Pois só assim poderei
Livrar-te deste degredo.
(...)

No romance de Belisfronte, encontramos ainda, com algumas variações, as sequências narrativas, presentes na historia do Bicho Manjaléu, em que seres da natureza, personificados em reis dos animais, vem ao auxilio do herói em momentos críticos de sua jornada. Como o anterior, esse motivo e recorrente no repertorio tradicional nordestino, podendo, ambos, ser encontrados, com variações, por exemplo, no romance O monstro sem alma, cordel da autoria de João Firmino Cabral, também publicado pela Editora Luzeiro."

Para o mesmo volume escrevi esta nota:

"Belisfronte era o meu conto popular favorito. Conheci‑o narrado por Luzia Josefina, minha avó. Traz, no enredo, motivos do conto mítico de Apuleio “Eros e Psiquê”, de O asno de ouro. Escrevi uma versão em cordel, em 2005, mas perdi o manuscrito. Reescrevi a mesma história, conservando algumas estrofes já decoradas. Esta foi a versão publicada na Luzeiro, em 2006."

Só me resta, então, dizer: Obrigado, Belisfronte!

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