segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Conterrâneo do rei Luiz marca presença em São Paulo




Cacá Lopes e Dé Pajeú na casa do poeta Pedro Monteiro

Recebi, enviado por Cacá Lopes, o release do artesão pernambucano Dé Pajeú, recém-chegado a Pauliceia e já integrado à Caravana do Cordel. Dé e Cacá Lopes são parceiros no hit "Cacá" (com Hamilton Catete). Seu trabalho pode ser conferido ainda no recém-criado fotolog Dé Pajeú - poeta e artesão.

DÉ PAJEÚ

José Sales de Freitas – em arte DÉ PAJEÚ, artesão, poeta compositor, nasceu em Exu-Pernambuco, berço do forró pé de serra, terra do rei do baião, Luiz Gonzaga.

Membro da Associação Asa Branca, em Exu, com um trabalho social voltado para crianças e adolescentes sertanejas, Dé Pajeú é também um dos fundadores do grupo de forró “Os Caba de Gonzaga”, formado em 2002, com diversas apresentações nos estados de Pernambuco, Ceará e Bahia. Coordenou, ainda, o grupo infantil Os seguidores do Rei. Ambos os grupos ainda estão em atividades nos rincões nordestinos.


Clave e sanfoneiro (arte em madeira)

Como compositor tem músicas gravadas por: Joquinha Gonzaga, Andréa Gonzaga, Cacá Lopes, Grupo Karolinas com K, de Recife, Costa Senna, Adil Santos, Hamilton Catete e Gerson Bruno do Rio de Janeiro.
Como artesão, Dé desenvolve vários tipos de trabalho, utilizando madeira, coco, bambu, couro, sempre reutilizando matéria prima natural, respeitando o meio ambiente.


Esculturas em madeira.

Suas obras de arte correm o mundo, vendidas para pessoas da Europa, Estados Unidos, Argentina, Japão, entre outros.
No momento, Dé está morando, em de Ferraz de Vasconcelos, São Paulo, e participa, como convidado especial, da Caravana do Cordel.

Seu objetivo é difundir, cada vez mais, na grande metrópole, sua carreira de artesão.

CONTATOS: 11-4677-5841
11- 9738-4522


Arte com coco

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Cordel e mangá não são água e óleo


Editora Quadrix prepara lançamento de livro do Frei Varneci

Deu no Universo HQ:

Quadrix: nova editora apostará em quadrinhos nacionais
Por Sidney Gusman

Mais uma editora chegará em breve ao mercado de quadrinhos. Trata-se da Quadrix, capitaneada por Alex Magnos, e que publicará apenas trabalhos brasileiros.

A estreia será em outubro, com a revista Quadrix Aventura e Ficção (48 páginas em preto e branco, formato e preço ainda não definidos), que terá HQs de terror, ficção, aventura, sobrenatural e outros temas.

Nesse primeiro número há trabalhos de Wilson Vieira e Fred Macedo, dois autores que têm se destacado na Europa. Evolution é uma ficção científica acerca da debilidade humana ante a mitologia sobre seres superiores; e Kwi-Uktena mistura western e horror numa trama a respeito da ganância desmedida do ser humano.

Além disso, em seu site oficial, a editora já anuncia A graphic novel de terror Lua Negra, com roteiro de Alex Magnos e arte de Anilton Freires; Jonas Solomon - Vingança Vermelha, do mesmo autor, porém ilustrada por Liriano Santiago com arte-final de Anilton Freires, tematizada no cangaço brasileiro; e Miotaka e Tanaka, de Varneci Nascimento, cuja proposta (ousada) é misturar literatura de cordel e mangá.

Nota do blog: já vai bem longe o tempo em que os puristas tinham convulsões por causa das capas em policromia da Editora paulistana Luzeiro, por acreditarem que, para ter legitimidade, o cordel deveria ter cheiro de mofo. Parabéns a Varneci Nascimento - o Frei Varneci - e a Alex Magnos, diretor da Quadrix, por esse lançamento revolucionário.

Nos Braços da Poesia (Assis Coimbra)



Assis Coimbra entre Klévisson Viana e Marco Haurélio

Nos braços da poesia
Sou Vinicius, sou Camões.
Sou Drummond, sou Castro Alves.
Sou conflito e sou paixões.
Sou Marília, sou Dirceu
E os belos cantos de Orfeu
Apascentando corações.

Nos braços da poesia
Sou um canto de ninar.
Sou a doçura do beijo
Na hora de acalentar.
Sou a criança sorrindo,
Pingo de orvalho caindo
Pra semente germinar.

Nos braços da poesia,
Eu me encontro submerso.
Coletando inspiração,
Pra depois fazer um verso.
Vejo a lua todo dia,
Bem junto da estrela guia,
Cintilando no universo.

Nos braços da poesia
Tem riso, lamento e pranto.
Lembrança de Zilda Arns
No céu com sagrado manto.
“Tem Calcutá de Tereza”,
Tem Irmã Dulce e pobreza,
Irrisão pra todo canto.

Nos braços da poesia
Beijo a morena sestrosa.
Beijo Clarice Lispector,
Das musas a mais formosa.
Beijo também Delamar,
Minha sereia do mar,
Com seu perfume de rosa.

Nos braços da poesia
Sou a brisa, sou o vento.
Sou a paz para o planeta
Que falta nesse momento.
Eu sou o trigo, sou o pão.
Que falta para o irmão,
Que vive no sofrimento.

Nos braços da poesia
Sou o fogo de Prometeu.
Sou a caixa de pandora
Com todo segredo seu.
Sou teatro, sou o circo,
Pinacoteca, obelisco,
E a bravura de Teseu.

Nos braços da poesia
Conto hinos de louvor
Lamento perdas de vidas
Exalto o Deus criador.
Respeito todas as crenças
E a pior das sentenças
Pro ser vil e traidor.

Nos braços da poesia
Sou um anjo de candura,
Sou um riso de criança
Que transmite só ternura.
Sou a estrela cadente
Com seu brilho incandescente
Brilhando na noite escura.

Sou histórias de ninar
Para criança dormir.
Sou o pão que alimenta,
Pra com o outro dividir.
Sou o fruto, sou bondade,
Que alimenta a caridade,
Na hora de repartir.

Assis Coimbra
(Direitos reservados)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Marcos Linhares lança livro infantil na Cortez



Nascido da pena sensível de Marcos Linhares, este livro é mais uma releitura do maior clássico da Literatura de Cordel em todos os tempos. O Romance do Pavão Misterioso, criação imortal de José Camelo de Melo Resende (1885-1964), há muito tempo se descolou do papel e impregnou outras manifestações da arte. Virou música com o cearense Ednardo. Transformou-se em crônica pelas mãos do escritor mineiro Roniwalter Jatobá. Ganhou uma adaptação para o teatro assinada por Theotônio de Paiva.
(...)

Uma estrofe que resume o livro, histórico por ser a primeira incursão da Luzeiro pelo universo infantojuvenil:

A leitura, que nos leva
Ao mundo além do papel,
Levou-me em tão genial
Versejar do menestrel,
E assumi o comando
Enquanto ia voando
Pelas rimas do Cordel!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Personagens do Auto da Compadecida em cordel



A Editora Luzeiro lançou o cordel Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, de minha autoria, ano passado (2009). A história tem como protagonistas João Grilo e Chicó, protagonistas do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

A ilustração da capa é de Arievaldo Viana.

Leia um trecho do cordel:

João Grilo foi um menino
De grande sagacidade,
Aprimorou a esperteza
Devido à necessidade –
Enganava a todo mundo
Com muita facilidade.

Quando João era menino
Sempre ia à beira do rio,
Para poder refrescar-se
Por causa do grande estio.
Um dia, encontrou um padre
Que tinha curto pavio.

O padre vinha num jegue –
Logo que viu o menino,
Pensou: “Eu vou me informar
Com aquele tipo cretino,
Mas se ele me enganar,
Vou e lhe torço o pepino!”

O padre se aproximou
E disse, com voz pausada:
— Me responda, meu menino,
Aonde vai esta estrada?
Você será castigado,
Caso me meta em armada.

João lhe respondeu: - Seu padre,
Eu não gosto de balela;
Respondo à sua pergunta,
Sem temer a esparrela:
A estrada nunca vai,
Somos nós que vamos nela.

O padre disse: — Moleque,
Deixe desta amolação!
Vou celebrar uma missa
Na igreja do Capão –
E lhe peço, por bondade,
Que me ensine a direção.

Disse João: - É muito fácil,
Agora vou lhe ensinar:
Para chegar no Capão,
Basta ao rio atravessar,
Mas tenha muito cuidado
Ou poderá se afogar!

— Não me amole mais, moleque,
Pois já estou em atraso!
O povo me esperando
E você criando caso –
Ande logo, desembuche:
Onde que o rio é mais raso?

— Vá naquela direção,
Já que está muito apressado.
O padre foi com o jegue,
Onde João tinha mostrado,
Mas era o ponto mais fundo,
Quase morreu afogado.

Ao sair na outra margem
O padre pôde gritar:
— Pode esperar, seu moleque,
Que volto pra me vingar!
E, com a batina ensopada,
Desgraçou-se a espirrar.

Quando chegou na igreja
Estava muito atrasado.
O povo todo estranhou
Vendo o vigário ensopado
E xingando cada nome
De deixar o Cão corado!

(...)

Nota: Clique AQUI para ler artigo sobre a possível origem do personagem João Grilo.




PEDIDOS:
EDITORA LUZEIRO
Fone: (11) 5585 1800
E-mail: vendas@editoraluzeiro.com.br

COMPRAR

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O principe que via defeito em tudo



A história dO príncipe que via defeito em tudo , recontada por mim em versos de cordel, tem origem num conto tradicional, adaptado para a poesia, sendo mantidos seus elementos essenciais. Este conto é muito conhecido no sertão baiano, onde o nasci. Faz parte do rol de histórias de nossa literatura oral, que garante a riqueza do folclore brasileiro.

O tema predominante é o orgulho, que faz com que o mimado príncipe Ivan, personagem principal, despreze os animais e as pessoas. Ele chega a questionar a necessidade da existência de dois animais que considera completamente inúteis: uma mutuca (espécie de mosca) e uma aranha. O único que ainda o escuta é o seu pajem Jasão, que tenta sempre convencê-lo do contrário, sem sucesso. Ivan é herdeiro do trono de Agadir, país que paga tributos para a poderosa Turquia. O príncipe, num ato de arrogância, questiona esta submissão à Turquia, o que desencadeia uma guerra, movida pelo rei Oscar, soberano turco.

Perseguido pelos soldados do rei inimigo, o príncipe Ivan aprenderá uma lição que mudará para sempre a sua vida. E entenderá que, na natureza, todos os animais, até aqueles que são aparentemente insignificantes, têm o seu valor.
O motivo de o antagonista (rival) do orgulhoso príncipe Ivan ser o rei turco se deve a um fato histórico: a existência do Império Otomano, fundado por Osman I, que existiu entre 1299 e 1922 e englobava a Anatólia (Turquia asiática), o Oriente Médio, parte do norte de África e do sudeste europeu. A ferocidade dos guerreiros otomanos assombrou muitos povos à época de seu apogeu.

Nas cavalhadas, uma das mais belas manifestações da cultura popular brasileira, resta, diluída, a lembrança dos embates entre mouros (turcos e cristãos). Em Serra do Ramalho, na Bahia, na véspera de são João, ocorre uma encenação a céu aberto, que reconta a saga do imperador cristão Carlos Magno (747-814) em guerra com o almirante Balão, rei dos turcos. Esta modalidade é a cavalhada teatral, que mescla a encenação à demostração de habilidades dos cavaleiros, lembrando as justas (torneios medievais). Na literatura de cordel, há um romance clássico A batalha de Oliveiros com Ferrabrás, do grande poeta Leandro Gomes de Barros (1865-1918), extraido do Livro de Carlos Magno, que narra um combate entre um paladino (herói) cristão e um gigante turco.

Luís da Câmara Cascudo (1897-1986) recolheu um conto similar, Como a aranha salvou o Menino Jesus, integrante da antologia Contos tradicionais do Brasil. O motivo é idêntico ao de nosso conto, exceto os personagens. Nele, aprendemos que matar aranha dá infelicidade, pois esse animal salvou o Menino Jesus da perseguição dos soldados do rei Herodes. Há versões árabes, africanas e europeias desta mesma história. Outra versão foi colhida por mim (Contos Folclóricos Brasileiros, Paulus), sob o nome O Príncipe, a Mosca e a Aranha.

A estrutura do cordel

O nosso cordel está estruturada conforme as regras básicas do gênero: 40 estrofes de seis versos (linhas) chamadas sextilhas, de sete sílabas poéticas. Nosso texto segue a linha tradicional do gênero, pois, além de cordelista, sou pesquisador da cultura popular, em especial do conto tradicional. Na estrofe abaixo, cito o processo natural de difusão dos contos e de outras manifestações da literatura oral:

Há um ditado que diz
Que quando alguém conta um conto,
Dependendo de quem seja,
Sempre aumentará um ponto.
Sabendo do desrespeito,
O rei Oscar ficou tonto.

A estrofe final é uma oitava (estrofe de oito versos) e traz a assinatura poética do autor (HAURELIO), conhecida como acróstico:

Honra é a virtude dos que
Alcançam grande vitória.
Um príncipe que era orgulhoso
Reviu sua trajetória
E escolheu outro caminho,
Lidando com sina inglória.
Isso é o que nos ensina
O fim desta bela história.

O acróstico foi introduzido no cordel por Leandro Gomes de Barros, mas foi usado largamente por outros poetas populares. Naquele tempo, servia para identificar o autor do folheto de cordel, que nem sempre tinha seu nome estampado na capa. Hoje, é mais um motivo enriquecedor, que faz jus à tradição mais que centenária do cordel brasileiro.


Marco Haurélio e Nireuda, autor e ilustradora

O príncipe que via defeito em tudo, ilustrado por Nireuda, pode ser adquirido na editora Acatu ou nas melhores livrarias.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Arquivo Português de Lendas

Recebi, do Prof. Paulo Correia, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Uiversidade do Algarve, Portugal, o link para o sítio do Arquivo Português de Lendas.

O Arquivo reúne as lendas sob a seguinte classificação:Lendas Urbanas, Miscelânea, Lendas históricas, Lendas sagradas, Lendas do sobrenatural e Lendas etiológicas.

Abaixo, a aprentação, na primeira página do sítio:


Arquivo Português de Lendas é um projecto liderado pelo CEAO na Universidade do Algarve e procura identificar, recolher, classificar e divulgar narrativas existentes no território português e na literatura portuguesa.

Procurar relacionar, tanto quanto possível, as referidas narrativas com Tipos e/ou Motivos conhecidos de modo a melhor acessibilizar materiais tão localizados
.

Reproduzo, aqui, uma lenda sobrenatural, que, decerto, irá despertar algum interesse, por haver, também, variantes no Brasil:



Santa Compaña. Fonte: www.freewebs.com/duque_ourense/santacompaa.htm


Procissão das almas

Há alguns anos atrás, na ilha de S. Miguel, estava deitada uma rapariga de vinte quatro anos; numa noite da semana santa, quando ouviu tocar a campainha do apregoador das almas. Sentou-se logo na cama para rezar, pois sabia que todo aquele que ouve lembrar as almas deve rezar sentado na cama ou de joelhos. Depois levantou-se e foi para a porta para ver o que se passava.
Olhando para o canto da rua, viu chegar uma procissão de almas e reconheceu uma parente sua que tinha morrido. A alma do familiar disse-lhe:
— O pequena, arrecolhe-te lá para dentro que a esta hora não se está à janela nem à porta. Hás-de dizer que não dêem as coisas por fazer, que aqui não há quem as faça. Aí vai a meada e o ano — e a alma atirou o que dizia.
A rapariga já tinha ouvido a outras pessoas que não era bom aparecer à janela nem à porta enquanto faziam aquela devoção, mas estava tão emocionada que pôs o xaile e saiu atrás da procissão das almas. Quando chegou à esquina da rua, viu a porta da igreja aberta e por lá entravam as almas. Continuou a andar, mas, quando começou a subir os degraus do adro, a porta fechou-se. Voltou para casa no momento em que os apregoadores das almas chegavam, cantando:

Ó almas, que estais aí
No Purgatório ardendo,
Cristão, ajudai as almas
Que elas estão padecendo.
Almas santas de Jesus
Que já fostes como nós,
Pedi por nós a Jesus,
Como pedimos por vós.

A rapariga deitou-se com algum nervosismo e não dormiu tranquila. Ao acordar, de manhã, contou o que tinha visto. No fim de três dias, morreu porque não devia ter dito nada a ninguém do que lhe tinha acontecido.

Fonte: Açores, Lendas e outras histórias, FURTADO-BRUM, Ângela, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.83

Local-(PONTA DELGADA) [ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)]

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Poetas que nos deixaram em 2009

2009 foi um ano de conquistas e de consolidação da literatura de cordel, hoje reconhecida como um importante fenômeno cultural dentro do painel amplo que é a cultura brasileira.

O ano em que a Caravana do Cordel abrilhantou escolas, praças e espaços culturais de São Paulo.

Foi, também, o ano do centenário de nascimento do poeta popular - e eventual cordelista - Patativa do Assaré.

Muitos foram responsáveis por esta vitória, inclusive os que semearam e irrigaram a seara, poetas ou não.

Mas 2009 foi, para o cordel, também um ano de perdas.

Grandes nomes do cordel nos deixaram. Sua obra, no entanto, permanece.

Nossa homenagem e nossos aplausos para:

Xilo de Klévisson Viana

Jotabarros, o pernambucano sem meias palavras, poeta e xilógrafo dos bons, que legou aos pósteros o clássico Lampião e Maria Bonita no Paraíso Tentados por Satanás.



Alberto Porfírio, o genial poeta e escultor, que teve seu talento reconhecido pela nova geração de bardos do Ceará e por uns poucos espalhados pelo Brasil.

José Alves, já veterano, com seu auxiliar Manu 
José Alves Pontes, editor e poeta de Guarabira, no passado grande centro de produção de cordéis na Paraíba do Norte.

***

Agradeço a José Paulo Ribeiro, de Guarabira, que enviou a foto de José Alves Pontes.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Onde encontrar cordel em São Paulo



Apesar de São Paulo ser a cidade onde se localiza a Editora Luzeiro, a mais antiga do gênero em atividade no Brasil, ainda há grande dificuldade entre aqueles que buscam adquirir folhetos de cordel.

Parte desta dificuldade foi sanada por um migrante nordestino: o paraibano Severino Silva (foto), que se tornou, há cerca de um ano, agente da editora.

Severino trabalha com um catálogo de clássicos que incluem O Pavão Misterioso, A Chegada de Lampião no Inferno, Coco Verde e Melancia, Os Três Conselhos da Sorte, João Soldado, O Romance da Princesa do Reino do Mar Sem Fim, entre outros. E títulos de minha autoria, como Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, Os Três Conselhos Sagrados e O Herói da Montanha Negra.

Abaixo, uma relação dos locais onde é possível achar os clássicos e as novidades do catálogo Luzeiro, inclusive por encomenda:

1. Banca Praça Ramos (centro)
2. Banca Pato (Praça da Sé)
3. Banca DPX (Praça Ramos de Azevedo)
4. Banca das Apostilas (Pátio do Colégio, ao lado da Praça da Sé)
5. Banca São Bento (Rua Barão de Itapetininga, Centro)
6. Banca Viaduto do Chá (Centro)
7. Banca Deus é Luz do Meu Caminho (Estação Guilhermina Esperança do Metrô)
8. Banca Corredor Praça Dom José Gaspar, 106
9. Banca São Francisco (Viaduto do Chá)
10. Banca JC (Rua Fortuna de Minas, Jd. Santa Maria)
11. Banca Maktub (Largo da Concórdia, Brás)
12. Banca General Carneiro (altura do nº. 167, Centro)
13. Banca Emília (Praça Dom José Gaspar, Av. São Luís, Centro)
14. Banca Viana (Largo da Concórdia, ao lado da estação de trem do Brás)
15. Banca Dom José Gaspar (Centro)
16. Banca Antônio Prado (Praça Antônio Prado, Centro)
17. Banca Guilhermina Esperança (Metrô Guilhermina Esperança)
18. Banca Barão (Barão de Itapetininga, República)
19. Banca Mário de Andrade (Centro, ao lado da Praça dom José Gaspar)
20. Sebo José de Alencar (Rua Quintino Bocaiuva, 285, Centro)

Pedidos: Severino Silva (11) 98298 8723


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As Várias Faces do Cordel

por: Marco Haurélio


Entre abril e maio de 2001, uma mostra no SESC Pompeia, em São Paulo, com curadoria do escritor Audálio Dantas, celebrou os cem anos da Literatura de Cordel brasileira. Poetas, ilustradores, editores e repentistas se revezaram em apresentações, exposições e oficinas. Tudo certo, não fosse um detalhe: a literatura de cordel brasileira, em 2001, certamente já havia ultrapassado um século de existência. O que, evidentemente, não ofuscou o brilho do evento, nem diminuiu a importância da iniciativa. A dificuldade em se apontar o marco inicial se deve em parte à escassez de referência bibliográfica do período. Sílvio Romero, pioneiro dos estudos etnográficos e historiador literário, já fazia uso do termo “literatura de cordel" em Estudos sobre a poesia popular, de 1885. Por outro lado, Romero não destaca nenhum poeta em particular, o que leva a crer que estas publicações incipientes ainda não haviam atingido o padrão que imortalizaria o gênero na memória popular e na cultura brasileira.

O grande pioneiro

A travessia fatalmente seria feita. E, num Nordeste com forte cheiro de Idade Média, dominado pelo misticismo e por crenças impregnadas do atavismo da gesta carolíngia, o povo teve em Leandro Gomes de Barros, paraibano radicado no velho Recife, seu grande menestrel. Leandro começou a escrever por volta de 1893, e não parou mais. São dele alguns dos maiores clássicos do gênero: Juvenal e o dragão, O Cachorro dos Mortos, História da Donzela Teodora etc. A partir da gesta de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, Leandro escreveu A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e A Prisão de Oliveiros. Obras que já ultrapassaram com folga a casa dos milhões de exemplares vendidos, e são reeditadas há mais de cem anos, ininterruptamente.

Alicerçada na tradição oral, a História do Boi Misterioso, 
de Leandro Gomes de Barros, é um dos romances fundadores
 da literatura de cordel brasileira.
Mário de Andrade se inspirou em um cordel satírico de Leandro, A Vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento, na estruturação da personagem compósita Macunaíma, que batiza uma das obras basilares da literatura brasileira. A esse respeito depõe o criador de Pauliceia Desvairada:

Um Leandro, um Athayde nordestinos, compram no primeiro sebo uma gramática, uma geografia, ou um jornal do dia, compõem com isso um jornal de sabença, ou um romance trágico de amor, vivido no Recife. Isso é o Macunaíma e esses sou eu.

O Athayde a quem se refere Mário de Andrade é o poeta e editor João Martins de Athayde, autor de História do Valente Vilela, romance sobre um cangaceiro perverso que um dia deixa a vida de crimes para se dedicar à ascese purificadora, tornando-se um místico. A história traz elementos da tenebrosa lenda medieval de Roberto do Diabo. O cangaceiro Vilela, personagem sem autenticação da história, arquétipo cristão de culpa e redenção, reaparecerá transfigurado em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, um dos contos antológicos de Sagarana, de Guimarães Rosa.

Clássicos do cordel

Com Leandro Gomes de Barros surgiu, também, a figura do editor de cordel que escrevia, publicava e distribuía a sua produção. Com a morte de Leandro, Athayde adquiriu junto à viúva do grande poeta, D. Venustiniana, os direitos de publicação de boa parte de sua obra. Essa iniciativa foi em parte benéfica para o cordel, porque Athayde, a partir do Recife, profissionalizou a distribuição dos folhetos, adquiriu outras obras e, indiretamente, gerou dezenas de empregos, através dos muitos revendedores e agentes espalhados por feiras, mercados e pontos estratégicos, como estações de trem e portas de igrejas. Por outro lado, o editor Athayde simplesmente ignorava a autoria dos folhetos de cordel de sua propriedade e assinava todos em seu nome, inclusive os de Leandro. Essa atitude questionável dificultou a futuros pesquisadores a identificação da autoria de vários poetas.

Areda, fotografado por Maria Alice Amorim
No rastro de Athayde e Leandro surgiram outros poetas, como Francisco Sales Areda (1916-1995), autor de O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna, folheto de grande sucesso que chamou a atenção do teatrólogo Ariano Suassuna, que o adaptou para o teatro. Areda é autor, ainda, d’O romance de João Besta e a Jia da Lagoa. Neste folheto, o autor definiu o papel do poeta popular, dando a entender que ele é, também, garimpeiro do inconsciente coletivo:


O poeta é um repórter
Das ocultas tradições, 
Revelador de segredos, 
Guiado por gênios bons, 
Pintor dos dramas poéticos 
Em todas composições.

Contudo, foi num folheto de gracejo que Suassuna encontrou o personagem-símbolo de sua dramaturgia. As Proezas de João Grilo (ver trecho abaixo), estória escrita em 1932 por João Ferreira de Lima, trazia como protagonista o célebre amarelinho oriundo dos contos populares portugueses, que, no processo de aculturação, ganhou características idênticas às de outro famoso espertalhão de origem ibérica: Pedro Malazarte. Esse mesmo João Grilo será reaproveitado no Auto da Compadecida, transformado em filme em 2000 por Guel Arraes, com Mateus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Melo (Chicó) nos papéis principais.



João Grilo foi um cristão 
que nasceu antes do dia,  
criou-se sem formosura  
mas tinha sabedoria,  
e morreu depois da hora 
pelas artes que fazia.  
(...) 
Na noite que João nasceu,  
houve um eclipse na lua,  
e detonou um vulcão,  
que ainda continua.  
Naquela noite correu 
um lobisomem na rua.  
(...)

Entretanto, a Compadecida se baseia em três folhetos distintos, dois deles escritos por Leandro. O primeiro é O Cavalo que Defecava Dinheiro, que mostra como um finório consegue lograr um duque invejoso convencendo-o de que um cavalo é realmente capaz de obrar (sem trocadilho) o prodígio do título. Obviamente quem assistiu à peça ou à uma de suas versões para o cinema, sabe que o cavalo foi transmutado num gato, por motivos mais que compreensíveis. O outro poema de Leandro reaproveitado por Suassuna é O Dinheiro (O Testamento do Cachorro), onde aparecem as figuras do padre e do bispo. A autoria de Leandro é inquestionável, embora a origem dos motivos que compõem a estória seja mais difícil de rastrear. O próprio Ariano reconhece essa dificuldade quando afirma: “- a história do testamento do cachorro, que aparece no Auto da Compadecida, é um conto popular de origem moura e passado, com os árabes, do Norte da África para a Península Ibérica, de onde emigrou para o Nordeste”.

Além destes dois poemas de caráter marcadamente cômico, o Auto propriamente dito – a última parte – tem por base o folheto O Castigo da Soberba, de autoria desconhecida. A estória tem a marcante presença do imaginário medieval que impregna a obra de Gil Vicente, outra evidente fonte de Suassuna. Maria (Nossa Senhora) é a advogada. Jesus o Juiz, e o Diabo o acusador. É a Nossa Senhora – a “advogada nossa” da oração Salve Rainha – que a alma recorre, em vista da iminente condenação. Evocada em nome de seu bendito filho, ela responde à súplica da alma. No final, após ouvir acusação e defesa, Jesus – no folheto também chamado Manuel – decide pela salvação da alma. O Diabo (Cão), vencido, chama os seus comandados. A estrofe abaixo reproduzida, com a última fala do tinhoso, está bem próxima do desfecho do Auto da Compadecida:


Vamos todos nós embora
Que o causo não é o primeiro, 
E o pior é que também 
Não será o derradeiro... 
Home que a mulher domina
Não pode ser justiceiro.

Os três folhetos, diga-se de passagem, foram coligidos por Leonardo Mota no livro Violeiros do Norte. Indiretamente, este pesquisador cearense, ao reunir as três obras em seu precioso estudo, apontou o caminho que Ariano Suassuna deveria seguir, mesmo apoiando-se em outras tradições populares – especialmente o Bumba-meu-boi, onde os personagens Mateus e Bastião cumprem um papel semelhante ao de João Grilo e Chicó na Compadecida.

João Grilo marcou presença em outros folhetos de cordel, com destaque para O Professor Sabe-Tudo e as Respostas de João Grilo (de Klévisson Viana), A Professora Indecente e as Respostas de João Grilo (de Arievaldo Viana) e Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo (de Marco Haurélio). O sucesso do Auto da Compadecida no cinema parece ter motivado o diretor Moacyr Góes a filmar O Homem que desafiou o Diabo (2007), baseado no livro As Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, que, por sua vez, parte de folhetos de cordel do ciclo do Demônio Logrado.

Ilustre precursor


Na época em que Antônio de Castro Alves (1847-1871) pontificava, a poesia popular efervescia nos sertões. A dicotomia erudito/popular, ensina-nos Edilene Matos, da PUC – São Paulo, “foi forjada, a rigor, em plena modernidade”. Na obra do poeta baiano, arauto maior do nosso romantismo, é possível vislumbrar elementos das cantigas sertanejas, ora dolentes, ora jocosas, mas sempre saborosas. “A Canção do Violeiro”, que traz como mote os dois últimos versos, lembra os lampejos geniais dos repentistas de prestígio do Nordeste. O estilo pouco lembra a grandiloqüência de poemas como “O Navio Negreiro” ou “O Século”. O final, que revela a realidade do violeiro, remete ao cancioneiro caipira, também originário da mesma matriz da Literatura de Cordel.


Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra. Vou procurá-la bem longe, Lá para as bandas da serra. Ai! triste que eu sou escravo! Que vale ter coração? Chora, chora na viola, Violeiro do sertão.

Com esquema rímico diferente do utilizado pelos cordelistas, Castro Alves compôs algumas das mais belas sextilhas da língua portuguesa. Para comprovar basta a introdução de “Virgem dos Últimos Amores”, semelhante às quadras populares que começam com o mote “por detrás daquela serra”.


Por detrás daquele outeiro 
A morte espera a manhã! 
É a morte do guerreiro, 
Do bravo que não recua!... 
Geme ao longe a mãe-da-lua, 
Responde perto a cauã...

O grande poeta popular Chagas Batista
Pois bem, com a introdução da sextilha heptassílaba na cantoria, por Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), a poesia da última fase do romantismo – em que se destacou também o sergipano Tobias Barreto – forneceu sobejos motivos ao cordel e à cantoria. Outros gêneros poéticos, como a décima, também eram utilizados, às vezes, como paródia. Francisco das Chagas Batista, outro representante do cordel em seus primórdios, partindo do poema “O Livro e a América”, escreveu O Ébrio em homenagem ao seu confrade Leandro Gomes de Barros, um grande amigo do copo:


Talhado p’ras bacanais,
Pra beber, tombar, cair, 
O embriagado, no crânio, 
Sente a razão se extinguir... 
Empresário das orgias – 
Cansado de outras folias, 
O beberrão disse já: 
Vai, caixeiro, abre a torneira 
Da pipa mais sobranceira, 
E tira vinho de lá.

O ano de publicação do referido folheto, 1910, chama a atenção. Sem dúvida, traz no bojo ideias que se tornariam lugar comum com o movimento modernista, a partir de 1922, como o reaproveitamento, por Oswald de Andrade, a guisa de paródias, de textos fundamentais da brasilidade, como a Carta de Caminha e a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. Assim, justifica-se a admiração que Mário de Andrade, um dos cabeças do movimento, nutria pelos “rapsodos” nordestinos. Jorge de Lima, nome maiúsculo de nossas letras, não se fez de rogado e registrou, em sextilhas de cordel, o legado do vate baiano. O folheto Castro Alves – Vidinha é de 1952.

Senhores, peço licença
Para agora recordar 
Um poeta e sua vida 
E seu modo de lutar, 
E seu amor infeliz 
E sua glória sem par.

Com mais propriedade, o poeta popular José Camelo de Melo Resende deixou esta invocação, um dos pontos altos de sua obra:

Levantai-vos, Castro Alves
Do túmulo onde dormis, 
Vinde já nesse momento, 
Com vossa lira feliz, 
Permutar as Vozes d’África 
Pelas de vosso país.

Nas asas do Pavão Misterioso

 O Pavão Misterioso, o grande clássico da
Literatura de Cordel brasileira.


O Romance do Pavão Misterioso, escrito por José Camelo de Melo Rezende, em 1923, é o mais famoso folheto de cordel de todos os tempos. Conta uma história aparentemente despretensiosa, mas de grande apelo popular. Tem raízes nos contos das Mil e uma Noites. A história inspirou a canção-tema da novela Saramandaia, composta por Ednardo. A novela, escrita por Alfredo Dias Gomes e exibida pela rede Globo em 1977, alavancou as vendas do folheto. A editora de cordéis Luzeiro, de São Paulo, que publica o Pavão Misterioso desde 1970, vendeu mais de 50 mil exemplares desta obra, no ano em que Saramandaia foi ao ar.

Eu vou contar uma história
De um pavão misterioso 
Que levantou vôo na Grécia 
Com um rapaz corajoso, 
Raptando uma condessa 
Filha de um conde orgulhoso. 
(...)

Cuíca de Santo Amaro foi, segundo Orígenes Lessa,
um versejador da pior qualidade.


Dias Gomes também se valeu da popularidade alcançada pelo cordel nas camadas populares em outras obras. Na premiada peça O Pagador de Promessas, o personagem Dedé Cospe-Rimas foi inspirado em Cuíca de Santo Amaro – José Gomes –, cordelista famoso tanto pelos versos ruins que criava quanto pelas encrencas em que se metia, quando vendia seus folhetos pelas ruas de Salvador. Cuíca chamou a atenção de outros escritores, como o conterrâneo Jorge Amado e Orígenes Lessa, estudioso do tema e autor de um dos estudos mais consistentes sobre a poesia popular, Getúlio Vargas na Literatura de Cordel. Foi Lessa quem classificou Cuíca como o “Macunaíma da poesia popular”, referindo-se à prática do poeta de escrever folhetos escandalosos para depois tentar arrancar algum dinheiro do “biografado”. Cuíca fustigou a corrupta elite política soteropolitana de sua época. Trajado de fraque, cartola e com um megafone na mão, tornou-se figura folclórica. Embora discutíveis do ponto de vista ético, suas atitudes não passaram despercebidas e, passados mais de 40 anos de sua morte, ainda suscita discussões e pesquisas no meio acadêmico.

Desdobramentos

Outros autores recorreram à poesia popular: Ferreira Gullar, em João Boa-Morte Cabra Marcado para Morrer; João Cabral de Melo Neto, especialmente no auto Morte e Vida Severina; Cecília Meireles (Romanceiro da Inconfidência), etc. Nas artes plásticas, xilogravuristas como Samico e Ciro Fernandes lançam um olhar erudito sobre a arte popular, como preconizava o Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna. O mesmo fizeram artistas da música popular como Antônio Nóbrega, Siba, Gilberto Gil, Tom Zé, Ednardo, Luiz Gonzaga, João do Vale, Raul Seixas, Xangai, Alceu Valença, Elomar, Vital Farias e Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Zé Ramalho e Morais Moreira. Sem esquecer Paulo Vanzolini, compositor de "Ronda" e "Volta por Cima", que, à maneira dos desafios poéticos do Nordeste, compôs esta sextilha jocosa registrada pelo jornalista Assis Ângelo:

Eu sou Paulo Vanzolini
Animal de muita fama 
Eu tanto corro no seco 
Como na vargem de lama 
Mas quando o marido chega 
Me escondo embaixo da cama.

Beatos e cangaceiros

Glauber Rocha foi outro nome que buscou uma na gesta sertaneja uma linguagem próxima ao cordel para retratar, em imagens contundentes, o Nordeste místico e sangrento. Principalmente em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), o cineasta baiano pôde apresentar sua visão incomum da arte e da vida. Inspirado nos versos populares, compôs o cordel temático, que ganhou música de Sérgio Ricardo. Os personagens do filme são baseados em figuras reais, mas com forte carga simbólica, como o santo Sebastião, calcado em Antônio Conselheiro. Corisco, personagem de Othon Bastos, é, ao mesmo tempo, o cangaceiro lendário do bando de Lampião e a personificação do bem e do mal, o ideal de justiça da “terra do sol”.

Os Cabras de Lampião, a melhor biografia em versos do Rei do Cangaço.
Lampião, Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Frei Damião são outros personagens da mitologia nordestina que mereceram inúmeras biografias em cordel. Os Cabras de Lampião, de Manoel D’Almeida Filho, é considerada a melhor biografia em versos do famoso bandoleiro das caatingas. Do mesmo autor, outro best-seller dos sertões é Padre Cícero, o Santo do Juazeiro, sobre o famoso taumaturgo cearense. Antônio Conselheiro, o Guerreiro de Canudos, de Rodolfo Coelho Cavalcante, transporta para o cordel a epopeia da “Troia de taipa”, que foi magistralmente retratada por Euclides da Cunha na obra-prima Os Sertões. Todos os exemplos citados partem dos fatos relacionados à vida controversa destas figuras históricas. Não é o caso de folhetos como A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco, que retrata o cangaceiro aplicando um corretivo nos anjos caídos, após a sua morte na emboscada de Angicos, Sergipe, em 1938. Glauber se serviu dos versos de Pacheco (veja abaixo as estrofes iniciais) para ilustrar O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.


Um cabra de Lampião, 
Por nome Pilão-Deitado,  
Que morreu numa trincheira  
Um certo tempo passado,  
Agora pelo sertão  
Anda correndo visão,  
Fazendo mal assombrado.  


E foi quem trouxe a notícia  
Que viu Lampião chegar.  
O Inferno, nesse dia,  
Faltou pouco pra virar –  
Incendiou-se o mercado,  
Morreu tanto cão queimado,  
Que faz pena até contar!

O poeta cearense Moreira de Acopiara, coordenador do já tradicional Cordel na Cortez – evento que acontece em agosto na Livraria Cortez, em Perdizes – reuniu Lampião e Padre Cícero num Debate Inteligente, num folheto revisionista. Mas na “Divina Comédia do Cordel” há ainda outras obras de fôlego e tradição: A Chegada Lampião no Céu (de Rodolfo Coelho), e A Chegada de Lampião no Purgatório (de Luiz Gonzaga de Lima). Varneci Nascimento, poeta baiano da nova geração, promoveu O Encontro de Lampião com Frei Damião no Céu.

Do popular ao erudito, e vice versa

Carlos Drummond de Andrade era um grande entusiasta do cordel e admirador confesso de Leandro Gomes de Barros, a quem considerava “rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”... Drummond também experimentou os versos ágeis do cordel nordestino no insosso poema A Estória de João-Joana, musicado pelo especialista Sérgio Ricardo. O mesmo motivo – a moça que se traveste de homem – serviu ao poeta popular Manoel d’Almeida Filho em O Vaqueiro que Virou Mulher e deu à Luz. A inspiração de ambos parece ser o romance da Donzela Guerreira, motivo universalmente difundido, base para a composição de Diadorim, personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.


Ora, se os autores eruditos bebem na fonte popular, o inverso também ocorre, e em escala bem maior. João Martins de Athayde verteu para o cordel clássicos da literatura como Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, recriado com o título Romance de um Sentenciado.

José Camelo de Melo Resende utilizou o arcabouço dramático de El Cid para compor Entre o Amor e a Espada. Rodolfo Coelho recriou Tereza Batista Cansada de Guerra com um enfoque moralista, diferente do romance de Jorge Amado. Mais fiel ao original foi Manoel D’Almeida Filho ao adaptar Gabriela Cravo e Canela, que mescla o romance à telenovela estrelada por Sônia Braga em 1976. Mais recentemente, Zé Maria de Fortaleza cordelizou Capitães de Areia, em versão resumida.

Cordel na estante

Depois da Biblioteca de Cordel da editora Hedra, outras iniciativas do meio editorial mostram que o cordel no século XXI, revigorado, alça novos vôos. Costa Senna, músico e poeta cearense, recontou seus passos na vida e na arte na antologia Caminhos Diversos: Sob os Signos do Cordel (Global, 2008). Valdeck de Garanhuns, poeta e mamulengueiro, recontou os Mitos e Lendas Brasileiros em Prosa e Verso (Moderna, 2007). Arievaldo Viana, cearense criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, em parceria com o ilustrador Jô Oliveira, lançou pela Cortez A Ambição de Macbeth e A Maldade Feminina, impressionante versão do drama de William Shakespeare. Klévisson Viana, seu irmão, trouxe para o cordel o Dom Quixote, de Cervantes, em edição luxuosa mas que mantém a essência da poesia popular. Diretor da Tupynaquim, editora de Fortaleza, Klévisson é também autor de uma memorável adaptação de Os Miseráveis, de Victor Hugo, lançado pela editora paulistana Nova Alexandria, como volume inaugural da Coleção Clássicos em Cordel. O Corcunda de Notre-Dame, outro clássico de Hugo, ganhou uma versão nordestina em recriação do poeta João Gomes de Sá, que transformou o célebre Quasímodo em Quasimudo, destacando a dificuldade de comunicação do protagonista. Para a mesma coleção foram adaptados dois clássicos de Machado de Assis: O Alienista (de Rouxinol do Rinaré) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (de Varneci Nascimento). Homenagem inusitada que marcou o centenário de morte do grande escritor.


Marco Haurélio, baiano de Riacho de Santana, é poeta popular e folclorista. Formado em Letras pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), é autor de Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, História da Moura Torta, Os Três Conselhos Sagrados, O Príncipe que Via Defeito em Tudo e A Megera Domada. É autor, também, de Contos Folclóricos Brasileiros. Profere palestras e ministra oficinas temáticas sobre cordel e folclore.

Nota: este artigo foi publicado, com um outro título, na revista Discutindo Literatura, n. 19, edição de agosto de 2008 (capa).