Mostrando postagens com marcador Eduardo Azevedo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eduardo Azevedo. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de junho de 2012

Leandro Gomes de Barros e Rouxinol do Rinaré inauguram nova série na Nova Alexandria

A nova série de livros infantojuvenis da Editora Nova Alexandria traz, como títulos inaugurais, dois clássicos da literatura de cordel brasileira: a História de Juvenal e o Dragão, do pioneiro Leandro Gomes de Barros, e O Guarda-Floresta e o Capitão de Ladrões, do poeta contemporâneo Rouxinol do Rinaré. Os dois trabalhos trazem ilustrações em cores  de Eduardo Azevedo.

Mais informações abaixo:
História de Juvenal e o dragão

Escrita por Leandro Gomes de Barros, no início do século XX, a História de Juvenal e o dragão tornou-se modelo de narrativas posteriores, como João Terrível e o dragão vermelho, de Antônio Alves da Silva, João Corajoso e o dragão de três cabeças, de Joaquim Batista de Sena, e João Acaba-Mundo e a serpente negra, de Minelvino Francisco Silva. Alguns versos do romance de Leandro tornaram-se coletivos, a exemplo de “Quando foi no outro dia”, “Como um raio abrasador” etc. e são encontrados em outras narrativas do cordel. 

A princípio, a inspiração do poeta parece vir do conto Henrique e os três cães, da coletânea de Figueiredo Pimentel, Contos da Carochinha, publicada pela primeira vez em 1896. As raízes do conto, no entanto, são muito antigas e estão presentes no mito de Perseu e Andrômeda e em outras narrativas mitológicas, como exemplifico abaixo. O dragão é, segundo Vladímir Propp, “uma das figuras mais complexas e mais enigmáticas do folclore e das religiões do globo”. Na mitologia grega, é o adversário — derrotado — de heróis como Hércules e Jasão. Ainda na Grécia, Apolo mata a serpente Piton e, no Egito, Hórus, filho de Osíris, derrota Tifon, assassino de seu pai. Alguns mitólogos e estudiosos do folclore interpretam a derrota do dragão por estas divindades como a vitória da luz contra as trevas, isto é, do dia contra a noite. Vale lembrar que, em seus países, Apolo e Hórus eram deuses solares. Daí viriam expressões como “boca da noite”, conservada pela memória popular. 

O mesmo Propp, analisando nos contos tradicionais russos o motivo dos tributos do dragão, descreve uma situação bem próxima à narrada por Leandro: “o herói chega um país estrangeiro, vê ‘todas’ as pessoas tão tristes, e de eventuais transeuntes fica sabendo que todos os anos (todos os meses) o dragão exige como tributo uma jovem, e que agora é a vez da filha do rei”. A lenda de São Jorge deriva também deste motivo universalmente difundido.   A palavra dragão vem do grego draco e significa “serpente”. Esta palavra aparece quatro vezes na História de Juvenal e o dragão, a exemplo desta estrofe:   

O moço era destemido,  
Com seu cachorro valente,  
Eles dois incorporados,  
Lutando com a serpente.  
Juvenal no ferro frio  
E o cão fiel pelo dente.   

Aparecem ainda no romance os auxiliares mágicos do herói, representados por três cachorros, e o impostor que, fazendo-se se passar pelo vencedor do dragão, reivindica a mão da princesa.   A publicação deste clássico da literatura de cordel brasileira, enriquecido com ilustrações e vinhetas de Eduardo Azevedo, é uma homenagem que a editora Nova Alexandria, que publica a premiada coleção Clássicos em Cordel, presta a Leandro Gomes de Barros, herói desbravador da seara da poesia popular, homenageado e aplaudido por nomes como Mário de Andrade, Ariano Suassuna e Carlos Drummond de Andrade.

O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões

Rouxinol do Rinaré integra a geração de cordelistas surgida na última década do século passado, responsável pelo ressurgimento do gênero romance na poesia popular. Por romance, os autores de cordel definem as narrativas de fôlego, inspiradas na tradição oral ou criadas pelos artesãos do verso. Alguns cordéis desse gênero têm 16 páginas, a exemplo dos clássicos Romance da princesa do Reino do Mar Sem Fim, de Severino Borges, e Romance de João Cambadinho e a princesa do Reino de Mira-Mar, de Inácio Carioca. Desde Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), o popularizador da tradição dos romances autorais no cordel, passando por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o grande sistematizador e responsável pelo início da editoração profissional, o romance tornou-se o gênero nobre dentre os poetas do povo.

O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões, publicado originalmente em folheto pela Tupynanquim Editora, em 2006, é uma homenagem que Rouxinol presta aos mestres do cordel, em especial ao pernambucano Delarme Monteiro da Silva (1918-1994), sua principal referência. A história é uma versão poética do conto homônimo lido em uma coletânea chamada Pérolas esparsas, sem indicação de autoria, ainda na infância, passada na zona rural de Quixadá, sertão cearense. O enredo gira em torno da atuação de Frede, um Guarda-Florestas implacável no cumprimento de seu dever, conforme lemos nesta estrofe:

Num certo reino da Prússia,
Há muito tempo passado,
Residia um cidadão
Num bosque bem afastado,
Tendo a missão de guardar
As florestas do reinado.

Seu principal inimigo  é o Capitão de Ladrões, a quem persegue obstinadamente:

O Capitão de Ladrões,
Como era conhecido,
Atacava com as sombras,
Passava o dia escondido.
Tornou-se questão de honra
Capturar o bandido.

Há ainda outros personagens, como Hilda, esposa de Frede, que desempenhará um papel fundamental nos momentos de maior tensão do romance. À maneira de muitos contos populares, encontramos, nesta obra, o drama da queda — simbolizado pela atitude do ladrão — e da redenção, quando este, enfim, resolve dar um novo sentido à sua existência. No cordel, há similares na História de Roberto do Diabo, de Leandro Gomes de Barros, e em Dimas, o Bom Ladrão, cuja autoria é atribuída a Francisco das Chagas Batista. Rouxinol do Rinaré, portanto, revisita a tradição dos grandes autores, sem perder a originalidade característica de seus versos, que estão entre os melhores de quanto já se publicou na literatura de cordel do Brasil.


Mais informações: novaalexandria@novaalexandria.com.br

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Lançamento: Cinderela em Cordel, de Cacá Lopes


Cinderela é o conto popular mais difundido no mundo. Em Portugal, o personagem é chamado A Gata Borralheira. No Brasil, há muitas variantes da estória Maria Borralheira. A presente adaptação em cordel, escrita por Cacá Lopes, é baseada na versão de Charles Perrault (1628-1703), recolhida na França, onde a heroína é chamada Cendrillon. O filme Cinderela, dos estúdios de Walt Disney (1950), baseia-se nesta versão francesa. O cordel dá um toque nordestino a esse conto universal, que, há séculos, diverte e emociona crianças e adultos.  
Abaixo, um trecho do livro:

Vou recontar em Cordel
Uma história de primeira,
Falando de Cinderela
Uma menina faceira,
Também muito conhecida
Como Gata Borralheira.

Filha de um homem honrado,
Que, entrando em viuvez,
Quis fugir da solidão,
Casando mais uma vez,
Sem sequer imaginar
A tolice que ele fez.

A mulher com quem casou
Era a preguiça em pessoa.
No início, pra enganar,
Ela fez papel de boa,
Mas logo demonstrou ser
A megera mais à-toa.

(...)


Cacá Lopes é cantor, compositor, cordelista e violonista. Nasceu em Araripina (PE), na região encantada da Chapada do Araripe.  Foi apresentado ao mundo da arte pelo pai, Mestre Elpídio, fazedor de berimbaus. Radicado em São Paulo, com uma carreira consolidada como cantor e instrumentista, Cacá já cantou para aproximadamente um milhão de alunos da Rede Pública Municipal e Estadual de São Paulo, através do Projeto Cordel nas Escolas (ao lado de Costa Senna). Já se apresentou em dezenas de programas de televisão.

Mais no site da Editora Claridade

sábado, 21 de maio de 2011

Clássico do Cordel em quadrinhos


Uma das obras-primas da literatura de cordel, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros, ganhou uma versão em quadrinhos assinada por Klévisson Viana e Eduardo Oliveira. A boa nova veio do blog Acorda Cordel, de Arievaldo Viana. A HQ da dupla conquistou o prêmio Luiz Sá de Quadrinhos, promovido pela SECULT-CE.

Abaixo, reproduzo o texto da Apresentação, que tenho a honra de assinar:

A versão em quadrinhos do clássico cordel brasileiro,  A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, é especial por vários motivos. Primeiro porque une o talento do fundador da literatura de cordel no Brasil, Leandro Gomes de Barros, ao dos consagrados ilustradores Klévisson Viana, também poeta e editor, e Eduardo Azevedo. Segundo porque apresenta às novas gerações, em um formato mais do que atraente, um dos melhores textos poéticos daquele que, no cordel, foi cognominado o Primeiro sem Segundo. Os demais motivos estão explicitados nos próximos parágrafos.

Leandro Gomes de Barros, ao reescrever em versos episódios significativos da História de Carlos Magno e dos Doze pares de França, inaugurou, na poesia popular, o gênero épico. Composta em décimas de sete sílabas, A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e a continuação A Prisão de Oliveiros têm um ancestral remoto: a canção de gesta francesa do século XII, chamada Fierabras. Pertence, como a anterior Canção de Rolando, ao chamado Ciclo Carolíngio. Nela, pela primeira vez aparece Ferrabrás filho do emir Balan (o almirante Balão do romance leandrino), governante da Espanha muçulmana. Na Espanha, surgiu, com título ampliado, uma tradução de 1525: Historia del Emperador Carlomagno y de los Doce Pares de Francia: e de la  Cruda Batallha que Hubo Oliveiros con Ferrabrás, Rey de Alexandria, Hijo del Grande Almirante  Balán. A tradução portuguesa, levada a cabo por Jerônimo Moreira de Carvalho, a mesma que circularia pelos sertões do Brasil por mais de dois séculos, é de 1728.
A velha canção de gesta narra como, liderando as hordas da Turquia, Ferrabrás e seu pai saqueiam Roma e se apropriam de relíquias da Igreja de São Pedro: a coroa de espinhos de Cristo, os cravos e uma inscrição da Cruz, além do óleo usado para untar o corpo de Nosso Senhor. Este episódio aparece no folheto de Leandro, narrado por um dos guerreiros franceses, Ricarte da Normandia, com a ação deslocada para Jerusalém:
Aquele foi quem entrou
Dentro de Jerusalém.
Não respeitando ninguém,
Até apóstolos matou,
No templo sagrado achou
Bálsamo que Deus foi ungido,
Coisas que tinham servido
Na paixão do Redentor,
A coroa do Senhor,
Tudo ele tem conduzido.
Carlos Magno e seus paladinos dão combate aos invasores, mas não impedem a destruição da cidade. De volta à Península Ibérica Ferrabrás, gigante bravateador, desafia os paladinos franceses para um duelo singular. Diante da recusa destes, Carlos Magno se enfurece e ofende o maior dos heróis da França, seu  sobrinho Roldão. Oliveiros, companheiro de todas as horas de Roldão, mesmo ferido, apresenta-se para o combate. A princípio faz passar-se por Guarim, seu escudeiro, mas Ferrabrás, desconfiado, descobre tratar-se de um nobre e, durante a batalha, mais de uma vez, mostra-se cortês, de acordo com as leis da cavalaria. Notando o estado em que se encontrava o oponente, Ferrabrás oferece-lhe um bálsamo capaz de curar todas as feridas, mas Oliveiros, orgulhoso, recusa. Só aceita servir-se de bálsamo, quando o toma pela espada.
A Batalha na cultura popular

Nas cavalhadas, uma das mais belas manifestações da cultura popular brasileira, resta, diluída, a lembrança dos embates entre mouros (turcos) e cristãos. Em Serra do Ramalho, na Bahia, na véspera de São João, ocorre uma encenação a céu aberto, que reconta a saga do imperador cristão Carlos Magno em guerra com o almirante Balão. Esta modalidade é a cavalhada teatral, que mescla a encenação à demonstração de habilidades dos cavaleiros, lembrando as justas (torneios medievais). Em outras cidades do Brasil, a exemplo de Divinópolis, Goiás, a cavalhada é atração turística. Durante a encenação, os paladinos cristãos, trajados de azul, combatem os mouros, que vestem encarnado. Geralmente, o auto é encerrado com a conversão dos mouros ao Cristianismo.