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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Morre João Paraibano, o menestrel do sertão


Dentre os poetas repentistas, ninguém cantou o sertão melhor que João Paraibano. Estrofes que tratavam de seca, fartura, da fauna e da flora caatingueiras correm na boca dos poetas populares, imortalizando, ainda em vida, o seu criador, João Pereira da Luz, nascido há 62 anos em Princesa Isabel, mas estabelecido há muito em Afogados da Ingazeira (PE). Como exemplo, transcrevo esta maravilhosa sextilha:

Coruja dá gargalhada
Na casa que não tem dono.
A borboleta azulada,
Da cor de um papel carbono,
Faz ventilador das asas
Pra rosa pegar no sono.

Vítima de um atropelamento por motocicleta, quando atravessava uma das ruas do centro da cidade em que vivia, o poeta estava internado havia mais de 20 dias. Hoje, 2 de setembro, à madrugada, seu coração parou de bater. O óbito ocorreu no hospital Alpha, em Recife, para onde foi transferido para tratar um coágulo. A causa-mortis do grande poeta foi infecção generalizada. 


Conheci-o em 2007, em São Paulo, ocasião em que entreguei-lhe um exemplar do livro Foi voando nas asas das Asa-Branca que Gonzaga escreveu a sua história (Luzeiro). Ele e vários expoentes do repente e do cordel glosaram o mote que dá título à obra, de minha autoria.  Os versos de João Paraibano, feitos de improviso, foram anotados por Assis Angelo.

Transcrevo suas duas glosas, que, por sinal, tratam da inevitabilidade da morte, em tributo à sua iluminada passagem pela Terra:

O rei morto da cova não se alui,
Mas o nome do rei está vivendo.
Foi um rei sem coroa merecendo
A coroa melhor que um rei possui.
Meditei no Museu, depois que fui,
Que a vida do homem é ilusória.
Deus não compra assinando promissória,
O portão do sepulcro não tem tranca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

Foi Gonzaga cantor e sanfoneiro,
Respeitou exigindo seu respeito,
Resgatou o baião, plantou no peito
Pra depois semear no mundo inteiro.
Ao soltar o suspiro derradeiro,
Encerrou a sua última trajetória.
Todo homem dá mão pra palmatória,
Quando a vida tropeça, o corpo manca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Mote Gonzagueano



                        Capa de Jô Oliveira


São João, entre outras coisas, lembra Luiz Gonzaga. E me fez lembrar de um cordel que organizei, lançado pela Luzeiro, nos 60 anos da canção Asa Branca. O folheto foi lançado literalmente na Praça da Sé, em evento coordenado por Assis Ângelo.  O mote é meu e foi glosado por poetas da estirpe de Mestre Azulão, Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana, Oliveira de Panelas, João Paraibano, Valdir Teles e Klévisson Viana.

As estrofes de minha autoria são as que seguem abaixo:

Nos meus versos de cunho popular
Busco n’alma divina inspiração,
Porque é de Luiz, Rei do Baião
Que agora os poetas vão falar,
E o Brasil sertanejo vai mostrar
Que não é desprovido de memória,
Relembrando a incrível trajetória
De um mito que o tempo não desbanca –
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

Dos acordes de um grande brasileiro,
Um intérprete da alma de seu povo,
Sai um canto que sempre será novo,
Amoroso, sincero, alvissareiro.
Entre os hinos do seu cancioneiro,
O que fala duma ave migratória
Conferiu a Luiz eterna glória
Para além desta vida que se estanca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.

Eu também levo o fardo do migrante
Carregando amor com melancolia,
Que abastecem a minha poesia,
Semeada em terra tão distante.
E se a vida me fez um retirante,
Não me rendo à tão cruel escória,
Antes canto a verve meritória
Que ao gênio, lhe serve de alavanca.
Foi voando nas asas da Asa Branca
Que Gonzaga escreveu a sua história.