quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

O Cordel "Carnavalesco" de José Pacheco


Proposta de capa para o folheto clássico
A Chegada de Lampião no Inferno (Luzeiro), de Eugenio Colonnese

A escola de samba Imperatriz Leopoldinense foi, com justiça, campeã do último Carnaval carioca com enredo sobre Lampião e suas perambulanças pelo céu e pelo inferno, do carnavalesco Leandro Vieira. Há cerca de seis anos (2016), ao revisar o livro Breve História da Literatura de Cordel (Claridade) para uma nova edição, resolvi ampliar o capítulo "O menestrel e o bandoleiro", que abordava as trajetórias míticas do Cego Aderaldo e de Lampião, a partir de um insight: os folhetos de José Pacheco da Rocha (1890-1934), narrando a jornada post-mortem do famoso cangaceiro, se encaixavam perfeitamente na tese de M. Bakhtin sobre o riso (e, claro, na noção de "realismo grotesco"  esmiuçada por ele a partir da obra de Rabelais. Abaixo, o trecho do livro no qual abordo esta noção, evocando ainda o teatro popular de bonecos, possível inspiração de Pacheco, um homem do chão da feira, numa época em que as feiras nordestinas eram verdadeiros festivais de celebração da cultura espontânea:

28 de julho de 1938. Nesta data, ocorreu a chacina de Angicos, em Sergipe, onde, sem nenhuma chance de defesa, morreram Lampião, sua companheira Maria Bonita e mais nove cangaceiros. Virgolino Ferreira da Silva, o temível Lampião, é de longe o personagem mais biografado no Cordel. Nenhuma outra personalidade histórica chama mais a atenção dos vates populares.

O mais famoso folheto sobre o Rei do Cangaço, A chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco, já ultrapassou em muito a marca de um milhão de exemplares vendidos. Nele, a notícia trazida pela alma penada de um cangaceiro, de nome Pilão Deitado, dá conta da confusão dos diabos (sem trocadilhos) provocada pelo Capitão recém-chegado às profundas. Composto em setilhas, desde o início este folheto exerce um fascínio irresistível no leitor, graças ao humor ao mesmo tempo ingênuo e malicioso:

Um cabra de Lampião,

Por nome Pilão-Deitado,

Que morreu numa trincheira

Um certo tempo passado,

Agora pelo sertão

Anda correndo visão,

Fazendo mal-assombrado.

 

E foi quem trouxe a notícia

Que viu Lampião chegar.

O Inferno, nesse dia,

Faltou pouco pra virar –

Incendiou-se o mercado,

Morreu tanto cão queimado,

Que faz pena até contar!

O cordel de José Pacheco dialoga, do começo ao fim, com o teatro de mamulengos. Os nomes estrambóticos dos demônios, o Inferno descrito como uma grande fazenda, o roteiro mínimo mas recheado de situações engenhosas que lembram as gags dos filmes cômicos, além da pancadaria “carnavalesca”, não deixam margem à dúvida. A ação constante, que remete ao bailado dos bonecos, corrobora a nossa ideia. O Diabo é personagem marcante do teatro de marionetes, assim como a Morte. Esta última não aparece personificada, e nem precisa: Lampião baixa ao Inferno depois de morto.

A estrofe a seguir, particularmente, parece confirmar a noção de “rebaixamento” proposta por Mikhail Bakhtin no clássico estudo sobre o contexto de François Rabelais:

 

Lampião pôde apanhar

Uma caveira de boi,

Sacudiu na testa dum,

Ele só fez dizer: — Oi!

Ainda correu dez braças

E caiu enchendo as calças,

Mas eu não sei de que foi.

A própria descida do Rei do Cangaço ao Inferno, por seu feitio de paródia, configura-se em rebaixamento.[1] A cena escatológica imaginada por Pacheco é de total subversão. O Inferno, local de acerto de contas, região de “choro e ranger de dentes”, se transforma em cenário de uma comédia rasgada. Na obra-prima de Pacheco, a figura cômico-heroica de Lampião, síntese das camadas menos favorecidas, invade o Inferno – que, já foi dito, é representado como uma grande fazenda –, mas não toma posse dele. Arrasa-o, vinga-se das afrontas e, em seguida, vai embora.

O teatro de mamulengos no Nordeste recebia, não por acaso, em alguns lugares, o nome de presepe (corruptela de presépio), em razão de sua representação nos arredores das igrejas; e, também, em razão de mais um rebaixamento: um motivo religioso que se converte em profano. Vem daí a palavra presepada, tão ao gosto das camadas – e dos poetas – populares.[2]

Pacheco voltaria à carga em outra obra-prima, O grande debate de Lampião com São Pedro, em que funde folheto de utopia com história de presepadas, ao estilo de Lampião no Inferno. Depois de passar por regiões encantadas, o estro do poeta encontrará o cangaceiro em frente ao Paraíso, também apresentado como uma grande fazenda, já que possui uma quinta, cercas e, acredite!, um chiqueiro.

Chegou no céu Lampião,

A porta estava fechada.

Ele subiu a calçada,

Ali bateu com a mão,

Ninguém lhe deu atenção,

Ele tornou a bater.

Ouviu São Pedro dizer:

– Demore-se lá, quem é?

Estou tomando café,

Depois o vou receber.

 

São Pedro depois da janta

Gritou pra Santa Zulmira:

– Traz o cigarro caipira!

Acendeu no de São Panta.

Apertou o nó da manta,

Vestiu a casaca e veio,

Abriu a porta do meio,

Falando até agastado:

– Triste do homem empregado

Que só lhe chega aperreio!

Não é difícil descobrir que esse São Pedro desleixado vem dos contos tradicionais, nos quais encarna muitos dos defeitos e vícios humanos, em oposição a Jesus Cristo, seu companheiro de viagens. Apesar de criar a expectativa de uma briga semelhante àquela travada no Inferno, envolvendo outros santos convocados por São Pedro, o confronto é evitado por intercessão de São Francisco. Afinal, mesmo um poeta irreverente e genial como José Pacheco conhecia os limites da sátira.



[1] Rebaixamento, para o russo Mikhail Bakhtin, é “o poderoso movimento para baixo, para as profundezas da terra e do corpo humano (...)”. A partir do conceito de carnavalização, isto é, da inversão da ordem estabelecida, quando o rei torna-se um bufão e o bufão torna-se rei. Leia-se BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Annablume, Hucitec, 2002.

 

[2] 30 A informação é de Hermilo Borba Filho: “Na Bahia, dão nome de Presepe e representam grotescamente as personagens mais salientes do Gênese”. Veja-se “Mamulengo” in: Espetáculos populares do Nordeste. São Paulo: DESA, 1966.


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