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sábado, 19 de março de 2011

O Soldado que foi para o Céu

Capa da edição portuguesa do folheto de cordel
João Soldado (em prosa)

Ia uma vez um soldado para casa com baixa; quando ao passar por uma ponte encontrou um pobre de pedir, que não tinha dinheiro para pagar a passagem e estava ali parado. Ora o soldado nunca tinha feito bem a ninguém; mas naquele instante teve pena do velhinho e carregou com ele às costas e passou a ponte. O soldado não pagou nada porque ia às costas do soldado. Logo que chegou ao outro lado, pôs o velho no chão, e ia despedir-se dele, quando o pobre lhe disse:

Camarada, peça alguma coisa, que o que eu quero é agradecer-lhe.

Ora o que lhe hei-de eu pedir?

Peça tudo o que quiser.

O soldado pediu: Que todas as vezes que disser: "Salta aqui à minha mochilinha!" nenhuma coisa deixe de obedecer à minha ordem. E que onde quer que eu assente ninguém me possa mandar levantar

O velho disse-lhe que estava concedido. Foi-se o soldado muito contente para casa e nunca mais trabalhou, e viveu bem, sem lhe faltar nada. Se queria pão, carne, vinho, dinheiro, dizia: "Salta aqui à minha mochilinha", e tinha logo tudo o que era preciso. Veio o tempo e o soldado estava para morrer; os Diabos vieram logo para lhe levarem a alma, mas o soldado viu-os e gritou: "Saltem aqui já à minha mochilinha!". Os Diabos não tiveram remédio senão obedecer; ele assim que os apanhou dentro da mochila mandou-a a casa do ferreiro para que lhe malhasse em cima até os deixar em estilhas. Por fim o soldado morreu, e como tinha passado sempre na má vida, foi parar ao Inferno. Os Diabos assim que o lá viram começaram a gritar:

Fecha portas e postigos, senão seremos aqui todos batidos.

E aferrolharam as portas, e o soldado não pôde entrar para lá; foi então bater ás portas do Céu. São Pedro assim que o viu, disse-lhe:

Vens enganado! Não entras cá. Não te lembras da má vida que levaste?

Responde-lhe o soldado:

Ó Senhor São Pedro! no Inferno não me quiseram. Eu agora para onde hei-de ir?

Arranja-te lá como puderes.

O soldado viu meia porta do Céu aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:

Ó Senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o barrete.

São Pedro deixou; mas o soldado assim que o viu dentro do portal, sentou-se logo na cadeira dele. São Pedro quis mandá-lo sair mas não pôde e foi dali à pressa queixar-se a Nosso Senhor, que lhe disse:

Deixa-o entrar Pedro, não tens outro remédio, porque assim lhe estava prometido.

E o soldado sempre ficou no Céu.

BRAGA, Teófilo, (...), Contos tradicionais do Povo Português I

NOTA: O conto do soldado que recebe o dom de prender qualquer coisa em seu bornal frequenta, além das páginas do cordel, a literatura folclórica de vários países. No Brasil é famosa a versão poética de Antônio Teodoro dos Santos, João Soldado, o Valente Praça que Meteu o Diabo num Saco

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O BOI CARDIL

        Xilogravura de Lucélia Borges 


Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:
– Porque te ris? – perguntou o rei.
– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.


Nota: Esta versão do célebre conto O Vaqueiro que não Mentia consta dos Contos Tradicionais do Povo Português, recolhidos por Teófilo Braga e publicados em 1883.


A origem da história se perde na noite dos tempos. É encontrada na literatura oral de vários países e tem especial valor para o povo nordestino, pois seu eixo central gira em torno da idoneidade do vaqueiro, incapaz de proferir uma mentira. Na versão em cordel, História do Boi Leitão ou O Vaqueiro que não Mentia, de Francisco Firmino de Paula, o vaqueiro Dorgival é convencido a matar o Boi Leitão, de estimação do patrão, pela filha do próprio. É este o dilema que afligirá o honesto empregado. Câmara Cascudo traz duas versões: O Boi Leição, de Alagoas, e Quirino, o Vaqueiro do Rei, do Rio Grande do Norte. A substituição do fazendeiro por um rei em muitas versões atesta a ancianidade deste conto que, segundo Théo Brandão, se não é o mãos velho, é “pelo menos um dos mais velhos da História da Humanidade”. O motivo da morte do boi para satisfação do desejo duma mulher ganhou independência nas encenações do Bumba meu boi.