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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Cordéis atemporais: História de Roberto do Diabo

Edição UNIFOR. Capa: Abraão Batista.
Acervo: Fonds Raymond Cantel.


Roberto do Diabo é personagem de lenda de grande repercussão que migrou das vozes anônimas divulgadoras de tradições antigas para as páginas da literatura popular de mais de uma nação. A tradução portuguesa de Jerônimo Moreira de Carvalho, no século XVIII, funde tradições diversas e dispersas sobre a figura lendária do facínora que comete todos os excessos até um encontro libertador com um anjo de Deus. Graças a uma frase sacrílega de uma mãe desesperada por não dar ao duque Alberto da Normandia um herdeiro, Roberto nasce por influência do mal. Aos sete anos, mata com uma punhalada o seu mestre. Desdobra-se em crueldades até tentar o parricídio, razão por que é banido do ducado. Com a cabeça posta a prêmio, passa a agir com mais brutalidade, matando, desonrando, pilhando, num frenesi maléfico que parece não ter limites. Quando resolve procurar Inda, sua mãe, descobre a verdade sobre sua origem, motivadora de uma natureza bestial.

Busca, a partir daí, a purificação, rompendo com seus comparsas, os quais, na impossibilidade de conduzi-los à luz, são mortos por ele. A tentativa de redenção envolve uma viagem a Roma, onde confessa-se diante do Sumo Pontífice. Este pede para que procure um santo homem, um eremita, que, por intermédio de um anjo, mostra-lhe o caminho da purificação: deverá fingir-se de louco e comer apenas o sobejo dos cães. Em Roma, onde cumpre penitência, coberto de andrajos, é observado sem saber pela filha do imperador local, que o ama em segredo. Quando a cidade é invadida pelos sarracenos, Roberto, cumprindo ordem divina, torna-se o Cavaleiro Branco, encontrando, por milagre, o cavalo e as armas com os quais vai à batalha. De Roberto nascerá Ricarte da Normandia, um dos Doze Pares de França, a eminência parda do exército de Carlos Magno.

Assim diz a lenda. Mas não é o que diz a História.

As fontes remotas para esta história que atravessou o Atlântico são, segundo Câmara Cascudo, três: as Chroniques de Normandie, que citam o ano de 751 e informam sobre o conde da Neustria, Aubert, pai de Roberto. Não há, neste documento, referência ao pedido sacrílego da mãe, Inde (ou Inda). A segunda é um poema anônimo de autor normando, escrita no século XIII, mesma época de um lay bretão, levado à Inglaterra pelos seguidores de Guilherme, o Conquistador, invasor normando fundador uma nova dinastia. A terceira, de traço marcadamente cristão, é o Miracle de Nostre Dame de Robert Le Diable, onde abundam os episódios piedosos.

O enredo irresistível alimentou a literatura de cordel portuguesa, dando origem a uma versão em quadras em redondilha maior. No Brasil, há a versão que lemos, atribuída, por alguns, a João Martins de Athayde. Os poetas e folheteiros João Vicente da Silva, paraibano, e João Firmino Cabral, sergipano, no entanto, afirmam que a obra é de autoria de Leandro Gomes de Barros. Esta também era a opinião da pesquisadora do cordel, Idelette Muzart Fonseca dos Santos, que, a serviço da Fundação Casa de Rui Barbosa, na década de 1970, realizou um cotejo da História de Roberto do Diabo com outros títulos de Leandro, especialmente com a História de João da Cruz, reunindo argumentos robustos para sua afirmação.

Roberto, bandido cruel, inimigo das virtudes, pode ser isentado de seus futuros crimes, vítima que foi da fatalidade. São comuns nos contos populares as concepções bestiais, príncipes com forma animal, como indício de punição à imprudência materna. Também são encontráveis histórias em que o herói age disfarçado até o momento em que um falso herói tenta usurpar-lhe a glória. Não será este o modelo dos modernos super-heróis ocultos sob capas, máscaras e metamorfoses?

E, entre os romances trágicos do Nordeste, a História do Valente Vilela, cujo enredo descreve um cangaceiro de índole perversa que, de súbito, se arrepende, tornando-se um eremita, não é uma versão simplificada do bandoleiro que busca a expiação por meio da mortificação do corpo? Não é este o motivo principal do Augusto Matraga de Guimarães Rosa, escritor que sabia buscar no patrimônio cultural comum a muitos povos as referências para sua obra inigualada? 

 Trecho inicial do romance:

Na província da Normandia,
na remota antiguidade,
viveu o duque Alberto,
cheio de fraternidade.
Era ele o soberano
de toda aquela cidade.

Ele era um moço solteiro,
não pensava em casamento,
não era por egoísmo,
nem por ser rico avarento:
era porque no futuro
nunca pensou um momento.

Disse um vassalo ao duque:
— Sei que é bom ser solteiro.
o homem que não se casa
vai caminhar sem roteiro.
veja bem que seu ducado
mais tarde precisa herdeiro.

O duque, ouvindo estas frases,
mudou logo o pensamento.
ficou crendo no vassalo
naquele mesmo momento
e disse que nas mãos dele
estava o seu casamento.

Seguiu então o vassalo
foi dar parte na cidade
aquelas pessoas doutas
de alta capacidade
que o duque prometia
fazer a sua vontade.

Ficaram todos contentes
foram então consultar
qual era a moça capaz
daquele duque casar
depois da consulta feita
poderam então acertar.

A duqueza de Borgonha
foi essa a moça escolhida.
eles seguiram com medo
desta jornada perdida,
mas ela mandou o sim
da proposta referida.

E, poucos dias depois,
tiveram então de casar.
foi uma festa tão grande
que não se pode contar.
eu não conto neste livro
pra ele não aumentar.

Depois dos jovens casados,
ficou tudo satisfeito
porque mais tarde teriam
quem punisse o seu direito.
O ducado tinha herdeiro
e o povo tinha conceito.




quinta-feira, 19 de novembro de 2015

150 ANOS DO MESTRE MAIOR DO CORDEL

Leandro Gomes de Barros em linoleogravura de Jô Oliveira.

Hoje, 19 de novembro do Ano da Graça de 2015, é um dia especial para muita gente. Sim, é o Dia da Bandeira, cujo hino foi composto por Olavo Bilac. Mas é também o dia de Leandro Gomes de Barros, o bardo paraibano que desfraldou a bandeira do cordel por aqui, ajudando a construir o gênero poético brasileiro por excelência: o cordel. A partir das muitas matrizes e dos muitos matizes que dão forma à nossa cultura, desde os romances ibéricos à gesta medieval, passando pelos batuques das senzalas e pelos encantados da mata branca, refúgio dos barbatões e dos mistérios que a noite ora esconde ora revela, Leandro construiu uma teia poética que envolveu gentes e sentimentos, arte e afeto, vida e poesia.

Meu primeiro contato com sua obra se deu com a História de Juvenal e o Dragão, garimpado de uma gaveta de armário rústico na casa de minha avó Luzia, na Ponta da Serra, sertão carrascoso da Bahia. De tanto ler a saga de Juvenal que, auxiliado por três cachorros, Rompe-Ferro, Ventania e Provedor, vence um dragão devorador, aos sete anos já a sabia de cor, do primeiro (“Quem ler essa história toda”) ao último verso (“Voaram e se foram embora”). O que eu não entendia, na época, era como este poeta, desprezado pela obtusidade das igrejas literárias, estava tão vivo na mentalidade sertaneja.

O cachorro que guardava a casa de meus avós paternos chamava-se Provedor, homenagem clara a um dos auxiliares mágicos do herói Juvenal. O protagonista também é muito lembrado pelo povo, batizando muitos meninos dos sertões de vários estados. Um primo de minha mãe, casado com outra prima nossa, Lucivande, Renato, recebeu de meu pai o inusitado apelido de Conde Aragão, extraído do romance Os Sofrimentos de Alzira. A história de Alzira, vale lembrar, é uma versão da famosa Imperatriz Porcina, que já foi Crescência, Florência e Hildegarda, e está nas páginas do Tuti-Namé persa e no ciclo medieval dos Miracles de La Vierge. Juvenal, por outro lado, é a versão sertaneja de Perseu, de São Jorge e de Tristão. Leandro, como se vê por estes poucos exemplos, era um poeta universal.

Nascido a 19 de novembro de 1865, portanto há 150 anos, Leandro vive na memória afetiva de muitos leitores e nas páginas de centenas de cordéis, lidos e relidos até em outras artes, do teatro ao cinema, nos campos sem cerca do imaginário.

 
Selo comemorativo criado por Jô Oliveira.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

150 anos de Leandro Gomes de Barros, o Primeiro sem Segundo

Homenagem de Jô Oliveira ao "Pai do Cordel Brasileiro"

Alguém é capaz de explicar como autores incensados em seu tempo, aplaudidos por um exército de sabujos, detentores de muitas láureas, hoje estão completamente esquecidos? Se conseguir, também explique como Leandro Gomes de Barros, poeta e editor nordestino, que enveredou pelas trilhas da literatura de cordel ainda não completamente definidas, morto em 1918, ou seja, há quase cem anos, mereceu de um público sempre renovado a imortalidade literária.

Nascido em 1865 no sítio Melancia, no município paraibano de Pombal, Leandro é, ao mesmo tempo, o grande desbravador da seara do cordel e sua melhor tradução. Não foi o primeiro a escrever e a publicar obras no gênero, mas, a partir dos temas explorados por ele e por seu conterrâneo Silvino Pirauá, dezessete anos mais velho, o cordel editado no Brasil achou o seu rumo. 

Sua obra abrangia desde os livros do povo, trazidos pelo colonizador luso, em versões fiéis ou recriações, a poemas que destacavam a gesta do gado, como a História do Boi Misterioso, ou relatos lendários, como o impressionante romance O Cachorro dos Mortos. Esta trajetória singular está bem esmiuçada na biografia do artista escrita pelo cordelista e admirador Arievado Viana, Leandro Gomes de Barros Vida e Obra (produção conjunta da editora Queima-Bucha e do Sintaf de Fortaleza).

Leandro inspirou grandes artistas, a exemplo de Ariano Suassuna, que, de duas obras suas inspiradas em contos tradicionais, O Dinheiro e O Cavalo que Defecava Dinheiro, além do poema de cunho religioso O Castigo da Soberba, de Silvino Pirauá, extraiu os motivos para a sua peça mais célebre, Auto da Compadecida. Inspirou outros cordelistas, apontando-lhes o caminho com suas obras consagradas por um público sempre ávido por histórias de temáticas variadas.
Leandro em linoleogravura de Jô Oliveira

Leandro, no entanto, tem brilho próprio e basta a leitura de seus textos mais célebres para entender o porquê de ele ainda ser lido, imitado, mas nunca igualado, ao passo que muitos de seus contemporâneos mergulharam nas águas do Lete para delas não mais emergir. 

A professora Ione Severo, de Pombal, pesquisadora do cordel e admiradora do poeta, prepara uma homenagem à altura de seu talento. Poetas, estudiosos e ilustradores da literatura de cordel se reunirão no berço do autor de Os Sofrimentos de Alzira e Cancão de Fogo para celebrar a passagem dos 150 de nascimento daquele que, quando vivo e mesmo depois de seu encantamento, foi cognominado, com justiça, O Primeiro Sem Segundo.




sábado, 23 de junho de 2012

Leandro Gomes de Barros e Rouxinol do Rinaré inauguram nova série na Nova Alexandria

A nova série de livros infantojuvenis da Editora Nova Alexandria traz, como títulos inaugurais, dois clássicos da literatura de cordel brasileira: a História de Juvenal e o Dragão, do pioneiro Leandro Gomes de Barros, e O Guarda-Floresta e o Capitão de Ladrões, do poeta contemporâneo Rouxinol do Rinaré. Os dois trabalhos trazem ilustrações em cores  de Eduardo Azevedo.

Mais informações abaixo:
História de Juvenal e o dragão

Escrita por Leandro Gomes de Barros, no início do século XX, a História de Juvenal e o dragão tornou-se modelo de narrativas posteriores, como João Terrível e o dragão vermelho, de Antônio Alves da Silva, João Corajoso e o dragão de três cabeças, de Joaquim Batista de Sena, e João Acaba-Mundo e a serpente negra, de Minelvino Francisco Silva. Alguns versos do romance de Leandro tornaram-se coletivos, a exemplo de “Quando foi no outro dia”, “Como um raio abrasador” etc. e são encontrados em outras narrativas do cordel. 

A princípio, a inspiração do poeta parece vir do conto Henrique e os três cães, da coletânea de Figueiredo Pimentel, Contos da Carochinha, publicada pela primeira vez em 1896. As raízes do conto, no entanto, são muito antigas e estão presentes no mito de Perseu e Andrômeda e em outras narrativas mitológicas, como exemplifico abaixo. O dragão é, segundo Vladímir Propp, “uma das figuras mais complexas e mais enigmáticas do folclore e das religiões do globo”. Na mitologia grega, é o adversário — derrotado — de heróis como Hércules e Jasão. Ainda na Grécia, Apolo mata a serpente Piton e, no Egito, Hórus, filho de Osíris, derrota Tifon, assassino de seu pai. Alguns mitólogos e estudiosos do folclore interpretam a derrota do dragão por estas divindades como a vitória da luz contra as trevas, isto é, do dia contra a noite. Vale lembrar que, em seus países, Apolo e Hórus eram deuses solares. Daí viriam expressões como “boca da noite”, conservada pela memória popular. 

O mesmo Propp, analisando nos contos tradicionais russos o motivo dos tributos do dragão, descreve uma situação bem próxima à narrada por Leandro: “o herói chega um país estrangeiro, vê ‘todas’ as pessoas tão tristes, e de eventuais transeuntes fica sabendo que todos os anos (todos os meses) o dragão exige como tributo uma jovem, e que agora é a vez da filha do rei”. A lenda de São Jorge deriva também deste motivo universalmente difundido.   A palavra dragão vem do grego draco e significa “serpente”. Esta palavra aparece quatro vezes na História de Juvenal e o dragão, a exemplo desta estrofe:   

O moço era destemido,  
Com seu cachorro valente,  
Eles dois incorporados,  
Lutando com a serpente.  
Juvenal no ferro frio  
E o cão fiel pelo dente.   

Aparecem ainda no romance os auxiliares mágicos do herói, representados por três cachorros, e o impostor que, fazendo-se se passar pelo vencedor do dragão, reivindica a mão da princesa.   A publicação deste clássico da literatura de cordel brasileira, enriquecido com ilustrações e vinhetas de Eduardo Azevedo, é uma homenagem que a editora Nova Alexandria, que publica a premiada coleção Clássicos em Cordel, presta a Leandro Gomes de Barros, herói desbravador da seara da poesia popular, homenageado e aplaudido por nomes como Mário de Andrade, Ariano Suassuna e Carlos Drummond de Andrade.

O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões

Rouxinol do Rinaré integra a geração de cordelistas surgida na última década do século passado, responsável pelo ressurgimento do gênero romance na poesia popular. Por romance, os autores de cordel definem as narrativas de fôlego, inspiradas na tradição oral ou criadas pelos artesãos do verso. Alguns cordéis desse gênero têm 16 páginas, a exemplo dos clássicos Romance da princesa do Reino do Mar Sem Fim, de Severino Borges, e Romance de João Cambadinho e a princesa do Reino de Mira-Mar, de Inácio Carioca. Desde Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), o popularizador da tradição dos romances autorais no cordel, passando por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o grande sistematizador e responsável pelo início da editoração profissional, o romance tornou-se o gênero nobre dentre os poetas do povo.

O Guarda-Florestas e o Capitão de Ladrões, publicado originalmente em folheto pela Tupynanquim Editora, em 2006, é uma homenagem que Rouxinol presta aos mestres do cordel, em especial ao pernambucano Delarme Monteiro da Silva (1918-1994), sua principal referência. A história é uma versão poética do conto homônimo lido em uma coletânea chamada Pérolas esparsas, sem indicação de autoria, ainda na infância, passada na zona rural de Quixadá, sertão cearense. O enredo gira em torno da atuação de Frede, um Guarda-Florestas implacável no cumprimento de seu dever, conforme lemos nesta estrofe:

Num certo reino da Prússia,
Há muito tempo passado,
Residia um cidadão
Num bosque bem afastado,
Tendo a missão de guardar
As florestas do reinado.

Seu principal inimigo  é o Capitão de Ladrões, a quem persegue obstinadamente:

O Capitão de Ladrões,
Como era conhecido,
Atacava com as sombras,
Passava o dia escondido.
Tornou-se questão de honra
Capturar o bandido.

Há ainda outros personagens, como Hilda, esposa de Frede, que desempenhará um papel fundamental nos momentos de maior tensão do romance. À maneira de muitos contos populares, encontramos, nesta obra, o drama da queda — simbolizado pela atitude do ladrão — e da redenção, quando este, enfim, resolve dar um novo sentido à sua existência. No cordel, há similares na História de Roberto do Diabo, de Leandro Gomes de Barros, e em Dimas, o Bom Ladrão, cuja autoria é atribuída a Francisco das Chagas Batista. Rouxinol do Rinaré, portanto, revisita a tradição dos grandes autores, sem perder a originalidade característica de seus versos, que estão entre os melhores de quanto já se publicou na literatura de cordel do Brasil.


Mais informações: novaalexandria@novaalexandria.com.br

sábado, 21 de maio de 2011

Clássico do Cordel em quadrinhos


Uma das obras-primas da literatura de cordel, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros, ganhou uma versão em quadrinhos assinada por Klévisson Viana e Eduardo Oliveira. A boa nova veio do blog Acorda Cordel, de Arievaldo Viana. A HQ da dupla conquistou o prêmio Luiz Sá de Quadrinhos, promovido pela SECULT-CE.

Abaixo, reproduzo o texto da Apresentação, que tenho a honra de assinar:

A versão em quadrinhos do clássico cordel brasileiro,  A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, é especial por vários motivos. Primeiro porque une o talento do fundador da literatura de cordel no Brasil, Leandro Gomes de Barros, ao dos consagrados ilustradores Klévisson Viana, também poeta e editor, e Eduardo Azevedo. Segundo porque apresenta às novas gerações, em um formato mais do que atraente, um dos melhores textos poéticos daquele que, no cordel, foi cognominado o Primeiro sem Segundo. Os demais motivos estão explicitados nos próximos parágrafos.

Leandro Gomes de Barros, ao reescrever em versos episódios significativos da História de Carlos Magno e dos Doze pares de França, inaugurou, na poesia popular, o gênero épico. Composta em décimas de sete sílabas, A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e a continuação A Prisão de Oliveiros têm um ancestral remoto: a canção de gesta francesa do século XII, chamada Fierabras. Pertence, como a anterior Canção de Rolando, ao chamado Ciclo Carolíngio. Nela, pela primeira vez aparece Ferrabrás filho do emir Balan (o almirante Balão do romance leandrino), governante da Espanha muçulmana. Na Espanha, surgiu, com título ampliado, uma tradução de 1525: Historia del Emperador Carlomagno y de los Doce Pares de Francia: e de la  Cruda Batallha que Hubo Oliveiros con Ferrabrás, Rey de Alexandria, Hijo del Grande Almirante  Balán. A tradução portuguesa, levada a cabo por Jerônimo Moreira de Carvalho, a mesma que circularia pelos sertões do Brasil por mais de dois séculos, é de 1728.
A velha canção de gesta narra como, liderando as hordas da Turquia, Ferrabrás e seu pai saqueiam Roma e se apropriam de relíquias da Igreja de São Pedro: a coroa de espinhos de Cristo, os cravos e uma inscrição da Cruz, além do óleo usado para untar o corpo de Nosso Senhor. Este episódio aparece no folheto de Leandro, narrado por um dos guerreiros franceses, Ricarte da Normandia, com a ação deslocada para Jerusalém:
Aquele foi quem entrou
Dentro de Jerusalém.
Não respeitando ninguém,
Até apóstolos matou,
No templo sagrado achou
Bálsamo que Deus foi ungido,
Coisas que tinham servido
Na paixão do Redentor,
A coroa do Senhor,
Tudo ele tem conduzido.
Carlos Magno e seus paladinos dão combate aos invasores, mas não impedem a destruição da cidade. De volta à Península Ibérica Ferrabrás, gigante bravateador, desafia os paladinos franceses para um duelo singular. Diante da recusa destes, Carlos Magno se enfurece e ofende o maior dos heróis da França, seu  sobrinho Roldão. Oliveiros, companheiro de todas as horas de Roldão, mesmo ferido, apresenta-se para o combate. A princípio faz passar-se por Guarim, seu escudeiro, mas Ferrabrás, desconfiado, descobre tratar-se de um nobre e, durante a batalha, mais de uma vez, mostra-se cortês, de acordo com as leis da cavalaria. Notando o estado em que se encontrava o oponente, Ferrabrás oferece-lhe um bálsamo capaz de curar todas as feridas, mas Oliveiros, orgulhoso, recusa. Só aceita servir-se de bálsamo, quando o toma pela espada.
A Batalha na cultura popular

Nas cavalhadas, uma das mais belas manifestações da cultura popular brasileira, resta, diluída, a lembrança dos embates entre mouros (turcos) e cristãos. Em Serra do Ramalho, na Bahia, na véspera de São João, ocorre uma encenação a céu aberto, que reconta a saga do imperador cristão Carlos Magno em guerra com o almirante Balão. Esta modalidade é a cavalhada teatral, que mescla a encenação à demonstração de habilidades dos cavaleiros, lembrando as justas (torneios medievais). Em outras cidades do Brasil, a exemplo de Divinópolis, Goiás, a cavalhada é atração turística. Durante a encenação, os paladinos cristãos, trajados de azul, combatem os mouros, que vestem encarnado. Geralmente, o auto é encerrado com a conversão dos mouros ao Cristianismo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Auto da Compadecida e a literatura de cordel


Foi num folheto de gracejo que Ariano Suassuna encontrou o personagem-símbolo de sua dramaturgia. As Proezas de João Grilo (ver trecho abaixo), história escrita em 1932 por João Ferreira de Lima, trazia como protagonista o célebre amarelinho oriundo dos contos populares portugueses, que, no processo de aculturação, ganhou características idênticas às de outro famoso espertalhão de origem ibérica: Pedro Malazarte. Esse mesmo João Grilo será reaproveitado no Auto da Compadecida, transformado em filme em 2000 por Guel Arraes, com Mateus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Melo (Chicó) nos papéis principais.

João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria,
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

(...)

Na noite que João nasceu,
houve um eclipse na lua,
e detonou um vulcão,
que ainda continua.
Naquela noite correu
um lobisomem na rua.

(...)



Entretanto, a Compadecida se baseia em três folhetos distintos, dois deles escritos por Leandro Gomes de Barros. O primeiro é O Cavalo que Defecava Dinheiro, que mostra como um finório consegue lograr um duque invejoso convencendo-o de que um cavalo é realmente capaz de obrar (sem trocadilho) o prodígio do título. Obviamente quem assistiu à peça ou à uma de suas versões para o cinema, sabe que o cavalo foi transmutado num gato, por motivos mais que compreensíveis. O outro poema de Leandro reaproveitado por Suassuna é O Dinheiro (O Testamento do Cachorro), onde aparecem as figuras do padre e do bispo. A autoria de Leandro é inquestionável, embora a origem dos motivos que compõem a estória seja mais difícil de rastrear. O próprio Ariano reconhece essa dificuldade quando afirma: “- a história do testamento do cachorro, que aparece no Auto da Compadecida, é um conto popular de origem moura e passado, com os árabes, do Norte da África para a Península Ibérica, de onde emigrou para o Nordeste”.

Além destes dois poemas de caráter marcadamente cômico, o Auto propriamente dito – a última parte – tem por base o folheto O Castigo da Soberba, de autoria desconhecida, embrora alguns atribuam-na a Silvino Pirauá de Lima. A história tem a marcante presença do imaginário medieval que impregna a obra de Gil Vicente, outra evidente fonte de Suassuna. Maria (Nossa Senhora) é a advogada. Jesus o Juiz, e o Diabo o acusador. É a Nossa Senhora – a “advogada nossa” da oração Salve Rainha – que a alma recorre, em vista da iminente condenação. Evocada em nome de seu bendito filho, ela responde à súplica da alma. No final, após ouvir acusação e defesa, Jesus – no folheto também chamado Manuel – decide pela salvação da alma. O Diabo (Cão), vencido, chama os seus comandados. A estrofe abaixo reproduzida, com a última fala do tinhoso, está bem próxima do desfecho do Auto da Compadecida:

Vamos todos nós embora
Que o causo não é o primeiro,
E o pior é que também
Não será o derradeiro...
Home que a mulher domina
Não pode ser justiceiro.

Os três folhetos, diga-se de passagem, foram coligidos por Leonardo Mota no livro Violeiros do Norte. Indiretamente, este pesquisador cearense, ao reunir as três obras em seu precioso estudo, apontou o caminho que Ariano Suassuna deveria seguir, mesmo apoiando-se em outras tradições populares – especialmente o Bumba-meu-boi, onde os personagens Mateus e Bastião cumprem um papel semelhante ao de João Grilo e Chicó na Compadecida.





João Grilo marcou presença em outros folhetos de cordel, com destaque para O Professor Sabe-Tudo e as Respostas de João Grilo (de Klévisson Viana), A Professora Indecente e as Respostas de João Grilo (de Arievaldo Viana, João Grilo, um presepeiro no palácio (de Pedro Monteiro) e Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo (de Marco Haurélio). O sucesso do Auto da Compadecida no cinema parece ter motivado o diretor Moacyr Góes a filmar O Homem que desafiou o Diabo (2007), baseado no livro As Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, que, por sua vez, parte de folhetos de cordel do ciclo do Demônio Logrado.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Chagas Baptista, autor de Leandro


Os amigos Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista, pioneiros da Literatura de Cordel brasileira.


Interessante artigo da professora Vilma Mota Quintela, publicado na revista Cultura Crítica, da APROPUC-SP, de 09.03.09


Para nos aproximarmos de um autor, nada melhor do que conhecermos sua obra. Posto isso, inicio este artigo comentando a antologia Cantadores e poetas populares, publicada em 1929, na capital da Paraíba, sob o selo da Popular Editora, de propriedade de Francisco das Chagas Batista. Nesse trabalho, o autor-editor paraibano apresenta o que considera "a melhor parte" da poesia popular nordestina, relacionando, em notas breves, os cantadores e poetas de ofício mais representativos dessa produção, do seu ponto de vista. Essa foi, sem dúvida, a primeira obra com intenções eruditas a destacar a presença de Leandro Gomes de Barros no contexto da produção poética nordestina, tendo como pressuposto a autonomia da literatura de cordel em relação à cantoria2. É, de fato, significativo que esse livro tenha sido, inteiramente, produzido no âmbito do cordel, tendo como autor e editor um de seus principais representantes no período. Tomando como ponto de partida a fala inicial ao leitor, cumpre aqui destacar essa obra como representativa de uma postura em certa medida diferenciada em relação ao conjunto do que havia sido produzido sobre o assunto até então:

Notando que os illustres escriptores Drs. Gustavo Barroso, Leonardo Motta e Rodrigues de Carvalho deixaram de incluir nos seus livros: "Ao som da viola ", " Cantadores", "Violeiros do Norte" e "Cancioneiro do Norte", a maior e melhor parte dos versos dos poetas populares do nordeste, vivos e já fallecidos, venho reuni-los nesta Anthologia Regional, no intuito de prestar uma justa homenagem a poetas obscuros e desconhecidos dos nossos estudiosos historiadores nordestinos (Chagas Baptista, 1929: 1).

Como é possível observar, explicita-se, no enunciado, o gesto do autor no sentido de ampliar e reorientar a produção sobre o assunto, introduzindo esses poetas, para usar sua expressão, obscuros. Com isso, por um lado, Chagas Batista inscreve o seu posicionamento nesse campo, já ocupado pelas autoridades por ele mencionadas dentre outras, surgidas no contexto do projeto etnográfico que ganhou expressão, no Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, no sentido da definição do que seria a cultura popular nacional3. Contudo, ao se colocar nesse campo, Chagas Batista põe em prática valores e escolhas que nem sempre se coadunam com as posições aí dominantes. Ele fala, não como as autoridades que nomeia, mas, antes, como um autodidata inserido na cultura que ele também concebe como regional e, como denota o título da antologia, popular. Mais que uma contribuição ao folclore, tal investida representa o posicionamento do autor pela institucionalização, ou seja, pelo reconhecimento dessa cultura no âmbito das práticas consideradas cultas. Ao configurar um diálogo com a tríade que antecedeu o escritor Câmara Cascudo na pesquisa, no registro e no estudo da cantoria no século XX, o autor autodenominado popular transita no campo da erudição, apropriando-se dos meios para instaurar uma postura, de certa forma, concorrente. A propósito, para melhor representar o lugar de onde Chagas Baptista enuncia e o contexto que possibilitou seu posicionamento como autor, vale abrir um parêntese para uma breve nota biográfica.

Sobre Chagas Batista, o primeiro dado a se ressaltar é, sem dúvida, a sua descendência de uma família de cantadores e glosadores que fizeram fama na Serra do Teixeira, situada no Planalto da Borborema, zona sertaneja paraibana, onde surgiu uma geração que ajudou a definir o código da cantoria clássica. A propósito, era neto do glosador Agostinho Nunes da Costa (1797-1858), e sobrinho dos cantadores Ugolino (1832-1895) e Nicandro Nunes da Costa (1828-1918), ícones dessa geração, que ele acabou por consagrar em seu livro. Vale lembrar: a literatura de cordel, que se define, do ponto de vista lingüístico, como um gênero de discurso narrativo em versos, deve suas formas poéticas básicas à cantoria, o que, por um lado, justifica sua grande penetração no sertão e arredores, onde se localizou, durante muito tempo, seu público mais coeso. Cumpre, também, dizer que, sem exceção, todos os autores que participaram do momento de formação do sistema editorial do cordel descendem desse meio cultural, de onde, também, vieram, em grande parte, os autores responsáveis por sua continuidade no decorrer do século XX. É o caso, por exemplo, de Leandro Gomes de Barros, que se mudou para o Teixeira por volta dos quinze anos de idade, onde permaneceu até migrar, provavelmente, no final da década de 1880, para a comercial Vitória de Santo Antão, indo, em seguida, para Jaboatão e, finalmente, para Recife4.
Entre os poetas que, de alguma forma, podem ser incluídos nesse momento inicial, que corresponde, mais ou menos, às duas primeiras décadas do século XX, há de se mencionar, ainda, Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), José Galdino da Silva Duda (1866-1931), ambos contemporâneos da geração do Teixeira, e Melchíades Ferreira da Silva (1869-1933), que tem em comum com Silvino e José Duda o fato de ter se destacado, em seu tempo, como cantador5. No caso, os vínculos do poeta de ofício com essa cultura oral condiciona a padronização de um código discursivo diferenciado, que vem a atender, especialmente, as injunções da comunicação verbal nesse âmbito, tornando possível a formação de um público consumidor também diferenciado no campo da produção cultural impressa local.

Além da origem cultural desses poetas, há outro fato que torna possível Chagas Batista e seus contemporâneos existirem como autores, qual seja, a migração6. Se, por um lado, as relações desses poetas sertanejos com a cantoria são decisivas ao cordel (na medida em que lhes faculta a seleção de um código poético com ela identificado, que possibilita a assimilação do cordel nesse meio), sua migração da zona sertaneja agrária para os centros locais da produção cultural impressa, por outro lado, apresenta-se como condição de possibilidade da transformação desses poetas em autores. Quanto a isso, temos, no caso específico de Chagas Batista, que, em 1900, com dezoito anos, o autor transmigra do Teixeira para Campina Grande, uma das principais cidades da Paraíba, do ponto de vista econômico. Lá ou em Alagoa Grande (onde trabalhou como operário na rede ferroviária que se estabelecia entre o litoral e o sertão, como uma conseqüência do desenvolvimento comercial observado em determinadas áreas nordestinas), teria chegado a freqüentar a escola noturna. Em 1902, começou a viver como ambulante, editando e fazendo circular o primeiro folheto de sua autoria, Saudades do Sertão. Fez, também, já nessa época, incursões no campo da poesia lírica, tendo produzido poemas esparsos, alguns publicados em jornais. Já em 1905, um artigo veiculado no jornal O Combate registra o contato do autor com pessoas ligadas ao metiê do publicismo paraibano:

Escolhi para assunto destas linhas um pobre sertanejo que, não há muito tempo, andou aqui em diversos lugares do interior, vendendo uns folhetinhos de versos que apenas traduziam a força de vontade de seu espírito de moço desejoso de instruir-se e ávido de um futuro mais sorridente e feliz. Pobre agricultor, nascido nas encostas da Borborema, sem nenhum conhecimento literário, sem meios que o melhor recomendassem, escrevia contudo algumas quadrinhas que, embora sem arte e incorretas, deixavam transparecer pálidos reflexos de sua inteligência prometedora. Deixou a vida campestre e procurou a capital do seu Estado, onde publicou alguns fascículos de poesias, tratando porém de assuntos tão baixos que ninguém deu-lhe a mínima importância, a não ser um moço generoso de nosso meio que (...) deu-lhe uns brados de avante. Vagando pelas ruas, rogando a um e a outro que lhe comprassem seus versos, para adquirir recursos para estudar, disse-me ele, nenhum apoio encontrou em sua terra, o pobre boêmio (Chagas Batista, 1977: 2)

Esse artigo, assinado por "M. M", permite flagrar um acontecimento relacionado ao fenômeno da migração, que foi decisivo para a instituição dessa categoria de autor, ou seja, o encontro do poeta sertanejo com a imprensa. Penetrar nos domínios da imprensa popular, pulsante na capital e em certas cidades do interior da Paraíba e de Pernambuco, foi, no caso de Chagas Batista, condição de possibilidade do advento do autor por dois motivos principais. Em primeiro lugar, o acesso às tipografias (multiplicadas com a popularização do jornal observada na segunda metade do século XIX, nessas cidades) possibilitou a publicação de sua primeira obra, com a venda da qual ele pôde iniciar sua bem sucedida trajetória. Em segundo lugar, o diálogo com a imprensa permitiu sua integração, ainda que marginalmente, ao debate cultural que se instituía na esfera citadina, e, com isso, dar um passo a favor da legitimação de seu ofício.

Visto por outro ângulo, o excerto acima permite vislumbrar a tensão produzida, nesse encontro, entre duas forças culturais concorrentes. Essa tensão se expressa, sem rodeios, no ponto de vista do articulista, que se coloca como o homem culto, isto é, para recorrer a uma expressão gramsciana, no campo da atividade cultural hegemônica, ao apresentar o poeta sertanejo como seu outro cultural. Refere-se a ele como uma ave rara no contexto arcaico que definia o sertão agrário no período em que se formou a literatura de cordel no Brasil. É o ponto de vista do citadino, numa época em que o fenômeno da seca e a estagnação econômica no extremo interior fizeram partir milhares de sertanejos, seja em direção ao Norte, para atender à demanda dos seringais, seja em direção ao Sudeste, onde se concentrava o desenvolvimento industrial. A esse respeito, a propósito, em estudo sobre o cangaceirismo e o fanatismo nesse período, Rui Facó informa como a cultura dos seringais na Amazônia, tornando-se o principal pólo de atração dos sertanejos nordestinos, representou um fator importante para o desenvolvimento comercial do alto Nordeste:

Embora pareça paradoxal, a ruptura da estagnação se inicia com o êxodo em massa de imigrantes nordestinos, inicialmente para a Amazônia, mais tarde para São Paulo. É o fenômeno mais progressista que ocorre nos sertões do Nordeste nesse período.
E, mais adiante:

A Amazônia continuava a atrair como miragem os pobres sertanejos nordestinos, que iam morrer de febre em suas florestas exuberantes, nos seringais que alimentavam nababos a estadear riquezas em Manaus, Belém, nas capitais da Europa... Em 1900, abandonam o Ceará 40 000 vítimas da seca. Ainda em 1915, de cerca de 40 mil emigrantes que saem pelo porto de Fortaleza, enquanto 8 500 tomam o destino do Sul, 30 mil se dirigem pelo caminho habitual, o do Norte.

No entanto, Chagas Batista e seus colegas de ofício em atividade no momento da formação do cordel pertenceram a uma minoria, entre esses sertanejos, que tomou outra direção. Não de todo desprovidos de recursos financeiros e de letramento, eles migraram para os centros comerciais nordestinos mais próximos, encontrando, na edição de folhetos, um modo de sobrevivência e, em alguns casos, de ascensão social. Em contrapartida, o investimento desses poetas no mercado do folheto possibilitou a constituição de um público de leitores na zona sertaneja oralizada, bem como o surgimento de novos valores, necessários à sua continuidade. Unidos por um código poético estrito, herdado da cantoria, esse público de leitores-ouvintes deu sustentação a um mercado literário que se expandiu, a partir daí, em direção ao Norte e, posteriormente, ao Sul, seguindo o movimento migratório.

De qualquer modo, esse artigo sobre o jovem Chagas Batista representa muito bem as condições de luta sob as quais se instituiu esse ofício, expressando o olhar de uma certa elite romântica, a um só tempo condescendente e distanciado, sobre o poeta sertanejo. A esse respeito, vale destacar a idéia do poeta como uma espécie de missionário sobrevivente da cena de pobreza e desolação que traduzia o sertão na perspectiva do citadino: "(...) o pobre sertanejo era ávido de saber, queria conhecer os segredos da ciência literária, era um sonhador, um iludido enfim, cria no futuro! Por isso o melhor qualificativo que teve em nossa terra foi o de louco". O articulista, que não ousa revelar o nome, embora pareça não compreender bem o contexto poético em que se inscreve o poeta sertanejo, não perde a oportunidade de enaltecê-lo como um pobre porta-voz da civilização no cenário do atraso.
De certa maneira, essa aparição de Chagas Batista na imprensa não deixa de servir como um indicativo do posicionamento que viria a caracterizar sua presença nesse momento de formação do cordel. De fato, em sua época, talvez tenha sido ele o autor de folhetos que esteve mais próximo do debate com certa elite letrada, estabelecida nas cidades nordestinas mais progressistas da época, a exemplo da Paraíba (hoje, João Pessoa) e do Recife. O diálogo explícito que manteve com a cultura letrada fica aliás patente em sua antologia, acima referida, e nas obras líricas e paródicas por ele publicadas, expressando-se, também, em sua produção de folhetos7. No contexto da literatura de cordel, aparecem como obras de sua autoria, por exemplo, A escrava Isaura, uma versão em sextilhas do romance homônimo; O triunfo do amor, versão baseada no clássico Quo Vadis?; A história de Esmeraldina ou Traição, Vingança e Perdão, baseadas em narrativa do Decameron. Importa ressaltar, quanto ao Cantadores e poetas populares do Nordeste, publicado em 1929, que esse livro, praticamente desconhecido até, mais ou menos, a década de 1960, tem, no mínimo, o mérito de introduzir Leandro Gomes de Barros no cenário da cultura brasileira, definindo-o como paradigma de um sistema literário à parte. Ao assim situá-lo, Chagas Batista o introduz em um contexto cultural bem mais amplo que o espaço restrito do folheto nordestino na época em questão. Eis o julgamento do autor, a respeito de seu contemporâneo:

Foi fundador da popular literatura poética de cordel no Nordeste. Escreveu cerca de mil folhetos de versos populares, tendo tirado dos mesmos mais de dez mil edições. Leandro manejava a sua veia poética com fantástica facilidade. Foi um escriptor que viveu exclusivamente de sua penna - caso raro no Brasil (Chagas Baptista, 1929: 114).

Esse gesto resulta significativo, não apenas por ter sido o antologista o primeiro a apontar Leandro como fundador em um contexto cultural, por ele, denominado popular, o que é digno de nota, mas, sobretudo, pelo estatuto concedido ao poeta, que ele reconhece como escritor. Desse modo, ao atribuir a Leandro o status do fundador de um sistema literário específico, o qual ele, como autor-editor, também, integra, Chagas Batista inscreve o lugar do cordel no âmbito da cultura impressa brasileira. Até então, de uma maneira geral, os folcloristas que informaram sobre a cantoria ainda não tinham assinalado o cordel como um sistema editorial à parte. Sílvio Romero, que falou da existência de uma literatura de cordel presente em várias partes do Brasil no penúltimo decênio do século XIX, refere-se, provavelmente, à literatura importada da Europa, já nessa época, reeditada no Brasil e vendida, no mercado ambulante, junto com outras modalidades de produção impressa destinada ao vulgo8. No geral, no conjunto do que se publicou sobre a produção poética sertaneja entre o começo do século XX, quando o sistema editorial do cordel está em formação, e a década de 1930, quando ele já havia se consolidado no Nordeste, poucas vezes essa literatura ambulante foi identificada como um sistema cultural específico. O quase desconhecimento em torno do cordel explicita-se nos estudos dos folcloristas que primeiro trataram da cantoria no âmbito da erudição. Por exemplo, Leonardo Mota, em Cantadores, de 19219, toma um texto publicado em folheto por Leandro Gomes de Barros em 191010, onde se representa a disputa poética entre Francisco Romano e Inácio da Catingueira, que teria ocorrido em 187411, como a reprodução de uma peleja autêntica12. Câmara Cascudo, em Vaqueiros e cantadores, já em 1939, distingue a produção do cordel como uma modalidade da poesia sertaneja, sem, no entanto, atentar para a especificidade do seu campo de produção.

Ao marcar, em seu livro, a posição de Leandro como fundador da "popular literatura poética de cordel", Chagas Batista, de certa forma, vem a autenticar o estatuto do autor de folhetos no âmbito do discurso letrado. Note-se não é delineado o ponto de vista do folclorista que registra um fenômeno regional, mas a perspectiva de alguém que dispõe, criticamente, o lugar de Leandro tendo em vista um contexto cultural mais amplo. O seu julgamento sobre o colega falecido ressalta sua postura como editor. Há de se chamar a atenção ao aspecto privilegiado por Chagas Batista para traduzir a importância do biografado. É Leandro, antes de mais nada, alguém que "viveu exclusivamente de sua pena", isto é, literalmente, um profissional das letras, egresso da zona da cantoria. É precisamente esse dado que importa ressaltar, no que se refere à antologia Cantadores e poetas populares, de Chagas Batista. Nesse sentido, podemos dizer que essa obra se situa num lugar estratégico, na medida em que representa um marco da consciência do cordel como um ofício poético, do qual viveram poetas como Francisco das Chagas Batista, que começou a sua empresa editora com a venda ambulante de folhetos. Além disso, cumpre assinalar: o autor dá conta dessa atividade como algo que constitui um mercado, no caso, um mercado literário específico. Como o autor representa, em sua antologia, o sistema que ajudou a instituir, podemos distinguir Francisco das Chagas Batista como "Poeta Fundador".


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1-O título deste artigo é uma referência ao texto " Pierre Ménard, Autor do Quixote" de jorge Luis Borges
2-A "cantoria" pode ser definida como um sistema poético musical, desenvolvido no sertão nordestino e caracterizado por um código poético estrito. Não se sabe, exatamente, a partir de quando a cantoria teve lugar, no Brasil, mas, provavelmente, ela se apresenta, em dado momento, como uma prática associada ao processo de colonização do extremo interior, possibilitado pela cultura do gado. A cantoria clássica se dá a partir da reunião de dois ou mais cantadores, acompanhados da viola sertaneja ou, mais remotamente, da rabeca. Ocupando lugar secundário na apresentação, o acompanhamento musical serve, basicamente, como suporte aos enunciados poéticos, que se destacam na performance. Nesse sentido, a cantoria compreende tanto a apresentação solada de um cantador que, diante de uma platéia de ouvintes, canta ou recita poemas narrativos de domínio público ou não, quanto o desafio, em parte, improvisado, entre dois cantadores que disputam entre si a hegemonia verbal sobre o outro. Aponta-se a segunda metade do século XIX como uma época de ouro para a cantoria. Em seu trabalho, C. Batista destaca um elenco de cantadores da região sertaneja paraibana que ajudaram a definir o padrão poético da cantoria clássica. A propósito, para um estudo sobre a cantoria e suas formas poéticas, ver, entre outras referências, BATISTA, 1982, CAMARA CASCUDO, 1986, e RAMALHO, 2000 e 2001.

3- Nesse contexto, há de se destacar a presença polêmica de Sílvio Romero, que, influenciado pelo positivismo, procurou, pela primeira vez, submeter a matéria a uma abordagem científica. A propósito, ver Leite, 1992, e Mota, 1994.

4- A respeito da origem social de Leandro, informa-se que o poeta viveu, até os 15 anos de idade, em Pombal (PB), onde foi adotado por uma família de pequenos proprietários, da qual descende o Padre Vicente Xavier de Farias, que gozou de certa influência social no Teixeira, onde exerceu longos anos de sacerdócio. A propósito, informa Pedro Nunes Filho: "Leandro Gomes de Barros nasceu em 1865, na Fazenda Melancia, município de Pombal, Estado da Paraíba. A Fazenda pertencia aos trisavós do autor desta nota, Manuel Xavier de Farias e sua mulher Dona Antônia Xavier de Farias, por quem Leandro foi criado. Manuel e Antônia eram pais do Padre Vicente Xavier de Farias, que nasceu na mesma fazenda, em 1822. Ordenado sacerdote, aos 24 anos de idade mudou-se para o Teixeira em 1846, tendo permanecido ali durante 61 anos. Faleceu em 13 de dezembro de 1907, com 85 anos de idade. Em 1880, os pais do Pe Vicente mudaram-se para o Teixeira, vindo em sua companhia o grande e talentoso Leandro, aos 15 anos de idade." In: http://www.secrel.com.br/jpoesia/@pn01.html. Sobre Leandro, ver, entre outras referências, Chagas Baptista, 1929; Wanderley, 1954; Batista, 1971; Almeida e Alves Sobrinho, 1978; e Terra, 1983.

5- Dentre os autores que se destacaram no contexto do cordel nordestino nessa fase, poderíamos apontar como uma exceção o poeta Pacífico Pacato Cordeiro Manso (1865-1931), que, ao contrário dos demais, todos originários do sertão paraibano, nasceu em Quebrangulo, localidade situada na zona agreste alagoana voltada à produção agropecuária. Esse autor começou a publicar seus folhetos em Maceió. Seus pais, no entanto, emigraram do sertão de Pernambuco, também reconhecido por Cordeiro Manso como terra natal. É o que declara o poeta em Um brado de Pernambuco: qual das pátrias, a minha pátria (Museu do Folclore): "Meus paes são pernambucanos / Do brejo de Madre Deus, / Onde a família Cordeiro, / Tem alli seus apogeus, / Aquelles bons sertanejos / todos são parentes meus." Entre os poetas em atividade nas duas primeiras décadas do século XX, Cordeiro Manso se destaca, basicamente, como um poeta das causas urbanas locais. Escreveu diversos casos de crimes hediondos que se tornaram manchetes nos jornais da capital, como, por exemplo, O Crime de Fernão Velho, que traz na capa três pequenos clichês, representando as personagens envolvidas no caso, indicadas por legendas. Na seqüência, surge o folheto A Morte de Marieta, a prisão do assassino, que noticia a versão mais completa do crime, dada pelos jornais. Já em O tiroteio de Maceió - Zé Povo e os Maltinos, de 1912, folheto que compõe uma série de quatro histórias de inspiração republicana, exacerba-se a veia humorística popular do autor, que narra as cenas grotescas do ataque do bando de Zé Povo aos Maltinos, representantes da oligarquia alagoana na capital. Começa o poeta: "Permittam, caros leitores / Em quatro livros iguaes,/ Descrever alguns successos / Da terra dos Marechaes; / Também de Pedro Paulino / um dos nomes immortaes." Sobre o autor, ver Almeida e Sobrinho, op. cit..

6- Remeto-me, aqui, à noção de autor como uma instituição social decorrente das injunções relacionadas aos modos modernos de produção impressa. Nesse sentido, a função-autor, problematizada por M. Foucault, relaciona-se ao sistema jurídico institucional que condiciona o universo dos discursos, pressupondo um estado de direito que reconhece a responsabilidade penal do autor e o conceito de propriedade literária. A propósito, ver Foucault, 1992, Chartier, 1994, e Edelman, 2004.

7- Leitor autodidata, Chagas Batista teve, como fonte de erudição, além de obras da literatura ambulante de origem portuguesa, publicadas, no Brasil, pela Laemmert, do Rio de Janeiro, desde 1840 (ver Cascudo, 1984), obras que se inserem no contexto da produção literária oficial. Fizeram parte do seu cânon pessoal os autores José de Alencar, Castro Alves, Olavo Bilac, Guerra Junqueiro, Humberto de Campos, Augusto dos Anjos, Tobias Barreto, Rodrigues de Carvalho e Victor Hugo, entre outros. Foi, também, leitor habitual dos jornais de Pernambuco e da Paraíba; das revistas O malho, A careta, Revista da semana e Cosmos, do Rio de Janeiro, e da Revista do Brasil, de São Paulo. Editor livreiro, Chagas Batista vendia em seu estabelecimento comercial livros do folhetinista francês Ponson du Terrail, e dos clássicos portugueses Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e Alexandre Herculano, conforme consta em catálogo da sua livraria. A propósito, ver Terra, op. cit..

8- Ver Romero, 1977 (primeira edição: 1888) e Cascudo, 1984 (primeira edição: 1939). No que diz respeito a publicações populares (isto é, livros brochados, em formato reduzido, a preço acessível, publicados em grandes tiragens, para atender a uma população imersa na oralidade, em geral, pouco letrada), há de se reportar ao caso das edições Quaresma. No cenário da Belle époque carioca, dominado por editoras estrangeiras, tais como a Laemmert, a Garnier e a Francisco Alves, que atendiam, sobretudo, a uma elite cultural e econômica, o brasileiro Pedro Quaresma se estabeleceu, no final da década de 1870, difundindo, a partir do Rio de Janeiro, em várias partes do Brasil, incluindo o Nordeste, uma literatura, em boa parte, feita por encomenda para atender a esse público, então, emergente. O advento dessa editora, em funcionamento até meados do século XX, não deixa de ser um produto do fenômeno da popularização do impresso, no Brasil, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século seguinte, ao qual, necessariamente, o advento do cordel está relacionado. Ver Brito Broca, 1994. Ver, também, Oliveira, 2002.

9- Ver Mota, 1987.

10- Ver Batista, 1929.

11- Ver Otaviano, 1949.

12- Já em 1903, no Cancioneiro do Norte, Rodrigues de Carvalho havia comentado essa mesma disputa, com base em uma outra versão, feita por Hugolino Nunes da Costa (1832-1895), um cantador de Santa Luzia do Sabugi, que se destacou, em seu meio, como um dos intelectuais de seu tempo. A propósito, Hugolino, que conhecia bem o Novo e o Velho Testamento, o Dicionário da Fábula, o Manual Enciclopédico, entre outros, foi, na época, um dos divulgadores do "traslado". Veículo de divulgação da poesia produzida pelos cantadores e glosadores letrados, pelo menos, desde as úlimas décadas do século XVIII, o traslado era um caderno contendo obras manuscritas, que trazia o dorso preso a um laço de fita e, na capa, em letras góticas, o título da obra a ser apresentada. Ver Lima, 1978. Sobre Hugolino ou Ugolino, ver Baptista, 1929, e Cascudo, 1984.


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Vilma Mota Quintela Doutora em Letras, com tese defendida sobre a Literatura de Cordel brasileira, tema ao qual se dedica desde o início da década de 1990.

domingo, 8 de novembro de 2009

Caravana do Cordel: homenagem a Leandro Gomes de Barros

A Caravana do Cordel está consolidada. No encontro do dia 7 último, alunos de três faculdades estiveram presentes, demonstrando o interesse que a poesia popular desperta no meio acadêmico.

O encontro foi marcado pela espontaneidade, pois, como foi enfatizado por João Gomes de Sá, tratava-se de um ensaio para o dia 19 de novembro, Dia do Cordelista.

O próximo encontro será na sede da APEOESP, na Praça da República. Este dia, a Caravana receberá o professor, doutor em Letras, Aderaldo Luciano, que ministrará uma palestra falando sobre o cordel e o seu maior expoente, Leandro Gomes de Barros.

Se o ensaio foi o que foi, imagine a festa do dia 19!


Banca de folhetos.


Marcos Linhares e frei Varneci Nascimento.


Professora Fátima, sempre presente aos eventos da Caravana.


Eufra Modesto, o diretor Diogo e Pedro Monteiro.


Parte do público que abrilhantou o evento.


Cícero Pedro de Assis e Marco Haurélio.


Alguns artistas presentes na reunião da Caravana: Aldy Carvalho, Jackson Ricarte, Pedro Monteiro, João Gomes de Sá, Cacá Lopes, Nando Poeta e Marco Haurélio.


Bárbara, filha da parceira Fátima, lê o livro infatil O Menino Lê, de André Salles Coelho, que narra, de forma poética, a infância de Leandro.


Eufra Modesto, mais uma vez deu um show de simpatia e talento.


Cleusa Santo.


Jackson Ricarte, grande violeiro.


Josué Araújo, poeta e contista.