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terça-feira, 15 de março de 2011

Lenda do Major Ramiro é destaque em antologia


Major Ramiro Faria, sentado, de bigode, ao lado de minha bisavó, Elvira do Prado Fernandes. Ao lado do casal, os pais do Major, Ladislau e Angélica. De pé, minha avó Luzia Josefina (sexta, a partir da esquerda) e meu avô, Joaquim José de Faria, bem jovens. No alto da foto, os meninos são Maximino (Tio Maçu) E José Farias (padrinho José). O Major Ramiro era conhecido por sua valentia e por seus dons de taumaturgo (curador). Publiquei pela Luzeiro o cordel, cujo trecho incial está reproduzido abaixo, focando uma das muitas lendas envolvendo o meu bisavô.

A Briga do Major Ramiro com o Diabo, cordel, escrito a partir de uma das muitas lendas do sertão de outrora, é um dos sete folhetos que integram a antologia Meus romances de cordel (publicada, este ano, pela Global Editora).

Ramiro José de Faria (1882‑1966), meu bisavô paterno, na Ponta da Serra, localidade onde eu nasci, e nos arredores do sertão de minha infância, virou lenda. São muitas as histórias em que, em seu ofício de curandeiro, devolveu a sanidade a loucos e salvou da morte certa muitos doentes. Famoso também por sua valentia, foi perseguido pelo Dr. Franco Fernandes, um primo distante, primeiro médico a clinicar no Bonito, povoado próximo ao Barreiro, onde o Major residia. No presente texto, no entanto, recorri à imaginação para narrar um encontro do Major Ramiro com o Diabo, metamorfoseado num gato preto. Como deixo claro no texto, o episódio foi narrado por minha avó Luzia, embora, no cordel, todos os diálogos tenham sido criados por mim, seguindo a fórmula das histórias tradicionais de pelejas com o demo. Foi publicado pela editora Luzeiro, em 2006.


Capa do cordel editado pela Luzeiro

Trecho do cordel

Peço licença ao leitor
Pra narrar este relato
Contado por minha avó;
Portanto não é boato,
Em que o Diabo aparece
Na forma dum horrendo gato.

No tempo em que Igaporã
Ainda era um distrito
Da vizinha Caetité
E era chamado Bonito,
Na fazenda do Barreiro
Deu‑se um enredo esquisito.

No ano de oitenta e sete
Do dezenove nascia,
De tradicional família,
Ramiro José Faria.
Foi o maior taumaturgo
Que já viveu na Bahia.

A sua mãe era Angélica
E o seu pai, Ladislau.
Ele era quase um santo;
Ela tinha um gênio mau,
Vivia rogando pragas,
Era pior que um lacrau!

E parte do embate verbal com o Diabo:

Após cuspir duas brasas,
O gato disse: — Major,
Neste mundo eu sou o príncipe,
Não existe outro maior.
Quem quiser que se arrisque,
Mas vai levar a pior!

O major disse: — Demônio,
Te esconjuro, desgraçado,
Só estás aqui porque
Teu laço foi afrouxado,
Pois pela mão do Eterno
Tu vives subjugado.

Disse o capeta: — Ramiro,
De ti tenho muita dó,
Não foi acaso o Eterno
Que mandou eu tentar Jó,
Despojando‑o de tudo,
Deixando‑o tristonho e só?

— Jó sofreu grande infortúnio,
Porém teve recompensa,
E tu foste derrotado,
Mensageiro da doença!
Não venhas me iludir,
Pois disto tenho sabença.

Falou o monstro: — Porém
Contar‑te outra preciso:
Se o Rei não permitisse,
Nunca eu teria juízo
De entrar e tentar Eva,
Privando‑a do Paraíso.

— Dos desígnios do Senhor
Não tens a capacidade
Para tirar conclusões,
Pois não sabes da verdade:
Graças à falta de Eva
É que existe a humanidade.

— Ramiro, estás delirando
E precisas de uma luz:
Por que o teu Deus mandou
À terra o filho Jesus,
Pra morrer inutilmente,
Pendurado numa cruz?

— Maldito, disse o major,
Carece de explicação:
Três dias Jesus esteve
Na tenebrosa mansão,
Resgatando, desta forma,
Os descendentes de Adão.
(...)


Retrato retocado de meus avós Luzia Josefina e Joaquim

Para adquirir o folheto, clique AQUI

sábado, 5 de março de 2011

Reencontro com um mestre da cultura



Entre os meses de dezembro e janeiro, feriei na Bahia. Aproveitei para rever os familiares, amigos e visitar os umbuzeiros, enquanto respirava os ares da terra natal.

Pousei em Serra do Ramalho, onde meus pais residem, e, depois fui à Igaporã, cidade onde passei parte de minha infância. Nesta cidade, revi Jacinto Farias Guedes, o Jacintinho, filho de Gustavo e sobrinho do lendário Major Ramiro José de Faria.

Para quem leu o meu livro Contos Folclóricos Brasileiros, Jacinto Farias Guedes não é um nome estranho. Ele é o narrador de três contos que figuram no livro:

A Onça e o Bode – conto de origem africana, registrado no Brasil desde os tempos de Silvio Romero;

José e Maria – história de encantamento que traz os motivos do célebre Hansel e Gretel, dos Irmãos Grimm acrescidos do episódio mítico da salvação da donzela pelo herói, rememorando o feito do semideus Perseu na mitologia grega;

e Maria Borralheira, a versão brasileira da história da Cinderela, universalmente difundida e merecedora de alentada bibliografia.

Em meu outro livro, Contos e Fábulas do nosso Folclore, que será lançado em agosto deste ano, figuram outros contos narrados por Jacinto no ano de 2005, quando iniciei minha recolha.

Neste ano, fui reencontrá-lo, depois de muito tempo, na mesma casa do Brejinho, escondida atrás de uma cerca de quiabento e com a Serra Geral como paisagem de fundo.
A mesma Serra Geral em que, noutros tempos, acreditou-se existir muito ouro. Hoje, tenho certeza que o verdadeiro tesouro são os seus habitantes, joias lapidadas pelo tempo, representantes de um Brasil que não pode deixar de existir.