domingo, 1 de setembro de 2019

Marco Haurélio será patrono da Feira do Livro de Morro Reuter (RS)



No dia 27 de agosto, eu estive em dupla jornada pelo Rio Grande do Sul. Pela manhã proferi uma palestra, O Abraço da Tradição, no Seminário Paulus de Educação (um dia antes, estive em Caxias do Sul, ainda no Seminário Paulus, em companhia do escritor Gabriel Perissé). No início da noite, acompanhado da consultora da Paulus em Porto Alegre, Adriana Bittencourt, segui para Morro Reuter, para participar do lançamento oficial da 26ª Feira do Livro. Em volta do obelisco que resume a vocação de Morro Reuter como cidade leitora, e no chalé dos Heylmann, fui anunciado, pela prefeita Carla Chamorro, como patrono da feira do livro deste ano. Além disso, revi muita gente querida, como Mírian Torres, Alana Schuck, Janice Jung e Carmem Ramminger, educadoras e grandes promotoras da leitura.

Tudo começou, de verdade, em 2018, quando a feira teve por patrono o grande ser humano e excepcional escritor Fabio Monteiro. Sendo o sertão o tema do evento, recebi dele o generoso convite. Em 2019, o tema, que é "Memória, cultura e identidade", já reverbera nas escolas em projetos que, certamente, trarão grandes resultados.

Abaixo, a notícia veiculada na página da Prefeitura de Morro Reuter:

A 26ª Feira do Livro de Morro Reuter, que será de 7 a 10 de novembro, terá como patrono o poeta e folclorista baiano Marco Haurélio. A apresentação foi feita na noite de ontem (27/8), em solenidade que reuniu os professores de todas as escolas de Morro Reuter, e iniciou com um abraço ao Obelisco de Livros, que em outubro completa 15 anos e representa todo o trabalho de incentivo à leitura, feito em Morro Reuter. A apresentação foi realizada pela Secretaria de Educação e Cultura, com apoio do Sicredi.
A noite foi dividida em dois momentos: no primeiro, junto ao Obelisco de Livros, a prefeita Carla Chamorro e a secretária de Educação e Cultura, Juliana Zimmer, receberam todos os professores e lembraram no aniversário do monumento. A prefeita Carla chamou o grupo de professores que participou das mobilizações pela construção do Obelisco, desde 2002,  relembrou a batalha para construí-lo com doações, e leu o nome das 54 famílias e empresas que contribuíram para que a cidade tenha seu monumento representativo de algo pelo que tanto preza: a leitura. Em seguida foi dado um abraço simbólico no Obelisco, momento em que os professores o iluminaram com as lanternas dos celulares.

Em seguida todos foram recebidos no chalé dos Heylmann, onde o patrono Marco Haurélio falou sobre a honra em receber o convite, disse que ficou encantado pela cidade durante a edição da feira em 2018, e contou um pouco sobre a sua trajetória. Também enfatizou sobre a cultura regional e colocou-se à disposição dos professores, para os trabalhos de preparação para a feira, junto às escolas. Após, as diretoras de cada escola receberam um kit de livros do autor, para trabalharem com seus estudantes, em sala de aula.  A noite também contou com o lançamento do Concurso de Narrativas, cujo regulamento será lançado na próxima semana.


SOBRE O PATRONO: Baiano de Riacho de Santana, Marco Haurélio é poeta popular, editor e folclorista. Em cordel, tem vários títulos editados, dentre os quais: ‘Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo’; ‘História da Moura Torta’ e ‘Os Três Conselhos Sagrados’. É autor, também, dos livros infantis ‘A Lenda do Saci-Pererê’, ‘Traquinagens de João Grilo’, ‘O Príncipe que Via defeito em Tudo’, ‘Lendas do Folclore Capixaba’, ‘As Babuchas de Abu Kasem’ , ‘A Megera Domada’ (recriado em cordel a partir do original de William Shakespeare) e ‘O Conde de Monte Cristo’ (versão poética do romance de Alexandre Dumas), os dois últimos para a coleção Clássicos em Cordel, da Nova Alexandria, onde atuou como editor. Profere palestras e ministra oficinas sobre Cordel e Folclore em vários estados brasileiros. Atuou como consultor da telenovela Velho Chico (Rede Globo).
Foi curador e idealizador do projeto ‘Encontro com o Cordel’, que em agosto de 2018 reuniu cordelistas, gravadores, músicos e pesquisadores em São Paulo. Foi, ainda, com Arlene Holanda, curador do Espaço do Cordel e do Repente, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Em setembro de 2018, esteve em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, a convite do Institute for Heritage, presidido pelo Dr. Abdulaziz Al-Mussalam, de quem recebeu uma medalha de honra ao mérito por seu trabalho de pesquisa e difusão no campo das tradições populares.




Fotos: Jornal O Diário da Encosta da Serra

Atualização: A 26ª Feira do Livro de Morro Reuter ocorrerá entre os dias 21 e 24 de novembro. 

Um cordel para Jerusa

JERUSA PIRES FERREIRA
NO PASSO DAS ÁGUAS MORTAS



A vida é um grande texto
Que se escreve e se reescreve.
Por vezes, é tão pesada,
Outras tantas, é tão leve,
Mas ante o tempo e a memória,
Termina sendo tão breve.

Jerusa Pires Ferreira,
Mestra de grande cultura,
Viveu buscando refúgio
Na rica literatura
Dos contos tradicionais,
Do chamado da aventura.

Foi em Feira de Santana,
A Princesa do Sertão,
Que Jerusa veio ao mundo
Em tempos que longe vão,
E desde cedo encantou-se
Com a nossa tradição.

Apesar de ser herdeira
De aristocratas baianos,
Cultivou desde menina
Grandes valores humanos
E viajou pelas linhas
Dos segredos e arcanos.

Nos livros que leu na Infância,
Visitou longínquas terras,
Contava histórias incríveis
De amor, de paz e de guerras,
E sua mente voava
Por vales, rios e serras.

A cada passo que deu,
Fez da escola seu escudo,
Do vasto chão da cultura
Conhecia quase tudo:
Foi a vida em plenitude
Seu objeto de estudo.

Do sertão, que foi seu berço,
Alçou voo, foi além
Conheceu muitos países,
Viu muitos povos também,
Notou as encruzilhadas
Que cada cultura tem.

Viajou por toda a Europa,
Pelas estepes sem fim
Aos campos verdes da Itália
E, “nel mezzo del camin”,
Encontrou na velha Espanha
Os ecos do muezzin.

Canções tradicionais
Que na infância conheceu,
Nas viagens que encetou,
Muitas delas reviveu:
O passado não passou,
Pois a vida não morreu.

Descobriu-se e descobriu
Um mundo dentro do mundo,
Um pensamento que vaga
Como errante vagabundo,
Soprando no ouvido d’alma
Um canto de amor profundo.

Ou mesmo um canto guerreiro,
Mas que ainda é de amor
À terra, ao povo, à poesia,
À Luta contra o opressor,
O canto da gesta santa
Do Cid Campeador.

Cruzou os mesmos caminhos
Que Carlos Magno cruzou
Pisou a terra onde um dia
Grande luta se travou
E o sangue de muitos bravos
A mesma terra lavou.

Seguiu as sendas guerreiras
Do cavaleiro Roldão,
Os passos de Santiago
Nesta terra e na amplidão,
Contemplou o sol nascente
E o chamou de “meu irmão”.

Viu florestas onde outrora
Várias lendas floresceram,
Inda escutou os murmúrios
De ventos que apareceram
Soprando muitas histórias
Das ninfas que não morreram.

Depois, voltou e encontrou-se,
Nas suas muitas memórias,
E nas memórias dos povos
Alegres e merencórias,
Forjadas por fios mágicos
No tecido das histórias.

Viu as bordas da cultura,
Mas nunca escolheu um lado:
Preferiu transitar livre
Entre presente e passado
E essa insubmissão
É o seu maior legado.

Ao Reino do Vai-Não-Torna,
Há um tempo viajou.
Com o seu querido Boris
Certamente se encontrou;
Por linhas certas e tortas
No Passo das Água Mortas
Seu nome em pedra gravou.

Nota: cordel escrito em homenagem à professora, ensaísta e tradutora baiana Jerusa Pires Ferreira (1938-2019), autora de livros essenciais  como Cavalaria em cordel, Fausto no horizonte e Matrizes impressas do oral. O poema foi lido pela professora Micheliny Verunschk no encontro Jerusa em presença, organizado pelo professor Amálio Pinheiro, no Tucarena, dia 13 de agosto, ocasião em que artistas, alunos e professores homenagearam a grande mestra dos estudos sobre a oralidade no Brasil.