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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Cordéis atemporais: Vicente, o Rei dos Ladrões

A história, em sua última parte, que envolve o saque ao tesouro do rei, consta de um conto popular egípcio de cerca de 3.000 anos, O tesouro de Ramsés, o qual chegou ao poeta, por meio de uma versão oral que ele habilmente costurou na bem urdida trama do romance. Encontramos episódios como o do sacrifício do parceiro preso numa armadilha e o do ferimento acidental para disfarçar o choro pelo morto, que denunciaria o ladrão. Como boa parte dos espertalhões, Vicente é apresentado, nas primeiras edições impressas como “professor de Cancão de Fogo”, conforme salientado no subtítulo, que foi sensatamente suprimido nas sucessivas edições publicadas pela editora Prelúdio desde 1955.

Nos estandes que montei já ouvi mais de uma vez, ao reencontrar o lendário Vicente, um leitor declamar, emocionado, as estrofes de abertura.

Todo o mundo traz o dom,
Conforme diz o rifão:
Existe quem traga até
O dom para ser ladrão –
Sendo pra roubar cavalo,
Traz um cabresto na mão

Neste drama, eu apresento
Vicente, o Rei dos Ladrões,
Que, em todos caloteiros,
Ele passava lições –
Até em Cancão de Fogo,
Segundo as opiniões.

Vicente, o rei dos ladrões é um dos clássicos da Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.

***
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terça-feira, 5 de abril de 2011

Ele sabia das coisas!



"Não entendo a razão de alguns pesquisadores atuais, inclusive estrangeiros, afirmarem que o livro de Literatura de Cordel (título dado não sei por quem), só é autêntico com clichê de madeira e erros gráficos e ortográficos. Ora, esquecem esses senhores que João Martins de Athayde, no seu tempo, já primava pela perfeição da escrita, do trabalho gráfico e da roupagem que vestia o folheto. Será que os livros publicados por Athayde com clichês zincografados e zincogravuras não são autênticos?"

Manoel D’Almeida Filho, 1983.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cordéis atemporais: Os Três Conselhos da Sorte

Pequena resenha de um grande clássico

Capa de Sergio Lima.

Por Marco Haurélio

Os Três Conselhos da Sorte, de Manoel D'Almeida Filho, é uma história cuja antiguidade é difícil precisar. Encontramos um antepassado ilustre no livro de Tobias (Tobit), ausente dos textos sagrados de judeus e protestantes, mas constante da Bíblia católica. Conta a história do casamento de Tobias e Sara, após o exorcismo do demônio Asmodeu, responsável pela morte dos sete homens com quem ela tinha casado anteriormente. Apenas Tobias, que subjuga (exorciza) o demônio, terá direito às núpcias, após três dias de abstinência. Os Três Conselhos da Sorte conserva este motivo, embora a rainha Formosante, antes de ver triunfar seu amado Francisquinho, não entende como morreram seus catorze maridos. O herói, de posse de três conselhos, outro motivo universal, terá às mãos as rédeas do destino, revertendo em sorte todo o infortúnio que até então lhe acompanhara os passos.

No Índice de motivos Aarne-Thompson-Uther, aparece entre os contos maravilhosos com a seguinte classificação:  ATU 507: O monstro dentro da noiva [The Monster’s Bride]

As estrofes iniciais vêm apoiadas pela sabedoria dos adágios populares:

Ninguém entende esta vida,
Em tudo existe um segredo,
Surpresa sobre surpresa,
Enredo em cima de enredo
A sorte nunca aparece
Na casa de quem tem medo.

Aqui queremos mostrar,
O quanto o destino é forte,
Como um rapaz inocente
Passou por cima, da morte,
Achando a felicidade
Nos três conselhos da sorte.

Ninguém entende porque
Um nasce para gozar,
Outro vem para sofrer
Sem nenhum mal praticar,
Às vezes um faz um crime,
Mas outro é quem vai pagar.

À frente de um caso desse,
Um ataca, outro defende,
A mente humana cansada
Luta, porém não entende,
Os mistérios desta vida
Só o bom Deus compreende.

Mestre Câmara Cascudo identificou ecos da história bíblica numa quadra conhecida em todo o Nordeste (pelo menos em seu tempo), registrada em Superstição no Brasil:

Sete vezes fui casada,
Sete homens conheci,
E juro por fé de Cristo,
Inda estou como nasci!...

Rica em detalhes, a história de Tobias abasteceu outros contos populares, trazendo, inclusive, o tema do morto agradecido. Rafael, o anjo, simboliza a gratidão dos mortos a quem Tobias deu sepultura, num episódio similar à posterior História de João de Calais, à qual Madame de Gómez deu redação em fins do século XVIII. Sílvio Romero recolheu o conto exemplar Os Três Conselhos, em Sergipe. Recolhi, em Brumado, Bahia, Os Três Conselhos Sagrados, em 2005. Vertido para o cordel, foi premiado pela Fundação Cultural da Bahia com o segundo lugar no Concurso Nacional de 2006.

A fusão de conto maravilhoso com história de exemplo fez de Os Três Conselhos da Sorte um clássico da literatura de cordel. Manoel D’Almeida Filho recriaria a história, apenas na aproximação temática, em Os Conselhos do Destino. Prova irrefutável na crença na existência de uma divindade – ou melhor, de uma lei – intangível, que regula e, em alguns casos, reorienta os nossos passos. “Um cavalo não passa na porta encilhado duas vezes”, diz a sabedoria popular. Sabedoria que o afortunado Francisquinho, protagonista do romance, soube escutar.

O romance Os Três Conselhos da Sorte integra a Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Homenagem a um grande poeta



Segue, abaixo, a homenagem que fiz ao grande poeta popular paraibano Manoel D'Almeida Filho, uma das minhas grandes referências no cordel, ao lado de Delarme Monteiro, Leandro Gomes de Barros, Minelvino Francisco Silva, Severino Borges, entre outros.

Na arte do cordelismo
Bem poucos tiveram o brilho
Do mestre paraibano
Manoel D’Almeida Filho,
Do qual, orgulhosamente,
Procuro seguir o trilho.

E sempre me maravilho
Com as belas narrações
Rufino, o Rei do Barulho,
Vicente, o Rei dos Ladrões,
Os Três Conselhos da Sorte,
Com suas belas lições.

Encantando multidões
Os Cabras de Lampião,
A melhor biografia
Do grande rei do sertão,
Mais de seiscentas sextilhas
Com a marca da isenção.

A Sorte do Amor, então,
É um clássico verdadeiro,
Bem como o são O Feitiço
Por Cima do Feiticeiro
E a linda biografia
DO Santo do Juazeiro.

Da Editora Luzeiro
Era o selecionador
E, neste trabalho, Almeida
Foi grande divulgador,
Elevando o bom cordel
A um nível consagrador.

Descansa em paz, Trovador,
Além do mundo terreno,
Que eu, neste plano ilusório,
Afirmo, de modo ameno:
Diante da tua sombra
Ainda sou tão pequeno.


Marco Haurélio, poeta popular baiano, tem vários títulos editados pela tradicional Editora Luzeiro, de São Paulo.

Conheça o Fotolog do autor: Marco Haurélio