terça-feira, 2 de setembro de 2014

Shakespeare em cordel




Publicado pela Amarylis, selo infantojuvenil da editora Manole, Rei Lear em cordel traz ilustrações de Jô Oliveira. A obra faz parte das comemorações dos 450 anos de nascimento de William Shakespeare. Já foi publicada pela mesma editora Sonhos de uma noite de verão, de Arievaldo Viana, e, em breve, sairá Muito barulho por nada, de José Santos. 

Abaixo, a apresentação, que tem a minha assinatura:

Entre a história e a lenda

O drama do rei que, já na idade madura, sofre as consequências trágicas de uma ação imprudente, rendeu uma das mais celebradas peças de William Skakespeare, Rei Lear.  Antes de figurar no bloco de tragédias do dramaturgo inglês, o tema já havia sido aproveitado em outras obras, a exemplo da Historia regum britaniae (História dos reis da Bretanha), do galês Godofredo de Monmouth, datada de 1147, e da Gesta romanorum, coletânea de contos e anedotas do século XIII. Nesta última, o imperador romano Teodósio é personagem de uma trama semelhante à concebida por Shakespeare. Na tradição oral brasileira, inclusive, há contos do “ciclo do Rei Lear”, a exemplo de O rei Andrada, publicado em 1885 nos Contos populares do Brasil, de Sílvio Romero.

Na obra de Shakespeare, o velho tema folclórico recebe um tratamento grandioso. Lear, o octogenário rei da Bretanha, resolve testar as três filhas, Goneril, Regane e Cordélia, com o fito de descobrir qual delas o ama mais. Às lisonjas das duas irmãs Cordélia responde que o ama do tanto que uma filha deve amar a seu pai. Nem mais nem menos. É deserdada pelo velho monarca, sendo depois desposada pelo rei da França, que se encontrava na corte bretã por ocasião do fatídico episódio. Paralelamente, a peça trata do drama do velho conde de Gloster, que, depois de banir seu filho Edgar, vítima de uma falsa acusação, sucumbe à ambição de outro filho, Edmundo, personagem malévolo, cujo destino está entrelaçado ao das filhas ingratas de Lear.



Da peça para o cordel

Autor acostumado a trabalhar com temas oriundos da cultura popular, é possível que Shakespeare não estranhasse a recriação de sua memorável peça em cordel A adaptação preserva os pontos essenciais do texto original, aqui retrabalhado em sextilhas (estrofes de seis versos), que dão conta dos personagens mais importantes, sem abrir mão do ritmo característico da poesia popular:

Na terra onde o bem floresce
Logo a maldade se assanha,
Como na presente história
Em que a lisonja e a manha
Causaram a derrocada
De um grande rei da Bretanha.
Para dar voz ao bobo, personagem que funciona na trama como uma espécie de consciência do rei destronado, e que procura atenuar-lhe o desespero com improvisos e brincadeiras, foi usada, de forma inusitada, outra modalidade da poesia popular, o martelo agalopado.[1] O recurso aproxima o bobo — que, diga-se de passagem, era uma espécie de menestrel, com sua filosofia de vida simples, mas de sabedoria profunda — do repentista nordestino, herdeiro dos trovadores e cantores populares da Idade Média:

Sei que um carro não pode ir adiante
Dos cavalos, pois não é natural.
Por lisonjas, cedeste para o mal,
E quem amas agora está distante.
Se vivias num trono de brilhante,
Hoje até as migalhas são negadas,
Elogios tornados caçoadas
São o prêmio da tua insensatez,
Tua luz converteu-se em palidez,
Tuas glórias te foram confiscadas.

Com nova roupagem, descobrimos que as lições da história que vamos ler, mesmo com a grande distância no tempo e no espaço, são válidas para os dias de hoje, em que não desapareceram a ingratidão e a ganância. A leitura do cordel também é um convite a conhecer — ou revisitar, para os que já leram — a tragédia de Shakespeare, adaptada algumas vezes para o cinema, a exemplo da produção japonesa Ran, filmada em 1985 por Akira Kurosawa. Ambientado no Japão medieval e protagonizado por um senhor feudal que divide o seu trono entre os três filhos (de acordo com a tradição patriarcal do país), excluindo depois o caçula, por sua sinceridade, o filme comprova a universalidade do tema, já antigo em 1605, data de sua provável redação por William Shakespeare.






[1] Composto de dez versos, com a sílaba tônica caindo sempre na terceira, sexta e décima sílabas, o martelo é um dos gêneros mais cantados pelos repentistas nordestinos.

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