sexta-feira, 6 de março de 2026

O adeus a Marcus Lucenna, o Cantador dos Qu4tro Cantos

Marcus Lucenna, autodenominado Cantador dos Qu4tro Cantos, poeta e forrozeiro, divulgador incansável das tradições populares do Nordeste, nos deixou ontem, 5 de março, vitimado por um ataque cardíaco. Natural de Mossoró, Rio Grande do Norte, tinha no pai, Antônio Lucena, o Majó Lucena, o grande espelho de sua arte e em Luiz Gonzaga a inspiração maior.

Foi Chico Salles, também de saudosa memória, que me apresentou a Lucenna, em 2006, quando estive pela primeira vez no Rio de Janeiro, na sede da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Depois disso, nos encontramos muitas vezes. Estivemos juntos em vários encontros em Brasília, onde foi lançada a semente para que a Literatura de Cordel fosse reconhecida como patrimônio cultural e imaterial do Brasil.

Quando fui “eleito” para a ABLC, ele e Chico Salles me apoiaram, pregando uma renovação nos quadros da entidade. E quando me desliguei, em 2008, externou a sua decepção, mas não deixou de apoiar minha decisão, compreendendo minha postura de autonomia e independência no tocante às entidades ligadas ao mundo do cordel.

E, toda vez que eu retornava ao Rio, a cerveja, regada a boa prosa, era obrigatória. Fora testemunha de muitas histórias envolvendo o rei do Baião, Luiz Gonzaga, e personagens imortalizados em seu repertório, como o Zé Nabo, do clássico “Forró de cabo a rabo”. Quando, em 2020, de forma inesperada, perdemos Arievaldo Viana, ele me contou como conheceu o poeta, ainda jovem, “sem parentes importantes e vindo do interior”, para fazer história na capital cearense e no restante do país.

Homenagem do cordelista e cartunista Klévisson Viana

O cordel mais conhecido de Lucenna é A peleja do cérebro com o coração, que ele orgulhava de ter licenciado dezenas de vezes para livros didáticos, ampliando em muito a divulgação e alcance da obra. Na peleja da vida com a morte, o coração do poeta não resistiu, e ele nos deixa aos 68 anos. Sua obra, no entanto, permanece viva em discos, cordéis e nas trajetórias de inúmeros artistas para os quais abriu portas e janelas.

Por isso, não surpreende que tenha recebido muitas homenagens, desde políticos a instituições, como o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, além de artistas como Klévisson Viana. O repentista cearense Miguel Bezerra, radicado Em Nova Iguaçu, no Rio, por exemplo,  dedicou-lhe estes versos, publicados no Facebook:  

Marcus Lucenna vivia,

Cantando xote e baião,

Seresta samba canção,

Glosa, cordel, cantoria,

Mas se nós temos um dia,

Pra perder nossos encantos,

Hoje tem dores e prantos

Nos moldes da sua arena:

Perdemos Marcos Lucenna,

Cantador dos Quatro Cantos.


Um comentário:

Fernando Cézar de Macedo disse...

Marco Haurélio, que belo texto, que bela homenagem! Como diz o samba, "Poeta que morre é semente".